COLLEEN McCULLOUGH
A CANO DE TRIA
Traduo de
Jos Vieira de Lima
DIFEL Difuso Editorial SA.

#Captulo Primeiro
Narrado por Pramo
Nunca houve uma cidade como Tria. O jovem sacerdote Calcas, enviado  egpcia Tebas durante o seu noviciado, regressou indiferente s pirmides construdas ao longo
da margem ocidental do Rio da Vida. Tria, disse ele, era mais imponente, pois toda ela se erguia mais alto e os seus edifcios albergavam os vivos e no os mortos.
No entanto, acrescentou, havia uma circunstncia atenuante: os Egpcios possuam deuses inferiores. Os Egpcios tinham movido as suas pedras com mos mortais, ao
passo que as poderosas muralhas de Tria haviam sido erigidas pelos prprios deuses. Aplana Babilnia, disse ainda Calcas, tambm no podia competir com Tria, pois
tinha apenas a altura que era permitida pela lama do rio e as suas muralhas assemelhavam-se a uma obra de crianas.
No se lembra homem nenhum de quando foram construdas as nossas muralhas, pois isso sucedeu h j muito, muito tempo. Contudo, todos os homens conhecem a histria.
Drdano (filho do rei dos nossos deuses, Zeus) apossou-se da pennsula que existe na ponta extrema da sia Menor, onde, a norte, o mar Euxino derrama as suas guas
no mar Egeu, atravs do exguo estreito do Helesponto. Drdano dividiu este novo reino em duas partes. Deu a parte sul ao seu segundo filho, que chamou Dardnia
ao seu domnio e instalou a capital na cidade de Lirnesso. Embora mais pequena, a parte norte  muitssimo mais rica; foram-lhe conferidos a tutela sobre o Helesponto
e o direito de impor tributos a todos os mercadores que entrem ou saiam do mar Euxino. A esta parte chamamos Trada. A sua capital, Tria, ergue-se sobre o monte
do mesmo nome.
Zeus amava o seu filho mortal. Por isso, quando Drdano pediu ao seu divino pai que desse a Tria muralhas indestrutveis, foi com grande prazer que Zeus satisfez
o seu desejo. Por essa altura, havia dois deuses que no estavam nas boas graas de Zeus: Poseidon, senhor do mar, e Apolo, senhor da luz. Ordenou-lhes Zeus que
seguissem para Tria e construissem muralhas mais altas, mais grossas

#e mais fortes do que todas as outras. Era um trabalho muito pouco indicado para o delicado e enfastiado Apolo, que preferia pegar na sua lira a ficar todo sujo
e transpirado - uma maneira, explicou ele ao ingnuo Poseidon, de ajudar a passar o tempo enquanto as muralhas iam subindo. E foi assim que Poseidon empilhou pedras
atrs de pedras, enquanto Apolo lhe cantava as suas canes.
Poseidon, no entanto, no trabalhava de graa: com efeito, todos os anos, deveria ser depositada a soma de cem talentos de ouro no seu templo em Lirnesso.
O rei Drdano concordou; desde tempos imemoriais que os cem talentos de ouro so pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso. O problema  que, precisamente
na altura em que o meu pai, Laomedonte, subiu ao trono troiano, um terramoto devastador destruiu a Casa de Minos em Creta e arrasou o imprio da ilha de Tera. A
nossa muralha ocidental ruiu e o meu pai contratou o engenheiro grego aco para a reconstruir.
aco fez um bom trabalho, ainda que a nova muralha no tivesse nem as linhas suaves nem a beleza do resto da grandiosa cintura de pedra erigida pelos deuses.
O contrato com Poseidon (pelos vistos, Apolo no se dignou sequer pedir o seu salrio de msico), disse ento o meu pai, deixara de ter validade. As muralhas, afinal
de contas, no eram indestrutveis. Portanto, os cem talentos de ouro pagos todos os anos ao templo de Poseidon em Lirnesso no voltariam a ser pagos. Nunca mais.
Superficialmente, este argumento parecia vlido - s que os deuses sabiam, com toda a certeza, aquilo que eu, ento um rapaz, estava farto de saber: o rei Laomedonte
era um sovina incurvel e odiava ter de pagar o precioso ouro de Tria a um templo situado numa cidade rival que era governada por uma dinastia rival, apesar de
ligada  nossa pelo sangue.
Fosse qual fosse a verdadeira razo, o certo  que o ouro deixou de ser pago e nada de invulgar aconteceu durante aqueles anos em que eu, da criana que era, passei
ao homem que sou.
Quando o leo apareceu, a ningum passou pela cabea que um tal sucesso pudesse estar relacionado com deuses ofendidos ou com as muralhas da cidade.
Nas verdejantes plancies a sul de Tria, ficava a quinta onde o meu pai criava os seus cavalos, o nico prazer que ele se permitia - embora, para o rei Laomedonte,
at mesmo o prazer tivesse de dar lucro. Pouco tempo depois de aco, o Grego, ter concludo a construo da muralha ocidental, chegou a Tria um homem vindo de uma
terra longnqua - to longnqua que, dela, s sabamos que as suas montanhas suportavam o cu e que a sua erva era mais tenra e viosa do que todas as outras ervas
do mundo. O refugiado trazia consigo dez cavalos: trs garanhes e sete guas. Nunca tnhamos visto cavalos assim - corpulentos, velozes, graciosos, com abundantes
crinas e compridas caudas e bonitos focinhos, bem comportados e dceis. Esplndidos para puxarem bigas! No instante em que o rei os viu, o destino do estrangeiro
ficou traado: morreu. Quanto aos seus cavalos, passaram a ser propriedade privada do rei de Tria. O qual, graas a esses dez belos exemplares, criou uma raa to
famosa que mercadores de todo o mundo comearam a aparecer em Tria, desejosos de comprarem guas e machos castrados; sim, porque o meu pai era demasiado astuto
para cair no erro de lhes vender um garanho.
Pelo meio da quinta, passava um velho e sinistro caminho, outrora usado pelos lees que, no Vero, atravessavam a sia Menor rumo  Ctia, no norte, e que, no Inverno,
seguiam para sul, para a Cria e a Lcia, onde o sol conservava o poder de aquecer as suas fulvas peles. As caadas tinham-nos dizimado; o caminho dos lees transformara-se
num rego por onde corriam as guas de um riacho.
H seis anos, os camponeses acorreram ao palcio de meu pai, lvidos de medo. No esquecerei nunca a calma do rei, quando lhe disseram que trs das suas melhores
guas estavam mortas e que um garanho fora gravemente mutilado e que tudo fora obra de um leo.
Laomedonte no era, de seu natural, propenso a acessos de clera. Com uma voz rigorosamente controlada, ordenou a um destacamento dos Guardas Reais que se postasse
no caminho em causa na Primavera seguinte e que matasse o animal.
Mas no era um leo vulgar, aquele leo! Aparecia todos os Outonos e Primaveras, mas to furtivamente que ningum o via; e matava muito mais do que a sua barriga
precisava. Matava porque gostava de matar. Dois anos aps o seu aparecimento, os Guardas Reais surpreenderam-no a atacar um garanho. Avanaram para ele, batendo
com as espadas nos escudos, com o que pretendiam encost-lo a um canto a fim de poderem usar as suas lanas. Em vez disso, o leo rugiu o seu grito de guerra, correu
na direco dos soldados e passou por eles como um pedregulho deslizando por uma encosta. Os soldados dispersaram, mas o rei dos animais teve ainda tempo para matar
sete homens antes de seguir o seu caminho sem um nico arranho.
Deste desastre resultou uma coisa boa. Um homem dilacerado pelas garras do animal sobreviveu e foi contar aos sacerdotes, e em particular a Calcas, que o leo tinha
a marca de Poseidon; no seu plido flanco, via-se claramente o tridente negro do deus. Calcas consultou imediatamente o Orculo e anunciou que o leo pertencia a
Poseidon. Que nenhuma mo troiana tocasse no animal!, exclamou Calcas, pois este era um castigo infligido a Tria por se ter furtado ao pagamento dos cem talentos
anuais ao senhor dos mares. E mais: o leo s se iria embora quando Tria retomasse o devido pagamento.
De incio, o meu pai ignorou Calcas e o Orculo. No Outono seguinte, ordenou de novo aos Guardas Reais que matassem o leo. Mas Laomedonte tinha subestimado o medo
que todos os homens comuns tm aos deuses: mesmo quando

#ameaou os guardas com a morte, estes recusaram-se a obedecer. Furioso, mas decidido a no ceder, o meu pai informou Calcas de que se recusava a pagar ouro troiano
a Lirnesso - os sacerdotes que pensassem numa alternativa. Calcas voltou a consultar o Orculo, que anunciou, de uma forma muito clara, que havia realmente uma alternativa.
Se, todos os Outonos e Primaveras, seis raparigas virgens escolhidas  sorte fossem acorrentadas e deixadas nos campos onde os cavalos pastavam para que o leo delas
fizesse banquete, Poseidon ficaria satisfeito pelo menos por uns tempos.
Claro que o rei preferia dar virgens ao leo a perder ouro; e foi assim que o novo plano foi posto em prtica. O problema  que o meu pai nunca confiou efectivamente
nos sacerdotes nesta matria particular, no por ser um homem sacrlego - dava aos deuses aquilo que achava que os deuses tinham direito -, mas porque detestava
que outras pessoas ficassem com o ouro que, afinal, era s dele. Assim, todos os Outonos e Primaveras, todas as virgens de Tria, meninas de no mais do que quinze
anos, eram cobertas da cabea aos ps com um pesado manto branco, de molde a que no fosse possvel identific-las, e levadas para o ptio de Poseidon, o Construtor
de Muralhas, onde os sacerdotes escolhiam seis daqueles embrulhos to brancos quanto annimos para o sacrifcio.
A manobra resultou. Duas vezes ao ano, o leo passava pelo seu caminho, matava as raparigas acorrentadas e deixava os cavalos inclumes. Para o rei Laomedonte, era
um preo insignificante a pagar para que nem o seu orgulho, nem o seu comrcio, sassem molestados.
H apenas quatro dias, foram escolhidas as seis virgens deste Outono. Cinco delas eram raparigas da cidade; a sexta era da cidadela, o palcio real. A mais amada
das filhas do meu pai, Hesona. Quando Calcas surgiu com a triste notcia, o rei nem queria acreditar.
- O qu? Ento tu foste idiota ao ponto de no deixares nenhuma marca no manto dela? - replicou o meu pai. - A minha filha - a minha filha! - tratada do mesmo modo
que todas as outras raparigas da cidade?
- Limito-me a obedecer s ordens de Poseidon - retorquiu calmamente Calcas.
- No! Poseidon no ordenou que a minha filha fosse escolhida! O que ele ordenou foi que lhe dessem seis raparigas virgens - foi isso, apenas isso! Por isso, Calcas,
trata de escolher outra vtima!
- No posso, Grande Rei. E no havia maneira de convencer Calcas do contrrio. Uma mo divina presidia  escolha: portanto, se Hesona fora escolhida, s ela poderia
satisfazer os termos do contrato.
Ainda que nenhum membro da corte tivesse assistido a este tenso e irado encontro, o certo  que, ao fim de pouco tempo, as novidades corriam j imparveis pela cidadela.
Bajuladores como Antenor condenavam energicamente o sacerdote, ao passo que os muitos filhos do rei - incluindo eu, o seu herdeiro - pensavam que Laomedonte teria
finalmente de ceder e de pagar a Poseidon os cem talentos de ouro anuais. No dia seguinte, o rei convocou o seu Conselho. Participei, evidentemente, na reunio;
o herdeiro tem de estar presente sempre que o rei toma uma deciso.
O rei Laomedonte parecia calmo; no havia nele nada que denunciasse a agitao que dentro dele fervia. Era um homem pequeno, o meu pai, j longe do vigor da juventude;
eram da cor da prata os seus longos cabelos e da cor do ouro o comprido manto. A sua voz sempre nos surpreendeu; agora, era com uma voz grave, nobre, meldica, forte,
que se dirigia aos seus conselheiros.
- A minha filha Hesona - disse ele aos filhos, primos direitos e primos mais afastados - concordou em submeter-se ao sacrifcio. Obedece assim  vontade do deus.
Talvez Antenor tivesse adivinhado o que o rei iria dizer a seguir; eu no adivinhei, e os meus irmos tambm no.
- Meu pai! - exclamei, sem conseguir controlar-me. - No podes permitir que isso acontea! Qando Tria vive tempos difceis, o rei pode sacrificar-se para salvar
o seu povo, mas as suas filhas viirgens pertencem  virgem rtemis e no a Poseidon!
O meu pai pouco se preocupava com o facto de o seu filho mais velho o repreender diante de toda a corte; os seus lbios franziram-se, o seu peito inchou, e logo
veio a resposta:
- A minha filha foi escolhida, Pramo Podarkesl! Escolhida por Poseidon!
- Poseidon ficaria mais contente - repliquei, furioso - se pagasses os cem talentos de ouro ao templo de Lirnesso.
Nesse preciso momento, dei-me conta do sorriso satisfeito de Antenor. Ah, o que ele adorava as desavenas entre o rei e o seu herdeiro!
- Recuso-me - disse o rei Laomedonte - a pagar ouro que tanto nos custou a obter, a um deus que no conseguiu construir uma muralha capaz de resistir a um dos seus
prprios terramotos!
- No podes condenar Hesona  morte!
- Eu no estou a conden-la  morte! A deciso foi de Poseidon!
O sacerdote Calcas mexeu-se um nada para logo ficar quieto.
- Um homem mortal como tu - disse eu - no deveria responsabilizar os deuses pelas suas prprias fraquezas!
Nota do tradutor: Podarkes  um termo do Grego antigo que significa de ps ligeiros, veloz.

#- Ests a dizer que eu tenho... fraquezas?
- Todos os homens mortais as tm - respondi. -At mesmo o rei da Trada!
- Podes retirar-te, Pramo Podarkes! Desaparece! Quem sabe? Pode ser que, no prximo ano, Poseidon exija que os herdeiros ao trono se submetam ao sacrifcio!
Antenor continuava a sorrir. Obedeci a meu pai; sa e procurei consolo na cidade e no vento.
Um vento frio e hmido vindo do distante pico do monte Ida esfriou a minha raiva, enquanto atravessava o ptio lajeado  sada da Sala do Trono, a caminho dos degraus
- duzentos, ao todo - que conduzem ao ponto mais alto da cidadela. A, muito acima da distante plancie, cravei as minhas mos em pedras que homens haviam moldado;
sim, porque a cidadela no fora construda pelos deuses, mas sim pelos homens de Drdano. Aqueles ossos da Me Terra, cuidadosamente trabalhados por mos humanas,
como que penetraram no mais ntimo do meu ser; com efeito, senti, nesse preciso instante, todo o poder que ao rei era inerente. Quantos anos, perguntei-me, quantos
anos teria ainda de esperar at poder usar a tiara de ouro e sentar-me na cadeira de marfim que era o trono de Tria? Os homens da Casa de Drdano costumavam morrer
muito velhos e Laomedonte no chegara ainda aos setenta.
Durante um longo tempo, observei o vaivm constante de homens e mulheres l em baixo na cidade; depois, os meus olhos procuraram paragens mais distantes, as verdejantes
plancies onde os preciosos cavalos do rei Laomedonte esticavam os seus longos pescoos para se alimentarem das tenras ervas. Mas essa era uma viso que contribua
apenas para agravar o meu sofrimento. Olhei ento para oeste, para a ilha de Tnedo, e para o fumo das fogueiras com que os habitantes da pequena aldeia porturia
de Sigeu combatiam o frio. Para norte, as guas azuis do Helesponto imitavam o cu; vi a longa curva acinzentada da praia, entre os esturios dos rios Escamandro
e Simoente, os dois rios que irrigavam a Trada e alimentavam os campos de trigo e cevada que ondulavam ao sabor de um vento que nunca se cansava de zumbir.
Por fim, o vento fez-me regressar ao grande ptio diante da entrada dos palcios, onde esperei que um criado me trouxesse o meu carro.
- Para a cidade - disse eu para o condutor. - Deixa que os cavalos te conduzam.
A estrada principal descia da cidadela para se juntar  curva da avenida que corria  volta das muralhas da cidade. As muralhas construdas por Poseidon. Na juno
das duas ruas, erguia-se uma das trs portas das muralhas, a Porta Ceia. No me lembrava de alguma vez a ver fechada; dizia-se que isso s aconteceria em tempos
de guerra e no havia no mundo uma nao que fosse forte o bastante para declarar guerra a Tria.
A Porta Ceia tinha uma altura de vinte cbitos e era feita de enormes toros de madeira unidos uns aos outros com pregos e chapas de bronze; to pesada era que nem
as maiores dobradias do mundo poderiam mov-la. A Porta Ceia abria-se segundo um princpio que teria sido concebido pelo archeiro Apolo, enquanto descansava ao
sol vendo Poseidon trabalhar. O fundo da porta assentava numa grande pedra redonda inserida numa cova funda e curva e envolvida por macias correntes de bronze.
Se a porta tivesse de ser fechada, trinta bois atrelados s correntes puxariam lentamente a porta, pois a enorme pedra redonda s assim giraria no fundo da sua cova.
Em menino, desejoso de assistir a um tal espectculo, suplicara ao meu pai que mandasse atrelar os bois s correntes da pedra. O meu pai rira-se e recusara.
No entanto, agora, ali estava eu, um homem de quarenta anos, marido de dez esposas e possuidor de cinquenta concubinas, desejoso ainda de ver a Porta Ceia fechar-se.
Por sobre a porta, um arco ligava as muralhas, permitindo assim que no houvesse nenhuma interrupo no caminho que, no topo das muralhas, percorria todo o permetro
da cidade. A Praa Ceia permanecia permanentemente na sombra, graas quelas fantsticas muralhas de construo divina; estas erguiam-se a uma altura de trinta cbitos
acima de mim, suaves e elegantes, brilhantes quando
o sol as banhava.
Acenei para que o condutor seguisse em frente, mas, antes que ele pudesse dar
o necessrio movimento s rdeas, mudei de ideias e mandei-o parar. Um grupo de homens entrara pela Porta Ceia e encontrava-se agora na praa. Gregos. Isso era manifesto
nos seus modos e vesturio. Usavam saiotes de cabedal ou cales tambm de cabedal, muito justos, que iam at ao joelho; alguns estavam nus da cintura para cima
e outros envergavam blusas de cabedal abertas, deixando a descoberto o peito. No faltavam os adornos na sua indumentria; algumas peas de roupa eram enfeitadas
com desenhos a ouro, outras com borlas ou fitas de cabedal tingido; as suas cinturas eram estreitadas por amplos cintos de ouro e bronze cravejado de lpis-lazli;
contas de cristal polido pendiam dos lbulos das suas orelhas; cada pescoo era cingido por um grande colar incrustado de pedras preciosas; e as suas cabeleiras,
muito compridas, caam livres em caracis cuidadosamente moldados.
Os Gregos eram mais altos e mais esbeltos do que os Troianos, mas aqueles Gregos eram mais altos e mais esbeltos e tinham um ar mais violento e perigoso do que todos
os homens que vi na minha vida. S a riqueza das suas roupas e armas me permitiu concluir que no eram vulgares bandidos, j que traziam consigo lanas e espadas.

# sua frente, seguia um homem que era seguramente uma criatura nica: um gigante que suplantava em estatura todos os outros membros do grupo. Devia ter seis cbitos
de altura e tinha uns ombros que mais pareciam montanhas negras. Negra como breu e pontiaguda, uma barba cobria o seu queixo poderoso e saliente, e o seu cabelo
negro, embora cortado curto, erguia-se desgrenhado sobre a testa que se projectava sobre as rbitas como se fosse um toldo. A sua nica pea de roupa era uma enorme
pele de leo sustentada por uma ala sobre o ombro esquerdo e que descaa depois sob o brao direito; a cabea do leo era como um capuz que trazia s costas, com
a temvel bocarra aberta, exibindo as poderosas presas.
O gigante virou-se e surpreendeu-me a olhar para ele. Subjugado, olhei-o nos olhos, uns olhos to grandes quanto serenos - uns olhos que j tinham visto tudo, suportado
tudo, vivido todas as degradaes que os deuses poderiam impor a um homem. Olhos que faiscavam de inteligncia. Senti-me mentalmente encostado  parede da casa que
estava atrs de mim, o meu esprito completamente posto a nu, a minha mente um brinquedo nas mos dele.
Apesar disso, consegui incutir algum vigor  minha dbil coragem e, enchendo-me de brios, recompus-me do choque e assumi uma postura to direita quanto possvel;
afinal de contas, era eu quem possua um ttulo grandioso, mais aquele carro ornamentado a ouro, mais aqueles cavalos brancos, melhores do que todos os que ele jamais
vira. Afinal de contas, era eu o herdeiro deste reino, o mais poderoso de todos os reinos do mundo.
O gigante avanou por entre o tumulto da praa do mercado como se no houvesse tumulto nenhum e veio direito a mim com dois dos seus companheiros imediatamente atrs;
ento, com uma mo do tamanho de um presunto, afagou delicadamente os focinhos negros dos meus cavalos brancos.
- Diz-me: tu s do palcio? Da Casa Real? - perguntou-me ele com uma voz ressoante, ainda que sem sombra de arrogncia.
- Eu sou Pramo Podarkes, filho e herdeiro de Laomedonte, rei de Tria respondi.
- Eu sou Hracles - disse ele. Fitei-o boquiaberto. Hracles! Hracles estava em Tria! Molhei os lbios secos.
-  uma grande honra para Tria poder receber-te, Hracles. Gostaria de te convidar para casa de meu pai Havia uma doura surpreendente no seu sorriso.
- Agradeo-te muito, prncipe. O convite inclui todos os meus homens?
Todos eles pertencem a casas nobres gregas: no envergonharo a tua corte, nem me deixaro envergonhado a mim.
- Claro, Hracles. Acenou para os dois homens que estavam na sua sombra, um sinal de que deveriam avanar.
- Posso apresentar-te os meus amigos? Este  Teseu, rei supremo da tica, e este  Tlamon, filho de aco, rei de Salamina.
Engoli em seco. O mundo inteiro conhecia Hracles e Teseu; os bardos cantavam incessantemente os seus feitos. aco, o pai do adolescente Tlamon, reconstrura a
nossa muralha ocidental. Quantos outros nomes famosos haveria naquele pequeno grupo de Gregos?
Tal era o poder daquele nome que at mesmo o avarento do meu pai decidiu abrir os cordes  bolsa e oferecer ao famoso Hracles uma rgia recepo. Assim, naquela
mesma noite, o rei Laomedonte deu um banquete em honra de Hracles no salo do palcio, com muitas e variadas iguarias e bebidas servidas em baixela de ouro e com
harpistas, bailarinas e acrobatas para entreter os convidados. Se eu sentira um temor reverente ao ver Hracles, tambm o meu pai experimentava agora esse sentimento;
todos os gregos que faziam parte do grupo de Hracles eram reis pelos seus prprios mritos. Assim sendo, perguntei-me por que razo aceitavam seguir um homem que
no reivindicava nenhum trono? Um homem que limpara estbulos? Que fora arranhado, mordido, dilacerado por todo o tipo de animais, desde o mosquito ao leo?
Sentei-me na mesa rgia com Hracles  minha esquerda e Tlamon  minha direita; o meu pai ficou sentado entre Hracles e Teseu. Embora a iminncia da morte sacrificial
de Hesona ensombrasse a nossa hospitalidade, ocultvamos to bem esse facto que disse para mim mesmo que os nossos convidados gregos no tinham dado por nada. A
conversa flua ligeira e fcil, pois eles eram homens cultivados, adequadamente instrudos em tudo, desde a aritmtica mental s palavras dos poetas que, como ns,
sabiam de cor. Restava saber uma coisa - por debaixo dessa capa, que gnero de homens eram os Gregos?
Eram poucos os contactos entre as naes da Grcia e as naes da sia Menor, entre as quais Tria. De uma maneira geral, ns, os que vivamos na sia Menor, pouca
importncia dvamos aos Gregos. Eram homens notoriamente sinuosos, famosos pela sua curiosidade insacivel - isso sabamos ns; mas aqueles homens que estavam connosco
deviam ser os melhores de entre os Gregos, j que os Gregos escolhiam os seus reis por razes estranhas ao sangue.
O meu pai, em particular, no atribua importncia nenhuma aos Gregos. Nos ltimos anos, tinha firmado tratados com os diversos reinos da sia Menor, dando-lhes
a maior parte do comrcio entre o Euxino e os mares Egeus, o que significava que havia restringido severamente o nmero de navios mercantes gregos

#autorizados a passar pelo Helesponto. A Msia e a Ldia, a Dardnia e a Cria, a Lcia e a Cilcia, no queriam partilhar o comrcio com os Gregos, e por uma razo
muito simples: de algum modo, os Gregos superavam-nos sempre, os Gregos obtinham sempre os melhores negcios, E o meu pai cumpriu a sua parte, mantendo os mercadores
gregos o mais longe possvel das guas negras do Euxino. Todas as esmeraldas e safiras, todos os rubis, todo o ouro e prata da Clquida e da Ctia iam para as naes
da sia Menor; os poucos mercadores gregos que haviam recebido a necessria autorizao do meu pai tinham de concentrar os seus esforos no estanho e no cobre da
Ctia.
No entanto, Hracles e os seus companheiros eram criaturas demasiado bem educadas para se porem a discutir temas to controversos como embargos comerciais. Limitaram
a sua conversa a observaes elogiosas sobre a nossa cidade e as suas imponentes muralhas, sobre o tamanho da cidadela e a beleza das nossas mulheres - embora, no
que tocava a mulheres, apenas conhecessem as escravas que iam de mesa em mesa, servindo guisados, distribuindo pes e carnes vrias, enchendo de vinho as taas.
Como seria de esperar, ao tema das mulheres seguiu-se o dos cavalos; aguardei que Hracles abordasse o assunto, pois vira aqueles seus astutos olhos negros apreciando
a qualidade dos meus cavalos brancos.
- Os cavalos que puxavam o carro do teu filho eram verdadeiramente magnficos - disse finalmente Hracles. - Nem mesmo a Tesslia se pode gabar de possuir uma to
bela raa. Diz-me, Laomedonte, tens por hbito vender alguns daqueles belos espcimes?
Na expresso do meu pai, notaram-se imediatamente os traos da avareza.
- Siin, so de facto animais encantadores e  verdade que vendo alguns - mas temo que consideres o preo proibitivo. Costumo pedir mil talentos de ouro por uma boa
gua.
Hracles ps uma expresso pesarosa e encolheu os portentosos ombros.
- Talvez pudesse pagar-te esse preo, rei Laomedonte, mas, neste momento, tenho de comprar coisas mais importantes. O dinheiro que pedes  uma verdadeira fortuna.
E no voltou a falar de cavalos.
 medida que a tarde foi avanando e a luz declinando, o meu pai comeou a ficar cada vez mais triste, pois no conseguia esquecer-se de que, no dia seguinte, a
sua filha seria conduzida aos braos da morte. Vendo-o assim, Hracles ps a mo no brao do meu pai, tentando consol-lo.
- Diz-me, rei Laomedonte, o que te preocupa?
- Nada, meu amigo, nada.
Hracles fitou-o com aquele seu sorriso, to estranhamente doce.
- Grande rei Laomedonte, o que eu leio nos teus olhos  preocupao. Conta-me tudo, peo-te.
E logo a histria foi contada, ainda que o meu pai, como seria de esperar, desse de si mesmo uma imagem que no correspondia  realidade: todos os anos o seu reino
era vtima de um leo que pertencia a Poseidon, os sacerdotes haviam ordenado o sacrifcio de seis donzelas todos os Outonos e Primaveras, e, entre as escolhidas
deste Outono, contava-se a filha que, entre todos os seus rebentos, ele mais amava - Hesona.
Hracles escutou toda a histria com um ar pensativo. Por fim, perguntou ao meu pai:
- Que disseram os sacerdotes? Que nenhuma mo troiana poder erguer-se contra o animal? Foi isso, no foi?
Os olhos do rei brilharam.
-  Precisamente, Hracles: nenhuma mo troiana.
- Nesse caso, os sacerdotes no se podem opor a que uma mo estrangeira se erga contra o leo... No  verdade, rei Laomedonte?
- Sim,  uma concluso lgica, Hracles. Hracles olhou de relance para Teseu.
- Eu j matei muitos lees - disse -, incluindo o de Nemeia, cuja pele envergo.
O meu pai rompeu a chorar.
- Oh, Hracles, livra-nos desta maldio! Se o fizeres, ficaremos eternamente em dvida para contigo. Falo, no s em meu nome, mas em nome de todos os Troianos,
que j perderam trinta e seis filhas para darem de comer ao leo.
Aguardei a resposta de Hracles, numa deleitosa expectativa; o gigante seria tudo menos idiota: no se ofereceria para lutar contra um leo enviado por um deus,
sem pedir em troca alguma recompensa...
- Rei Laomedonte - disse o gigante grego suficientemente alto para que todas as cabeas se virassem para ele -, proponho-te um contrato: eu mato o leo e, em troca,
tu ds-me dois dos teus cavalos, um garanho e uma gua.
Que podia o meu pai fazer? Praticamente encostado  parede, devido  natureza pblica da proposta, o rei no tinha outra possibilidade seno concordar com o preo;
se no concordasse, toda a corte - os seus parentes prximos e afastados - criticaria o seu desapiedado egosmo. Acedeu, por isso, conseguindo mesmo imitar uma expresso
alegre.
- Se conseguires matar o leo, Hracles, dar-te-ei aquilo que pedes. -Assim seja - disse Hracles, aps o que, de sbito, ficou muito quieto, como que ausente: os
seus grandes olhos pareciam no ver; nem pestanejavam,

#nem viam o que se passava  sua volta. Por fim, com um suspiro, pareceu regressar  terra. Olhou, no para o rei, mas para Teseu.
- Iremos amanh, Teseu. O meu pai diz que o leo aparecer ao meio-dia. Mesmo os outros gregos que estavam  mesa ficaram assombrados com to estranho transe.
Com os delicados pulsos vergados ao peso das correntes, os tornozelos presos com grilhetas de ouro, vestidas com os seus mais belos trajes e com o cabelo primorosamente
encaracolado e os olhos pintados, as seis raparigas esperavam que os sacerdotes chegassem ao ptio defronte do templo de Poseidon, o Construtor de Muralhas. Hesona,
a minha meia-irm, estava entre elas, calma e resignada, embora um ligeiro tremor num dos cantos da sua meiga boca, trasse o medo que lhe ia na alma. Ressoavam
no ptio o pranto e os lamentos de pais e parentes, o tinido das pesadas grilhetas, a respirao ofegante das seis aterrorizadas donzelas. Fiquei apenas o tempo
suficiente para dar um beijo a Hesona; depois, fui-me embora. Hesona nada sabia da tentativa que Hracles ia fazer para a salvar.
No lhe disse nada talvez porque, mesmo ento, suspeitava que no nos veramos livres da maldio to facilmente - que, se Hracles matasse realmente o leo, Poseidon,
o Senhor dos Mares, seria muito capaz de inventar algo de pior. As minhas apreenses dissiparam-se enquanto corria na direco da pequena porta nas traseiras da
cidadela onde Hracles reunira o seu grupo. O gigante escolhera apenas dois ajudantes para a caada: o venervel guerreiro Teseu e o jovem Tlamon. No ltimo momento,
demorou-se a falar com um outro membro do grupo, o rei Pertoo dos Lpitas; consegui ouvi-lo dizer a Pertoo que levasse todos os homens para a Porta Ceia por volta
do meio-dia e que esperasse a por ele. Hracles estava com pressa de partir, o que era compreensvel; os gregos queriam chegar antes do Inverno aos domnios das
Amazonas, onde pretendiam roubar a cinta da rainha Hiplita.
Depois daquele transe extraordinrio ocorrido na noite anterior, no salo do palcio, ningum punha em causa a convico de Hracles de que o leo apareceria naquele
dia - embora o leo nunca tivesse passado to cedo pelas nossas terras. Mas Hracles sabia. Ele era filho do Senhor de Tudo, Zeus.
Eu tinha quatro irmos germanos, todos eles mais novos do que eu: Titono, Clcio, Lampo e Hiceton. Acompanhmos Hracles integrados na escolta do nosso pai e chegmos
ao local escolhido antes de os sacerdotes aparecerem com as donzelas. Hracles tratou imediatamente de inspeccionar o terreno; por fim, voltou para junto de ns
e indicou a posio que ocuparia tendo em vista o ataque, determinando que Tlamon empunharia o arco e Teseu a lana. A arma dele seria uma maa enorme.
Enquanto subamos ao alto de um outeiro mais protegido, por causa do vento e tambm porque da se via melhor, o nosso pai permaneceu no caminho  espera dos sacerdotes,
visto que aquele seria o primeiro dia do sacrifcio. Por vezes, as pobres raparigas eram obrigadas a esperar muitos dias, presas s suas grilhetas de ouro, tendo
por cama o cho e por alimento a pouca comida que uns quantos jovens sacerdotes, cheios de medo, lhes levavam.
O Sol ia j alto quando surgiu o cortejo que sara do santurio de Poseidon, Construtor de Muralhas. Os sacerdotes no permitiam que as lacrimosas raparigas parassem,
empurrando-as constantemente; ao mesmo tempo, entoavam os seus cnticos rituais e batiam em minsculos tambores com minsculas baquetas amortecidas. Por fim,  sombra
de um olmo, enterraram no cho grossas estacas a que prenderam as correntes, e desapareceram com a celeridade que a dignidade permitia. Quanto ao meu pai, subiu
a toda a pressa a encosta na direco do nosso esconderijo. Instalmo-nos na relva e espermos.
Por um bocado, observei indolentemente tudo o que se passava l em baixo, pois no contava que acontecesse alguma coisa antes do meio-dia. De sbito, o jovem Tlamon
saiu do seu esconderijo e correu como uma seta na direco do local onde as raparigas se tinham agachado, debatendo-se com as suas correntes.
Ouvi o meu pai murmurar qualquer coisa acerca do atrevimento dos gregos no preciso momento em que o rapaz abraou a minha meia-irm e encostou a cabea dela ao seu
peito bronzeado e nu. Hesona era uma bela rapariga, bela o bastante para atrair as atenes da maior parte dos homens: mas era uma loucura correr para ao p dela
quando o leo podia aparecer a qualquer momento! Perguntei-me se Tlamon teria agido com a autorizao de Hracles.
As mos de Hesona agarravam-se desesperadamente aos braos dele; Tlamon baixou a cabea para lhe murmurar qualquer coisa ao ouvido, depois beijou-a demorada e
apaixonadamente, como nenhum homem fora autorizado a beij-la em toda a sua curta vida. Por fim, secou-lhe as lgrimas com a mo e correu, despreocupadamente, para
o stio que Hracles lhe reservara. Conseguimos ouvir as risadas dos trs gregos; fiquei a tremer de raiva. O sacrifcio era sagrado! E, no entanto, aqueles homens
atreviam-se a rir-se! Porm, quando voltei a olhar para Hesona, constatei que ela havia perdido todo o medo, que se erguera do cho cheia de orgulho e que os seus
olhos brilhavam - e tal era o seu brilho que eu, to distante dela, podia v-lo.
A hilariedade dos gregos manteve-se at ao fim da manh; ento, de um momento para o outro, calaram-se. Tudo o que ouvamos era o inquieto vento troiano, soprando
incessantemente.
Uma mo tocou-me no ombro. Pensando que o leo tinha aparecido, virei-me num pice, o corao batendo desordenadamente. Mas era apenas Tissanes,

#um criado do palcio que trabalhava para mim. Inclinou a cabea para me segredar:
-  A princesa Hcuba pede a sua comparncia, senhor. A criana est prestes a nascer e as parteiras dizem que a vida da princesa est presa por um fio.
Porque  que as mulheres escolhiam sempre o momento errado? Acenei a Tissanes para que se sentasse e estivesse quieto e calado e virei-me a fim de me concentrar
no caminho: mais exactamente num stio em que, aps uma pequena elevao, surgia uma cova. Os pssaros tinham deixado de cantar e de se chamar uns aos outros. O
vento parara. Um calafrio percorreu-me todo o corpo.
O leo comeou a subir tranquilamente a pequena elevao. Em toda a minha vida, nunca vira um animal to grande. Tinha uma pele castanho-clara, uma imensa juba negra
e uma cauda que terminava numa espessa felpa igualmente negra. No flanco direito, l estava a marca de Poseidon, o tridente. Quando ia a meio da descida, e j perto
do local onde se encontrava Hracles, o leo parou, com uma das patas erguida, a cabeorra bem alta, a cauda aoitando o ar, as narinas muito abertas. Ento, viu
as suas vtimas paralisadas de terror; a perspectiva de um belo banquete levou-o a tomar a deciso que tomou. Baixou a cauda, convocou toda a fora dos seus msculos
e avanou na direco das raparigas a uma velocidade cada vez maior. Uma das donzelas deu um grito agudo e penetrante. A minha irm resmungou qualquer coisa e a
jovem calou-se.
Hracles ergueu-se da relva, um gigante vestido com uma pele de leo, a maa suspensa da sua mo direita. O leo parou, a bocarra aberta revelando os dentes amarelecidos.
Hracles agitou a maa e soltou um rugido de desafio no momento em que o leo saltou. Mas Hracles saltou tambm, evitando a temvel investida das garras e batendo
com tal fora na barriga tufada de negro do animal que este, num pice, perdeu o equilbrio. Os quadris do leo recuaram, mas uma garra ergueu-se para golpear o
homem; contudo, nesse mesmo momento, a maa atingiu-O em cheio. Ouviu-se um horrendo rudo de esmagamento quando a arma entrou em contacto com o crnio do animal;
a garra vacilou e o homem desviou-se. De novo a maa atingiu o crnio do animal: o segundo rudo foi mais suave do que o primeiro, pois o crnio estava j dilacerado.
Mas aquilo nem fora um combate! O leo jazia j no caminho, a juba negra fumegando do sangue quente que escorria.
Enquanto Teseu e Tlamon danavam e davam vivas, Hracles pegou na sua faca e cortou a garganta do animal. O meu pai e os meus irmos comearam a descer a encosta
a toda a pressa, na direco dos radiantes gregos, com o meu criado Tissanes avanando furtivamente na sua esteira, ao passo que eu segui na direco contrria,
rumo  minha casa. Hcuba, a minha esposa, ia dar  luz e a sua vida corria perigo.
As mulheres no eram importantes. A morte de parto era comum entre a nobreza e eu tinha mais nove esposas e cinquenta concubinas, para alm de uma centena de filhos.
No entanto, Hcuba era a mulher que eu mais amava; ela seria a minha rainha quando eu subisse ao trono. O filho, pouco contava. Mas que iria eu fazer se ela morresse?
Sim, Hcuba era importante para mim, apesar de ser originria da Dardnia e de ter levado o seu irmo, Antenor, para Tria.
Quando cheguei ao palcio, Hcuba estava ainda em trabalho de parto; como nenhum homem podia ter acesso aos mistrios das mulheres, passei o resto do dia a tratar
dos meus assuntos, ou melhor, das tarefas que o rei desdenhava executar.
Ao anoitecer, comecei a sentir-me inquieto, pois o meu pai no me contactara e eu no ouvira ainda nenhum grito de alegria no interior dos majestosos palcios que
encimavam a colina de Tria. Aos meus ouvidos no chegara ainda nenhuma voz: nem grega, nem troiana. Apenas silncio. Muito estranho.
- Prncipe! Prncipe! Era o meu criado. Estava lvido, os olhos esbugalhados de terror, tremia incontrolavelmente.
- Que aconteceu? - perguntei, lembrando-me de que ele ficara na quinta de meu pai para ver o leo.
Tissanes caiu de joelhos e as suas mos prenderam-se aos meus tornozelos.
- Prncipe, s h instantes me atrevi a mexer-me! Depois... depois corri! No falei com ningum, vim direito ao palcio!
- Levanta-te, homem! Levanta-te e conta-me tudo!
- Prncipe, o seu pai, o rei, est morto! Os seus irmos esto mortos! Todos morreram!
Uma imensa calma invadiu-me nesse instante. Finalmente era rei.
- Os Gregos tambm?
- No, prncipe! Os gregos mataram-nos!
Fala devagar, Tissanes, e conta-me o que aconteceu. Hracles ficou muito contente com o seu feito. Ria-se e cantava enquanto esfolava o leo, ao passo que Teseu
e Tlamon tratavam das raparigas, libertando-as das correntes. Logo que a pele do leo foi estendida para secar, Hracles pediu ao rei que o acompanhasse s suas
cavalarias. Queria escolher imediatamente o garanho e a gua que lhe tinham sido prometidos, porque estava com muita pressa. - Tissanes parou, molhou os lbios
secos.
- Continua.
- O rei ficou furioso. Negou que tivesse prometido o que quer que fosse. O leo, disse, no passara de um passatempo. Hracles matara-o por desporto. Hracles e
os outros dois ficaram to furiosos como o rei, mas o rei no estava disposto a ceder.

#Ah, o meu pai, o meu pai! No dar a um deus como Poseidon o que lhe  devido  uma coisa - as represlias dos deuses so lentas e ponderadas. Mas Hracles e Teseu
no eram deuses. Eram heris - e os heris so muito mais perigosos e muito mais rpidos.
- Teseu estava lvido - prosseguiu o meu criado. - Cuspiu para o cho, na direco dos ps do rei, e chamou-lhe ladro e mentiroso. O prncipe Titono pegou na espada,
mas Hracles meteu-se de permeio e dirigiu-se de novo ao rei. Pediu-lhe que capitulasse, que procedesse ao pagamento que havia sido acordado.
O rei respondeu que no permitiria que um bando de vis mercenrios gregos o roubassem. Nesse mesmo instante, reparou que Tlamon pusera o brao  volta da cintura
da princesa Hesona. Avanou para eles e esbofeteou Tlamon. A princesa desatou a chorar - o rei esbofeteou-a tambm. Quanto ao resto, prncipe...  tudo to horrvel
.. ! - O meu criado limpou o suor do rosto com a mo.
- Faz um esforo, Tissanes. Conta-me o que viste.
- Hracles, de sbito, pareceu ficar to grande como um auroque. Pegou na sua maa e, com um s golpe, deitou por terra o rei. O prncipe Titono tentou apunhalar
Teseu, mas foi logo trespassado pela lana de Teseu. Tlamon pegou no seu arco e matou o prncipe Lampo. Por fim, Hracles pegou em peso no prncipe Clcio e no
prncipe Hicetan e, batendo com as cabeas de ambos uma na outra, esmagou-as como se fossem amoras.
- E onde estavas tu enquanto tudo isso se passava, Tissanes?
- Eu... eu escondi-me, prncipe - disse o homem, de cabea baixa.
- Bom, tu s um escravo e no um guerreiro. Prossegue.
- Os gregos pareciam ter cado em si... Hracles pegou na pele do leo e disse que j no tinham tempo para irem buscar os cavalos e que teriam de partir imediatamente.
Teseu apontou para a princesa Hesona e disse que, se no levavam os cavalos, ento teriam de levar a jovem. Poderiam d-la a Tlamon, pois o rapaz estava enamorado
dela e, desse modo, a honra grega no sairia molestada. Partiram imediatamente, rumo  Porta Ceia
- Afastaram-se j das nossas praias?
- Tratei de me informar a meio do caminho, prncipe. O guarda da Porta Ceia disse-me que a tarde mal comeara quando Hracles apareceu. Mas no viu Teseu, nem Tlamon,
nem a princesa Hesona. Todos os gregos seguiram pela estrada que vai at Sigeu, onde se encontrava o seu navio.
- E as outras raparigas? Tissanes baixou de novo a cabea.
- No sei, prncipe. A nica coisa em que pensei foi em dar-lhe a notcia o mais depressa possvel.
Essa  boa, Tissanes! Tu estiveste escondido at ao crepsculo porque estavas cheio de medo! Vai ter com o chefe da casa do meu pai e diz-lhe que procure as raparigas.
E que traga tambm os cadveres de meu pai e dos meus irmos. Conta-lhe tudo o que me contaste e ordena, em meu nome, que se faa tudo o que for necessrio. Podes
retirar-te, Tissanes.
Hracles limitara-se a pedir dois cavalos! Dois cavalos! No haveria no mundo remdio para a cobia? No haveria na mente humana um mecanismo qualquer pelo qual
a prudncia obrigasse  generosidade? Ah, se ao menos Hracles tivesse esperado! Poderia ter apelado para a corte - todos ns ouvramos a promessa de meu pai. Hracles
acabaria por receber aquilo a que tinha direito.
Em vez disso, a ira e a cobia haviam triunfado. E eu - eu era rei de Tria. Esquecida Hcuba, dirigi-me ao salo principal do palcio e bati no gongo, convocando
assim a assembleia da corte.
Desejosos de conhecerem o resultado do combate com o leo - e irritados por causa da hora tardia - vieram todos num instante. No chegara ainda o momento de me sentar
no trono; mantive-me de p ao lado dele e fitei o pequeno mar de rostos curiosos: rostos que pertenciam aos meus meios-irmos, aos meus primos de todos os graus,
 alta nobreza que s pelo casamento se unira a ns. O meu cunhado Antenor estava presente, os olhos bem alerta. Acenei-lhe para que se aproximasse, aps o que bati
com o meu basto no cho de lajes vermelhas.
- Nobres de Tria, o leo de Poseidon foi morto por Hracles, o Grego, anunciei.
Antenor olhava-me de esguelha, intrigado. Sendo ele da Dardnia, no poderia ser amigo de Tria. No entanto, Antenor era tambm irmo de Hcuba e, por causa dela,
eu tolerava a sua presena.
- Deixei o local nesse momento, mas o meu criado ficou. Regressou h pouco e contou-me que os trs gregos tinham assassinado o nosso rei e os meus quatro irmos.
Partiram no seu navio h demasiado tempo para que possamos agora persegui-los. E levaram um refm: a princesa Hesona.
Era impossvel prosseguir, tendo em conta o tumulto que se seguiu; sustive a respirao, debatendo comigo mesmo que poro da histria poderia contar-lhes. No,
no lhes poderia dizer que o rei Laomedonte se recusara a cumprir uma promessa solene; Laomedonte estava morto e a sua rgia memria teria de ser preservada; a memria
de um rei no poderia ser maculada por um final to miservel. Seria prefervel dizer-lhes que os gregos haviam congeminado tamanha atrocidade em represlia contra
a poltica que negava aos seus mercadores o acesso ao mar Euxino.
Eu era o rei. Tria e a Trada eram minhas. Eu era o guardio do Helesponto e o zelador do Euxino.

#Quando voltei a bater com o meu basto, o rudo esbateu-se imediatamente. A diferena era to grande, to clara, agora que era rei!
- Diante da corte aqui reunida - disse eu -, juro solenemente que, enquanto for vivo, no esquecerei nunca aquilo que os gregos fizeram a Tria. Este dia ficar
para sempre na nossa histria como um dia de luto: neste dia, todos os anos, os sacerdotes percorrero as ruas da cidade, entoando cnticos que denunciaro os crimes
dos mercenrios gregos. E no descansarei enquanto Tria no fizer com que os gregos se arrependam dos crimes cometidos!
Antenor, nomeio-te chefe do meu governo. Prepara uma proclamao pblica: a partir deste dia, nenhum navio grego ser autorizado a atravessar o Helesponto e a entrar
no Euxino. O cobre pode ser obtido noutros locais, mas o estanho vem todo da Ctia. E o cobre e o estanho juntos do-nos o bronze! Nenhuma nao pode sobreviver
sem bronze! De futuro, os Gregos tero de compr-lo a um preo exorbitante s naes da sia Menor, pois estas tero o monoplio do estanho. Ser a decadncia das
naes da Grcia!
Os vivas e aplausos foram ensurdecedores. Apenas Antenor mantinha uma expresso desconfiada; sim, teria de lhe contar toda a verdade, mas num encontro a ss. Entretanto,
entreguei-lhe o meu basto e apressei-me na direco do meu palcio, onde - lembrei-me de sbito - Hcuba estava s portas da morte.
Uma parteira esperava-me ao cimo das escadas, o rosto molhado de lgrimas.
- Hcuba morreu, mulher? A velha bruxa olhou para mim com um sorriso desdentado, apesar da mgoa que aparentemente sentia.
- No, no! Eu estou a chorar a morte de seu pai, o rei Laomedonte! A rainha est livre de perigo e deu  luz um belo e saudvel menino.
Tinham levado Hcuba directamente do banco de parir para a sua grande cama, onde descansava agora, esgotada e lvida, com uma trouxa enfaixada na curva do brao
esquerdo. Ningum lhe contara as tristes notcias e eu s lhas contaria quando ela estivesse mais forte. Baixei-me para a beijar. Ento, Hcuba desviou o pano que
tapava a cara da criana. Este quarto filho que ela me dera parecia ser a encarnao do sossego. Por outro lado, no contorcia as feies como os recm-nascidos
costumam fazer. Era de uma beleza extraordinria e a sua pele era muito suave e to branca como o marfim, em vez de vermelha e engelhada. Um cabelo negro, encaracolado,
cobria-lhe maciamente o crnio; as pestanas eram negras e compridas; as sobrancelhas negras eram elegantes arcos sobre uns olhos cuja cor no conseguia distinguir:
eram to escuros, de facto, que no saberia dizer se eram azuis ou castanhos.
Hcuba fez-lhe ccegas sob o queixo perfeito.
Que nome lhe vais dar, prncipe?
Pris - respondi eu imediatamente.
Hcuba fitou-me perplexa.
- Pris? Casado com a morte?  um nome sinistro, prncipe. Por que no Alexandre, como tnhamos previsto?
- Chamar-se- Pris - disse eu, desviando o olhar. Em breve, tambm Hcuba saberia que o nosso filho casara com a morte no dia em que nascera.
Deixei-a depois de a ter erguido um pouco mais sobre as almofadas. Quando me retirei do quarto, Hcuba embalava debilmente a criana contra os seus seios inchados.
- Pris, meu homem pequenino! - dizia ela. - s to bonito ... ! Oh, os coraes que tu vais destroar! Todas as mulheres te amaro, Pris. Pris, Pris...

#Captulo Segundo
Narrado por Peleu
Quando a ordem comeou a imperar no meu novo reino da Tesslia - e quando pude finalmente confiar nas pessoas que deixava em lolcos, sentindo-me seguro de que tratariam
adequadamente dos meus assuntos - viajei at  ilha de Ciros. Exausto, ansiava pela companhia de um amigo; e a verdade  que, mesmo nessa altura, no tinha em lolcos
um nico amigo que pudesse rivalizar com o rei Licomedes de Ciros. Licomedes era um homem afortunado: nunca fora banido do reino de seu pai, como eu fora; nunca
precisara de lutar desvairadamente para construir um novo reino para si mesmo, como eu precisara; nunca travara uma guerra para o defender, como eu travara. Os seus
antepassados haviam governado aquela ilha rochosa desde o princpio dos tempos, dos deuses e dos homens, e ele subira ao trono depois de o pai ter morrido na cama,
rodeado por filhos e filhas, esposas e concubinas;  que o pai de Licomedes aderira  Velha Religio, tal como Licomedes - a monogamia estava vedada aos governantes
de Ciros!
Com a Velha ou com a Nova Religio, Licomedes teria por certo o mesmo tipo de morte que o pai, ao passo que eu no teria seguramente a mesma sorte. Invejava a sua
tranquila existncia, mas, enquanto passeava com ele nos seus jardins, apercebi-me de que Licomedes no gozara ainda muitos dos prazeres que a vida nos proporciona.
O seu reino e o seu reinado pouco significavam para ele, ao contrrio do que sucedia comigo; executava a sua obra de uma forma competente e conscienciosa, pois era
ao mesmo tempo um homem generoso e um dirigente capaz, mas faltava-lhe algo que eu tinha: a determinao de lutar ferreamente por aquilo que era seu, j que, na
realidade, nunca ningum ameaara tirar-lhe o que quer que fosse.
Eu conhecia plenamente o significado de palavras como perda, fome e desespero. E amava o meu novo reino da Tesslia - to duramente conquistado! -
como ele nunca poderia amar Ciros. Tesslia, a minha Tesslia! Eu, Peleu, era rei

#supremo da Tesslia! Outros reis deviam-me obedincia - a mim, que s h poucos anos voltara s terras a norte da tica. Era eu o rei dos Mirmides, o povo de lolcos
a quem chamavam Formigas.
O rei de Ciros interrompeu os meus pensamentos.
- Ests a pensar na Tesslia - disse.
- No consigo pensar noutra coisa. Licomedes ergueu uma mo branca e indolente.
- Meu caro Peleu, os deuses no me dotaram dos teus poderosos entusiasmos. Enquanto que eu ardo em fogo lento, tu s uma labareda refulgente e vibrante. Embora deva
dizer que me sinto satisfeito com aquilo que sou. Se estivesses no meu lugar, s terias parado depois de teres conquistado todas as ilhas entre Creta e a Samotrcia.
Encostei-me ao tronco de uma nogueira e suspirei.
- E no entanto, meu amigo, estou muito, muito cansado. J no sou o jovem de outros tempos.
- Uma verdade to bvia que nem vale a pena proclam-la... - Os seus olhos plidos examinavam-me atentamente. - Peleu - prosseguiu ele -, sabes com certeza que tens
a reputao de seres o homem mais notvel de toda a Grcia... At mesmo Micenas  obrigada a reparar em ti.
Endireitei-me e continuei a andar.
- Eu sou igual a qualquer outro homem.
- Podes neg-lo  vontade, mas a verdade tem de ser dita! Tu tens tudo, Peleu! Um corpo belo e atltico, uma mente astuta e subtil, uma arte inquestionvel no que
toca  chefia de homens, um talento notvel para inspirar o amor do teu povo - pois se tu at tens um rosto encantador!
- Continua com elogios desses, que eu pego j nas minhas coisas e vou-me embora.
- Sossega que j terminei. Para dizer a verdade, gostaria de discutir contigo uma questo muito especfica. O meu pan de louvor  tua pessoa era apenas uma maneira
de chegar a esse assunto...
Fitei-o com curiosidade.
- Ah sim? Licomedes molhou os lbios, franziu o sobrolho e, por fim, decidiu mergulhar de chofre em guas agitadas.
- Peleu, tu tens trinta e cinco anos. s um dos quatro reis supremos da Grcia e, portanto, possuis um poder extraordinrio nesse territrio. Contudo, no tens esposa,
ou seja, no tens rainha. E, ah - visto que s um adepto fiel da Nova Religio, o que quer dizer que escolheste a monogamia, como  que vais garantir a sucesso
do trono da Tesslia se no tens uma esposa?
No consegui controlar o riso.
- Mas que impostor que tu me saste, Licomedes! J percebi tudo: escolheste uma esposa para o teu amigo!
Ele fitou-me com um ar manhoso.
-  possvel... Amenos que tenhas outras ideias...
- Licomedes, devo dizer-te que penso muitas vezes no meu casamento. Infelizmente, porm, no gosto de nenhuma das candidatas.
- Pois eu conheo uma mulher a que talvez no resistas. Estou certo de que daria uma esposa esplndida.
- Diz tudo, homem! Sou todo ouvidos.
- s todo ouvidos e ests todo excitado... Mas eu vou contar-te tudo. A mulher em questo  a grande sacerdotisa de Poseidon em Ciros. Ordenou-lhe o deus que se
casasse, mas ela resistiu ao casamento. Eu no posso obrigar to augusta sacerdotisa a obedecer s ordens de Poseidon ou s minhas ordens. Contudo, se quero salvar
o meu povo e a minha ilha, tenho de convenc-la a casar-se.
Por essa altura, j eu o fitava com um espanto sem fim.
- Licomedes! Com que ento eu no passo de um objecto para tu conseguires os teus fins! Francamente!
- No, no! - exclamou ele, com uma expresso aflita. - Ouve-me at ao fim, Peleu!
- Poseidon ordenou-lhe que se casasse?
- Sim. Os orculos dizem que, se ela no se casar, o Senhor dos Mares abrir ao meio as terras de Ciros e levar a minha ilha para as profundezas do mar, fazendo
dela mais um dos seus territrios.
- Disseste orculos... Quer dizer que consultaste vrios?
- Consultei at a pitonisa de Delfos e a floresta de carvalhos de Dodona. A resposta foi sempre a mesma - ou ela se casa, ou vocs morrem.
- Porque  que ela  to importante? - perguntei, fascinado. Na sua expresso, o temor transpareceu de sbito.
- Porque ela  filha de Nereu, o Velho Deus do Mar. Assim sendo, ela , pelo sangue, metade divina, metade humana - e h uma diviso na sua lealdade. A sua linhagem
pertence  Velha Religio; no entanto,  a Nova Religio que ela serve. Peleu, tu conheces bem a agitao que varreu o nosso mundo grego desde que os imprios de
Creta e Tera se desmoronaram. Pensa no caso de Ciros! Nunca fomos to dominados pela Me como Creta ou Tera ou os reinos da ilha de Plops
- aqui, foram sempre os homens que governaram -, mas a Velha Religio possui uma fora inegvel. Contudo, Poseidon  um deus da Nova Religio e ns estamos sob o
seu domnio - para alm de ser o Senhor dos Mares que nos rodeiam, Poseidon  tambm o Senhor dos Terramotos.

#- Devo concluir, portanto - disse eu, lentamente -, que Poseidon est furioso com o facto de uma mulher da Velha Religio ser precisamente a sua sacerdotisa suprema.
No entanto, Poseidon deve ter aprovado a nomeao dessa mulher.
- E aprovou! Mas agora est furioso - tu sabes como so os deuses, Peleu! Alguma vez os deuses foram coerentes? Apesar de ter aprovado a nomeao da sacerdotisa,
agora est furibundo e no quer que o seu altar seja servido por uma filha de Nereu.
- Licomedes, Licomedes! Acreditas mesmo nessas histrias de homens e mulheres gerados pelos deuses? - perguntei eu, incrdulo. - Tinha-te em melhor juzo! Os homens
e as mulheres que afirmam ser filhos de deuses so, na sua maior parte, simples bastardos - e, geralmente, filhos de um pastor ou de um moo de estrebaria.
Licomedes desatou a dar aos braos como uma galinha assustada.
- Sim, sim, sim! Eu sei que isso  verdade, Peleu, mas a verdade  que acredito! Tu nunca a viste, tu no a conheces. Eu j a vi, eu conheo-a. Nunca vi criatura
mais estranha ... ! Basta uma pessoa olhar para ela, para logo ficar sem dvidas: aquela mulher veio do mar!
Por essa altura, j eu me sentia francamente ofendido.
- No posso acreditar no que estou a ouvir! Muito obrigado pela oferta! Queres impingir uma mulher doida ao rei supremo da Tesslia? Pois bem, comigo  que ela no
se casa!
Licomedes agarrou-me no antebrao com ambas as mos.
- Peleu, achas-me capaz de uma baixeza dessas? Exprimi-me mal,  tudo - no queria ofender-te, juro-te que no! S que... logo que te vi, ao fim de tantos anos,
o meu corao disse-me que aquela era a mulher certa para ti. No lhe faltam pretendentes nobres... Todos os solteiros bem nascidos de Ciros j lhe propuseram casamento.
Mas ela tem-nos recusado a todos. Diz que est  espera daquele que o deus prometeu enviar-lhe - esse homem vir com um sinal divino.
Suspirei.
- Est bem, Licomedes, eu vou v-la. Mas no te prometo nada! Entendido?
O recinto e o altar sagrados de Poseidon - de facto, no se tratava de um verdadeiro templo - situavam-se na outra ponta da ilha, a zona menos frtil e menos habitada;
uma localizao muito peculiar para o principal santurio do Senhor dos Mares. Os seus favores eram vitais para todas as ilhas, cercadas por todos os lados pelos
seus lquidos domnios. A sua disposio determinava a prosperidade de um local ou a fome que grassava noutro; por alguma razo Poseidon era tambm aquele que fazia
tremer a terra. Eu prprio vira os frutos da sua raiva: cidades inteiras destrudas, to rasas e to lisas como o ouro sob o martelo do artfice. Poseidon enfurecia-se
por tudo e por nada e era muito cioso do seu prestgio; por duas vezes, tanto quanto se sabia, Creta fora arrasada pela violncia da sua vingana, pois os seus reis,
sentindo-se inchados de importncia, haviam negligenciado a venerao que a Poseidon era devida. O mesmo acontecera com a ilha de Tera.
Se aquela mulher que Licomedes queria para minha esposa era filha de Nereu - que governara os mares no tempo em que Cronos governara o mundo do seu trono no Olimpo
- no admirava que os orculos exigissem o seu afastamento do cargo. Zeus e os seus irmos no tinham tempo a perder com os velhos deuses que haviam derrubado -
bom, e vendo bem as coisas, quem  que poderia perdoar a um pai que devorava os seus filhos?
Cheguei ao recinto sozinho e a p, envergando um vulgar traje de caa e conduzindo a minha oferenda com uma corda. Queria que ela pensasse que eu era um annimo
membro do povo, queria que ela no suspeitasse sequer que eu era o rei supremo da Tesslia. O altar erguia-se sobre um promontrio sobranceiro a uma pequena enseada;
avancei lentamente por entre o sagrado bosque que havia diante do altar, aturdido com o silncio e com a sufocante religiosidade que impregnava o local. At mesmo
o mar chegava aos meus ouvidos como que abafado, ainda que as ondas no parassem de se erguer e de se esmagar, numa multido de bolhas brancas, contra as rochas
da torturada base do precipcio. Diante do altar, um altar simples, desprovido de ornamentos, ardia a chama eterna sobre um trip dourado; aproximei-me da chama,
parei e puxei a minha oferenda para ao p de mim.
Nesse momento, a sacerdotisa emergiu para a luz do sol, ainda que com alguma relutncia, como se preferisse viver na sombra, numa verso mais fresca e lquida do
dia. Fitei-a fascinado. Pequena, elegante, feminina, possua, no entanto, uma qualquer qualidade que, de feminino, nada tinha. Em vez do vestido habitual das sacerdotisas,
com todos os seus bordados e rufos, envergava uma simples tnica feita com o belo e transparente linho que os Egpcios tecem, e a cor da sua pele via-se claramente
sob o linho, plida e azulada, listrada porque o material fora mal tingido. Os lbios eram cheios, mas de um rosa desmaiado; os olhos, os olhos mudavam de cor consoante
os matizes e os estados de nimo do mar - cinzentos, azuis, verdes, at mesmo um prpura to escuro como o vinho; no usava qualquer pintura no rosto, excepto uma
linha negra e muito fina desenhada em torno dos olhos e prolongada na direco das sobrancelhas para lhe dar um ar vagamente sinistro. O cabelo dela no tinha cor
nenhuma, era de um branco como o branco das cinzas, embora possusse um brilho que, na escurido de um quarto, o faria por certo parecer azul.
Avancei, conduzindo a minha oferenda.
- Suprema sacerdotisa, estou de visita  tua ilha e decidi fazer uma oferenda ao Pai Poseidon.

#A sacerdotisa aquiesceu e segurou na corda. Depois, examinou o vitelo branco com um olhar conhecedor.
- O Pai Poseidon ficar satisfeito. H muito que no via um to belo animal.
- Como os cavalos e os touros so sagrados para ele, pensei que deveria oferecer-lhe aquilo de que ele mais gosta.
Ela fitou atentamente a chama do altar.
- O momento no  propcio para um sacrifcio. Farei a oferenda mais tarde disse.
- Como queiras, sacerdotisa. - Virei-lhe costas, decidido a ir-me embora.
- Espera.
- Sim?
- Tenho de dizer ao deus o nome do homem que lhe oferece o vitelo. Como te chamas?
- Peleu. Sou o rei de lolcos e o rei supremo da Tesslia. Os olhos dela mudaram rapidamente de cor: o azul-claro passou a ser um cinzento-escuro.
- No s um homem vulgar, Peleu. O teu pai era aco e o pai dele era o prprio Zeus. O teu irmo Tlamon  rei de Salamina e tu pertences  realeza.
Sorri.
- Sim, eu sou filho de aco e irmo de Tlamon. Quanto ao meu av, no fao ideia quem foi. Embora duvide que fosse o rei dos deuses. Sinto-me mais inclinado a acreditar
que fosse um bandido qualquer que se apaixonou perdidamente pela minha av.
- A impiedade, rei Peleu - retorquiu ela serenamente -, conduz ao castigo divino.
- No consigo encontrar em mim sinal de impiedade, sacerdotisa.  com a mais profunda f que venero os deuses e lhes fao oferendas.
- No entanto, negas que Zeus tenha sido o teu av.
- Tais histrias, senhora, so contadas para realar os direitos de um homem a um trono - foi o que aconteceu com o meu pai, aco.
Ela afagou o focinho do vitelo com um ar ausente.
- Deves estar hospedado no palcio... Por que razo o rei Licomedes te deixou vir at aqui sozinho e sem seres anunciado?
- Porque eu assim o quis, senhora. Depois de ter amarrado o vitelo branco a uma argola que havia num dos pilares, virou-me as costas.
- Suprema sacerdotisa, quem aceita a minha oferenda? Olhando-me por cima do ombro, mostrou-me uns olhos de um cinzento frio e neutro.
- Eu sou Ttis, filha de Nereu. E no se trata apenas de rumores, rei Peleu. o meu pai  um grande deus.
Era tempo de partir. Agradeci-lhe e retirei-me.
Mas no fui muito longe. Armado de cuidados para que nenhum espio do santurio me visse, deslizei pelo caminho de cobras que conduzia  enseada, arrumei a lana
e a espada atrs de uma rocha e deitei-me na areia quente,  sombra de um penhasco. Ttis. Ttis. No havia dvida: aquela mulher tinha nela o mar. Dei comigo at
a querer acreditar que ela era filha de um deus, pois deixara-me enlear por aqueles olhos camalenicos, pois vira neles todas as tempestades e bonanas que moldam
o mar, pois vira neles um eco de um qualquer fogo frio que as palavras no podem descrever. E queria que ela fosse minha esposa.
Ela tambm estava interessada em mim; a minha idade e o meu cabedal de experincia levavam-me a essa concluso. Faltava apenas saber quo forte era a sua atraco;
dentro de mim, sentia j a advertncia de que, naquele combate, a derrota poderia ser minha. Ttis recusara j um sem-nmero de pretendentes: por que haveria de
me querer a mim? Embora no sentisse qualquer inclinao por homens, o certo  que, at ento, as mulheres pouco mais tinham significado para mim do que a satisfao
de um apetite que dilacera tanto os mais augustos deuses como os simples mortais. Por vezes, levava uma mulher da casa para dormir comigo, mas, na realidade, nunca
sentira por nenhuma verdadeiro amor. Estivesse ela ou no ciente disso, Ttis pertencia-me. E como eu defendia a Nova Religio em todos os seus aspectos, Ttis no
teria esposas rivais. Eu seria s dela.
O sol ardia-me agora nas costas com uma fora cada vez maior. O meio-dia veio; despi o meu traje de caador, para que os raios de Hlio penetrassem na minha pele.
Mas no conseguia parar quieto. Acerta altura, soergui-me e fitei o mar, culpando-o da perturbao que sentia. Depois, cerrei os olhos e ajoelhei.
- Pai Zeus, concede-me os teus favores! Tu sabes que, da minha boca, s tens ouvido splicas nos momentos de maior abandono e necessidade, tu sabes que, quando apelo
 tua interveno,  como se procurasse o auxlio de um av! Mas  por isso que agora rezo,  por isso que agora apelo aos teus mais benvolos e doces sentimentos!
Tu sempre me ouviste, porque eu nunca te aborreo com trivialidades. Ajuda-me agora, rogo-te! D-me Ttis como me deste lolcos e os Mirmides e toda a Tesslia!
D-me a melhor das rainhas para o trono mirmido, d-me filhos possantes, capazes de ocuparem o meu lugar quando eu morrer!
De olhos cerrados, mantive-me ajoelhado por um longo tempo. Quando me levantei, verifiquei que nada tinha mudado. O que no era para admirar: os deuses no fazem
milagres para instilarem a f nos coraes dos homens. Ento, de sbito, vi-a. O vento agitava a sua frgil tnica como se fosse uma bandeira, o seu ca-

#belo, sob a violncia do sol, parecia cristal, o seu rosto erguido parecia extasiado. Ao lado dela, estava o vitelo branco; na mo direita, Ttis empunhava um punhal.
O vitelo caminhava para a morte tranquilamente; aninhou-se mesmo sobre os joelhos de Ttis quando ela se ajoelhou na areia que as ondas beijavam; e no lutou, nem
gemeu de dor, quando ela lhe cortou a garganta, apertando-o contra si enquanto cintilantes fios escarlates se espalhavam pelas suas coxas e pelos braos nus. A gua
 volta dela ganhou um tom vermelho desmaiado, enquanto as caprichosas correntes sugavam o sangue do vitelo, diluindo-o na sua prpria substncia.
Ela no me tinha visto. E no me viu enquanto deslizava pelos caminhos do mar, arrastando o vitelo morto; quando a gua lhe cobriu os seios, ps o vitelo  volta
da nuca e comeou a nadar. Por fim, j a alguma distncia da praia, encolheu os ombros e libertou o vitelo, que se afundou imediatamente. Uma rocha enorme e plana
erguia-se do mar; nadou at  rocha, subiu para o seu leito duro e, por um momento, manteve-se de p, uma silhueta desenhada contra o cu claro. Depois, deitou-se
de costas, aconchegou a cabea sobre os braos cruzados e, aparentemente, adormeceu.
Um ritual bizarro, um ritual que no era aprovado pela Nova Religio. Ttis aceitara a minha oferenda em nome de Poseidon, mas quem a recebera fora Nereu. Sacrilgio!
E era ela a suprema sacerdotisa de Poseidon! Ah, Licomedes, tu tinhas toda a razo! Aquela mulher albergava as sementes de destruio de Ciros. Ela no dava ao Senhor
dos Mares aquilo que lhe era devido, to-pouco respeitava o Senhor dos Terramotos que Poseidon tambm era.
O ar estava calmo e suave, a gua lmpida; porm, enquanto caminhava na direco das ondas, tremia tanto como se estivesse com as sezes. A gua no conseguiu refrescar-me
enquanto nadava; Afrodite apertara de tal modo as suas sedosas garras que me lacerava at os ossos. Ttis era minha e eu ia possu-la. Salvava assim o pobre Licomedes
e a sua ilha.
Quando cheguei  rocha, agarrei-me a uma salincia e ergui-me com um esforo que quase me fendeu os msculos; curvei-me sobre Ttis antes que ela pudesse aperceber-se
de que eu estava mais perto dela do que o palcio de Ciros est perto da cidade. Mas Ttis no estava a dormir. Os olhos dela, agora de um verde suave, sonhador,
estavam abertos. Ento, afastou-se bruscamente de mim, e os seus olhos tornaram-se negros.
- No me toques! - disse ela, ofegante. - Homem nenhum se atreve a tocar-me! Eu perteno ao deus!
A minha mo estendeu-se num pice, detendo-se a uma escassa distncia do seu tornozelo.
- Os votos que fizeste no so permanentes, Ttis. Podes casar-te. E casars comigo.
- Eu perteno ao deus!
- De que deus falas tu? Quando falas, serves um deus, mas quando procedes aos sacrifcios, ests a servir outro deus! Tu pertences-me, Ttis, e acredita que a minha
ousadia no conhece limites. Se o deus - seja ele quem for! - exigir a minha morte por isto, acredita que aceitarei a sua sentena.
Soltando um grito de aflio e pnico, tentou deslizar pela rocha na direco do mar. Mas eu era mais rpido do que ela: agarrei-lhe numa perna e arrastei-a para
mim; os dedos dela enclavinhavam-se na superficie arenosa, podia mesmo ouvir as suas unhas rasgando tudo aquilo em que se podiam cravar. Agarrei-a pelos pulsos,
libertando-lhe o tornozelo, e ergui-a.
Lutou comigo como dez gatos selvagens, com todas as suas foras, pontapeando-me e mordendo-me silenciosamente enquanto os meus braos a apertavam. Uma dzia de vezes
escapou  tenaz dos meus braos, uma dzia de vezes voltei a prend-la. O sangue tingia-nos os corpos. A carne do meu ombro estava dilacerada, os lbios dela estavam
fendidos, mancheias do cabelo de ambos rodopiavam ao sabor do vento que de sbito se levantara. No era uma violao, nem eu pretendia que fosse; era um mero concurso
de foras, homem contra mulher, a Nova Religio contra a Velha. Terminou como tais concursos devem terminar: com a vitria do homem.
Camos sobre a rocha com uma violncia que a deixou sem flego. O corpo dela estava agora acorrentado sob o meu, os ombros j no se debatiam. Olhei-a nos olhos.
- Perdeste o combate. Conquistei-te. Os lbios dela tremiam; virou-me a cara.
- Tu s ele. Eu soube disso logo que te vi no santurio. Quando jurei servi-lo, o deus disse-me que um homem viria um dia do mar, um homem do cu que retiraria o
mar da minha mente e me tornaria a sua rainha. - Suspirou. - Pois que assim seja, se essa  a vontade do deus.
Com pompa e circunstncia, sentei a nova rainha no trono de lolcos. Durante o primeiro ano da nossa unio, Ttis ficou grvida. Era o culminar do nosso jbilo. Nunca
fomos to felizes como durante as nove luas em que espermos pelo nascimento do nosso filho. Nenhum de ns admitia sequer que pudesse ser uma menina.
A minha prpria ama, Aresune, foi nomeada chefe das parteiras; por isso, quando Ttis comeou com as dores de parto, de nada me valeu o poder do trono; a velha ama
imps a sua autoridade e baniu-me para o outro extremo do palcio. Tive de aguardar que o carro de Febo desse uma volta inteira: durante esse tempo, refugiei-me
na solido, ignorando os criados que me rogavam que comesse ou bebesse. Nesse momento, a nica coisa que sabia fazer era esperar... At que, j a

#noite ia alta, Aresune veio ter comigo. No se dera sequer ao trabalho de mudar de roupa; manchas de sangue espalhavam-se pelo seu vestido; mirrada e curvada, parecia
encolhida dentro daquelas roupas ensaguentadas e, no rosto enrugado, a dor desenhara os seus traos. Os olhos, que, de to fundos, pareciam duas covas negras, eram
uma fonte de lgrimas.
- Era um rapaz, rei Peleu, mas no viveu o suficiente para inspirar o ar da vida. A rainha est bem. Perdeu algum sangue e est muito cansada, mas a sua vida no
corre perigo. - As mos escanzeladas contorciam-se uma na outra.
- Senhor, juro-lhe que no houve erro nenhum no meu trabalho! Um rapaz to bonito, to forte! Foi a vontade da deusa.
No suportava que ela visse o meu rosto  luz da lamparina. O meu sofrimento era tanto que no conseguiria chorar. Num pice, virei costas  minha ama e fui-me embora
dali.
Vrios dias passaram at conseguir arranjar foras para ir ver Ttis. Quando finalmente entrei no seu quarto, fiquei espantado com o que vi: Ttis parecia estar
de ptima sade e o seu ar no podia ser mais feliz. Disse tudo o que seria correcto dizer em tais circunstncias, ensaiou mesmo algumas palavras que exprimiam tristeza,
mas nada daquilo era verdadeiro! Ttis estava contente!
- O nosso filho est morto! - explodi. - A morte de um filho  insuportvel! Ele nunca conhecer o sentido da vida! Nunca ocupar o meu lugar no trono. Durante nove
luas trouxeste-o no teu ventre - e afinal para nada!
Ttis afagou-me a mo com um ar vagamente protector.
- Oh, meu querido Peleu, no sofras mais! O nosso filho no tem uma vida mortal, mas j te esqueceste de que eu sou uma deusa? Como ele no respirou o ar da terra,
pedi ao meu pai que concedesse ao nosso filho a vida eterna, e o meu pai acedeu ao meu pedido. O nosso filho vive agora no Olimpo - come e bebe com os outros deuses,
Peleu! No, ele nunca ser o rei de lolcos, mas desfruta de algo que nenhum homem mortal jamais poder desfrutar. Ao morrer, o nosso filho tornou-se imortal. Portanto,
nunca morrer.
O meu espanto transformou-se em repulsa. Olhei-a nos olhos e perguntei-me como era possvel que Ttis se tivesse deixado enredar de tal maneira por aqueles disparates.
Ela era to mortal como eu e o flho dela era to mortal como ns dois. Ento, reparei na confiana extrema que havia no seu olhar e no consegui dizer aquilo que
ansiava dizer-lhe. Se acreditar em tais disparates lhe aliviava a dor, pois que acreditasse! A vida com Ttis ensinara-me que ela no pensava, nem se comportava,
como as outras mulheres. Por isso, limitei-me a afagar-lhe a cabea e retirei-me.
Seis filhos me deu Ttis e todos nados mortos. Quando Aresune me trouxe a notcia da morte do segundo rapaz, quase enlouqueci. Durante muitas luas, no consegui
sequer abeirar-me de Ttis, pois sabia o que ela me diria - que o nosso filho era agora um deus. No fim, porm, o amor e o desejo levavam-me de volta aos seus braos
e de novo percorramos o medonho ciclo at ao fatal desenlace.
Quando a sexta criana nasceu morta - como era possvel que tivesse morrido  nascena, se a gravidez durara as nove luas e a criana, no seu minsculo carro funerrio,
parecia to forte, apesar do tom azul-escuro da pele? - jurei que nunca mais daria filhos meus ao Olimpo. Mandei um emissrio  pitonisa de Delfos e a resposta foi
esta: Poseidon estava furioso porque eu lhe roubara a sua sacerdotisa! Quanta hipocrisia! Hipocrisia e loucura! Primeiro, no a queria; agora, mudara de ideias.
No duvidemos: no h no mundo um s homem que consiga entender o que pensam e o que fazem os deuses, Novos ou Velhos.
Durante dois anos, no vivi com Ttis, que continuava a querer conceber mais filhos para o Olimpo. Ento, no final do segundo ano, levei um potro branco a Poseidon
Criador de Cavalos e ofereci-o diante de todos os Mirmides, o meu povo.
- Revoga a tua maldio e d-me um filho vivo! - gritei. As entranhas da terra ribombaram, a cobra sagrada, que estava sob o altar, disparou como um relmpago castanho,
o cho agitou-se, percorrido de espasmos. Um pilar caiu mesmo ao meu lado, mas eu no me mexi. Entre os meus ps, surgiu uma fenda e quase sufocava com o cheiro
a enxofre, mas mantive-me quieto e direito at que o tremor se esbateu e a fenda se fechou. O potro branco jazia no altar sem pinga de sangue e pateticamente quieto.
Trs luas depois, Ttis disse-me que estava grvida do nosso stimo filho.
Ao longo das nove fatigantes luas que se seguiram, ordenei que a vigiassem como um falco vigia pintanhos; ordenei a Aresune que dormisse com ela todas as noites,
ameacei as mulheres da casa com as torturas mais terrveis, caso a deixassem sozinha por um instante que fosse, a menos que Aresune se encontrasse por perto. Ttis
suportava estes caprichos, como ela lhes chamava, com pacincia e bom humor; nunca discutia, nunca tentava infringir as minhas leis. Certa vez, ouvi-a cantar um
estranho cntico da Velha Religio; um arrepio gelado percorreu-me o corpo. Porm, quando lhe ordenei que se calasse, Ttis obedeceu prontamente e nunca mais a ouvi
entoar tais cnticos. Aproximava-se a hora em que daria  luz o stimo filho. Comecei a nutrir algumas esperanas. Se eu sempre respeitara os deuses, por que razo
no haveriam eles de me dar um filho vivo?
Possua uma armadura que havia pertencido a Minos; era, entre todos os meus tesouros, aquele que eu mais prezava. Era um objecto extraordinrio: sobre quatro camadas
separadas de bronze e trs de estanho, era forrada a ouro e incrustada com lpis-lazli e mbar, e ornamentada com um padro maravilhoso de

#coral e cristal. O escudo, de idntica construo, era to alto como um homem e fazia lembrar dois escudos redondos sobrepostos; de facto, possua como que uma
cintura. A couraa e as grevas, o elmo e o saiote e as proteces dos braos, tinham sido feitos para um homem mais corpulento do que eu; por isso eu respeitava
o falecido Minos, que usara aquela armadura nas suas viagens pelo reino cretense, confiando que nunca precisaria dela para se proteger, desejoso apenas de exibir
diante do seu povo toda a sua riqueza. E quando Minos cara, a armadura de nada lhe servira, pois Poseidon esmagara-o, bem como a Creta, porque nem Minos nem Creta
queriam a Nova Religio. A Me Kubaba, a Grande Deusa da Velha Religio, Rainha da Terra e dos Cus, sempre reinara em Creta e em Tera.
Com a armadura de Minos, guardara uma lana de freixo das encostas do monte Plion; tinha uma ponta pequena, feita com um metal chamado ferro, to raro e precioso
que a maior parte dos homens pensava tratar-se de uma lenda, pois poucos o tinham visto. A experincia havia provado que a lana atingia sempre o seu alvo, apesar
de mais parecer uma pena na minha mo. Quando deixei de precisar dela, porque a guerra terminara, guardei-a com a armadura. A lana tinha um nome: Velha Plion.
Antes do nascimento do meu primeiro filho, fora buscar estas raridades e limpara-as e polira-as, certo de que a armadura assentaria que nem uma luva ao meu filho.
Porm, com as sucessivas mortes dos meus filhos, mandei-as de novo para os subterrneos onde guardava os meus tesouros, condenando-as a viverem numa escurido que
no era mais negra do que o meu desespero.
Cerca de cinco dias antes do esperado nascimento do meu stimo filho, peguei numa lamparina e desci os velhos e gastos degraus de pedra que conduziam s entranhas
do palcio. Depois, avancei lentamente por infindveis corredores at que avistei a grande porta de madeira da sala dos tesouros. Porque estava eu ali? perguntei
a mim mesmo, mas no consegui encontrar uma resposta satisfatria. Abri a porta, preparando j os olhos para a escurido; porm, em vez de escurido, deparou-se-me
uma luz dourada no extremo oposto da imensa cmara. Apaguei a minha lamparina e avancei furtivamente, com a mo no punhal. A sala estava atravancada de urnas e bas,
cofres e indumentria sagrada; tinha de avanar com todo o cuidado.
Ao abeirar-me da luz, ouvi o inconfundvel som de uma mulher chorando. Aresune, a minha ama, estava sentada no cho, embalando nos seus braos o elmo de ouro que
havia pertencido a Minos; as belas plumas douradas do elmo balouavam sobre a sua mo mirrada. Eram lgrimas brandas, mas amargas; ao mesmo tempo, entoava o cntico
de luto de Egina, a ilha de onde ela e eu ramos originrios, a ilha que fora o reino de aco.  Kore! Aresune chorava j o meu stimo filho!
No podia deix-la sem a consolar, no podia sair dali furtivamente, fingindo que no a tinha visto, que no a tinha ouvido. Quando a minha me lhe ordenara que
me desse o seu seio, Aresune era j uma mulher madura; fora ela quem me criara, sob o olhar indiferente de minha me; seguira-me nas minhas deambulaes por uma
dzia de estados, to fiel como o mais fiel dos meus ces; e quando conquistei a Tesslia, atribu-lhe um importante cargo no meu lar. Por tudo isto, abeirei-me
dela, toquei-lhe brandamente no ombro e supliquei-lhe que no chorasse. Tirei-lhe o elmo dos braos e estreitei o seu corpo velho e rgido, dizendo-lhe muitas meiguices
tontas, procurando confort-la com o meu prprio sofrimento. Por fim, Aresune acalmou-se, ainda que os seus dedos magros continuassem cravados na minha tnica.
- Meu querido rei, porqu? - disse ela, num tom plangente. - Porque a deixas fazer aquilo?
- Porqu o qu? O que  que eu deixo fazer? E a quem?
-  rainha - retorquiu ela, por entre soluos. Mais tarde, dei-me conta de que o sofrimento a deixara transtornada; caso contrrio, nunca teria conseguido arrancar-lhe
aquela confisso. Embora a amasse muito mais do que jamais amara minha me, Aresune sempre tivera uma conscincia muito clara da diferena de estatuto que havia
entre ns. Prendi-a com tal violncia entre as minhas mos que a pobre desatou a contorcer-se e a lamentar a sua sorte.
- O que  que a Rainha faz? - berrei.
- Mata os teus filhos! Todo eu tremia.
- Ttis? Os meus filhos? Que histria  essa? Fala! A velha ama j no se debatia entre os meus braos. Fitava-me apenas, fitava-me horrorizada porque descobrira,
naquele preciso momento, que eu no sabia nada.
Abanei-a.
- Aconselho-te a contares-me tudo, Aresune. Como  que a minha mulher mata os seus filhos? E porqu? Porqu?
Mas Aresune cerrou os lbios e nada disse; os seus olhos aterrados fixavam a chama da lamparina. Empunhei o punhal; encostei a sua temvel ponta quela pele velha
e flcida.
Notas: 1- Kubaba ou Cbele; Kubaba era uma deusa da Anatlia a que Cbele foi posteriormente assimilada. A origem de Cbele  a Frgia. O seu culto espalhou-se por
toda a Grcia e chegou tambm a Roma.
2- A autora utiliza um dos nomes de Persfona, filha de Zeus e Demter, Kore: neste caso, Persfona  invocada na sua qualidade de rainha dos Infernos, ou seja,
do mundo dos mortos.

#- Fala, mulher, ou, por Zeus Omnipotente, juro-te que te arrancarei as unhas e os olhos - juro-te que tudo farei para te desatar a lngua! Fala, Aresune, fala!
- Peleu - disse ela, com uma voz trmula -, se eu falar, ela amaldioar-me-, e a maldio dela  muito pior do que qualquer tortura.
- Essa maldio seria funesta para Ttis, porque se viraria contra ela. Conta-me tudo.
- Eu pensava que sabias, que tinhas consentido... Quem sabe, talvez ela tenha razo - talvez a imortalidade seja prefervel  vida na terra, porque os imortais no
envelhecem.
- Ttis  louca - disse eu.
- No, meu senhor. Ttis  uma deusa.
- No  tal, Aresune! Apostaria a minha vida em como ela  to mortal como tu!
Aresune no parecia convencida da condio mortal de Ttis; eu no conseguira abalar as suas supersties.
- Ela matou todos os teus filhos, Peleu. Com a melhor das intenes.
- Como  que ela faz isso? Toma alguma poo?
- No, meu querido senhor. O processo  muito mais simples. Quando a sentamos no banco de parir, ela manda sair todas as mulheres excepto eu. Depois, ordena-me que
ponha um balde cheio de gua debaixo dela. Logo que a cabea da criana sai de dentro dela, Ttis condu-la na direco da gua e a a mantm at sufocar o beb.
Os meus punhos cerravam-se e abriam-se.
- Ento  por isso que os meninos tm aquela cor azul! - Ergui-me. Volta para junto dela, Aresune, ou dar pela tua falta. Juro-te, como teu rei, que nunca direi
a ningum que foste tu quem me contou a verdade. Farei com que ela no tenha a menor possibilidade de te fazer mal. Vigia-a de perto. Quando as dores de parto comearem,
corre a avisar-me. Entendido?
Ela acenou que sim, j sem lgrimas nos olhos e sem culpa no corao. Depois, beijou-me as mos e, no seu passo trpego, retirou-se.
Fiquei ali um tempo infindo sem me mexer, enquanto as chamas das lamparinas se esbatiam. Ttis matara os meus filhos - e para qu? Por causa de um sonho impossvel,
de um sonho demente. Por superstio. Por uma iluso. Privara-os do direito a tornarem-se homens. Cometera crimes to vis que eu daria tudo para, naquele momento,
poder trespass-la com a minha espada. Mas Ttis trazia ainda no seu ventre o meu stimo filho. A espada teria de esperar. E a vingana pertencia aos deuses da Nova
Religio.
Cinco dias depois de ter falado com Aresune, a velha procurou-me. Corria como louca, o cabelo desgrenhado pelo vento. A tarde estava a chegar ao seu termo e eu fora
aos estbulos a fim de examinar os garanhes, pois a poca de acasalamento aproximava-se e os cavalarios queriam mostrar-me os casais que haviam escolhido.
Corri como um corcel rumo ao palcio, com Aresune empoleirada no meu pescoo.
- Que vais fazer? - perguntou-me ela quando a larguei diante da porta de Ttis.
- Vou entrar contigo - disse eu. Horrorizada, Aresune soltou um grito agudo.
- Meu senhor, meu senhor! Isso  proibido!
- Matar tambm  proibido - retorqui, e abri a porta.
O nascimento de uma criana  um mistrio feminino, um mistrio que no pode ser profanado pela presena de homens. Quando a Nova Religio venceu a Velha, houve
coisas que no mudaram; a Me Kubaba, a Grande Deusa, continua a governar os assuntos das mulheres. E, em particular, tudo o que tenha a ver com o desenvolvimento
dos frutos humanos - e com a sua colheita, estejam eles verdes, perfeitamente maduros ou secos e mirrados pela idade.
Quando entrei, ningum me viu durante breves momentos; tive tempo para observar, cheirar, ouvir. A sala tresandava a suor e sangue e a outras coisas estranhas e
aterradoras para um homem. O trabalho de parto ia avanado, pois as mulheres da casa estavam nesse momento a conduzir Ttis da sua cama para o banco de parir, onde
as parteiras rondavam e instruam numa azfama constante. A minha mulher estava nua, o abdmen grotescamente inchado, quase luminoso de to distendido. Dispuseram
cuidadosamente as suas coxas sobre a dura superfcie de madeira do banco; o assento do banco tinha no meio um amplo buraco, concebido para ajudar  distenso da
extremidade do canal do parto, o local por onde saa o corpo do beb, sendo a cabea a primeira poro do corpo a assomar.
No cho, perto do banco, havia um balde de madeira transbordando de gua, mas nenhuma das mulheres olhava sequer para ele, pois nenhuma delas sabia para que servia
aquele objecto.
Mal me viram, quase voaram para mim, com a raiva estampada no rosto, pensando que o rei enlouquecera, determinadas a correrem comigo dali para fora. Com uma bofetada,
deitei por terra aquela que ousou aproximar-se mais; as outras recuaram imediatamente. Aresune estava curvada sobre o balde, murmurando feitios para afastar o mau
olhado, e no se mexeu enquanto eu expulsava as mulheres e trancava a porta.
Ttis viu tudo. O seu rosto cintilava de suor e os seus olhos estavam negros como breu. Apesar disso, conseguia controlar a sua fria.
- Vai-te embora, Peleu - disse ela, num tom brando. Respondi-lhe afastando Aresune, pegando no balde e despejando no cho a gua do mar.

#- No matars mais ningum, Ttis! Este filho  meu!
- Matar? Matar? Oh, pobre idiota! Eu no matei ningum! Eu sou uma deusa! Os meus filhos so imortais!
As minhas mos cravaram-se nos ombros dela.
- Os teus filhos esto mortos, mulher! Esto condenados a viver como sombras errantes porque tu no os deixaste realizar os feitos que atraem o amor e a admirao
dos deuses! No pisaro nunca os Campos Elseos, no sero nunca heris, no encontraro nunca o seu lugar entre as estrelas! Tu no s uma deusa! Tu s uma mulher
mortal!
A resposta dela foi um estridente grito de aflio; as suas costas arquearam-se e as mos agarraram os braos de madeira do banco com tanta fora que as juntas dos
dedos brilhavam que nem prata.
Aresune, entretanto, parecia ter despertado de um longo torpor.
- Chegou a hora! - exclamou. - Est prestes a nascer!
- A criana no ser tua, Peleu! - rosnou Ttis. Comeou a tentar juntar as pernas, o que contrariava o instinto que lhe ordenava que as abrisse.
- Vou esmagar a cabea dele! - exclamou, a voz prenhe de raiva. Depois, desatou a gritar, um grito que parecia no ter fim. - Oh, Pai! Pai Nereu! Ele est a rasgar-me!
As veias ressaltavam-lhe na testa como se fossem cordes prpura, as lgrimas corriam-lhe pelas faces. Mesmo assim, continuava a lutar para fechar as pernas. Apesar
de desvairada de dor, convocou todas as fibras da sua vontade e uniu inexoravelmente as pernas e cruzou-as e entrelaou-as para que ficassem to fechadas como a
porta que eu trancara havia pouco.
Aresune estava sentada no cho encharcado, a cabea sob o banco; ouvi-a gritar, mas, logo a seguir, a velha ama desatou num riso que mais parecia um relincho.
- Ai! Ai! - guinchou ela por fim. - Peleu,  o p dele! Ele vem ao contrrio,  o p dele! - Arrastou-se para o lado, levantou-se e, com a fora de um jovem no seu
velho brao, fez com que eu me virasse para ela. - Queres um filho vivo? - perguntou-me.
- Quero, quero!
- Ento, abre-lhe as pernas! Os ps esto a sair primeiro, a cabea dele no corre perigo!
Ajoelhei-me e agarrei com a mo esquerda o joelho mais alto de Ttis; de seguida, enfiei a mo direita sob esse joelho a fim de agarrar o outro; por fim, usei de
toda a minha fora para lhe afastar as pernas. Os ossos dela rangiam perigosamente; ela empinava a cabea e vociferava maldies e cuspia algo que mais parecia uma
chuva corrosiva, e o seu rosto - aqui o juro, pois eu no tirava os olhos dela e ela no tirava os olhos de mim -, o seu rosto ganhara as escamas e a forma da cabea
de uma serpente. Os joelhos comearam enfim a separar-se; eu era demasiado forte para ela. No seria essa uma prova incontestvel da sua condio mortal?
Aresune mergulhou sob as minhas mos. Fechei os olhos e resisti  fora de Ttis. Ento, ouvi um som agudo e breve, um respirar convulsivo e, de repente, o quarto
encheu-se do choro de um beb vivo. Os meus olhos abriram-se num pice. Fiquei a olhar incrdulo para Aresune e para a criatura em que ela pegava com uma mo, de
cabea para baixo - uma coisa medonha, molhada, escorregadia, que se contorcia e debatia e berrava com tal fora que os seus berros chegariam por certo ao tecto
dos cus - uma coisa com pnis e escroto, salientes sob a pelcula membranosa. Um filho! Eu tinha um filho vivo!
Ttis permaneceu quieta e calada, o rosto vazio e parado. Mas os olhos dela no se tinham fixado em mim, mas sim no meu filho, que Aresune envolvia agora com um
pano branco, depois de ter atado o cordo umbilical e de o ter limpo.
- Um filho que far as delcias do teu corao! - riu-se Aresune. - O beb mais forte e saudvel que jamais vi! Foi pelo calcanhar direito que o puxei.
Entrei em pnico.
- O calcanhar! O calcanhar direito, velha! Est partido? Est deformado? Aresune afastou o pano e mostrou-me um calcanhar perfeito - o esquerdo e um p e um calcanhar
inchados e contundidos.
- Ambos os calcanhares esto intactos. O direito acabar por sarar e as marcas desaparecero.
Ttis riu-se, um som dbil e toldado.
- O calcanhar direito... Com que ento foi assim que ele conseguiu respirar o ar da terra. O p saiu primeiro... No admira que me tenha rasgado tanto. Sim, as marcas
desaparecero, mas esse calcanhar direito ser a sua runa. Um dia, quando ele precisar de um calcanhar firme e possante, o calcanhar direito lembrar-se- do dia
em que ele nasceu e tra-lo-.
Ignorei-a, estendendo os braos para Aresune.
- D-me o meu filho, Aresune! Deixa-me v-lo! Deixa-me ver o amor da minha vida, a razo do meu ser, o meu filho! O meu filho!
Informei a corte de que tinha um filho. Quanta exultao, quanta alegria! Toda a lolcos, toda a Tesslia, haviam sofrido comigo ao longo dos anos.
Porm, depois de todos terem partido, sentei-me no meu trono de imaculado mrmore branco com a cabea entre as mos, quase morto de exausto. As vozes comearam
a esbater-se ao longe, e a noite comeou a tecer as suas mais negras e solitrias teias. Eu tinha um filho vivo, mas deveria ter tido sete filhos vivos. A minha
mulher era louca.

#Penetrou descala na cmara escassamente iluminada, envergando uma vez mais aquela tnica transparente e flutuante que eu lhe vira em Ciros. Com um rosto velho,
enrugado, atravessou lentamente as geladas lajes do cho. O seu caminhar expressava bem o sofrimento do seu corpo.
- Peleu - disse ela, mal chegou ao estrado onde o meu trono assentava. Vira-a atravs dos meus dedos. Ergui a cabea para falar com ela.
- Vou voltar para Ciros, marido.
- Licomedes no te quer.
- Nesse caso, irei para onde me queiram.
- Como Medeia, num carro puxado por cobras?
- No. Farei a minha viagem nas costas de um golfinho.
Nunca mais a vi. Ao alvorecer, Aresune veio com dois escravos que me levantaram e levaram para a cama. Dormi tanto que, quando acordei, j o carro de Febo dera uma
volta inteira ao nosso mundo; no me lembrei de um nico sonho, mas lembrei-me de que tinha um filho. Corri ao seu quarto como se tivesse as sandlias aladas de
Hermes nos meus ps e encontrei Aresune pegando nele, depois de ter mamado nos seios da sua ama - uma jovem saudvel que perdera o seu beb, disse-me logo a velha.
Chamava-se Leucipa, um nome que significava gua branca.
Era a minha vez agora. Peguei nele e constatei que o rapaz era pesado. O que no era para admirar, pois ele parecia ser feito de ouro. Um cabelo dourado, todo aos
caracis, uma pele dourada, sobrancelhas e pestanas douradas. Os olhos, que no largavam os meus, eram escuros, mas imaginei que, quando comeassem a ver, seriam
de um qualquer tom dourado.
- Como lhe vais chamar? - perguntou Aresune. No sabia que resposta lhe dar. Ele tinha de ter o seu prprio nome, um nome que mais ningum tivesse. Mas que nome?
Olhei-lhe para o nariz, para as faces, para o queixo, para a testa, e achei-os to delicadamente moldados... Um rosto mais parecido com o de Ttis do que com o meu.
Os lbios, os lbios s poderiam ser dele, porque lbios era coisa que no tinha; uma simples fenda, ferozmente determinada e, no entanto, dolorosamente triste,
era a sua boca.
- Aquiles - disse eu, finalmente. Ela concordou.
- Sem lbios. Um bom nome para ele, meu querido rei. - Depois, suspirou. -A me dele fez aquela profecia... Vais consultar a pitonisa de Delfos?
Abanei a cabea.
- No. A minha mulher  louca, no acredito nas suas predies. Mas a pitonisa diz a verdade - e eu no quero saber o que o destino reserva ao meu filho.

Captulo Terceiro
Narrado por Quron

Eu tinha um stio preferido  sada da minha gruta, esculpida na rocha pelos ons divinos muito antes de os homens terem chegado ao monte Plion. Era mesmo na ponta
do penhasco, e muitos eram os momentos que eu passava sentado nessa espcie de banco, com uma pele de urso estendida em cima dele, para proteger os meus velhos ossos
das duras carcias da pedra. A sentado, os meus olhos dominavam terra e mar como se fossem os olhos de um rei: o rei que eu nunca fui.
Estava velho, demasiado velho. Era sobretudo no Outono que me apercebia disso, pois era no Outono que comeavam as dores que anunciavam o Inverno. Ningum - e ainda
menos eu - fazia ideia da minha idade; um tempo vem em que a realidade da idade fica como que paralisada, em que todos os anos e todas as estaes se resumem afinal
a um longo dia em que no fazemos outra coisa seno esperar pela morte.
O alvorecer prometia um dia de beleza e paz. Por isso, antes que o Sol se erguesse no cu, executei os meus poucos trabalhos domsticos, aps o que sa para o ar
fresco do monte. A minha gruta ficava bem no alto, quase que no cume da vertente sul do Plion, sobranceira a um fundo precipcio. Afundei-me na minha pele de urso
para ver o Sol. Nunca me cansava de ver o mundo que dali se via; ao longo de incontveis anos, do alto do Plion, vigiara o mundo que se estendia sob os meus ps,
a costa da Tesslia e o mar Egeu. E enquanto via o Sol erguendo-se no horizonte, tirei alguns favos gotejantes de mel da caixa de alabastro onde guardava os meus
confeitos e afundei neles as minhas gengivas desdentadas, sugando-os esfomeado. Aquele mel sabia a flores silvestres, a doces zfiros, s florestas de pinheiros.
O meu povo, os Centauros, vivera no monte Plion durante mais tempo do que os homens poderiam registar, servindo os reis da Grcia como preceptores dos

#seus filhos. De facto, ns ramos os melhores professores do mundo. Digo ramos porque eu sou o ltimo dos Centauros; com a minha morte, morrer a minha raa.
No interesse do nosso trabalho, a maior parte dos Centauros escolhera o celibato; por outro lado, aqueles que se casavam nunca escolhiam mulheres de outros povos;
por isso, as nossas mulheres, quando se cansaram de uma existncia vulgar, pegaram nas suas coisas e partiram. Por essa razo, os nascimentos diminuram drasticamente;
com efeito, a maior parte dos nossos homens no tinha sequer tempo para fazer a viagem at  Trcia, a regio para onde tinham ido as nossas mulheres a fim de se
juntarem s Mnades e de participarem no culto de Dioniso. E, a pouco e pouco, uma lenda nasceu: a lenda segundo a qual os Centauros eram invisveis porque tinham
medo de se mostrar aos outros homens; e tinham medo porque - acrescentava a lenda - seriam meio homens, meio cavalos. Uma criatura sem dvida interessante, caso
tivesse existido. Mas no, tal criatura nunca existiu: os Centauros mais no eram do que homens, em tudo iguais aos outros homens.
O meu nome era conhecido em toda a Grcia; eu sou Quron e fui o mestre da maior parte dos jovens que, em chegando  idade adulta, se tornaram heris famosos: Peleu
e Tlamon, Tideu, Hracles, Atreu e Tiestes, isto para referir apenas alguns. Contudo, isso fora j h tanto tempo... Para dizer a verdade, enquanto assistia ao
nascer do Sol, no era em Hracles, nem na sua estirpe, que eu pensava.
Abundam no monte Plion as florestas de freixos, freixos mais altos e erectos do que todos os outros, um mar tremeluzente de um amarelo radioso nesta altura do ano,
visto que todas as folhas, moribundas mas prenhes de luz, estremecem e caem ao sabor da mais ligeira das brisas. Aos meus ps, caa a pique o precipcio, quinhentos
cbitos de rocha nua, sem uma sombra sequer de verde ou amarelo, e, sob o abismo, de novo a floresta de freixos erguendo os seus ramos para o cu e muitos pssaros
com suas vozes distintas. No ouvia nunca os sons dos homens, pois entre mim e os pinculos do Olimpo no havia outro homem. Estendendo-se muito ao longe e reduzida
ao tamanho de um reino de formigas, surgia lolcos - e no ser forada esta descrio, pois chamavam Mirinides, ou forrnigas, ao povo de lolcos.
Entre todas as cidades do mundo, tirando as de Creta e Tera antes de Poseidon as ter arrasado, lolcos era a nica que no tinha muralhas. Quem ousaria invadir a
ptria dos Mirmides, que eram guerreiros sem par? A ausncia de muralhas levava-me a amar ainda mais lolcos.  que eu odiava muralhas. Outrora, quando viajava,
no suportava ver-me encerrado dentro das muralhas de Micenas ou Tirinto mais do que um ou dois dias. As muralhas eram estruturas construdas pela morte com pedras
das pedreiras do Trtaro.
Deitei fora os favos de mel e peguei no meu odre, aturdido pelo sol que tingia de carmesim a amplido da baa de Pgasa, reverberando nas figuras douradas do telhado
do palcio, dando nova cor s cores dos pilares e das paredes dos templos, do palcio e dos edifcios pblicos.
Um caminho serpenteava desde a cidade at ao meu quase inexpugnvel retiro, mas havia muito tempo que no era usado. Naquela manh, porm, algum decidira us-lo;
com efeito, ouvi um veculo aproximando-se. A raiva que senti destronou por completo a doce contemplao; levantei-me, cambaleante, decidido a enfrentar o insolente
intruso e a mand-lo dali para fora. Era um nobre e conduzia um veloz carro de caa, puxado por dois cavalos baios da Tesslia; na tnica do homem, viam-se as insgnias
da casa real. Eram claros os seus olhos e radioso o seu sorriso; desceu do carro com uma elegncia que s os jovens conhecem e encaminhou-se na minha direco. Recuei;
naqueles tempos, o cheiro de um homem causava-me repulsa.
- O rei manda-te as suas melhores saudaes, Quron - disse o jovem.
- Que pretendes? Que pretendes? - perguntei, descobrindo, para meu grande pesar, que a minha voz soava rouca e spera.
- Ordenou-me o rei que te trouxesse uma mensagem, Quron. Amanh, ele e seu irmo viro ter contigo: deixaro  tua guarda os seus filhos at estes crescerem. Devers
ensinar-lhes tudo aquilo que eles devem saber.
Todo o meu corpo se retesou de indignao. O rei Peleu que nem pensasse nisso! Estava demasiado velho para aturar meninos turbulentos. H muito que deixara de ensinar.
E no voltaria a ensinar - nem mesmo que os alunos fossem descendentes de uma casa to ilustre como a de aco.
- Diz ao rei que fiquei furioso com a sua proposta! No tenciono dar aulas ao filho dele, nem ao filho do seu rgio irmo, Tlamon. Diz-lhe que, se subir o Plion
amanh, estar a perder o seu tempo. Quron abandonou j o seu velho mester.
O jovem fitou-me desalentado.
- Quron, eu no ousaria levar-lhe tal mensagem. O rei ordenou-me que te anunciasse a sua visita e foi isso que eu fiz. Mas Peleu no me encarregou de levar uma
resposta.
Quando o carro de caa desapareceu, regressei ao meu banco e descobri que a paisagem que, momentos antes, contemplara, desaparecera sob um vu escarlate. O vu da
minha raiva. Como se atrevia o rei a pensar que eu daria aulas ao seu filho - ou ao filho de Tlamon, j agora? Anos antes, fora o prprio Peleu que enviara arautos
a todos os reinos da Grcia, anunciando que Quron, o Centauro, se retirara. Agora, Peleu dava o dito por no dito.
Tlamon, Tlamon... Tinha muitos filhos, mas havia dois que eram os preferidos... O mais velho era um bastardo, filho da princesa troiana Hesona, e chamava-se Teucro.
O outro era o seu herdeiro legtimo, jax. Por outro lado, Peleu tinha um nico filho, um filho de Ttis, a sua rainha, miraculosamente nascido de-

#pois de seis crianas terem morrido  nascena. Chamava-se Aquiles. Que idade teriam agora Aquiles e jax? Eram meninos pequenos, certamente. Malcheirosos, ranhosos,
algures entre o bicho e o homem. Que horror.
Morta a minha alegria, reduzida a cinzas a mnha raiva, regressei  minha caverna. No havia maneira de recusar o trabalho. Peleu era o rei supremo da Tesslia;
eu era seu sbdito e tinha de obedecer-lhe. Por isso atentei no meu amplo e arejado retiro e senti um receio imenso dos dias e dos anos que viriam. A minha lira
estava esquecida numa mesa, ao fundo da cmara principal; nas suas cordas, h tanto tempo caladas, o p tinha-se acumulado. Fitei-a com olhos sombrios, relutantes;
ento, de repente, peguei nela e apaguei as provas da minha negligncia. No havia uma nica corda que estivesse devidamente retesada; tive de afin-las a todas;
s depois disso pude tocar na minha velha lira.
Ah, e a minha voz! Perdera-se, morrera! Enquanto Febo conduzia o seu carro de oriente a ocidente, toquei e cantei, tentando convencer os meus dedos entorpecidos
a reencontrar a antiga flexibilidade, ginasticando as mos e os punhos, percorrendo para a frente e para trs a escala dos sons. Um professor ter de praticar diante
dos alunos era uma coisa horrvel; por isso, tinha de recuperar toda a prtica perdida antes que eles chegassem. E s parei quando a escurido inundou a caverna
e as sombras silenciosas dos morcegos comearam a agitar as asas, demandando o seu refgio, algures num local mais recndito da montanha. Estava morto de cansao,
cheio de frio e de fome e o meu humor, garanto-lhes, no era o melhor.
Peleu e Tlamon chegaram ao meio-dia. Vinham os dois juntos no carro real, seguido por um outro carro e por uma pesada e lenta carroa puxada por bois. Desci o caminho
para os saudar e esperei de cabea baixa. Havia anos que no via o rei supremo e uma eternidade que no via Tlamon. J de melhor humor, ergui os olhos para os ver.
Sim, eles eram reis, aqueles dois homens que irradiavam fora e poder. Peleu continuava o homem corpulento e pujante de sempre, Tlamon mantinha a agilidade de outros
tempos. Agora, ambos podiam dizer que os seus problemas se haviam dissipado - mas s depois de longos perodos de discrdia, guerra, preocupaes. E os forjadores
do metal das almas dos homens tinham deixado neles a sua marca indelvel. O ouro dos seus cabelos esbatia-se j, antes que a prata os invadisse, mas no encontrava
qualquer sinal de decadncia nos seus corpos vigorosos, nos seus rostos duros e graves.
Peleu foi o primeiro a descer e acercou-se de mim antes que eu pudesse recuar; senti um arrepio de repulsa quando ele me abraou afectuosamente; mas logo essa repulsa
foi temperada pelo seu calor.
- A partir de uma certa altura, Quron, j no  possvel parecermos mais velhos. Como tens passado? Ests bem?
-Apesar de tudo, posso dizer que estou muito bem. Afastmo-nos um pouco dos carros. Lancei-lhe um olhar de revolta.
- Como podes pedir-me que volte a ensinar? No fiz eu j trabalho que chegue? No h mais ningum no mundo capaz de instrur os vossos filhos?
- Quron, tu no tens rival. - Fitando-me do alto da sua elevada estatura, Peleu agarrou-me no brao. - Sabes, com toda a certeza, que Aquiles significa tudo para
mim.  o meu nico filho - no haver mais. Quando eu morrer, Aquiles ficar com ambos os tronos. Ter de ser por isso um homem educado. Eu prprio poderia educ-lo,
mas faltam-me os fundamentos adequados. S tu poders instilar-lhe os rudimentos, Quron, e tu sabes disso. Na Grcia, a posio dos reis hereditrios  muito precria.
H sempre inimigos  espreita de uma oportunidade. - Suspirou, para logo acrescentar: - Alm disso, Quron, eu amo Aquiles mais do que a prpria vida. Como poderia
eu negar-lhe a educao que tive?
-   Fico a pensar se no ters j estragado o rapaz.
- No, Quron. Creio que Aquiles  incorruptvel.
- Eu no quero este trabalho, Peleu. Desviou o olhar, franziu muito o sobrolho.
- Seria idiota da minha parte insistir. Mas... no queres ver ao menos os rapazes? Pode ser que mudes de ideias.
- Nem que fossem novos Hracles ou Peleus... Mas est bem. J que assim desejas, v-los-ei.
Peleu virou-se e acenou para dois rapazes que se encontravam junto ao segundo carro. Aproximaram-se lentamente, um atrs do outro; no conseguia enxergar o rapaz
que vinha atrs. No admira: o rapaz que vinha  frente era daqueles que faziam o possvel por atrair as atenes. No entanto, era uma verdadeira decepo... Seria
aquele o filho de Peleu, o adorado filho nico? No, no podia ser. Aquele s poderia ser jax; Aquiles seria ainda um menino por certo. Catorze anos? Treze? J
era to alto como um homem, e os seus braos e ombros eram poderosos e musculados. No tinha mau aspecto o rapaz, mas tambm no tinha nada de especial. Apenas um
adolescente fisicamente desenvolvido, com um nariz ligeiramente achatado e uns olhos cinzentos impassveis, nos quais no se via a luz de um verdadeiro intelecto.
- Este  jax - disse Tlamon, cheio de orgulho. - Tem s dez anos, embora parea muito mais velho.
Acenei para que jax se afastasse.
- E este  Aquiles? - perguntei, com um aperto na voz.
-   Sim - disse Peleu, tentando dar uma impresso de distncia. - Tambm est muito grande para a idade. Acaba de fazer seis anos.

#De sbito, senti a garganta seca. Estava pasmado. Apesar de ter apenas seis anos, Aquiles possua j uma magia muito sua, uma espcie de encantamento que ele usava
sem o saber e que prendia os homens a ele e que os levava a am-lo. Fisicamente, no era to possante como o primo, mas, mesmo assim, era uma criana alta e dotada
de uma forte constituio. Tinha uma postura muito descontrada para um menino da sua idade; distribua o peso do seu corpo por uma s perna, enquanto a outra avanava
apenas um pouco, e os braos caam livres junto ao corpo, embora de um modo gracioso. Tranquilo e inconscientemente rgio, parecia feito de ouro. O cabelo assemelhava-se
aos raios de Hlio, as sobrancelhas brilhavam como cristal amarelo, a pele parecia ouro polido. Muito belo, excepto no que tocava  boca - apenas uma fenda riscada
no rosto; uma boca dolorosamente triste, mas to determinada que intimidaria qualquer um. Fitava-me gravemente com uns olhos que tinham a cor do final do alvorecer,
amarelos e nublados; uns olhos cheios de curiosidade, dor, mgoa, espanto e inteligncia.
Despedi-me de sete dos poucos anos que me restavam quando me ouvi dizer, Serei o professor deles.
Peleu fitou-me com um sorriso radiante e Tlamon abraou-me; s agora tinham a certeza de que eu aceitava.
- No ficaremos mais tempo - disse Peleu. - Na carroa, vem tudo o que eles precisam, e trouxe criados para cuidarem de ti. Diz-me, Quron, a tua velha casa ainda
no caiu?
- Continua de p - respondi.
- Nesse caso, poders hospedar os criados. Eles tm ordens para obedecerem a todas as tuas ordens. Falars em meu nome, Quron.
Pouco depois, foram-se embora.
Deixei os escravos a descarregar a carroa e avancei para os rapazes. jax erguia-se como a prpria montanha, impassvel e dcil, os olhos sem a menor sombra; aquele
crnio poderoso teria de ser muito malhado at que a mente que l estava dentro ganhasse conscincia da sua verdadeira funo. Aquiles fitava ainda o caminho por
onde seguia o pai, os seus olhos enormes reluzindo das lgrimas que no chorara. Aquela separao assumia, para ele, uma extrema importncia.
- Venham comigo, rapazes, vou mostrar-lhes a vossa nova casa. Seguiram-me silenciosamente at  caverna. Mostrei-lhes quo confortvel poderia ser uma morada to
estranha. Mostrei-lhes as macias e espessas peles onde dormiriam, a rea da cmara principal onde decorreriam as nossas aulas. Depois, levei-os at  beira do precipcio
e sentei-me no meu assento preferido, com um de cada lado.
Esto ansiosos por comearem a vossa instruo? - perguntei, mais para Aquiles do que para jax.
- Sim, meu senhor - disse Aquiles, cortesmente; o pai, pelo menos, dera-lhe lies de boas maneiras.
- O meu nome  Quron. Podes tratar-me por Quron.
- Sim, Quron. O meu pai diz que eu devo aplicar-me nos estudos. Virei-me para jax.
- Na caverna, sobre uma mesa, encontrars uma lira. Tr-la - mas tem cuidado, no a deixes cair.
O possante rapaz fitou-me sem qualquer animosidade.
- Eu nunca deixo cair nada - respondeu-me ele, como se aquela fosse a mais trivial das respostas.
As minhas sobrancelhas ergueram-se; havia nos meus olhos uma luzinha de divertimento que, no entanto, no acendeu qualquer resposta nos olhos cinzentos do filho
de Tlamon. Em vez disso, fez exactamente o que lhe disse: o bom soldado obedecendo s inquestionveis ordens do seu chefe. Era o melhor que eu poderia fazer por
jax, pensei. Transform-lo no mais forte e capaz dos soldados. Ao passo que os olhos de Aquiles espelhavam a minha prpria hilaridade.
- jax leva sempre muito a srio o que a gente diz - disse ele, com aquela voz to agradvel, firme e equilibrada, de que eu j gostava. Esticou uma mo para indicar
a cidade, l muito ao fundo.
- lolcos?
- Sim.
- Ento aquilo, ali na colina, deve ser o palcio! Parece to pequeno, visto daqui! Sempre pensei que fosse maior do que o Plion, mas, visto daqui,  apenas uma
casa como as outras.
- Todos os palcios so casas como as outras: basta que uma pessoa possa v-los de longe.
- Sim, estou a perceber.
- J ests com saudades do teu pai.
- Pensei que ia chorar, mas passou....
- Voltars a v-lo na Primavera. Vers que o tempo passar num instante. No poders preguiar aqui; a preguia  a me do descontentamento, das maldades, das travessuras
das crianas.
Respirou fundo.
- O que  que eu vou ter de aprender, Quron? Que preciso eu de saber para ser um grande rei?
- Demasiadas coisas, Aquiles. No poderia responder-te a essa pergunta com poucas palavras. Um grande rei  uma fonte de conhecimento. Os reis so os

#melhores homens do seu povo, mas um grande rei  aquele que compreende que  o representante do seu povo diante do deus.
- Nesse caso, tenho de comear j a aprender. jax voltou com a lira. Segurava-a com todo o cuidado. Era um grande instrumento, parecido com as harpas dos Egpcios,
construdo a partir de uma enorme carapaa de tartaruga com cintilantes manchas castanhas e cor de mbar, e tinha cravelhas de ouro. Encostei-a ao meu joelho e afaguei
as cordas com um toque muito leve que produziu um belo som, mas no uma melodia.
- Vocs tero de conhecer todos os segredos da lira e de aprender as canes do vosso povo. O maior de todos os erros  ser-se impolido ou inculto. Tero de conhecer
de cor a histria e a geografia do mundo, todas as maravilhas do universo, todos os tesouros que h sob o regao de Me Kubaba, que  a Terra. Ensin-los-ei a caar,
a matar, a lutar com toda a sorte de armas, a fabricar as vossas prprias armas. Ficaro a conhecer as ervas que curam as doenas e as feridas. Ensin-los-ei a extrarem
remdios dessas ervas. Sabero tambm como usar talas para curar pernas ou braos partidos. Um grande rei d mais valor  vida do que  morte.
-  E a oratria? - perguntou Aquiles.
- No faltar. Depois de aprenderem comigo, a vossa oratria ter um efeito poderoso sobre os coraes dos vossos ouvintes, seja por via da alegria, seja por via
da tristeza. Quando sarem daqui, sabero julgar equilibradamente os homens, tal como elaborar leis e execut-las. Ensinar-lhes-ei aquilo que o deus espera de vocs,
porque vocs so os eleitos. - Sorri. - E isto  s o princpio!
Assentei a lira no cho, passei com a mo pelas cordas. Toquei apenas por breves momentos: ento, chegado ao clmax, quando o ltimo acorde se esbateu para dar lugar
ao silncio, comecei a cantar.
Ele estava s e rodeado de inimigos. Hera, irritada, abriu de fria os braos E o tecto dourado do Olimpo tremeu. Hera no abrandava a sua vigilncia. Implacvel
a raiva da esposa de Zeus! No seu cu, afinal, Zeus no tnha poder, Pois prometera  gloriosa Hera Que o seu filho da terra seria servo. Euristeu, o frio e impiedoso
amante, Sorria enquanto contava os ribeiros De suor que a Hracles impusera. Porque os filhos dos deuses tm de saber Que contra os deuses no podem revoltar-se
E que essa  a diferena entre os homens E os deuses que deles fazem fceis presas. Filho bastardo sem icor nas suas veias, Hracles pagou o preo da paixo. E pagou
com sofrimento e degradao, Enquanto Hera se ria de ver Zeus a chorar ... 
Era a Balada de Hracles, que morrera havia no muitos anos antes. Enquanto cantava, observava atentamente os dois rapazes. jax escutava atentamente. Aquiles, to
vibrante como as cordas da lira, inclinou-se para mim, com o queixo apoiado nas mos e ambos os cotovelos no brao do meu assento, os olhos a escassa distncia do
meu rosto. Quando finalmente afastei de mim a lira, deixou cair as mos, suspirando exausto.
E foi assim que tudo comeou e foi assim que tudo prosseguiu nos anos que haviam de vir. Aquiles avanava rapidamente em tudo, jax empenhava-se tenazmente na execuo
dos seus deveres. No entanto, o filho de Tlamon no era propriamente um pobre tonto. jax tinha uma coragem e uma determinao capazes de fazerem inveja a qualquer
rei e, de algum modo, conseguia sempre estar  altura daquilo que lhe era exigido. Porm, Aquiles  que era o meu rapaz, a minha alegria. Tudo o que eu lhe dizia
era ciosamente guardado - para ser usado mais tarde, quando fosse um grande rei, como ele dizia, sorridente. Adorava aprender e destacava-se em todos os ramos do
conhecimento. Era to bom com as mos como com a mente. Ainda guardo alguns dos desenhos e das tigelas de barro que ento fez.
Porm, mais do que para as matrias eruditas, Aquiles nascera para a aco, para a guerra e os feitos hericos. Mesmo do ponto de vista fsico, Aquiles superava
o primo, pois eram velocssimas as suas pernas e gostava de manejar armas tanto como uma mulher cpida adora mexer nas suas jias. Com a lana, nunca falhava o alvo;
quando pegava na espada, eu mal via a alada arma! Empunhar, atacar, golpear. Ah sim, ele nascera para ser chefe! Ele compreendia a arte da guerra sem qualquer esforo
- por instinto. Era um caador natural e, muitas vezes, regressava  caverna arrastando um javali demasiado pesado para trazer s costas, e, com os veados, conseguia
correr atrs deles e lanar-lhes de perto a lana fatal. Uma nica vez o vi aflito. Certa vez em que, depois de ter perseguido a presa a toda a velocidade, se estatelou
redondo no cho, de tal modo que s ao fim de al-
Nota do tradutor: Icor era O etreo fluido que, segundo a mitologia grega, corria nas veias dos deuses em vez do humano sangue.

#gum tempo recuperou a conscincia. Fora o seu p direito, explicou, fora o seu p direito que falhara.
jax podia ter violentos acessos de fria, mas nunca vi Aquiles perder a compostura. No era tmido nem retrado; possua, contudo, no mais fundo de si mesmo, uma
serenidade e um comedimento inabalveis. Ele era o guerreiro pensador. Uma espcie rara. Poder-se-ia pensar que aquela cutilada que tinha no lugar da boca seria
a traduo fsica do outro lado da sua natureza; porm, havia um nico aspecto em que essa correspondncia se revelava: quando havia alguma coisa que no estava
de acordo com o seu sentido da justeza, era capaz de ser to frio e inflexvel como o vento norte que sempre traz a neve.
Aqueles sete anos deram-me mais prazer do que todo o resto da minha vida, graas no apenas a Aquiles, mas tambm a jax. O contraste entre os primos era to notrio,
e eram to excelentes os dois, que transform-los em homens foi, para mim, uma obra amorosamente cumprida. De todos os rapazes que foram meus alunos, Aquiles foi
aquele que mais amei. Chorei quando se foi embora pela ltima vez; e, durante muitas luas aps a sua partida, a minha vontade de viver transformou-se num moscardo
to persistente como aquele que atormentou Io. S ao fim de muito tempo consegui contemplar o remate dourado do telhado do palcio cintilando ao sol sem que uma
nvoa pairasse diante dos meus olhos - uma nvoa que fazia com que esse remate dourado e o telhado se dissolvessem um no outro como minrio no crisol.
Captulo Quarto
Narrado por Helena
Xantipa era uma opositora terrvel; quando cheguei dos campos, vinha ofegante e exausta. Tnhamos atrado uma vasta audincia e no deixei de oferecer ao crculo
dos rostos que nos admiravam o mais radioso dos meus sorrisos. Nenhum homem quis dar os parabns a Xantipa por ter vencido o combate. Eles estavam l unicamente
para me verem. Quando o combate terminou, os homens rodearam-me, cobriram-me de elogios, usaram de todos os pretextos para me afagarem a mo ou o ombro; os mais
atrevidos propuseram-me at - brincavam,  claro - que combatesse contra eles. Esquivei-me aos seus gracejos e sugestes com o maior dos agrados; infelizmente, no
havia nas suas palavras o mnimo resquicio de subtileza.
Quanto  idade, eu era ainda uma criana. Os olhos deles, contudo, negavam isso; os olhos deles diziam de mim coisas que eu j sabia, pois havia nos meus aposentos
espelhos de cobre polido e tambm eu tinha olhos. Embora fossem nobres da corte, nenhum deles era verdadeiramente importante. Sacudi-os para longe de mim como sacudiria
a gua depois de ter tomado banho, peguei na toalha de linho que a minha criada trazia e com ela envolvi as minhas pernas nuas e suadas no meio de um coro de protestos.
Foi ento que vi meu pai para l da multido. O meu pai tinha assistido ao
combate? Mas que coisa rara! Pois se ele se recusava a ver as mulheres parodiando os desportos masculinos! A minha expresso de surpresa fez com que alguns dos nobres
se virassem; e, num pice, todos desapareceram. Fui ter com meu pai e beijei-o na face.
- Tens sempre um pblico to entusiasta? - perguntou-me ele de sobrolho franzido.
-  verdade, pai - retorqui, enquanto dava um jeito na minha roupa. Talvez no saibas, mas sou muito admirada.

#- Se no sabia, fiquei a saber. Devo estar a ficar velho, devo estar a perder os meus poderes de observao. Felizmente, o teu irmo mais velho no  cego nem velho.
Disse-me esta manh que talvez no fosse m ideia passar pelo campo onde as mulheres praticam desportos.
Fiquei furiosa.
- No faz sentido nenhum Castor preocupar-se comigo! - retorqui.
- Estaramos mal, se ele no se preocupasse contigo! Estvamos a chegar  porta da Sala do Trono.
- Vai lavar-te e vestir roupa nova, Helena. Depois, vem ter comigo. No rosto dele no havia a menor sugesto quanto ao que pretendia dizer-me; limitei-me a encolher
os ombros e desatei numa corrida a caminho dos meus aposentos.
Neste estava  minha espera, ansiosa por poder cacarejar as suas censuras. Deixei-a tirar-me a toalha, desejosa como estava de um bom banho quente, da sensao do
raspador na minha pele. Neste, que ainda no se calara, atirou a toalha para um canto e desapertou os cordes da minha tanga. Mas eu no ouvia nada do que ela dizia.
Corri pelas lajes frias, saltei para a gua quente do banho e desatei a chapinhar alegremente. Era a maior das delcias, sentir a gua ondeando  minha volta, acariciando-me
- e poder acariciar-me a mim mesma, porque os olhos velhos de Neste s conseguiriam ver alguma coisa se a gua fosse to lmpida como a de uma nascente. E que agradvel
que era depois, quando ela me massajava com leos fragrantes - e eu prpria me massajava um pouco. Nunca eram demasiados aqueles momentos em que podia acariciar-me,
mexer-me, proporcionar-me aqueles arrepios e frmitos a que outras raparigas, como Xantipa, pouco pareciam ligar. Talvez porque no tinham tido um Teseu a ensin-las.
Uma das minhas outras criadas disps em crculos no cho a minha saia para que eu pudesse entrar pelo meio. Ergueram-na depois ao longo das minhas pernas e apertaram-na
na cintura. Era pesada, mas eu j estava habituada quele peso, pois envergava uma saia de mulher h j dois anos, desde que regressara de Atenas. A minha me achava
demasiado ridculo que eu voltasse a vestir roupas de criana depois daquele episdio.
Vieram depois a blusa, atada sob os seios, e o amplo cinto e o avental que s poderiam ser apertados se eu sustivesse o suficiente a respirao. Uma diligente criada
enfiou os meus caracis no diadema de ouro, outra colocou-me nas orelhas um belo par de brincos de cristal. Estendi os meus ps nus um de cada vez e deixei-as enfiar
pequenas alianas e sininhos em todos os meus dedos, estendi os braos para receber dezenas de tilintantes braceletes, estendi os dedos para os esperados anis.
Quando acabaram, pus-me diante do maior dos meus espelhos e examinei a minha aparncia com uns olhos crticos. A saia era a mais bonita que eu possua, um mar de
folhos e babados desde a cintura aos tornozelos, transbordando de contas de cristal e mbar, amuletos de lpis-lazli e ouro trabalhado, sininhos dourados e pingentes
de faiana, de tal forma que todos os meus movimentos eram acompanhados por msica. O meu cinto no estava suficientemente apertado; chamei duas mulheres das mais
fortes para procederem a tal operao.
- Neste, porque  que eu no posso pintar de ouro os meus mamilos? perguntei. - De nada lhe vale queixar-se a mim, jovem princesa. Pergunte  sua me.
Mas, se quer um conselho, recorra a um tal artifcio apenas quando precisar dele
- por exemplo, depois de ter dado  luz um filho, pois os seus mamilos ganharo um tom castanho-escuro.
Decidi que Neste era muito capaz de ter razo. Eu era, nesse particular, muito afortunada; os meus mamilos eram de um belo tom rosa e, pela sua forma, faziam lembrar
um boto de rosa, os meus seios eram cheios e erectos.
Que dissera Teseu? Dois gordos cachorrinhos brancos com uns narizes cor-de-rosa. A minha disposio mudou por completo mal pensei nele; afastei-me bruscamente da
minha imagem, e toda a saia tilintou e cintilou. Ah, daria tudo para voltar a estar nos seus braos ... ! Teseu, meu querido Teseu! A boca dele, as mos, o modo
como atormentava o meu corpo at que este j no aguentava mais e suplicava que ele o saciasse... At ao dia em que os meus mui respeitveis irmos, Castor e Plux,
resolveram aparecer e levar-me de Atenas. Ah, se ao menos ele estivesse em Atenas quando eles chegaram! Mas Teseu estava em Cirios, com o rei Licomedes, e por isso
ningum ousou opor-se aos filhos de Tndaro.
Deixei que as criadas traassem uma linha de p negro  volta dos meus olhos e pintassem de ouro as pestanas, mas recusei o carmim para as faces e os lbios. No
precisava de carmim nenhum - fora o que Teseu dissera. Depois, encaminhei-me para a Sala do Trono. O meu pai estava sentado numa espreguiadeira junto  janela.
Levantou-se imediatamente.
- Vem para aqui, que h mais luz - disse ele. Obedeci sem protestar; Tndaro era o meu indulgente pai, mas tambm era o rei. Quando me viu banhada de sol, recuou
uns passos e olhou-me como nunca havia olhado.
- No h dvida - disse ele. - Os olhos de Teseu viram mais e melhor do que todos os olhos da Lacedemnia! A tua me tinha razo: j s uma mulher.
Portanto, temos de fazer qualquer coisa antes que aparea outro Teseu.
O meu rosto ardia, mas nada disse.
-  tempo de te casares, Helena. - Reflectiu por um momento. - Que idade tens?
Catorze anos, pai. - Casamento! Mas que interessante!

#- No  demasiado cedo - disse ele. A minha me entrou nesse momento. Evitei os olhos dela: era uma sensao muito estranha, estar ali diante do meu pai, enquanto
ele me apreciava com os olhos de um homem, e no com os de pai. Mas a minha me ignorou-me. Foi para ao p dele e tambm ela tratou de me apreciar. Depois, trocaram
um olhar demorado, conclusivo.
- Eu j te tinha dito, Tndaro - disse ela.
- Eu sei, Leda. Ela precisa de um marido. A minha me desatou a rir-se: um riso sonoro, musical, que (diziam os rumores) deixara o omnipotente Zeus extasiado. Leda
tinha mais ou menos a minha idade quando a encontraram nua e abraada a um cisne, gemendo de prazer. A minha me arranjara rapidamente uma explicao para to estranho
caso. O cisne era Zeus! Zeus tinha-a desflorado! Mas eu, que era sua filha, no acreditava em tais histrias e imaginava o prazer que aquelas deliciosas penas brancas
lhe teriam proporcionado. O pai dela casara-a com Tndaro trs dias depois e Leda dera  luz dois pares de gmeos: Castor e Clitemenestra, primeiro, Plux e eu,
depois. Ainda que, agora, aparentemente, toda a gente achasse que Castor e Plux  que eram gmeos. Ou que tnhamos nascido todos do mesmo parto. Se assim fosse,
quais seriam os filhos de Zeus e quais os de Tndaro? Um mistrio.
-As mulheres da minha casa amadurecem cedo e sofrem muitssimo - disse Leda, rindo-se ainda.
O meu pai no se riu. Limitou-se a dizer que sim, num tom bastante triste.
- No ser difcil encontrar-lhe um marido. Sero tantos os pretendentes que ters de corr-los com o teu basto.
- Ora essa! A nossa filha pertence a uma nobre estirpe e o seu dote  muito valioso: poucos ousaro pedir a sua mo.
- Tolices, Tndaro, tolices! Ela  to bonita que nem precisa de dote. O rei supremo da tica fez-nos um grande favor - espalhou louvores  sua beleza desde a Tesslia
a Creta. No  todos os dias que um homem to velho e gasto como Teseu faz uma loucura como raptar e desflorar uma rapariga de doze anos.
Os lbios de meu pai franziram-se de raiva.
- Preferia que esse assunto no fosse mencionado - disse ele, categrico.
- S  pena  que seja mais bela do que Clitemenestra.
- Clitemenestra est bem para Agammnon.
- Ento  pena que no haja dois reis supremos de Micenas.
- H outros reis supremos na Grcia - disse ele, num tom mais prtico e eficiente.
Afastei-me sub-repticiamente da luz, pois no queria que reparassem que eu ainda ali estava e que me mandassem embora. O assunto - ou seja, eu prpria era demasiado
interessante. Gostava de ouvir as pessoas dizerem que eu era bela.
Especialmente quando acrescentavam que era mais bela do que Clitemenestra, a minha irm mais velha, que se casara com Agammnon, rei supremo de Micenas e rei supremo
de toda a Grcia. Nunca gostara dela. Quando eu era pequena, ficava aterrorizada com os seus famosos acessos de clera. Desatava a andar de um lado para o outro,
o seu cabelo cor de fogo parecia eriar-se de fria, os seus olhos negros pareciam dardejar. Sorri um imenso sorriso s de pensar nela. O marido -rei supremo ou
no - devia andar numa dana constante por causa das frias dela! No entanto... no entanto Agammnon parecia capaz de control-la. De facto, era to prepotente como
Clitemenestra.
Os meus pais continuavam a debater o meu casamento.
- O melhor ser mandar mensageiros a todos os reis - disse o meu pai.
- Sim - e quanto mais depressa, melhor. Embora a Nova Religio no veja com bons olhos a poligama, h muitos reis que ainda no escolheram rainha. Idomeneu, por
exemplo. Imagina s! Uma filha no trono de Micenas, e a outra no trono de Creta! Seria um verdadeiro triunfo!
- Creta no  j a potncia de outros tempos - objectou o meu pai. - As duas posies no so equivalentes.
- Filoctetes?
- Sim,  um homem brilhante, e esperam-no grandes feitos, segundo se diz.
Contudo, Filoctetes  um dos reis da Tesslia o que significa que deve vassalagem a Peleu, bem como a Agammnon. Estou mais inclinado para Diomedes, que acaba de
regressar da campanha de Tebas, coberto de riquezas e glria. Gosto da ideia de a nossa filha ficar em Argos, um reino to perto do nosso. Se Peleu fosse mais jovem,
t-lo-ia escolhido sem pensar duas vezes, mas, segundo consta, Peleu recusa voltar a casar-se.
- No vale a pena perdermos tempo com aqueles que no esto disponveis
- retorquiu a minha me. - H sempre uma outra hiptese... Menelau.
- Eu no me esqueci dele. Quem poderia esquecer-se de Menelau?
- Envia convites a todos, Tndaro. Para alm de reis, tambm h herdeiros. Ulisses, de taca,  agora o rei, pois o velho Laertes est senil. E Menesteu  um rei
supremo da tica muito mais estvel do que Teseu jamais foi - agradeamos a todos os deuses o facto de no termos de lidar com Teseu!
- Que queres dizer com isso, me? - perguntei eu, sentindo j um formigueiro percorrendo-me a pele. A minha esperana, a esperana que o meu corao acalentava,
era que Teseu viesse buscar-me e desposar-me. Desde que voltara de Atenas que no ouvia falar de Teseu.
A minha me pegou nas minhas mos, apertou-as com firmeza.

#-  Bom, Helena,  melhor que sejamos ns a dar-te a notcia. Teseu morreu. Foi morto no seu exilio em Ciros.
Afastei-me dela e corri dali para fora. Os meus sonhos estavam reduzidos a cinzas. Morto? Teseu estava morto? Teseu estava morto e uma parte de mim morrera tambm.
O meu cunhado Agammnon chegou duas luas mais tarde e trazia consigo o seu irmo Menelau. Eu estava presente quando entraram na Sala do Trono - uma novidade para
mim, mas uma novidade que me deixava eufrica; de sbito, todas as discusses giravam em torno de mim. Mensageiros tinham-nos avisado da sua chegada; por isso, o
rei supremo de Micenas e de toda a Grcia entrou no palcio ao som de trombetas e os seus imperiais ps pisaram, no as vulgares lajes, mas uma passadeira de ouro.
No conseguia decidir se gostava dele ou no; compreendia, no entanto, o temor que ele inspirava. Muito alto e direito e to disciplinado como um soldado profissional,
Agammnon caminhava como se fosse o dono do mundo. No seu cabelo azeviche, espreitavam j alguns salpicos grisalhos; os olhos negros, faiscantes, podiam tornar-se
de sbito ameaadores; o nariz era altivamente adunco; os lbios finos encrespavam-se nos cantos, numa constante expresso de desdm.
Homens to escuros eram invulgares na Grcia, uma terra de homens to atlticos quanto brancos. Porm, em vez de ter vergonha da sua tez escura, Agammnon exibia-a
cheio de vaidade. Ainda que a moda ditasse que os homens rapassem a barba, o meu cunhado usava uma longa barba negra que havia sido transformada num sem-nmero de
tranas apertadas e realadas com fios de ouro; o cabelo, usava-o exactamente do mesmo modo. Envergava uma tnica de l prpura bordada com um complicado padro
de fio de ouro e, na mo direita, empunhava o ceptro imperial de ouro macio - e com tanta facilidade como se o ceptro fosse feito de greda.
O meu pai levantou-se do trono e ajoelhou para lhe beijar a mo, prestando-lhe a homenagem que todos os reis gregos deviam ao supremo rei de Micenas. A minha me
avanou para se juntar a eles. Por ora, todos me ignoravam, o que me dava tempo para apreciar Menelau, um dos meus pretendentes. Oh, oh! A expectativa deu lugar
a uma profunda decepo. Metera na cabea que Menelau seria uma rplica de Agammnon, mas aquele homem nada tinha em comum com o irmo. Seria mesmo irmo germano
do supremo rei de Micenas, filho de Atreu e da mesma me? Francamente: tal no parecia possvel. Era pequeno. Atarracado. As pernas eram to grossas e disformes
que, enfiadas naqueles cales apertados que ele trazia, davam-lhe um ar profundamente ridculo. Os ombros eram redondos e curvados. Uma criatura mansa e tmida.
Traos vulgarssimos. O cabelo era igual ao da minha irm: cor de fogo. At era capaz de gostar um bocadinho mais dele se o cabelo fosse de outra cor.
O meu pai acenou-me. Avancei meio embaraada e dei-lhe a minha mo. O visitante imperial fitou-me: um olhar escaldante, prenhe de admirao. Pela primeira vez, senti
algo que viria a tornar-se muito comum: eu era muito simplesmente um animal valioso oferecido em leilo a quem pudesse pagar mais.
-  perfeita - disse Agammnon ao meu pai. - Como  que consegues produzir filhos to belos, Tndaro?
O meu pai riu-se, enquanto abraava a minha me pela cintura.
- Eu sou s responsvel por metade - disse. Afastaram-se ento e deixaram-me a conversar com Menelau, mas ainda pude ouvir a questo decisiva.
- Digam-me: afinal o que  que se passou realmente com Teseu? - perguntou Agammnon.
Leda adiantou-se ao marido:
- Ele raptou-a, Agammnon. Felizmente, os Atenienses chegaram no momento certo: apanharam-no antes que ele conseguisse desflor-la. Castor e Plux trouxeram-na virgem.
Mentirosa, mentirosa! Menelau no tirava os olhos de mim; retoquei um pouco o meu aspecto.
- Nunca tinhas estado em Arniclas - disse-lhe por fim. Ele murmurou qualquer coisa e baixou a cabea, muito triste. - Que disseste? - perguntei.
- Na-na-na-nada - disse ele, e, desta feita, ouvi. Menelau ficara gago!
Os pretendentes acorreram a Amiclas. Menelau era o nico que podia residir no interior do nosso palcio, graas  sua relao com a nossa famlia - e  influncia
do irmo. Os outros ficaram nas casas dos nobres da corte e no palcio destinado aos convidados. Uma centena de pretendentes. A descoberta mais animadora que fiz
foi que nenhum deles era to maador ou inspido como o gago e ruivo Menelau.
Filoctetes e Idomeneu chegaram juntos; o corpulento e louro Filoctetes parecia a energia personificada, ao passo que o altivo Idomeneu se comportava com a arrogncia
consciente de quem nascera na Casa de Minos e que, depois de Catreu, seria o supremo rei de Creta.
Quando Diomedes entrou, conclu estar perante o melhor de todos os meus pretendentes. Um verdadeiro rei e guerreiro. Tinha o mesmo ar de experincia mundana que
encontrara em Teseu, ainda que fosse moreno, ao passo que Teseu era

#louro; de facto, Diomedes era to escuro como Agammnon. Que belo que ele era! Alto e gil, uma pantera negra. Os olhos dele cintilavam de um humor impudente, a
boca parecia estar sempre a rir-se. E eu soube, nesse exacto instante, que seria ele o meu eleito. Quando falou comigo, o seu olhar arrebatou-me; a faca do desejo
cravou-se bem funda dentro de mim, o meu sexo ansiava por aquele homem. Sim, eu escolheria o rei de Argos - para mais, como dissera o meu pai, Argos ficava to perto...
Logo que chegou o ltimo dos pretendentes, o meu pai ofereceu um monumental banquete. Sentei-me no estrado como se fosse j uma rainha, fazendo de conta que no
reparava nos cem pares de ardentes olhos que constantemente me espreitavam. Quanto aos meus olhos, sempre que a ousadia mo permitia, procuravam Diomedes. O qual,
inopinadamente, deixou de olhar para mim, para atentar num homem que avanava por entre os bancos, um homem cuja chegada foi saudada por vivas de alguns e carrancas
de outros. Diomedes levantou-se de um salto, o desconhecido virou-se e abraaram-se calorosamente. Aps um rpido dilogo, o desconhecido seguiu na direco do estrado
a fim de saudar o meu pai e Agammnon, os quais se encontravam j de p. Agammnon levantara-se?
O rei supremo de Micenas no se levantava nunca perante homem nenhum!
Era diferente, o recm-chegado. Era um homem alto, mas seria consideravelmente mais alto se as suas pernas fossem proporcionais ao resto do corpo. Mas no eram.
Eram anormalmente curtas e algo arqueadas; a sua constituio musculada era demasiado imponente para estar empoleirada em cima de suportes to atrofiados. O rosto
era inegavelmente belo: os traos eram muito correctos e os olhos cinzentos eram grandes, luminosos, eloquentes. O cabelo era ruivo, o ruivo mais brilhante e mais
agressivo que jamais vira; as cabeleiras de Clitemenestra e Menelau no eram nada ao p daquele fogo que lhe adornava a cabea.
Quando os seus olhos me fitaram, senti muito claramente todo o seu poder. At estremeci. Quem era aquele homem?
O meu pai acenou impaciente para um criado, que correu a colocar uma cadeira rgia entre ele e Agammnon. Quem poderia ser aquele homem, para ser objecto de tantas
honrarias? E para ficar to pouco impressionado com essas honrarias?
- Apresento-te Helena - disse o meu pai.
- No admira que quase toda a Grcia esteja aqui, Tndaro - disse ele jovialmente, aps o que pegou numa perna de galinha, cravando imediatamente na carne os seus
dentes brancos. - No h dvida, os boatos eram verdadeiros -ela  de facto a mais bela mulher do mundo. Vais ter problemas com esta multido de homens enfeitiados,
pois s poders agradar a um e ters de desiludir todos os outros.
Agammnon e o meu pai riram-se do comentrio.
- Ulisses: estava  espera de que resumisses brilhantemente o problema logo que chegasses - disse o rei supremo.
Senti-me uma parva, agora que a minha surpresa e admirao se tinham esfumado. Claro: s poderia ser Ulisses. Que outro homem se atreveria a falar com Agammnon
como se este fosse um seu igual? Que outro homem poderia ter direito a uma cadeira especial no estrado rgio?
Muita coisa ouvira acerca de Ulisses. O seu nome vinha  baila sempre que se falava de leis, de decises, de novos tributos, de guerra. O meu pai, em tempos, chegara
mesmo a deslocar-se a taca - uma viagem particularmente fatigante -s para o consultar. Era considerado o homem mais inteligente do mundo, mais inteligente ainda
do que Nestor e Palamedes. E no era s inteligente; tambm era sbio. No admira que, na minha imaginao, Ulisses fosse um venervel ancio de barbas brancas,
todo curvado sob o peso de um sculo de existncia, to velho como o rei Nestor de Pilos. Quando Agammnon tinha assuntos importantes a discutir mandava chamar Palamedes,
Nestor e Ulisses, mas, normalmente, era Ulisses quem tinha a ltima palavra.
Dizia-se tanta coisa sobre a Raposa de taca, como lhe chamavam os homens. Dizia-se que o seu reino era formado por quatro pequenas ilhas rochosas e estreis ao
largo da costa ocidental, um pobre e desprezvel domnio se comparado com a maior parte dos outros reinos. O palcio dele era modesto; o prprio Ulisses era agricultor,
j que os seus nobres no podiam pagar-lhe os tributos adequados  posio de um rei; no entanto, o seu nome tornara famosas as quatro pequenas ilhas - taca, Leucdia,
Zaquinto e Cefalnia.
Por essa altura, Ulisses no teria muito mais do que vinte e cinco anos - e, quem sabe, talvez fosse at mais novo, pois a sabedoria sempre envelhece o rosto de
um homem.
Continuaram a conversar, esquecidos talvez de que eu estava  esquerda do meu pai e poderia ouvir tudo o que eles diziam, fingindo que no estava a escutar. Como
do outro lado tinha Menelau, no havia conversas susceptveis de me distrarem.
- Tencionas pedir a mo de Helena, meu astuto amigo? Ulisses ps um ar malicioso.
- Tu conheces-me, Tndaro.
- Claro que conheo, mas... porqu? No estava  espera que tentasses conquistar uma beldade estonteante, mas a verdade  que Helena tem um belssimo dote.
Ulisses fitou o meu pai com uma expresso algo decepcionada. -A minha curiosidade, Tndaro - no te esqueas de que sou muito curioso! Achas que eu perdia um espectculo
destes?

#Agammnon sorriu, mas o meu pai riu-se bem alto.
- Espectculo  mesmo a palavra certa! Mas que hei-de fazer, Ulisses? Olha s para eles! Cento e um reis e prncipes rosnando todos uns para os outros e perguntando-se
quem ser o felizardo - e decididos a contestar a escolha, por muito lgica ou poltica que esta seja.
Agammnon resolveu finalmente falar.
- Isto transformou-se numa espcie de concurso. Quem ser o preferido do supremo rei de Micenas e do seu sogro Tndaro da Lacedemnia? Eles sabem que Tndaro seguir
os meus conselhos! Creio que esta situao s poder produzir uma coisa - uma inimizade duradoura.
- Sem dvida. Reparem em Filoctetes: o modo como ele ergue o seu arrogante pescoo, o desprezo com que olha para os outros. Isto para no falar de Diomedes e Idomeneu.
Ou de Menesteu. Ou de Euripilo. E assim por diante.
- Que havemos de fazer? - perguntou o rei supremo.
- Esse  um pedido formal de conselho, Agammnon?
- Muito formal, Ulisses.
Furiosa, dei-me conta de quo insignificante era o meu papel em todo aquele teatro. De sbito, apetecia-me chorar. Quem escolhia? Eu? Nem pensar! Eles
- Agammnon e o meu pai - escolheriam por mim. Ainda que, apercebia-me disso agora, fosse nas mos de Ulisses que estava o meu destino. E Ulisses, gostaria de mim?
Nesse exacto momento, Ulisses piscou-me o olho. Senti-me desolada. No, ele no gostava de mim. No havia sombra de desejo naqueles belos olhos cinzentos. Ulisses
no viera disputar a minha mo; viera porque sabia que precisavam dos seus conselhos. Viera unicamente para consolidar ainda mais o seu prestgio.
- Como sempre, terei muito gosto em ajud-los - disse ele num tom insinuante, fitando agora o meu pai. - No entanto, Tndaro, antes de abordarrnos o problema do
casamento de Helena, um casamento que dever ser politicamente adequado, tenho um pequeno favor a pedir-te.
Agammnon pareceu ofendido; perplexa, perguntei-me que subtil negcio iria sair dali.
- Queres Helena para ti? - perguntou o meu pai. Que maneira mais grosseira de pr as coisas!, disse para mim mesma.
Ulisses desatou numa tal risada que, por um momento, todo o salo se calou.
- No, no! No me atreveria a disputar a mo de Helena, pois a minha fortuna  desprezvel e o meu reino vive numa eterna penria! Pobre Helena! Imagina s: uma
mulher to bela confinada a uma rocha, no meio do mar Jnio! No, eu no quero desposar Helena.  outra que eu quero.
Ah! - disse Agammnon, mais tranquilo. - Quem  a felizarda?
ulisses preferiu dar a resposta ao meu pai.
- A filha do teu irmo Icrio, Tndaro. Penlope.
- No ser difcil - disse o meu pai, surpreendido.
- icrio detesta-me e  natural que haja pretendentes muito melhores que eu.
- Eu tratarei disso - disse o meu pai.
- Est descansado que Penlope ser tua - disse Agammnon. Fiquei estupefacta! Era possvel que eles entendessem o que Ulisses via em Penlope, mas eu no entendia.
Conhecia-a bem; era minha prima direita. Para alm de ser uma herdeira rica, no era feia; no entanto, era c uma maadora! Certa vez, surpreendera-me com um nobre
da minha casa, a quem eu deixara que me beijasse os seios - claro que no o deixaria fazer mais do que isso! -, e pregara-me uma tal homilia! Que os desejos da carne
eram baixos e degradantes, disse-me ela com aquela voz que ela tem, fria, comedida, sem sombra de emoo. E que deveria interessar-me pelas artes verdadeiramente
femininas, como a tecelagem. Fiquei pasmada a olhar para Penlope, como se ela estivesse louca. A tecelagem!
Ulisses comeara a falar; abandonei os meus pensamentos sobre a prima Penlope e pus-me  escuta.
- Julgo saber a quem tencionas conceder a mo da tua filha, Tndaro, e compreendo as tuas razes. Contudo, o facto de escolheres este ou aquele pretendente  irrelevante.
O que  relevante  que salvaguardes os teus prprios interesses, bem como os de Agammnon - e o teu relacionamento com os cem infelizes, depois de teres anunciado
a tua escolha. Creio que conseguiremos salvaguardar tudo isso - mas  preciso que faam exactamente aquilo que lhes vou dizer.
Agammnon respondeu: - Faremos.
- Nesse caso, o primeiro passo a dar consistir em devolver todas as prendas que os pretendentes ofereceram e em agradecer as suas generosas intenes do modo mais
elegante possvel.  essencial que nenhum destes homens te considere um ganancioso, Tndaro.
O meu pai olhava-o com um ar pesaroso.
-  mesmo necessrio?
- No  necessrio, Tndaro:  imperioso.
- As prendas sero devolvidas - disse Agammnon.
- ptimo. - Ulisses inclinou-se um pouco para a frente, os dois reis fizeram o mesmo. - Anunciars a tua escolha de noite, na Sala do Trono.  preciso que o palcio
esteja mal iluminado - esperemos que a Lua colabore - e que haja na atmosfera uma forte presena sagrada. Ordena a todos os sacerdotes que venham. Manda queimar
grandes quantidades de incenso. O meu objectivo  oprimir os espritos dos pretendentes e isso s pode ser alcanado atravs de cerim-

#nias rituais. No podes correr o risco de provocar reaces intempestivas da parte de guerreiros consideravelmente inflamados.
- Como queiras - disse o meu pai com um suspiro; Tndaro detestava mincias.
- Isto, Tndaro,  s o princpio. No teu discurso, informars os pretendentes de que idolatras a valiosa jia que  a tua filha e que passaste horas sem fim rezando
aos deuses para que te guiassem na difcil escolha. A tua escolha - dir-lhes-s ento - foi aprovada no Olimpo. Os augrios so auspiciosos e os orculos claros.
Porm, o omnipotente Zeus imps uma condio, a saber: antes que qualquer homem - excepto tu mesmo - saiba o nome do feliz vencedor, todos os homens tero de pronunciar
um juramento a fim de apoiarem a tua escolha. Mas h mais. Todos os homens devero tambm jurar que daro ao marido de Helena todo o apoio e cooperao de que este
precisar. E que, se for preciso, todos eles iro para a guerra, a fim de defenderem os direitos e prerrogativas do marido de Helena.
Agammnon ficou calado, o olhar perdido no espao, mordendo os seus lbios e ardendo visivelmente de um qualquer fogo interior. O meu pai parecia simplesmente espantado.
Ulisses recostou-se na cadeira, debicando mais uma perna de galinha, obviamente satisfeito consigo mesmo. De sbito, Agammnon virou-se para ele e agarrou-o pelos
ombros, as juntas dos dedos plidas devido  violenta presso das mos, o rosto pressagiando ameaas. Ulisses, porm, sem qualquer receio, olhou para ele tranquilamente.
- Pela Me Kubaba, Ulisses, tu s um gnio! - O rei supremo virou-se depois para o meu pai. - Tndaro, sabes o que significa isto? Quem casar com Helena, dispor
de alianas permanentes e irrevogveis com quase todas as naes da Grcia! O futuro desse homem estar garantido! A sua posio ser reforada um milhar de vezes!
O meu pai, embora profundamente aliviado, franziu o sobrolho.
- Mas que juramento lhes hei-de eu impor? - perguntou. - Que juramento ser capaz de os obrigar a algo que abominam?
- S h um juramento capaz disso - disse Agammnon lentamente. - O Juramento do Cavalo Esquartejado. Por Zeus, o Senhor dos Troves, por Poseidon, o Senhor dos Terramotos,
pelas filhas de Kore, pelo rio e pelos mortos.
As palavras caam como gotas de sangue da cabea de Medusa; o meu pai estremeceu, escondeu o rosto entre as mos.
Nada impressionado, Ulisses mudou abruptamente de assunto.
- Que acontecer no Helesponto? - perguntou ele a Agammnon como se estivesse a ter a mais normal das conversas.
O supremo rei franziu o sobrolho.
- No sei. Oh, mas afinal o que  que se passa com o rei Pramo de Tria?
Porqu a sua cegueira perante as vantagens que obteria se deixasse os mercadores gregos entrarem no mar Euxino?
- Creio - disse Ulisses, escolhendo um bolo de mel para sobremesa - que Pramo tem muito a ganhar ao excluir os mercadores gregos. Ele j est rico com os tributos
do Helesponto. Alm disso, firmou tratados com os outros reis da sia Menor e estou certo de que fica com uma parte dos exorbitantes preos que ns temos de pagar
pelo estanho e pelo cobre da sia Menor. A excluso dos Gregos do Euxino significa mais dinheiro para Tria, no menos.
- Tlamon fez-nos muito mal quando raptou Hesona! - disse o meu pai, furioso.
Agammnon abanou a cabea.
- Tlamon fez o que estava certo. Tudo o que Hracles pediu foi que lhe pagassem o grande servio que prestou a Tria. Quando Laomedonte, aquele miservel sovina,
se recusou a pagar-lhe, at mesmo um idiota saberia prever o desfecho.
- Hracles morreu h mais de vinte anos - disse Ulisses, deitando gua no seu vinho. - Teseu tambm est morto. S Tlamon vive ainda. Tlamon nunca aceitaria que
o separassem de Hesona, mesmo que Hesona o desejasse. Essas histrias de rapto e violao j no convencem ningum - prosseguiu Ulisses calmamente. Pelos vistos,
nunca ouvira falar da histria de Helena e Teseu. -
Alm disso, pouco tm a ver com poltica. A Grcia est a crescer. A sia Menor sabe disso. Portanto, que melhor poltica poderiam seguir Tria e as outras naes
da sia Menor seno recusar  Grcia aquilo que a Grcia tem de ter - o estanho e o cobre com que se faz o bronze?
- Sem dvida - disse Agammnon, afagando as tranas da barba. - Nesse caso... o que acontecer se o embargo comercial de Tria se mantiver?
- A guerra - retorquiu tranquilamente Ulisses. Mais tarde ou mais cedo, ter de haver uma guerra. Quando a situao se tornar insustentvel - quando os nossos mercadores
desatarem a exigir justia em todas as Salas do Trono entre Cnossos e lolcos - quando j no tivermos estanho suficiente para transformarmos o nosso cobre em bronze
e para produzirmos espadas e escudos e pontas de flechas - ento haver guerra.
A conversa ficou ainda mais maadora do que j estava; bom, tambm  verdade que eu deixara de ser o tema central. Alm disso, j no podia mais com aquele Menelau
ao meu lado. O vinho comeava a perturbar a reunio: eram cada vez menos os rostos que se viravam para me adorar. Levantei-me sub-repticiamente e escapei-me por
uma porta que havia por detrs da cadeira do meu pai. Meti ento pela passagem que seguia paralela ao salo: infelizmente, trazia aquela barulhenta saia e cada passo
meu produzia uma msica insuportvel. A escada-

#ria que dava acesso  ala das mulheres ficava no final dessa passagem; subi as escadas a correr sem que ningum desse por mim e me ordenasse que regressasse ao
salo. Agora, teria apenas de passar pelos aposentos da minha me. De cabea baixa, afastei a cortina.
De repente, senti os meus braos dominados por vigorosas mos. O meu grito de alarme foi imediatamente sufocado por uma dessas mos. Diomedes! Com o corao a bater
desvairadamente, fitei-o. At ento, no tivera oportunidade de estar a ss com Diomedes, e a conversa que mantivera com ele resumira-se a umas quantas saudaes
formais.
A luz da lamparina cintilava na sua pele e dava-lhe um brilho de mbar; na coluna da sua garganta, uma corda batia veloz; permiti que os meus olhos beijassem os
seus olhos escuros transbordantes de desejo e senti a mo dele afastando-se da minha boca. Que belo que era aquele homem! E eu amava tanto a beleza! Mas a beleza
que eu mais amava era sem dvida a dos homens.
- Vem ter comigo ao quintal - segredou-me. Abanei energicamente a cabea.
- Deves estar louco! Larga-me que eu no contarei a ningum que estavas  entrada dos aposentos da minha me! Larga-me!
O branco dos seus dentes cintilou: ria-se silenciosamente.
- No saio daqui enquanto no me prometeres que vais ter comigo ao quintal. O banquete ainda est para durar - ningum dar pela nossa falta. Eu desejo-te, rapariga!
As tuas decises, os teus subterfgios, no me demovero. Quero-te para mim e vais ser minha!
Tinha ainda a cabea tonta da excitao do banquete; levei a mo  cabea e esta, como se tivesse ganho vida prpria, acenou que sim! Diomedes largou-me imediatamente
e eu corri para os meus aposentos.
Neste estava  minha espera para me despir.
- Vai para a cama, velha! Eu dispo-me sozinha! Habituada como estava ao meu mau gnio, Neste recolheu de bom grado ao seu quarto, deixando-me a desapertar os inmeros
laos com os mais trmulos dos dedos, a tirar o corpete e a blusa, a libertar-me da saia. Arranquei sinos, braceletes e anis e, por fim, peguei no meu roupo de
banho e vesti-o. Depois, corri pelo corredor, desci  pressa as escadas das traseiras e respirei fundo o ar fresco da noite. O quintal, dissera ele: com um sorriso,
enxerguei na escurido as couves e os outros legumes. Ningum se lembraria de nos procurar no meio dos legumes!
Diomedes estava nu sob um loureiro. Despi o roupo, longe dele o suficiente para que pudesse apreciar-me sob a chuva do luar. Um momento depois, j ele estava ao
meu lado, colocando o roupo no cho para que servisse de leito; por fim, abraou-me e deitou-me sobre a Me Terra, aquela Me que, conforme as leis dos deuses,
fortalece as mulheres e enfraquece os homens.
- S dedos e lnguas, Diomedes - murmurei. - Quero ir para o casamento com o hmen intacto.
Diomedes sufocou o seu riso entre os meus seios.
- Foi Teseu quem te ensinou a preservar a virgindade? - perguntou-me.
- Eu no preciso que me ensinem isso - retorqui, afagando os braos e os ombros dele, suspirando. - No sou muito velha, mas sei que a minha cabea  o preo que
terei de pagar, se perder a virgindade com outro homem que no o meu marido.
Creio que, quando nos separmos, Diomedes partiu satisfeito, ainda que as suas expectativas no tivessem sido totalmente cumpridas. Porque nutria por mim verdadeiro
amor, respeitara as minhas condies - tal e qual como Teseu. No que eu tivesse ficado muito preocupada com a satisfao ou a insatisfao de Diomedes. O que contava
realmente  que eu tinha ficado satisfeita.
Satisfao bem visvel na noite seguinte, quando me sentei ao lado do trono do meu pai, caso tivesse havido olhos para a ver. Diomedes estava com Filoctetes e Ulisses
no meio da multido - demasiado longe de mim para que eu pudesse aperceber-me do que o seu rosto dizia. Para mais, a Sala do Trono, embelezada por frescos representando
guerreiros danando e por colunas escarlates, havia mergulhado numa imensa escurido. Os sacerdotes surgiram ento, trazendo consigo uma densa e enjoativa fumarada
de incenso; silenciado todo o eventual alvoroo, a Sala do Trono ganhou a atmosfera solene, opressiva, de um verdadeiro templo.
Ouvi o meu pai dizer as palavras que Ulisses preparara; a opresso apoderou-se da sala como se fosse uma coisa viva. Trouxeram ento o cavalo sacrificial, um belssimo
garanho de uma alvura absoluta e com uns olhos cor-de-rosa, os cascos escorregando nas velhas lajes, a cabea serpeando no cabresto dourado. Agammnon pegou no
enorme machado de cabea dupla e brandiu-o com mos experientes. O cavalo caiu por terra, mas muito lentamente, a crina e a cauda flutuando como algas ao sabor da
corrente, enquanto o sangue jorrava abundante.
Enquanto o meu pai informava a audincia do juramento exigido, segui com horror os movimentos dos sacerdotes, que dividiam em quatro partes o cadver do belssimo
animal. No hei-de esquecer nunca essa cena: os pretendentes avanando um a um, equilibrando os seus dois ps sobre quatro peas de carne quente, pronunciando o
terrvel juramento de lealdade e obedincia ao meu futuro marido. As vozes soavam dbeis e apagadas, pois o poder e a masculinidade no resistiam ao pavor que a
cerimnia infundia nas mentes daqueles homens. Rostos plidos e suados surgiam para logo se esfumarem, ao sabor da luz dos archotes; um vento vindo no sei donde
soprava incessante, gritando como uma sombra perdida.

#A cerimnia chegou ao fim. A carcaa fumegante do cavalo jazia ignorada, os pretendentes erguiam os seus olhos, como que drogados, para o rei Tndaro da Lacedemnia.
- Dei a mo da minha filha a Menelau - anunciou o meu pai. Ouvi um enorme suspiro, nada mais. Ningum gritou um rpido protesto. Nem sequer Diomedes se ergueu furioso
da sua cadeira. Os meus olhos encontraram-se com os dele quando os criados comearam a acender as lamparinas; os nossos olhos despediram-se, com meia centena de
cabeas de permeio, sabendo que tnhamos sido derrotados. Creio que as lgrimas me corriam pelas faces enquanto o fitava, mas ningum reparou nas minhas lgrimas.
Por fim, a minha mo flcida deixou que a mo hmida de Menelau pegasse nela.

Captulo Quinto
Narrado por Pris

Regressei a Tria a p e sozinho, o arco e a aljava dependurados do ombro. Sete luas passara nas florestas e clareiras do monte Ida e no trazia comigo um nico
trofu para lhes mostrar. Adorava caar, mas no suportava ver um animal cair por terra trespassado por uma seta; preferia v-lo vivo e livre como eu. No que tocava
a caadas, os meus melhores momentos envolviam presas mais apetecveis do que o veado ou o javali. Para mim, a mais interessante das caas era a que eu fazia aos
habitantes humanos das florestas do Ida, as raparigas e pastoras selvagens. Quando uma rapariga caa, derrotada, s uma seta a trespassava, a de Eros; no havia
rios de sangue, nem os gemidos que anunciavam a morte, mas apenas suspiros de doce contentamento, enquanto eu a estreitava nos meus braos, ofegante ainda do xtase
da perseguio e pronto a perder de novo o flego por obra e graa de uma outra espcie de xtase.
Passava sempre a Primavera e o Vero no monte Ida; a vida na corte deixava-me louco de aborrecimento. Ah, o que eu odiava aquelas vigas de cedro, oleadas e polidas
at se tornarem de um castanho cintilante, aquelas salas de paredes pintadas, aquelas torres sustentadas por colunas! Estar encerrado dentro de enormes muralhas
era sufocar, era estar preso. Tudo o que eu queria era correr lguas e lguas de erva e rvores, deitar-me exausto sobre um leito perfumado pelas folhas que as rvores
 terra ofereciam. Porm, todos os Outonos, tinha de regressar a Tria e de passar o Inverno com o meu pai. Esse era o meu dever, ainda que simblico. No fim de
contas, eu era apenas o seu quarto filho de uma vasta prole. Ningum me levava a srio - antes assim!
Num dia frio e ventoso, entrei na Sala do Trono no final de uma assembleia, envergando ainda as minhas roupas de montanha, ignorando os sorrisos de desdm, os lbios
franzidos de reprovao. O crepsculo esbatia-se j, para dar lugar  melancolia da noite; fora longa a reunio.

#O meu pai, o rei, estava sentado na sua cadeira de ouro e marfim, sobre um estrado de mrmore prpura, ao fundo da sala, o seu longo cabelo branco requintadamente
encaracolado, a sua imponente barba branca entranada com finos fios de ouro e prata. Invulgarmente orgulhoso da sua provecta idade, era assim que ele mais gostava
de estar: sentado, como um deus antigo, sobre um elevado pedestal, contemplando tudo aquilo que possua.
Se a sala fosse menos imponente, o espectculo que o meu pai oferecia talvez no fosse to impressionante; contudo, segundo diziam, aquela sala era ainda maior e
mais grandiosa do que a velha Sala do Trono do palcio cretense de Cnossos. Espaosa o suficiente para albergar trezentas pessoas sem que parecesse apinhada de gente,
o seu tecto altssimo, para l das vigas de cedro, fora pintado de azul e salpicado de constelaes douradas. Possua colunas macias que afunilavam nas bases azul-escuras
ou prpura, simples capitis redondos e plintos dourados. As paredes eram de mrmore prpura sem quaisquer relevos at  altura da cabea de um homem; mais acima,
exibiam frescos com cenas de lees, leopardos, ursos, lobos e caadores - figuras a preto e branco, amarelas, carmins, castanhas e cor-de-rosa contra um fundo azul-plido.
Por detrs do trono, via-se um retbulo de bano egpcio, incrustado com padres de ouro, e os degraus que conduziam ao estrado rgio eram debruados a ouro.
Entreguei o arco e a aljava a um criado e avancei por entre os cortesos at chegar ao estrado. Ao ver-me, o rei inclinou-se para tocar suavemente na minha cabea
baixa com a esmeralda do seu ceptro de marfim, o sinal de que deveria erguer-me e abeirar-me dele. Beijei-lhe a face engelhada.
- Estou to contente por te ver, meu filho! - disse ele.
- Quem me dera poder dizer-te que estou contente por voltar - retorqui.
O meu pai afastou-me para que eu me sentasse aos seus ps. Com um suspiro, observou:
- Ainda no perdi a esperana de te ver todo o ano em Tria, Pris. Poderia fazer muito por ti, se tu no te ausentasses tanto.
Afaguei-lhe a barba porque ele gostava disso.
- Eu no quero levar uma vida de prncipe, meu pai.
- Mas tu s um prncipe! - Suspirou uma vez mais, mexeu-se nervoso no seu trono. - Embora sejas ainda muito novo, eu sei. Temos tempo.
- No, pai, tempo  coisa que no temos. Tu pensas que eu ainda sou um rapaz, mas a verdade  que eu sou um homem h j muito tempo. Tenho trinta e trs anos.
Pramo no ouviu nada do que eu disse, imaginei eu, pois vi-o erguer a cabea e acenar com o seu basto para algum que estava ao fundo da sala: Heitor.
Pris insiste que tem trinta e trs anos, meu filho! - disse ele quando Heitor parou junto aos trs degraus. Apesar dos degraus, Heitor era alto o bastante para
que o seu rosto ficasse ao mesmo nvel do do nosso pai.
os olhos escuros de Heitor examinaram-me atentamente.
- Suponho que deves ter essa idade, Pris. Eu nasci dez anos depois de ti e tenho vinte e trs anos e seis luas. - Ps um sorriso imenso e acrescentou: - Mas a verdade
 que pareces muito mais novo!
Desatei a rir-me.
- Obrigado, irmozinho! Tu  que pareces ter a minha idade. E tudo porque s tu o herdeiro. Ser o herdeiro de um trono envelhece um homem - fica-se acorrentado ao
estado, ao exrcito,  coroa. Eu prefiro a eterna juventude da irresponsabilidade!
-Aquilo que est bem para um homem, no est necessariamente bem para outro homem - foi a sua tranquila resposta. - O meu apetite por mulheres  muito menos acentuado
do que o teu: por isso, que importncia tem que eu parea velho antes de realmente o ser? Enquanto tu desfrutas das tuas incurses ao harm, eu sinto um prazer genuno
em comandar o exrcito sempre que h manobras. Por outro lado, o meu rosto poder ficar prematuramente engelhado, mas o meu corpo permanecer forte e capaz, ao passo
que o teu vergar-se- sob o peso de uma enorme pana!
Desisti. Heitor tinha uma facilidade sobrenatural para descobrir os nossos pontos fracos! Mal via um homem, localizava o seu ponto fraco e atirava-se a ele como
um leo. E no tinha medo nenhum de usar as suas garras. O facto de ser o herdeiro transformara-o rapidamente num homem maduro. A exuberante, e irritante, juventude
do ano anterior perecera como que por magia: Heitor moldara os seus inegveis talentos  tirania do trabalho til. Fosse como fosse, a verdade  que Heitor era corpulento
o suficiente para aguentar essa tirania. Eu no era uma fraca figura, mas Heitor era muito mais alto do que eu e, quanto a largura, tinha o dobro da minha. Vestia-se
de uma forma muito simples - e, portanto, com uma dignidade indesmentvel; bastava-lhe um saiote e uma camisa de cabedal, a longa cabeleira negra entranada, apanhada
atrs num belo rabo-de-cavalo. Todos ns, os filhos de Pramo e Hcuba, ramos famosos pela nossa beleza, mas Heitor tinha algo mais: uma autoridade natural.
Quase sem dar por isso, vi-me de p e afastado da companhia de meu pai; o velho Antenor indicara, com um ar mal-humorado, que pretendia falar com o rei antes que
a assembleia terminasse. Heitor e eu escapulimo-nos do estrado real sem que ningum desse pela nossa falta. -  Tenho uma surpresa para ti - disse o meu irmo mais
novo com um prazer tranquilo, enquanto atravessvamos as passagens aparentemente infindveis que ligavam as alas e os palcios menos importantes da cidadela.

#O palcio do herdeiro ficava ao lado do palcio real, da que a caminhada no fosse demasiado longa. Quando entrei na ampla sala de entrada do palcio de Heitor,
parei de repente e pus-me a olhar  minha volta, absolutamente estupefacto.
- Heitor! Onde  que ela est? Aquele que fora um armazm atravancado de lanas, escudos, armaduras e espadas, era agora uma sala. E tambm no tresandava a cavalos,
ainda que Heitor adorasse cavalos. No me lembrava da decorao das paredes do velho armazm, mas as paredes daquela sala brilhavam de rvores em tons jade e azul,
de flores prpura, de cavalos a preto e branco, cabriolando. O cho estava to limpo que o seu mrmore preto e branco cintilava. Trpodes e ornamentos haviam sido
polidos, e cortinas prpura, magnificamente bordadas, pendiam de argolas douradas em todas as portas e janelas.
- Onde  que ela est? - repeti. Heitor corou.
- J no demora - resmungou. Ela entrou nesse mesmo instante. Examinei-a de alto a baixo e tive de concordar que o meu irmo tinha bom gosto; a sua esposa era extremamente
bonita. To morena como ele, alta e robusta. E to desajeitada como ele no que tocava aos contactos sociais; olhou uma s vez para mim e logo desviou os olhos.
- Apresento-te a minha esposa, Andrmaca - disse Heitor. Beijei-a na face.
- Aprovo inteiramente, irmozinho! Mas Andrmaca no  destas bandas, pois no?
- No.  filha do rei Eecio da Cilcia. Estive l na Primavera, em representao do nosso pai, e trouxe-a comigo. No foi planeado, mas... - e respirou fundo -
aconteceu...
Andrmaca falou por fim, com bvio embarao.
- Quem , Heitor? Exasperado, Heitor bateu com tanta fora na sua coxa que quase me assustou.
- Mas quando  que eu aprenderei estas coisas?  Pris, o meu irmo. Algo de que no gostei assomou por um momento aos olhos dela. Ah! Aquela jovem tinha uma fora
imensa: bastava que o embarao e a estranheza se dissipassem.
- A minha Andrmaca  muito corajosa - disse Heitor, inchado de orgulho, um brao  volta da cintura dela. - Deixou o seu lar e famlia para vir comigo para Tria.
- Deveras? - disse eu polidamente, e por a me fiquei.
Depressa me resignei  monotonia da vida dentro da cidadela. Enquanto o granizo batia nas persianas de concha de tartaruga ou a chuva caa em cascatas do topo das
muralhas ou a neve atapetava os ptios, eu farejava e rondava os aposentos das mulheres, ansioso por encontrar uma fmea nova e interessante - algum que acendesse
em mim pelo menos um dcimo do desejo que as pastoras do monte ida to facilmente incendiavam. Um trabalho que, sobre ser esgotante, no me incitava, bem pelo contrrio,
a dar o meu mximo. Um trabalho que nunca conduzia aos arrebatados e violentos exerccios que as mulheres do monte Ida me proporcionavam. Heitor tinha razo. Se
correrias furtivas por corredores proibidos eram o meu desporto favorito, depressa ficaria com uma pana enorme.
Quatro luas aps o meu regresso, Heleno entrou nos meus aposentos e instalou-se confortavelmente num banco almofadado junto a uma janela. Estava um dia radioso -
bastante quente, o que, nos Invernos troianos, era uma raridade -
e a vista que se desfrutava dos meus aposentos era belssima: os nossos olhos podiam abarcar toda a cidade e ainda o porto de Sigeu e a ilha de Tnedo.
- Quem me dera ter a influncia que tu tens junto do nosso pai, Pris - disse-me Heleno.
- Bom, Heleno, acontece que tu s ainda muito novo, apesar de seres um filho imperial. A sabedoria  algo que s vem com a idade.
Heleno, que no fazia ainda a barba, era um jovem muito belo, com cabelos e olhos muito escuros, tal como todos os filhos imperiais de Hcuba. Era gmeo de Cassandra
e contavam-se coisas muito estranhas acerca dos dois. Tinham dezassete anos apenas; a juventude de Heleno impedira que se tivesse desenvolvido entre ns uma verdadeira
intimidade. Alm disso, Heleno e Cassandra possuam a Segunda Viso. Sobre eles pairava uma aura que deixava os outros (mesmo os seus irmos e irms) manifestamente
constrangidos. Essa estranha aura era menos evidente em Heleno do que em Cassandra. Pois ainda bem para Heleno: Cassandra era louca.
Eram ainda bebs quando foram consagrados ao servio de Apolo. Esta deciso arbitrria conformara os seus destinos; se havia no seu ntimo alguma revolta contra
tal deciso, a verdade  que nunca a exprimiram. De acordo com as leis promulgadas pelo rei Drdano, um filho e uma filha do rei e da sua rainha, de preferncia
gmeos, tinham de presidir aos Orculos de Tria. No admirava, pois, que Heleno e Cassandra tivessem sido escolhidos. Por ora, gozavam ainda de alguma liberdade;
porm, logo que fizessem vinte anos, seriam formalmente entregues aos cuidados do trio que governava o culto de Apolo em Tria: Calcas, Lacoonte e a mulher de Antenor,
Teano.
Heleno vestia a longa e flutuante tnica dos religiosos. Aliando uma beleza extrema a uma expresso sonhadora, a sua figura, enquanto observava a cidade da minha
janela, era impressionante o suficiente para me prender a ateno. Gostava mais de mim do que de todos os outros irmos - fossem eles filhos de Hcuba,

#de qualquer outra esposa ou de uma concubina - porque eu no sentia a menor inclinao para a guerra ou para matar. Embora a sua natureza asctica fosse obviamente
avessa s minhas aventuras com mulheres, Heleno gostava de conversar comigo, pois as minhas palavras eram mais pacficas do que marciais.
- Trago-te uma mensagem - disse-me ele, sem se virar. Suspirei.
- O que  que eu fiz de mal?
- Nada que merea censura. Disseram-me apenas que tens de participar numa assembleia a realizar depois da ceia.
- No posso. Tenho um compromisso para depois da ceia.
- Ters de desistir desse compromisso. A mensagem que te trago  do nosso pai.
- Mas que seca! Porqu eu, Heleno?
- No fao a mnima ideia. Pelos vistos,  um grupo muito pequeno. Alguns dos filhos imperiais, Antenor e Calcas.
- Um estranho grupo... Qual ser o assunto?
- Vai, e logo sabers.
- Ai vou, vou! Tambm foste convidado? Heleno no me respondeu. De sbito, os seus belos traos arrepanharam-se e os olhos pareciam no ver nada  sua volta, ainda
que vissem algo de indefinvel: o olhar que associamos ao mstico. No era a priimeira vez que assistia a um transe visionrio, mas nada fiz para o interromper;
pelo contrrio, observei com um extremo fascnio as alteraes por que Heleno passava. Subitamente, porm, com um acentuado estremecimento de todo o corpo, o meu
irmo regressou ao seu estado normal.
- Que viste? - perguntei.
- Eu no consegui ver... - disse ele lentamente, limpando o suor da testa. Um padro. Dei-me conta de um padro... O incio de uma mudana que conduzir a um desfecho
inevitvel.
- Alguma coisa deves ter visto, Heleno!
- Chamas... Gregos envergando armaduras... Uma mulher que, de to bela, s poderia ser Afrodite... Navios - centenas e centenas de navios... Tu, o nosso pai, Heitor...
-Eu? Mas eu no sou importante!
- Acredita no que te digo, Pris: tu s importante - disse ele com uma voz cansada. Ento, sem mais nem menos, levantou-se. - Preciso de falar com Cassandra.  muito
frequente vermos as mesmas coisas, mesmo quando no estamos juntos.
Porm, tambm eu sentia vagamente aquela presena obscura, rodeando-nos como uma teia, e abanei a cabea.
No, no vs ter com ela. Cassandra destruir a tua viso.
Heleno tinha razo: o grupo era, de facto, muito pequeno. Fui o ltimo a chegar; sentei-me na ponta do banco onde j estavam sentados os meus irmos Trilo e lio
- porqu eles? Trilo tinha oito anos, lio apenas sete. Eram os dois ltimos filhos de minha me e os seus nomes evocavam o espectro que tirara o trono ao rei Drdano.
Heitor tambm l estava. Tal como o nosso irmo mais velho, Defobo. Defobo deveria ter sido nomeado herdeiro, mas todos aqueles que o conheciam - incluindo o nosso
pai - sabiam que, ao fim de um ano de reinado, Tria sucumbiria ao seu poder. Ganancioso, estouvado, violento, egosta, imoderado - era com estes adjectivos que
Defobo era descrito. Sentia por ns um dio terrvel! Sobretudo por Heitor, que lhe usurpara o ttulo a que tinha direito - pelo menos era isso o que ele pensava.
A incluso do tio Antenor era lgica. O chanceler tinha de estar presente em todas as reunies. Mas porqu Calcas? Uma criatura inquietante...
O tio Antenor fitava-me com uma expresso feroz e no era por eu ter chegado tarde. Com efeito, dois Veres antes, no monte Ida, disparara uma seta a um alvo fixado
numa rvore, mas um vento repentino desviara o seu curso. Acabei por encontrar a seta alojada nas costas do filho mais novo de Antenor e da concubina que ele mais
amava; o pobre rapaz andava a espiar uma pastora que se banhava nua numa fonte. O filho de Antenor estava morto e eu era culpado de homicdio involuntrio. No se
tratava verdadeiramente de um crime; mesmo assim, eu teria de expiar a morte do jovem. E s havia uma maneira de a expiar: teria de encontrar um rei estrangeiro
que estivesse disposto a presidir s cerimnias de purificao.
O tio Antenor no chegara ao ponto de clamar por vingana, mas a verdade  que no me perdoara. A ferocidade do seu olhar fez-me lembrar que ainda no fizera nada
para encontrar o tal rei estrangeiro. Os reis eram os nicos sacerdotes aptos a conduzir os ritos de purificao exigidos por um caso de homicdio acidental.
O meu pai bateu no cho com a base do seu ceptro de marfim, cuja cabea redonda cintilava de verde, pois continha uma enorme e perfeita esmeralda. - Convoquei esta
reunio, porque quero discutir algo que me atormenta h j muitos anos - principiou o meu pai com a sua voz firme e forte. - Um acontecimento que voltou a dominar
os meus pensamentos, porque me ocorreu, h Poucos dias, que o meu filho Pris nasceu precisamente no dia em que tudo se passou. Um dia de morte e perda. O meu pai
Laomedonte foi assassinado. Tal como os meus quatro irmos. A minha irm Hesona foi raptada e violada. S o nascimento de Pris impediu que aquele dia fosse o mais
negro de toda a minha vida.
- Pai, por que razo nos convocaste a ns? - perguntou Heitor num tom afectuoso. Ultimamente, sempre que a mente do nosso pai comeava a divagar, Heitor tomava a
seu cargo a tarefa de a reconduzir ao caminho certo; com efeito,

#a mente de Pramo revelava uma tendncia cada vez mais acentuada para se perder em estranhas deambulaes.
- Ah... eu no lhes disse? Bom, convoquei-te a ti, Heitor, porque s o herdeiro. Convoquei Defobo, porque  o mais velho dos filhos imperiais. Heleno, porque ser
ele o encarregado dos Orculos de Tria. Calcas, porque  ele quem preside aos Orculos enquanto Heleno no fizer vinte anos. Trio e lio, porque Calcas diz que
h profecias a respeito deles. Antenor, porque ele estava presente nesse dia. E Pris, porque nasceu nesse dia.
- Qual  ento o assunto desta reunio? - perguntou Heitor.
- Tenciono enviar uma embaixada formal a Tlamon, rei de Salamina, logo que o estado do mar o permita - disse o nosso pai. Uma resposta que me parecia perfeitamente
lgica, ainda que Heitor tivesse franzido muito o sobrolho, como que inquieto com a novidade. - Essa embaixada solicitar a Tlamon o regresso da minha irm a Tria.
Fez-se silncio. Antenor encaminhou-se para o espao que havia entre o meu banco e o outro, aps o que se virou para o meu pai. Coitado do meu tio, andava quase
que curvado, devido a uma terrvel doena dos ossos de que padecia h um ror de tempo; toda a gente achava que os estragos causados pela doena eram a causa do seu
notrio mau gnio.
- Rei Pramo, isso no passa de uma aventura disparatada! - atirou ele, sem mais aquela. - Para qu gastar o ouro de Tria numa coisa dessas? Sabes, to bem como
eu, que, ao longo dos seus trinta e trs anos de exlio, Hesona nunca nos fez saber que lamentava o seu destino. O filho dela, Teucro, ser um bastardo; no entanto,
ocupa uma posio extremamente importante na corte de Salamina e  amigo e mentor do herdeiro, jax. A resposta ser no, Pramo. Assim sendo, por que razo havemos
de nos meter em trabalhos?
O rei levantou-se de um salto, furibundo.
- Ests a acusar-me de estupidez, Antenor? No sabia que Hesona estava satisfeita por estar exilada! No, Tlamon  que a impede de nos pedir ajuda!
Antenor agitou o punho cerrado.
- Eu estava a falar, rei Pramo! E quem est a falar, no deve ser interrompido! Porque insistes em pensar que fomos ns os ultrajados? Foi Hracles quem foi ultrajado:
eu sei que, no fundo, at concordas comigo. Gostaria tambm de lembrar que, se Hracles no tivesse morto o leo, Hesona no estaria hoje viva.
O meu pai tremia da cabea aos ps. Apesar de serem cunhados, no havia sombra de afeio entre Antenor e Pramo. O corao de Antenor permanecia fiel  Dardnia:
o inimigo dentro das nossas muralhas.
- Se fssemos jovens - disse o meu pai, cada palavra uma seta -, haveria uma maneira de pr termo a esta guerra constante. Poderamos pegar em escudos e espadas
e resolver a questo. Mas tu no passas de um invlido e eu estou demasiado velho. Repito: vou enviar uma embaixada a Salamina logo que seja possvel. Entendido?
Antenor fitava-o com o maior desdm.
- Tu s o rei, a deciso  tua. Quanto a duelos -  natural que te aches demasiado velho, mas garanto-te que a minha invalidez no me impediria de te deixar feito
em pedaos! Nada me daria mais prazer!
Dito isto, retirou-se. O meu pai regressou ao trono, mordiscando furiosamente na barba.
Levantei-me, surpreendido com o facto de me ter levantado, mas ainda mais surpreendido com aquilo que nesse instante comecei a dizer.
- Pai, eu ofereo-me para conduzir a tua embaixada. De qualquer modo, teria sempre de me deslocar ao estrangeiro, a fim de buscar a purificao que a morte do filho
de Antenor exige.
Heitor riu-se e at bateu as palmas.
- Pris, deixa-me saudar a tua iniciativa! Mas Defobo no gostou.
- Porque no eu, pai? Eu  que deveria ser nomeado! Eu sou o mais velho! Heleno declarou-se favorvel a Defobo; no conseguia acreditar no que estava a ouvir, pois
Heleno detestava o nosso irmo mais velho.
- Pai, por favor, manda Defobo! Se for Pris o escolhido, Tria chorar lgrimas de sangue!
Com ou sem lgrimas de sangue, a deciso do rei Pramo estava tomada. Confiou-me a embaixada a Salamina.
Depois de todos terem partido, permaneci algum tempo com o meu pai.
- Estou to contente, Pris! - disse ele, afagando-me o cabelo.
- O teu contentamento  prmio suficiente para mim. - De sbito, desatei a rir. - Se no conseguir trazer a tia Hesona, pode ser que consiga trazer uma princesa
grega em vez dela ... !
O meu pai riu-se tambm; a minha piada apontava para algo que no lhe desagradava.
- No faltam princesas na Grcia, meu filho. Olho por olho, dente por dente: admito que, se segussemos essa norma, os Gregos receberiam o mais correcto dos castigos.
Beijei-lhe a mo. O dio implacvel que votava  Grcia e a tudo o que fosse grego era bem conhecido em Tria; e eu fizera-o feliz. Que importava que a piada no
fosse mais do que isso, uma simples piada sem quaisquer consequncias, se o tinha feito rir?

#Como parecia que o ameno Inverno ia terminar cedo, instalei-me em Sigeu durante vrios dias, a fim de discutir a organizao da frota com os comandantes e mercadores
que participariam nela. Queria vinte navios grandes com tripulaes completas e pores vazios; como era o Estado a pagar a conta, no iam faltar os voluntrios.
Embora sem perceber que demnio me levara a oferecer os meus servios ao rei, o certo  que sentia uma excitao extraordinria perante a perspectiva de uma tal
aventura. Em breve poderia ver longnquos lugares, lugares que muitos olhos troianos nunca veriam. Lugares gregos.
Terminada a reunio, decidi dar um passeio pelo porto, a fim de respirar aquele ar cortante e salgado e observar a azfama dos homens na praia; os navios que, durante
o Inverno, eram arrastados para um leito de seixos longe das guas, viam-se agora rodeados de uma pequena multido que inspeccionava os costados revestidos a pez
e conclua se as embarcaes estavam ou no em condies de navegar. Um enorme navio escarlate manobrava nas proximidades da praia; os olhos da sua proa tentavam
fixar-me e a figura que rematava o capuz curvo da sua popa era, obviamente, a minha prpria deusa: Afrodite. Que construtor de navios a teria visto em sonhos (e
em que sonhos?) para a ter representado de uma forma to maravilhosa?
Por fim, o capito do navio encontrou espao suficiente para instalar os seus pesados costados entre os seixos; logo desceram as escadas de corda. Nesse instante,
reparei que o navio trazia uma bandeira real na proa, decorada com incrustaes escarlates e debruada a ouro - aquele navio trazia um rei estrangeiro! Avancei lentamente,
ajeitando o meu manto em elegantes dobras.
O rgio indivduo desceu cuidadosamente. Era um grego. Uma concluso fcil, dado o modo como estava vestido e a superioridade inconsciente com que ele
- como qualquer grego - olhava para o resto do mundo. Porm,  medida que o rei se foi aproximando, todo o meu espanto inicial se dissipou. Um homem de aspecto to
vulgar ... ! No era especialmente alto, nem especialmente bem-parecido. E era ruivo. Sim, no havia dvida: era grego. Pelos vistos, metade dos gregos eram ruivos.
O saiote de cabedal fora tingido de prpura e adornado a ouro, a franja que o debruava era de ouro, o amplo cinto era de ouro incrustado com pedras preciosas, a
blusa prpura abria-se para revelar um peito magro, e,  volta do pescoo, usava um imponente colar de ouro e jias. Um homem muito rico.
Quando me viu, alterou o seu curso.
- Bem-vindo s praias de Tria! - disse eu formalmente. - Sou Pris, filho do rei Pramo.
O homem pegou no brao que eu lhe estendera e envolveu-o com os seus dedos.
- Obrigado, prncipe. Eu sou Menelau, rei da Lacedemnia e irmo de Agammnon, rei supremo de Micenas.
os meus olhos arregalaram-se de espanto.
- Gostaria de te oferecer o meu carro, rei Menelau - disse-lhe. - Poderemos seguir sem demora para a cidade.
O meu pai estava ocupado com as suas audincias dirias. Segredei ao arauto, o qual, imediatamente, abriu as portas de par em par.
-  Rei Menelau, da Lacedemnia! - atroou o homem.
Entrmos juntos e deparou-se-nos uma multido reduzida  mais absoluta imobilidade. Heitor estava de p, ao fundo, com a mo estendida e a boca aberta devido a uma
palavra que no chegara a pronunciar, Antenor estava meio virado para ns, e o meu pai estava sentado no seu trono, direito que nem um fuso, a mo apertando com
tanta fora o basto que este no parava de tremer. Se o meu companheiro concluiu nesse instante que os Gregos no eram bem-vindos, a verdade  que no houve nele
nada que o denunciasse; depois de o conhecer melhor, decidi que, provavelmente, no tinha reparado na hostilidade. Mirou a sala e o mobilirio e, pelos vistos, no
ficou particularmente impressionado: fiquei a pensar como no seriam os palcios gregos, j que ele no abrira a boca de espanto.
O meu pai desceu do estrado e estendeu-lhe a mo.
- Sentimo-nos muito honrados com a tua visita, rei Menelau - disse ele. Apontando para um enorme div juncado de almofadas, o meu pai pegou no brao do visitante.
- Proponho-te que nos sentemos. Pris, vem ter connosco, mas primeiro diz a Heitor que venha tambm. E diz aos criados que nos tragam comida e vinho.
A corte estava muito quieta (s os olhos dos cortesos andavam numa roda-viva), mas a conversa no div era inaudvel a dois passos de distncia.
Terminadas as necessrias formalidades, o meu pai perguntou a Menelau os motivos da sua visita.
Trata-se de um caso de vital importncia para o povo da Lacedemnia, rei Pramo - retorquiu Menelau. - Eu sei que aquilo que busco no se encontra nas terras troianas,
mas Tria pareceu-me o melhor local para dar incio ao meu inqurito.
- Pergunta  vontade, rei Menelau. Menelau inclinou-se para a frente e virou-se, a fim de poder olhar para o rosto inexpressivo do meu pai.
- Rei Pramo, o meu reino est a ser assolado pela peste. Os meus sacerdotes no conseguiram adivinhar a causa. Procurei ento a pitonisa de Delfos, que me disse
que eu deveria ir pessoalmente procurar os ossos dos filhos de Prometeu e lev-los para Amiclas - a minha capital. Tm de ser enterrados em Amiclas. S ento venceremos
a peste.
Ah! Afinal, a misso dele nada tinha a ver com a tia Hesona, ou a escassez de estanho e cobre, ou os embargos comerciais no Helesponto. A misso de

#Menelau era muito mais vulgar. Perfeitamente comum. A luta contra a peste exigia medidas extraordinrias; havia sempre um ou outro rei vagueando pelos mares e pelas
praias,  procura de um qualquer objecto que os Orculos exigiam que levasse para casa. Perguntava-me, por vezes, se o objectivo dos Orculos no seria mandar para
longe o rei at que a doena chegasse ao seu inevitvel fim. Uma forma de proteger o rei do castigo; se o rei permanecesse em casa, seria muito provvel que morresse
da mesma peste ou que acabasse por ser ritualmente linchado.
Claro que o rei Menelau tinha de ser hospedado. Talvez no ano seguinte o Orculo ordenasse ao rei Pramo que pedisse ajuda ao rei Menelau... Os elementos da realeza,
fossem quais fossem as suas divergncias ou as suas nacionalidades, mostravam-se solidrios em determinadas situaes. Por isso, enquanto o rei Menelau se instalava
na nossa cidade, os batedores do meu pai trataram de localizar os ossos dos filhos de Prometeu. Concluram que estavam na Dardnia. O rei Anquises da Dardnia protestou
energicamente, mas nada podia fazer. Estivesse ou no de acordo, teria de ficar sem as relquias.
Foi-me atribuda a tarefa de velar pelo bem-estar de Menelau at que ele pudesse seguir, com toda a pompa que o seu cargo exigia, para a cidade de Lirnesso, onde
reclamaria os ossos. O que me levou a fazer-lhe uma oferta que, em tais circunstncias, era perfeitamente comum: a escolha de uma mulher de que ele gostasse, desde
que a mulher em questo no tivesse sangue real.
Menelau desatou a rir-se, abanando enfaticamente a cabea.
- Eu no preciso de outras mulheres, Pris! Basta-me a minha Helena! retorquiu.
Fiquei curioso, muito curioso.
- Deveras? - disse. Os olhos dele ganharam uma luminosidade extrema; dir-se-ia que o homem estava embriagado, no de vinho, mas de adorao.
Pris, eu estou casado com a mulher mais bela do mundo - disse ele, com a maior solenidade.
Sem perder a polidez que um tal dilogo impunha, dei rdea solta  minha incredulidade.
- Deveras, rei Menelau?
- Ah sim, Pris, sem a menor dvida. Helena no tem rival neste nosso mundo.
-  mais bela do que a mulher do meu irmo Heitor?
- A princesa Andrmaca  uma plida Selene, se comparada com o esplendor de Hlio - disse ele.
Gostaria que fosses mais preciso, Menelau.
O rei suspirou, agitOu os braos.
- Como descrever Afrodite? Como pintar a perfeio visual com meras palavras? Vai ver o meu navio, Pris, e atenta na figura de proa - Helena foi o modelo.
Semicerrei os olhos, tentando lembrar-me. Mas tudo o que consegui ver foi um par de olhos to verdes como os de um gato do Egipto.
Ah, eu tinha de conhecer aquela beldade! No que acreditasse nele - a figura de proa seria certamente superior ao modelo. Nenhuma das esttuas de Afrodite que conhecia
poderia rivalizar com o rosto daquela figura (embora, verdade seja dita, os escultores no passassem de uns artfices medocres que teimavam ein dar sorrrisos tontos,
traos desgraciosos e corpos ainda mais desgraciosos s suas esttuas)-
-  Rei Menelau - disse eu, movido por um irresistvel impulso. - Em breve, terei de conduzir uma embaixada a Salamina, a fim de me avistar com o rei Tlamon e de
inquirir sobre o bem-estar de minha tia Hesona. Porm, enquanto estiver na Grcia, terei de submeter-me a um ritual purificador, visto que cometi um homicdio involuntrio.
Diz-me uma coisa: a Lacedemnia fica muito longe de Salamina?
- Bom, Salamina  uma ilha que fica ao largo do litoral tico, ao passo que a Lacedemnia fica no interior da ilha de Plops, mas - no, no  uma viagem especialmente
difcil.
- Rei Menelau, aceitarias presidir  cerimnia da minha purificao?
O rei fitou-me radiante.
- Claro que aceito!  o mnimo que posso fazer para retribuir a tua amabilidade. Visita-nos no prximo Vero e eu realizarei os necessrios ritos. - De sbito, ps
um ar altivo. - Duvidaste de mim, quando te falei da beleza de Helena
- sim, sim, eu sei que duvidaste! Os teus olhos traram-te... Mais uma razo para visitares Amiclas - v-la-s com os teus prprios olhos. Depois disso, espero que
me apresentes as tuas desculpas.
Selmos o pacto com um gole de vinho, aps o que nos concentrmos no planeamento da viagem a Lirnesso, onde Menelau exumaria os ossos dos filhos de Prometeu, sob
o olhar indignado do rei Anquises e do seu filho Eneias. Com que ento Helena era to bela como Afrodite! Perguntei-me como  que Anquises e Eneias reagiriam a essa
comparao quando Menelau se sasse com ela - e sair-Se-ia com toda a certeza.  que, como toda a gente sabia, Anquises, na sua juventude, fora to irresistivelmente
belo que a prpria Afrodite se humilhara para que ele fizesse amor com ela. Depois, a deusa fora-se embora, mas deixara-lhe Eneias. Pois : as loucuras de juventude
tinham sempre um preo!

#Captulo Sexto
Narrado por Helena
Depois de os ossos dos filhos de Prometeu terem sido enterrados em Amiclas rodeados de preciosos artefactos, cada caveira coberta com uma mscara de ouro, os efeitos
da peste comearam a esbater-se. Era maravilhoso poder passear de novo pela cidade, participar em caadas nas montanhas, assistir aos jogos na arena que ficava por
detrs do palcio! No menos maravilhoso era ver os sorrisos de alegria nos rostos das pessoas, ouvi-las saudarem-nos e louvarem-nos quando passvamos por elas.
O rei acabara com a peste e a felicidade voltara ao reino.
S o corao de Helena no era feliz. Menelau vivia com um espectro a seu lado. Com o passar dos anos, fui-me tornando uma mulher cada vez mais apagada, cada vez
mais grave - respeitvel e obediente, sempre. Dei a Menelau duas filhas e um filho. O meu marido dormia na minha cama todas as noites. Nunca lhe recusava o acesso
aos meus aposentos quando ele batia  porta. E ele amava-me. Perante o seu amor, eu no poderia fazer nada de mal. E era por isso que eu era uma esposa respeitvel
e obediente; no conseguia resistir a um homem que me tratava como se eu fosse uma deusa. Havia ainda outra razo: eu queria que a minha cabea estivesse sempre
presa aos meus ombros.
Se ao menos eu tivesse conseguido manter o meu corpo distante e frio quando ele veio ter comigo aps o casamento! Mas no consegui. Helena era uma criatura toda
ela de carne feita; uma criatura que no era imune s carcias de um homem, de qualquer homem - mesmo de um homem to enfadonho e desajeitado cOmo o meu marido.
Um homem, um homem qualquer, era melhor do que homem nenhum.
O Vero veio, o mais escaldante de que havia memria. As chuvas cessaram e os rios secaram, e, nos altares, os sacerdotes comearam a murmurar palavras agourentas.
Tnhamos sobrevivido  peste; seria a fome o nosso prximo tormen-

#to? Por duas vezes, senti Poseidon, o Senhor dos Terramotos, gemer e mover as entranhas da terra, como se tambm ele estivesse inquieto. O povo comeou a a falar
de maldies e os sacerdotes ergueram ainda mais as suas vozes quando o trigo morreu na terra ressequida; at a cevada, mais resistente do que o trigo, parecia encaminhar-se
para o mesmo triste fim.
Porm, quando o calor do Vero atingiu um pico insustentvel, o Senhor dos Troves, exibindo o seu sombrio semblante, falou ao nosso reino. Num dia opressivo, sufocante,
enviou os seus mensageiros, as nuvens que anunciam as tempestades, aglomerando-os contra o branco metlico do cu. Ia a tarde a meio quando o Sol se escondeu e a
escurido caiu sobre a terra; Zeus explodiu finalmente. Fazendo atroar todo o seu poder ao ponto de ensurdecer os humanos, disparou os seus raios com uma ferocidade
tal que a prpria Me se encolheu, tremendo de medo, pois cada dardo que a sua medonha mo lanava era uma coluna de puro fogo.
Tremendo de terror, transpirando de pnico, balbuciando rezas, refugiei-me num div da pequena sala que usava perto das reas pblicas e tapei os ouvidos enquanto
os troves rebentavam e aquela luz to branca e violenta descia vezes sem conta sobre a terra. Menelau, Menelau, onde ests?, perguntava-me eu, desvairada de medo.
Nesse momento, ao longe, ouvi a voz dele. Falava com invulgar animao com algum que tambm falava Grego, embora com um acento estrangeiro. Disparei na direco
da porta e corri para os meus aposentos, pois no queria provocar o descontentamento do meu marido; como todas as mulheres do palcio, e porque o calor era muito,
acostumara-me a vestir roupa feita de linho egpcio, muito leve e transparente.
Imediatamente antes do jantar, Menelau apareceu nos meus aposentos para me ver entrar no banho. Nunca tentava sequer tocar-me quando eu tomava banho; era a sua oportunidade
de no fazer outra coisa seno olhar.
Minha querida - disse ele, pigarreando -, temos uma visita. Gostaria que esta noite vestisses o teu traje rgio.
Fitei-o surpreendida.
-  assim to importante, essa visita?
- Muito.  o meu amigo Pris, prncipe de Tria.
- Ah sim, lembro-me de me teres falado dele.
- Quero que estejas mais bonita do que nunca, Helena, pois eu falei-lhe muito da tua beleza quando estive em Tria. E Pramo - v l tu - mostrou-se cptico!
Sorridente, rebolei-me na gua quente, fazendo transbordar a imensa banheira.
Prometo-te que nunca me ters visto to bonita como nesta noite.
Tive a certeza de que nunca me tinham visto to bela, no preciso instante em que entrei no salo de jantar, pouco antes de a corte se reunir para comer a ltima
refeio do dia com o rei e a rainha. Menelau j l estava, de p junto  mesa rgia, conversando com um homem que estava de costas para mim. Umas costas muito interessantes.
Muito mais alto do que Menelau, o homem em questo tinha uma comprida e espessa cabeleira encaracolada que lhe chegava a meio das costas e estava nu da cintura para
cima, no que seguia a moda cretense. Sobre os ombros, caa-lhe um enorme colar de pedras preciosas engastadas em ouro; braceletes de ouro e cristal adornavam-lhe
os braos portentosos. Olhei para o seu saiote prpura e para as pernas fortes e bem proporcionadas e senti uma excitao que h muitos anos desconhecia. De costas,
era de facto uma bela viso; provavelmente - disse para mim mesma, desdenhando j do que no conhecia - tem uma cara de cavalo.
Dei um jeito nos folhos para que a msica soasse. Menelau e o estrangeiro viraram-se. Olhei para o estrangeiro e apaixonei-me. To simples como isso. Apaixonei-me.
Se eu era a mulher perfeita, ele era, seguramente, a perfeio feita homem. Fiquei parada e pasmada a olhar para ele. Defeito nenhum. A perfeio absoluta. E eu
estava apaixonada. - Minha querida - disse Menelau, abeirando-se de mim -, apresento-te o prncipe Pris. Devemos-lhe todas as cortesias e atenes que pudermos
prodigalizar-lhe - ele foi para mim um excelente anfitrio. - Menelau olhou para Pris, com as sobrancelhas bem erguidas. - Ento, meu amigo, ainda duvidas de mim?
- No - disse Pris. E de novo: - No. Menelau sorriu radiante: graas  sua esposa, a noite estava ganha. Um pesadelo, aquele jantar! Rios de vinho eram servidos,
ainda que - porque era mulher - eu no pudesse beber uma nica gota. Mas que malvolo deus teria convencido Menelau a beber copo atrs de copo, quando, normalmente,
era abstmio. Pris estava sentado entre ns dois, o que me impedia de fazer fosse o que fosse para, com modos suaves, convencer o meu marido a parar de beber. Por
outro lado, aquele prncipe troiano tambm no se comportava com a circunspeco que seria de esperar. Claro que eu vira a atraco chamejando nos seus olhos negros
no instante exacto em que se haviam, pela vez primeira, fixado em mim; mas havia tantos homens que reagiam assim e que, depois, se mostravam to tmidos como cordeirinhos...
No era esse o caso de Pris. Ao longo de toda a refeio, desfiou um rosrio de escandalosos cumprimentos. Quanto aos seus olhares, eram descaradamente ntimos;
dir-se-ia que os seus olhos se tinham esquecido de que estvamos sentados na mesa rgia e que estvamos a ser vistos por uma centena de homens e mulheres da corte.
Num tumulto de medo e confuso, fiz o possvel para que tais observadores (metade dos quais eram espies de Agammnon) pensassem que no se estava a pas-

#sar nada de menos decente. Procurando mostrar-me corts e fingindo uma descontraco que no sentia, desatei a perguntar a Pris como era a vida em Tria, ou se
em todas as naes da sia Menor se falava Grego, ou se Tria ficava muito longe de naes como a Assria ou Babilnia, ou se nessas naes tambm se falava Grego.
Conhecedor dos femininos artifcios, Pris respondeu-me facilmente e com autoridade, enquanto os seus olhos maliciosos vagueavam entre os meus lbios e o meu cabelo,
entre os meus dedos e os meus seios.
 medida que a interminvel refeio ia avanando, o discurso de Menelau tornava-se cada vez menos inteligvel; o meu marido parecia no ver outra coisa seno o
vinho que transbordava do seu copo. E Pris tornou-se cada vez mais atrevido. A certa altura, abeirou-se tanto de mim que pude sentir o seu hlito no meu ombro e
cheirar o seu embriagante perfume. A pouco e pouco fui-me afastando dele, acabando por ficar sentada mesmo na ponta do banco.
- Os deuses so cruis - sussurrou ele - por deixarem tanta beleza nas mos de um nico homem.
- Prncipe Pris, tem cuidado com o que dizes! Suplico-te: s discreto! A resposta que ele me deu foi um sorriso. O corao pareceu afundar-se no meu peito. Presa
de um fogo sbito, comprimi os joelhos um contra o outro.
- Eu vi-te esta tarde - prosseguiu ele, como se eu no tivesse dito nada, fugindo de ns. Tinhas um vestido to transparente...
Um mar escarlate desenhava-se j sob a minha pele; pedia a todos os deuses que os muitos olhos que nos miravam no reparassem em nada do que se estava a passar.
A mo dele caiu e encontrou o meu brao. Dei um salto, to intolervel era aquele toque; a sensao que produzira no meu corpo era idntica ao que sentira quando
o Senhor dos Troves falara.
- Prncipe Pris, por favor! O meu marido pode ouvir-te! Rindo-se a bom rir, voltou a pr a mo na mesa, mas de uma forma to abrupta que fez tombar o seu copo;
o vinho tinto espalhou-se como um lago pela plida madeira. Acenei para que um criado viesse limpar a mesa, mas, enquanto eu acenava, ele abeirava-se uma vez mais
de mim.
- Amo-te, Helena - disse ele. Os criados! Teriam ouvido? Porque  que os rostos dos criados nunca diziam nada, sempre que executavam as ordens dos seus superiores?
Olhei de relance para Menelau: estava brio, muito brio, os seus olhos sonolentos miravam o vazio.
Com efeito, estava demasiado embriagado para ir ter comigo naquela noite. Os criados levaram-no para os seus aposentos e deixaram-me seguir sozinha para os meus.
Por um longo perodo de tempo, deixei-me ficar sentada  janela do meu salo, pensando: Que havia de fazer? Como havia de passar os prximos dias talvez muitos,
no sabia quantos - sabendo que aquele homem, aquele perigo, estaria presente? Uma nica refeio ao seu lado e ficara arrasada. Seduzia-me despudoradamente, achando
que o meu marido era demasiado idiota para se dar conta disso. Mas Menelau no se apercebera de nada unicamente por causa do vinho  -  e, no jantar do dia seguinte,
Menelau estaria sbrio. Mesmo o mais estpido dos homens tem, dentro de si, um vigilante; alm disso, no me admirava nada que um dos nobres da casa fosse intrigar
junto dele. Agammnon pagava-lhes para que eles espiassem tudo. Bastava que um deles decidisse que eu era infiel e, um dia depois, Agammnon condenar-me-ia por infidelidade.
Pris, ainda que fosse um prncipe troiano, perderia a sua cabea. Tal como eu. Tal como eu!
Dividida entre o medo e o desejo, sofria horrivelmente. Ah, eu amava-o tanto! Mas que espcie de amor era aquele, to sbito, to avassalador to de repente?  mera
lascvia, sabia eu resistir; aprendera a resistir-lhe ao longo do meu casamento. O amor, em contrapartida, era irresistvel. Ansiava estar com Pris por todos os
motivos. Ansiava viver a minha vida com ele. Queria saber o que ele pensava, como  que ele vivia, o que  que ele sentia, como era a sua aparncia enquanto dormia.
A seta trespassara-me, a seta que levara Fedra ao suicdio, Dnae a atirar-se para uma arca que o seu pai lanara ao mar, Orfeu a enfrentar o reino de Hades em busca
de Eurdice. A minha vida j no me pertencia; pertencia a Pris. Eu seria capaz de morrer por ele! Contudo... Que xtase poder viver para ele!
Menelau entrou no meu quarto pouco depois de eu me ter deitado exausta, enquanto os galos cantavam estridentes e a orla do cu oriental empalidecia sob o nevoeiro.
Com um ar constrangido, recusou-se a beijar-me.
- O meu hlito tresanda a vinho, minha querida.  estranho que eu tenha bebido tanto. No faz sentido.
Acenei-lhe para que se sentasse ao meu lado.
- Como ests esta manh, tirando o hlito? Menelau sorriu.
- Um pouco mal-disposto. - De sbito, franziu o sobrolho. -Helena, estou com um problema.
Fiquei com a boca seca; dei comigo a molhar os lbios. Um dos nobres da casa tinha-lhe contado tudo! Palavras! Eu tinha de encontrar as palavras certas!
- Um problema? - balbuciei.
- Sim. Um mensageiro de Creta acordou-me. O meu av Catreu morreu e Idomeneu decidiu atrasar o funeral, a fim de que eu ou Agammnon possamos cOmParecer. Claro que
Idomeneu est  espera que seja eu. Agammnon no pode sair de Micenas.
Sentei-me na cama, boquiaberta.
- Menelau! Tu no podes ir!

#A minha veemncia surpreendeu-o, mas entendeu-a como um cumprimento.
- No h alternativa, Helena. Tenho mesmo de ir a Creta.
- E vais estar fora muito tempo?
- Pelo menos meio ano. Podias saber um bocadinho mais de geografia... Os ventos outonais levar-me-o at Creta, mas terei de esperar pelos ventos do Vero para regressar.
- Oh - disse eu, e suspirei. - Quando tens de partir? Menelau apertou-me o brao.
- Hoje, minha querida. Terei de ir primeiro a Micenas, a fim de falar com Agammnon, e, como terei de fazer-me ao mar a partir de Lerna ou Nuplia, no poderei passar
por aqui.  pena, mas que havemos ns de fazer? - disse ele, deliciado com a minha consternao.
- Mas tu no podes partir, Menelau. J te esqueceste de que tens um convidado real na tua casa?
- Pris compreender. Realizarei os ritos de purificao esta manh, antes de partir para Micenas. Mas dir-lhe-ei tambm que permanea aqui o tempo que quiser.
- Leva-o para Micenas contigo - disse eu, de sbito inspirada.
- Helena, francamente! A correr? Claro que ele pode ir a Micenas, mas com tempo!
- disse o meu tonto marido, ansioso por agradar ao convidado, mas cego perante o perigo que ele representava.
- Menelau, tu no podes deixar-me sozinha com Pris! - exclamei. Menelau pestanejou.
- Porque no? O que no falta na nossa corte so damas de companhia, Helena...
- Agammnon pode no ser da mesma opinio. A minha mo apertava-lhe o antebrao; ele baixou-se para a beijar e para me afagar o cabelo.
- Helena, fica tranquila. As tuas preocupaes so encantadoras, mas desnecessrias. Eu confio em ti. Agammnon confia em ti.
Como explicar-lhe que era eu que no confiava em mim mesma?
Nessa tarde, desci a escadaria do palcio para me despedir do meu marido. De Pris, nem sinal.
Logo que os carros e carroas desapareceram, regressei aos meus aposentos e a fiquei. Disse aos criados para me trazerem as refeies. Se Pris no me visse, era
possvel que se cansasse daquele jogo de seduo - e, quem sabe, podia ser que partisse para Micenas ou para Tria. Por outro lado, deste modo, os nobres da corte
tambm no teriam qualquer oportunidade de nos verem juntos.
Porm, quando a noite veio, no consegui dormir. Depois de muito vaguear pelo meu quarto, decidi sentar-me junto  janela. A mais absoluta escurido cara sobre
Amiclas: no se via uma nica luz e as montanhas pareciam annimas corcundas da terra contra o pano de fundo de um cu estrelado. A lua cheia pairava imensa e prateada,
derramando silenciosamente uma delicada luz pelo vale de Lacedemnia. Assomei  janela e, sorvendo o ar da noite com   um prazer extremo, deixei que toda esta quietude
me penetrasse e aquietasse os nervos. Vivia ainda este apaziguamento encantado quando me dei conta de que ele estava atrs de mim, contemplando a beleza dos cus
por cima do meu ombro. No gritei, nem me virei, mas ele sabia que eu estava consciente da sua presena. As mos dele envolveram os meus cotovelos e, suavemente,
levaram o meu corpo a repousar contra o seu.
- Helena de Amiclas, s to bela como Afrodite.
O meu corpo ficou sem foras. Movi um pouco a cabea sob o seu queixo.
- No tentes essa deusa, Pris. Ela detesta rivais.
- Mas no te detesta a ti, Helena... No compreendes? Foi Afrodite quem me ofereceu Helena... Eu perteno  deusa, sou o seu favorito.
-  por isso que, segundo se diz, nunca fizeste um filho?
- . -As mos dele moviam-se em crculos lentos na minha cintura, sem qualquer pressa, como se ele tivesse todos os dias do mundo para fazer amor comigo. Os lbios
encontraram a minha nuca.
- Helena, nunca desejaste ardentemente deixar este palcio durante a noite e correr para as mais recnditas paragens da floresta? Nunca invejaste a leveza e a agilidade
do veado? Nunca sonhaste correr to livre como o vento e cair exausta sob o corpo do nico homem que amas?
Duas respostas deu o meu corpo: um espasmo percorreu-me os tendes, mas a minha boca seca retorquiu: - No. Eu nunca sonho com coisas dessas.
- Pois eu sonho. E, nos meus sonhos, tu ests sempre presente. Vejo a tua longa cabeleira loura flutuando enquanto corres, as tuas longas pernas lutando para que
o caador que eu sou no te consiga apanhar. Era assim que eu deveria ter-te conhecido, e no neste palcio vazio e sem vida. - As mos dele abriram-me o roupo
e descansaram, to leves como plumas, sobre os meus seios.
-Ao p de ti, todo o brilho dos palcios empalidece. Nesse momento, tudo se precipitou. Virei-me para os seus braos e olvidei tudo, excepto que ele era a minha
outra metade, o meu companheiro natural. Que eu o amava, que eu o amava verdadeiramente.

#Escrava dos seus desejos, jazia nos seus braos to lnguida e mole como a boneca de trapos da minha filha. A manh nascia, mas eu s queria que no nascesse mais
manh nenhuma.
- Vem para Tria comigo - disse ele de sbito. Ergui-me para ver o seu rosto, para ver o meu amor reflectido naqueles belos olhos negros.
- Isso seria uma loucura - retorqui.
- Loucura, no; bom senso - Uma mo demorava-se no meu ventre, a outra brincava com o meu cabelo. - Tu no nasceste para seres esposa de um homem insensvel e estpido
como Menelau. Tu nasceste para seres minha.
- Eu nasci nesta terra, nasci neste mesmo quarto. Eu sou a rainha. Os meus filhos vivem neste palcio. - Limpei as lgrimas que comeavam a molhar-me as faces.
- Helena, tu pertences a Afrodite, tal como eu! Em tempos, jurei solenemente no templo de Afrodite que lhe daria tudo - preteri Hera e Palas Atena para a adorar
apenas a ela. E pedi-lhe que me concedesse apenas uma coisa: uma mulher chamada Helena.
- Eu no posso abandonar o meu reino!
- Helena, tu no podes ficar. Eu no ficarei.
- Oh, amo-te tanto, Pris! Como poderei viver sem ti?
- No vivers sem mim, Helena.
- Pedes-me o impossvel. -As minhas lgrimas eram j um rio descendo pelas faces.
- De modo nenhum! Qual  o obstculo, Helena? Os teus filhos? Esta pergunta fez-me reflectir. A minha resposta no poderia ter sido mais sincera.
- No, de facto, no. O problema dos meus filhos  que... so to vulgares! So iguais a Menelau. At no cabelo! At tm sardas...
- Se os teus filhos no so um obstculo, ento s vejo uma razo: Menelau. Seria? No, no era. Pobre Menelau: dominado, oprimido, um mero ttere nas mos de Micenas.
No fim de contas, que obrigaes tinha eu para com ele? Eu no quisera casar com Menelau! As obrigaes que tinha para com ele eram as mesmas que tinha para com
o seu irmo, aquele homem de ar carrancudo e modos ameaadores que nos usava a todos ns como simples peas num jogo monumental. Agammnon no atribua qualquer
importncia  pessoa que eu realmente era - aos meus desejos, s minhas necessidades, aos meus sentimentos.
- Irei contigo para Tria - respondi por fim. - No h nada que me prenda a Amiclas. Nada.

Captulo Stimo
Narrado por Heitor

O capito do porto de Sigeu mandou-me um mensageiro com a notcia de que a frota de Pris regressara finalmente de Salamina; mal cheguei  sala onde o rei concedia
as suas audincias dirias, ordenei a um pajem que fosse dar a notcia ao meu pai. Eram as audincias do costume, enfadonhas e interminveis -
disputas por causa de propriedades, escravos, terras e outras causas que tais, uma embaixada da Babilnia, uma queixa em torno de direitos de pasto apresentada pelos
nossos parentes nobres da Dardnia e defendida, como sempre, pelo tio Antenor.
A embaixada da Babilnia fora j recebida e o rei estava prestes a pronunciar a sua sentena acerca de um caso sem qualquer importncia, quando as trombetas soaram
e Pris avanou todo emproado pela Sala do Trono. Impossvel no sorrir, dado o seu traje; transformara-se num consumado cretense! Tudo nele eram requintes, desde
o saiote prpura franjado de fios de ouro at s jias e aos caracis do cabelo. Estava com ptimo aspecto e parecia muito satisfeito consigo mesmo. Que andara ele
a tramar para parecer um chacal que conseguia chegar  presa antes do leo?  claro que, nos olhos do nosso pai, brilhava j a luz do seu amor senil - como era possvel
que um homem sbio o bastante para estar sentado num trono ficasse to cego perante coisas to primrias como o encanto e a beleza?
Pris chegou rapidamente ao estrado e estava j a instalar-se no degrau de cima quando me aproximei. Antenor, um abelhudo incurvel, encontrava-se tambm SUficientemente
perto para poder ouvir toda a conversa. Decidi ento colocar-me ostensivamente junto ao trono do meu pai.
- Trazes boas notcias, meu filho? - perguntou o rei.
- Acerca da tia Hesona, no - disse Pris, abanando a cabea, os anis do cabelo num vaivm. - O rei Tlamon mostrou-se extremamente corts, mas recusOu-se categoricamente
a entregar-nos a tia Hesona.

#O meu pai todo se inteiriou: de sbito, a brandura dava lugar  fria. Nunca conheci um dio to profundo como aquele. Por que razo - ao fim de tantos anos! -
continuava o meu pai a abominar to implacavelmente a Grcia? O silvo da sua respirao silenciou toda a sala.
- Como se atreve? Como se atreve Tlamon a insultar-me? Viste a tua tia, tiveste oportunidade de falar com ela?
- No, meu pai, no pude ver a tia Hesona.
- Malditos sejam todos eles! - Empinou muito a cabea e cerrou os olhos.  poderoso Apolo, Senhor da Luz, Senhor do Sol e da Lua e das Estrelas, concede-me a oportunidade
de reduzir a p o orgulho grego!
Inclinei-me para ele e disse-lhe:
- Pai, acalme-se! No estava  espera de outra resposta, pois no?
O rei Pramo virou a cabea na minha direco e abriu os olhos.
- No, suponho que no. Obrigado, Heitor. Como sempre, s tu quem me faz regressar  fria realidade. Mas por que raio  que os Gregos ho-de levar sempre a sua avante?
Por que raio  que ho-de ficar impunes se cometeram um crime - o rapto de uma princesa troiana?
Pris colocou a mo no joelho do nosso pai, afagou-o delicadamente. O rei olhou para ele e logo a sua expresso ganhou uma doura nova.
- Pai, a arrogncia grega no ficou impune. Eu dei-lhe o melhor dos castigos - disse Pris, os olhos muito brilhantes.
Chegara a pensar em retirar-me, mas houve qualquer coisa no tom com que Pris disse aquilo que me deteve.
- Como, meu filho?
- Olho por olho, dente por dente, meu pai! Os Gregos raptaram a tua irm, no foi? Pois eu trouxe-te da Grcia uma presa muito mais valiosa do que uma simples rapariga
de quinze anos! - Ergueu-se de um salto, to cheio de si que j no suportava continuar sentado aos ps do rei Pramo.
- Pai - exclamou ele, com uma voz to sonora que chegava s alturas do tecto -, eu trouxe-te Helena! A rainha da Lacedemnia, esposa de Menelau, o irmo de Agammnon,
e irm da rainha Clitemenestra, esposa de Agammnon!
To grande foi o choque que senti que fiquei sem saber o que dizer - uma tragdia, pois o tio Antenor pde falar primeiro do que eu. Avanou to depressa quanto
pde, erguendo as mos - as juntas inchadas dos dedos faziam com que estas parecessem enormes e disformes garras.
- O que tu fizeste foi a mais estpida das ingerncias, digna do mais ignorante e imbecil dos homens! - atroou Antenor - Ser possvel que essa carinha efeminada
no veja outra coisa seno saias? J agora, podias ter feito jus  tua cegueira de pinga-amor e raptado a prpria Clitemenestra! Os Gregos no se revoltaram por
causa dos nossos embargos comerciais, nem por causa da escassez de estanho e cobre, mas vo revoltar-se por causa do que tu fizeste! Idiota! Imbecil! Deste a Agammnon
a oportunidade de que ele estava  espera h um ror de anos! Lanaste-nos para uma guerra que ser a runa de Tria! O que te falta em tino, sobra-te em presuno!
Ah, se ao menos o teu pai te tivesse enjeitado! Se ao menos ele tivesse sufocado  nascena a tua devassido! Quando tivermos colhido todas as tempestades dos ventos
que semeaste, nenhum Troiano pronunciar o teu nome sem cuspir de nojo!
Uma parte de mim aplaudiu silenciosamente o discurso do velho; com efeito, ele ecoava os meus prprios sentimentos. No entanto, ao mesmo tempo, amaldioava o tio
Antenor. Que teria decidido o meu pai se Antenor se tivesse calado? Quando Antenor acusava, o rei defendia. Pramo podia at estar de acordo com Antenor, mas Antenor,
com aquele discurso inflamado, empurrara-o para o lado de Pris.
O meu irmo estava estupefacto com a reaco.
- Pai, eu fi-lo por ti! - disse ele, suplicante. Antenor fitou-o com um sorriso de escrnio.
- Ah, sim, claro, claro que o fizeste pelo teu pai! E j te esqueceste do mais famoso de todos os orculos? Cuidado com a mulher grega que  raptada e levada para
Tria! No achas que o orculo fala por si?
- No, eu no me esqueci do orculo! - gritou o meu irmo. - Mas Helena no foi raptada! Ela veio comigo de livre vontade porque quer casar-se comigo! E, como prova
disso, trouxe consigo um magnfico tesouro - ouro e jias que chegam para comprar um reino! Um dote, pai, um dote! - E deu um risinho satisfeito. - Eu fiz pior aos
Gregos do que raptar uma rainha - eu pus-lhes os cornos!
Antenor parecia ter perdido a batalha. Abanando lentamente a cabea alva, refugiou-se entre os cortesos. Pris fitava-me suplicante.
- Heitor, ajuda-me! - disse.
- Como posso ajudar-te? - perguntei furioso. Pris virou-se de novo para o pai, ajoelhou e, com os seus braos, envolveu as pernas do rei.
- Diz-me, meu pai: que mal poder advir daquilo que eu fiz? - perguntou ele, tentando puxar o pai ainda mais para o seu lado. - Alguma vez a fuga voluntria de uma
mulher deu origem a uma guerra? Helena veio de sua livre vontade! Helena no  uma menina pequena! Tem vinte anos,  uma mulher! Esteve casada durante seis anos
- tem filhos! Imagina s quo terrvel foi a sua vida para ter tomado esta deciso! Para ter deixado um reino e os seus filhos! Pai, eu amo-a! E ela ama-me! - exclamou
ele, com uma voz pateticamente embargada, as lgrimas comeando a deslizar pelas faces.

#Ternamente, o rei afagou o cabelo de Pris.
- Quero v-la - disse o nosso pai.
- No, espera! - Era Antenor que voltava  carga.         Rei Pramo, antes de veres essa mulher, suplico-te que me oias! Manda-a de volta para a sua terra, Pramo,
manda-a de volta para a Lacedemnia! Manda-a de volta para Menelau sem que ningum a veja - e apresenta as tuas mais sinceras desculpas e devolve-lhe todos os tesouros
que ela trouxe e recomenda-lhe que corte a cabea  esposa infiel! Porque  isso que ela merece! Amor ! Que amor  esse que abandona os filhos? No ser essa uma
prova mais do que suficiente? Ela trouxe para Tria um tesouro magnfico, mas no os seus filhos!
O meu pai no queria olhar para ele, mas devia saber o que todos ns estvamos a sentir, pois no fez qualquer tentativa para interromper o discurso.
Antenor pde continuar a falar.
Pramo, eu receio o rei supremo de Micenas - e tu devias tambm rece-lo! O ano passado, ouviste Menelau gabar-se de que o seu irmo Agammnon conseguira transformar
toda a Grcia num obediente vassalo de Micenas! Que acontecer, se Agammnon optar pela guerra? Mesmo que o derrotemos, ele arruinar-nos-. A riqueza de Tria tem
crescido desde tempos imemoriais por uma nica razo - Tria sempre evitou a guerra! A guerra destri as naes, Pramo
quantas vezes te ouvi dizer isso! O orculo afirma que a mulher que h-de vir da Grcia ser a nossa runa. E, no entanto, tu queres v-la! Presta ateno ao que
os nossos deuses dizem! No feches os teus ouvidos  sabedoria dos seus orculos! Que so os orculos seno uma oportunidade que os deuses do aos mortais de entreverem
o futuro? Tu prosseguiste a obra de Laomedonte, teu pai, e agravaste as suas medidas - enquanto Laomedonte se limitou a restringir o nmero de navios mercantes gregos
com acesso ao Euxino, tu proibiste todos os        navios gregos de entrarem no Euxino. E agora, os Gregos tm fome de estanho! Sim, eu sei que eles podem ir buscar
cobre a ocidente, ainda que tenham de pagar um preo incomportvel. Mas o estanho - onde podero eles ir busc-lo? A stio nenhum! Apesar de serem ricos e poderosos.
Com o rosto sulcado de lgrimas, Pris ergueu os olhos para o rei.
- Pai, eu j te disse: Helena no foi raptada! Ela veio de sua livre vontade! Portanto, Helena no pode ser a mulher de que falam os orculos - no ppode!
Desta feita, consegui ser mais rpido do que Antenor. Abandonei o estrado e falei.
- Pris, tu dizes que ela veio de sua livre vontade - mas que diro os Gregos? Achas que Agammnon dir aos reis seus vassalos que o seu irmo  O mais ridculo
dos homens - um cornudo? No Agammnon, que  o mais orgulhoso dos homens! No, Agammnon dir-lhes- que Helena foi raptada. Antenor tem razo, pai. Estamos a um
passo da guerra. E uma guerra contra a Grcia no nos afectar apenas a ns. Ns temos aliados, pai! Pertencemos a uma federao de estados da sia Menor. Temos
tratados de comrcio e amizade com todas as naes costeiras entre a Dardnia e a Cilcia, e tambm com todas as naes interiores at  Assria e, a norte, at
 Ctia. As terras costeiras so ricas e pouco povoadas - no possuem efectivos suficientes para enfrentar o invasor grego. Essas naes apoiam o nosso bloqueio
e tm enriquecido com a venda de estanho e cobre aos Gregos. Caso haja uma guerra, crs que Agammnon limitar a sua aco a Tria? No! Haver guerra por todo o
lado!
o meu pai olhava-me fixamente; olhei-o tambm, sem medo. Momentos antes, dissera-me, Como sempre, s tu quem me faz regressar  fria realidade. Mas agora - disse
para mim mesmo, desesperado - o meu pai abandonara a realidade. As minhas palavras e as de Antenor haviam tido um nico efeito: lev-lo a tomar a posio contrria
 que pretendamos.
- Ouvi j tudo o que me interessa ouvir - disse ele, num tom glido. Arauto, manda entrar a rainha Helena.
Aguardmos. Toda a sala estava to quieta e calada como um tmulo. Lancei ao meu irmo um olhar feroz, perguntando-me como fora possvel que tivssemos permitido
que Pris se houvesse transformado num to consumado idiota. Pris virara as costas ao pai (ainda que mantivesse uma mo no joelho dele, afagando-o) e olhava fixamente
para as portas, a boca encurvada num imenso sorriso de vaidade. Ele no tinha a menor dvida de que estvamos todos  espera de uma surpresa maravilhosa: lembrava-me
muito bem de Menelau ter dito que Helena era uma bela mulher. Mas eu sempre desconfiei de tais elogios quando as elogiadas eram rainhas ou princesas. Muitas eram
as que recebiam tal epteto s porque tinham o ttulo.
As portas abriram-se de par em par e ela parou por um momento antes de avanar na direco do trono. Ao sabor dos seus movimentos, a saia emitia um delicado tinido,
transformando-a numa melodia viva. Dei comigo boquiaberto, a respirao suspensa; tive de forar-me a exalar. No havia dvida: ela era a mais bela mulher que eu
jamais vira. At Antenor estava de boca aberta.
Com os ombros para trs e a cabea imperiosamente erguida, caminhava com dignidade e graa, sem sombra de vergonha ou de timidez. De elevada estatura, para uma mulher,
possua o mais soberbo corpo que Afrodite dera a humanas fmeas. Cintura estreita, ancas gracosamente cheias, longas pernas. No, no havia nela nada que no agradasse.
Os seios! Nus, de acordo com a indecorosa moda grega, erectos e cheios, desconheciam todos os artifcios, excepto que os mamilos estavam pintados a ouro. Um tempo
infindo pareceu passar at os nossos olhos Pousarem naquele pescoo de cisne. Superlativos, demasiados superlativos! A memria que tenho dela nesse dia  simples:
Helena era simplesmente... bela.

#Massas de cabelo ouro-plido, sobrancelhas e pestanas negras, os olhos da cor da relva primaveril, maquilhados com um fino trao que subia nos cantos,  maneira
das Cretenses e Egpcias.
Quanto do que estvamos a ver seria real e quanto no seria mais do que um encantamento? Nunca o saberei. Helena  a maior obra de arte que os deuses jamais puseram
na Me Terra.
Para o meu pai, Helena era o Destino. No to velho que tivesse olvidado os prazeres que as mulheres nos davam, Pramo olhou para ela e apaixonou-se. No sei se
ter sido amor, se mera lascvia. Porm, como era demasiado velho para a roubar ao filho, preferiu considerar como um elogio a si mesmo o facto de um flho seu ter
conseguido seduzi-la e roub-la ao marido, aos filhos,  sua prpria terra. Inchado de orgulho, virou os seus olhos maravilhados para Pris.
Faziam sem dvida um casal notvel: ele, to escuro como Ganimedes, ela, to loura e branca como rtemis da floresta. Apenas com uma breve caminhada, Helena vencera
por completo a silenciosa sala. Nenhum dos homens presentes poderia continuar a censurar Pris pela loucura que cometera.
Logo que o rei dissolveu a assembleia, coloquei-me ao seu lado, subindo deliberadamente para o estrado e aproximando-me lentamente do trono. Ficava assim trs degraus
mais alto do que os amantes fugitivos e muito mais alto do que o trono de ouro e de marfim do meu pai. Normalmente, no exibia to brutalmente o meu estatuto de
herdeiro, mas a verdade  que Helena bulia-me com os nervos; queria que ela soubesse qual era o lugar exacto de Pris na corte - e qual era o meu lugar. Os seus
estranhos e insondveis olhos verdes fixaram-se no meu rosto.
- Querida rainha, este  Heitor, o meu herdeiro - disse o meu pai. Helena inclinou solene e regiamente a sua cabea.
- Muito prazer em conhecer-te, Heitor. - Os olhos dela ganharam de sbito uma vivacidade coquete. - Por todos os deuses, Heitor, s um homem enorme!
Era obviamente uma provocao. Porm, no era o desejo que ela queria provocar em mim; no que tocava a homens, as suas inclinaes iam mais para os efeminadamente
belos como Pris do que para os guerreiros possantes como eu. Ainda bem que assim era: eu no sabia se conseguiria resistir-lhe.
- O maior de Tria, rainha - retorqui, incapaz de disfarar a tenso.
Ela riu-se.
- No duvido, no duvido... - disse.
- Pai - disse eu - ds-me licena que me retire?
- Os meus filhos so verdadeiramente magnficos, no so, rainha Helena?
- disse o meu pai, inchado de satisfao. - Heitor  o orgulho do meu corao
- um grande homem! Um dia, ser um grande rei!
Helena nada disse, enquanto me apreciava atentamente; porm, para l do seu Olhar brilhante, a mente perguntava-se se no seria possvel afastar-me e pr Pris no
meu lugar. Ela que pensasse o que quisesse! O tempo ensinar-lhe-ia que Pris abominava todo o tipo de responsabilidades.
Estava j prestes a sair quando o meu pai me chamou:
- Espera, espera! Heitor, diz a Calcas que quero falar com ele. Uma estranha ordem. Porque quereria o rei falar com aquele homem repulsivo, excluindo Lacoonte e
Teano? Havia muitos deuses na nossa cidade, mas a nossa principal divindade era Apolo. O culto de Apolo era uma especificidade nossa, o que fazia com que os seus
sacerdotes - Calcas, Lacoonte e Teano - fossem os prelados mais poderosos de Tria.
Encontrei Calcas caminhando sonolentamente  sombra do altar dedicado a Zeus do Ptio. No questionei sequer o facto de ele ali estar; Calcas era o tipo de homem
cujos actos ningum questionava. Envergava uma longa e ondeante tnica negra, bordada a prata com estranhos signos e smbolos, e a pele doentiamente branca da sua
cabea calva brilhava tenuemente  luz do entardecer. Certa vez, era eu ainda uma criana, descobrira um ninho de cobras, to brancas como arminho, na cripta do
palcio. Porm, depois de ter encontrado essas criaturas cegas e debilitadas, escravas de Kore, nunca mais me aventurara a descer  cripta. Calcas despertava em
mim precisamente os mesmos sentimentos.
Dizia-se que Calcas viajara por todo o mundo, desde as terras dos Hiperbreos ao rio do Oceano, desde terras muito a oriente de Babilnia a terras muito a sul da
Etipia. Aindumentria de Calcas fora imitada da dos sacerdotes de Ur e da Sumria. No Egipto, assistira aos rituais que haviam sido transmitidos, ao longo de muitas
geraes de ilustres sacerdotes, desde o princpio dos deuses e dos homens. Outras coisas se diziam a respeito dele: que era capaz de preservar os corpos dos mortos,
de tal modo que estes, ao fim de cem anos, pareciam no ter sofrido a corroso natural do tempo; que Participara nos horrendos ritos do negro Seth; dizia-se at
que beijara o falo de Osris e que acedera assim ao supremo conhecimento. Nunca consegui gostar dele. Emergi dos pilares e avancei para o ptio. Ele sabia que era
eu quem se aproximava, embora no tivesse olhado para mim uma nica vez.
- Procuras-me, prncipe Heitor?
- Sim, sagrado sacerdote. O rei quer que vs ter com ele  Sala do Trono.
- Para falar com a mulher que veio da Grcia. Eu vou. Fui  frente dele - como era meu direito - pois ouvira falar de sacerdotes que julgavam poder tornar-se eminncias
pardas dos reis; no queria que Calcas nutrisse tais esperanas.
Enquanto Helena o fitava com uma repulsa constrangida, Calcas beijou as mos do meu pai e aguardou que ele falasse.

#- Calcas, o meu filho Pris trouxe uma noiva. Quero que os cases amanh.
- Como te aprouver, rei Pramo. De seguida, o rei ordenou a Pris e Helena que se retirassem.
- Vai, Pris, e mostra a Helena o seu novo lar - disse ele para o meu estpido irmo.
Saram de mo dada. Desviei os olhos daquele espectculo de felicidade. Calcas permanecia silencioso, imvel.
- Sabes quem ela , sacerdote? - perguntou o meu pai.
- Sei sim, rei Pramo:  Helena. A mulher grega raptada. Estava  espera dela.
Estaria mesmo? Ou teriam sido os seus espies to eficientes como sempre?
- Calcas, tenho uma misso para ti.
- Sim, rei Pramo.
- Preciso dos conselhos da pitonisa de Delfos. Vai a Delfos aps o casamento e descobre o que significa Helena para ns.
- Sim, rei Pramo. Deverei obedecer  pitonisa?
- Claro. A pitonisa  a Boca de Apolo. Que se estaria a passar realmente ali, na Sala do Trono? perguntei-me. Quem enganava quem? As respostas estavam na Grcia.
Todas as respostas pareciam estar na Grcia. Seria o Orculo de Delfos servo do Apolo troiano ou do Apolo grego? Seriam os dois Apolos o mesmo deus?
O sacerdote retirou-se. Fiquei finalmente a ss com o meu pai.
- Tomaste uma deciso lamentvel - disse-lhe eu.
- No, Heitor, eu tomei a nica deciso possvel. - Ergueu as mos irritado. - No percebes que no podia mand-la embora? O mal est feito, Heitor. Est feito desde
o momento em que ela deixou o seu palcio de Amiclas.
- Nesse caso, pai, no a devolvas toda aos Gregos: devolve-lhes apenas a cabea.
-  tarde de mais, Heitor - retorquiu ele, o seu pensamento vagueando j por outras paragens. - Tarde de mais... tarde de mais...

Captulo Oitavo
Narrado por Agammnon

Clitemenestra estava de p junto  janela, banhada pelo sol. A luz semeava na sua cabeleira chamas acobreadas, to ardentes e brilhantes como ela prpria. A minha
esposa no possua a beleza de Helena, mas, para mim, os seus atractivos eram mais interessantes e o seu sexo mais forte. Clitemenestra era uma fonte viva de poder,
no um simples ornamento.
A vista que dali se desfrutava sempre a encantara, talvez porque era o claro espelho da magnfica situao geogrfica de que Micenas gozava. A nossa cidadela era
mais elevada do que todas as outras. Dali se via uma paisagem imensa, desde a montanha do Leo ao vale de Argos, o extenso verde dos campos cultivados, e depois,
mais acima, as montanhas que nos rodeavam, com as suas densas florestas de pinheiros sobranceiras a vastos olivais.
A certa altura, gerou-se um tumulto  porta do meu quarto; ouvia distintamente as vozes dos meus guardas, protestando que o rei e a rainha no queriam ser incomodados.
Irritado e intrigado, levantei-me. Porm, no tinha dado ainda um passo quando a porta se abriu de par em par e Menelau entrou cambaleante. Veio direito a mim, caiu
de joelhos, encostou a cabea s minhas coxas e desatou a soluar. Lancei um olhar aturdido a Clitemenestra, que fitava o meu irmo estupefacta.
- Que se passa? - perguntei, afastando-o dos meus joelhos e sentando-o numa cadeira, Mas a resposta de Menelau eram lgrimas, apenas lgrimas. Tinha o cabelo emaranhado
e sujo, as vestes em desalinho, uma barba de trs dias. Clitemenestra encheu um copo de vinho sem gua e estendeu-mo. Depois de ter bebido, Menelau acalmou-se um
pouco: pelo menos, os soluos abrandaram.
- Menelau, conta-nos o que se passa.
- Helena partiu!

#Clitemenestra correu para ele. -Morreu?
- No! Antes tivesse morrido! Helena deixou-me, Agammnon!                   Soergueu-se na cadeira, fez um esforo para se controlar.
- Conta-me tudo devagar, Menelau - pedi-lhe.
- Regressei de Creta h trs dias. Ela no estava l... Ela fugiu, irmo - fugiu para Tria com Pris.
Ficmos parados a olhar para ele, boquiabertos de espanto.
- Fugiu para Tria com Pris - repeti eu, quando pude.
- Sim, sim! E levou consigo o tesouro!
- No acredito - disse eu.
- Oh, podes acreditar, marido, podes acreditar! Aquela harpia estpida e lasciva! silvou Clitemenestra. - Outra coisa no seria de esperar de uma mulher que se entregou
a Teseu! Uma rameira,  o que ela ! Uma prostituta! Uma cadela amoral!
- Tento na lngua, mulher! Ela mostrou-me os dentes, mas obedeceu.
- Quando aconteceu isso, Menelau? Com certeza que foi h menos de cinco luas!
- H quase seis luas, irmo - foi no dia em que eu parti para Creta.
- No  possvel! Admito que no estive em Amiclas na tua ausncia, mas tenho bons amigos na cidade - amigos que, sem demora, me teriam comunicado o sucedido.
- Ela lanou-lhes o mau olhado, Agammnon! Helena foi ao Orculo da Me Kubaba e falsificou a sua mensagem: o Orculo, segundo ela, dizia que eu usurpara o trono
da Lacedemnia. Depois, convenceu a Me Kubaba a amaldioar os meus nobres. Nestas condies, ningum se atreveria a contar-te.
Sufoquei a raiva que sentia.
- Com que ento, na Lacedemnia, a Me e a Velha Religio continuam a ser reis e senhores ... ! Deixa estar que eu trato disso ... ! Mais de cinco luas e eu sem
saber de nada... - Encolhi os ombros. - Bom, agora j no h nada a fazer. No vale a pena ir atrs de Helena.
-No h nada a fazer? No vamos fazer nada? - disse Menelau, erguendo-se de um salto. - Agammnon, tu s o rei supremo! Tens de fazer tudo para que ela volte!
- Ela levou os filhos? - perguntou Clitemenestra.
- No - disse ele. -Apenas o tesouro.
- Por a se v quais so as prioridades daquela cadela... -, rosnou a minha esposa. - Esquece-a, Menelau! Ficas muito melhor sem ela!
Menelau ajoelhou-se, de novo em lgrimas.
- Eu quero que ela volte! Eu quero que ela volte, Agammnon! D-me um exrcito! D-me um exrcito e deixa-me seguir para Tria!
- Levanta-te, irmo! Controla-te!
- D - me um exrcito! - exclamou ele, fora de si. Suspirei de enfado.
- Menelau, isto  um caso meramente pessoal. No te posso dar um exrcito s para levares a tribunal uma prostituta! Admito que todos os Gregos tm razes de sobra
para odiarem Tria e os Troianos, mas nenhum dos reis meus vassalos consideraria a fuga voluntria de Helena razo suficiente para declararem guerra a Tria.
- Tudo o que eu te peo  um exrcito formado pelas minhas e pelas tuas tropas, Agammnon!
- Tria reduziria os nossos homens a p, Menelau. Consta que o exrcito de Pramo tem cerca de cinquenta mil soldados - expliquei-lhe eu.
Nesse instante, Clitemenestra deu-me uma cotovelada nas costas.
- Marido, j te esqueceste do Juramento? - perguntou. - Graas ao Juramento do Cavalo Esquartejado, podes formar um exrcito muito maior! Cem reis e prncipes pronunciaram
esse Juramento!
Abri a boca para a informar de que as mulheres no passavam de uns seres idiotas, mas fechei-a imediatamente sem lhe dizer uma nica palavra. A Sala do Trono no
ficava longe; foi para l que fui sem mais demoras. Sentei-me na Cadeira do Leo, as minhas mos coladas s garras que rematavam os seus braos, e reflecti.
Um dia antes, apenas, recebera uma delegao de reis de toda a Grcia, protestando contra o encerramento do Helesponto e as consequncias da advindas. J no tinham
dinheiro que chegasse para comprar estanho e cobre aos estados da sia Menor. As nossas reservas de metais - e, em particular, de estanho - haviam chegado ao fim;
as relhas dos arados, agora, eram feitas com madeira e osso. Se as naes da Grcia queriam sobreviver, teriam de acabar com a poltica troiana de deliberada excluso
dos mercadores gregos. A norte e a oeste, as tribos brbaras comeavam a concentrar-se, prontas a exterminarem-nos, tal como, outrora, ns havamos exterminado os
primitivos Gregos. E onde iramos ns buscar o bronze necessrio para produzir os milhes de armas de que precisvamos para enfrentarmos essas tribos?
Escutara os reis meus vassalos e prometera-lhes uma soluo. Sabendo que no havia outra soluo seno a guerra - mas sabendo tambm que muitos desses reis recusariam
a mais desesperada das medidas. Agora, um dia depois, tinha nas minhas mos os meios necessrios. Clitemenestra mostrara-me como. Eu era Um homem no pleno apogeu
das suas capacidades e participara j em muitas guerras - e era um bom guerreiro, um bom militar. Sim... eu era capaz de chefiar uma

#invaso de Tria! Helena servir-me-ia de pretexto... O astuto Ulisses previra a guerra sete anos antes, quando aconselhara o falecido Tndaro a exigir o Juramento
aos pretendentes de Helena.
Se queria que o meu nome permanecesse vivo depois da minha morte, teria de deixar grandes feitos aos vindouros. Haveria no mundo maior feito do que a invaso e conquista
de Tria? O Juramento permitir-me-ia dispor de cerca de cen mil soldados - um nmero suficiente para executar uma tal misso em dez dias. E com Tria em runas,
quem me impediria de concentrar os meus esforos nos estados costeiros da sia Menor, quem me impediria de reduzi-los a meros satlites de um imprio grego? Pensei
no bronze, no ouro, na prata, no electro, nas jias, nas terras a conquistar. Tudo isso seria meu: bastava-me invocar o Juramento do Cavalo Esquartejado. Sim, eu
poderia construir um imprio para o meu povo!
A minha esposa e o meu irmo, de p a meio da sala, no tiravam de mim os olhos; endireitei-me no trono, falei-lhes com um ar grave.
- Helena foi raptada - disse eu. Menelau abanou a cabea, com a mais infeliz das expresses.
- Quem me dera que tivesse sido, Agammnon! Mas a verdade  que no foi. Helena no precisou de nenhuma coaco para fugir.
Apetecia-me bater-lhe. Era isso que costumava fazer-lhe quando ramos pequenos. Claro que no lhe bati, mas confesso que tive de fazer um grande esforo para reprimir
os meus impulsos. Pela Me, que idiota que era o meu irmo! Como era possvel que o nosso pai, Atreu, tivesse feito aquele idiota chapado?
- Estou-me marimbando para a verdade, Menelau! - atirei-lhe, furioso. Dirs a toda a gente que ela foi raptada! A mais leve sugesto de que a fuga dela foi voluntria
destruir tudo - ainda no percebeste? Se obedeceres s minhas ordens sem discusses, garanto-te que, recorrendo ao Juramento, reunirei um exrcito imenso!
O mais infeliz dos homens ganhou um nimo novo; a escurido deu lugar  luz.
- Isso mesmo, Agammnon, isso mesmo! Olhei de relance para Clitemenestra. Havia nos seus lbios um amargo sorriso. O meu irmo era um imbecil, a irm dela no lhe
ficava atrs, e ambos estvamos perfeitamente conscientes disso.
Um criado encontrava-se ao fundo da sala, demasiado longe para ouvir a nossa conversa; bati as palmas para que se aproximasse.
- Vai chamar Calcas - ordenei.
O sacerdote entrou na sala momentos depois. Prostrou-se a meus ps. Olhei-lhe para a nuca, perguntando-me que motivo o trouxera efectivamente a Micenas. Calcas era
um troiano da mais alta nobreza. At h pouco tempo, fora um dos supremos sacerdotes de Apolo em Tria. Aquando de uma peregrinao a Delfos, a pitonisa dissera-lhe
que deveria servir Apolo em Micenas. Ordenara-lhe ainda que no regressasse a Tria e que nunca mais voltasse a servir o Apolo troiano. Depois de ter aparecido na
minha corte, mandei um enviado a Delfos para confirmar a histria; a pitonisa no deixou margem para dvidas - era tudo verdade. Calcas teria de ser sacerdote de
Micenas porque o Senhor da Luz assim o queria. Tenho de admitir, por outro lado, que nunca me dera razes para que eu suspeitasse de uma eventual traio. Dotado
da Segunda Viso, informara-me, poucos dias antes, de que o meu irmo me viria procurar devido a um grave problema.
A sua aparencia era desagradvel, pois Calcas era uma raridade entre as raridades - um albino verdadeiro. A cabea era completamente calva, a pele to branca como
a barriga de um peixe. Os olhos eram rosa-escuro e muito vesgos, numa cara enorme e redonda que exibia uma expresso permanente da mais absoluta estupidez. Pura
iluso: Calcas seria tudo, menos estpido.
Enquanto se endireitava, tentei sondar a sua mente. Contudo, era impossvel ler fosse o que fosse naqueles olhos nublados, como que cegos.
- Calcas, h quanto tempo deixaste o rei Pramo?
- H cinco luas, rei Agammnon.
- O prncipe Pris j tinha regressado de Salamina?
- No, rei Agammnon.
- Podes retirar-te. Notei no seu ar que tinha ficado ofendido por eu o ter tratado to sumariamente; era evidente que, em Tria, estava habituado a ser tratado com
mais deferncia. Mas Tria adorava Apolo como deus supremo, ao passo que, em Micenas, o deus supremo era Zeus. Devia ser uma humilhao terrvel para ele, um troiano,
ser obrigado por Apolo a servir numa terra onde era rebaixado.
Bati de novo as palmas.
- Chamem o arauto-mor. Menelau suspirou, lembrando-me que continuava ali, na Sala do Trono; embora eu no me tivesse esquecido, por um s momento, de que Clitemenestra
ainda ali estava.
- Coragem, irmo. Ns traremos Helena de volta. Ningum pode infringir o Juramento do Cavalo Esquartejado. Ters o teu exrcito na Primavera do prximo ano.
O arauto-mor entrou. -Arauto, enviars mensagens a todos os reis e prncipes da Grcia e de Creta que pronunciaram o Juramento do Cavalo Esquartejado, diante do
rei Tndaro, h sete anos. O funcionrio encarregado dos Juramentos sabe de cor os seus nomes. Os teus mensageiros recitaro aquilo que te vou ditar: Rei - ou

#prncipe, ou seja l o que for - eu, vosso suserano, Agammnon, rei dos reis, ordeno-vos que se desloquem imediatamente a Micenas, a fim de discutirmos o Juramento
que pronunciaram aquando do casamento da rainha Helena com o rei Menelau. Decoraste tudo?
Orgulhoso da sua memria, o arauto-mor acenou que sim.
- Decorei tudo, rei Agammnon.
- Ento, faz o que te ordenei.
Clitemenestra e eu livrmo-nos de Menelau, dizendo-lhe que precisava de um banho. Desandou imediatamente, todo feliz; Agammnon, o irmo mais velho, tinha a situao
controlada - portanto, o menino podia descansar.
- Supremo rei da Grcia  um ttulo grandioso - disse Clitemenestra mas rei supremo do Imprio Grego  incomparavelmente melhor.
Fitei-a com um sorriso arreganhado.
- Tambm acho, mulher.
- Agrada-me a ideia de Orestes herdar um tal ttulo - disse ela, sonhadora. Um comentrio que dizia tudo sobre Clitemenestra. No seu corao selvagem, a minha rainha
era uma chefe, uma mulher que achava humilhante ter de se vergar ao poder de algum ainda mais forte do que ela. Eu estava perfeitamente consciente das ambies
dela; sabia que ela ansiava substituir-me no trono, que ansiava fazer renascer a Velha Religio e usar o rei unicamente como um smbolo vivo da sua fertilidade.
E mand-lo para o machado quando a terra gemesse de dor. O culto de Me Kubaba, na ilha de Plops, no estava ainda suficientemente reprimido. O nosso filho, Orestes,
era muito pequeno ainda; nascera quando eu j desesperava de ter um filho varo. Electra e Cristemis eram j pberes quando ele nascera. Um filho varo era um rude
golpe para Clitemenestra; a minha mulher nutrira a esperana de governar atravs de Electra; ultimamente, porm, transferira toda a sua afeio para Cristemis.
Electra adorava o pai, no a me. Contudo, Clitemenestra no desarmava. Agora que tnhamos a certeza de que Orestes, um beb forte e saudvel, sucederia ao pai,
a me esperava que eu morresse antes que ele tivesse a idade necessria para subir ao trono. Depois, governaria atravs dele. Ou atravs da nossa filha mais nova,
Ifignia.
Alguns dos homens que haviam pronunciado o Juramento do Cavalo Esquartejado chegaram a Micenas antes de Menelau ter regressado de Pilos com o rei Nestor. De Micenas
a Pilos era uma longa distncia; muitos dos reis que vieram viviam mais perto da minha capital. Palamedes, o filho de Nuplio, no demorou muito a chegar. A sua
presena alegrou-me muito: s Ulisses e Nestor eram mais sbios do que ele.
Estava a conversar com Palamedes na Sala do Trono, quando reparei que havia alguma agitao entre o pequeno grupo de reis menos importantes que se encontravam na
sala. Palamedes, reparando no mesmo que eu, sufocou um risinho.
- Por Hracles, que colosso! Deve ser jax, o filho de Tlamon. Que vem ele c fazer? Era apenas uma criana quando o Juramento foi pronunciado e o pai dele no
estava l.
o jovem avanou decididamente na nossa direco: era sem dvida o homem mais corpulento de toda a Grcia; os seus ombros e a sua cabea erguiam-se mais alto do que
todos os presentes. Pertencendo a um grupo de jovens que aderia a um regime rigorosamente atltico, jax desprezava a comum blusa; fosse qual fosse a estao do
ano, fizesse frio ou sol, andava de tronco nu e descalo. No consegua tirar os olhos do seu peito macio, dos poderosos msculos dos braos e das pernas, sem sombra
de gordura. De cada vez que punha um p nas minhas lajes de mrmore, parecia at que as paredes tremiam.
- Dizem que Aquiles, o primo dele,  quase to grande como ele - comentou Palamedes.
- Isso no nos interessa - retorqui, irritado. - Os senhores do norte nunca se dignam prestar homenagem a Micenas. A Tesslia, pensam eles,  suficientemente forte
para ser independente.
- Bem-vindo, filho de Tlamon - disse eu. - Que te traz a Micenas? Os seus olhos infantis examinaram-me serenamente.
- Vim oferecer os servios de Salamina, rei Agammnon, em representao de meu pai, que se encontra doente. Disse-me que seria uma boa experincia para mim.
Fiquei sinceramente satisfeito. Pena que o outro filho de aco, Peleu, fosse to arrogante. Tlamon reconhecia os seus deveres para com o rei supremo; em contrapartida,
ningum estaria  espera de que Peleu, Aquiles e os Mirmides aparecessem.
-Agradecemos a tua presena, filho de Tlamon. Sorrindo, jax deixou-nos e encaminhou-se, com a sua possante passada, na direco de alguns amigos que o saudavam
freneticamente. De sbito, porm, parou, e virou-se para mim.
- Esquecia-me de uma coisa, rei Agammnon. O meu irmo Teucro est comigo. Ele pronunciou o Juramento.
Palamedes estava ainda a rir-se, ainda que ocultasse o riso com uma mo.
- Ser que vamos abrir uma escola para rapazinhos do campo, Agammnon?
- Sim,  de facto pena que o rapaz seja um brutamontes. Mas no podemos menosprezar as tropas de Salamina.
 hora do jantar, ao entardecer, tinha j comigo Palamedes, jax, Teucro, o outro Ajax da Lcrida, conhecido como o pequeno jax, Menesteu, o rei supreMo da tica,
Diomedes de Argos, Toas da Etlia, Eurpilo de Ormnion, e outros

#mais; para minha grande surpresa, alguns dos que tinham vindo no haviam pronunciado o Juramento. Disse-lhes que tencionava invadir a pennsula de Tria conquistar
a cidade e libertar o Helesponto. Pensando na reabilitao do meu irmo, alonguei-me na descrio das perfdias de Pris, mas a verdade        que  nenhum dos presentes
se deixou iludir; eles sabiam muito bem quais eram as verdadeiras razes daquela guerra.
- Nos ltimos tempos, os nossos mercadores tm-nos massacrado com protestos: querem, e com razo, que o Helesponto seja reaberto. Precisamos de mais estanho e cobre.
Os brbaros canibais do norte e do oeste j comearam a cobiar as nossas terras. Alguns de ns governam estados que se tornaram demasiado populosos, com todas as
consequncias que da advm - pobreza, agitao, motins, conspiraes. - Fitei-os com um ar grave. - Que ningum se iluda: Helena no  o nico objectivo desta guerra.
Esta expedio contra Tria e os estados do litoral da sia Menor no conduzir apenas a uma acumulao de riquezas e  obteno de bronze barato. Esta expedio
oferece-nos a oportunidade de colonizar territrios ricos e pouco povoados com os nossos excedentes populacionais. O mundo em torno do Egeu fala j Grego com mais
ou menos sotaque. Mas imaginem que todo esse mundo em torno do Egeu se torna grego! Imaginem a Grcia no como um simples reino, mas como um imprio!
Ah, eles adoravam ouvir tais palavras! Todos morderam avidamente o isco; terminado o discurso, nem precisei de invocar o Juramento, e ainda bem que assim foi. A
avareza era melhor capataz do que o medo. Claro que Atenas me apoiava inteiramente; nunca duvidei da cooperao de Menesteu. Cooperao que encontrei tambm em Idomeneu
de Creta, o terceiro rei supremo. Mas o quarto Peleu - no me apoiaria. Quando muito, contaria apenas com a ajuda de alguns dos seus reis vassalos.
Vrios dias depois, chegou Menelau com Nestor. Ordenei que trouxessem imediatamente o ancio  minha presena. Mandei embora Menelau e reunimo-nos, com Palamedes,
no meu salo privado; mandava a prudncia que Menelau continuasse a acreditar que Helena era a nica e exclusiva razo para aquela guerra. No lhe ocorrera ainda
qual seria o inevitvel desfecho do suposto resgate de Helena - e ainda bem. Logo que estivesse nas nossas mos, Helena teria de dizer adeus  sua cabea.
No fazia ideia de qual seria a idade do rei de Pilos. Era eu ainda um rapaz e j ele era um velho de cabelos brancos. Era senhor de uma sabedoria notvel e o seu
discernimento continuava to agudo como no tempo em que eu era um jovem; no havia sinal de senilidade nos seus penetrantes e brilhantes olhos azuis, no havia sombra
de tremuras nos seus dedos carregados de anis.
- Diz-me, Agammnon, afinal qual  a verdadeira razo de tudo isto? perguntou-me. - O teu irmo est cada vez mais tonto! A sua sade mental no melhorou nada...
Tudo o que me disse foi que Helena fora raptada - uma histria muito estranha... Nunca me pareceu que Helena precisasse de ser forada... E no me venhas dizer que
Menelau convenceu o irmo a satisfazer-lhe os caprichos! Uma guerra por causa de uma mulher? Francamente, Agammnon.
Meu caro Nestor, as razes desta guerra so o estanho, o cobre, o alargamento das vias mercantis, a livre passagem atravs do Helesponto e a colonizao do litoral
da sia Menor. A fuga de Helena com o tesouro do meu irmo , muito simplesmente, o mais perfeito dos pretextos.
- Hum. - Nestor franziu os lbios. - Fico contente por te ouvir falar assim. Ests a contar com quantos homens?
-As informaes de que dispomos referem oitenta mil soldados. Com mais de vinte mil ajudantes no combatentes, teremos mais de cem mil homens. Deveremos fazer-nos
ao mar em cerca de mil navios, na prxima Primavera.
- Uma campanha gigantesca, Agammnon. Espero que estejam a plane-la com todos os cuidados.
- Naturalmente - retorqui eu com um ar altivo. - No entanto, ser uma guerra muito breve - um to grande nmero de homens arrasar Tria em poucos dias.
Os olhos dele arregalaram-se de surpresa.
- Achas que sim? Tens mesmo a certeza disso, Agammnon? Alguma vez estiveste em Tria?
- No.
- Mas j deves ter ouvido falar das muralhas troianas...
- Claro que j ouvi falar! No entanto, Nestor, no h muralhas que resistam a uma centena de milhar de homens.
- Talvez... Dar-te-ia, porm, um conselho: espera que os teus navios aportem a Tria. Poders ento ter uma ideia mais precisa da situao. Tria, ao que se diz,
 o oposto de Atenas, que possui uma cidadela fortificada e uma nica muralha que se estende na direco do mar. No, Tria encontra-se completamente cercada por
verdadeiros baluartes. Acredito que o desfecho da campanha seja a tua vitria. Mas acredito tambm que ser uma longa campanha....
- Teremos de concordar que, quanto a este ponto, divergimos, rei Nestor retorqui eu, firmemente.
Nestor suspirou.
- Seja como for, nem eu, nem nenhum dos meus filhos, pronunciou o Juramento; contudo, podes contar com o nosso apoio. Se no acabarmos com O poder de Tria e dos
estados da sia Menor, Agammnon, ns - e a Grcia!

#depressa perecero! - Ps-se a olhar para os anis, aps o que perguntou: Onde est Ulisses?
- Mandei um mensageiro a taca.
- Oh! Ulisses no vem com simples mensagens... - disse Nestor.
- Tem de vir! Ele tambm jurou!
- Os Juramentos nada significam para um homem como Ulisses. No que possamos acus-lo de sacrilgio - mas a verdade  que foi ele quem concebeu todo este plano!
Provavelmente, pronunciou muito baixinho o Juramento do fim para o princpio e ningum deu por isso. No fundo, Ulisses  um homem que adora a tranquilidade e, segundo
consta, adaptou-se com a maior das felicidades  rotina domstica. Disseram-me que havia perdido todo o seu velho interesse pela intriga. No, Agammnon, ele no
querer ir contigo. Mas tens de contar com ele entre os teus chefes.
- Eu sei, rei Nestor.
- Ento vai busc-lo tu - retorquiu Nestor. - Leva Palamedes contigo. E soltou um risinho malandro. - Para apanhar um ladro, no h melhor do que outro ladro...
-Achas que leve Menelau? Os olhos dele cintilaram de divertimento.
- Sem a menor dvida. Sempre  uma maneira de pr Menelau a falar mais de sexo e menos de economia...
Fizemos a primeira etapa da nossa viagem por terra e, numa pequena aldeia da costa ocidental da ilha de Plops, embarcmos rumo a taca. Mal chegmos  praia, examinei
a ilha e confesso que fiquei triste com o que vi - era uma ilha pequena, rochosa, algo rida; enfim, no seria por certo o mais adequado dos reinos para a mente
mais notvel do mundo. Enquanto avanava a p por um caminho de pastores que conduzia  nica cidade da ilha, amaldioei Ulisses por nem sequer se preocupar em assegurar
a existncia de transportes na nica praia da ilha onde um barco poderia aportar. Na cidade, contudo, conseguimos encontrar uns quantos burros infestados de pulgas;
profundamente satisfeito por nenhum dos meus cortesos estar presente (que triste espectculo, o rei supremo empoleirado num burro!), segui na direco do palcio.
Apesar de pequeno, o palcio foi uma verdadeira surpresa. O exterior era magnfico, os pilares eram enormes, as pinturas levavam-nos a pensar que o interior seria
por certo sumptuoso. Claro que o dote da esposa de Ulisses inclura vastas extenses de terra, bas cheios de ouro e jias reais. O pai de Penlope, Icrio, fartara-se
de protestar contra uma tal unio, pois no queria dar a filha a um homem que, at para ganhar uma corrida, usava de artimanhas! A verdade, porm,  que agora Penlope
era a esposa de Ulisses.
Contava que Ulisses estivesse  nossa espera no prtico; era mais do que provvel que a notcia da chegada tivesse chegado j ao palcio, levada pelos habitantes
da cidade. Porm, quando finalmente deixmos os nossos ignbeis corcis, verificmos que o palcio estava to silencioso quanto deserto. Nem os criados se dignavam
aparecer! Tomei o comando do grupo e avancei pelas salas do palcio
- por Zeus, que frescos maravilhosos! Excelentes, sem dvida! - sentindo-me mais perplexo do que ofendido por descobrir que, de uma ponta a outra do palcio, no
havia sinal de vida. Nem sequer aquele maldito co, Argos, que Ulisses levava para todo o lado, se dignava ladrar aos visitantes.
Um par de magnficas portas de bronze disse-nos onde ficava a Sala do Trono; Menelau abriu-as. Ficmos no vo da porta, pasmados, apreciando a qualidade da arte
e a perfeita distribuio das cores, at que os nossos olhos repararam numa mulher que estava sentada no ltimo degrau do estrado do trono e que chorava rios de
lgrimas. A cabea estava parcialmente tapada pelo manto; porm, quando o ergueu, logo descobrimos de quem se tratava, pois o seu rosto estava tatuado com uma teia
azul, a qual tinha no meio uma aranha carmim: a insgnia de uma mulher consagrada a Palas Atena, no seu disfarce de tecedeira. Penlope era tecedeira.
Levantou-se num repente e logo caiu de joelhos para beijar a bainha do meu saiote.
- Rei Agammnon! No estvamos  tua espera! Ah,  muito triste a recepo que te ofereo! - E rompeu de novo a chorar.
Fiquei parado a olhar para aquela cena, sentindo-me o mais ridculo dos homens: uma mulher histrica enroscada nas minhas pernas! Olhei de relance para Palamedes
e no consegui evitar um sorriso. Como esperar o trivial, se estvamos na corte de Ulisses?
Palamedes inclinou-se para mim e disse-me ao ouvido:
- Rei Agammnon, vou dar uma volta s imediaes para ver se descubro alguma coisa. Ds-me licena?
Acenei que sim, aps o que tratei de erguer a chorosa Penlope.
- Ento, prima, acalma-te. Conta-me o que se passa - disse-lhe.
- Foi o rei, primo! - disse ela. - O rei enlouqueceu! Ah, primo, Ulisses est louco varrido ... ! Nem sequer reconhece a sua esposa! Est l em baixo, no pomar sagrado!
Fala sozinho e s diz disparates, coitado!
Palamedes regressou a tempo de ouvir aquilo.
- Temos de ir v-lo, Penlope - disse eu.
- Vo v-lo, vo... - disse ela, soluando. Penlope conduziu-nos at s traseiras do palcio, de onde se viam terras de cultivo que se espalhavam em todas as direces;
o centro de taca era muito mais frtil do que o litoral. amos ns a descer a escadaria das traseiras quando apareceu uma velha com um beb ao colo.

#- Rainha, o prncipe no pra de chorar! H muito que devia ter mamado! Penlope pegou logo na criana, embalando-a nos seus braos.
-  o filho de Ulisses? - perguntei.
- Sim,  Telmaco. Fiz-lhe umas ccegas no rosto, aps o que tratei de avanar; o destino do seu pai era muito mais importante. Passmos por oliveiras muito velhas
- to velhas que os seus troncos torturados eram mais grossos do que touros - e vimo-nos por fim numa rea murada que seria talvez o pomar, ainda que tivesse mais
terra seca do que rvores de fruto. E foi nesse instante que vimos Ulisses. Menelau murmurou qualquer coisa numa voz estrangulada, mas eu nem murmurar consegui.
Ulisses estava a arar a terra com o duo mais estranho que eu jamais vira preso a um arado - um boi e uma mula! Os animais puxavam cada um para seu lado, o arado
erguia-se da terra e girava obliquamente, os sulcos que fazia na terra eram to tortuosos como Ssifo. Sobre a cabeleira vermelha, Ulisses trazia um chapu de feltro
de campons e atirava no sei o qu, a esmo, por sobre o ombro esquerdo.
- Que est ele a fazer, Penlope? - perguntou Menelau.
- A semear sal - respondeu ela, impassvel. Tagarelando disparatadamente consigo mesmo, rindo-se desvairadamente, Ulisses continuou a arar e a semear o seu sal.
Tinha-nos visto certamente, mas os seus olhos no nos tinham reconhecido. No havia dvida: o brlho daqueles olhos era inconfundvel, era o brilho da loucura! Perdramos
o homem de quem mais precisvamos!
No suportava assistir por mais tempo quela triste cena.
- Vamos embora, deixemo-lo em paz - disse.
O arado estava agora perto de ns e os animais estavam cada vez mais furiosos, cada vez mais incontrolveis. Ento, sem mais nem menos, Palamedes tirou o beb dos
braos de Penlope e, numa corrida, foi p-lo a uma escassa distncia dos cascos do boi. Com um grito estridente, Penlope tentou correr para salvar a criana, mas
Palamedes deteve-a. Nesse momento, o estranho duo parou; Ulisses correu para a frente do boi e pegou no filho.
- Que se passa? - perguntou Menelau. - Ele afinal est bom da cabea?
- To bom da cabea como qualquer um de ns - retorquiu Palamedes, sorridente.
- Fingiu que estava louco? - perguntei.
- Claro, rei Agammnon. Porque s desse modo poderia escapar ao Juramento...
- Mas como  que tiveste a certeza disso? - perguntou Menelau, aturdido.
- Encontrei um criado  sada da Sala do Trono. O pobre homem tinha um defeito: falava pelos cotovelos. Contou-me que Ulisses consultara ontem o Orculo. Ao que
parece, se ele for para Tria, ter de permanecer vinte anos longe de taca - disse Palamedes, satisfeito com o seu pequeno triunfo.
Ulisses entregou o beb a Penlope - que, agora, estava a chorar a srio.
Toda a gente sabia que Ulisses era um grande actor, mas, pelos vistos, Penlope no lhe ficava atrs. Estavam mesmo bem um para o outro. Os olhos cinzentos de Ulisses
no largavam Palamedes, enquanto o seu brao descansava sobre os ombros da mulher. Era uma cara de poucos amigos, a de Ulisses. Palamedes atrara o dio de algum
que era capaz de esperar uma vida inteira pela vingana perfeita.
- Fui descoberto - disse Ulisses, sem sombra de arrependimento. Sempre  verdade que precisas dos meus servios, rei Agammnon?
- Preciso, sim, Ulisses. Mas diz-me: porqu uma to grande relutncia?
- Porque a guerra contra Tria ser longa e sangrenta, rei Agammnon, e eu no gostaria nada de participar nela.
Outro que assegurava que seria uma longa campanha! Mas como poderia Tria resistir a cem mil homens, por muito altas que fossem as suas muralhas?
Regressei a Micenas com Ulisses, depois de o ter posto a par de todos os factos. No valia a pena dizer a Ulisses que Helena fora raptada. Como de costume, o rei
de taca revelou-se uma mina de conselhos e informaes. Nem por uma vez se virou para ver a sua ilha esbater-se no horizonte; nem por uma vez deu mostras de que
teria saudades da mulher - nem ela dele, j agora. Ulisses e Penlope, a mulher da face tatuada com uma teia, eram criaturas que sabiam controlar muito bem as suas
emoes e que viviam num mundo de segredos.
Quando chegmos ao Palcio do Leo, verifiquei que o meu primo Idomeneu de Creta j tinha chegado. Estava desejoso de participar na minha expedio a Tria - por
um preo, evidentemente. Pediu-me o ttulo de co-comandante: um pedido que tratei de satisfazer sem demora. Co-comandante ou no, curvar-se-ia perante as minhas
ordens. Idomeneu tivera uma paixo assolapada por Helena e reagiu muito mal  sua fuga (a ele, tambm tive de contar a verdade).
Poucos tinham faltado  chamada. Entretanto, enquanto os meus funcionrios decoravam aquilo que havia a decorar, todos os construtores de navios da Grcia se lanaram
energicamente ao trabalho. Felizmente, ns, os Gregos, ramos os melhores construtores de navios do mundo e possuamos vastas florestas de pinheiros e abetos, todo
o pez de que precisvamos, graas  muita resina, e escravos em nmero suficiente para darem os seus cabelos que depois seriam misturados com o pez, e suficientes
cabeas de gado para obtermos a necessria pele para as velas. No tnhamos a menor necessidade de encomendar navios a estrangeiros que, assim, ficariam a conhecer
os nossos planos. O total era ainda melhor do que eu tinha previsto: com efeito, foram-me prometidos mil e duzentos navios e mais de cem mil homens.
Logo que a frota comeou a ser construda, convoquei o meu conselho res-

#trito. Nestor, Idomeneu, Palamedes e Ulisses estudaram comigo todos os pormenores da campanha. Por fim, pedi a Calcas que realizasse um augrio.
- Uma boa ideia - disse Nestor, que gostava de se mostrar deferente com os deuses.
- Que te disse Apolo, sacerdote? - perguntei a Calcas. - Tudo correr bem na nossa expedio?
Calcas no hesitou.
- S se da tua expedio fizer parte Aquiles, o stimo filho do rei Peleu.
- Oh, Aquiles, Aquiles! - exclamei, furioso. - Para onde quer que me vire, s oio esse nome!
Ulisses encolheu os ombros.
-  um grande nome, Agammnon.
- Essa  boa! O rapaz ainda nem sequer tem vinte anos!
- Mesmo assim - disse Palamedes - creio que deveramos informar-nos melhor acerca dele. - Virou-se para Calcas. - Quando sares, sacerdote, diz a jax, o filho de
Tlamon, que venha ter connosco.
Calcas no gostava de receber ordens dos Gregos. Mas obedecia, o albino vesgo. Ter-se-ia apercebido de que eu mandara espiar todos os seus movimentos? S por precauo...
jax apareceu pouco depois.
- Fala-me de Aquiles - disse eu. Este simples pedido levou-o a desfiar um rosrio de superlativos que, pelo menos a mim, me deixaram com os nervos em franja. Por
outro lado, no nos disse nada que ns j no soubssemos. Agradeci-lhe e mandei-o embora. Mas que brutamontes!
- Ento? - perguntei ao meu conselho.
- Aquilo que ns pensamos ou deixamos de pensar no interessa para o caso, Agammnon - disse Ulisses. - O sacerdote diz que temos de ter Aquiles.
- Mas Aquiles no vir se Agammnon lho ordenar - disse Nestor.
- Muito obrigado, isso tambm eu sei! - atirei-lhe.
- Acalma-te, Agammnon - disse o ancio. - Peleu j no  nenhum jovem. Ele no estava presente aquando do Juramento. Nada o obriga a apoiar-nos, to-pouco nos ofereceu
o seu apoio. No entanto, pensa um pouco, Agammnon... Imagina o que no seria o nosso exrcito se pudssemos contar com os Mirimides!
A sua voz enfatizou aquele nome mgico: os Mirmides... Imps-se na sala um pesado silncio que o prprio Nestor quebraria momentos depois.
- Preferia ter um mirmido nas minhas costas do que meia centena de homens de outros povos - disse.
- Nesse caso - disse eu, decidido a castigar alguns dos meus conselheiros, sugiro-te, Ulisses, que leves Nestor e jax a Lolcos e que solicites ao rei Peleu os servios
de Aquiles e dos Mirmides.

Captulo Nono
Narrado por Aquiles

Estava j perto dele: j lhe sentia o cheiro desagradvel, j lhe sentia a fria.
Empunhando firmemente a lana, rastejei na sua direco por entre as moitas. Sentia j o seu hlito enquanto ele farejava  sua volta, sentia o p que as suas patas
levantavam ao revolverem o cho. Foi ento que o vi. Era to grande como um touro pequeno, o corpanzil assente em curtas e vigorosas pernas, a cerda negra eriada,
os beios largos e cruis abertos, revelando as presas encurvadas e amarelecidas. Os olhos dele eram os olhos de quem estava condenado ao Trtaro; via j as frias
diante de si; a ira tremenda das brutas feras dominava-o por completo. Velho, selvagem, um assassino de homens.
Gritei bem alto para lhe dizer que estava ali. De incio, no se mexeu; depois, lentamente, virou para mim a cabea macia. Uma nuvem de p ergueu-se do cho enquanto
dava s patas, enquanto baixava o focinho e rasgava um bocado de terra com as presas, ganhando foras para a carga. Avancei para ele, mantendo a minha Velha Plion
preparada para o embate, desafiando-o a avanar tambm. A viso de um homem enfrentando-o com tamanha ousadia era para ele uma novidade; por um momento, pareceu
ficar sem saber o que fazer. Depois, desatou num trote portentoso que fazia tremer o cho, um trote que depressa se transformou num verdadeiro galope. Era espantoso,
simplesmente espantoso, que uma to grande criatura conseguisse correr to depressa.
Calculei a altura a que ele investiria e permaneci onde estava, as mos cravadas na Velha Plion, a ponta um pouco para cima, a base no cho. Estava mais perto agora.
Impelido por todo o peso que os seus ossos suportavam, poderia ter deitado abaixo um tronco de rvore que se lhe atravessasse no caminho. Quando vi as chispas de
fogo dos seus olhos, agachei-me e, logo de seguida, arremeti contra ele e enterrei-lhe no peito a Velha Plion. Ele abraou-me; camos os dois no cho e as minhas
vestes e o meu corpo logo ficaram encharcados daquele sangue

#que jorrava fumegante. Porm, depressa me ergui e, com as mos ferradas na haste da lana, arrastei-o: uma tarefa difcil, j que os meus ps escorregavam naquele
sangue lodoso. E foi assim que ele morreu, assombrado com o facto de ter encontrado algum mais forte do que ele. Arranquei-lhe do peito a Velha Plion, cortei-lhe
as presas - um belssimo trofu para adornar o elmo de um guerreiro e ali o deixei ficar: ali morrera, ali apodreceria.
No muito longe, avistei uma pequena enseada. Desci por um caminho de cobras, ao fundo do qual passava um riacho que serpeava a caminho do mar. Ignorando o cintilante
convite das guas do riacho, corri pela areia a caminho das ondas. Com a gua do mar, limpei o sangue que o javali me deixara nos ps e nas pernas, no meu fato de
caa e na Velha Plion. Depois de ter despido a roupa e de a ter posto a secar na areia, corri para as ondas e nadei preguiosamente por um tempo. Por fim, deitei-me
na areia, ao p da lana e das roupas.
 possvel que tenha dormido por um breve perodo. Ou, quem sabe, talvez o sortilgio estivesse, j nesse momento, a produzir o seu efeito. Por muito que tente lembrar-me,
no saberei dar uma resposta. S sei que a minha percepo das coisas se apagou. Quando voltei a mim, o Sol estava j a esconder-se por detrs das copas das rvores
e o ar arrefecera um pouco. Tempo de partir: Ptrocles j devia estar ansioso.
Levantei-me, decidido a pegar nas minhas coisas e a vestir-me, mas, COm esse simples acto, todo o meu equilbrio mental se desmoronou. Como explicar O inexplicvel?
Depois de tudo passado, s encontrei uma palavra para definir aqueles momentos: a palavra sortilgio. Um perodo durante o qual me vi separado da realidade, embora
me mantivesse ligado a uma qualquer espcie de mundo, Um cheiro ftido, que associei  morte, invadiu-me as narinas, e a praia toda se encolheu e ficou do tamanho
de um gro, ao passo que um templo que havia no promontrio se ergueu de sbito, tornando-se to desmesuradamente grande que cheguei a pensar que as paredes gigantescas
se despenhariam e cairiam em cima de mim. Aquele mundo era um mundo de contradies, em que o pequeno se tornava gigantesco e o grande minsculo.
Dei-me conta de que, dos cantos da minha boca, escorria uma gua salobra. Ento, vencido pelo terror, arrasado por uma desolao solitria feita de lgrimas e impotncia,
deixei-me cair de joelhos na areia; por outro lado, e apesar de toda a minha juventude e fora, nada podia fazer para erradicar o pavor mortal que me invadia. A
minha mo esquerda comeou a tremer, o lado direito do meu rosto crispava-se em espasmos, a minha espinha endireitava-se para logo se arquear. Apesar de tudo, consegui
no perder a conscincia e, com herclea fora, impedi que as convulses atingissem um paroxismo do qual por certo no haveria regresso. Quanto tempo ter durado
o sortilgio? No fao ideia. Sei apenas que, quando recuperei a minha fora natural, o Sol j se tinha posto e o cu estava tingido de rosa, O ar estava quieto,
parado, repleto da msica das aves.
Tremendo como um homem acometido de sezes, levantei-me; na boca, sentia um sabor a qualquer coisa de ptrido. No parei para me vestir ou para pegar na Velha Plion.
Tudo o que queria era regressar ao acampamento, era morrer nos braos de Ptrocles.
Mal me viu, Ptrocles correu ao meu encontro. Inquieto com o meu estado, tratou logo de me deitar num leito de peles quentes, junto  fogueira. Bebi um nada de vinho
e, momentos depois, comecei a sentir a vida - a normal vida humana - retornando aos msculos, aos tendes, aos ossos; j liberto das garras do pnico, sentei-me
no meu leito e, com uma gratido maior do que o mundo, escutei o martelar ainda nervoso do meu corao.
- Que aconteceu? - ouvi Ptrocles perguntar.
- Um sortilgio - respondeu a minha voz estrangulada. - Um sortilgio.
- O javali feriu-te? Deste alguma queda?
- No, nada disso. Matei o javali com a maior facilidade. Depois, fui at  praia a fim de lavar o sangue que o animal derramara. Foi ento que o sortilgio tomou
conta de mim.
Ptrocles caiu de joelhos, os olhos esbugalhados.
- Que Sortilgio, Aquiles?
- Foi... foi como se a morte tivesse vindo ao meu encontro. Eu cheirei a morte, senti o seu sabor na minha boca. A enseada ficou minscula, o templo tornou-se gigantesco
- o mundo rodopiava e ganhava uma nova forma como se Proteu fosse o mundo. Pensei que ia morrer, Ptrocles! Nunca me senti to sozinho! Estava to paralisado como
um velho e sentia tanto medo como o mais vil dos cobardes! Mas eu no sou velho, nem cobarde! Por isso... que se ter passado comigo? Que estranha coisa era aquele
sortilgio? Terei eu pecado contra algum deus? Terei eu ofendido o Senhor dos Cus ou o Senhor dos Mares?
No seu rosto, lia eu apenas preocupao e apreenso; dir-me-ia, mais tarde, que, efectivamente, eu estava com o aspecto de quem dera  morte o beijo de boas-vindas,
pois no havia nas minhas faces pinga de sangue e todo eu tremia COMO uma rvore nova varrida pelo vento e as feridas e os arranhes sucediam-se de alto a baixo
ao longo do meu corpo nu.
- Descansa agora, Aquiles, deixa-me proteger-te do frio. Pode no ter sido Um Sortilgio. Talvez fosse apenas um sonho.
- Um sonho, no. Um pesadelo - disse eu.
- Come qualquer coisa e bebe mais vinho. Alguns camponeses trouxeram-nos peles, em sinal de reconhecimento por teres morto o javali.
Agarrei-me ao brao dele.

#- Se no te tivesse encontrado, teria enlouquecido, Ptrocles. No suportaria morrer sozinho.
Envolveu as minhas mos nas suas, beijou-as.
- Aquiles, eu sou muito mais teu amigo do que teu primo. Acontea o que acontecer, eu estarei sempre ao teu lado.
A sonolncia veio finalmente, uma suave sensao que afugentava o medo. Sorri, estendi o brao para lhe afagar o cabelo.
- Tu por mim e eu por ti. Sempre assim foi.
- E sempre assim ser - respondeu ele.
De manh estava j perfeitamente bem. Ptrocles acordara antes de mim, a fogueira j estava acesa, um coelho crepitava num espeto. E tambm havia po, trazido pelas
camponesas, que assim agradeciam o meu feito.
- Pareces completamente recomposto - disse Ptrocles, com um sorriso imenso, passando-me um naco de coelho assado sobre uma fatia de po.
- E estou mesmo - retorqui, pegando na comida. -As tuas recordaes do que se passou continuam to vvidas como ontem  noite?
Uma pergunta que me fez estremecer; contudo, o po e o coelho erradicaram num pice todo o medo.
- Sim e no - respondi. - Foi um sortilgio, Ptrocles. Algum deus falou comigo e eu no entendi a mensagem.
- O tempo resolver esse mistrio - disse ele, entregando-se j s pequenas tarefas domsticas de todos os dias. Nunca permitia que eu partilhasse com ele essas
tarefas. Por muito que eu fizesse, nunca consegui convenc-lo a desistir desse hbito de me servir como a um amo.
Ptrocles tinha mais cinco anos do que eu. O rei Licomedes de Ciros adoptara-o como seu herdeiro quando o pai de Ptrocles, Mencio, morrera, muito tempo antes,
na ilha. Ptrocles era meu primo, pois Mencio fora filho bastardo do meu av aco; sentamos profundamente esse elo de sangue, pois ambos ramos filhos vares nicos
e tambm no tnhamos irms. Licomedes tinha-o em alta estima, o que no espantava ningum. Com efeito, Ptrocles era, entre os homens, uma raridade; ele era um
homem verdadeiramente bom.
Concludo o desjejum e levantado o acampamento, vesti um saiote, calcei umas sandlias e tratei de encontrar novas armas: um punhal de bronze e uma outra lana.
- Espera por mim aqui, Ptrocles. No demorarei. As minhas roupas e o meu trofu esto ainda na praia, Tal como a Velha Plion.
- Deixa-me ir contigo - disse ele imediatamente, com um ar receoso.
- No. Isto  s entre mim e o deus que quis falar comigo. Ptrocles baixou a cabea, resignado.
- Como queiras, Aquiles.
Achando o caminho mais fcil desta vez, cheguei  praia to depressa como um leo. A enseada pareceu-me perfeitamente inocente. No, no era a enseada a fonte do
sortilgio. Nesse exacto instante, os meus olhos, vagueando sem pressas pelo promontrio, detiveram-se no templo. O meu corao desatou a bater pesadamente. A minha
me era uma sacerdotisa no oficial de Nereu e vivia algures naquele lado da ilha - seria aquele o seu domnio? Teria eu penetrado no seu territrio por engano,
teria eu profanado algum mistrio da Velha Religio e sido castigado por isso mesmo?
Subi lentamente ao ponto mais alto do promontrio e abeirei-me do templo, lembrando-me agora das gigantescas paredes que o sortilgio me fizera ver.
Ah! sim, no tinha agora qualquer dvida: aquele era o domnio de minha me! No me avisara o rei Licomedes de que deveria ter o mximo cuidado com aquelas paragens
onde a minha me, desafiando o poder do rei, instalara a sua residncia?
Ela estava  minha espera nas sombras junto ao altar. De sbito, dei-me conta de que precisava de usar a Velha Plion como se ela fosse uma bengala; as minhas pernas
haviam perdido toda a fora; quase no conseguia manter-me direito. A minha me! Uma me que eu nem sequer conhecia!
To pequena de estatura! Pouco mais alta do que a minha cintura... O cabelo era uma alvura azulada, os olhos de um tom cinzento-escuro, a pele to transparente que
deixava ver as veias.
- Tu s o meu filho: aquele a quem Peleu negou a imortalidade.
- Sim, eu sou o teu filho.
- Foi ele que te mandou?
- No. O nosso encontro deve-se a um mero acaso - disse eu, apoiando-me na Velha Plion.
Que deveria um homem sentir quando pela primeira vez v a sua me? dipo sentiu um desejo lascivo e fez da me esposa e rainha. Pelos vistos, porm, no havia em
mim nada do que movera dipo, pois no sentia resqucio algum de desejo, ou de admirao pela sua beleza ou pela sua visvel juventude. O que eu sentia, julgo que
poderia ser resumido pelas palavras espanto, constrangimento e -sim, rejeio. Aquela estranha mulher matara os meus seis irmos e trara o meu pai, a quem eu amava.
Odeias-me! - gritou ela, aparentemente ofendida.

#- No  dio. Mas no gosto de ti.
- Que nome te deu Peleu?
- Aquiles. Ela atentou na minha boca e aquiesceu com desprezo.
- Um nome muito apropriado ... ! - disse. -At mesmo os peixes tm lbios... Tu no tens nada que se parea com lbios. A sua ausncia faz com que o teu rosto, que
poderia ser belo, se assemelhe a algo de incompleto. Uma saca com uma fenda...
Ela tinha razo: eu odiava-a.
- Que fazes em Ciros? Peleu veio contigo?
- No. Todos os anos passo seis luas em Ciros. Sou genro do rei Licomedes.
- Casado? J? - disse ela, com notria maldade.
- Casei-me aos treze anos. J tenho quase vinte. O meu filho tem seis anos.
- Lamentvel, lamentvel... E a tua mulher? Ainda  uma criana, como tu?
- A minha mulher chama-se Deidamia e  mais velha do que eu.
- Enfim, o melhor dos casamentos para Licomedes. E para Peleu tambm. Dominaram-te - amansaram-te - com a maior facilidade.
Incapaz de encontrar uma resposta, no lhe disse nada. Ela tambm se manteve calada. Um silncio interminvel. Eu, que fora to bem ensinado pelo meu pai e por Quron
a mostrar deferncia perante os mais velhos, no quebraria o silncio: seria uma falta de educao. Talvez ela fosse realmente uma deusa, ainda que o meu pai o negasse
sempre que bebia um pouco mais do que o costume.
- Deverias ter sido imortal - disse ela por fim. Desatei a rir.
- Eu no quero a imortalidade! Eu sou um guerreiro, gosto das coisas humanas! Respeito os deuses, mas nunca desejei ser um deles.
-  Nunca pensaste no que significa ser-se mortal.
- Que pode significar ser-se mortal, seno que terei de morrer?
- Precisamente - disse ela, num tom brando. - Ters de morrer, Aquiles. E a ideia da morte no te assusta? Dizes que s um homem, um guerreiro. Mas os guerreiros
morrem cedo, antes dos homens de paz.
Encolhi os ombros.
- Em paz ou em guerra, o destino de um homem  sempre a morte. E eu prefiro morrer jovem e em plena glria do que velho e coberto de ignomnia.
Por um instante, os seus olhos ganharam um tom azul enevoado e o seu rosto ficou marcado por uma tristeza que no a imaginava capaz de sentir. Uma lgrima deslizou
pela face translcida, mas ela afastou-a impacientemente e de novo se tornou uma criatura destituda de piedade.
-  demasiado tarde para discutir estas questes, meu filho. Tu ters de morrer. Mas posso oferecer-te uma escolha, porque eu vejo o futuro. Eu conheo o teu destino.
Muito em breve, alguns homens viro e pedir-te-o que participes numa grande guerra. Se fores, morrers. Se no fores, chegars a velho e gozars de uma imensa felicidade.
Jovem e em plena glria, ou velho e coberto de ignomnia. A escolha  tua.
Pestanejei, surpreendido, e desatei-me a rir.
- Mas que raio de proposta  essa? A escolha  bvia... J te disse: prefiro morrer jovem e coberto de glria.
- Sugiro-te que penses um pouco no que  a morte...
Aquelas palavras penetraram-me como se fossem veneno. Olhei-a nos olhos e vi-os nadarem e dissolverem-se, e vi o rosto dela tornar-se informe, e vi o cu por cima
dela diluir-se e flutuar sob os seus ps minsculos. Ttis crescia imensa, gigantesca. No momento em que a sua cabea penetrou as nuvens, soube que o sortilgio
voltara a dominar-me - e quem me enfeitiara. gua salobra escorria-me dos cantos da boca, o fedor da podrido enchia-me as narinas, o terror e a solido fizeram-me
cair de joelhos diante dela. A minha mo esquerda comeou a tremer, o lado esquerdo do meu rosto contorcia-se em espasmos. Desta feita, porm, o sortilgio foi mais
longe: perdi a conscincia.
Quando acordei, a minha me estava ao meu lado no cho, esfregando ervas docemente fragrantes entre as palmas das mos.
- Levanta-te - ordenou-me.
Incapaz de pr um mnimo de ordem nos meus pensamentos, o corpo e a mente debilitados, levantei-me lentamente.
- Aquiles, ouve-me com ateno! - exclamou ela com uma voz poderosa. Ouve-me com ateno! Vais pronunciar um Juramento da Velha Religio -um Juramento muito mais
grave e terrvel do que todos os da Nova Religio. Jurars diante de Nereu, meu pai, o Velho Rei do Mar - diante da Me, pois  ela que a todos ns d vida - diante
de Kore, Rainha do Horror, diante dos governantes do Trtaro, lugar de tormento - diante da deusa que eu sou. Jurars agora, sabendo que um tal Juramento no poder
ser infringido. Se o infringires, enlouquecers para toda a eternidade e Ciros afundar-se- sob as ondas, tal como Tera depois do grande sacrilgio. - Apertou-me
o brao com uma fora impressionante. - Ouviste-me bem, Aquiles? Ouviste-me bem?
- Sim - tartamudeei.
- Tenho de te salvar de ti mesmo - disse ela, partindo um ovo velho e muito duro em cima de sangue gorduroso e deixando que o sangue se espalhasse pelo altar. Depois,
pegou-me na mo direita e mergulhou-a no sangue e no ovo. -
Agora jura!
Repeti as palavras que ela me ia dizendo.

#Eu, Aquiles, filho de Peleu, neto de aco e bisneto de Zeus, juro que regressarei imediatamente ao palcio do rei Licomedes e que me vestirei como uma mulher. Permanecerei
entre as paredes do palcio durante um ano, sempre vestido de mulher. Quando aparecer algum a perguntar por Aquiles, esconder-me-ei no harm e no falarei com ningum,
nem mesmo atravs de intermedirios. Deixarei que o rei Licomedes fale em meu nome e obedecerei a tudo o que ele disser. E tudo isto eu juro por Nereu, pela Me,
por Kore, pelos governantes do Trtaro e pela deusa Ttis.
Mal conclu o juramento, a minha confuso desvaneceu-se; o mundo reencontrava os seus contornos verdadeiros e as suas cores normais e eu conseguia pensar de novo
com clareza. Mas j era demasiado tarde. Nenhum homem poderia abjurar um tal juramento. A minha me tinha-me atado de ps e mos  sua vontade.
- Maldita sejas! - gritei, comeando a chorar. - Maldita sejas! Fizeste de mim uma mulher!
- H uma mulher em todos os homens - disse ela, com um sorriso malicioso.
- Condenaste-me  desonra!
- No; impedi que morras cedo - retorquiu ela, e deu-me um empurro. V, agora volta para Licomedes. No precisars de lhe explicar nada. Quando chegares ao palcio,
j ele saber de tudo. - Os seus olhos tornaram-se de novo azuis.
Fiz isto apenas por amor, Aquiles, meu pobre filho sem lbios. Eu sou a tua me.
No disse nada a Ptrocles, quando o encontrei. Peguei nas minhas coisas e dei incio  jornada que havia de nos conduzir ao palcio. E ele, concordando sempre com
tudo o que eu queria, no me fez uma nica pergunta. Ou talvez j       Soubesse aquilo que Licomedes seguramente sabia quando chegmos ao seu palcio. Estava 
nossa espera no ptio, com um ar abatido, derrotado.
- Recebi uma mensagem de Ttis - disse ele.
- Nesse caso - disse eu -, j sabes o que temos de fazer.
- Sim, j sei.
A minha mulher estava sentada  janela quando entrei no seu quarto. Ao ouvir a porta, virou-se para mim. Com um sorriso cansado, abriu muito os seus braos para
que eu a abraasse. Beijei-a na face e logo os meus olhos se fixaram no porto e na pequena cidade que se viam da janela.
        -  tudo o que tens para me dar depois de tantos dias fora? - perguntou ela, mas sem qualquer sinal de indignao; Deidamia nunca se irritava.
- Com certeza que j ests a par daquilo que toda a gente sabe - disse eu com um suspiro.
Tens de te vestir como uma mulher e de te esconder no harm do meu pai disse ela. - Mas s quando tivermos visitas, e ns no temos muitas visitas.
A madeira de uma das ripas da persiana comeou a desfazer-se tal era a fora com que eu a agarrava - tal era a minha angstia.
- Como  que eu vou fazer isto, Deidamia? Que humilhao! Que vingana perfeita! Aquela cadela escarnece da minha masculinidade!
Deidamia, aflita, levou logo a mo direita ao amuleto que afastava o mau olhado.
- Aquiles, no a enfureas mais! Ela  uma deusa! Trata-a com respeito!
- Nunca! - disse eu cheio de raiva. - Ela no tem qualquer respeito por mim, pela minha masculinidade. Ah, toda a gente se rir de mim!
Deidamia ficou horrorizada com as minhas palavras.
- Aquiles, no vejo razo nenhuma para as pessoas se rirem! No  caso para se rirem, bem pelo contrrio.

#Captulo Dcimo
Narrado Por Ulisses

Os ventos e as correntes seriam sempre mais favorveis do que o longo e tortuoso caminho por terra; por isso, seguimos por mar rumo a lolcos, sempre perto da costa.
J perto do porto, subi ao convs com jax; era a primeira vez que visitava a ptria dos Mirmides e lolcos pareceu-me uma bela cidade, uma cidade de cristal tremeluzindo
sob o sol de Inverno. No tinha muralhas. Por detrs do palcio, erguia-se o monte Plion, engrinaldado pela brancura imaculada da neve.
Ajeitei melhor as peles sobre os ombros e soprei nas mos para as aquecer; olhei de relance para jax, que estava to despido como sempre.
- Desces tu primeiro, colosso? - perguntei-lhe. jax aquiesceu tranquilamente; o gigante no tinha a menor inclinao para a normal conversao humana. Uma perna
macia ergueu-se sobre a amurada, encontrou o primeiro degrau da escada de corda, e o resto do corpo desapareceu rapidamente. O seu vesturio era o mesmo que lhe
vira nos sales de Micenas: um saiote. E a sua bela pele no revelava o menor sinal de frio. Deixei-o descer at  praia e chamei-o depois, pedindo-lhe que nos arranjasse
um transporte qualquer. Bem conhecido em lolcos, jax poderia escolher  vontade o transporte mais adequado.
Nestor estava todo atarefado a fazer as suas trouxas no abrigo construdo no convs de r.
- Pedi a jax que nos arranjasse um carro. Achas que ests em condies de descer at  praia ou preferes esperar aqui? - perguntei-lhe eu com um ar irnico. Adorava
picar Nestor.
- Porqu? Crs porventura que estou senil? - atirou-me ele, erguendo-se de um salto. -  claro que espero na praia!
Resmungando, encaminhou-se decidido para o convs; afastando impacientemente a mo do marinheiro que tentava ajud-lo, desceu a escada de corda com a agilidade de
um rapaz. Ah, o maldito do velho!

#Peleu estava  nossa espera para nos dar as boas-vindas. Estivera muitas vezes com ele era eu ainda um rapaz e ele um homem no apogeu das suas capacidades. Porm,
desde ento, nunca mais o vira. Era agora um homem velho, mas, na sua aparncia, havia ainda a altivez de um rei. Um homem bem-parecido -e sbio. Pena que tivesse
apenas um filho; sendo filho de Peleu, Aquiles teria de se esforar muito se quisesse manter a reputao da sua casa.
Confortavelmente sentados diante do grande trpode de fogo, com vinho quente e adoado  discrio, tratei de explanar as razes da nossa visita. Apesar de Nestor
ser mais velho, eu fora eleito porta-voz da delegao; se a misso falhasse, o culpado seria eu e o patife do velho teria sempre escapatria.
- Peleu, Agammnon enviou-nos a lolcos para que te pedssemos um favor. Os seus astutos olhos examinaram-me atentamente.
- Helena - disse ele. -As notcias viajam depressa.
- Estava  espera de um mensageiro imperial, mas a verdade  que esperei em vo. No porto de lolcos, ningum viu passar uma tal personagem.
- Como tu no pronunciaste o Juramento do Cavalo Esquartejado, no faria sentido que Agammnon enviasse um mensageiro imperial. Nada te obriga a aderir  causa de
Menelau.
- Pois ainda bem, Ulisses. Estou demasiado velho para ir para a guerra. Nestor decidiu que eu estava com demasiados rodeios.
- Na realidade, meu caro Peleu, no  a ti que procuramos - disse ele. Com efeito, o que pretendemos  assegurar os servios do teu filho.
O rei supremo da Tesslia pareceu de sbito abatido.
- Aquiles... Bom, eu tinha esperana de que no lhe fizessem tal convite, mas, de certo modo, estava  espera dele... No duvido, alis, que Aquiles aceite de bom
grado a proposta de Agammnon.
- Nesse caso, permites que lhe apresentemos o nosso pedido? - perguntou Nestor.
- Claro que permito - retorquiu Peleu. Sorri aliviado.
- Agammnon agradece-te, Peleu. E eu tambm te agradeo. Do fundo do corao.
Fitou-me demorada e fixamente.
- Mas tu tens um corao, Ulisses? - perguntou. - Pensava que s possuas uma mente.
Uma imagem desfilou por um instante diante dos olhos da minha memria. Era Penlope, pensei, e logo a imagem se esbateu. Fitei Peleu como ele me fitava a mim.
- No, Peleu, eu no tenho corao. Que falta faz o corao aos homens? Ter corao  um perigo, Peleu.
- Ento sempre  verdade o que se diz de ti. - Pegou no seu copo, que estava sobre a mesa assente no trpode, um belo exemplar da arte egpcia. - Se Aquiles resolver
participar na guerra de Tria - disse ele ento - chefiar os Mirmides. H mais de vinte anos que o meu povo se prepara para uma dura campanha.
Algum entrou nesse momento; Peleu sorriu e estendeu-lhe a mo.
- Ah, Fnix! Meus senhores, apresento-lhes Fnix, meu amigo e camarada de muitos, muitos anos. Temos convidados prestigiosos, Fnix - apresento-te o rei Nestor,
de Pilos, e o rei Ulisses, de taca.
- Eu vi jax l fora - disse Fnix, fazendo uma respeitosa vnia. A sua idade estaria entre a de Peleu e a de Nestor, mas era ainda um homem poderoso, com uma aparncia
marcial e o fsico tpico dos Mirmides - branco, grande e atltico.
- Fnix, acompanhars Aquiles a Tria - disse Peleu. - Cuidars dele como eu cuidaria. Proteg-lo-s do seu destino.
- Nem que para tal tenha de dar a vida, rei Peleu. Belas palavras, pensei eu, impaciente, mas j chegava de conversa.
- Podemos ento falar com Aquiles? - perguntei. Peleu e Fnix fitaram-nos espantados.
- No sabiam que Aquiles no est em lolcos? - perguntou Peleu.
- No est? Ento onde est ele? - perguntou Nestor.
- Em Ciros. Todos os anos, o meu filho passa as seis luas do Inverno na ilha de Ciros - ele est casado com Deidamia, a filha de Licomedes.
Irritado, dei uma palmada na coxa.
- Nesse caso, teremos de fazer mais uma viagem por mar em pleno Inverno.
- No, de modo nenhum - disse Peleu, muito afvel. - Eu mandarei cham-lo e comunicar-lhe-ei o vosso pedido.
Porm - fosse l pelo que fosse - eu sabia que, se no fssemos ns a procur-lo, nunca veramos Aquiles. Abanei a cabea e retorqui: - No, rei Peleu, Agammnon
no estaria de acordo. Ele disse-nos que deveramos falar pessoalmente com Aquiles.
E foi assim que fizemos nova viagem e demandmos novo porto e, chegados a este porto, demandmos novo palcio; a diferena estava em que este novo palcio pouco
mais era do que uma casa grande. Ciros era uma ilha pobre. Licomedes deu-nos as boas-vindas, mas, logo que nos sentmos para comer uma frugal refeio e beber mais
frugalmente ainda, comecei a ter uma inslita sensao que, a um nvel mais superficial, se traduzia por aquilo a que chamamos pele de gali-

#nha. Havia algo de estranho naquilo tudo - e no apenas no comportamento de Licomedes. Uma tenso muito peculiar impregnava a atmosfera do palcio. Criados - todos
eles homens - apareciam para logo desaparecerem sem sequer olharem para ns; a fisionomia de Licomedes no conseguia esconder a pesada presso do medo; o seu herdeiro,
Ptrocles, entrou na sala e saiu to rapidamente que cheguei a pensar se o rapaz no teria sido inventado pela minha imaginao. Porm, o mais inslito de tudo era
que no se ouvia um nico som feminino! No se ouvia uma nica mulher - mesmo que distante - a rir-se ou a lamentar-se, ou a gritar, ou a desfazer-se em lgrimas.
Que coisa mais estranha! Claro que as mulheres no participavam nos assuntos dos homens, mas no era menos verdade que elas tinham plena conscincia da sua importncia
na ordem instituda e que gozavam de liberdades que nenhum homem se atrevia a negar-lhes. No esqueamos que, durante a Velha Religio, eram elas quem governava.
A minha pele de galinha transformara-se num inquietante formigueiro, o meu nariz comeava a detectar o velho e conhecido cheiro a perigo; olhei de relance para Nestor:
sim, ele sentia o mesmo que eu. Ergueu muito as sobrancelhas e suspirou: no, eu no me tinha enganado. Havia ali um problema qualquer...
Ptrocles, o belo herdeiro, regressou entretanto. Examinei-o mais atentamente, perguntando-me qual poderia ser o seu papel naquela estranha situao. Era um rapaz
terno e amvel e tinha coragem e valentia de sobra; pareceu-me, porm, que os seus apetites de homem iam todos num sentido - e excluam as mulheres. Bom, a escolha
era dele. Ningum o censuraria por preferir homens. No se notariam muito esses apetites, naquela noite, pois o belo Ptrocles estava muito apagado. Mais exactamente:
tinha um ar infeliz.
- Rei Licomedes - disse eu -, a nossa misso  muito urgente. Procuramos o teu genro Aquiles.
Houve um silncio bizarro, intangvel; Licomedes quase deixava cair          u copo, aps o que se levantou desajeitadamente.
- Meus senhores, Aquiles no se encontra em Ciros.
- No est c? - perguntou jax, desanimado.
- No. - Licomedes parecia embaraado. - Ele - ele teve uma violenta discusso com a sua esposa - com a minha filha - e partiu para o continente, jurando nunca mais
regressar.
- Tambm no est em lolcos - informei eu, afavelmente.
- Confesso que esperava que no estivesse, Ulisses. Ele disse que ia para a Trcia.
Nestor suspirou.
- Por todos os deuses! Parece que estamos condenados a no encontrar nunca o jovem Aquiles, no  verdade?
Nestor dirigira-se a mim, mas no lhe respondi imediatamente, pois dei-me conta de que uma curiosa leveza impregnara de sbito a tensa atmosfera, de que um imenso
alvio fizera sossegar os coraes de Licomedes e Ptrocles. Sim, o meu instinto no me tinha enganado. Havia ali um problema muito grave e Aquiles estava no centro
desse problema. Levantei-me.
- Visto que Aquiles no est em Ciros, creio que ser melhor partirmos sem demora, Nestor.
Esperei, sabendo que Licomedes era obrigado, por Zeus hospitaleiro, a brindar-nos com as costumeiras cortesias - se isso no sucedesse, estaria a transgredir as
leis divinas. E, enquanto esperava, virei-me de modo a que Nestor pudesse ver-me o rosto; ento, lancei-lhe um olhar que era um verdadeiro alerta.
Licomedes fez a oferta que dele se esperava.
- Passem esta noite no meu palcio. O rei Nestor deveria descansar um pouco. Ainda bem que alertara Nestor; em vez de retorquir que estava com energia suficiente
para declarar guerra ao Olimpo, Nestor ps um ar pattico, transformando-se, como que por magia, na encarnao de todas as desgraas da velhice. Mas que malandro,
aquele velho!
- Agradeo-te muito, rei Licomedes! - exclamei aliviado. - Nestor estava to cansado esta manh... O que ele sofre com estes ventos frios ... ! - Baixei os olhos.
- Espero que a nossa presena no seja para ti um incmodo.
Mas era mesmo um incmodo. Nunca ocorrera a Licomedes que eu poderia aceitar o seu convite formal, j que a nossa misso era um fracasso e teramos de regressar
rapidamente a Micenas a fim de transmitirmos as tristes notcias a Agammnon. No entanto, tratou de disfarar com afveis sorrisos a sua decepo. Tal como Ptrocles.
Deixei passar algum tempo e fui ter com Nestor ao seu quarto. Sentei-me no brao de uma cadeira enquanto Nestor repousava num banho fumegante, e um velho criado
- que coisa rara: de novo um homem! - lhe raspava a pele engelhada, retirando-lhe o sal e a sujidade. Logo que Nestor saiu da banheira, todo entrouxado em toalhas
de linho, o homem partiu.
- Que achas disto tudo? - perguntei a Nestor.
- Esta casa est assombrada por alguma sombra - disse ele com a maior das certezas. - Seria lgico que a eventual discusso de Aquiles com a esposa e que a sua eventual
partida para a Trcia tivessem provocado uma reaco deste gnero. No entanto, creio que no foi isso o que se passou. Seja qual for o problema, no  essa a causa.
- Creio que Aquiles est aqui - neste mesmo palcio! Nestor arregalou os olhos.

#- No! - replicou. - Escondido, est, mas no aqui.
- Est aqui - insisti. - Toda a gente sabe que Aquiles  um jovem to impulsivo quanto belicoso. Licomedes e Ptrocles s conseguem control-lo se ele estiver por
perto... Portanto, Aquiles s pode estar neste palcio.
- Mas porqu? Aquiles no se submeteu ao Juramento e Peleu tambm no. A honra deles no seria minimamente afectada se se recusassem a combater em Tria.
- Ah, mas Aquiles quer ir! Desesperadamente! Os outros  que no querem que ele v. E, no sei como, ataram-no de ps e mos.
- Que havemos de fazer ento?
- Que achas? - contrapus. -Acho que temos de dar umas voltas por este pequeno edifcio... Eu, de preferncia, durante o dia. Posso fingir que estou senil. Tu poders
investigar quando toda a gente estiver a dormir. Crs que Aquiles  prisioneiro de Licomedes?
No, isso era impossvel.
- Licomedes no se atreveria, Nestor. Se Peleu soubesse, tornar-se-ia mais temvel do que Poseidon. Arrasaria esta ilha. No, creio que a priso de Aquiles  um
qualquer juramento.
- Lgico - comentou Nestor, comeando a vestir-se. - Ainda falta muito para o jantar?
- Ainda temos algum tempo.
- Ento vai descansar um pouco, Ulisses, enquanto eu fao a minha ronda. Nestor veio acordar-me para o jantar. Parecia extremamente irritado.
- Que a peste os leve a todos! - resmungou. - Se o esconderam aqui, esconderam-no muito bem. Percorri o palcio desde o telhado s caves e nem sinal de Aquiles!
O nico stio onde no pude entrar foram os aposentos das mulheres. Tm um guarda  porta.
- Ento  a que ele est - disse eu, levantando-me. - Hmmm!
Descemos juntos  sala de jantar, perguntando-nos se Licomedes se teria tornado um verdadeiro Assrio, pois os homens assrios proibiam as mulheres de jantarem com
eles. Um homem a cuidar dos banhos? As mulheres do palcio todas escondidas? Um guarda  porta dos seus aposentos? Muito estranho... Licomedes no queria que ouvssemos
mexericos: por isso, era preciso que as suas mulheres se mantivessem longe de ns.
Mas havia mulheres na sala de jantar, ainda que atiradas para o canto mais sombrio da sala. Estava  espera de que Licomedes deixasse as mulheres do palcio comerem
na sala; o palcio e as cozinhas do palcio eram to pequenos que, se as mulheres fossem servidas nos seus aposentos, haveria um verdadeiro caos culinrio que deixaria
os convidados muito mal impressionados.
Contudo, nem sinal de Aquiles. Nenhuma daquelas indistintas formas femininas era suficientemente corpulenta para pertencer a Aquiles.
- Porque  que segregas as mulheres? - perguntou Nestor quando a comida chegou e nos sentmos  mesa de honra com Licomedes e Ptrocles.
- As mulheres ofenderam Poseidon - respondeu rapidamente Ptrocles.
- E? - perguntei eu.
- Poseidon proibiu-as de manterem contactos com os homens durante cinco anos.
Ergui as sobrancelhas de espanto.
- Mesmo os contactos sexuais?
- No, esses no.
- Isso parece mais uma exigncia da Me do que de Poseidon - observou Nestor, bebendo um gole de vinho.
Licomedes encolheu os ombros. -A ordem foi de Poseidon, no da Me.
- Atravs de Ttis, a sua sacerdotisa? - perguntou o rei de Pilos.
- Ttis no  sacerdotisa de Poseidon - retorquiu Licomedes, visivelmente constrangido. - O deus recusou-se a aceit-la. Por isso, agora, Ttis serve a Nereu.
Depois de a comida ter desaparecido (tal como as mulheres), tratei de me juntar a Ptrocles, deixando Licomedes  merc de Nestor.
- Lamento imenso no ter podido encontrar-me com Aquiles - disse eu.
- Terias gostado dele - disse Ptrocles, num tom perfeitamente inexpressivo.
- Imagino que ele teria adorado ir para Tria.
- Sim. Aquiles nasceu para a guerra.
- Bom, no tenciono passar a Trcia a pente fino para o encontrar! Aquiles ficar por certo muito triste quando souber o que perdeu.
- Sim, muito triste.
- Fala-me um pouco mais dele, Ptrocles. Do seu aspecto, da sua maneira de ser... - disse eu num tom o mais sedutor possvel, pois uma coisa sabia j acerca de Ptrocles:
era Aquiles o homem a quem ele havia dado o seu amor.
O seu rosto jovem todo se iluminou.
-  um pouco menos corpulento do que jax... To - to gracioso quando caminha! E  muito belo.
- Ouvi dizer que no tinha lbios. Como pode um homem sem lbios ser belo?
-  Porque - porque - gaguejou Ptrocles,  procura das palavras certas.
- Terias de conhec-lo para compreenderes, Ulisses. A boca dele comove-nos at s lgrimas, to intensa  a dor que ela exprime! Aquiles  a beleza personificada.

#- Parece-me demasiado bom para ser verdade - disse eu. Ptrocles quase cara na armadilha. Por pouco no me dizia que eu era um idiota por duvidar dele, por pouco
no me dizia que, se eu quisesse, iria naquele preciso momento buscar o seu modelo de excelncia fsica para que eu visse com os meus prprios olhos... Mas cerrou
os lbios com toda a sua fora - e no chegou a proferir as palavras que o amor ditava. E nem precisava: eu j tinha a resposta que queria.
Antes de nos retirarmos, conferenciei com Nestor e jax, aps o que fomos para a cama dormir o sono dos justos. Mal a manh se anunciou, fui com jax at  cidade.
Deixara alojado na cidade o meu primo Sino; no era sensato exibir todos os tesouros ao mesmo tempo e Sino era um verdadeiro tesouro. Escutou impassvel as minhas
instrues, aps o que recebeu das minhas mos um dos vrios sacos de ouro que Agammnon me entregara para custear as nossas despesas. quilo que era meu, era eu
mais agarrado; um dia, todos os meus bens seriam do meu filho. Quanto a Agammnon, tinha dinheiro de sobra para pagar por Aquiles.
A corte dormia ainda quando regressei ao palcio, embora jax no me acompanhasse. jax tinha certas tarefas a executar na cidade. Nestor estava acordado e a tratar
da sua bagagem; no tencionvamos manter Licomedes em suspenso. Claro que o rei de Ciros protestou muito cortesmente quando lhe anuncimos que estvamos de partida.
Rogou-nos que ficssemos mais tempo, mas, desta feita, declinei educadamente o convite, para seu imenso alvio.
- Onde est jax? - perguntou Ptrocles.
- Disse-lhe que desse uma volta pela cidade e que perguntasse s pessoas se sabiam para onde Aquiles tinha ido - retorqui, aps o que me virei para Licomedes. -
Rei Licomedes, gostaria de te pedir um pequeno favor: s capaz de chamar todas as pessoas livres que vivem no teu palcio  Sala do Trono?
Licomedes pareceu espantado, primeiro, e desconfiado depois.
- Bom....
- So ordens de Agammnon, caso contrrio no to pediria. O rei supremo de Micenas ordenou-me que apresentasse os seus agradecimentos a todas as pessoas livres da
corte. J o fiz em lolcos, terei de faz-lo tambm em Ciros. Determinou Agammnon que devero comparecer todos os membros da corte, incluindo as mulheres. A proibio
do deus no te impedir que as convoques.
Mal disse estas palavras, alguns dos meus marinheiros entraram, trazendo grandes quantidades dos mais diversos presentes. Pequenas lembranas para as mulheres: contas,
roupas, frasquinhos de perfume, boies de leos, unguentos e essncias, belssimas ls e difanos linhos. Pedi que me trouxessem mesas, a fim de que os homens pudessem
descarregar as suas pesadas cargas. Mais marinheiros vieram, desta feita com prendas para os homens: proteces para os braos, revestidas a bronze, escudos, lanas,
espadas, couraas, elmos e grevas. Mais mesas pedi para que estas prendas fossem descarregadas.
A cobia lutava com a prudncia nos olhos do rei; quando Ptrocles o advertiu do perigo, agarrando-lhe no brao, Licomedes libertou-se da mo do herdeiro e bateu
as palmas para chamar o chefe dos criados.
- Convoca toda a corte para a Sala do Trono. As mulheres no devero aproximar-se dos homens, de acordo com a proibio decretada por Poseidon.
A sala encheu-se de homens, as mulheres chegaram depois. Nestor e eu tratmos de examin-las atentamente. Vos esforos: nenhuma delas podia ser Aquiles.
-  Rei Licomedes - disse eu ento -, o rei Agammnon deseja agradecer-te e  tua corte a hospitalidade e ajuda. -Apontei para os montes de presentes desti nados
s mulheres. -Aquelas so as prendas para as mulheres - Virei-me para as armas e armaduras. - Estas, so as prendas para os homens.
Ambos os sexos desataram num murmurar deliciado, mas ningum se mexeu enquanto o rei no fez sinal para que avanassem. Depois, correram para as mesas e, com a felicidade
estampada nos rostos, desataram a escolher as prendas que mais lhes agradavam.
- Esta prenda  para ti, rei Licomedes - disse eu, estendendo-lhe um objecto envolvido em linho.
Radiante de prazer, Licomedes desembrulhou o objecto em questo: um machado cretense, a cabea dupla de bronze, a haste de madeira de carvalho.
Nesse preciso momento, ouviu-se nas proximidades do palcio um penetrante grito de alarme. Algum fizera soar uma trombeta e, ao longe, todos ouvimos jax soltando
um estridente grito de guerra, tpico dos homens de Salamina. Logo a seguir, ouviu-se um barulho inconfundvel: o rudo de homens vestindo as suas armaduras. jax
voltou a gritar, mais perto agora, como se estivesse a retirar. As mulheres desataram aos gritos enquanto fugiam aflitas para o vo da porta, os homens desataram
numa confuso de perguntas, e o rei Licomedes, com uma lividez de moribundo, esqueceu-se at do seu machado.
- Piratas! - gritou o rei, sem saber o que fazer. jax gritou uma vez mais, mais alto e muito mais perto, um grito de guerra das encostas do Plion, um grito de
guerra que s Quron ensinava. Perante a imobilidade expectante que entretanto se instalara na Sala do Trono, peguei no machado e ergui a sua cabea dupla.
Mas houve mais algum que se mexeu: algum que irrompeu pela Sala do Trono com tal fora e violncia que as mulheres, apinhadas no vo da porta, rodopiaram como
simples canilhas das tecedeiras. A criatura em questo parecia ser uma mulher... Depressa percebemos por que razo Licomedes no se atrevera a

#mostr-la  nossa embaixada! Despindo impacientemente a tnica de linho e revelando assim um peito to magnificamente musculado que eu prprio fiquei de olhos arregalados
de admirao, a valente mulher correu para a mesa onde estavam empilhadas as armas. Finalmente encontrramos Aquiles.
Deitou para o cho tudo o que estava em cima de uma mesa, pegou num escudo e numa lana e logo se ergueu pronto para a luta. Encaminhei-me na sua direco, oferecendo-lhe
o machado.
- Minha senhora, use antes este machado!  uma arma mais adequada para uma mulher to corpulenta... - Passei-lhe o machado, uma pesada arma para os meus pobres braos.
- Estou na presena do prncipe Aquiles, no  verdade?
Ah, o jovem Aquiles era realmente uma estranha criatura! Algum que poderia ter sido o mais belo dos homens, mas que, de facto, no o era - apesar de todos os louvores
de Ptrocles. Ainda que a causa no fosse exactamente a boca, ou a ausncia dela. Alis, aquela fenda que tinha no lugar dos lbios conferia  sua expresso um pathos
que s lhe ficava bem. Em Aquiles, a ausncia de beleza - sempre achei isso, desde o momento em que o conheci - vinha de dentro, no de fora. Os olhos eram um mar
de orgulho e suprema inteligncia; no, de facto, Aquiles no era um brutamontes como jax.
- Os meus agradecimentos! - exclamou ele, rindo-se tanto como eu. jax entrou na Sala do Trono empunhando ainda as armas que usara para criar o pnico nas proximidades
do palcio; mal viu Aquiles, desatou aos berros.
Um instante depois, j o abraava com tal fora que, fosse eu o abraado e teria ficado por certo com a caixa torcica esmagada. Aquiles libertou-se de jax aparentemente
sem sofrer qualquer dano e ps um brao por cima dos ombros dele.
- jax, jax! O teu grito de guerra trespassou-me como a mais aguada das flechas! Eu no podia deixar de responder, no consegui ficar quieto nem mais um momento!
Quando deste o grito de guerra do velho Quron, era a mim que estavas a chamar - como poderia eu resistir? - Olhou de relance para Ptrocles e estendeu-lhe uma mo.
- Vem, Ptrocles, vem para ao p de ns! Vamos para a guerra contra Tria! O meu maior desejo vai ser satisfeito! O Pai Zeus respondeu s minhas splicas!
Licomedes estava fora de si, chorava, contorcia aflito as mos.
- Meu filho, meu filho, que vai ser de ns? Quebraste o juramento que fizeste diante de tua me! Ela vai arrasar-nos!
Um pesado silncio caiu sobre a sala. Num pice, Aquiles perdeu toda a alegria. Ergui as sobrancelhas para Nestor; suspirmos ambos. Tudo estava explicado.
- No estou a perceber, pai. Como  que eu quebrei o juramento? - disse finalmente Aquiles. - Eu limitei-me a responder a um estmulo... Sem pensar, reagi a um apelo
que me foi instilado era eu ainda um menino pequeno. Ouvi jax e respondi. No quebrei nenhum juramento. A astcia de um outro homem destruiu as grilhetas desse
juramento.
- Aquiles diz a verdade - disse eu, bem alto. - Eu enganei-o. Nenhum deus poder consider-lo culpado da quebra de um juramento.
Claro que duvidaram de mim, mas o mal estava feito. Aquiles ergueu exultante os braos e logo se virou para Ptrocles e jax, abraando os dois.
- Primos, ns vamos para a guerra! - disse, com um sorriso de tremenda alegria. Depois, lanou-me um olhar grato. -  o nosso destino. Apesar dos seus hediondos
sortilgios, a minha me nunca conseguiu transformar a minha verdadeira natureza. Eu nasci para ser guerreiro, para lutar ao lado dos maiores homens da nossa poca,
para alcanar a fama eterna e a glria imorredoira! Aquilo que ele disse era provavelmente verdade. Olhei de soslaio para aquele esplndido trio de jovens e lembrei-me
da minha mulher e do meu filho, da eternidade que o meu exlio duraria. Aquiles alcanaria sem dvida a fama eterna e a glria imorredoira na guerra de Tria; mas
eu trocaria de bom grado o meu quinho de fama e de glria pelo direito a regressar a casa no dia seguinte.
Afinal, at consegui voltar a taca, sob o pretexto de que tinha de organizar pessoalmente o meu contingente para a guerra de Tria. Agammnon no ficou nada contente
quando me viu partir de Micenas; eu representava para ele uma apetecvel bengala.
Passei trs preciosas luas com a minha Penlope tecedeira. Um tempo com que no contramos, mas que eu no poderia prolongar. Enquanto a minha pequena frota enfrentava
o alteroso mar de Plops, decidi rumar a ulida por terra.
Atravessei rapidamente a Etlia, pois no parei para descansar nem de noite nem de dia. Cheguei finalmente  montanhosa Delfos, onde Apolo, Senhor da Proftica Boca,
tinha o seu santurio, e onde a sua sacerdotisa, a pitonisa, pronunciava os seus infalveis orculos. Perguntei-lhe se o orculo de taca estava certo, ou seja,
se eu passaria realmente vinte anos longe da minha ptria. A resposta dela no poderia ter sido mais simples e directa: - Sim. - Acrescentou que era essa a vontade
da minha protectora, Palas Atena. Perguntei-lhe porqu. A nica resposta que me deu foi um risinho.
Reduzidas a cinzas as minhas esperanas, avancei na direco de Tebas, onde deveria encontrar-me com Diomedes, que vinha de Argos. Porm, a cidade de Tebas, agora
no mais do que runas, estava deserta; Diomedes no se atrevera a demorar-se naquela cidade sombra. No lamentei a solido e iniciei sem demora a ltima e curta
etapa da minha viagem, fazendo-me ao camnho que conduzia ao estreito de Eubeia e  praia de ulida.

#O local de lanamento da expedio fora demoradamente debatido; mil ou mais navios precisavam de algumas lguas de espao e as guas tinham de ser abrigadas. Portanto,
ulida era uma boa escolha. A praia tinha mais de duas lguas de comprido e a ilha de Eubeia, no muito longe do litoral, protegia-a dos ventos e das correntes mais
impetuosos.
Eu era o ltimo a chegar. Postei-me no alto da colina sobranceira  praia e apreciei o espectculo. At mesmo os meus cavalos pareciam dar-se conta de que havia
qualquer coisa de ameaador no ar, pois pararam, esquivaram-se e desataram a empinar-se, que  o que os cavalos fazem quando lhes ordenamos que se aproximem de carne
putrefacta. O meu condutor teve de se esforar para os controlar. Por fim, porm, l conseguiu convenc-los de que no havia perigo nenhum.
Diante dos meus olhos, espraiava-se um mar de navios! Aos meus ps, ao longo de toda a praia, estendiam-se duas filas de navios, navios de proas altas, pintados
de vermelho e negro, cada um deles construdo para levar pelo menos cem homens, com espao suficiente para cinquenta homens manobrarem os remos enquanto os outros
cinquenta descansavam, cada um deles com um mastro alto para receber convenientemente a vela. Fiquei a pensar em quantas rvores no teriam sido derrubadas para
construir aqueles mais de mil navios, na multido de gotas de suor que no teriam molhado os seus costados at que o ltimo prego tivesse sido pregado, at que cada
um daqueles barcos estivesse em condies de enfrentar o mar. Navios, navios, navios. Do alto da colina pareciam pequenos, mas a verdade  que conduziriam a Tria
oitenta mil soldados e vrias dezenas de milhar de no combatentes. Mentalmente, aplaudi Agammnon. Ele ousara - e vencera. Ainda que aquelas duas filas de navios
no sassem da praia de ulida, o esforo j teria valido a pena porque o feito era esplndido. Esqueci a beleza da terra; as montanhas ficaram de repente muito
pequenas, o mar ficou reduzido a um instrumento passivo, existente apenas para que Agammnon, o rei dos reis, o usasse a seu bel-prazer. Ri-me bem alto e gritei,
Agammnon, venceste!
Avancei pela pequena aldeia piscatria de ulida a um rpido trote, ignorando a multido de soldados que enchia a sua nica rua. Quando a aldeia ficou para trs,
parei, sem saber o que fazer. No meio de tantos navios, onde ficava o quartel-general? Chamei um oficial.
- Qual  o caminho para a tenda de Agammnon, o rei dos reis? - perguntei. Examinou-me vagarosamente, palitando os dentes enquanto apreciava a minha armadura, o
meu elmo repleto de presas de javali, o portentoso escudo que pertencera ao meu pai.
- Quem pergunta? - quis saber o impertinente.
- Um lobo que j devorou ratazanas muito maiores do que tu.
Surpreso com a resposta, engoliu em seco e respondeu-me educadamente.
- Segue por esta estrada e, daqui a pouco, volta a perguntar.
- Ulisses de taca agradece-te.
O quartel-general de Agammnon era temporrio, constitudo por boas tendas de cabedal, razoavelmente grandes e confortveis. No construra nada de slido ou duradouro,
exceptuando um altar de mrmore sob um solitrio pltano, uma pobre e desolada rvore que lutava contra o sal e contra o vento na esperana de que, agora que a Primavera
chegara, o verde voltasse a ser a sua cor. Depois de ter deixado o meu condutor e os meus cavalos entregues aos cuidados dos guardas imperiais, fui escoltado at
 maior das tendas.
Estavam l todos os homens realmente importantes: Idomeneu, Diomedes, Nestor, jax e o seu homnimo, a quem chamvamos o Pequeno jax, Teucro, Fnix, Aquiles, Menesteu,
Menelau, Palamedes, Merona, Filoctetes, Eurpilo, Macon, Podalrio e Toas. O sacerdote albino, Calcas, estava muito sossegado a um canto, os olhos vermelhos saltitando
de homem em homem, calculando, avaliando; os seus olhos vesgos no me enganavam. Por um momento, observei-o sem que ele desse por isso, tentando perscrutar o que
lhe iria na alma. No gostava dele, no s por causa da sua aparncia repulsiva, mas tambm porque havia algo de menos tangvel na sua mscara que me inspirava uma
intensa sensao de desconfiana. Sabia que Agammnon sentira o mesmo de incio. Porm, depois de muitas luas a espiar o homem, chegara  concluso de que Calcas
era leal. Eu no estava assim to seguro... Aquele homem era muito esperto. Alm de que era troiano.
Aquiles saudou-me jubilosamente.
- Ulisses, porque demoraste tanto? Os teus navios chegaram h meia lua!
- Vim por terra. Tive de tratar de algumas coisas.
- Chegaste mesmo a tempo, meu velho amigo - disse Agammnon. - Vamos dar incio ao nosso primeiro conselho formal.
-  Ento sou mesmo o ltimo?
- O ltimo dos que realmente contam, Ulisses. Sentmo-nos. Calcas saiu do seu cantinho para empunhar, com uma garra frouxa, o Basto do Debate. Apesar do tempo primaveril
e ensolarado, fora preciso acender lamparinas, pois era escassa a luz que entrava pela fresta da porta da tenda. Como era de norma num conselho de guerra formal,
todos envergvamos armaduras. Agammnon tinha uma belssima armadura de ouro, incrustada com ametistas e lpis-lazli; fiz votos para que, quando soasse a hora da
batalha, tivesse uma armadura mais adequada para o efeito. Recebendo das mos de Calcas o Basto do Debate, encarou-nos com uma expresso orgulhosa.
- Convoquei este primeiro conselho, obviamente para discutir a viagem e no a campanha. Porm, em vez de ordenar, creio que seria melhor responder s vossas

#perguntas. Creio que no ser necessrio um debate formal. Calcas empunhar o Basto. Contudo, se algum dos presentes desejar fazer um discurso mais demorado, poder
faz-lo  vontade. - Com um ar satisfeito, passou o Basto a Calcas.
- Quando planeias partir? - perguntou Nestor placidamente.
- Na prxima lua nova. Deleguei as principais tarefas de organizao em Fnix, que , entre todos ns, o marinheiro mais experiente. Fnix nomeou j uma equipa especial
de oficiais que est a estudar a ordem de partida dos navios, quais os contingentes mais rpidos e quais os mais lentos, quais os navios que devero levar tropas
indispensveis e quais os que devero transportar cavalos e no combatentes. Sossega, Nestor: no ser o caos quando desembarcarmos.
- Quem  o piloto-chefe? - perguntou Aquiles.
- Tlefo. Viajar comigo na nau capitnia. Cada piloto tem ordens para manter o seu navio  vista de pelo menos uma dzia de outros. Desse modo, a frota permanecer
intacta - se as condies de tempo forem favorveis,  claro. As tempestades dificultaro o nosso avano, mas esta poca do ano  propcia s viagens e Tlefo est
a treinar todos os pilotos com extremo cuidado.
- Quantos so os navios de abastecimento? - perguntei eu. Agammnon pareceu ficar um pouco melindrado com a pergunta. No estava  espera de que lhe fizessem perguntas
to prticas.
- Cinquenta navios, Ulisses. A nossa campanha ser curta e incisiva.
- S cinquenta? Para mais de cem mil homens? Vo acabar com a comida em menos de uma lua.
- Em menos de uma lua - retorquiu o rei supremo de Micenas - teremos toda a comida de Tria  nossa disposio. - A sua expresso dizia mais do que as meras palavras:
Agammnon tomara uma deciso e dela no se desviaria. Ah, mas porqu precisamente naquele ponto - o ponto mais problemtico, mais imprevisvel? Mas Agammnon, por
vezes, era assim mesmo - e nada do que eu, ou Nestor, ou Palamedes, lhe dissssemos, poderia ter alguma influncia sobre ele.
Aquiles levantou-se e pegou no Basto.
- Este problema preocupa-me, rei Agammnon. Estou convencido de que deverias prestar tanta ateno aos abastecimentos como s embarcaes,  viagem ou mesmo s tcticas
de batalha. Mais de cem mil homens comero mais de cem mil canecas de cereais por dia, mais de cem mil nacos de carne, mais de cem mil ovos ou queijos por dia -
e bebero mais de cem mil copos de vinho misturado com gua por dia. Se os abastecimentos no forem cuidadosamente organizados, o exrcito passar fome. Cinquenta
navios, como disse Ulisses, no chegaro para mais de uma lua. E se mantivssemos esses cinquenta navios em constante trnsito entre a Grcia e a Trada, trazendo
mais mantimentos? Que acontecer se a campanha for mais longa do que esperas?
Se Nestor, Palamedes e eu no conseguamos demov-lo, que hipteses teria um rapazito como Aquiles? Agammnon tinha os lbios franzidos e cerrados e, em cada face,
uma mancha vermelha.
Louvo muito a tua preocupao, Aquiles - disse ele num tom afvel. Contudo, sugiro-te que no te preocupes tanto: eu encarregar-me-ei de tudo.
Nada convencido, Aquiles entregou o Basto a Calcas e sentou-se. Ao sentar-se, porm, comentou, aparentemente para ningum em particular: - Bom, o meu pai sempre
disse que s um chefe tolo deixa aos outros os cuidados a ter com os seus soldados. Creio, por isso, que levarei mantimentos adicionais para os meus Mirmides nos
meus prprios navios. E vou alugar uns quantos navios mercantes para levar mais.
Uma mensagem que teve um efeito imediato: alguns dos outros decidiram, nesse mesmo instante, seguir o exemplo de Aquiles.
E Agammnon apercebeu-se claramente disso. Vi os seus cismticos olhos escuros demorando-se no rosto vido e fresco do jovem Aquiles e suspirei. Agammnon estava
com cimes. Que se passara em ulida na minha ausncia? Estaria Aquiles a conquistar partidrios e Agammnon a perd-los?
Na manh seguinte reunimo-nos para passar revista s tropas. Para irmos de uma ponta  outra da praia, demormos a maior parte do dia; tremiam-me os joelhos depois
de ter passado tanto tempo de p sobre os estribos de vime do meu carro (e, ainda por cima, levava a armadura vestida). Duas filas de navios erguiam-se acima de
ns; navios imponentes, com os costados vermelhos listrados com costuras negras de breu, as proas bicudas pintadas de azul e rosa, os grandes olhos das proas fitando-nos
inexpressivamente.
Os soldados beneficiavam das sombras projectadas pelos navios. Cada homem envergava uma armadura completa e empunhava um escudo e uma lana prontos a serem usados;
filas interminveis de homens, todos eles leais a uma causa de que nada sabiam, excepto que, num futuro prximo, haveria despojos a dividir por todos. Ningum saudava
os seus soberanos, ningum corria para melhor ver os seus reis.
No extremo da longa linha de homens e navios, encontravam-se as embarcaes de Aquiles e os homens de que tanto ouvramos falar mas que nunca havamos visto: os
Mirmides. Tinha experincia suficiente para no esperar que eles fossem diferentes - contudo, os Mirmides eram mesmo diferentes. Altos, brancos e louros, os olhos
uniformemente azuis ou verdes ou cinzentos sob belos elmos de bronze, armaduras completas de bronze em vez da habitual armadura de cabedal do comum dos soldados.
Cada homem empunhava um feixe de dez lanas em vez das usuais duas ou trs; empunhavam ainda pesados escudos, da altu-

#ra de um homem, no muito inferiores ao meu veterano escudo, e as suas armas eram espadas e punhais, em vez de flechas ou fundas. Sim, no havia dvida: aquelas
eram tropas da primeira linha, as melhores de que dispnhamos.
Quanto a Aquiles, Peleu devia ter gasto uma fortuna para equipar o seu nico filho para a guerra. O carro de Aquiles era decorado a ouro, os cavalos eram indiscutivelmente
os melhores do cortejo - trs garanhes brancos da Tesslia, os arreios cintilando de ouro e jias. No sei de onde viera a armadura que Aquiles envergava, mas sei
que conhecia apenas uma armadura melhor do que a dele: a que estava guardada no meu cofre-forte. Tal como a armadura de Agammnon, tambm a de Aquiles era revestida
a ouro, ainda que sobre um fundo de bronze e estanho: enfim, era to pesada aquela armadura que, muito provavelmente, s Aquiles e jax teriam fsico para a suportar.
Toda a armadura fora decorada com smbolos e padres sagrados e embelezada com mbar e cristal. Empunhava apenas uma lana: no meio de tanto brilho, a lana marcava
um contraste incrvel, pois, sobre ser um feio objecto, no possua brilho nenhum. O condutor do carro era o primo Ptrocles. Ah, que espertos que eles eram! Quando
o cortejo dos reis era obrigado a parar, os cavalos de Aquiles comeavam a falar!
As nossas saudaes, Mirmides!, exclamava o cavalo mais prximo dos soldados, agitando a cabea at que a sua longa crina branca flutuava como uma bandeira.
Ns servi-los-emos corajosamente, Mirmides!, diziam os lbios do cavalo do meio, o mais calmo.
No temam por Aquiles enquanto formos ns a puxar o seu carro! , dizia o mais distante, numa voz mais relinchada que as dos outros.
Os Mirmides olhavam para os cavalos com sorrisos imensos e batiam no cho com os seus feixes de lanas para saudarem os rgios cavalos. Em contrapartida, Idomeneu,
que seguia no carro  frente de Aquiles, por mais de uma vez se virou para trs boquiaberto, como se estivesse a ver uma assombrao.
Mas eu percebera o truque, pois vinha mesmo atrs do carro dourado de Aquiles. Era Ptrocles quem falava, reduzindo ao mnimo os movimentos dos seus lbios! Esperto,
o amigo de Aquiles!
O tempo continuava ensolarado e a brisa suavssima; tudo apontava para uma partida normal e uma travessia calma. Porm, na noite anterior  largada, no consegui
dormir e tive de me levantar para dar um longo e inquieto passeio pela praia, tendo por nica companhia as estrelas que no cu brilhavam. Estava a contemplar o perfil
de um navio prximo quando surgiu algum por entre as dunas.
- Tambm no consegues dormir?
No precisei de fazer um grande esforo para saber de quem se tratava. S Diomedes procuraria Ulisses de preferncia a qualquer outro. Um bom amigo, o meu camarada
de tantas guerras. E to cheio de cicatrizes dessas guerras ... ! Entre todos os que iam para Tria, Diomedes era, sem dvida, o homem mais castigado por armas inimigas.
Combatera em todas as campanhas, pequenas ou grandes, desde Creta at  Trcia, e pertencera ao segundo grupo dos Sete contra Tebas, os Sete que haviam conquistado
e arrasado a cidade, desse modo realizando aquilo que os seus pais no tinham conseguido fazer. Diomedes era uma criatura apaixonada e implacvel, logo, bastante
diferente de mim; eu era implacvel, sem dvida, mas no me deixava levar por paixes; o meu esprito era perpetuamente temperado pelo gelo que havia na minha mente.
Devo confessar que o invejava, pois Diomedes havia jurado construir um templo com as caveiras dos seus inimigos e cumprira a sua promessa. O pai dele fora Tideu,
um rei de Argos particularmente famoso, mas o filho era muito melhor do que o pai. Em Tria, Diomedes no falharia. Seguira de Argos para Micenas com toda a fogosa
nsia que o seu corao poderia albergar, j que amava loucamente Helena, e, tal como o pobre Menelau, tambm ele se recusara a acreditar que Helena fugira de livre
vontade. Nutria por mim uma elevada estima, um sentimento que, por vezes, me parecia prxima da adorao que se tem pelos heris. Eu... um heri? Que coisa mais
estranha!
- Amanh vai chover - disse ele, erguendo o seu longo pescoo e contemplando as profundezas do cu.
- Vai chover? Mas no h nuvens... - objectei. Diomedes encolheu os ombros.
- Doem-me os ossos, Ulisses. O meu pai dizia que um homem marcado pela guerra - ossos partidos, a carne dilacerada por lanas ou flechas, enfim, tudo isso - podia
prever a chuva e o frio. Esta noite, as dores eram tais que nem consegui dormir.
Ouvira j falar de um tal fenmeno e devo dizer que fiquei seriamente apreensivo.
- Para bem de todos ns, espero que, pelo menos desta vez, os teus ossos se enganem. Mas diz-me, Diomedes, por que razo me procuraste?
Fitou-me com um sorriso arreganhado.
- Eu sabia que a Raposa de taca no dormiria enquanto no sentisse as ondas sob o seu navio. Queria falar contigo.
Pondo o meu brao sobre os seus largos ombros, conduzi-o na direco da minha tenda.
- Falemos, ento. Tenho vinho e um bom lume no trpode.
Instalmo-nos em divs, com o lume entre ns e copos cheios  nossa disposio. A tenda estava quente e mergulhada numa semiobscuridade e os divs bem

#guarnecidos de almofadas; o vinho sem gua era tambm uma boa maneira de atrair o sono. Era altamente improvvel que algum viesse incomodar-nos; de qualquer modo,
para evitar um eventual importuno, baixei a cortina da porta da tenda.
- Ulisses, tu s o homem mais notvel e capaz desta expedio a Tria -disse ele com o ar mais srio deste mundo.
No consegui evitar o riso.
- No, nem pensar! Esse homem  Agammnon! Ou ento Aquiles. -Agammnon? Aquele autocrata presumido e teimoso que nem um burro? No, de modo nenhum! Ele pode ficar
com os louros, mas apenas porque  o rei supremo, e no por ser o maior dos vultos aqui presentes. Quanto a Aquiles, bom, Aquiles no passa de um rapazito. Claro,
claro que o rapaz tem tudo para vir a ser um dos grandes! Possui uma inteligncia superior. Sim, de facto pode vir a revelar-se um homem formidvel. Mas, por enquanto,
falta-lhe a experincia. Sabe-se l... at pode ser que meta o rabinho entre as pernas e desate a fugir mal veja sangue derramado.
Sorri.
- No, Aquiles no  desses.
- Muito bem, admito que no seja. Mas Aquiles nunca poder ser o vulto mais notvel do nosso exrcito, porque esse vulto s tu, Ulisses. A conquista de Tria s
poder ser obra tua.
- Que disparate, Diomedes! - disse eu, afavelmente. - Que pode a inteligncia de um homem fazer em dez dias?
- Dez dias? - disse ele, com um ar trocista. - Pela Me,  muito mais provvel que sejam dez anos! Isto  uma guerra a srio, no uma caada.      -  Ps o copo
vazio no cho. - Mas eu no te procurei para falar de guerras. De facto, queria pedir a tua ajuda.
-A minha ajuda? Mas tu  que s o guerreiro experimentado, no eu, Diomedes!
- No, isto no tem nada a ver com campos de batalha! Quanto a batalhas, at posso trav-las de olhos vendados ... ! No, eu preciso da tua ajuda noutros domnios,
Ulisses. Quero ver como trabalhas. Quero ver como  que consegues controlar-te. - Inclinou-se um pouco para a frente e prosseguiu: - Sabes, eu preciso de algum
que vigie o meu terrvel mau gnio, algum que me ensine a dominar o meu demnio interior, em vez de o deixar em total liberdade, como tem sido costume - uma liberdade
cujo preo  demasiado elevado para mim. Pensei que talvez pudesse ficar com alguma da tua frieza, se te visse agir, se te visse organizar, comandar, combater.
A simplicidade dele comoveu-me.
- Nesse caso, Diomedes, a soluo  simples: junta-te a mim. Diz aos teus pilotos que mantenham os teus navios perto dos meus, participa comigo em todas as misses,
coloca as tuas tropas ao lado das minhas quando chegar a hora da batalha. Qualquer homem precisa de um bom amigo que o anime -  o nico remdio para a nossa solido,
para as saudades que temos do lar e da ptria.
Diomedes estendeu a mo por sobre as vivas chamas, aparentemente sem se aperceber de que o fogo quase lambia o seu pulso. Os meus dedos envolveram o seu antebrao;
assim selvamos o nosso pacto de amizade, assim partilhvamos a nossa solido, tornando-a menos opressiva.
Devemos ter adormecido j a noite ia alta, pois acordei  primeira luz da manh com o bramido de um vento ameaador, um vento que cantava nas enxrcias daquela multido
de navios, que chiava sonoro e impiedoso em torno das proas. Do outro lado da fogueira, agora reduzida a cinzas, Diomedes comeou a mexer-se, maculando a gil beleza
do seu despertar com um ronco de dor.
- Os meus ossos ainda me doem mais do que ontem  noite - disse ele, sentando-se.
- E com razo! Temos vendaval! Diomedes levantou-se lentamente, foi at  cortina, espreitou l para fora e voltou para o seu div.
-  o vento norte, o pai de todas as tempestades. Garanto-te que at neve vamos ter. No, Ulisses, no partiremos hoje. As nossas embarcaes iriam parar todas ao
Egipto.
Um escravo surgiu com um trpode com um lume novo, fez as camas e trouxe-nos gua quente para nos lavarmos. No havia razo para pressas; Agammnon ficaria to desconsolado
que no convocaria conselho nenhum antes do meio-dia. A minha cozinheira trouxe-nos bolos de mel ainda quentes e po de cevada, e queijo de ovelha e vinho quente
e adoado para terminar o repasto. Era uma boa refeio, e ainda melhor porque era partilhada; e assim estivemos um ror de tempo, aquecendo as mos no lume, at
que Diomedes regressou  sua tenda para vestir a indumentria que o conselho exigia. Quanto a mim, vesti um saiote de cabedal e uma blusa, apertei as correias das
botas altas e pus por cima dos ombros um manto forrado a pele.
O rosto de Agammnon estava to sombrio e tempestuoso como o dia; a fria e a humilhao travavam uma guerra sem trguas nos seus rgidos traos, agora que os seus
planos haviam rudo. Havia nele o secreto medo de parecer ridculo aos olhos dos outros chefes, agora que a sua grandiosa aventura se desmoronara antes mesmo de
ter comeado.
- Convoquei Calcas para que realize um augrio! - exclamou ele repentinamente.
Suspirando resignados, e apertando bem os mantos, fizemo-nos ao vendaval. A vtima encontrava-se no altar de mrmore sob o pltano, as pernas presas por

#correias. E Calcas envergava uma tnica prpura! Prpura? Mas que raio acontecera em ulida antes da minha chegada? Agammnon devia t-lo em altssima considerao
para o deixar vestir uma tnica prpura!
Uma coincidncia demasiado estranha, pensei eu enquanto aguardava que a cerimnia comeasse; duas luas de tempo perfeito e, precisamente no dia previsto para a nossa
partida, todos os elementos conspiravam para a atrasar. A maior
parte dos reis decidira voltar para as suas tendas, bastante mais quentes e agradveis do que o vento e a saraiva que teriam de suportar se assistissem  cerimnia.
S os mais velhos ou aqueles que dispunham de mais poder ficaram para apoiar Agammnon e testemunhar a mensagem do augrio: eu prprio, Nestor, Diomedes, Menelau,
Palamedes, Filoctetes e Idomeneu.
Era a primeira vez que via Calcas realizar um augrio e tive de admitir que
era um especialista. Com umas mos que, de to trmulas, quase no conseguiam erguer a faca adornada com jias, o rosto da cor da cera, cortou com um movimento brusco
a garganta da vtima, quase virando o grande clice de ouro enquanto o segurava para apanhar o sangue; quando derramou o sangue sobre o frio mrmore, este pareceu
fumegar. Depois, abriu a barriga do animal e comeou a interpretar a disposio das entranhas de acordo com a prtica dos sacerdotes treinados na sia Menor. Os
seus movimentos eram rpidos e disrtmicos e a sua respirao to estertorosa que conseguia ouvi-la sempre que o vento abrandava por um momento.
Inopinadamente, rodopiou e ficou de frente para ns.
- Escutem a palavra do deus,  reis da Grcia! Eu vi a vontade de Zeus, o Senhor de Tudo! Ele virou-lhes as costas, ele recusa-se a abenoar esta aventura! A sua
clera obscurece os motivos que o levaram a tomar esta atitude, mas uma coisa eu sei:  rtemis quem est sentada ao seu colo e que lhe pede que se mostre intransigente!
No consigo ver mais, pois a sua fria cega-me!
Era mais ou menos aquilo de que estava  espera, pensei, ainda que a referncia a rtemis constitusse um toque inegavelmente hbil. Contudo, justia seja feita,
Calcas parecia mesmo um homem perseguido pelas Filhas de Kore, um homem que fora despojado de tudo, excepto da sua vida, numa fraco mnima de tempo. Havia nos
seus olhos uma angstia sincera. No parava de me surpreender, aquele homem; de facto, era bvio que ele acreditava em tudo o que dissera, ainda que tivesse preparado
antecipadamente toda a sua actuao. Todos os homens que possuem o poder de influenciar os outros me interessam; porm, nunca nenhum sacerdote me interessou tanto
como Calcas.
Mas a tua actuao ainda no terminou, pensei eu; faltam ainda alguns detalhes. Aos ps do altar, Calcas rodopiou e abriu muito os braos, as mangas enormes adejando,
empapadas de sangue, ao sabor do vento, a cabea inclinada para trs, a linha dessa inclinao revelando que o sacerdote estava a olhar para o pltano. Atentei no
que os seus olhos viam: os ramos ainda nus, os botes carcomidos ainda por abrir. Um ninho ocultava-se entre dois ramos, um ninho onde um pssaro chocava os seus
ovos. Um vulgar pssaro castanho, igual a tantos outros.
A cobra do altar coleava j ao longo do ramo, a gula estampada nos frios olhos negros. Calcas juntou os seus braos, ainda erguidos, at que ambas as mos apontaram
para o ninho; com a respirao suspensa, seguimos os movimentos da cobra. Acerta altura, a terrfica boca do rptil abriu-se para, num pice, engolir o pssaro inteiro;
enquanto o devorava, as suas cintilantes escamas castanhas, ao revolverem-se, faziam lembrar uma srie de tatuagens vivas. Depois, devorou os ovos um a um: seis,
sete, oito, nove, contei eu. A me e os nove ovos, tal fora o repasto.
Como  costume entre os animais da sua espcie, a cobra, depois de saciada a gula, ficou parada onde estava, parada e enroscada no fino ramo como se fosse uma esttua
arrancada  pedra. Os seus olhos fixavam impassveis o sacerdote: a frgida penetrao do seu olhar no era perturbada pelos movimentos que, nos olhos dos humanos,
so normais.
Calcas virou-se para ns como se um qualquer deus tivesse espetado uma estaca no seu estmago. Gemia um gemido brando. Ento, falou de novo.
- Escutem-me,  reis da Grcia! Acabam de testemunhar a mensagem de Apolo! Ele fala quando o Senhor de Tudo se recusa a falar! A cobra sagrada engoliu a ave e os
seus nove ovos. A ave  a estao que ora se avizinha. Os seus nove filhos que morreram nos ovos so as nove estaes que a Me no deu ainda  luz. A cobra  a
Grcia! A ave e os seus ovos so os anos que a Grcia demorar a conquistar Tria! Dez anos sero precisos para conquistar Tria! Dez anos!
O silncio que se seguiu era to profundo que parecia ter vencido o rudo constante da tempestade. Por um longo tempo, ningum se mexeu ou falou. Nem eu sabia o
que pensar de to espantosa actuao! Seria este sacerdote estrangeiro um verdadeiro vidente? Ou estaramos perante uma mistificao muito bem elaborada? Olhei para
Agammnon, perguntando-me quem levaria a melhor: se a sua certeza de que a guerra no duraria mais do que uns breves dias, se a sua f no sacerdote. Era uma luta
violenta, pois Agammnon era, do ponto de vista religioso, um homem supersticioso. Mas, no fim, foi o seu orgulho que venceu. Encolhendo os ombros, deu meia volta
e foi-se embora. Fui eu o ltimo a partir. Enquanto ali estive, no tirei os olhos de Calcas. Estava de p e to imvel como uma pedra, os olhos fixos nas costas
do rei supremo. Havia nos seus olhos um rancor evidente, o que no admira: a sua primeira exibio de poder fora pura e simplesmente ignorada.
Os dias foram seguindo o seu implacvel caminho e a Primavera ia j' avanada e os ventos fortes e os dilvios de chuva continuavam. Fustigado pelo ven-

#to, o mar levantava-se em ondas to altas como o convs do mais imponente dos navios; impossvel partir em tais condies. Todos aguardvamos, cada um segundo o
seu jeito peculiar. Aquiles treinava impiedosamente os Mirmides, Diomedes enfiava-se na minha tenda e punha-se a andar de um lado para o outro com uma impacincia
cada vez maior, Idomeneu divertia-se nos braos das cortess que trouxera de Creta, Fnix cacarejava como uma galinha demente para os pilotos parados em terra, Agammnon
mordiscava a barba e recusava-se a dar ouvidos a conselhos, enquanto os soldados mandriavam e jogavam aos dados, discutiam e bebiam. Por outro lado, dar de comer
a tanta gente estava a tornar-se uma misso quase impossvel, pois as equipas disso encarregadas tinham de vencer lguas e lguas de lama para levar comida suficiente
a todas as vorazes bocas.
Quanto a mim, tanto me fazia. O meu exlio duraria vinte anos: que me importava o modo como ele comeava? Poucos eram aqueles que se reuniam todos os dias, ao meio-dia,
para assistirem  interpretao dos augrios. Nenhum de ns esperava ouvir da boca de Calcas uma razo clara para a hostilidade do grande deus. A lua nova deu lugar
 lua cheia que logo se esvaziou e a tempestade sempre sem amainar; comevamos a pr, muito seriamente, a hiptese de os navios no partirem. Em passando mais uma
lua, os ventos tornar-se-iam mais imprevisveis e, em chegando o fim do Vero, teramos de nos despedir de Tria at ao ano seguinte.
Mais por causa do fascnio que Calcas me inspirava, do que por nutrir alguma esperana de que o grande deus erguesse o seu vu e nos deixasse entrever os seus motivos,
nunca perdia o ritual do meio-dia. Alis, tambm no havia nada que sugerisse que aquele dia particular seria diferente de todos os outros. Limitei-me a estar presente,
na minha qualidade de observador de Calcas. Apenas Agammnon, Nestor, Menelau, Diomedes e Idomeneu me fizeram companhia. Reparara, de passagem, que a cobra do altar
emergira da sua gulosa hibernao e voltara ao seu nicho.
Mas aquele dia, afinal, foi diferente. Quando estava a sondar as entranhas da vtima, Calcas virou-se de repente e apontou a Agammnon um longo e ossudo dedo escorrendo
sangue.
A est aquele que impede a partida! - gritou ele. - Agammnon, rei dos reis, tu no deste  archeira aquilo que lhe era devido! A fria dela, durante tanto tempo
adormecida, acabou por despertar, e Zeus, o seu divino pai, atendeu s suas splicas de justia. Rei Agammnon: enquanto no deres a rtemis aquilo que lhe prometeste
h dezasseis anos, a tua frota no partir!
Ningum fazia a mnima ideia do que se tratava. Agammnon vacilava sob a violncia do choque e o seu rosto, de sbito, parecia o de um cadver. Calcas sabia do que
estava a falar.
O sacerdote desceu os degraus, o corpo hirto de ultraje.
- D a rtemis aquilo que lhe negaste h dezasseis anos e ento Poders fazer-te ao mar! De outro modo, ser impossvel! Zeus omnipotente falou!
Cobrindo o rosto com as mos, Agammnon recuou perante aquela viso fatdica, de prpura vestida.
- No posso! No posso! - gritou.
- Ento, desmobiliza os teus soldados - disse Calcas.
- Eu no posso dar  deusa aquilo que ela quer! Ela no tem o direito de mo pedir! Se eu sonhasse que o desfecho seria este - ah, eu nunca teria feito tal promessa!
Ela  rtemis, casta e santa! Como  possvel que me exija tal coisa?
- Ela exige apenas o que lhe  devido. D-lhe o que ela pede e poders partir - repetiu Calcas, a voz to fria como o vento. Se te recusares a cumprir o voto que
fizeste h dezasseis anos, a Casa de Atreu mergulhar na escurido e tu morrers na mais terrvel runa.
Avancei para Agammnon e, com toda a minha fora, arranquei-lhe as mos que cravara no rosto.
- Que prometeste a rtemis, Agammnon? Com os olhos cheios de lgrimas, o rei supremo agarrou-se aos meus pulsos como um homem prestes a afogar-se se agarra a um
cabo do navio.
- Um voto estpido, Ulisses, um voto impensado! Estpido! H dezasseis anos, Clitemenestra estava prestes a dar  luz a nossa ltima filha... Contudo, o trabalho
de parto arrastou-se durante trs dias sem qualquer resultado... Ela no conseguia dar  luz a criana! Ento, pedi a todos os deuses -  Me, a Hera, a Misericordiosa,
e a Hera, a Estranguladora, aos deuses e deusas do lar, do parto, das crianas, das mulheres. Nenhum me respondeu - nenhum!.
As lgrimas continuavam a cair, mas Agammnon prosseguiu.
- Desesperado, orei a rtemis, apesar de ela ser virgem e no gostar de mulheres fecundas. Pedi-lhe que ajudasse a minha mulher a dar  luz uma bela e saudvel criana.
Em troca, prometi-lhe a mais bela criatura que nascesse nesse ano no meu reino. Pouco depois, Clitemenestra dava  luz Ifignia. E, no fim desse ano, mandei mensageiros
a toda a Micenas, a fim de que me trouxessem as criaturas nascidas nesse ano que considerassem mais belas. Cabritos, vitelos, cordeiros, at mesmo pssaros. Ofereci
a rtemis todos esses belos animais, ainda que, no fundo, soubesse que a deusa no ficaria satisfeita. E, de facto, rtemis rejeitou todos os sacrifcios.
Seria possvel que, no mundo, no houvesse nunca mudana? Sabia j o desfecho daquela horrenda histria - era como se ele estivesse pintado numa parede diante dos
meus olhos. Porque eram os deuses to cruis? Porqu?
Termina, por favor, Agammnon - disse-lhe.

#- Certo dia, estava com a minha mulher e a beb quando Clitemenestra comentou que Ifignia era a mais bela criatura de toda a Grcia - mais bela, disse, do que
a prpria Helena. Antes que ela conclusse a frase, j eu sabia que rtemis lhe pusera as palavras na boca. A archeira queria a minha filha. S com a minha filha
ficaria satisfeita. Mas eu no podia fazer isso, Ulisses. Ns abandonamos crianas recm-nascidas, mas os sacrifcios humanos no so praticados na Grcia desde
que a Nova Religio baniu a Velha. Pedi por isso  deusa que compreendesse por que razo eu no podia fazer o que ela queria. O tempo foi passando e, como ela nada
fazia, pensei que tinha compreendido. Agora, vejo que ela estava apenas  espera de uma oportunidade. Ela quer aquilo que eu no lhe posso dar, a vida que ela permi
tiu que nascesse, e insiste em que eu lhe d essa vida ainda virgem. A vida da minha filha  um crculo perfeito. Mas eu no posso permitir um sacrifcio humano!
Dei ao meu corao a dureza fria do metal: se eu perdera o meu filho (estar longe dele vinte anos no era o mesmo que perd-lo?), por que haveria ele de poupar a
sua filha? Agammnon tinha mais duas filhas. A sua ambio obrigara-me a separar-me de tudo o que me era querido - por que no haveria ele de sofrer tambm? Se homens
de estatuto inferior eram forados a obedecer aos deuses, por que no haveria o rei supremo - o representante de todos diante dos deuses - de lhes obedecer tambm?
Agammnon fizera uma promessa e adiara o seu cumprimento durante dezasseis anos apenas porque essa promessa o afectava pessoalmente. Se a mais bela criatura nascida
nesse ano tivesse sido o filho de outro homem, Agammnon teria realizado o sacrifcio e no ficaria com nenhum peso na conscincia. Por tudo isto, olhei-o bem nos
olhos, o corao consumido pela dor do exilio, e sucumbi ao apelo de um demnio que vivia dentro de mim desde o dia em que o orculo pronunciara o meu destino.
- Cometeste uma transgresso terrvel, Agammnon - disse eu. - Se Ifignia  o preo que rtemis exige, ento ters de pag-lo! Oferece  deusa a tua filha! Se no
o fizeres, o teu reino ruir e a expedio a Tria far de ti o homem mais ridculo de todos os tempos!
Ah, o que ele odiava o ridculo! Para Agammnon, nem mesmo o mais querido membro da sua familia poderia significar tanto como o seu reino, como o seu orgulho. Vi
o conflito desenhando-se claro no seu rosto, vi o desespero e o sofrimento, vi a viso da sua miservel queda na ignomnia e no ridculo. Ento, o pobre rei supremo
virou-se para Nestor, procurando apoio.
- Nestor, Nestor, que hei-de eu fazer? Dividido entre o horror e a piedade, o velho rompeu a chorar.
-  um dilema terrvel, Agammnon! Mas temos de obedecer aos deuses. Se Zeus omnipotente te disse que deves dar  archeira aquilo que ela pede, ento no tens alternativa.
Lamento muito, mas tenho de concordar com Ulisses.
Chorando desolado, o nosso rei supremo pediu o apoio de cada um dos outros; um a um, lvidos e graves, todos lhe deram a mesma resposta que eu.
S eu observava atentamente Calcas, perguntando-me se o velho no teria feito um inqurito discreto sobre o passado de Agammnon. Quem poderia esquecer o dio e
o desejo de vingana que encontrei no seu rosto no dia em que a tempestade comeara? Um homem muito subtil - para alm de troiano.
Depois de todos os principais chefes se terem recusado a apoiar Agammnon, a resoluo do caso no excederia o mbito da logstica. Agammnon, convencido - graas
a mim - de que no tinha outra alternativa seno sacrificar a sua filha, explicou-nos quo difcil seria separar a jovem da me.
- Clitemenestra no permitir que tragam Ifignia para ulida, sabendo que ela vai ser vtima da faca do sacerdote - disse ele, de sbito velho e alquebrado.
- A rainha pedir o apoio do povo - e o povo apoi-la-.
- H solues para isso.
- Que solues?
- Eu falarei com Clitemenestra, Agammnon. Dir-lhe-ei que, devido  tempestade, Aquiles ficou to impaciente que pretende regressar sem demora a lolcos e levar consigo
os Mirmides. Dir-lhe-ei ainda que tiveste a brilhante ideia de lhe oferecer a mo de Ifignia desde que ele permanea em ulida. Clitemenestra no se opor. Chegou
a dizer-me, alis, que gostaria muito que Ifignia se casasse com Aquiles.
- Mas isso ser uma desonra para Aquiles! - exclamou Agammnon, com um ar desconfiado. - Aquiles no consentir. J o conheo bem e sei que ele  um homem recto
- o que no admira, pois  filho de Peleu!
Exasperado, ergui os olhos para o cu.
- Agammnon, Aquiles nunca saber! No tencionas contar esta histria a toda a gente, pois no? Cada um de ns jurar de bom grado um voto de absoluto segredo. O
sacrifcio humano no conquistaria nenhum corao entre os nossos homens - comeariam a pensar em quem seria o prximo. Porm, se nenhum rumor transpirar, tudo correr
bem e rtemis ficar apaziguada. Aquiles nunca saber!
- Muito bem. Falars ento com Clitemenestra - disse ele. Quando abandonmos o sagrado recinto, tratei de isolar Menelau.
- Menelau, queres que Helena volte para ti? Uma onda de dor inundou-lhe o rosto.
- Por todos os deuses, Ulisses, no conheces j a resposta?
- Ento ajuda-me - ou a frota nunca partir!
- Farei tudo o que me pedires, Ulisses!
- Agammnon vai enviar um mensageiro a Clitemenestra. Esse mensageiro chegar antes de mim. O homem dir-lhe- que ignore a minha histria e que se recuse a entregar-me
a rapariga. Tens de interceptar esse mensageiro.

#A sua boca transformou-se nesse instante numa linha fina e dura.
- Juro-te, Ulisses, que sers o nico a falar com Clitemenestra. Fiquei satisfeito. Por Helena, Menelau seria capaz de fazer tudo.
A minha misso no poderia ter sido mais fcil. Clitemenestra ficou deliciada com o suposto casamento que Agammnon arranjara para a sua querida filha. Alm disso,
agradava-lhe o facto de Ifignia ir casar-se com um homem que estava prestes a embarcar para uma guerra no estrangeiro. Clitemenestra adorava Ifignia; o casamento
com Aquiles permitir-lhe-ia manter a rapariga perto de si at que Aquiles regressasse de Tria. Rejubilou o Palcio do Leo enquanto Clitemenestra tratava das bagagens
da filha sem a ajuda de nenhuma criada e a iniciava nos mistrios da vida das mulheres. Acompanhou a liteira de Ifignia at esta atravessar a Porta do Leo, enquanto
a sua filha mais velha, Cristemis, que ainda estava solteira, chorava de frustrao e inveja. Ao passo que Electra, a mais velha de todas, uma rplica magra, amarga
e muito pouco atraente do pai, assistia  partida do alto das muralhas, com o irmo Orestes, ainda beb, ao colo. Entre ela e a me no havia qualquer lao afectivo
- isso era bem visvel.
Quando a liteira parou na Porta do Leo, Clitemenestra afastou as cortinas e beijou a ampla testa branca de Ifignia. Tremi. A rainha suprema era uma mulher atreita
a amores e dios extremos; que faria ela quando soubesse a verdade (e acabaria por sab-la)? Se, um dia, Clitemenestra viesse a odiar Agammnon, o rei supremo teria
boas razes para temer a sua vingana.
Ordenei aos homens que conduzissem a liteira to rapidamente quanto possvel, ansioso como estava por chegar a ulida. Sempre que parvamos para descansar ou acampar,
Ifignia desatava a conversar comigo - que admirava imenso Aquiles, dizia ela, que o apreciara demoradamente, sem que ele desse por nada, no Palcio do Leo, que
se apaixonara perdidamente por ele, que seria maravilhoso casar-se com ele, porque esse era o desejo do seu corao.
Armara-me para no sentir pena dela, mas, por vezes, confesso que no era fcil; os seus olhos eram to inocentes, to felizes! Mas Ulisses era um homem mais forte
do que todos os outros naquela parte do ser que aos homens d resistncia e que os leva a vencer a adversidade.
Depois de a noite ter cado, ordenei que levassem a liteira, com as cortinas baixas, para o acampamento imperial. Sem mais demoras, conduzi Ifignia a uma pequena
tenda que ficava perto da do seu pai. Deixei-a com ele. Menelau ficou  porta, j que eu temia que a presena de Ifignia reduzisse a p a determinao de Agammnon.
Considerando que seria mais sensato no chamar a ateno dos reis e das suas tropas para a chegada de Ifignia, decidi no colocar nenhum guarda de sentinela  tenda
dela. A minha sentinela seria Menelau.
Captulo Dcimo Primeiro
Narrado Por Aquiles

Todos os dias,  chuva e ao frio, exercitava os meus soldados, aquecendo-os com trabalho duro. Outros chefes permitiriam que os seus homens mandriassem, mas os Mirmides
sabiam que eu no era desses. Adoravam as condies em que viviam, gostavam da disciplina rgida e sentiam-se superiores aos demais soldados, pois sabiam que eram
mais profissionais do que todos os outros.
No me dava sequer ao trabalho de comparecer no quartel-general imperial. Francamente, achava que no valia a pena. E quando surgiu a segunda lua, no mais do que
um pavio aceso no cu, todos ns comemos a pensar que a expedio a Tria no se concretizaria. Para dizer a verdade, contvamos j que, mais dia menos dia, surgisse
a ordem de desmobilizao.
Na primeira noite de lua cheia, Ptrocles saiu com jax, Teucro e o Pequeno jax. Eu tambm fora convidado, mas preferi declinar o convite, pois no estava com disposio
para frivolidades, quando tudo apontava para o ignominioso fim da grandiosa empresa. Por um bocado, toquei melodias na minha lira e cantei; depois, deixei-me arrastar
para uma espcie de inrcia sonolenta.
O rudo produzido por algum que entrara na minha tenda fez-me erguer a cabea. De sbito, vi uma mulher abrindo a porta da tenda, uma mulher que envergava um manto
hmido, fumegante. Fiquei perplexo a olhar para aquela viso, mal crendo no que os meus olhos viam. Ento, a mulher avanou, afastou a cortina da entrada, baixou
o capuz do manto e abanou a cabea para libertar a longa cabeleira de umas quantas gotas de chuva.
- Aquiles! - exclamou ela, os olhos brilhando como mbar acastanhado.
- Eu vi-te em Micenas quando espreitei pela porta atrs do trono do meu pai! Oh, estou to feliz!
Por essa altura, j eu me tinha levantado; porm, continuava boquiaberto de espanto.

#A jovem no tinha mais de quinze ou dezasseis anos: cheguei a essa concluso ainda antes de ela ter despido o manto e de me ter mostrado uma pele que fazia lembrar
um mrmore leitoso tenuemente percorrido por veios e dois ndios seios. A boca era de um suave rosa e meigamente encurvada, o cabelo era da cor do fogo mais brilhante.
To viva era ela que o ar  sua volta parecia quebrar-se; havia um fresco riso no seu rosto e uma fora oculta sob a sua extrema juventude.
-A minha me nem precisou de convencer-me - prosseguiu ela, j que eu nada dizia. - No consegui esperar at amanh para te dizer quo feliz me sinto!
Era contigo que Ifignia queria casar-se!
Senti um estranho sobressalto. Ifignia ?A nica Ifignia que eu conhecia era a filha de Agammnon e Clitemenestra! Mas que estranha conversa era aquela? Por quem
me teria ela tomado? Continuei de olhos fixos nela como um idiota chapado, sem dizer nada, como se me tivesse esquecido de todas as palavras do mundo.
O meu silncio e o puro espanto do meu rosto acabaram por transformar a expresso da jovem: um prazer ardente dava agora lugar a uma ansiedade prenhe de incertezas.
- Que fazes tu em ulida? - consegui finalmente dizer. Nesse preciso instante, Ptrocles entrou, viu-nos e parou.
- Uma visita, Aquiles? - Piscou-me o olho. - Eu vou-me embora.
Atravessei rapidamente o espao que nos separava e segurei-o pelo brao.
- Ptrocles, a rapariga diz que  Ifignia! - murmurei. - Deve ser a filha de Agammnon! E, pelo que diz, pensa que eu mandei um mensageiro a Micenas e que a pedi
em casamento!
- Por todos os deuses! - exclamou Ptrocles, agora muito pouco divertido. - Ser uma conspirao para te desacreditarem? Um teste  tua lealdade?
- No sei.
- E se a levssemos para a tenda do pai? Mais calmo agora, ponderei uma tal hiptese.
- No.  bvio que ela se escapuliu da sua tenda. Ningum sabe que ela est aqui. Vamos fazer o seguinte: eu detenho-a na minha tenda, enquanto tu espias a tenda
de Agammnon, procurando saber o que se passa. Tens de ser quase to rpido como o relmpago.
Ptrocles desapareceu nesse mesmo instante.
- Senta-te, Ifignia - disse eu para a visitante, e logo me deixei cair numa cadeira. - Posso oferecer-te gua? Bolos?
No me respondeu. Um momento depois, j estava sentada no meu colo, os braos enroscados no meu pescoo, a cabea encostada ao meu ombro. Inclinei-me um pouco com
a inteno de a levantar, mas os meus olhos detiveram-se nos tumultuosos caracis da sua cabeleira e logo mudei de ideias. Era uma criana - e estava apaixonada
por mim. Aos olhos dela, eu era velho: uma sensao nova para mim. H cerca de meio ano que no via Deidamia e aquela rapariga despertava em mim emoes muito diferentes.
A minha preguiosa e convencida esposa tinha mais sete anos do que eu - fora ela quem me cortejara, no eu. Para um rapazito de treze anos, que acabava de despertar
para as funes sexuais do seu corpo, ser iniciado por uma mulher mais velha era maravilhoso. Agora, dava comigo muitas vezes a perguntar-me o que sentiria por Deidamia
quando regressasse de Tria, pois deixaria de ser um rapaz para passar a ser um homem endurecido pela guerra. Ah, era to agradvel ter Ifignia nos meus braos,
sentir no os perfumes que as mulheres mais velhas usavam, mas sim o doce e natural odor da juventude!
Sorridente e satisfeita, ergueu a cabea para me fitar; depois, voltou a pous-la no meu ombro. Senti os seus lbios acariciando-me a garganta; os seios, colados
ao meu peito, queimavam como brasas. Ptrocles, Ptrocles, despacha-te! Depois, disse-me palavras que no consegui ouvir; afaguei-lhe a densa cabeleira cor de fogo
e ergui-lhe a cabea para que pudesse ver o seu rosto encantador.
- Que disseste? - perguntei. Ela corou.
- S perguntei se no me ias beijar. Fiquei aflito.
- No. Olha para a minha boca, Ifignia. A minha boca no foi feita para beijar. S pode beijar quem tem lbios.
- Ento, deixa-me beijar-te todo. Deveria t-la afastado de mim nesse exacto momento, mas no consegui. Em vez disso, deixei que os seus lbios, to suaves como
as penas de um cisne, vagueassem pelo meu rosto, roassem as minhas plpebras fechadas, se aninhassem no meu pescoo, onde os nervos tm sobre o corao de um homem
uma aco mgica, pois pem-no a martelar desordenadamente. Ansiando estreit-la contra mim at que ela pedisse trguas para respirar, tive de lutar contra mim mesmo
para lhe ordenar que parasse e para a olhar nos olhos com o ar mais srio deste mundo.
- J chega, Ifignia. Deixa-te estar quieta agora. - E mantive-a quieta at que, finalmente, Ptrocles chegou.
O meu amigo permaneceu  porta. Os seus olhos escarninhos interrogavam-me. AfaStei dela os meus braos e ergui-os no ar, dividido entre o riso e a irritao. No
era costume de Ptrocles troar de mim. Com suaves afagos, fi-la sair do meu colo e sentei-a na cadeira. No rosto de Ptrocles, no havia j sinal de troa; pelo
contrrio, havia sombras e muita fria no seu rosto. Quando me abeirei dele, disse-me que s falaria quando tivesse a certeza de que ela no conseguiria ouvir.

#- Congeminaram uma bela conspirao, Aquiles.
- Era o que eu pensava. Que conspirao?
- Tive sorte, Aquiles. Agammnon e Calcas estavam sozinhos na tenda do rei supremo. Consegui esconder-me e ouvir quase tudo o que diziam. - Respirou fundo. Tremia.
-Aquiles, eles usaram o teu nome para convencerem Clitemenestra a deixar partir a filha! Disseram-lhe que tu querias casar com Ifignia antes de partirmos para Tria.
Mas a realidade  bem diferente: amanh, Ifignia vai ser sacrificada a rtemis, a fim de expiar um qualquer delito - no sei qual - que Agammnon cometeu contra
a deusa.
A raiva  algo que todos os homens sentem, embora alguns mais do que outros. No me imaginava presa fcil dessa emoo, mas a verdade  que, logo que Ptrocles terminou,
senti-me invadido por uma to grande raiva que, de um momento para o outro, esqueci tudo o que me haviam ensinado sobre bom senso, tica, princpios ou decncia.
Os deuses no Olimpo deviam ter tremido. A minha boca pareceu desligar-se dos meus dentes e todo o meu corpo se agitava como se o sortilgio tivesse voltado a atormentar-me.
Estou certo de que, se Ptrocles no me tivesse agarrado com uma fora que lhe desconhecia, teria corrido naquele mesmo instante  tenda de Agammnon e cortado ao
meio o rei supremo e o sacerdote com o meu machado!
- Aquiles, pensa! - disse-me ele muito baixinho. - Pensa! Crs que ficars a ganhar se os matares? O sangue deles  preciso para que a frota parta! Pelo que pude
ouvir, pareceu-me evidente que o nosso rei supremo s tomou esta deciso depois de ter sido muito atormentado e intimidado!
Cerrei com tanta fora os punhos que consegui libertar-me dele.
- Ests  espera de que eu me limite a assistir a tudo e a aplaudir? Eles usaram o meu nome para perpetuarem um crime que  proibido pela Nova Religio! Um crime
brbaro! Um crime que empesta o prprio ar que respiramos! E, alm disso, usaram o meu nome! -Abanei-o tanto que os seus dentes comearam a bater uns nos outros.
- Repara na pobre rapariga, Ptrocles! Sers capaz de ficar parado e de assistir ao seu sacrifcio como se ela fosse um cordeiro?
- No, tu no me entendeste, Aquiles! - disse ele, aflito. - O que eu queria dizer era que deveramos examinar o caso com a cabea fria, e no com a fria que sempre
cega os homens! Aquiles, pensa! Pensa!
Tentei pensar. Lutei contra mim mesmo para pensar. O demnio da loucura fervia dentro de mim com tal violncia que, para o dominar, quase me matava. At que, por
entre a confuso, a lgica, com passos titubeantes, regressou ao meu esprito. Tnhamos de engan-los! Haveria por certo uma maneira de os enganarmos! As minhas
mos envolveram as mos de Ptrocles.
- Ptrocles: serias capaz de fazer qualquer coisa que eu te pedisse?
- Qualquer coisa, Aquiles. Tudo.
- Ento, procura Automedonte e Alquimos. Podemos confiar sempre neles, seja qual for a empresa: eles so Mirmides. Diz a Alquimos que tem de encontrar um veado
ainda novo e de pintar os seus chifres de ouro. Ter de ter o animal amanh de manh, bem cedo! Podes confiar inteiramente em Automedonte. Tu e ele devem esconder-se
atrs do altar antes de o sacrifcio comear. Ters o veado contigo, preso a uma corrente de ouro. Calcas costuma usar imenso fumo nos seus rituais. Quando Ifignia
estiver no altar e as nuvens de fumo se tornarem muito espessas - o sacerdote s lhe cortar a garganta se o fumo impedir Agammnon de ver - retira a rapariga do
altar e deixa o veado no seu lugar. Calcas, como  evidente, perceber que algum o enganou. Mas Calcas gosta de estar vivo. No dir que houve ali mo humana: dir
apenas que se trata de um milagre!
- Sim,  capaz de resultar... Mas diz-me: depois de a termos tirado do altar, o que  que fazemos? - H um pequeno esconderijo atrs do altar: o local onde costumam
guardar a vtima. Esconde-a a at todos partirem. Depois, tr-la para a minha tenda. Mand-la-ei para a me, com uma mensagem explicando tudo o que se passou. Conseguirs
fazer o que te peo?
- Sim, Aquiles. E tu? Que vais tu fazer?
- H muito que no assisto aos augrios de Calcas, mas, amanh, chegarei a tempo para assistir  cerimnia. Por ora, mand-la-ei de volta para a sua tenda. No sei
como  que ela veio para aqui sem ningum dar por ela, mas  absolutamente necessrio que ela regresse  sua tenda sem que ningum a veja. Eu prprio a levarei.
- Talvez a tivessem deixado vir - disse Ptrocles.
- No. Nunca permitiriam que ela passasse comigo tempo suficiente para perder a virgindade. rtemis gosta de virgens.
Ptrocles franziu o sobrolho.
- Aquiles, no seria melhor se a mandssemos de volta para a me imediatamente?
- No posso, Ptrocles. Isso implicaria uma confrontao aberta com Agammnon. Se tudo correr bem amanh no sacrifcio, teremos partido para Tria antes de Clitemenestra
estar a par de tudo.
-Acreditas ento que a morte de Ifignia  necessria para que o tempo melhore? - perguntou ele num tom muito peculiar.
-No. Creio que o tempo melhorar por si mesmo dentro de um ou dois dias. Ptrocles, eu no me atrevo a correr o risco de uma confrontao aberta com Agammnon.
Ser possvel que no entendas? Eu quero estar presente em Tria!

#- Sim, eu entendo. - Encolheu os ombros. - Bom, tenho de ir. O pobre Alquimos morrer de susto quando eu lhe disser que tem de encontrar um veado novo! Ficarei
com Automedonte o resto da noite. Se no receberes nenhuma mensagem dizendo que o plano correu mal, podes estar certo de que amanh, ao meio-dia em ponto, estaremos
atrs do altar!
- ptimo. Furtivamente, Ptrocles saiu para a noite chuvosa. Ifignia tinha estado a ver-nos, os olhos muito abertos.
- Quem era? - perguntou ela, curiosa.
- O meu primo Ptrocles. H problemas com os homens.
- Ah. - Pensou um pouco e disse: -  muito parecido contigo. Mas os olhos dele so azuis. E  mais pequeno.
- E tem lbios. Ela riu-se.
- Isso torna-o um homem igual aos outros. Eu gosto da tua boca tal e qual como ela , Aquiles.
Peguei nela, obrigando-a a levantar-se.
- Agora tens de ir para a tua tenda, antes que algum descubra a tua escapadela.
- Ainda no - disse ela, com um ar sedutor, afagando-me o brao.
- Imediatamente, Ifignia.
- Ns casamo-nos amanh. Porque  que no me deixas passar contigo a noite?
- Porque tu s filha do supremo rei de Micenas e a filha do supremo rei de Micenas tem de se casar virgem. A sacerdotisa confirmar essa virgindade antes do casamento.
E depois, eu terei de mostrar os lenis do tlamo nupcial para provar que sou teu marido em todos os aspectos - disse eu firmemente.
Ela fez beicinho.
- Mas eu no quero ir!
- Queiras ou no queiras, ters de ir, Ifignia. - Envolvi-lhe o rosto nas minhas mos. - Antes de eu te levar para a tenda, quero que me prometas uma coisa.
- A ti prometo tudo - disse ela, sorridente, animada.
- No contes ao teu pai, nem a qualquer outra pessoa, que vieste ver-me. Se contares, desconfiaro da tua virgindade.
Ela sorriu.
- S mais uma noite, ento! Acho que consigo suportar. Leva-me para a minha tenda, Aquiles.
Ptrocles no me mandou nenhuma mensagem dizendo que havia problemas. Muito antes do meio-dia, vesti a minha armadura, aquela que o meu pai me dera e que provinha
do tesouro de Minos, e encaminhei-me para o altar sob o pltano. Tudo parecia correr bem; suspirei de alvio. Ptrocles e Automedonte j deviam estar a postos.
Oh, as expresses dos reis quando me viram! Ulisses deu imediatamente o brao a Agammnon, Nestor encolheu-se entre Diomedes e Menelau, ao passo que Idomeneu parecia
atemorizado e constrangido. Era bvio: todos eles estavam envolvidos naquilo. Saudei-os muito informalmente e deambulei um pouco pelo recinto, como se estivesse
ali por mero acaso. Atrs de ns, ouviu-se o som de passos na erva encharcada; Ulisses encolheu os ombros, apercebendo-se de que j no havia tempo para me convencerem
a partir. No que eu adivinhasse os seus pensamentos. Em Ulisses, a prpria simpatia e normalidade eram resultado da sua subtileza. O homem mais perigoso do mundo.
Ruivo e canhoto: claros indcios do mal.
Como que movido por uma vaga curiosidade, virei-me para ver Ifignia abeirando-se lenta e orgulhosamente do altar, o queixo bem erguido; porm, uma tremura ocasional
dos lbios traa o profundo terror que lhe ia na alma. Quando me viu, recuou como se eu tivesse feito meno de lhe bater; fitei as janelas dos seus olhos e vi esfumarem-se
as suas derradeiras esperanas. O choque transformou-se em ira, uma emoo amarga e corrosiva que nada tinha a ver com o tipo de raiva que eu sentira quando Ptrocles
me revelara a conspirao. Ela odiava-me, ela abominava-me, ela fitava-me tal e qual como a minha me. Enquanto os meus olhos imperturbveis se viravam para o altar,
ansiando pelo momento em que pudesse explicar-lhe tudo.
Diomedes juntara-se a Ulisses. De facto, ajudavam Agammnon a manter-se de p, os braos sob as axilas dele. As feies do rei supremo eram um lmpido espelho do
horror que sentia, o seu rosto ganhara uma lividez cadavrica. Calcas empurrou Ifignia, espetando-lhe um dedo nas costas. A filha de Agammnon no vinha acorrentada.
Podia imaginar o desprezo que sentia por eles - ela era a filha de Agammnon e Clitemenestra e o seu orgulho era uma fortaleza inexpugnvel.
Aos ps do altar, virou-se para nos olhar e era apenas desprezo o que havia nos seus olhos; depois, subiu os poucos degraus e, com um movimento suave, deitou-se
sobre a mesa, as mos juntas sob os seios, o perfil delineado contra o mar lgubre, alteroso. No chovera nessa manh; o leito de mrmore da morte estava seco.
Calcas atirou um sortido de substncias pulverizadas para as chamas que se erguiam em trs trpodes colocados em torno do altar; nuvens de fumo verde e outras de
fumo to amarelo como a blis ergueram-se imediatamente, espalhando um fedor insuportvel a enxofre e putrefaco. Empunhando uma grande faca ornamentada com jias,
Calcas desatou a andar de um lado para o outro como um enorme e obsceno morcego. Quando o seu brao se ergueu e a faca faiscou, permaneci to imvel como uma esttua,
horrorizado e, no entanto, fascinado. A cin-

#tilao da lmina deslocou-se ento para baixo; nuvens de fumo engoliram o sacerdote, eclipsaram-no. Algum gritou, um grito estridente, gorgolejante, que logo
se transformou num estertor. Os corpos dos presentes pareciam ter-se transformado em pedra. Ento, uma rajada de vento varreu a fumarada. Ifignia jazia no altar,
o sangue correndo por um sulco que havia no mrmore, deslizando a caminho de uma enorme taa que Calcas segurava.
Agammnon desatou a vomitar. At mesmo Ulisses se sentiu nauseado com o miservel espectculo. Mas eu no conseguia desprender os meus olhos de Ifignia, daquele
corpo que a morte levara. A minha boca abriu-se num nico uivo de tortura. A loucura inundou-me as veias. A minha espada estava j na minha mo quando corri para
Agammnon; se Ulisses e Diomedes no estivessem ali para o proteger, t-lo-ia degolado num pice; o vomitado escorria-lhe agora pela barba que tantos cuidados lhe
merecia. Deixaram-no cair como uma pedra para me deterem; desesperados, procuravam arrancar-me a espada, mas eu obrigava-os a danar  minha volta como se eles no
fossem mais do que tteres. Idomeneu e Menelau correram a ajud-los; at o velho Nestor avanou trpego para o meio da rixa. Por fim, os cinco conseguiram agarrar-me
e deitar-me no cho. O meu rosto ficou a uma escassa distncia do de Agammnon. Amaldioei-o at que a minha voz se transformou num mero grito. De sbito, porm,
toda a minha fora se escoou. Desatei a chorar. S assim conseguiram arrancar a espada s garras dos meus dedos. Por fim, ergueram-nos aos dois do cho.
- Usaste o meu nome para cometeres este crime hediondo, Agammnon! exclamei, o rosto lavado em lgrimas, o corao j sem raiva mas impregnado do dio mais profundo.
- Permitiste que a tua filha fosse sacrificada! E para qu? Apenas para satisfazeres o teu orgulho! Com este crime, o rei supremo transformou-se, aos meus olhos,
no mais vil dos escravos! No s melhor do que eu. No entanto, eu sou pior do que tu. Se no tivesse cedido  minha ambio, poderia ter impedido que isto acontecesse.
Mas ouve bem o que te digo, rei dos reis! Vou enviar uma mensagem a Clitemenestra, informando-a do que se passou aqui. No pouparei ningum - e muito menos eu prprio!
A nossa honra foi irremediavelmente maculada. Este crime , para todos ns, uma maldio!
- Eu tentei impedir que isto acontecesse... - protestou o descorooado Agammnon. - Mandei uma mensagem a Clitemenestra, mas o mensageiro foi assassinado. Eu tentei,
Aquiles, eu tentei... Ao longo de dezasseis anos, tentei impedir que este dia chegasse. A culpa  dos deuses. Camos na sua armadilha.
Cuspi para os ps dele.
- No culpes os deuses pelos teus prprios erros, rei supremo! Ns  que somos fracos! Ns somos mortais!.
No sei como, cheguei  minha tenda; a primeira coisa para onde olhei foi a cadeira onde eu a abraara. Ptrocles estava sentado noutra e chorava. Quando me ouviu
entrar, pegou numa espada e ajoelhou diante de mim, estendendo-me a arma.
- Que  isto? - perguntei, sem saber se o meu corao suportaria novas angstias.
Com a ponta da espada encostada  garganta, Ptrocles oferecia-me o punho.
- Mata-me, Aquiles, mata-me! Eu tra-te! Eu manchei a tua honra!
- Eu prprio me tra, Ptrocles. Eu prprio manchei a minha honra.
- Mata-me! - implorou. Peguei na espada e atirei-a para o cho.
- No! - respondi-lhe.
- Eu mereo morrer!
- Todos ns merecemos morrer, mas no ser esse o nosso destino - disse eu, desapertando j as correias da minha couraa.
Ptrocles tratou de me ajudar: os hbitos no se perdem nunca, mesmo quando a dor nos despedaa o corao.
- Eu sou o nico culpado, Ptrocles. Ah, o meu orgulho e ambio ... ! Como pude deixar que a sorte dela ficasse dependente de fios to tnues, to finos? Comeava
j a am-la, teria casado com ela de bom grado. No teria qualquer pejo em divorciar-me de Deidamia - o meu casamento com ela mais no foi do que o resultado de
um astucioso plano tramado pelo meu pai e por Licomedes. Disseste-me que mandasse imediatamente Ifignia para o palcio da me. Um conselho sensato, Ptrocles. Eu
respondi-te que no porque no quis pr em perigo a minha posio neste exrcito. Dei ouvidos ao meu orgulho e  minha ambio, cedi  minha fraqueza.
Despira j toda a armadura. Ptrocles tratou de guard-la no seu ba. Um meu criado, do princpio ao fim.
- Que aconteceu afinal? - perguntei-lhe enquanto enchia de vinho os nossos copos.
- De incio, tudo correu bem - disse ele, sentando-se diante de mim. No foi difcil arranjar o veado. - Sombras percorreram os seus olhos, anunciando lgrimas.
- Mas decidi no partilhar a glria com Automedonte. Queria que todos os teus elogios fossem s para mim. Por isso, fui sozinho para trs do altar. De repente, porm,
o veado comeou a ficar agitado e desatou a balir. Tinha-me esquecido de o drogar! Se Automedonte estivesse comigo, teramos conseguido cal-lo. Mas eu estava sozinho
e no consegui domin-lo. Calcas, entretanto, descobriu-me. Ele  um guerreiro, Aquiles! Mal me viu, pegou no clice e deu-me uma pancada forte na cabea. Quando
recuperei os sentidos, estava atado de ps e mos e com um pano enfiado na boca.  por isso que quero que me mates. Se eu tivesse levado comigo Automedonte, o desfecho
teria sido outro.

#- Matar-te, Ptrocles, implicaria que me matasse a mim mesmo. So solues demasiado fceis... Temos de viver: s vivendo, poderemos cumprir inteiramente o nosso
castigo. Mortos, no sentiramos nada, seramos apenas sombras - e as sombras desconhecem tanto a dor como a alegria. No seria um castigo justo, Ptrocles - disse
eu, bebendo um vinho que me sabia a fel.
Ptrocles aquiesceu.
- Sim, eu compreendo. Enquanto for vivo, no poderei esquecer nunca os meus cimes. E tu, enquanto viveres, no poders esquecer nunca a tua ambio. Um destino
muito pior do que a morte.
Mas Ptrocles no vira o seu olhar, no vira o desprezo. No viveria a vida toda atormentado por esse olhar. Que pensamentos teriam desfilado pela sua mente entre
o momento em que lhe contaram a verdade e o momento em que a faca de Calcas encontrou a sua garganta? Que teria ela pensado de mim - daquele que fingira ser o seu
amado e que, depois, impiedosamente, a abandonara? A sombra de Ifignia perseguir-me-ia at ao fim dos meus dias. Que esse fim no tardasse!, era tudo o que eu pedia.
Que a minha vida fosse curta e gloriosa!
- Quando partimos para lolcos? - perguntou Ptrocles.
- Lolcos? Ns vamos partir, Ptrocles, mas para Tria.
- Depois disto?
- Tria  uma parte da minha punio. E Tria significa que no terei de enfrentar o meu pai, pois em Tria morrerei. Que pensaria ele de mim se soubesse do meu
miservel comportamento? Que os deuses o poupem a to grande desgosto!

Captulo Dcimo Segundo
Narrado por Agammnon

A noite ia j alta quando mandei que enterrassem a minha filha numa cova funda, sob um monte de rochas junto ao lgubre mar. Nada identificava a sua derradeira morada.
Nem na morte lhe dei eu um dote condigno, pois tudo o que Ifignia tinha para levar consigo era um belo vestido e o seu pequeno tesouro de jias de menina.
Aquiles prometera enviar uma mensagem  minha esposa, atribuindo-nos as culpas pela morte de Ifignia; podia tentar impedir que isso acontecesse; bastar-me-ia que
o meu mensageiro chegasse primeiro. No entanto, no conseguia encontrar as palavras necessrias, to-pouco um mensageiro. Os mensageiros em quem podia confiar iam
partir todos comigo. E no havia no mundo palavras capazes de atenuar o golpe que eu desferira em Clitemenestra. Haver porventura palavras capazes de mitigarem
o desgosto que  a perda de um filho? Se as h, no so por certo humanas. Por muito acesas que fossem as nossas divergncias, a minha esposa sempre me considerara
um grande homem - um homem digno de ser seu marido. Contudo, Clitemenestra era da Lacedemnia e, nessa nao, a influncia de Me Kubaba era ainda muito forte. Logo
que soubesse da morte de Ifignia, a rainha suprema tentaria reinstaurar a Velha Religio e substituir-me no trono. O poder passaria para as suas mos.
Nesse momento, lembrei-me de um membro da minha comitiva que poderia dispensar: o meu primo Egisto.A histria da nossa Casa - a Casa de Plops -  horrenda. O meu
pai, Atreu, e o pai de Egisto, Tiestes, disputaram o trono de Micenas aps a morte de Euristeu; Hracles deveria ter sido o herdeiro, mas foi assassinado. Muitos
crimes foram cometidos por causa do Trono do Leo de Micenas. O meu pai cometeu o mais horrvel desses crimes: matou os sobrinhos, cozinhou-os e serviu-os a Tiestes,
dizendo-lhe que era um prato digno de um rei. Mesmo sabendo isso, o povo escolheu Atreu

#como rei supremo, e baniu Tiestes. Egisto nasceu da unio de Tiestes com uma mulher pelpida. Uma mulher com quem Atreu se casaria depois. Tiestes procurou ento
fazer vingar a verso de que Egisto era filho de Atreu. Mas a triste histria no terminou a. Tiestes colaborou no assassnio de meu pai e voltou a sentar-se no
trono supremo: at ao momento em que, j adulto, o derrubei e bani.
No entanto, eu sempre gostara do meu primo Egisto, que era muito mais novo do que eu. Um homem bem-parecido e encantador com quem me dava melhor do que com o meu
prprio irmo, Menelau. Contudo, a minha esposa no gostava de Egisto, nem confiava nele, porque Egisto era filho de Tiestes e tinha legtimas pretenses a um trono
que, aos olhos de Clitemenestra, s poderia ser herdado por Orestes.Mandei-o chamar logo que decidi o que havia de lhe dizer. A sua situao na corte dependia inteiramente
de mim; da que lhe conviesse tudo fazer para me agradar. E foi assim que enviei Egisto ao palcio de Clitemenestra, perfeitamente industriado e carregado de presentes.
Ifignia estava morta, mas no fora eu quem dera a ordem. Ulisses planeara tudo - e executara. Ela acreditaria nisso.
- No estarei muito tempo longe da Grcia - disse eu a Egisto antes de ele partir -, mas  indispensvel que Clitemenestra no pea o apoio do povo para reinstaurar
a Velha Religio. Egisto, tu sers o meu co de guarda.
- rtemis sempre foi tua inimiga - disse ele, ajoelhando para me beijar a mo. - No te preocupes, Agammnon. Farei tudo o que for necessrio para controlar Clitemenestra.
- Pigarreou. - Claro que perderei os despojos de Tria. Continuarei to pobre como dantes.
- Ters o teu quinho dos despojos, Egisto - assegurei-lhe. - Agora vai.
Na manh a seguir ao sacrifcio, acordei de um sono que s o muito vinho pudera induzir e deparou-se-me um dia to claro como calmo. As nuvens e o vento tinham-se
dissipado durante a noite; s as gotas de gua que caam das abas das tendas falavam das vrias luas de tempestade que tivramos de suportar. Obriguei-me a agradecer
a cooperao de rtemis, mas nunca mais pediria ajuda  archeira. A minha querida filha estava morta e, na sua cova, no havia sequer uma estela que a arrancasse
ao anonimato. No conseguia olhar para o altar.
Fnix estava na minha tenda, desejoso de partir sem demora; considerava eu que deveria esperar mais um dia, no fosse a tempestade voltar.
- O tempo vai continuar bom por muito tempo - disse-me o velho Fnix, cheio de confiana nos elementos. - Os mares entre ulida e Tria permanecero to calmos como
leite numa tigela.
- Nesse caso - disse-lhe eu, lembrando-me de repente das crticas de Aquiles aos meus planos de abastecimento -, faremos uma oferenda a Poseidon e correremos o risco.
Entretanto, Fnix, quero os navios cheios de comida! Abastece-te nos campos prximos. Todos os alimentos que houver, tr-los para os navios.
Fnix pareceu espantado, mas logo ps um sorriso imenso.
-  para j, rei Agammnon,  para j! Aquiles perseguia-me. As suas maldies ecoavam na minha memria, o seu desprezo era uma espada cravada no meu peito. Por
que razo se culpava a si mesmo, era algo que eu no entendia; ele era to pouco capaz de desafiar os deuses como eu. Contudo, e ainda que no o desejasse, sentia
por ele admirao. Aquiles tivera a coragem de proclamar a sua culpa diante dos seus superiores. Daria tudo para que Ulisses e Diomedes no estivessem to preocupados
com a minha segurana. Daria tudo para que Aquiles me tivesse cortado a cabea diante do cadver da minha filha. Daria tudo para que a minha vida tivesse terminado
ali, naquele exacto momento.
Na manh seguinte, quando a primeira luz comeou a tingir de rosa o plido cu, a nau capitnia deslizou pela rampa rumo ao mar. Com as mos cravadas na amurada,
mantive-me na proa, sentindo-a mergulhar e tremer nas quietas guas. Finalmente a partida! Segui depois at  popa, onde os costados do navio pareciam erguer-se
num capuz e a carranca de Anfitrio tudo vigiava. Virei as costas aos remadores, satisfeito com o facto de o meu navio possuir uma coberta - os remadores sentavam-se
na coberta, deixando, desse modo, suficiente espao livre para a minha bagagem, para os meus criados, para o tesouro de guerra e para todos os equipamentos de que
um rei supremo precisava. Os meus cavalos estavam num cercado juntamente com mais uma dzia de outros, perto do stio onde me encontrava, e o mar corria suavemente
no muito abaixo da coberta. Era muito pesada a nossa carga.
Atrs de mim, grandes navios vermelhos e negros deslizavam nas guas como centopeias que tivessem remos em vez de pernas, rastejando ao longo da superfcie dos eternos
e implacveis abismos de Poseidon. Um total de mil e duzentos navios; oitenta mil guerreiros e vinte mil ajudantes de todo o tipo. Alguns dos navios levavam apenas
cavalos e remadores; ns somos um povo que usa os cavalos para puxarem os carros, tal como os Troianos. Continuava convencido de que a campanha seria breve, mas
tambm sabia que no veramos os fabulosos cavalos troianos enquanto Tria no casse.
Fascinado, contemplei a extraordinria cena; custava-me a crer que fosse minha a mo que ia ao leme daquela portentosa fora, que o rei supremo de Micenas viesse
realmente a ser o supremo rei do Imprio Grego. Mas nem um dcimo dos navios chegara ainda ao mar e j a nau capitnia atravessava o estreito de Eubeia

#e a praia, ao longe, parecia um ponto minsculo. Senti um panico momentneo, perguntando-me como  que uma to vasta frota conseguiria manter-se unida e coesa ao
longo das muitas lguas que nos separavam de Tria.
Contornmos a ilha Eubeia sob um sol escaldante, passmos entre Eubeia e Andros, e, enquanto o monte Oca se esbatia  popa, apanhmos as brisas que sempre sopram
no Egeu. Os remadores, aliviados e gratos, prenderam os remos aos suportes, uma multido de marinheiros rodeou o mastro e logo a vela escarlate de cabedal da nau
capitnia imperial ganhou vida, sob o impulso de um vento sudoeste, quente e suave.
Dei mais uma volta pela coberta, entre os bancos dos remadores, e subi os curtos degraus que conduziam  coberta de proa, onde fora construdo o meu camarote especial.
Na nossa esteira, muitos navios navegavam j a boa velocidade, vencendo as altas vagas que as suas proas bicudas transformavam em minsculas ondinhas. Pelos vistos,
no era assim to difcil mantermo-nos juntos; Tlefo encontrava-se no extremo da proa, virando de quando em quando a cabea para gritar instrues aos dois homens
que manobravam o leme e nos faziam seguir a rota previamente definida. A certa altura, Tlefo olhou-me com um imenso sorriso de satisfao.
- Excelente, rei supremo! Se o tempo se aguentar assim, conseguiremos manter esta velocidade. No precisaremos de aportar a Quios, nem a Lesbos. No demoraremos
muito a chegar a Tnedo.
Fiquei satisfeito com a informao. Tlefo era o melhor navegador de toda a Grcia, o nico homem que poderia levar-nos at Tria sem corrermos o risco de ficarmos
encalhados numa praia qualquer, longe do nosso destino. Tlefo era o nico homem a quem eu podia confiar os destinos daqueles mil e duzentos navios. Helena, disse
para mim mesmo, ser muito breve a tua liberdade! Antes que ds por isso, estars de regresso a Amiclas - e acredita que ser para mim um prazer imenso ordenar que
te cortem a tua bela cabea com o sagrado machado!
Os dias foram passando sem qualquer problema. Avistmos Quios, mas seguimos viagem. No precisvamos de reabastecimentos e o tempo estava to bom que nem Tlefo,
nem eu, queramos abusar da nossa boa sorte demorando-nos em terra. A costa da sia Menor encontrava-se agora praticamente  vista e Tlefo conhecia bem todos os
pontos de referncia indispensveis, pois subira e descera aquela costa centenas de vezes durante a sua longa carreira. Jubilosamente, chamou-me a ateno para a
vasta ilha de Lesbos, certo e seguro do seu rumo; virou ento a oeste, de modo a que, de terra, ningum nos visse. Os Troianos no saberiam que ns rumvamos a Tria.
Aportmos  zona sudoeste de Tnedo, uma ilha muito prxima do continente e de Tria, no dcimo primeiro dia depois de termos deixado ulida. No havia espao naquela
praia para tantos navios; o melhor que podamos fazer era deixrnos ficar fundeados o mais perto possvel da praia e fazer votos para que a clemncia do tempo se
mantivesse por mais uns dias. Tnedo era uma ilha frtil, mas eram poucos os seus habitantes e a razo para este facto era s uma: Tnedo ficava muito perto da cidade
que era considerada a maior do mundo. Quando nos viram, os Tenedenses concentraram-se na praia: os seus gestos de desamparo revelavam bem o terror que sentiam.
Abeirei-me de Tlefo e dei-lhe umas amistosas palmadinhas no ombro.
- Muito bem, piloto! Mereces um quinho principesco dos despojos! Inchado de triunfo, Tlefo desatou a rir-se, mas logo desceu a correr os degraus que conduziam
 meia-nau, onde, momentos depois, se viu rodeado pelos cento e trinta homens que haviam partido comigo.
Ao cair da noite, chegaram os ltimos navios da frota; todos os grandes chefes da Grcia vieram ter comigo ao meu quartel-general temporrio na cidade de Tnedo.
Havia j feito o mais importante: reunira todas as humanas criaturas que viviam na ilha e comunicara-lhes a proibio de se deslocarem a Tria. Pouco era o mar que
separava Tnedo de Tria e era preciso impedir que um tenedense mais afoito fosse informar o rei Pramo do que se passava na ilha. Quanto a mim, acreditava sinceramente
que os deuses estavam todos com a Grcia.
Na manh seguinte, fui at ao cimo das colinas que coroavam o centro da ilha; alguns dos reis foram comigo a fim de exercitarem as pernas, contentes por terem reencontrado
a solidez da terra. Ali estivemos no alto das colinas por um longo perodo, os mantos esvoaando ao sabor do vento, mirando as guas tranquilas e muito azuis que
nos separavam do continente e de Tria.
Daquela posio, at uns olhos velhos e cansados veriam Tria; devo confessar que, mal os meus olhos se fixaram na lendria cidade, um choque percorreu-me o corpo,
um choque de espanto e desolao. Claro que eu imaginara Tria de acordo com parmetros meus conhecidos: Micenas no cume do monte do Leo; o portentoso porto comercial
de lolcos; Corinto, erguendo-se dos dois lados do istmo; a fabulosa Atenas. Mas todas essas cidades eram insignificantes quando comparadas com Tria! Para alm de
se erguer imponente nas alturas, Tria espalhava-se por muitas e muitas lguas, como uma espcie de gigantesco zigurate, to vasto, to amplo, que seria difcil
descortinar os pormenores.
- Ento? - perguntei a Ulisses. Parecia absorto nos seus pensamentos, os olhos cinzentos fixos num ponto algures. Porm, ao ouvir a minha pergunta, como que despertou.
Virou-se para mim com um sorriso arreganhado e logo me respondeu:
- O meu conselho  este: faamos a travessia esta noite, a coberto da escurido; ao alvorecer, coloquemos o exrcito em ordem de batalha e ataquemos

#Pramo sem que ele o espere - antes que ele possa fechar as portas da cidade. Amanh  noite, rei supremo, Tria ser tua!.
Nestor desatou numa berraria indecifrvel, Diomedes e Filoctetes fitaram horrorizados Ulisses. Eu limitei-me a sorrir. Palamedes tambm, ainda que no seu sorriso
houvesse alguma ironia.
Nestor falou, poupando-me trabalho.
- Ulisses, Ulisses, ser possvel que no sejas capaz de distinguir entre o bem e o mal? - perguntou ele, indignado. - Tudo no mundo  governado por leis - incluindo
a guerra! E eu no participarei numa aventura em que as devidas formalidades no sejam cumpridas! Honra, Ulisses,  uma questo de honra! Onde est a honra nesse
teu plano? O fedor dos nossos nomes chegaria ao Olimpo! Ns no podemos infringir as leis! - Virou-se para mim. - No lhe ds ouvidos, Agammnon! As leis da guerra
so inequvocas. Temos de lhes obedecer!
- Acalma-te, Nestor: eu conheo as leis to bem como tu. - Segurei Ulisses pelos ombros e abanei-o ligeiramente. - Ulisses: no estavas  espera que eu desse ouvidos
a to mpio conselho, pois no?
A resposta dele comeou por ser uma boa gargalhada. E logo acrescentou:
- No, Agammnon, claro que no! Mas tu pediste-me uma opinio. E eu senti-me na obrigao de partilhar contigo um excelente fragmento da minha sabedoria. Se os
ouvidos  minha volta so surdos, para qu queixar-me? Eu no sou o supremo rei de Micenas. Sou apenas um dos teus sbditos leais - Ulisses, da rochosa taca, onde
um homem, se por acaso quiser sobreviver, ter, por vezes, de se esquecer de coisas como a honra. Eu disse-te como conquistar Tria num s dia
- e garanto-te que no h outra maneira. Porque h uma coisa que deves ter presente - se Pramo tiver oportunidade de fechar as suas portas, passars dez anos a
uivar s muralhas de Tria -, os dez anos que Calcas profetizou.
- Mas as muralhas podem ser escaladas e as portas derrubadas - contrapus.
- Podem? - Desatou de novo a rir-se e, de um momento para o outro, pareceu ficar muito longe de ns, imerso nos seus prprios pensamentos.
A sua mente era uma entidade prodigiosa; num pice, era capaz de captar a mais intrincada das verdades. Intimamente, eu sabia que o seu conselho fazia todo o sentido;
mas sabia tambm que, se o seguisse, ningum me seguiria. Se atendesse ao seu conselho, estaria a transgredir as leis de Zeus e da Nova Religio. Eram mpias as
ideias de Ulisses, mas ele conseguia sempre escapar  punio que tais ideias implicavam. Era isso que eu achava fascinante. Como explicar a sua impunidade? Claro
que se dizia que Palas Atena o amava a ele mais do que a qualquer outro homem e que intercedia sempre a favor de Aquiles junto do omnipotente Pai. Dizia-se que a
deusa o amava precisamente pela excelncia da sua mente.
-Algum ter de ir a Tria levar os smbolos da guerra a Pramo e exigir o regresso de Helena - disse eu.
Todos pareciam dispostos a fazer parte da delegao, mas eu j tinha feito a minha escolha.
- Menelau, tu s o marido de Helena. Ters de ir, evidentemente. Ulisses, tu e Palamedes iro tambm.
- E eu? - perguntou Nestor, francamente aborrecido.
-  Tu no vais, Nestor, porque eu preciso de ter por perto um dos meus conselheiros - disse eu, esperando que tal explicao soasse convincente. Se Nestor imaginasse
que eu pretendia proteg-lo de novas fadigas, desataria aos berros contra mim.  certo que me lanou um olhar desconfiado, mas creio que a longa viagem por mar devia
t-lo deixado realmente extenuado, pois no discutiu as minhas ordens.
Ulisses abandonou finalmente os seus estranhos devaneios.
- Rei Agammnon, se eu vou participar nesta misso, terei de te pedir um favor.  preciso que no haja o menor indcio de que as nossas tropas se encontram j aqui,
ocultas pelos montes centrais de Tnedo.  preciso que o velho Pramo fique com a impresso de que estamos ainda na Grcia, a prepararmo-nos para a guerra. A lei
obriga-nos apenas a notific-lo formalmente do estado de guerra antes de atacarmos. No temos de fazer rigorosamente mais nada. Alm disso, Menelau deveria exigir
uma indemnizao adequada para os danos psicolgicos que sofreu em consequncia do rapto da mulher. Creio que Menelau deveria exigir a Pramo a reabertura do Helesponto
aos nossos mercadores e a abolio dos embargos comerciais.
Aquiesci.
- Muito bem visto, Ulisses. Comemos a descer a encosta na direco da cidade; os mais jovens e enrgicos iam  minha frente, Ulisses e Filoctetes  frente de todos,
 conversa e  gargalhada como dois rapazes. Eram ambos homens excelentes, mas Filoctetes era melhor guerreiro do que Ulisses. O prprio Hercles, no seu leito de
morte, dera a Filoctetes o seu arco e flechas, apesar de Filoctetes ser ainda um rapazito.
Saltavam sobre tufos de erva, tonificados por aquele ar to lavado; Ulisses saltou bem alto sobre uma moita e bateu com os calcanhares um no outro para demonstrar
a sua agilidade. Filoctetes tratou de imit-lo, com pernas ligeiras e geis. Um momento depois, porm, deu um penetrante grito de alarme. O seu rosto contorcia-se
de dor; ajoelhou com uma das pernas, mantendo a outra estendida. Imaginando que teria partido a perna, corremos para o local. Ofegante, curvado, Filoctetes segurava
na perna estendida com ambas as mos. Ulisses pegara j na sua faca.

#- Que foi? - perguntou Nestor.
- Pisei uma serpente! - disse Filoctetes, com a voz entrecortada. Fiquei paralisado de medo. As serpentes mortferas eram raras na Grcia: uma espcie muito diversa
das cobras que ns tnhamos em casa e nos altares, cobras de que gostvamos e que honrvamos porque elas caavam toda a sorte de ratos.
Ulisses fez cortes profundos nos dois stios onde a serpente mordera; depois, baixou-se e colou os lbios aos cortes, sugando o que neles havia, ou seja, tanto o
sangue como o veneno. Depois, acenou para Diomedes.
- Diomedes, pega nele ao colo e leva-o a Macon. Leva-o o mais quieto possvel, para evitar que o veneno chegue aos rgos vitais. Meu amigo - disse ele para Filoctetes
-, tens de estar muito quieto. E anima-te: no te esqueas que Macon  filho de Asclpio. Ele saber o que fazer.
Diomedes seguiu  nossa frente, levando a pesada carga como se Filoctetes mais no fosse do que uma criana pequena; corria suave e facilmente, o que no era para
mim uma novidade, pois j o vira correr assim com a armadura completa vestida.
Claro que fomos imediatamente para a tenda dos cirurgies. Dera uma boa tenda a Macon e ao seu irmo, o tmido Podalrio; os homens adoecem mesmo antes de as guerras
comearem. Filoctetes estava deitado num div, os olhos fechados, a respirao convertida num estertor.
- Quem tratou a mordidela? - perguntou Macon.
- Fui eu - respondeu Ulisses.
- Fizeste muito bem, Ulisses de taca. Se no tivesses agido de modo       to expedito, Filoctetes teria tido morte imediata. Mesmo agora poder morrer. O veneno
deve ser extremamente letal. Filoctetes j teve quatro convulses e pus-lhe a mo sobre o corao e senti uma arritmia ntida.
- Quando poderemos saber qualquer coisa? - perguntei. Tal como todos os fsicos, tambm Macon detestava os prognsticos fatais. Abanou a cabea e respondeu-me:
- No fao ideia, rei Agammnon. Algum apanhou a serpente - ou viu-a, pelo menos?
Abanmos as nossas cabeas.
- Nesse caso,  impossvel prever um desfecho.
No dia seguinte, a delegao partiu para Tria, num grande navio com a coberta na maior desordem, a fim de que os Troianos pensassem que a embarcao acabara de
fazer a longa viagem desde a Grcia sem qualquer companhia. Ficmos calmamente a aguardar o seu regresso. Mantnhamo-nos to silenciosos quanto possvel, evitvamos
que o fumo das nossas fogueiras se erguesse mais alto do que as colinas, enfim, fazamos tudo o que cramos necessrio para que a nossa presena no fosse detectada
por eventuais vigilantes postados no continente. Os Tenedenses no nos causavam o menor problema: estavam ainda aturdidos com a magnificncia da frota que, inopinadamente,
aportara s suas praias.
Pouco falava com os chefes jovens. Haviam eleito Aquiles como seu chefe
- para eles, o exemplo a seguir era Aquiles, no Agammnon. O filho de Peleu evitava-me desde o dia em que Ifignia morrera. Vira-o mais de uma vez, mas ele fingira
no dar por mim e seguira o seu caminho. Quanto aos mtodos que seguia com os Mirmides, s um cego no daria por eles: Aquiles no perdia tempo e no os deixava
preguiar, ao contrrio do que sucedia com o resto do exrcito. Treinava-os e exercitava-os todos os dias; aqueles sete mil soldados eram os homens mais capazes
e resistentes que jamais vira. Ficara um pouco surpreendido ao saber que Aquiles trouxera apenas sete mil mirmides, mas percebia agora que Peleu e o filho haviam
preferido a qualidade  quantidade. Nenhum daqueles soldados tinha mais de vinte anos e todos eles eram profissionais e no voluntrios (e os voluntrios, como era
sabido, estavam mais habituados a lavrar a terra e a colher as uvas do que a manejar armas). Nenhum daqueles homens - diziam os rumores - era casado. Uma medida
muito inteligente. S os jovens sem mulher nem filhos correm para o fragor da batalha sem cuidarem do seu destino.
Sete dias depois de ter partido, a delegao regressou. O navio chegou  praia j era noite e os meus trs embaixadores seguiram imediatamente para a minha tenda.
Diziam-me os seus rostos que a misso fora mal sucedida. Esperei contudo por Nestor para ouvir o que me tinham a dizer. Quanto a Idomeneu, no havia necessidade
de o convocar.
- Recusaram-se a entregar-nos Helena, Agammnon! - disse o meu irmo, dando um murro na mesa.
- Acalma-te, Menelau! No estava  espera de que isso acontecesse. Mas digam-me: o que  que se passou? Algum viu Helena?
- No. Mantm-na escondida. Fomos escoltados at  cidadela - eles conheciam-me da minha anterior visita. At em Sigeu me reconheceram. Pramo estava sentado no
trono e perguntou-me o que queria eu desta vez. Respondi-lhe que queria Helena e ele desatou a rir-se na minha cara! Ah, se o biltre do filho dele l estivesse,
podem crer que o teria morto ali mesmo! - Sentou-se, as mos cobrindo o rosto.
- Matavas o biltre do filho dele e depois matavam-te a ti. Prossegue.
- Pramo disse que Helena fora para Tria de sua livre vontade, que no pretendia regressar  Grcia, que considerava Pris seu marido e que preferia manter o seu
tesouro em Tria, pois o tesouro impediria que ela se transformasse numa carga financeira para o seu novo pas. Chegou mesmo a insinuar que eu usurpara

#o trono da Lacedemnia! Disse que, depois de os irmos de Helena, Castor e Plux, terem morrido, ela  que deveria ter subido ao trono! Ela  que era filha de Tndaro!
Ao passo que eu, disse ele, eu no passava de um ttere nas mos de Micenas!
- Sim senhor... - disse Nestor, com um risinho. - Pelos vistos, mesmo que tivesse preferido ficar contigo em Amiclas, Helena acabaria por conspirar contra ti.
O meu irmo virou-se para o velho com um ar feroz. Bati com o basto no cho e ordenei:
- Prossegue, Menelau!
- Entreguei ento a Pramo a tabuinha vermelha com o smbolo de Ares e ele ps-se a olhar para aquilo como se nunca tivesse visto nada de parecido em toda a sua
vida. A mo dele tremia tanto que a tabuinha caiu ao cho e partiu-se. Um sobressalto percorreu a sala. Depois, Heitor pegou nos pedacinhos da tbua e levou-os dali
para fora.
Tudo isso se deve ter passado h j uns dias. Porque  que no voltaram logo? - perguntei.
Menelau baixou a cabea e no me respondeu. Tanto eu como Nestor ficmos logo a saber a razo da demora: Menelau retardara a partida, na esperana de ver Helena.
- No contaste como terminou essa primeira audincia - disse Palamedes.
- Conto j, se me deixarem! - atirou-lhe Menelau. - O filho mais velho de Pramo, Defobo, rogou em pblico ao pai que nos matasse. Depois, Antenor avanou para
o estrado e ofereceu-nos alojamento. Invocou Zeus Hospitaleiro e proibiu todos os Troianos de nos tocarem com um s dedo que fosse.
-  Uma reaco interessante, tanto mais que Antenor  da Dardnia. Afaguei Menelau, procurando aliviar-lhe o sofrimento. - Anima-te, irmo! Em breve sers vingado.
V, agora vai deitar-te.
S quando Nestor e eu ficmos a ss com Ulisses e Palamedes  que descobri aquilo que realmente queria saber. Menelau fora o nico que alguma vez estivera em Tria;
porm, durante o ano em que nos preparmos para a guerra, o meu irmo no conseguira fornecer-nos uma nica informao minimamente til. Qual era a altura das muralhas?
Eram muito altas, dizia ele. De quantos homens poderia Pramo dispor? De muitos. Eram firmes os laos que uniam Tria s outras naes da sia Menor? Muito firmes.
Fora uma misso quase to impossvel como tentar obter informaes junto de Calcas, ainda que o meu irmo no pudesse usar a desculpa do sacerdote -  que, segundo
Calcas, Apolo tinha-lhe atado a lngua.
- Temos de ser rpidos, Agammnon - disse Palamedes.
- Porqu?
- Tria  uma cidade curiosa, dominada por homens inteligentes e idiotas em igual nmero. Ambos podem ser perigosos. Pramo  uma mistura de inteligncia e idiotia.
Entre os seus conselheiros, Antenor e um jovem chamado Polidamas so aqueles que me merecem maior respeito. O filho que Menelau referiu, Defobo, no passa de um
fanfarro. Contudo, no  ele o herdeiro. A sua posio  to importante como a de qualquer outro dos filhos imperiais - os filhos de Pramo e de Hcuba.
- Mas devia ser ele o herdeiro, visto que  o mais velho.
- Pramo foi, na sua juventude, um bode insacivel. Gaba-se de ter cinquenta filhos, um nmero verdadeiramente incrvel - filhos da rainha, das outras esposas, das
muitas concubinas. Quanto a filhas, parece que tem mais de cem - disse-me ele que a sua semente faz mais raparigas do que rapazes. Perguntei-lhe por que no abandonara
algumas das raparigas. Desatou a rir-se e disse-me que as mais belas davam boas esposas para os seus aliados, ao passo que as feias teciam tecido suficiente para
manter o magnfico aspecto do palcio.
- Como  o palcio?
-  Enorme, Agammnon. To grande, quer-me parecer, como a velha Casa de Minos em Cnossos. Cada um dos filhos casados de Pramo dispe de aposentos privados e vivem
todos no maior dos luxos. H outros palcios no interior da cidadela. Antenor tem um, por exemplo. Tal como o herdeiro.
- Quem  o herdeiro afinal? Menelau mencionou Heitor, mas, muito naturalmente, pensei que ele fosse o mais velho.
- Heitor  um dos filhos mais novos da rainha Hcuba. Estava presente quando chegmos, mas pouco tempo ficou, pois tinha uma misso urgente na Frgia. Devo dizer
que ele pediu ao pai que o substitusse nessa misso, mas Pramo no acedeu aos seus pedidos. Como  Heitor que chefia o exrcito de Tria, os soldados troianos
no dispem, por ora, de um comandante-chefe. O que me leva a concluir que Heitor  mais inteligente do que o pai.  jovem - no ter mais de vinte e cinco anos.
Um homem corpulento, enorme. Para dizer a verdade, fisicamente, no anda longe de Aquiles.
Virei-me para Ulisses, que afagava lentamente o rosto.
- E tu, Ulisses, que tens para me dizer?
- Quanto a Heitor, acrescentaria que os soldados e o povo adoram-no.
- Estou a ver: no limitaste as tuas actividades ao palcio, pois no?
- No. Palamedes tratou do palcio, eu da cidade. Um exerccio muito til e instrutivo. Tria  uma nao com muralhas, rei Agammnon. Duas sries de muralhas. As
que rodeiam a cidadela j so imponentes - mais altas do que as muralhas de Micenas ou Tirinte. Porm, as muralhas exteriores, aquelas que rodeiam toda a cidade,
so verdadeiramente gigantescas. Tria  uma cidade no verdadei-

#ro sentido da palavra, Agammnon. Toda a cidade se encontra dentro das muralhas exteriores e no dispersa pelos arredores, como acontece com as nossas. O povo no
precisa de fugir para dentro das muralhas quando um inimigo ataca, porque toda a gente vive dentro das muralhas. H muitas ruas estreitas e casas muito altas, a
que eles chamam edifcios de apartamentos, cada um dos quais alberga vrias dezenas de familias.
- Antenor disse-me - interrompeu Palamedes - que, segundo o ltimo censo, havia na cidade cento e setenta mil cidados. Tendo em conta esse nmero, julgo que Pramo
poderia mobilizar um exrcito de quarenta mil bons soldados, apenas dentro dos limites da cidade - ou cinquenta mil, se recorresse tambm aos homens mais velhos.
Pensando nos meus oitenta mil homens, sorri.
- No chegam para nos deter - disse.
- Chegam e sobram - disse Ulisses. - A cidade  quase uma circunferncia - de facto,  mais oblonga do que redonda - e tem um permetro de vrias lguas. As muralhas
externas so verdadeiramente fantsticas. Medi uma pedra usando como referncia a distncia que vai dos ossos do meu punho at ao cotovelo e contei depois as vrias
carreiras de pedras. Conclu que as muralhas tm uma altura de trinta cbitos e, na base, uma grossura de pelo menos vinte cbitos. So to velhas que ningum se
lembra quando foram construdas, nem porqu. Diz a lenda que esto amaldioadas e que tero de desaparecer da vista dos humanos para sempre, e tudo por causa do
pai de Pramo, Laomedonte. Mas duvido que desapaream da vista dos humanos devido ao nosso assalto. Apresentam uma ligeira inclinao e as pedras so regularmente
polidas. Ou seja, no servem para escalar, seja com escadas de corda, seja com arpus.
- Mas no h nas muralhas nenhum ponto fraco? - perguntei eu, dando-me conta do desnimo que se havia instalado. - Nenhuma muralha mais baixa? Ou as portas?
- H de facto um ponto fraco, Agammnon - mas creio que seria melhor no contarmos com ele. Uma seco das muralhas originais, no lado ocidental, ruiu devido, julgo
eu, ao mesmo terramoto que arrasou Creta. aco reparou a brecha e, a essa parte da muralha, os Troianos chamam agora a Cortina Ocidental. Tem cerca de quinhentos
passos de comprido e, em comparao com o resto da muralha, a sua construo  francamente grosseira. A pedra foi mal talhada, pelo que apresenta muitas frestas
e salincias, ptimas para os nossos arpus. Quanto s portas, existem apenas trs: uma que fica perto da Cortina Ocidental e a que chamam a Porta Ceia; outra, no
lado sul, chamada a Porta Dardaniana; e uma ltima, a nordeste, a que chamam a Porta Ida. Quanto a outras entradas, s escoadouros e condutas, que so muito fceis
de guardar, para alm de permitirem apenas a passagem de um homem de cada vez. As portas, devo acrescentar, so macias. Tm uma altura de vinte cbitos e so encimadas
pela passagem que corre ao longo do topo das muralhas exteriores e que permite uma rpida transferncia de tropas de uma seco para outra. As portas foram construdas
com toros reforados com pregos e chapas de bronze. Um arete, quando muito, f-las-ia apenas tremer. Em suma: se as portas no estiverem abertas, precisars de
um milagre para entrar em Tria.
Bom, Ulisses sempre fora pessimista e no era agora que se ia curar de tal doena.
- No percebo como  que os Troianos podero resistir a uma fora to portentosa como a nossa - disse-lhe eu.
Palamedes ps-se a examinar o vinho que tinha no copo e nem uma palavra disse; a disposio de Nestor tambm no era muito diferente. Ulisses prosseguiu.
- Agammnon - disse ele, com um ar extremamente srio -, se as portas de Tria permanecerem fechadas, os soldados deles chegaro perfeitamente para deter os nossos.
Quanto a escaladas, s vejo um stio possvel: a Cortina Ocidental. Mas a Cortina Ocidental tem apenas quinhentos passos de comprimento. Acredita no que digo: os
Troianos podero aguentar o cerco durante anos! Tudo depende de uma coisa - do facto de eles acreditarem ou no que nos encontramos ainda na Grcia. Mas bastar
que um dos seus barcos de pesca venha para este lado de Tnedo para que todos os nossos planos vo por gua abaixo. Julgo que ters de contar com uma campanha longa.
- De sbito, havia uma expresso maliciosa nos seus olhos. - Claro que poderias obrig-los a passar fome
- a fome seria uma arma decisiva.
Nestor ficou boquiaberto de indignao.
- Ulisses, Ulisses! - atacou ele. - Recomendas de novo que transgridamos as leis? Sabes qual seria o castigo para tal transgresso? A loucura! De um momento para
o outro, ficaramos todos loucos!
Impenitente como sempre, Ulisses meneou comicamente as ruivas sobrancelhas.
- Eu sei, Nestor. Porm, tanto quanto a minha mente consegue divisar, todas as normas da guerra parecem favorecer o inimigo.  pena, mas  assim mesmo. Em tais circunstncias,
creio que a fome dos Troianos faria todo o sentido.
De sbito cansado, levantei-me.
- No gostaria de ser um dos teus soldados, Ulisses, pois muitas seriam as Punies divinas que teria de sofrer por causa das tuas mpias aces. Vai deitar-te.
Amanh de manh, convocarei um conselho geral. Depois de amanh, partiremos ao alvorecer.
Quando se preparava para sair, Ulisses virou-se para mim.
- Como est Filoctetes? - perguntou-me.

#- Nenhuma esperana de recuperao.
- Lamento ouvir tal. Que vamos fazer com ele?
- Que podemos fazer, Ulisses? Ter de ficar aqui. Seria o cmulo da loucura lev-lo para o campo de batalha.
- Concordo que ele no pode vir connosco, Agammnon, mas penso que no deveramos deix-lo aqui. Mal viremos costas, os Tenedenses cortam-lhe a garganta. Manda-o
para Lesbos. Os Lesbianos so um povo mais culto e educado, no faro mal a um homem doente.
- Filoctetes no sobreviveria  viagem - protestou Nestor.
- Mesmo assim, seria o menor dos males.
- Tens razo, Ulisses - disse eu. - Ele ir para Lesbos.
- Agradeo-te muito, Agammnon. Vale a pena fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para salvar um homem como Filoctetes. - De sbito, Ulisses pareceu mais animado.
-Vou j ter com ele. Vou dizer-lhe que ir para Lesbos.
Ele no entenderia as tuas palavras, Ulisses. Est em coma h trs dias disse-lhe eu.

Captulo Dcimo Terceiro
Narrado por Aquiles

Calcas fez outra profecia. Por causa dessa profecia, Agammnon mudou de ideias: j no seria ele o primeiro dos reis gregos a pisar solo troiano; com efeito, segundo
o sacerdote, o primeiro rei que pisasse solo troiano morreria na primeira batalha. Olhei de relance para Ptrocles e encolhi os ombros. Se os deuses j' me tinham
condenado, porque haveria eu de preocupar-me? Cobrir-me-ia de glria, se fosse eu o eleito.
Foram finalmente dadas as ordens relativas  partida e ao desembarque. Sabamos em que altura deveramos manobrar na direco da praia e desembarcar os nossos homens.
Ptrocles e eu instalmo-nos na coberta de proa da minha nau capitnia, contemplando os navios que iam  nossa frente, muito menos do que aqueles que vinham atrs
de ns, pois ns, os de lolcos, seramos dos primeiros a chegar. A nau capitnia de Agammnon seguia em frente, com o imponente comboio de navios de Micenas  sua
esquerda e os navios de um dos reis vassalos do meu pai, Iolau de Flace,  sua direita. Eu vinha logo a seguir; atrs de mim, vinham jax e todos os demais.
Antes de partirmos, Agammnon indicou que no estava  espera de ser saudado por homens hostis empunhando armas; esperava poder atacar a cidade sem que houvesse
ainda em Tria uma oposio organizada.
Porm, naquele dia, os deuses no estavam connosco. Logo que o stimo navio do comboio de Agammnon contornou a ponta de Tnedo, grandes nuvens de fumo elevaram-se
no promontrio que flanqueava o porto de Sigeu. Os Troianos tinham sabido da nossa presena em Tnedo e estavam prontos para o ataque.
As nossas ordens diziam que devamos conquistar Sigeu e seguir imediatamente na direco da cidade. Mal o meu navio se fez ao estreito, pude ver as tropas troianas
colocando-se em ordem de combate ao longo da praia.

#At mesmo os ventos estavam contra ns. Tivemos de colher as velas e de usar os remos, o que implicava que metade dos nossos soldados chegariam  praia demasiado
cansados para combaterem em condies. Para cmulo do infortnio, as correntes vindas do Helesponto faziam-se sentir no mar alto. Tambm o mar estava contra ns.
Demormos uma manh inteira a percorrer a curta distncia que separava Tnedo do continente.
Com um sorriso amargo, reparei que a ordem de precedncia havia sido alterada; Iolau de Flace ia agora  frente de Agammnon; os seus quarenta navios seguiam a
uma escassa distncia da nau capitnia de Iolau e a poderosa frota do rei supremo vinha  sua esquerda. Como encararia Iolau o seu destino?, perguntei-me. Amaldio-lo-ia
ou receb-lo-ia de braos abertos? Para se saber quem pisaria primeiro solo troiano, procedera-se a uma eleio; e o eleito fora Iolau de Flace; segundo a profecia
de Calcas, Iolau morreria.
Mandava a honra que exigisse aos meus remadores um maior esforo; contudo, aconselhava a prudncia que poupasse os Mirmides, pois esperava-os uma batalha.
- Impossvel apanhar Iolau - disse Ptrocles, lendo os meus pensamentos. Deixa tudo nas mos dos deuses, Aquiles.
Aquela no era a minha primeira batalha, pois combatera vrias vezes ao lado de meu pai desde que abandonara o Plion e os ensinamentos de Quron; porm, essas campanhas
eram insignificantes, se comparadas com o que nos esperava na praia de Sigeu. Milhares e milhares de troianos - cada vez mais - encontravam-se j alinhados, preparados
para o combate, e os poucos navios que, no dia anterior, estavam na praia, haviam sido recolhidos e encontravam-se agora em terrenos situados para l da aldeia.
Quando toquei no brao de Ptrocles, senti que o meu amigo tremia; olhei para os meus braos: to firmes como o metal da minha espada.
- Ptrocles, vai  popa e chama Automedonte, que vem no navio imediatamente atrs do nosso. Diz-lhe que ordene aos seus timoneiros que diminuam ao mximo a distncia
que nos separa e que passe esta mensagem no apenas aos nossos navios, mas tambm a todos os outros. Quando a praia j estiver perto, pouco mais poderemos fazer
do que flutuar na gua e, portanto, os espores de uns no destruiro os cascos dos outros. Diz a Automedonte que os seus homens devero passar pela minha coberta
antes de chegarem  praia e que todos os outros devero fazer o mesmo. Caso contrrio, nunca conseguiremos ter em terra homens suficientes para impedir um massacre.
Ptrocles correu ao convs de r e fazendo com as mos uma taa  volta da boca, gritou as minhas instrues para o vigilante Automedonte, cuja armadura cintilava
ao sol enquanto respondia. O seu navio depressa se abeirou do nosso, ficando o seu esporo a escassa distncia do nosso costado. Os navios que conseguia ver estavam
a fazer o mesmo: tnhamo-nos transformado numa ponte flutuante. Entretanto, os meus homens haviam deixado os remos e tinham-se comeado a armar; o nosso mpeto chegaria
para nos levar para terra. Agora, havia apenas dez navios  minha frente, e o primeiro desses navios era o de Iolau.
O navio de Iolau mergulhou o esporo nos seixos da praia e, como que percorrido por uma convulso, deteve-se; por um momento, Iolau hesitou; depois, deu o grito
de guerra de Flace e correu para a parte central do navio. Desceu o costado com os seus soldados atrs dele; ao fim de pouco tempo, formavam j uma pequena multido
entoando os seus cnticos guerreiros. O inimigo, contudo, dispunha de muito mais soldados que Iolau - e os danos no tardaram. A certa altura, um corpulento guerreiro
com uma armadura de ouro desferiu em Iolau o golpe fatal; com uma violenta machadada, abriu-o ao meio.
Outros desembarcavam agora. Os navios  minha esquerda deslizavam rumo  praia e os seus homens saltavam das amuradas directamente para o fragor da batalha, incapazes
de esperarem pelas escadas. Atei as correias do meu elmo, enfiei a minha couraa de bronze revestida a ouro e endireitei-a, peguei no meu machado com ambas as mos.
Era uma bela arma, aquele machado; pertencera aos despojos de guerra de Minos, que o trouxera de uma campanha em terras estrangeiras; era muito maior e muito mais
pesado do que qualquer machado cretense. A espada roava-me a perna, mas a Velha Plion ficava no navio, pois de nada me serviria em combates corpo a corpo. Aquela
era uma batalha para machados e os meus braos eram capazes de erguer e baixar aquela dupla lmina o dia inteiro, sem se cansarem. S jax e eu escolhemos o machado
para o combate corpo a corpo; um machado suficientemente grande pode ser mais til do que uma espada; contudo, para um homem vulgar,  certamente um empecilho. No
admira, pois, que estivesse ansioso por defrontar o gigante vestido de ouro que matara Iolau.
Demasiado concentrado na praia, demasiado interessado em captar tudo o que se estava a passar, nem sei o que pensei naqueles breves e derradeiros momentos. Um estremecimento
em todo o navio disse-me que tnhamos atracado; seguiu-se um outro, mais forte ainda do que o primeiro, e quase perdi o equilbrio. Olhei de relance para trs e
verifiquei que Automedonte unira o seu navio ao meu e que os seus homens estavam j a saltar para a minha coberta. Como um macaco mimado, daqueles que as mulheres
cretenses costumam ter em suas casas, cheguei  proa com meia dzia de saltos e na proa fiquei por um instante, mirando uma to desvairada confuso de cabeas que
dificilmente distinguiria entre os nossos soldados e os do inimigo. Mas era necessrio que eu fosse visto por todos os homens que vinham dos outros navios, tanto
os do navio de Automedonte como os do navio de Alquimos, que atravessavam j a coberta de Automedonte, como os

#dos navios que vinham atrs; cada vez mais homens chegavam  minha coberta, enquanto o meu navio sofria os espasmos cada vez mais tnues provocados pelas colises
que ocorriam cada vez mais longe.
Ento, brandi o meu machado muito acima da minha cabea, gritei o grito de guerra dos Mirmides com uma voz poderosa e saltei da proa directamente para aquela fervilhante
massa de cabeas. A sorte estava comigo; uma cabea troiana foi esmagada pelo impacte dos meus calcanhares. Ca em cima do soldado inimigo, agarrando com toda a
fora o machado, sem escudo, pois o escudo era um empecilho numa batalha daquele tipo. Num pice, endireitei-me, berrando o grito de batalha com toda a fora que
tinha nos pulmes; escassos momentos depois, todos os Mirmides repetiram o meu grito; no ar, ressoava j o medonho grito dos Mirmides - to medonho como a sua
fria de matar. Os Troianos usavam plumas cor de prpura nos elmos, um pormenor que vinha mesmo a calhar naquela extrema confuso; com efeito, entre os Gregos, s
os quatro reis supremos - e Calcas - poderiam usar essa cor na indumentria ou em quaisquer acessrios do vesturio.
Olhares faiscantes rodeavam-me, uma dzia de espadas ameaavam-me, mas empinei-me e desferi o machado com tal fora que cortei um homem ao meio, desde o crnio at
aos rins. O meu golpe f-los recuar. Um bom conselho do meu pai, que o ensinara a todos os Mirmides: nos combates corpo a corpo, a agresso deveria ser o mais feroz
possvel, pois isso levaria o inimigo a recuar instintivamente. Voltei a usar o machado, desta feita contra um crculo de soldados inimigos, como se fosse uma vareta
numa roda; aqueles que haviam tido a louca ousadia de se abeirar de mim sentiram a lmina do machado dilacerando-lhe as barrigas sob a frgil armadura, que era de
bronze. No, os Troianos no usavam armaduras de cabedal, o que no admirava, pois eram eles quem detinha o monoplio do bronze. Ah, quo rica deveria ser a cidade
de Tria!
Ptrocles estava atrs de mim com o seu escudo para me proteger as costas e, atrs de ns, um sem-nmero de Mirmides saltavam dos navios para a praia. A velha equipa
estava de novo em aco. Avancei, o machado varrendo os soldados que me apareciam  frente como se fosse uma vara sacerdotal, abatendo todos aqueles que usavam no
elmo uma pluma cor de prpura. Aquilo nada tinha a ver com um verdadeiro teste de fora; no havia tempo nem espao para escolher um prncipe ou um rei para comigo
se confrontar; no havia sequer espao algum a separar as foras inimigas. Aquilo mais no era do que uma multido de guerreiros, convertidos em iguais pela batalha,
peito annimo contra peito annimo. Muitos anos antes - ou assim me parecia -jurara contar todos os inimigos que viesse a abater; agora, contudo, estava demasiado
excitado para contar fosse o que fosse, demasiado fascinado com a sbita fragilidade da carne macia sob a dureza do bronze, sempre que a lmina do machado a dilacerava.
Para mim, nada mais existia a no ser sangue e rostos, terror e fria, homens corajosos que tentavam aparar o machado com as suas espadas e que por isso mesmo morriam,
cobardes que, ao sentirem o abrao da morte, desatavam a tagarelar de pavor, e aqueles que eram piores do que cobardes, aqueles que viravam costas e tentavam fugir.
Sentia-me invencvel, eu sabia que no havia nada naquele campo de batalha que pudesse vencer-me. E era com um prazer extremo que via aqueles rostos escancarados
golfando sangue; o desejo ardente de matar fazia vibrar todo o meu ser. Sentia uma espcie de loucura enquanto ceifava um campo de peitos e barrigas e cabeas, o
machado escorrendo sangue, sangue que escorria pelo cabo e empapava as grossas fibras de corda que envolviam o seu punho a fim de que as minhas mos no escorregassem.
De tudo me esquecera. Tudo o que queria era ver plumas cor de prpura tingidas de vermelho. Se algum tivesse posto um elmo troiano na minha cabea e me tivesse
empurrado contra os meus prprios homens, mesmo assim teria massacrado todos os que me aparecessem pela frente. O mal e o bem no existiam, apenas o desejo ardente
de matar. Esse era o sentido de todos os meus anos sob o sol, esse era o meu destino de homem mortal: ser uma mquina de matar perfeita.
Reduzimos a p o solo de Sigeu sob a violncia das nossas botas; a poeira erguia-se muito acima das nossas cabeas e demandava a abbada celeste. Embora em batalhas
posteriores viesse a comportar-me com mais lgica (e a pensar nos meus soldados), naquela batalha de Sigeu, o bem-estar dos meus homens foi coisa que nunca me ocorreu.
Tanto me fazia quem estava a vencer ou quem estava a perder: a nica coisa que me interessava era que eu estivesse a vencer. Se o prprio Agammnon estivesse a combater
a meu lado, eu no teria dado por isso. Nem mesmo Ptrocles abalava o meu furor, ainda que fosse ele a razo por que sobrevivi  batalha, pois foi ele quem repeliu
os Troianos que tentavam atacar-me pelas costas.
De sbito, um escudo surgiu no meu caminho. Desferi-lhe um golpe portentoso, pois queria ver o rosto que o escudo ocultava. Porm, tal uma seta, o guerreiro desviou-se
e a ponta da sua espada roou-me o brao direito. Como se tivesse mergulhado num tanque de gua gelada, tratei de recobrar o alento; depois, tremi de exultao pois
o meu inimigo baixou o seu escudo para me ver melhor.
Finalmente um prncipe! Todo vestido de ouro. O machado que ele usara para abater Iolau desaparecera e fora substitudo por uma espada. Rosnando de intenso prazer,
enfrentei-o sofregamente. Era um homem enorme e tudo nele revelava que estava acostumado a vitrias - alm do que era o primeiro homem que ousara desafiar-me. Descrevemos
cautelosamente um crculo, o meu machado aoitando o cho at ao momento em que ele me deu uma abertura. Quando saltei e girei sobre ele, o prncipe troiano desviou-se
num pice; mas eu tambm fui rpido: esquivei-me  sua espada to facilmente como ele fugiu do meu machado. Com-

#preendendo ambos que havamos encontrado um inimigo valoroso, decidimos entregar-nos ao duelo com igual dose de pacincia e firmeza. O bronze retinia contra o bronze
revestido a ouro, parada atrs de parada; nenhum de ns conseguia ferir o outro e cada um de ns estava consciente de que os soldados, tanto troianos como gregos,
se haviam afastado para que os dois gigantes tivessem o espao de que precisavam.
Sempre que eu falhava o alvo, ele desatava a rir-se, ainda que, em quatro stios, o seu escudo dourado revelasse j o bronze e o estanho que havia por debaixo do
bronze. Tinha de combater a minha raiva to duramente como combatia contra ele - como era possvel que ousasse rir-se? Os duelos eram uma coisa sagrada, os homens
no podiam ridiculariz-los! Ele no sentia esse carcter sagrado dos duelos e isso deixava-me furibundo. Duas investidas fiz e ambas falhei. Ento, o prncipe troiano
falou.
- Como  que te chamas? Prncipe Canhestro? - perguntou-me ele, rindo-se.
- Aquiles! - respondi, os dentes quase cerrados de fria. Desatou a rir-se ainda com mais gozo.
- Nunca ouvi falar de ti, prncipe Canhestro! Eu sou Quicnos, filho de Poseidon das Profundezas.
- Filho de Poseidon: todos os homens mortos fedem ao mesmo, sejam os seus pais deuses ou homens! - gritei-lhe.
Uma resposta que o fez rir ainda mais. Senti erguer-se dentro de mim a mesma raiva que experimentara quando vira Ifignia morta no altar e esqueci-me de todas as
regras de combate que Quron e o meu pai me haviam ensinado. Com um grito agudssimo, lancei-me sobre ele, enfrentando a ponta da sua lmina e erguendo o meu machado.
Ele recuou de um salto e tropeou; a espada caiu e eu desfi-la numa centena de fragmentos. Logo surgiu  minha frente o seu escudo, to grande como um homem e com
uma cintura fina; protegia assim as suas costas enquanto corria, abrindo caminho por entre os soldados troianos, movido por tresloucado desespero, gritando para
que lhe dessem uma lana. Algum lhe atirou a arma que pedira, mas eu estava demasiado perto das suas costas para que ele a pudesse usar. O meu inimigo no tinha
outra alternativa seno manter a retirada.
Mergulhei por entre as hostes troianas sempre no seu encalo. No houve um nico soldado que ensaiasse sequer desferir-me um golpe, fosse porque estavam demasiado
assustados, fosse porque respeitavam os tradicionais princpios do duelo (na verdade, nunca cheguei a saber por que me deixaram passar inclume). A multido de guerreiros
minguava; a certa altura, as hostes combatentes ficaram definitivamente para trs; por fim, um rochedo que se erguia na praia obrigou Quicnos, o filho de Poseidon,
a parar. Com a lana descrevendo lentos crculos, virou-se para me enfrentar. Parei tambm, esperando que ele arremessasse a lana; contudo, Quicnos preferia no
a usar como um dardo. Uma opo inteligente, visto que eu tinha ainda na minha posse tanto o machado como a espada. Desviei-me num pice quando ele tentou pela primeira
vez espetar-me a ponta da lana. Vezes sem conta investiu contra o meu peito, mas eu era jovem e as minhas pernas to geis como as de um homem muito mais leve do
que eu. Por fim, a oportunidade surgiu e no a deixei escapar: investi contra ele e quebrei-lhe a lana. Tudo o que ele tinha agora era o punhal. No se dando ainda
por derrotado, as suas mos tacteavam a armadura  procura da derradeira arma.
Nunca desejara tanto ver uma criatura morta como aquele bufo - contudo, no queria abat-lo com o machado ou a espada. Deixei cair o machado e desfiz-me do pesado
boldri que suportava a minha espada. Por fim, atirei para o cho o meu punhal. O sorriso de gozo apagou-se finalmente no seu rosto. Encarava-me finalmente com o
respeito que eu jurara arrancar-lhe. Apesar disso, porm, ainda ousava dirigir-me a palavra!
- Como  que disseste que te chamavas, prncipe Canhestro? Aquiles? Consumia-me uma raiva dolorosa; no consegui responder-lhe. Ele no estava suficientemente perto
do deus para entender que um duelo entre dois membros da realeza seria sempre algo de to silencioso como sagrado.
Avancei para ele e deitei-o por terra antes que conseguisse pegar no punhal; ergueu-se trpego e recuou at que os seus calcanhares chocaram contra o cume do rochedo.
Tropeou e todo o seu corpo se esparramou sobre o leito rochoso para l do cume. Perfeito. Peguei-lhe no queixo com uma mo e usei a outra como se fosse um martelo,
esmagando-lhe a cara at esta se transformar numa massa indistinta, quebrando-lhe todos os ossos que houvesse por debaixo da pele ou da carne, sem me preocupar minimamente
com os danos que pudesse infligir a mim mesmo. O elmo dele saltara-lhe da cabea, desfeito; peguei nas compridas correias que agora pendiam frouxas e arrastei-as
com toda a fora sob o queixo e fi-las descer at ao pescoo e com elas lhe cingi e apertei o mesmo enquanto punha o meu joelho sobre a barriga dele; e tanto lhe
apertei o pescoo que o seu rosto ficou negro e os seus olhos ressaltaram das rbitas como se fossem enormes bolas raiadas do sangue do horror.
O prncipe troiano j devia estar morto h algum tempo quando as minhas mos largaram as correias; tinha aos meus ps algo que se assemelhava mais a um objecto do
que a um homem. Por um momento, senti-me enojado, pois dei-me conta de toda a imensido do meu desejo de matar; venci porm essa fraqueza e ergui Quicnos sobre os
meus ombros, dependurando depois o seu escudo sobre as minhas costas a fim de proteg-las, j que teria ainda de passar pelas hostes troianas. Queria que os meus
Mirmides e todos os outros Gregos vissem que eu no perdera o duelo com Quicnos, nem a batalha.

#Um pequeno destacamento conduzido por Ptrocles esperava-me no limite extremo do campo de batalha; regressmos s nossas linhas sem sofrer sequer um arranho. Mas
parei para deitar por terra Quicnos, aos ps dos seus prprios soldados, a lngua inchada espreitando por entre os lbios dilacerados, os olhos ainda esbugalhados.
- O meu nome - gritei -  Aquiles! Os Troianos romperam a fugir nesse preciso instante; o homem que consideravam um imortal era afinal to mortal como eles.
Seguiu-se ento o ritual que coroa um duelo de morte entre membros da realeza; retirei-lhe a armadura, que passaria a fazer parte dos meus despojos de guerra, e
mandei a carcaa dele para a vala do lixo de Sigeu, onde seria comida pelos ces da cidade. Antes, porm, cortei-lhe a cabea e enfiei-a numa lana: uma estranha
viso, com aquele rosto medonhamente deformado e as belas tranas douradas absolutamente intactas. Dei-a a Ptrocles, que a cravou na haste da lana como se fosse
uma bandeira.
De sbito, todo o exrcito de Tria debandou. Como os soldados troianos sabiam para onde fugir, seria praticamente impossvel apanh-los. A retirada processou-se,
alis, de uma forma perfeitamente disciplinada. Porm, o campo de batalha e Sigeu eram nossos.
Agammnon ordenou o fim da perseguio, uma ordem a que eu no queria obedecer e por isso continuei a marcha; at que Ulisses me deteve e, com violncia, me obrigou
a virar-me para ele. Que forte que ele era! Muito mais forte do que parecia!
- Deixa as coisas como esto, Aquiles - disse ele. - As portas estaro fechadas - poupa as tuas energias e os teus homens para amanh, caso os Troianos tentem atacar-nos
de novo. Temos ainda de tratar de muitas coisas antes que escurea.
Constatando o bom senso das suas palavras, regressei com ele  praia, Ptrocles a meu lado como sempre, os Mirmides atrs de ns, entoando o pe da vitria. Ignormos
as casas da aldeia: se havia mulheres l dentro, no as queramos. Logo que os nossos ps pisaram os seixos da praia, parmos estupefactos. Por toda a praia jaziam
homens, mortos, moribundos, feridos. De todos os lados vinham gritos, berros, gemidos, splicas aflitas. Alguns dos corpos mexiam-se ainda; outros jaziam inertes,
esvados de vida: as suas sombras demandavam j as desoladas paragens do Reino da Escurido, os domnios de Hades.
Ulisses e Agammnon mantiveram-se  parte enquanto os homens se lanavam numa azfama por causa dos navios, afastando todos aqueles cujos espores haviam fendido
os costados de outras embarcaes; entretanto, a praia era limpa e os nossos homens transferidos para os navios. Quando ergui os olhos para o Sol, verifiquei que
declinava j; restava-nos apenas um tero do dia. Os meus msculos pareciam exaustos, o meu brao demasiado pesado; o machado, arrastava-o pelo cho, a correia presa
na minha mo. No poderia fazer outra coisa seno juntar-me a Agammnon, que me fitava boquiaberto. Era bvio que o rei supremo no evitara a batalha, pois a sua
couraa tinha as correias atadas e o seu rosto estava sujo de sangue e porcaria. E agora que podia v-lo calmamente, verifiquei que Ulisses tinha a couraa fendida
ao meio, de tal modo que se lhe via o peito; no entanto, a sua pele no apresentava um nico ferimento. - Estiveste a tomar um banho de sangue, Aquiles? - perguntou
o rei supremo. - Ests ferido?
Abanei a cabea, como que aturdido; a reaco  tempestade de emoes que experimentara comeava a fazer-se sentir e aquilo que eu aprendera acerca de mim mesmo
ameaava abrir as portas da minha mente s Filhas de Kore. Poderia eu viver com um tal fardo e no enlouquecer? Ento, pensei em Ifignia e compreendi que no perder
a razo fazia parte do meu castigo.
- Com que ento o homem do machado eras tu! - disse Agammnon. - Pensei que fosse jax. Mas no h dvida: tu mereces a nossa gratido. Quando trouxeste o cadver
do homem que matou Iolau, os Troianos perderam todo o nimo.
- Duvido que fosse eu o responsvel, rei supremo - consegui responder-lhe. - Os Troianos tinham j sofrido muitas baixas - e continuavam a sofr-las.
Quicnos foi apenas uma questo pessoal: ele escarneceu da minha honra.
Ulisses pegou-me de novo no brao, mas desta vez suavemente.
- O teu navio est acol, Aquiles. Embarca antes que ele parta.
- Partir? Para onde? - perguntei, perplexo.
- No sei. A nica coisa que sei  que no podemos continuar aqui. Deixa que Tria enterre os seus cadveres. Tlefo diz que h uma boa praia junto a uma lagoa,
logo  entrada do Helesponto. Vamos dar uma vista de olhos ao local. Pode ser que sirva.
Afinal, a maior parte dos reis seguiu no navio de Agammnon; a frota rumou a norte, ao longo da costa, at que atingimos a foz do Helesponto; os primeiros navios
gregos a entrarem nessas guas numa gerao enfrentaram serenamente as altas ondas. S ao fim de uma ou duas lguas, as colinas de gua que envolviam os seus costados
deixaram ver uma praia muito mais extensa e ampla do que a de Sigeu, com mais de uma lgua de comprimento. Em ambas as pontas da praia, rios corriam para o mar,
os seus bancos de areia envolvendo uma lagoa quase completamente cercada de terra. A nica entrada para a salgada lagoa era uma estreita passagem a meio; as guas
da lagoa eram de uma serenidade absoluta. A margem mais longnqua de cada rio era coroada por um promontrio e, no topo do promontrio que coroava o maior e mais
sujo dos rios, havia uma fortaleza, de-

#serta agora, pois os seus homens deveriam por certo ter fugido para Tria. Nenhuma cabea espreitava para ver a nau capitnia de Agammnon avanando rumo  praia.
Por outro lado, todos os pequenos navios que eram usados na cobrana dos tributos permaneciam parados na praia.
Enquanto nos concentrvamos na amurada, Agammnon virou-se para Nestor e perguntou-lhe:
- Nestor, crs que este local serve? -Aos meus olhos inexperientes nestas coisas, parece-me esplndido. Mas julgo que ser melhor ouvires a opinio de Fnix.
-  um bom stio, rei supremo - disse eu, timidamente. - No ser fcil atacarem-nos aqui. Os rios impedi-los-o de nos flanquearem, embora as foras mais prximas
de cada um dos rios fiquem mais vulnerveis do que as outras.
- Nesse caso, preciso de voluntrios para se instalarem junto aos rios - disse o rei supremo, aps o que acrescentou, um nada envergonhado: - Os meus navios tero
de ficar no centro da praia - por uma questo de facilidade de acesso.
- Eu ficarei com o rio maior - disse eu rapidamente - e fortificarei o meu campo com uma paliada para o caso de sermos atacados. Uma defesa no interior de outra
defesa.
O rei supremo fitou-me com cara de poucos amigos.
- Pelas tuas palavras, at parece que vamos ficar muito tempo por estas paragens, filho de Peleu.
Olhei-o bem nos olhos.
- E vamos, rei supremo.  um facto que tens de aceitar. Mas Agammnon nunca aceitaria esse facto. Desatou imediatamente a dar ordens quanto aos locais a que aportariam
os diversos navios, enfatizando sempre o carcter temporrio de tais medidas.
A nau capitnia permaneceu no meio da lagoa, enquanto, um a um, todos os navios avanavam lentamente na direco da praia; porm, antes de a noite cair, um tero
dos navios no tinha ainda aportado. Os meus prprios navios continuavam nas guas do Helesponto, tal como os de jax, do Pequeno jax, de Ulisses e Diomedes. Seramos
os ltimos de todos. Felizmente, o tempo continuava bom e o Helesponto no estava demasiado agitado.
Enquanto o Sol se despedia nas minhas costas, atentei friamente, pela primeira vez, no stio escolhido, e devo dizer que fiquei satisfeito. Com uma boa muralha para
l das filas de navios descansando na praia, o nosso acampamento seria quase to invulnervel como Tria. A qual se erguia a leste como uma montanha, mais prxima
de ns aqui do que em Sigeu. amos precisar de uma boa muralha defensiva; Agammnon estava errado. Tria no cairia num dia, tal como no fora construda num s
da.
Logo que todos os navios se distriburam convenientemente pela praia, com os calos sob os cascos e os mastros baixados - havia quatro sries de mastros - enterrmos
o rei Iolau de Flace. O cadver foi trazido da sua nau capitnia e colocado num esquife elevado no alto de um outeiro verdejante; um a um, os homens das naes
da Grcia marcharam diante dele e os sacerdotes entoaram os seus cnticos e os reis derramaram as libaes. Como fora eu quem matara o homem que roubara a vida a
Iolau, era meu dever pronunciar a orao fnebre; lembrei ao silencioso exrcito a serenidade com que Iolau aceitara o seu destino, a coragem com que combatera antes
do golpe fatal, e a identidade daquele que o matara, um filho de Poseidon. Sugeri depois que a sua coragem fosse celebrada por algo mais perene do que um elogio
fnebre e perguntei a Agammnon se poderamos dar a Iolau um novo nome, o nome de Protesilau, que significava o primeiro entre o povo.
Foi-me concedido o seu solene consentimento; a partir desse momento, o povo de Flace chamar-lhe-ia Protesilau. Os sacerdotes cobriram o seu rosto adormecido com
a mscara morturia de ouro e despiram-lhe o sudrio para revelarem a opulncia de um traje tecido a ouro. Depois, colocmo-lo numa barca que atravessou o maior
dos rios, aportando ao local onde os pedreiros haviam trabalhado dia e noite para escavarem o seu tmulo nas pedras do promontrio. O carro morturio foi conduzido
para dentro do tmulo e este foi finalmente tapado e os pedreiros comearam a deitar terra pela pedregosa abertura; dentro de uma ou duas estaes, olho nenhum -
nem mesmo o mais penetrante - conseguiria localizar o tmulo do rei Protesilau.
Iolau, ou Protesilau, cumprira a profecia e enchera de orgulho o seu povo.

#
Captulo Dcimo Quarto
Narrado por Ulisses

As operaes de aportagem e distribuio pela praia de mais de mil e cem navios ocuparam todo o meu tempo e mobilizaram todas as minhas energias nos dias que se
seguiram  primeira batalha em solo troiano. O total de embarcaes diminura um pouco, pois alguns dos pretendentes mais pobres  mo de Helena no se podiam dar
ao luxo de construir navios to capazes como, por exemplo, os de Agammnon. Vrias dezenas de navios tinham-se afundado, devido a rombos provocados por choques,
durante a frentica corrida para a praia de Sigeu. Contudo, no tnhamos perdido nenhum dos navios de abastecimento, nem aqueles que transportavam cavalos para os
nossos carros.
Para minha grande surpresa, os Troianos no se aventuraram sequer a abeirar-se do nosso acampamento, um facto que Agammnon interpretou como um sinal segurssimo
de que a resistncia troiana sofrera um golpe decisivo. Assim, com toda a frota convenientemente instalada na praia, a fim de que os seus cascos no inchassem e
abrissem fendas por absorverem demasiada gua, o nosso rei supremo tratou de convocar um conselho. Agammnon estava to entusiasmado com o xito alcanado em Sigeu
que no faria sentido tentar lev-lo a ver as evidncias; aquilo que ele interpretava como um feito grandioso revelar-se-ia em breve uma aco menor. Resolvi deix-lo
expender  vontade as suas opinies, perguntando-me quem ousaria pr em causa uma to efervescente confiana. Como era de regra, Agammnon pronunciou o seu discurso
no meio do mais absoluto silncio; porm, mal entregou o Basto a Nestor (no sei porqu, Calcas no estava presente), j Aquiles estava de p pedindo a Nestor que
lhe passasse o Basto.
Sim, claro: s Aquiles ousaria. No procurei sequer esconder o meu sorriso.
O rei Leo fora j obrigado a digerir uma farta dose de contestao por parte do rapaz de lolcos; pelos sulcos que agora se vincavam na sua testa, imaginei que o
leonino Agammnon estivesse a sofrer de cruciantes dores de indigesto. Teria ha-

#vido na histria do mundo uma empresa to valorosa e ousada como a nossa que tivesse comeado to mal? Tempestades, um sacrifcio humano, cimes, ganncia, uma
extrema antipatia entre indivduos que, muito provavelmente, acabariam por precisar uns dos outros. E o que  que passara pela cabea de Agammnon para mandar o
seu primo Egisto para Micenas, a fim de controlar os movimentos de Clitemenestra? Uma aco que considerei to temerria como a partida de Menelau para Creta, deixando
Pris na sua casa.  que Egisto tinha legtimas pretenses ao trono de Micenas! Provavelmente, os filhos de Atreu j se tinham esquecido do que Atreu fizera aos
filhos de Tiestes. Cozinhara-os e servira-os ao prprio pai durante um banquete! Egisto, ento muito pequeno, escapara ao horrendo destino dos seus irmos mais velhos.
Bom, mas isso no era o meu problema. Em contrapartida, o abismo que continuava a cavar-se entre Agammnon e Aquiles era, sem a menor dvida, o maior dos meus problemas.
Se Aquiles fosse uma simples mquina de combate como o seu primo jax, nunca teria havido abismo nenhum. Mas Aquiles era to bom a pensar como a combater. O sorriso
esfumou-se no meu rosto quando dei comigo a pensar que, se tivesse nascido num bero to magnfico como o daquele jovem e com a mesma fora fsica que ele, mantendo
embora todas as peculiaridades da minha mente, seria Muito possvel e natural que tivesse acabado por conquistar o mundo. O fio que me ligava  vida era mais forte
do que o dele; parecia-me plausvel que viesse a estar presente quando os sacerdotes cobrissem o rosto sem lbios de Aquiles com uma mscara de ouro tambm sem lbios;
contudo, haveria nos feitos do rapaz de lolcos uma glria que eu nunca alcanaria. Experimentei uma sensao semelhante  perda, ao compreender que Aquiles possua
uma qualquer chave para o sentido da vida que, no obstante todos os meus esforos, sempre me escapara. Seria realmente uma coisa boa um homem ser to cerebral,
to frio? Ah, se ao menos eu pudesse arder uma nica vez, tal e qual como Diomedes ansiava por uma s vez gelar! - Se os Troianos no sarem da cidade para lutar
- disse o filho de Peleu, num tom perfeitamente sereno -, duvido que consigamos conquistar Tria. Os meus olhos alcanam distncias que a maior parte dos outros
olhos no enxergam sequer e, nestes ltimos dias, tenho estudado aquelas muralhas que, em tua opinio, ns sobrestimamos. No posso concordar contigo, Agammnon.
Pelo contrrio: eu creio que as subestimamos. S haver uma maneira de esmagarmos Tria: atrair os Troianos para a plancie defronte das muralhas e derrot-los em
campo aberto. E isso no ser fcil. Teremos de flanque-los, teremos de impedir que retirem para a cidade e que voltem no dia seguinte para combater. No pensas
que seria sensato se, ao discutirmos a conquista de Tria, tivssemos sempre em mente uma tal possibilidade? Seremos ns incapazes de urdir uma qualquer artimanha
que leve os Troianos a abandonarem as suas muralhas?
Desatei a rir-me.
- Aquiles, se tu estivesses dentro de muralhas to altas e grossas como as de Tria, abandon-las-ias para te envolveres numa batalha? No que toca a batalhas, Sigeu
foi para os Troianos a melhor das oportunidades, pois combateram contra um inimigo que acabava de desembarcar. No entanto, nem mesmo em Sigeu conseguiram vencer-nos.
Se eu fosse Pramo, manteria os soldados no alto das muralhas, onde podem escarnecer de ns  vontade.
Aquiles no ficou nada impressionado com os meus argumentos. -Aquilo que exprimi, Ulisses, mais no era do que uma vaga esperana. contudo, no consigo ver como
 que poderemos tomar de assalto aquelas muralhas ou abater aquelas portas. E tu, consegues?
- Oh, mas eu nem sequer queria falar! - retorqui. - J falei de mais sobre este assunto. Quando houver ouvidos preparados para me escutarem, voltarei a falar. Por
ora, calo-me.
- Os meus ouvidos esto preparados para te escutar - replicou ele rapidamente.
- Os teus ouvidos, Aquiles, no so suficientemente importantes. Os ouvidos de Agammnon  que no gostaram nada do que ouviram.
- Tria no conseguir resistir-nos! - exclamou.
- Nesse caso, rei supremo - teimou Aquiles -, se no houver amanh nenhum sinal das tropas troianas na plancie diante das muralhas, ests de acordo que nos desloquemos
a Tria, a fim de inspeccionarmos mais de perto essas mesmas muralhas?
- Claro - retorquiu, altivo, o rei supremo.
Quando o conselho terminou (sem decidir nada de mais significativo do que um passeio at s muralhas de Tria), acenei para Diomedes. Pouco depois, tinha-o na minha
tenda. Servido o vinho e dispensados os criados, Diomedes permitiu que a sua curiosidade se exprimisse; comeava a aprender a controlar o seu ardente fogo.
- O que  que se passa? - perguntou ele, sfrego de novidades.
- Tem de se passar alguma coisa? Eu pedi-te que viesses porque gosto da tua companhia.
- Da nossa amizade, j eu sei, Ulisses... O que eu estranhei foi a expresso com que me acenaste... Alguma coisa est em marcha. O qu?
- Sim senhor... Cada vez conheces melhor as minhas peculiaridades...
- Os mecanismos da minha mente podem ter sido muito maltratados pela guerra, mas a verdade  que ainda sei distinguir o cheiro de um junquilho do fedor de um cadver.

#- Bom, nesse caso, proponho-te que consideremos esta nossa reunio como um conselho privado. De todos ns, s tu quem mais sabe de guerra. De todos ns, s tu quem
melhor sabe tomar de assalto uma fortaleza. Tu conquistaste Tebas e construste um templo com as caveiras dos teus inimigos - por todos os deuses, a paixo que no
te ter consumido para fazeres uma coisa dessas!
- Tria no  Tebas - retorquiu ele calmamente. - Tebas  uma cidade grega, uma parte das nossas naes unidas. Esta  uma guerra contra a sia Menor. Porque  que
Agammnon no quer ver isso? No Egeu, h apenas duas grandes potncias - a Grcia e a Federao da sia Menor, a qual inclui Tria. Babilnia e Ninive esto muito
pouco preocupadas com o que acontece no Egeu, e o Egipto est to longe que os Ramss no se preocupam rigorosamente nada.
Parou, com um ar embaraado. - Mas quem sou eu para te dar lies?
- No te subestimes, Diomedes. Esse teu sumrio  magnfico. Oxal houvesse no conselho de hoje mais umas quantas cabeas que pensassem com metade da lgica com
que tu pensas!
Diomedes bebeu um gole de vinho para disfarar o intenso prazer que o meu comentrio provocara.
- Eu conquistei Tebas,  verdade, mas s depois de uma batalha campal. Entrei em Tebas por cima dos cadveres dos seus homens.  provvel que Aquiles estivesse a
pensar nisso quando falou da eventualidade de atrair os Troianos  plancie. Mas Tria? Em Tria, uma dzia de mulheres e crianas chegaro para nos manter eternamente
a ladrar s portas da cidade...
- A soluo  fcil: deixamo-los morrer  fome - disse eu. Diomedes desatou a rir-se.
- Ulisses, tu s incurvel! Sabes perfeitamente que as leis de Zeus Hospitaleiro probem isso. Como enfrentarias as Frias se submetesses uma cidade pela fome?
-As filhas de Kore no me metem medo. J as enfrentei, h uns anos atrs. Seria aquela mais uma prova da minha irreligiosidade?, foi a pergunta que li na expresso
de Diomedes. Contudo, o meu amigo no chegou a verbalizar essa pergunta. Em vez disso, perguntou-me:
- Ento? A que concluses chegaste?
- At agora, s uma. Esta campanha vai ser muito longa - vai durar anos. Por isso, tomarei as minhas disposies tendo isso em mente. O meu orculo caseiro disse
que eu estaria fora vinte anos.
- Como podes acreditar to piamente num humilde orculo caseiro, se, ao mesmo tempo, cometes a impiedade de advogar a fome para submeter um inimigo?
- O orculo caseiro - expliquei-lhe, pacientemente - pertence  Me.  Terra. Ela est muito prxima de ns em todas as coisas.  ela que nos lana neste mundo e
 ela quem nos recolhe no seu seio quando a nossa caminhada chega ao fim. Contudo, a guerra  um domnio dos homens. O modo como se faz a guerra deveria depender
unicamente da humana deciso. Do meu ponto de vista, todas essas malditas leis que regulamentam a guerra acabam afinal por proteger o inimigo. Um dia, surgir um
homem que, desesperado por obter uma vitria, infringir todas essas leis - e, depois dele, tudo ser diferente! Esse homem submeter uma cidade pela fome e, depois
dele, todos querero imit-lo. Eu quero ser esse homem!
No, Diomedes, eu no sou mpio! Sou apenas um homem que perde a pacincia com todas estas limitaes! No duvido que o mundo cantar os feitos de Aquiles at ao
dia em que Cronos volte a casar-se com a Me - at ao fim dos tempos! Mas ser, da minha parte, uma vaidade desmedida querer que o mundo cante tambm os meus feitos?
Eu no possuo as vantagens de Aquiles - no possuo o seu fsico magnfico, nem sou filho de um rei supremo. Tenho de me limitar quilo que possuo - inteligncia,
astcia, subtileza. No so maus instrumentos.
Diomedes estirou-se.
- No, de facto no so nada maus. Mas quais so os teus planos para esta longa campanha?
- Comearei amanh, depois de voltarmos da inspeco s muralhas de Tria. Tenciono seleccionar um pequeno exrcito s meu, a partir das gigantescas hostes gregas.
- Um exrcito s teu?
- Sim, s meu. No ser um exrcito igual aos outros, no sero soldados iguais aos outros. Vou recrutar apenas valentes, desordeiros e rebeldes. Ou, mais exactamente,
vou recrutar os piores exemplares de cada um desses lotes.
Diomedes ficou embasbacado, estupefacto.
- S podes estar a brincar, Ulisses! Desordeiros? Rebeldes? Valentes? Mas que raio de exrcito vai ser esse?
- Diomedes, ignoremos por ora a questo de saber qual dos orculos tem razo: se o meu, que fala em vinte anos, se o de Calcas, que fala em dez. Bom, de qualquer
modo, dez anos ou vinte anos  sempre muito tempo. -Arrumei a minha taa de vinho e soergui-me no div. - Numa campanha curta, um bom oficial  capaz de manter os
desordeiros ocupados, tal como  capaz de manter os valentes rigorosamente vigiados, de modo a que a sua fanfarronice no prejudique os outros homens. Do mesmo
modo, no lhe  dificil impedir que os rebeldes influenciem outros soldados. Porm, numa campanha longa, a discrdia  mais do que certa. No teremos batalhas todos
os dias - nem mesmo todas as luas - ao longo dos prximos dez ou vinte anos. Haver luas e luas de ociosidade, sobretudo durante o Inverno. E, durante esses perodos
de ociosidade, as lnguas comearo a trabalhar e faro tantos e tais danos que os murmrios de descontentamento ganharo as propores de um berro!

#Diomedes parecia divertido com a minha exposio.
- Ento e os cobardes?
- Oh, os cobardes no os quero! Os outros comandantes que fiquem com eles, sempre servem para escavar as fossas!
O meu amigo riu-se.
- Muito bem. Depois de teres recrutado o teu pequeno exrcito, o que  que vais fazer com ele?
- Mant-lo-ei permanentemente ocupado. Atribuirei aos seus membros tarefas em que os seus talentos possam florescer. A categoria de homens em que estou a pensar
no  a dos poltres.  a dos perversos, dos maus, daqueles que tm a ruindade na alma. Os desordeiros no querem outra coisa seno causar desordens. Os fanfarres
s ficam contentes quando pem em perigo as vidas dos outros, para alm das suas prprias vidas. E os rebeldes seriam capazes de se queixar a Zeus da qualidade do
nctar e da ambrsia do Olimpo. Amanh, falarei com todos os comandantes e pedir-lhes-ei os trs piores exemplares dos seus exrcitos, excluindo os cobardes. Claro
que os comandantes ficaro contentssimos por se verem livres de tais pestes. Mal conclua o recrutamento, p-los-ei a trabalhar.
Embora soubesse que eu estava deliberadamente a espica-lo, Diomedes no conseguiu resistir a morder o isco.
- A trabalhar em qu? - perguntou. Resolvi continuar a espica-lo.
- Nos limites da praia, no muito longe do stio onde se encontram os meus navios, h um vale natural. Ningum o v, embora se encontre perto do acampamento o suficiente
para que Agammnon o inclua dentro das muralhas que vai ter de erigir para proteger os nossos homens e navios de eventuais ataques troianos.  um vale bastante fundo,
e suficientemente grande para conter as casas necessrias para alojar, com extremo conforto, cerca de trezentos homens. O meu exrcito viver nessa cova. A, no
mais absoluto isolamento, trein-los-ei para o trabalho que iro efectuar. Uma vez recrutados, no voltaro a ter contactos com as suas antigas unidades, nem com
o grosso do exrcito.
- Mas que trabalho  esse, Ulisses?
- Vou criar uma colnia de espies, Diomedes. Uma resposta de que ele no estava  espera. Ficou a olhar para mim, confuso.
- Uma colnia de espies? Mas que raio  isso? O que  que os espies fazem? Para que  que servem?
- Servem para muito, Diomedes, servem para muito - disse eu, entusiasmado. - Pensa um pouco, Diomedes! Mesmo dez anos  muito tempo na vida de um homem - por vezes
 um stimo ou um oitavo dessa vida, mas outras vezes  um tero ou mesmo metade. Entre os meus trezentos homens, haver alguns com todas as condies para se passearem
pelos diversos pisos de um palcio e  isso que eles faro. Ao longo deste primeiro ano, distribuirei alguns desses homens pela prpria cidadela de Tria. A outros
que tambm gostem de representar, distribu-los-ei por todos os estratos baixos e mdios da cidade - desde os escravos aos mercadores. Quero ficar a par de todos
os movimentos de Pramo.
- Pelo Senhor do Trovo! - exclamou Diomedes. Depois, ps um ar cptico. - Sero detectados imediatamente.
- Porqu? No te esqueas de que, quando entrarem em Tria, esses homens tero j treino de sobra... Creio que no te deste conta de um aspecto: os meus trezentos
homens possuem todos uma inteligncia superior - todos os bons desordeiros, valentes e rebeldes so indivduos brilhantes. Um homem estpido nunca  um perigo para
as hostes. Eu j estive dentro de Tria e, enquanto l estive, memorizei a verso troiana do Grego - o sotaque, a gramtica, o vocabulrio. No te esqueas de que
sou muito bom em lnguas.
- Eu sei, eu sei - disse Diomedes, com um sorriso imenso.
- Alm disso, descobri muitas coisas que no comuniquei ao nosso caro amigo Agammnon. Antes de entrarem em Tria, os meus espies sabero tudo o que  preciso saber.
Alguns deles - aqueles que no tm queda para as lnguas - diro que so escravos e que fugiram do nosso acampamento. Como no precisam de esconder que so Gregos,
sero particularmente valiosos. Outros que tenham alguma queda para as lnguas disfarar-se-o de Lcios ou Crios. E isto disse eu, radiante, as mos atrs da cabea
-  s o princpio!
Diomedes respirou fundo.
- Agradeo a todos os deuses o facto de estares do nosso lado, Ulisses. Detestaria ter-te como inimigo.
Toda a cidade de Tria se encontrava no cimo das muralhas para ver desfilar o supremo rei de Micenas  frente de toda a realeza grega. Reparei na crescente vermelhido
que se formou nas faces de Agammnon,  medida que os seus ouvidos iam captando os apupos e a chacota que o incessante vento troiano at ns trazia. Fiquei profundamente
contente pelo facto de Agammnon no ter levado consigo o exrcito.
Doa-me o pescoo de tanto olhar para as alturas; porm, quando chegmos  Cortina Ocidental, examinei-a com todo o cuidado, j que, durante a minha visita a Tria,
no tivera oportunidade de v-la por fora. S ali seria possvel tentar o assalto. Ainda que o prprio Agammnon j tivesse desistido de tal ideia logo que deixmos
para trs a Cortina Ocidental. Era uma poro demasiado curta, no que tocava ao comprimento. Quarenta mil troianos estariam no alto das muralhas  nossa espera,
lanando azeite a ferver para cima das nossas cabeas, pedras acabadas de retirar das fogueiras, carvo em brasa, at mesmo excrementos.

#Quando ordenou o regresso ao acampamento, Agammnon tinha o desnimo estampado no rosto.
No convocou nenhum conselho; os dias foram passando sem aces nem decises. E eu deixei-o sozinho com as suas angstias, pois tinha mais que fazer do que discutir
com ele. Comecei a reunir os homens que iriam formar a minha colnia de espies.
Os comandantes no se opuseram minimamente s minhas pretenses. Pelo contrrio: era com imensa alegria que se viam livres dos seus mais intrincados problemas. Pedreiros
e carpinteiros trabalhavam j duramente no vale, erigindo trinta slidas casas de pedra e um edifcio mais amplo que seria usado para as refeies, os divertimentos
e a instruo. Os meus recrutas comeavam tambm a trabalhar  medida que iam chegando; a partir do instante em que eram escolhidos, eram mantidos no mais absoluto
isolamento por uma guarda constituda por soldados de taca, distribudos  volta dos limites do vale. Quanto aos comandantes, pensavam que eu estava a construir
uma priso onde tencionava encarcerar todos os infractores.
Quando veio o Outono, j tudo estava pronto. Reuni os meus recrutas no maior salo do edifcio principal. Trezentos pares de olhos seguiam-me atentamente enquanto
me encaminhava para o estrado: circunspectos ou curiosos, desconfiados ou apreensivos. J estavam confinados h bastante tempo para saberem que haviam sido privados
de vtimas, pois todos eles eram feitos da mesma matria.
Sentei-me num trono real, com garras esculpidas, Diomedes  minha direita. Quando o silncio se abateu sobre a sala, pus as minhas mos nos braos do trono e estendi
uma perna, pois era essa a pose de um rei.
- Tm-se perguntado certamente por que razo eu os trouxe para aqui e o que  que lhes ir acontecer. At agora, tm-se limitado a conjecturas. A partir de agora,
conhecero as respostas s vossas perguntas, porque eu vou satisfazer a vossa curiosidade. Em primeiro lugar, cada um de vs tem certos traos de carcter que vos
tornam odiosos aos olhos de qualquer comandante. Nenhum de vs  um bom soldado, ou porque pem em perigo as vidas dos outros, ou porque causam dores de barriga
a todos os homens com a vossa maldade ou rebeldia. No quero que haja dvidas nas vossas mentes quanto s razes por que foram escolhidos. Foram escolhidos porque
so odiados por toda a gente.
Parei e esperei, ignorando os rostos estupefactos, a raiva, a indignao. Alguns daqueles rostos, porm, permaneciam impassveis; procurei no me esquecer deles:
aqueles eram os homens dotados de capacidades e de uma inteligncia superiores.
Tudo havia sido convenientemente preparado. Os meus guardas encontravam-se postados  volta do edifcio; o seu chefe, Hquios, era um homem em quem podia depositar
toda a minha confiana. As ordens eram claras: matariam todos os homens que sassem antes de mim. Aqueles que decidissem que as minhas condies eram inaceitveis
no poderiam voltar para o seio do exrcito.
Teriam de morrer.
- Deram-se conta da magnitude do insulto? - perguntei-lhes. - Pensem um pouco: as minhas palavras no poderiam ter sido mais insultuosas! Os defeitos que os homens
decentes abominam, transform-los-ei em qualidades. Haver compensaes para os homens que me servirem - vivero em aposentos dignos de prncipes, no faro trabalho
manual, e as primeiras mulheres que o rei supremo distribuir pelos homens, depois de Tria ter cado, sero para vocs. Entre as misses que efectuarem, tero perodos
de descanso adequados. De facto, vocs formaro um corpo de elite sob o meu nico comando. Deixaro de servir os vossos reis respectivos ou o rei supremo. Um rei
apenas serviro: Ulisses de taca.
Disse-lhes depois que o trabalho que lhes estava destinado era muito perigoso e invulgar e conclu esta parte do meu discurso acentuando:
- Um dia, os profissionais do vosso ofcio sero pessoas famosas. A vitria ou a derrota numa guerra dependero do vosso trabalho. Aos meus olhos, cada um de vs
vale um milhar de soldados de infantaria. Devero por isso entender que o facto de terem sido escolhidos  algo de grandioso. Agora, antes que prossiga, gostaria
que discutissem o assunto entre vs.
O silncio persistiu por um breve perodo; estavam to surpreendidos que tinham dificuldade em trocar opinies. Quando a conversa finalmente comeou, tratei de examinar
atentamente os seus rostos; havia uma dzia deles que j tinham decidido rejeitar a minha proposta. Um desses homens levantou-se e saiu, mais uns quantos imitaram-no.
Hquios espreitava para l da porta aberta.  sala no chegou rudo nenhum, sinal nenhum de tumulto. Saram mais oito. E Hquios continuou obedecendo s minhas instrues.
Como aqueles homens nunca regressariam s suas companhias, os seus antigos comandantes pensariam que estavam comigo. Por outro lado, os seus colegas pensariam que
eles haviam regressado s suas antigas companhias. S Hquios e os seus homens sabiam a verdade e eles eram de taca e conheciam o seu rei.
Havia dois homens que me interessavam mais do que todos os outros. Um deles era primo de Diomedes e um tormento constante para qualquer comandante. Chamava-se Tersita.
Para alm das suas naturais capacidades, havia na sua histria pessoal um dado que muito me atraa: com efeito, dizia-se que Tersita era filho da tia de Diomedes
e de Ssifo. O mesmo se dizia de mim: que Ssifo  que era o meu pai, e no Laertes. Esta eventual mancha no meu nascimento nunca me causou a menor angstia; o sangue
de um burlo emrito era provavelmente mais til do que o sangue de um rei como Laertes.

#Quanto ao outro homem, conhecia-o muito bem; alis, entre os meus trezentos soldados, era ele o nico que sabia por que razo ali estava. Era o meu primo Sino,
que viera na minha comitiva. Um homem maravilhosamente til que estava ansioso por dar os primeiros passos na sua nova profisso.
Tersita e Sino estavam quietos e impassveis, os sombrios olhos fixos no meu rosto, embora, de quando em quando, interrompessem o exame da minha pessoa para virarem
a cabea e avaliarem o calibre dos homens com que haviam sido misturados.
De sbito, Tersita pigarreou.
Continua, rei Ulisses, diz-nos o resto - disse ele. Disse-lhes o resto.
- Agora, creio eu, j percebem por que motivo os considero os homens mais valiosos do exrcito - acentuei, j perto do final do meu discurso. - As vossas misses
sero sempre de uma importncia extrema, quer visem a transmisso de informaes, quer tenham por objectivo lanar a perturbao entre aqueles que governam Tria.
Ser criado um sistema seguro de comunicaes. Por outro lado, sero claramente definidos os contactos e os locais de encontro entre aqueles que passarem a residir
de um modo mais ou menos permanente no interior de Tria e aqueles que se limitarem a fazer breves visitas  cidade. Ainda que as vossas misses sejam de facto muito
perigosas, a verdade  que, quando comearem a trabalhar, disporo j de tudo o que  preciso para lidarem com esses perigos. - Levantei-me. - Pensem um pouco no
que vos acabei de dizer. Voltarei dentro de breves momentos.
Retirei-me com Diomedes para uma antecmara. A conversmos e bebemos enquanto, do outro lado da cortina, o som de vozes se erguia e esbatia para logo se erguer
de novo.
- Presumo - disse Diomedes - que tu e eu tambm entraremos em Tria de vez em quando...
- Claro que sim. Se queremos controlar homens deste calibre, temos de mostrar-lhes que estamos dispostos a correr riscos ainda maiores do que aqueles a que os sujeitamos.
Ns somos reis, os nossos rostos podem ser reconhecidos...
- Helena - disse ele.
- Precisamente.
- Quando  que comeamos as nossas visitas?
- Esta noite - disse eu, calmamente. - H uma boa conduta na seco noroeste das muralhas.  grande o suficiente para deixar entrar um homem de cada vez. A sada
no interior das muralhas no tem guardas e  relativamente recndita. Iremos vestidos de pobres, exploraremos as ruas, conversaremos com as pessoas e escapar-nos-emos
amanh  noite pela mesma conduta. No te preocupes, ser uma misso bastante segura.
Diomedes riu-se.
No duvido, Ulisses, no duvido. Bom, acho que  tempo de ouvirmos os nossos homens - disse eu.
Tersita fora eleito porta-voz; estava j de p  nossa espera.
- Fala, primo do rei Diomedes - ordenei-lhe.
- Rei Ulisses, ns estamos contigo. Daqueles que ficaram quando deixaste a sala, s dois votaram contra a tua proposta.
- Dois votos que no contam - disse eu.
Havia no olhar de Tersita um brilho sarcstico: ele sabia o que acontecera aos que haviam rejeitado a minha proposta.
- A vida que nos propes - prosseguiu Tersita -  muito melhor do que aquela que levamos num acampamento montado para um cerco, pois ns no conhecemos a virtude
da pacincia. Enfim, rei Ulisses: ns somos os teus soldados!
- Antes de esta sesso terminar,  necessrio, porm, que cada um de vs pronuncie um juramento adequado.
- Todos juraremos - disse ele, impassvel, sabendo que o juramento seria to terrvel que nem mesmo ele teria coragem de o infringir.
Depois de o ltimo homem ter jurado, informei-os de que viveriam em unidades de dez homens; em cada um desses grupos, haveria um oficial, a ser escolhido por mim
depois de os conhecer melhor. Contudo, havia dois homens que eu j conhecia muito bem: por isso nomeei Tersita e Sino chefes da colnia de espies.
Nessa noite, entrmos em Tria com relativa facilidade. Fui eu o primeiro a rastejar pela conduta; Diomedes veio logo atrs de mim. Para Diomedes, no era to fcil:
os seus ombros eram to largos como a conduta. Uma vez dentro da cidade, encaminhmo-nos furtivamente para um agradvel beco, onde dormimos at de manh. Depois,
misturmo-nos com a multido. Na imensa praa do mercado perto da Porta Ceia, comprmos bolos de mel e po de cevada e dois copos de leite de ovelha, e tratmos
de escutar. O povo no estava nada preocupado com os Gregos que ocupavam a praia do Helesponto; de um modo geral, o estado de esprito dos populares era animado,
jovial. Contemplavam com admirao os seus imponentes basties e riam-se da ideia de o beemote grego estar parado e impotente a escassas lguas dali. Todos pareciam
achar que Agammnon acabaria por desistir e regressar  Grcia. Comida e dinheiro no faltavam, as Portas Dardaniana e Ida continuavam abertas e o trfego processava-se
normalmente. S o complicado sistema de guardas e sentinelas no cimo das muralhas revelava que a cidade estava preparada para fechar as Portas Dardaniana e Ida mal
surgisse uma ameaa.
Ficmos a saber que a cidade possua muitos poos de gua boa para beber e um vasto nmero de celeiros e armazns onde eram guardados os alimentos no deteriorveis.

#Ningum punha a hiptese de uma batalha campal  sada da cidade; os poucos soldados que vimos, ou preguiavam ou andavam na companhia de prostitutas, alm do que
haviam deixado em casa armas e armaduras. Toda a gente se ria de Agammnon e do seu grandioso exrcito.
Diomedes e eu comemos a trabalhar na colnia de espies logo que regressmos ao acampamento. E o que ns trabalhmos! Havia homens com grandes aptides e entusiasmo;
outros, porm, desanimaram ao fim de pouco tempo e nunca mais se interessaram pela nova profisso que eu lhes propunha. Discuti serenamente o assunto com Tersita
e Sino, que concordaram comigo: os inaptos deveriam desaparecer. Dos trezentos recrutas iniciais, acabei por ficar com duzentos e cinquenta e quatro e dei-me por
feliz.

Captulo Dcimo Quinto
Narrado por Diomedes

Ulisses era um homem verdadeiramente notvel. Aprendia-se sempre com ele:
at mesmo o modo como lidava com um escravo era, por si s, uma fonte de ensinamentos. Ao fim de uma nica lua, havia j moldado a seu bel-prazer aqueles duzentos
e cinquenta e quatro homens, apesar de no os considerar ainda prontos para a aco. Passava quase tanto tempo com ele como com os meus homens de Argos; porm, aquilo
que com ele aprendia permitia-me controlar e dirigir melhor as minhas tropas - e em metade do tempo de que normalmente precisava. Deixara de haver sinais de descontentamento
no meu contingente sempre que eu me ausentava, deixara de haver discusses entre os oficiais; recorria aos mtodos de Ulisses e os resultados estavam  vista. Claro
que, de quando em quando, ouvia algumas piadas murmuradas; claro que me apercebia dos olhares maliciosos dos meus nobres sempre que me viam com Ulisses; mesmo os
outros reis comeavam a interrogar-se acerca da natureza da nossa amizade. O que no me preocupava rigorosamente nada. No teria ficado nada afectado se fosse verdade
aquilo que pensavam. Por outro lado - faamos-lhes justia - no havia na sua malcia a menor sombra de reprovao. Todos os homens eram livres de satisfazer os
seus apetites sexuais com o sexo que muito bem entendessem. Normalmente com o sexo feminino; porm, uma longa campanha num pas estrangeiro significava que havia
muito menos mulheres disponveis. As mulheres estrangeiras nunca estariam em condies de substituir condignamente as esposas e as namoradas, as mulheres da nossa
prpria terra. Em tais circunstncias, era prefervel procurar o lado mais doce do amor com um amigo que combatia ao nosso lado na batalha e que, com a sua espada,
repelia o inimigo, enquanto ns tentvamos recuperar a espada que o inimigo deitara por terra.
A meio do Outono, Ulisses disse-me que fosse prestar as minhas homenagens a Agammnon. Assim fiz, curioso quanto ao que estaria em marcha; nos l-

#timos tempos, houvera uma srie de conferncias secretas entre Nestor e Ulisses, mas Ulisses nada me dissera quanto aos temas dessas conferncias.
Durante cinco luas, no vramos nem sinal de soldados troianos e o estado de esprito no nosso acampamento era francamente sombrio. Os alimentos, afinal, no se
tinham revelado um problema difcil, pois a costa a norte da Trada e o lado de l do Helesponto abundavam em legumes, fruta e animais. As tribos que a viviam,
mal viam os nossos contingentes, corriam a esconder-se. Porm, nada disto poderia alterar o facto de que, estando to longe da ptria, no poderamos pr sequer
a hiptese de regressar para um breve perodo de licena. Do rei supremo, no vinha ordem nenhuma: nem para desmobilizar, nem para atacar, nem para nada.
Quando entrei na residncia de Agammnon, Ulisses j l estava, com um ar perfeitamente descontrado.
- Quando Ulisses apareceu, devia ter concludo que terias forosamente de estar por perto - comentou Agammnon.
Sorri, mas nada disse.
- Que pretendes afinal, Ulisses?
- Um conselho, Agammnon. H muitas coisas que j deviam ter sido discutidas h muito tempo.
- Concordo inteiramente! Por exemplo: o que  que se passa num certo vale e porque  que eu nunca consigo encontr-los, a ti e a Diomedes, durante a noite? A noite
passada, pensei precisamente em convocar um conselho.
Ulisses livrou-se do desagrado imperial com a sua habitual elegncia. Comeou com um sorriso, o sorriso que era capaz de vencer inimigos implacveis, o sorriso que
era capaz de encantar criaturas muito mais frias do que Agammnon.
- Rei Agammnon, eu dir-te-ei tudo - mas apenas num conselho.
- Muito bem. Fiquem aqui at que os outros venham. Se os deixo sair, so capazes de no voltar.
Menelau foi o primeiro a chegar, to abjecto como sempre. Saudou-nos timidamente e correu a enfiar-se no canto mais escuro da sala. Pobre Menelau, oprimido e humilhado
Menelau. Talvez comeasse agora a dar-se conta de que Helena mais no era do que um elemento muito secundrio nos planos do seu poderoso irmo, ou talvez comeasse
a achar que Helena nunca mais voltaria a ser sua. Estes pensamentos agitaram memrias que tinham j quase nove anos; a criatura cuja mo havia sido disputada por
tantos pretendentes revelara-se afinal to dissoluta como uma mulher da rua. nica e exclusivamente preocupada com a satisfao dos seus desejos, indiferente quilo
que um homem queria. To bela! E to egosta! Oh, a roda-viva em que Menelau no teria andado por causa dela! Nunca consegui odi-lo; era um homem demasiado insignificante,
suscitava mais a piedade do que o desprezo. E amava-a como eu nunca poderia ter amado uma mulher.
Aquiles chegou na companhia de Ptrocles; Fnix vinha atrs deles - fez-me lembrar o co de Ulisses, Argos, que, em taca, nunca largava o dono. To fiel quanto
vigilante, assim era Fnix. Saudaram o rei supremo, Aquiles com bvia relutncia. Uma estranha criatura. Reparara j que Ulisses no gostava dele. Quanto a Mim sentia
por ele pouco mais do que indiferena; da que j tivesse decidido adverti-lo de que deveria mostrar-se mais corts com Agammnon. O rapaz,  certo, comandava os
Mirmides; mas isso no era razo para manifestar, de uma forma to bvia, a sua averso ao rei supremo. Ver-se abandonado numa ala, durante uma batalha, era coisa
vulgar e fcil de acontecer - e, normalmente, as culpas recaam no comandante que se via abandonado. Quando vi a expresso dos olhos de Ptrocles, tive de sorrir
- aquela, sim, era uma amizade amorosa! Pelo menos de um dos lados. Aquiles no dava o devido valor  afeio de Ptrocles. Alm de o que ansiava mais por uma boa
batalha do que pelo prazer que os corpos encerram.
Macon chegou sozinho e, sem dizer palavra, sentou-se. Ele e o irmo, Podalrio, eram os melhores mdicos de toda a Grcia, mais importantes para o nosso exrcito
do que uma ala de cavalaria. Podalrio era um verdadeiro recluso: preferia a sua cirurgia aos conselhos de guerra. Macon, porm, era um homem extremamente activo
que tinha o dom de comando e era capaz de lutar to bem como dez mirmides. Idomeneu avanou com o seu passo elegante, e o seu ar no menos elegante, logo seguido
pelo seu escudeiro, Merona. Graas  coroa cretense e  sua posio como co-comandante, Idomeneu limitou-se a fazer uma vnia, em vez de ajoelhar diante do rei
supremo. Agammnon ficou furioso com a desconsiderao, mas a fria no desceu dos olhos at s cordas vocais; perguntei-me se Agammnon no acharia que Creta estava
a ficar demasiado grande para as suas botas, mas o rosto do rei supremo nada me disse a esse respeito. Idomeneu preocupava-se excessivamente com a sua elegncia,
com os seus trajes, com os seus adereos; enfiin, um escravo da sua prpria aparncia. Contudo, possua uma constituio fsica notvel e era um belssimo comandante.
Merona, seu primo e herdeiro, era possivelmente o melhor dos dois - adorava festejar ou combater a seu lado. Ambos tinham o mesmo ar, tpico dos Cretenses: um ar
generoso, aberto.
Nestor avanou rapidamente para o seu assento especial, acenando apenas para Agammnon, o qual no ficou nada ofendido. Nestor embalara-nos a todos nos seus joelhos
quando ramos bebs. Se tinha algum defeito, esse defeito era, sem dvida, o de se refugiar nas recordaes dos bons velhos tempos e de considerar a actual gerao
de reis no mais do que um bando de mariquinhas. Contudo, no havia ningum que conseguisse resistir aos seus encantos. Ulisses, achava eu, adorava-o. Consigo, Nestor
trouxera o seu filho mais velho.

#jax chegou com os seus companheiros, o seu meio-irmo Teucro e o seu primo da Lcrida, o Pequeno jax, filho de Oileu. Sentaram-se ao fundo, muito calados, com
um ar desconfortvel. Ansiava pelo dia em que pudesse ver jax num campo de batalha (estivera longe de mim aquando da batalha de Sigeu), em que pudesse ver com os
meus prprios olhos aqueles braos portentosamente musculados empunhando o seu famoso machado.
Menesteu surgiu pouco depois. Era um bom homem, o rei supremo da tica, mas sensato o suficiente para no imaginar que poderia igualar Teseu. Menesteu no era sequer
um dcimo do homem que Teseu fora - mas, sejamos honestos, quem  que poderia rivalizar com Teseu? Palamedes foi o ltimo. Sentou-se entre mim e Ulisses. Seria imprudente
da minha parte atrever-me a gostar dele, visto que Ulisses o odiava. Porqu, no sabia, embora desconfiasse que Palamedes o ofendera quando ele e Agammnon se haviam
deslocado a taca. Ulisses tinha pacincia bastante para esperar o tempo que fosse preciso, mas acabaria por vingar-se - disso estava eu certo. No seria uma vingana
violenta, sangrenta. Com Ulisses, a vingana era servida fria. O sacerdote Calcas no estava presente. Uma ausncia intrigante.
Agammnon, com um ar bastante tenso, deu incio aos trabalhos.
- Este  o primeiro conselho digno desse nome que resolvi convocar desde que desembarcmos em Tria. Como todos esto a par da situao, creio que no far sentido
descrev-la. Ulisses falar, eu no. Embora eu seja vosso suserano, vocs deram-me as vossas tropas de livre vontade. Do mesmo modo, respeitarei o vosso direito
a retirarem esse apoio, no obstante o Juramento do Cavalo Esquartejado. Ptrocles, toma o Basto, mas d-o a Ulisses.
Ulisses avanou para o meio da sala (Agammnon cedera ao frio e mandara construir uma casa de pedra, ainda que a existncia de uma tal casa sugerisse permanncia),
a cabeleira ruiva flutuando numa massa de ondas em torno do seu belo rosto, os seus grandes olhos cinzentos despindo-nos at ao mais ntimo de ns mesmos, at 
nossa verdadeira estatura: reis, mas ainda assim homens. Ns, os Gregos, sempre respeitmos a prescincia e, a Ulisses, no lhe faltava esse poder.
- Ptrocles, serve o vinho - foi assiin que o meu amigo comeou o seu discurso. Esperou que o jovem servisse todos os presentes. - H cinco luas que desembarcmos.
Fora dos limites de um vale que fica perto dos meus navios, nada aconteceu.
A esta afirmao seguiu-se uma rpida explicao: segundo Ulisses, o vale em questo servia para encarcerar os piores soldados do exrcito, pois era absolutamente
necessrio que esses elementos no contaminassem o resto das tropas. Eu sabia por que razo Ulisses no queria divulgar o verdadeiro objectivo do vale: Ulisses no
confiava em Calcas nem em algumas das lnguas dos seus homens, ainda que presas a um juramento.
Embora no tenhamos realizado nenhum conselho oficial - prosseguiu ele com a sua voz suave e agradvel -, no tem sido difcil adivinhar os sentimentos dominantes
dos chefes aqui presentes. Por exemplo: ningum deseja montar o cerco a Tria. Respeito os vossos pontos de vista, pelas mesmas razes que Macon poder expender:
um cerco poder trazer a peste e outras doenas; uma eventual conquista de Tria aps esse cerco poder significar pesadas baixas tambm para as tropas gregas. Por
isso, no  minha inteno discutir a questo do cerco.
Fez uma pausa para nos sondar.
- Diomedes e eu fizemos j vrias visitas nocturnas  cidade de Tria e conclumos que, se continuarmos aqui na prxima Primavera, a situao sofrer uma alterao
radical. Pramo mandou enviados a todos os seus aliados ao longo da costa da sia Menor e todos eles lhe prometeram apoio militar. Logo que comece o degelo nas montanhas,
Pramo ter duzentos mil soldados  sua disposio. E ns seremos corridos daqui para fora: to simples como isso.
Aquiles interrompeu-o.
- Ests a pintar um quadro muito negro, Ulisses. Foi para isso que ns deixmos as nossas ptrias? Para carmos, de uma forma absolutamente ignominiosa, s mos
de um inimigo com quem travmos uma nica batalha? O que ests a dizer-nos, creio eu,  que nos lanmos numa cruzada perfeitamente infrutfera, extremamente onerosa
e sem a menor perspectiva de uma recompensa - ou seja, de despojos. Onde est o saque que nos prometeste, Agammnon? Que aconteceu  tua guerra que durava apenas
dez dias? Que aconteceu  tua fcil vitria? Para onde quer que nos viremos,  a derrota que vemos  nossa frente! Foi para isto que alguns dos homens aqui presentes
se mostraram coniventes com um sacrifcio humano? H derrotas piores do que ser batido numa batalha. Ser obrigado a evacuar esta praia e a regressar  Grcia  a
pior das derrotas!
Ulisses no conteve um risinho.
- Digam-me: esto todos to desanimados como Aquiles? Se esto, lamento muito. No entanto, no posso negar que o filho de Peleu diz a verdade. Alm disso, se permanecermos
aqui durante o Inverno, os problemas de abastecimento vo aumentar. Por ora, podemos ir buscar  Bitnia aquilo de que precisamos; contudo, segundo dizem, os Invernos
aqui so frios e nevosos.
Aquiles levantou-se num salto, virando-se furioso para Agammnon.
- Foi isto que eu te disse em ulida, muito antes de termos partido! No prestaste a devida ateno ao problema do abastecimento de um exrcito enorme! Ser que
temos escolha? Poderemos ns escolher entre ficar aqui e voltar para a Grcia? No me parece. A nossa nica alternativa  aproveitar os ventos do incio do Inverno
e voltar  Grcia para nunca mais regressarmos! s um imbecil, rei Agammnon! Um imbecil que se imagina inteligente!

#Agammnon manteve-se muito quieto e calado, mas era visvel que estava a fazer um grande esforo para se controlar.
- Aquiles tem razo - atacou Idomeneu. - Tudo isto foi muito mal planeado. - Respirou fundo, enquanto fitava ferozmente o seu co-comandante. - Diz-me, Ulisses: o
nosso exrcito pode ou no pode tomar de assalto as muralhas troianas?
- As muralhas troianas so inexpugnveis, Idomeneu. A fogueira da agitao crescia, ateada por Aquiles e alimentada pelo facto de Agammnon optar pelo silncio.
Todos estavam desejosos de o atacarem e ele sabia disso. Mordia os lbios, o corpo tenso curvado pelo esforo tremendo que o domnio da sua prpria raiva lhe exigia.
- Porque  que nunca admitiste que no eras capaz de planear uma expedio to grandiosa como esta? - perguntou Aquiles. - Fosse o teu estatuto inferior - e no
fosses tu aquilo que s pela graa dos deuses! - liquidar-te-ia neste exacto momento! Trouxeste-nos para Tria com um nico pensamento na cabea: a tua glria! Usaste
o Juramento para reunires um gigantesco exrcito e desprezaste os desejos e as necessidades do teu irmo - at que ponto pensaste realmente em Menelau? Sers capaz
de dizer que lanaste esta empresa por causa do teu irmo? Nunca! Nem sequer te deste ao trabalho de fingir! Desde o princpio que s tens um objectivo: enriquecer
com o saque de Tria e erigir um imprio para ti mesmo na sia Menor!  certo que todos ns enriqueceremos com o saque de Tria - mas o mais rico de todos sers
tu!
Menelau desatou a chorar: as lgrimas que lhe caam pelas faces falavam de uma terrvel desiluso. Vendo-o soluar como uma criana, Aquiles afagou-lhe o ombro,
procurando anim-lo. A atmosfera no podia ser mais explosiva; uma palavra mais e todas aquelas mos correriam a apertar a garganta de Agammnon. Sentindo j um
inequvoco formigueiro no meu brao direito, olhei para Ulisses, imvel no meio da sala, com o Basto na mo, enquanto Agammnon entrelaava as mos sobre o colo
e olhava para elas.
Acabou por ser Nestor a apagar o fogo que alastrara. Virou-se furibundo para Aquiles e logo lhe atirou:
- Rapaz, a tua falta de respeito merecia uns bons aoites! Que direito tens tu a criticar o nosso rei supremo quando homens como eu no o fazem? Ulisses no fez
nenhuma acusao - como te atreves tu a faz-las? Tem tento nessa lngua,rapaz!
Aquiles aceitou a repreenso sem um murmrio. Apresentou as suas desculpas a Agammnon ajoelhando diante dele e sentou-se. Por natureza, Aquiles no era homem que
fervesse em pouca gua. Porm, desde a morte de Ifignia que havia entre ele e Agammnon uma tremenda animosidade. Compreensvel. O seu nome fora usado para que
Clitemenestra deixasse partir a rapariga, mas o rei supremo no pedira o seu consentimento. Aquiles, pelos vistos, nunca nos perdoaria - e muito menos perdoaria
a Agammnon.
- Ulisses - disse Nestor-,  evidente que no tens a idade e a experincia suficientes para dirigires convenientemente esta reunio de nobres autocratas: por isso,
passa-me o Basto e deixa-me falar! - Fitou-nos com um ar assanhado.
- Esta reunio, at agora, foi uma verdadeira misria! No meu tempo, ningum se atreveria a dizer as coisas que aqui foram ditas! Quando eu era jovem e Hracles
vivia entre ns, as coisas eram completamente diferentes!
Recostmo-nos nas cadeiras e resignmo-nos perante a perspectiva de ouvirmos mais uma das famosas homilias de Nestor. Contudo, quando mais tarde reflecti sobre o
que se passou, cheguei  concluso de que o velho comeara a divagar deliberadamente; com efeito, o facto de sermos obrigados a escut-lo produziu uma acalmia geral
na sala.
- Pensem no exemplo de Hracles - prosseguiu Nestor. - Injustamente submetido a um rei que no merecia usar a sagrada cor prpura do seu cargo, obrigado a realizar
uma srie de trabalhos friamente escolhidos para o conduzirem  morte ou  humilhao. Pois Hracles nem sequer protestou! A sua palavra era, para ele, sagrada.
Nele, a nobreza de alma rivalizava com o poder fsico! Ainda que nas suas veias corresse sangue divino, Hracles era um homem? Tu, jovem Aquiles, nunca poders sequer
nutrir a esperana de igualar Hracles! Nem tu, jovem jax. O rei  o rei. Hracles nunca se esqueceu disso - nem mesmo quando se viu atolado at aos joelhos em
esterco de cavalo, nem mesmo quando esteve a um passo do desespero e da loucura! Era isso precisamente o que todos os outros homens admiravam e veneravam nele. Ele
sabia quais eram os seus deveres para com os deuses e quais eram os seus deveres para com o rei. Em todas as circunstncias, cumpriu escrupulosamente esses deveres.
Embora me sentisse bem tratando-o como a um irmo, Hracles nunca se aproveitou da minha amizade - e eu era o herdeiro de Neleu, ao passo que ele no passava de
um escravo.
Foi a conscincia que tinha do seu estatuto de escravo, bem como a sua deferncia e pacincia, que o levaram a suscitar um amor eterno e a ganhar o estatuto de heri.
Pobres de ns! No voltar a haver no mundo um homem como Hracles!
ptimo! Nestor terminara, devolveria o Basto a Ulisses e o conselho poderia prosseguir. Mas Nestor no tinha terminado; em vez disso, lanou-se numa nova homilia.
- Teseu! - exclamou. - Pensem tambm no exemplo de Teseu! Foi a loucura que acabou por venc-lo e no a ausncia de nobreza ou o esquecimento daquilo que a um rei
 devido. Teseu era um rei supremo: pois o Teseu que eu conheci no passava de um homem! Ou pensem no exemplo do pai de Diomedes.

#Tideu era o maior guerreiro do seu tempo - e morreu diante das muralhas que o filho arrasou uma gerao mais tarde. E morreu sem uma nica mancha na sua honra!
Se eu tivesse sabido que gnero de homens se arroga o ttulo de rei e herdeiro de rei aqui nesta praia de Tria, nunca teria deixado as areias de Pilos, nunca teria
navegado num mar to escuro como vinho! Ptrocles, enche-me o copo! Pretendo continuar o meu discurso, mas tenho a garganta seca.
Ptrocles levantou-se lentamente. Era ele o mais descorooado de todos. Estava visivelmente magoado com a repreenso de que Aquiles fora alvo. O velho rei de Pilos
bebeu de uma vez s quase todo o contedo do copo, lambeu os lbios e foi sentar-se numa cadeira vaga perto da de Agammnon.
- Ulisses,  minha ideia prosseguir o que tu comeaste. No te ofendas com esta minha deciso, mas, pelos vistos, precisamos de um velho para pr os jovens insolentes
no seu lugar! - disse ele.
Ulisses sorriu com todos os seus dentes.
-  vontade, rei Nestor! Tu expors o caso to bem como eu, seno mesmo melhor.
Foi nesse instante que as minhas desconfianas ganharam alento. H vrios dias que Ulisses e Nestor mantinham conferncias secretas - teriam eles congeminado tudo
aquilo antecipadamente?
- Duvido - disse Nestor, com um brilho muito especial nos seus olhos azuis. -  invulgar um homem to novo como tu possuir uma cabea to notvel. Mas adiante. Vou
esquecer personalidades e cingir-me apenas aos factos. Temos de abordar este problema desapaixonadamente, temos de compreend-lo sem confuses nem enganos. Em primeiro
lugar, o que est feito, est feito. No desenterremos o passado. No devemos permitir que o passado continue a alimentar ressentimentos.
Inclinou-se um pouco para a frente e prosseguiu:
- Reflictam. Ns temos um exrcito constitudo por mais de cem mil homens, combatentes e no combatentes, acampado a cerca de trs lguas das muralhas de Tria.
Entre os no combatentes, dispomos de cozinheiros, escravos, marinheiros, armeiros, cavalarios, carpinteiros, pedreiros e engenheiros. Se a expedio tivesse sido
to mal planeada como o prncipe Aquiles quer fazer crer, no disporamos por certo de tantos e to diversos profissionais experimentados. Muito bem. Este ponto
no precisa sequer de ser discutido. Temos tambm de considerar o factor tempo. Calcas, o nosso sacerdote, falou de dez anos: sinto-me inclinado a acreditar na sua
profecia. De facto, ns no estamos aqui para derrotar apenas uma cidade! Ns estamos aqui para derrotar muitas naes. Naes que se estendem desde Tria at 
Cilcia. Uma empresa desta magnitude no pode ser feita de um dia para o outro! Mesmo que consegussemos derrubar as muralhas de Tria, a empresa no estaria terminada!
Seremos ns piratas? Bandidos? Ladres de estrada? Se somos, ento assaltamos uma cidade e voltamos para casa com os despojos. Mas eu creio que ns no somos piratas.
Eu creio que no devemos limitar-nos a Tria! Temos de ir mais longe - temos de derrotar a Dardnia, a Msia, a Ldia, a Cria, a Lcia e a Cilcia!
Aquiles estava rendido: observava Nestor com uma ateno que nunca lhe vira. Tal como Agammnon.
- Que aconteceria - disse Nestor, com um ar pensativo - se dividssemos o nosso exrcito em dois? Metade ficaria aqui diante de Tria e a outra metade agiria, digamos,
livremente. A fora acampada diante de Tria serviria para conter Tria: teria de ser pelo menos to ampla como qualquer exrcito que Pramo eventualmente enviasse
para a combater. A segunda fora percorria a costa da sia Menor, atacando, pilhando e incendiando todas as povoaes entre Andramtios e a longnqua Cilcia. Essa
segunda fora dizimaria e devastaria, obteria escravos, saquearia cidades, assolaria os campos, apanharia o inimigo desprevenido. Deste modo, alcanaramos dois
objectivos - manteramos as duas metades do nosso exrcito convenientemente abastecidas de alimentos e outros produtos necessrios
- talvez mesmo produtos luxuosos! - e levaramos os aliados de Tria a sentir um to grande e constante medo que nunca se arriscariam a enviar a Pramo ajuda de
nenhum tipo. Em nenhum ponto da costa h concentraes populacionais capazes de resistirem a um exrcito vasto e bem conduzido. Mas duvido muito que os reis da sia
Menor se lembrem de abandonar as suas terras para se juntarem em Tria. No creio que esses reis possuam uma viso das coisas suficientemente profunda. Por isso,
no creio que abandonem as suas terras.
Claro que Ulisses e Nestor tinham congeminado tudo aquilo antecipadamente! As palavras de Nestor deslizavam como mel sobre um bolo. Ulisses sorria de satisfao
e aprovao e Nestor estava no seu elemento.
- A metade do exrcito que ficar diante de Tria impedir os Troianos de atacarem o nosso acampamento ou os nossos navios - prosseguiu Nestor. - Por outro lado,
contribuir de uma forma decisiva para que o moral dos soldados e cidados de Tria sofra um rude golpe. Aquilo que temos de fazer  transformar uma proteco numa
priso: no esprito dos habitantes de Tria, as protectoras muralhas passaro a ser um crcere! No entrarei agora em pormenores, mas sempre lhes digo que h muitas
maneiras de influenciar o esprito dos Troianos, desde a cidadela  mais humilde choupana. Acreditem no que lhes digo: h muitas maneiras de conseguir isso! A astcia
 absolutamente essencial, mas, com Ulisses, ns possumos essa arma em abundncia.
Nestor suspirou e pediu mais vinho; desta feita, porm, Ptrocles serviu com extremo respeito e diligncia o idoso rei de Pilos.

#- Se decidirmos ir para a frente com esta guerra - continuou Nestor haver uma multido de recompensas prontas a colher. Tria  muito mais rica do que ns alguma
vez sonhmos. Os despojos enriquecero todas as nossas naes - tal como nos enriquecero a ns. Aquiles tinha razo neste ponto. Gostaria de lembrar que Agammnon
sempre advogou o esmagamento dos aliados da sia Menor. Se os esmagarmos, poderemos colonizar todas estas terras, poderemos trazer para aqui muitos dos nossos cidados
e dar-lhes condies de vida muito superiores quelas de que gozam na Grcia, onde vivem literalmente apinhados. E - prosseguiu ele, a voz baixando de tom, mas crescendo
em poder -, mais importante do que tudo o resto, o Helesponto e o mar Euxino sero nossos. Poderemos colonizar tambm as margens do Euxino. Teremos todo o estanho
e cobre de que precisamos para produzir o bronze. Teremos o ouro da Ctia. Esmeraldas. Safiras. Rubis. Prata. L. Trigo. Cevada. Electro. Outros metais. Outros alimentos.
Outras mercadorias. Uma perspectiva verdadeiramente estimulante, no acham?
Mexemo-nos nos nossos lugares, comemos a sorrir uns para os outros, enquanto que Agammnon parecia ganhar uma nova vida.
- As muralhas de Tria, devemos deix-las absolutamente em paz - prosseguiu o velho Nestor, to firme como um jovem. - A metade do exrcito que ficar diante de Tria
ter uma funo meramente irritante - fomentar a perturbao entre os Troianos e dever limitar-se a escaramuas sem grande importncia. O local onde agora estamos
 excelente para acampamentos. No vejo a menor necessidade de nos mudarmos para outro stio. Ulisses, como  que se chamam os dois rios?
A resposta foi rpida.
- O rio maior, o que tem as guas amarelas,  o Escamandro. So os esgotos de Tria que o poluem - foi por isso que proibimos os nossos homens de se banharem nessas
guas ou de molharem sequer os lbios nelas. O rio mais pequeno, o das guas lmpidas,  o Simoente.
- Obrigado. A nossa primeira tarefa consistir em construir uma muralha defensiva que v desde o Escamandro ao Simoente, distante cerca de meia lgua da lagoa. Ter
de ter uma altura de pelo menos quinze cbitos. No exterior, colocaremos uma paliada de estacas pontiagudas e cavaremos uma trincheira com uma profundidade de quinze
cbitos, com mais estacas pontiagudas no fundo. Estes trabalhos mantero ocupados os soldados que aqui ficarem durante o Inverno - e mant-los-o quentes, pois no
h melhor remdio para o frio do que o trabalho.
De sbito, Nestor calou-se e acenou para Ulisses.
- J estou cansado. Continua tu, Ulisses. Claro que tinham maquinado aquilo tudo! Ulisses prosseguiu como se tivesse estado a falar desde o princpio.
No permitiremos que os exrcitos permaneam inactivos. Por isso, as duas metades do nosso exrcito revezar-se-o - seis luas diante de Tria, seis luas atacando
ao longo da costa. Deste modo, no haver nunca cansao entre as nossas hostes. Nunca ser demais acentuar - disse - que temos de criar e alimentar a impresso de
que, se preciso for, tencionamos permanecer neste lado do Egeu por toda a eternidade! Quero que os povos da sia Menor,  medida que os anos forem passando, se sintam
cada vez mais desesperados, debilitados, impotentes. A metade mvel do nosso exrcito sangrar at  morte Pramo e os seus aliados. O ouro deles acabar nos nossos
cofres. Calculo que teremos de esperar dois anos para que a mensagem penetre nas suas conscincias - mas penetrar, e para sempre! Tem de penetrar!
- Posso concluir, portanto - disse Aquiles, num tom e com uns modos muito educados -, que a metade mvel do nosso exrcito no viver aqui.
- No, essa metade ter o seu prprio quartel-general - disse Ulisses, agradado com a polidez de Aquiles. - Mais para sul, talvez na fronteira entre a Dardnia e
a Msia. H nessa regio um porto chamado Assos. Nunca l estive, mas Tlefo garante que  adequado para tais funes. Os despojos da costa sero trazidos para aqui,
tal como todos os alimentos e outros artigos. Entre Assos e a nossa praia, operar constantemente uma frota de abastecimento, a qual navegar sempre junto  costa,
sejam quais forem as condies meteorolgicas, por uma questo de segurana. Fnix , entre a nossa alta nobreza, o nico marinheiro capaz e experiente. Sugiro,
por isso, que fique encarregado dessa frota de abastecimento. Sei que ele jurou a Peleu que nunca abandonaria Aquiles, mas, cumprindo essas funes, creio que no
estar a abandon-lo.
Calou-se por um momento e deixou que os seus olhos cinzentos fitassem cada um dos pares de olhos que o observavam.
- Terminarei, lembrando a todos que Calcas disse que a guerra durar dez anos. Julgo, efectivamente, que no durar menos de dez anos. E  nisso que todos tm de
pensar. Dez anos longe de casa. Dez anos durante os quais os nossos filhos crescero longe de ns. Dez anos durante os quais as nossas esposas tero de governar.
A ptria fica demasiado longe e a nossa misso aqui  demasiado exigente para que possamos dar-nos ao luxo de visitarmos a Grcia. Dez anos  muito, muito tempo.
- Virou-se para Agammnon e fez-lhe a vnia. - Rei supremo, o plano que eu e Nestor delinemos s ser vlido com a tua aprovao. Se o reprovares, Nestor e eu nada
mais diremos. Somos, como sempre, teus servos.
Dez anos longe de casa. Dez anos de exlio. A conquista da sia Menor valeria um tal preo? Eu, pelo menos, no sabia se valia. Embora creia que, se no fosse Ulisses,
ter-me-ia feito ao mar no dia seguinte. Porm, era bvio que ele tomara j a deciso de ficar: por isso, nunca dei voz ao desejo que me roa o corao.

#Agammnon suspirou profundamente.
- Assim seja, ento. Dez anos. Creio que a recompensa vale bem esses dez anos. Teremos muito a ganhar. Contudo, porei a deciso  votao. Os restantes reis devero
apoiar esta empresa tanto como eu.
Levantou-se e postou-se diante de ns.
- Gostaria de lembrar que a maior parte dos presentes so reis ou herdeiros de reis. Ns, os Gregos, fizemos depender o nosso conceito de realeza dos favores dos
deuses do cu. Derrubmos o jugo do matriarcado quando substitumos a Velha Religio pela Nova. Porm, enquanto reinam, os homens tm de pedir o apoio dos deuses
do cu, pois os homens no podero nunca ser frteis, no podero nunca conhecer os mistrios da concepo das crianas ou das coisas da Me Terra. Ns respondemos
perante o nosso povo de uma maneira diferente do que fazamos nos tempos da Velha Religio. Ns ramos as vtimas sacrificiais, as indefesas criaturas que a rainha
oferecia para apaziguar a Me quando a colheita era escassa, ou quando se perdia a guerra, ou quando descia sobre ns uma praga terrvel. A Nova Religio libertou
os homens desse destino, elevou-os  condio de verdadeiros soberanos. Respondemos perante o nosso povo directamente. Portanto, eu sou favorvel a esta portentosa
empresa. Ela ser a salvao do nosso povo, ela espalhar por todo o lado os nossos costumes e tradies. Se voltasse agora  minha ptria, sentir-me-ia humilhado
diante do meu povo e teria de admitir a derrota. Como poderia eu resistir, se o povo, partilhando a minha humilhao, decidisse voltar  Velha Religio, decidisse
sacrificar-me e devolver  minha esposa o soberano estatuto?
Sentou-se na sua cadeira e ps as mos brancas e elegantes sobre os joelhos vestidos de prpura.
- Procedamos ento  votao. Se algum homem deseja retirar e voltar para a Grcia, que erga a sua mo.
Ningum ergueu mo nenhuma.
- Muito bem. Ficamos. Ulisses, Nestor, tm mais sugestes a apresentar?
- No, rei Agammnon - disse Ulisses.
- No, rei Agammnon - disse Nestor.
- Idomeneu?
- Estou satisfeito, Agammnon.
- Nesse caso, seria melhor analisarmos desde j os pormenores. Ptrocles, j que foste nomeado nosso copeiro, diz aos criados que nos tragam comida.
- Como dividirs o exrcito, rei Agammnon? - perguntou Merona.
- Como sugeri, atravs de uma rotao de contingentes. Contudo, gostaria de acrescentar uma clusula a tais disposies. Creio que o Segundo Exrcito deveria ter
um ncleo duro de homens permanentes, homens que faro parte dele ao longo de toda a guerra. Alguns dos presentes so jovens extremamente prometedores. Ficariam
aborrecidos de morte se tivessem de permanecer um tempo infindo diante de Tria. Eu terei de ficar aqui todo o ano, tal como Idomeneu, Ulisses, Nestor, Diomedes,
Menesteu e Palamedes. Aquiles, os dois jax, Teucro e Merona, vocs so jovens.  a vocs que confio o Segundo Exrcito. O alto-comando ir para Aquiles. Aquiles:
sers responsvel tanto perante mim como perante Ulisses. Todas as decises relativas s actividades do Segundo Exrcito ou  vida no interior de Assos sero tuas,
ainda que possa haver nesse exrcito homens com um estatuto superior ao teu. Entendido? Aceitas o alto-comando?
Aquiles levantou-se de um salto, tremendo; custava-me a suportar o brilho que havia nos seus olhos, to dourado e intenso como o de Hlio.
- Juro por todos os deuses que nunca achars motivos para lamentares a confiana que depositas na minha chefia, rei Agammnon.
- Sendo assim, nomeio-te comandante supremo do Segundo Exrcito, filho de Peleu. Escolhe os teus lugares-tenentes - disse Agammnon.
Olhei para Ulisses e abanei a cabea; respondeu-me erguendo uma ruiva sobrancelha e piscando o olho cinzento. Ele havia de ver quando o apanhasse sozinho! Francamente...
Maquinaes secretas!

#
Captulo Dcimo Sexto
Narrado por Helena

 sombra de Tria, Agammnon erigiu, pedra a pedra, uma nova cidade; todos os dias, da minha varanda, mais alta do que as muralhas, espreitava os Gregos acampados
nas areias do Helesponto. Ao longe, pareciam formigas, e como formigas trabalhavam, arrastando pedras e empilhando troncos de rvores descomunais a fim de construrem
uma muralha que ia desde o cintilante Simoente ao imundo Escamandro. As casas proliferavam mesmo para l da praia, casernas imponentes destinadas a acomodarem os
soldados durante o Inverno, depsitos de cereais onde o trigo e a cevada eram convenientemente guardados, imunes s investidas dos ratos e do tempo.
Sofrera a minha vida um rude golpe desde que a frota grega chegara a Tria, embora a minha vida nunca tivesse sido aquilo que eu imaginara antes de partir para Tria.
Porque ser que, quando olhamos para o tear do tempo, nunca conseguimos ver claramente o futuro, mesmo quando o tear do tempo no-lo d a ver, claro e definido? Eu
tinha olhos para ver. Eu deveria t-lo visto. Mas Pris era tudo para mim. Que viam os meus olhos? Pris, Pris, Pris.
Em Amiclas, eu fora a rainha. Era o meu sangue que legitimava Menelau no trono. O povo da Lacedemnia contava com a filha de Tndaro para que velasse pelo seu bem-estar
e para que, atravs dela, pudesse entrar em contacto com os deuses. Eu era importante. Quando, no meu rgio carro, percorria as ruas de Amiclas, os populares baixavam
a cabea, ajoelhavam. Era venerada. Era adorada. Era a ranha Helena, o nico dos gmeos da divina Leda que ao povo restava. E, sempre que o passado diante dos meus
olhos desfilava, apercebia-me de quo intensa e preenchida fora a minha vida em Amiclas - as caadas, os torneios desportivos, as festas, a corte, as diverses de
toda a sorte. Nesses tempos em Amiclas, costumava dizer a mim mesma que o tempo era para mim um pesado fardo; agora, porm, eu sabia que, nesses tempos passados,
no conhecera nunca o significado da palavra tdio.

#No que toca ao tdio, aprendi tudo o que havia a aprender desde que cheguei a Tria. Aqui, no sou rainha. Aqui, no passo de um elemento insignificante seja a
que nvel for. Sou a esposa de um filho imperial sem grande importncia. Sou uma estrangeira detestada. Sou limitada por normas e regulamentos que no posso ignorar,
pois no possuo nem o poder nem a autoridade para tal. E no h nada para fazer, stio nenhum aonde ir! No posso acenar para um qualquer criado e pedir um carro,
no posso ir para os campos prximos e ver os homens disputando jogos ou preparando-se para a guerra. Sou uma prisioneira na cidadela. Quando tentei descer  cidade,
toda a gente, desde Hcuba a Antenor, protestou: que eu era leviana, imoral, caprichosa o suficiente para confraternizar com o povo mido! No compreenderia eu,
disseram, que, se passasse por uma taberna mal frequentada e os homens vissem os meus seios expostos, acabaria por ser violada ali mesmo na rua, por todos eles?
Disse-lhes que, se era esse o problema, no me custava nada cobrir os seios. Mesmo assim, a resposta de Pramo foi um no rotundo.
De sbito, os meus aposentos (Pramo fora generoso neste particular - eram belos e amplos os aposentos de Pris e Helena) e as cmaras onde se reuniam as nobres
da cidadela passaram a ser os limites do meu mundo. Ao mesmo tempo, descobria que Pris, o meu maravilhoso Pris, era um homem igual aos outros. Ele consegue sempre
o que pretende. O que no inclui fazer companhia  esposa. Eu no passo de um objecto para o amor - e o amor  coisa breve quando os amantes j no tm nada de novo
a aprender um sobre o outro.
Depois de os Gregos terem chegado, a minha vida, que eu considerava j to entediante, piorou ainda mais. As pessoas passaram a ver-me como a causa da catstrofe
e a culpar-me do aparecimento de Agammnon. Idiotas! De incio, tentei convencer a nobreza troiana de que, se Agammnon queria a guerra, no era por causa de mulher
nenhuma, nem mesmo quando essa mulher era duas vezes sua cunhada: com efeito, acrescentei, Agammnon falava de guerra desde a noite em que os sacerdotes haviam esquartejado
o cavalo branco e em que a minha mo fora dada a Menelau. Ningum me deu ouvidos. Ningum quis dar-me ouvidos. Eu, diziam eles, eu era a razo pela qual os Gregos
estavam ali, nas areias do Helesponto. Eu era a razo pela qual a cidade grega crescia para l das poderosas muralhas que haviam erigido desde o cintilante Simoente
ao imundo Escamandro. Tudo era culpa minha!
Pramo estava muito afectado. Pobre velho. Empoleirava-se na ponta da sua cadeira de ouro e marfim, em vez de se afundar nela, como costumava fazer, e punha-se a
arrancar plos das longas barbas e mandava homens atrs de homens  torre de vigia ocidental, pois queria manter-se a par de todos os progressos dos Gregos. Desde
o dia em que, pela primeira vez, entrara na sua Sala do Trono, o velho Pramo experimentara toda a gama de emoes, desde o jbilo (porque, graas a mim, escarnecera
de Agammnon)  mais absoluta perplexidade. Muito se riu ele, enquanto os Gregos no deram nenhuma indicao de que tencionavam permanecer; tinha a felicidade estampada
no rosto quando os seus aliados lhe prometeram ajuda. Porm, quando a muralha defensiva grega comeou a ser construda, a consternao tomou conta do seu rosto e
um peso imenso fez vergar os seus ombros.
Gostava muito de Pramo, ainda que lhe faltasse a fora e a dedicao comuns aos reis gregos. Na Grcia, um rei tinha de ser muito forte se queria manter o seu poder
- ou tinha de ter um irmo cuja fora chegasse para os dois. O caso de Tria era muito diverso: os antepassados de Pramo reinavam em Tria desde tempos imemoriais.
O povo troiano tinha por ele um amor que os povos gregos nunca poderiam ter pelos seus reis; apesar disso, Pramo era menos firme no cumprimento dos seus deveres,
pois estava seguro de que nunca perderia o seu trono.
A palavra dos deuses no era to preciosa para ele como para os reis gregos.
O velho Antenor, o cunhado do rei, no perdia uma nica oportunidade para me censurar; odiava-o mais do que ao prprio Pramo! Sempre que os olhos remelosos de Antenor
se fixavam em mim, tudo o que encontrava neles era o fogo da inimizade. Depois, a boca dele abria-se e as censuras comeavam, um longo rosrio de censuras. Porque
 que eu me recusava a cobrir os seios? Porque  que batera na minha criada? Porque  que eu no tinha jeito para as tarefas que s mulheres competiam, como tecer
e bordar? Porque  que eu no me calava, bem pelo contrrio, as minhas opinies, quando era norma entre as mulheres no terem opinio nenhuma? Havia sempre em mim
algo que merecia censura e Antenor l estava para me censurar.
Quando os Gregos concluram a muralha que rodeava a praia do Helesponto, Pramo perdeu finalmente a pacincia com que sempre suportara os ataques de Antenor.
- Cala-te, velho pateta! - gritou-lhe. - Agammnon no veio a Tria por causa de Helena. Crs que ele e os reis seus vassalos gastaram tanto e to precioso dinheiro
unicamente para levarem uma mulher que deixou a Grcia de sua livre vontade? O que Agammnon quer  Tria e a sia Menor e no Helena! Ele quer colnias gregas nas
nossas terras - ele quer encher os seus cofres com as nossas riquezas -, ele quer que os seus navios entrem livremente no Helesponto e livremente naveguem no Euxino!
A esposa de meu filho  apenas um pretexto, no mais do que um pretexto! Se devolvssemos Helena aos Gregos, estaramos muito simplesmente a participar no jogo que
Agammnon montou! Por isso, probo-te de voltares a falar de Helena! Entendeste bem o que eu disse, Antenor?
Antenor baixou os olhos e, com uma vnia exagerada, acatou as palavras do rei.

#Os estados da sia Menor comearam a enviar os seus embaixadores a Tria; a assembleia seguinte a que assisti estava cheia de representantes dessas naes. No
consegui decorar todos aqueles estranhos nomes, nomes como Paflagnia, Cilcia, Frgia. Pramo atribua mais importncia a uns embaixadores do que a outros, mas
a todos reservou um digno tratamento. No entanto, as suas mais fervorosas saudaes foram, sem dvida, para o embaixador da Lcia. Chamava-se Glauco e dividia com
um primo o governo da Lcia. Chamava-se Sarpdon esse primo. Pris, a quem o pai ordenara que assistisse  reunio, segredou-me que Glauco e Sarpdon eram to inseparveis
como gmeos, para alm de amantes. Um disparate, entre reis. Como no tinham esposas, nunca teriam herdeiros.
- Asseguro-te, rei Glauco, que, quando tivermos expulso os Gregos da nossa costa, a Lcia receber uma vasta parte dos despojos - disse Pramo, com lgrimas nos
olhos.
Glauco, um homem relativamente jovem (e muito belo), sorriu. -A Lcia no est aqui por causa dos despojos, tio Pramo. O rei Sarpdon e eu queremos apenas uma coisa
- esmagar os Gregos e mand-los de volta para o outro lado do Egeu. O nosso comrcio  vital para a Lcia, pois ocupamos a ponta sul desta costa. Todo o comrcio
desta regio passa pela Lcia: tanto o que se dirige para os nossos vizinhos do Norte, como o que se dirige para Sul, para Rodes, para Chipre, para a Sria, para
o Egipto. A Lcia  a porta giratria de todo o comrcio da regio. Cremos que devemos juntar as nossas foras, no por cobia, mas sim por necessidade pura e simples.
Asseguro-te que, na Primavera, contars j com as nossas tropas e com ajudas de outro tipo. Vinte mil homens, todos eles convenientemente equipados e abastecidos.
As lgrimas deslizavam pelas faces de Pramo, pois um corao que  velho comove-se pela mais pequena coisa.
- Os meus muito sentidos agradecimentos, meu querido sobrinho - disse-lhe o rei de Tria.
Avanaram depois os outros, alguns to generosos como os da Lcia, outros regateando dinheiro ou privilgios. Pramo prometia a todos o que eles queriam que ele
prometesse - no admira que o nmero de soldados no parasse de crescer e que a ajuda prevista ganhasse uma dimenso gigantesca. No final da assembleia, comecei
a duvidar que Agammnon conseguisse resistr a to portentosa fora. Pramo disporia de duzentos mil homens na plancie logo que, na Primavera do ano seguinte, o
aafro espreitasse sob a neve que entretanto derretera. O meu ex-cunhado seria derrotado - a menos que pudesse contar com reforos ou que tivesse algum truque escondido
na manga prpura. Se assim era, porque estava eu to inquieta? Porque conhecia o meu povo. Ai daquele que, perante os Gregos, abrandasse a sua vigilncia: em pouco
tempo, teria a sua sepultura cavada. Eu conhecia bem os conselheiros de Agammnon e vivia em Tria h tempo suficiente para saber que o rei Pramo no possua conselheiros
com o valor de Nestor, Palamedes ou Ulisses.
Ah, que entediantes que eram aquelas assembleias! Assistia a elas unicamente porque o resto da minha vida era ainda mais entediante. Tirando o rei, a ningum era
permitido sentar-se e muito menos uma mulher. Doam-me os ps. Por isso, enquanto o embaixador da Paflagnia, envergando algo que parecia ser um conjunto de suaves
peles bordadas, arengava num dialecto que eu no entendia, deixei que os meus olhos passeassem ociosamente pela multido. At que se detiveram num homem que estava
ao fundo e que, pelos vistos, acabara de chegar. Ah, que belo homem! Belssimo!
Avanou facilmente por entre a multido. Era mais alto do que todos os presentes, excepto Heitor, que se encontrava, como de costume, ao lado do pai. O recm-chegado
tinha toda a altivez de um rei - alm do que devia imaginar-se um dos grandes deste mundo. Fez-me lembrar Diomedes; tinha o mesmo jeito gracioso de andar e o mesmo
ar duro de guerreiro. Cabelos escuros, olhos escuros, vestia ricamente; o manto que lhe caa descuidadamente sobre os ombros possua o forro mais belo que alguma
vez vira, uma pele de aspecto muito suave e macio, com manchas fulvas. Aos ps do estrado do trono, curvou-se muito ligeiramente, como um rei faz perante outro rei
cuja primazia tem dificuldade em reconhecer.
- Eneias! - exclamou Pramo, num tom muito peculiar. - H tanto tempo que esperava por ti...
- Sabes a razo da minha demora, rei Pramo - disse o homem chamado Eneias.
- J viste por acaso os Gregos?
- Ainda no, rei Pramo. Entrei pela Porta Dardaniana. A nfase com que pronunciara o nome da porta era significativa. Lembrei-me entretanto que j tinha ouvido
aquele nome: Eneias era o herdeiro da Dardnia. O pai, o rei Anquises, governava a metade sul daquelas terras; vivia numa cidade chamada Lirnesso. Pramo falava
sempre com desprezo da Dardnia, de Anquises ou Eneias; imaginara eu que, em Tria, consideravam Anquises e Eneias homens inferiores em estatuto e riqueza, mas Pris
dissera-me que o rei Anquises era primo direito de Pramo e que Drdano fundara tanto a casa real de Tria como a casa real de Lirnesso.
-  Sugiro ento que vs at  varanda e que olhes na direco do Helesponto - disse Pramo, transbordando de sarcasmo.
- Como queiras. Eneias no demorou muito.
Parece que tencionam ficar.  isso?

#- Uma concluso perspicaz. Eneias ignorou a ironia.
- Por que razo me chamaste? - perguntou.
- No ser bvia essa razo? Agammnon, depois de ter abocanhado Tria, engolir a Dardnia e Lirnesso. Quero que as tuas tropas me ajudem a esmagar os Gregos na
prxima Primavera.
- A Grcia no tem qualquer conflito com a Dardnia.
- A Grcia, actualmente, no precisa de pretextos para lanar guerras. A Grcia quer terras, bronze e ouro.
- Pois bem, rei Pramo, a julgar pela formidvel assembleia hoje aqui reunida, creio poder concluir que no precisars dos homens da Dardnia para te ajudarem a
esmagar os Gregos. Quando realmente precisares de ns, acredita que trarei um exrcito. Mas no na Primavera.
- Mas eu preciso dos vossos soldados na Primavera do prximo ano!
- Duvido que precises. Pramo bateu no cho com o seu ceptro de marfim; a esmeralda do punho emitia centelhas de azul.
Eu quero os teus soldados! No posso comprometer-me com nada sem a permisso explcita do meu pai - uma permisso que, por ora, no tenho.
Pramo, sem saber o que mais dizer, virou-lhe a cara. Mal ficmos sozinhos, cheia de curiosidade, interroguei Pris acerca daquela estranha discusso.
- Que se passa entre o teu pai e o prncipe Eneias? Pris afagou-me preguiosamente o cabelo.
- Rivalidade.
- Rivalidade? Mas um governa a Dardnia e o outro Tria!
- Sim, mas h um orculo que diz que Eneias reinar um dia em Tria. O meu pai teme que a palavra do deus se cumpra. Eneias conhece tambm esse orculo. Espera por
isso que seja tratado como o herdeiro. Porm, se pensarmos que o meu pai tem cinquenta filhos, a atitude de Eneias  perfeitamente ridcula. Quanto a mim, quer-me
parecer que o orculo se refere a um outro Eneias - um Eneias que ainda no nasceu.
- Parece-me um homem - disse eu, pensativa - muito atraente. Pris fitou-me. Havia nos seus olhos um estranho brilho.
- Espero que nunca te esqueas de quem s esposa, Helena. Afasta-te de Eneias.
Definhava o amor que nos unira. Como era possvel que isso tivesse acontecido, quando eu me apaixonara por ele logo que o vira? Contudo, o fogo era agora cinzas.
Talvez porque descobrira, ao fim de pouco tempo, que, apesar da paixo que nutria por mim, Pris no conseguia resistir ao desejo de conhecer outras mulheres. Nem
ao desejo de, chegado o Vero, se ir divertir para as florestas do monte Ida, No Vero, entre a minha chegada a Tria e o desembarque dos Gregos, Pris desaparecera
durante seis luas. Quando por fim regressou, nem sequer me pediu desculpa! No se dava conta to-pouco do que eu sofrera durante a sua ausncia.
Algumas das mulheres da corte no se poupavam a esforos para transformar a minha existncia num tormento constante. A rainha Hcuba abominava-me; considerava-me
a runa do seu querido Pris. A mulher de Heitor, Andrmaca, abominava-me porque eu usurpara o seu ttulo, o ttulo da mais bela mulher de Tria - e tambm porque
temia que Heitor sucumbisse aos meus encantos. Como se isso alguma vez me tivesse passado pela cabea! Heitor no passava de um moralista e de um pedante, to formal
e rgido que, ao fim de pouco tempo, j o considerava o homem mais enfadonho de uma corte cheia de homens enfadonhos!
No entanto, era Cassandra, a jovem princesa, quem mais me aterrava. Deambulava por salas e corredores com a cabeleira negra flutuando livre e imensa, os olhos prenhes
de loucura, o rosto muito branco devastado pelo que lhe ia na alma.
Sempre que me via, rompia numa estridente diatribe - dizia-me coisas que me ofendiam mas que no faziam sentido, pois as palavras e as ideias surgiam to emaranhadas
que ningum conseguia desvendar-lhes a lgica. Eu era um demnio, dizia ela. Eu era um cavalo. Eu era aquela que trazia a desordem. Eu estava conluiada com a Dardnia.
Eu estava conluiada com Agammnon. Eu era a runa de Tria. E por a adiante. Cassandra perturbava-me: uma perturbao de que Hcuba e Andrmaca depressa se aperceberam.
Da que tivessem encorajado Cassandra a procurar-me; esperavam, evidentemente, que eu nunca mais sasse do meu quarto. Mas Helena era mais forte do que elas pensavam.
Em vez de me retirar para o meu quarto, juntava-me a Hcuba, Andrmaca e s outras nobres que se reuniam na cmara de recreio e deixava-as profundamente irritadas,
pois punha-me a afagar os seios
(verdadeiramente magnficos) diante dos seus escandalizados olhos (nenhuma delas se teria atrevido a mostrar os seus seios flcidos e mirrados). Quando me fartava
dessa brincadeira, arranjava outras: esbofeteava uma criada, derramava leite para cima daqueles horrorosos tecidos e tapearias de que elas tanto gostavam, rompia
em monlogos sobre violaes, fogo e saque. Numa memorvel manh, deixei Andrmaca to furiosa que a mulher de Heitor acabou por me declarar guerra - para logo descobrir
que, em rapariga, Helena praticara luta e tinha a maior facilidade em bater uma dama mimada. Deitei-a por terra e dei-lhe um tal murro no olho que, durante quase
uma lua, a pobre Andrmaca andou de olho inchado, fechado e negro. Depois, tratei de espalhar que fora Heitor o autor de to triste obra.

#Perseguiam Pris, advertindo-o de que devia disciplinar-me; a me, em particular, no o largava. Porm, sempre que ele se propunha ralhar-me ou pedir-me que fosse
mais simptica, eu desatava a rir-me dele e oferecia-lhe uma litania de todos os insultos de que fora alvo por parte das outras mulheres da corte. O que, tudo junto,
significava que Pris era, para mim, uma presena cada vez mais fugaz.
O Inverno chegou e a corte de Tria sentiu-se pela primeira vez inquieta. Dizia-se que os Gregos tinham deixado a praia e percorriam agora a costa da sia Menor,
atacando uma srie de cidades muito afastadas entre si. Pramo enviou  praia um destacamento fortemente armado, a fim de investigar o que realmente se passava.
Afinal, os Gregos continuavam l - e at abandonaram o acampamento para travar breves escaramuas com o destacamento troiano. Mesmo assim, com o avanar do Inverno,
continuaram a chegar a Tria notcias de ataques a outras cidades; um a um, os aliados de Pramo trataram de anunciar que j no podiam honrar as suas promessas.
Agora, eram as suas prprias terras que se encontravam ameaadas. Tarso, na Cilcia, foi incendiada e a sua populao morta ou submetida  escravatura; os campos
e os pastos situados cinquenta lguas  volta da cidade foram queimados, depois de os cereais terem sido levados por navios gregos; o gado foi massacrado e as carnes
fumadas em defumadouros cilicianos para depois encherem as barrigas dos Gregos; os templos foram despojados dos seus tesouros, o palcio do rei Eecio foi saqueado.
Msia foi a vtima seguinte. Lesbos resolveu auxiliar a Msia, mas depressa se arrependeu, pois os Gregos atacaram-na. Termos foi arrasada; os Lesbianos lamberam
as suas feridas e concluram que talvez fosse mais oportuno juntarem-se a Agammnon, tanto mais que uma parte dos seus antepassados eram Gregos. Pouco tempo depois,
na Cria, as cidades de Priena e Mileto sucumbiram s tropas gregas. Foi ento que se instalou na corte troiana um verdadeiro pnico. At mesmo Sarpdon e Glauco,
os reis que em conjunto governavam a Lcia, se viram obrigados a ficar nos seus domnios.
As notcias de cada novo ataque eram-nos comunicadas de um modo absolutamente inusitado. A mensagem era trazida por um arauto grego que se postava diante da Porta
Ceia e gritava as suas notcias para o comandante da torre de vigia ocidental. Dizia-nos qual fora a cidade saqueada, quantos cidados haviam sido mortos, o nmero
de mulheres e crianas vendidas como escravas, o valor dos despojos, o total de canecas de cereais. E conclua a sua mensagem sempre com as mesmas palavras: - Diz
a Pramo, rei de Tria, que foi Aquiles, o filho de Peleu, que me mandou! Os Troianos comeavam a ficar apavorados com aquele nome. Na Primavera, Pramo teve de
suportar em silncio a presena do acampamento grego, j que as foras aliadas no apareceram para o ajudar e tambm porque ele no tinha dinheiro para comprar mercenrios
aos Hititas, aos Assrios ou aos Babilnios. O dinheiro troiano tinha de ser cuidadosamente conservado; agora, com efeito, eram os Gregos quem cobrava os tributos
do Helesponto.
Uma iniludvel desolao comeou a penetrar tanto os coraes como os palcios troianos. E, como eu era a nica criatura grega a viver na cidadela, toda a gente,
desde Pramo a Hcuba, me perguntava quem era aquele homem chamado Aquiles. Contei-lhes o que sabia, mas quando lhes expliquei que o filho de Peleu pouco mais era
do que um rapaz - embora possuindo uma excelente linhagem toda a gente duvidou de mim.
O tempo foi passando e o medo de Aquiles aumentando; a simples meno do seu nome chegava para que Pramo ficasse lvido. Apenas Heitor mostrava no estar com medo.
Aparentemente, daria tudo para poder combater contra Aquiles. Os seus olhos iluminavam-se e a sua mo afagava o punhal sempre que o arauto grego se postava diante
da Porta Ceia com notcias frescas. De facto, na mente de Heitor, um eventual combate contra Aquiles transformou-se numa verdadeira obsesso. Chegou ao ponto de
fazer oferendas em todos os altares da cidade, rogando aos deuses que lhe dessem a oportunidade por que o seu corao ansiava. Tudo o que queria era travar um duelo
com Aquiles e mat-lo. Tambm ele me interrogou acerca de Aquiles: recusou-se a acreditar nas minhas respostas.
Chegado o Outono do segundo ano, Heitor perdeu a pacincia e pediu ao pai que o deixasse sair das muralhas com todo o exrcito troiano.
Pramo ficou paralisado a olhar para ele. Deve ter pensado nesse momento que o seu herdeiro tinha enlouquecido.
- No, Heitor - respondeu-lhe.
- Pai, as nossas investigaes revelaram que os homens que se encontram no acampamento so menos de metade do total dos soldados gregos! Seria fcil derrot-los!
Derrotado o exrcito que est acampado na praia, o exrcito de Aquiles teria de voltar para Tria! Ento... ento derrot-lo-amos!
- Ou seramos derrotados.
- Pai, ns somos mais do que eles! - exclamou Heitor.
- No acredito nisso. Desesperado, Heitor continuou a apresentar motivos susceptveis de convencerem o aterrorizado pai de que era ele quem tinha razo.
- Nesse caso, deixa-me ir ter com Eneias a Lirnesso - com o apoio dos Dardanianos, ficaramos com mais soldados do que Agammnon!
- Eneias no quer envolver-se nos nossos dilemas.
- Eneias dar-me-ia ouvidos, pai. Pramo ergueu-se, ofendido.

#-Autorizar o meu filho - autorizar o meu herdeiro - a suplicar ajuda aos Dardanianos? Mas tu enlouqueceste, Heitor? Preferia morrer a curvar-me perante Eneias!
Nesse preciso instante, por mero acaso, vi Eneias. Acabava de entrar na Sala do Trono, mas ouvira j o suficiente. A sua boca cerrada exprimia um claro desagrado;
os seus olhos ora atentavam em Pramo, ora examinavam Heitor, mas seria impossivel saber que pensamentos lhe percorriam a mente. Antes que algum importante reparasse
nele - eu no era importante - deu meia volta e abandonou a sala.
- Pai - disse Heitor, cada vez mais desesperado -, ns no vamos ficar eternamente no interior destas muralhas! Os Gregos esto decididos a reduzir a cinzas os nossos
aliados! A nossa riqueza comea a minguar porque os nossos rendimentos se eclipsaram e porque o abastecimento da cidade est a tornar-se cada vez mais oneroso! Se
no me deixas sair da cidade  frente do exrcito troiano, ento deixa-me ao menos chefiar destacamentos que possam apanhar os Gregos desprevenidos, que possam assolar
os destacamentos deles e obrig-los a acabar com estas insolentes expedies s nossas muralhas, com as quais pretendem apenas uma coisa - insultar-nos!
Pramo sentiu-se vacilar. Pousou o queixo na mo e reflectiu por um longo perodo. Aps o qual suspirou e disse: - Muito bem. Comea a preparar os homens. Se conseguires
convencer-me de que no se trata de uma empresa temerria, poders fazer aquilo que pretendes.
O rosto de Heitor todo se iluminou.
- No te desapontarei, meu pai!
- Espero bem que no - retorquiu Pramo, manifestamente cansado. Algum na Sala do Trono desatou a rir-se. Olhei  minha volta, surpreendida; pensava que Pris se
havia ausentado uma vez mais. Mas no, ali estava ele, rindo-se a bom rir. Sombras turvaram de sbito a expresso feliz de Heitor; desceu do estrado e avanou por
entre a multido.
- Qual a razo das tuas gargalhadas, Pris?
O meu marido aquietou-se um pouco, ps um brao por cima dos ombros do irmo.
- Tu, Heitor, tu! Tanta coisa por causa de umas simples escaramuas, quando tens uma mulher to atraente em casa! Como  possvel que prefiras a guerra s mulheres?
- Porque - atirou-lhe Heitor - eu sou um homem e no um rapazinho bonito! Fiquei como que paralisada. O meu marido no era apenas um idiota - era tambm um cobarde!
Ah, que terrvel humilhao! Dando-me conta do desprezo com que toda a gente me olhava, abandonei a sala.
Idiotas e belos, assim ramos ns. Eu desistira do meu trono, da minha liberdade e dos meus filhos para viver numa priso com um homem que era belo, idiota e tambm
cobarde. Porque sentia eu to poucas saudades dos meus filhos? A resposta era fcil. Os meus filhos pertenciam a Menelau; e agora, algures numa qualquer regio da
minha mente, via-me obrigada a juntar Menelau, os meus filhos e Pris num mesmo e odioso lote. Haveria destino mais terrvel para uma mulher do que saber que em
toda a sua vida, no havia um nico ser que fosse digno dela?
Precisava de ar fresco. Fui para o ptio que dava acesso aos meus aposentos e a desatei a andar de um lado para o outro at conseguir aplacar a dor tremenda que
sentia. A certa altura, ao virar-me, quase colidia com um homem que vinha em sentido contrrio. Instintivamente, erguemos as nossas mos para nos protegermos; por
um momento, manteve-se a uma escassa distncia de mim, contemplando curioso o meu rosto enquanto, nos seus olhos escuros, se esbatiam os ltimos vestgios da sua
prpria ira.
- Deves ser Helena - disse ele.
- E tu s Eneias.
- Sou.
- No vens muitas vezes a Tria - disse eu, entregando-me ao prazer de o apreciar.
- Sers capaz de me apontar uma razo para que eu venha?
No valia a pena dissimular. Sorri.
- No - disse.
- Gosto do teu sorriso, mas v-se que ests furiosa - disse ele. - Porqu?
- Isso  um assunto s meu.
- Discutiste com Pris?
- De modo nenhum- retorqui, abanando a cabea. - Discutir com Pris  to difcil como agarrar em mercrio.
- Sem dvida - disse ele. Nesse instante, inopinadamente, acariciou-me o seio esquerdo.
- Uma moda muito agradvel, deix-los assim... a descoberto... Mas h um problema, Helena: excitam muito um homem...
As minhas plpebras fecharam-se, a minha boca abriu-se expectante de desejo.
-  agradvel saber que os meus seios te excitam... - disse eu, num murmrio quase inaudvel. Esperando os seus lbios, o meu rosto procurou o seu rosto, os olhos
ainda cerrados. Porm, quando os abri - porque no sentia j diante de mim rosto nenhum, to-pouco os lbios, to-pouco o beijo - Eneias j l no estava.
Agora que o tdio era uma coisa do passado, compareci na assembleia seguinte decidida a seduzir Eneias. Mas Eneias no se dignou aparecer. Quando perguntei a Heitor,
o mais descontraidamente possvel, o que acontecera ao seu primo da Dardnia, o meu cunhado respondeu-me que Eneias aparelhara os cavalos a meio da noite e regressara
a casa.

#
Captulo Dcimo Stimo
Narrado por Ptrocles

Os estados da sia Menor tratavam agora de sarar as suas feridas, depois de os sobreviventes se terem refugiado nas vastas montanhas que pertenciam aos Hititas.
Temiam avanar para Tria e temiam agrupar-se fosse onde fosse, porque no faziam a mnima ideia quanto ao local onde os Gregos atacariam a seguir. Na realidade,
ns j os tnhamos derrotado antes de nos termos feito ao mar para a nossa primeira campanha; todas as vantagens estavam do nosso lado; percorramos a costa demasiado
longe para que pudessem espiar-nos de terra; a nossa mobilidade era muito maior do que a deles, pois as vias de comunicao entre os vrios focos populacionais daquela
regio de vales profundos e serras escarpadas no eram de molde a facilitar os movimentos. As naes da sia Menor, de facto, comunicavam atravs do mar, e, agora,
ramos ns quem dominava o mar.
Ao longo do primeiro ano, interceptmos muitos navios que traziam armas e comida para Tria, mas tais comboios cessaram logo que os reis da sia Menor se aperceberam
de que ramos ns, e no os Troianos, quem ficava a ganhar. ramos demasiados para eles; nenhuma das cidades que se espalhavam por aquela longa costa poderia nutrir
a esperana de que, um dia, conseguiria reunir um exrcito forte o suficiente para nos derrotar. Por outro lado, as muralhas das suas cidades eram demasiado fracas
para as nossas investidas. E foi assim que saquemos dez cidades em dois anos, algumas to distantes como Tarso, na Cilcia, outras to prximas de Tria como Msia
e Lesbos.
Sempre que navegvamos, Fnix deixava os navios de abastecimento entre Assos e Tria sob o comando do seu lugar-tenente, e seguia connosco, chefiando os duzentos
navios vazios onde seriam guardados os despojos. Sempre que deixvamos para trs mais uma cidade incendiada, esses mesmos navios ficavam to carregados de despojos
que havia quem temesse o seu afundamento; at mesmo os navios que transportavam os soldados rangiam sob o peso dos despojos que no

#tinham cabido nos duzentos navios de Fnix. Aquiles era implacvel. Poucos eram os sobreviventes - seria praticamente impossvel voltar a organizar a resistncia
antigrega. Aqueles que no podamos reduzir  escravatura ou vender ao Egipto e  Babilnia eram mortos - mulheres idosas, homens mirrados pela idade, todos aqueles
que os negociantes de escravos achavam que j no teriam qualquer prstimo. Ao longo daquela costa, o nome de Aquiles era um nome odiado e, no meu ntimo, eu no
poderia condenar aquela gente por odiar Aquiles.
No incio do nosso terceiro ano, Assos regressou lentamente  vida; a neve comeava a derreter, as rvores prometiam flores. No havia entre ns disputas nem divergncias,
pois h muito que havamos esquecido todas as lealdades, excepto aquela que devamos a Aquiles e ao Segundo Exrcito.
Sessenta e cinco mil homens estavam aquartelados em Assos: um ncleo duro de vinte mil veteranos que fazia sempre parte do nosso exrcito, mais trinta mil que ficavam
connosco o tempo que durasse a campanha, mais quinze mil profissionais e artfices de todo o tipo, alguns dos quais permaneciam em Assos todo o ano. Um dos chefes
permanentes ficava sempre em Assos, para o caso de a Dardnia resolver atacar a cidade, enquanto a frota se fazia ao mar; at mesmo jax chegou a ficar em Assos,
embora Aquiles navegasse sempre; tal como eu, pois nunca me separava de Aquiles. O meu amigo era um chefe feroz - eram impiedosos os seus ataques e um inimigo que
se rendesse pouco ou nada ganhava com isso. Mal vestia a sua armadura, Aquiles tornava-se to frio como o vento norte, implacvel. A razo da nossa existncia -
dizia-nos ele - era assegurar a supremacia grega e no deixar naquelas terras qualquer oposio, tendo em vista o dia em que as naes gregas comeassem a enviar
os seus excedentes populacionais para as novas colnias da sia Menor.
Aps uma campanha na Lcia, j no fim do Inverno (Aquiles parecia ter um pacto com os deuses do mar, pois nunca tnhamos problemas de navegao, fosse no Vero,
fosse no Inverno), abeirvamo-nos finalmente do porto de Assos. jax estava na praia para nos saudar, informando-nos, com eufricos sinais, do seu tremendo desejo
de voltar para a guerra, e de que, durante a nossa ausncia, no se registara qualquer ameaa  cidade. A Primavera inundara j as terras de Assos: a erva chegava
j aos tornozelos, flores tempors salpicavam os prados, os cavalos do acampamento saltavam e brincavam nos seus pastos, o ar era suave e to estonteante como o
vinho a que no misturamos gua. Enchendo os nossos peitos das fragrncias daquele que era ento o nosso lar, corremos s amuradas dos navios, desejosos de saltar
para os seixos que rolavam ao sabor das mars.
Separmo-nos depois, com a inteno de nos encontrarmos mais tarde. jax acompanhou o Pequeno jax e Teucro, os seus braos portentosos cingindo os ombros de ambos,
ao passo que Merona seguia  frente de toda a gente, inchado de superioridade cretense. Quanto a mim, acompanhei Aquiles, deliciado por estar de novo em Assos.
As mulheres tinham trabalhado duramente durante a nossa ausncia; nos quintais e jardins, rebentos de um verde-plido prometiam ervas e legumes para as panelas,
ou grinaldas de flores para as nossas cabeas. Uma bela regio, a de Assos, completamente diferente daquela onde Agammnon montara o seu desolado acampamento. As
nossas habitaes espalhavam-se a esmo por entre o abundante arvoredo e as ruas serpeavam tal e qual as ruas de qualquer cidade. Claro que, apesar disso, a segurana
era total. Rodeavam-nos uma muralha com vinte cbitos de altura, uma paliada e uma trincheira; e nem mesmo durante as mais frias luas de Inverno faltava um nico
guarda nas nossas fortificaes. No que o inimigo mais prximo, a Dardnia, parecesse interessado em atacar-nos; constava que o seu rei, Anquises, continuava de
candeias s avessas com Pramo.
Havia mulheres por todo o lado no acampamento, algumas j com gravidezes adiantadas; alis, durante o Inverno, haviam nascido imensos bebs. Agradou-me v-los, mais
s suas mes, pois tinham o condo de mitigar a angstia que a guerra sempre traz, o vazio que em ns sempre provoca o acto de matar. Nenhum daqueles bebs era meu,
to-pouco de Aquiles. Considero as mulheres criaturas interessantes, ainda que no sinta por elas nenhuma atraco fsica. Todas aquelas mulheres eram cativas das
nossas espadas; contudo, depois do choque e da desorientao iniciais, pareciam ter conseguido esquecer o passado e os homens que haviam amado; como que se tinham
convencido de que poderiam amar um outro homem, ter novas famlias e adoptar os costumes gregos. Bom, elas no eram guerreiros - eram a presa dos guerreiros. Quer-me
parecer que as realidades femininas lhes so ensinadas na infncia pelas suas mes. As mulheres so construtoras de ninhos; por isso, para elas, o ninho  algo de
extrema importncia. Claro que houve algumas que nunca conseguiram esquecer o passado, que choravam, que lamentavam a sua sorte; no ficaram muito tempo em Assos;
vendidas como escravas, foram trabalhar para as terras lamacentas onde o Eufrates quase se junta ao Tigre; imagino que a tero morrido, chorando ainda a sua triste
sorte.
O salo era a maior diviso da nossa casa, servindo tanto de sala de estar como de sala de reunies. Aquiles e eu entrmos ao mesmo tempo, os nossos ombros juntos
roando a estrutura da porta. Sentia sempre um prazer tremendo quando entrvamos os doisjuntos por aquela porta, como se, de algum modo, esse simples acto fosse
um claro smbolo daquilo em que nos havamos transformado: senhores do mundo.
Despi a minha armadura sozinho, ao passo que Aquiles deixou que as mulheres lhe tirassem a sua, erguendo-se como uma torre, enquanto meia dzia de escravas se atarefavam
a desapertar correias e a desatar ns, desatando num cacarejar nervoso logo que viram o longo vergo negro de uma ferida meio sarada nas

#suas coxas. Nunca consegui aceitar que as escravas me desarmassem; eu bem vira os seus rostos quando as havamos escolhido como parte do nosso quinho dos despojos.
Mas Aquiles no se preocupava nada com isso. Deixou que elas lhe tirassem a espada e o punhal, aparentemente sem se dar conta de que uma delas poderia aproveitar
uma tal oportunidade para o matar. Desconfiado, sondei os seus movimentos, mas tive de concluir que era diminuto o perigo de uma tal ocorrencia. Desde a mais nova
 mais velha, todas estavam apaixonadas por ele. As nossas banheiras estavam j cheias de gua quente. Saiotes e blusas lavados de fresco esperavam-nos mal acabssemos
de tomar banho.
Depois de comermos e bebermos, Aquiles mandou embora as mulheres e, com um suspiro, recostou-se no div. Estvamos ambos cansados, mas no valeria a pena tentarmos
dormir; a luz do dia escoava-se j pelas janelas e era muito provvel que, em breve, os nossos amigos invadissem a nossa habitao.
Aquiles tinha estado muito calado o dia todo - nada de invulgar, excepto que o silncio daquele dia sugeria que a sua mente pairava muito longe dali. No gostava
de o ver assim. Era como se ele se afastasse para um qualquer lugar onde eu no tinha entrada, para um mundo que era s seu, deixando-me a gritar s suas portas
sem que ningum me ouvisse. Abeirei-me dele e toquei-lhe no brao, ainda que com mais fora do que desejava.
- Aquiles, mal tocaste no vinho.
- No me apetece.
- Sentes-te mal? A minha pergunta surpreendeu-o.
- No.  sinal de doena eu recusar o vinho?
- No. Ser antes sinal de que a tua disposio no  a melhor.
Suspirou profundamente, olhou lentamente  sua volta. -Adoro esta sala mais do que qualquer outra. Porque esta sala pertence-me. Porque no h nela uma nica coisa
que no tenha sido ganha com a minha espada. Esta sala diz-me que eu sou Aquiles, no o filho de Peleu.
- Sim,  uma bela sala - disse eu. Aquiles franziu o sobrolho. -A beleza  uma indulgncia dos sentidos,  algo que eu ponho ao mesmo nvel que a enfermidade. No,
eu adoro esta sala porque ela  o meu trofu.
- Um esplndido trofu - disse eu, meio atrapalhado. Ele ignorou as minhas banais palavras e de novo se refugiou no seu mundo privado; tentei uma vez mais traz-lo
de volta ao nosso mundo.
- Apesar de vivermos juntos h j tanto tempo, continuas a dizer coisas que no entendo. Estou convicto de que gostas de certas manifestaes do belo. Viver considerando
que o belo  uma enfermidade no  viver, Aquiles.
- Pouco me interessa como  que vivo ou quanto tempo vou viver - retorquiu. - A nica coisa que me interessa  que a minha vida assegure a minha fama eterna.  preciso
que os homens no me esqueam depois de o meu corpo ter descido  sepultura. - A sua disposio alterou-se de repente. - Crs que, no meu desejo de alcanar a fama,
tenho seguido pelo caminho errado?
- Isso  algo que s depende de ti e dos deuses - respondi. - No pecaste contra os deuses - no mataste nenhuma mulher frtil nem crianas demasiado pequenas para
poderem empunhar armas. No  pecado conden-las  servido. No mataste  fome nenhuma cidade. Se a tua mo tem sido pesada, tambm  verdade que no tem sido uma
mo criminosa. S que eu sou uma criatura mais branda do que tu -  s essa a diferena.
Um sorriso esboou-se nos seus lbios.
- Subestimas-te, Ptrocles. Com uma espada na mo, s to duro e valente como qualquer um de ns.
-A batalha  algo de diferente. Sou capaz de matar sem piedade num campo de batalha. Por vezes, porm, os meus sonhos so sombrios e tormentosos.
- Tal como os meus. Ifignia amaldioou-me antes de morrer.
Incapaz de prosseguir a conversa, Aquiles refugiou-se de novo nos seus pensamentos; calei-me tambm e contemplei-o, pois contempl-lo era precisamente aquilo que
eu mais gostava de fazer. Muitas das suas qualidades escapavam  minha compreenso; contudo, se havia no mundo algum homem que conhecesse Aquiles, esse homem era
eu. Aquiles possua a invulgar capacidade de atrair o amor de toda a gente: tanto o dos Mirmides como o das suas cativas - ou o meu amor. Porm, a razo dessa atraco
no estava nos seus atributos fsicos, mas sim numa faceta muito peculiar do seu esprito, num qualquer territrio espiritual que parecia faltar a todos os outros
homens.
Desde que havamos largado de ulida, havia trs anos, que Aquiles se tornara um indivduo extremamente reservado; perguntava-me, por vezes, se a sua esposa o reconheceria
quando voltassem a ver-se. Claro que a raiz dos seus problemas era a morte de Ifignia - algo que eu compreendia e partilhava. O que eu no compreendia era o distante
mundo onde os seus pensamentos o levavam, os lugares mais recnditos da sua mente.
Uma sbita e fria rajada de vento fez esvoaar as cortinas de cada lado da janela. Estremeci, sobressaltado. Aquiles continuava deitado de lado, a cabea pousada
sobre uma mo, mas a sua expresso havia mudado. Chamei por ele: no me respondeu.
De sbito, assustado, saltei do meu div para a beira do div dele. Pus a minha mo sobre o seu ombro nu, mas ele pareceu no se dar conta disso. Com o corao num
alvoroo, fitei a pele sob a minha mo e baixei a cabea at que os

#meus lbios a afagaram; lgrimas corriam-me sob as plpebras, to rapidamente que uma delas deslizou pelo seu brao. Amedrontado, afastei os lbios do seu ombro
mal ele se virou para me fitar; havia nos seus olhos uma expresso no inteiramente clara - como se, naquele exacto momento, houvesse visto o verdadeiro Ptrocles
pela primeira vez.
Abriu aquela pobre fenda sem lbios para falar, mas no chegou a dizer aquilo que quereria dizer-me. Os olhos procuraram a porta aberta e a boca murmurou apenas:
- A minha me. Horrorizado, reparei que estava a babar-se, que a sua mo esquerda se agitava numa convulso, que o lado esquerdo do rosto se arrepanhava. Ento,
inopinadamente, caiu redondo no cho; todo o seu corpo se retesou, a espinha arqueou-se, os olhos ficaram to cegos e to brancos que pensei que ele ia morrer. Sentei-me
a seu lado no cho, encostei-o a mim, estreitei-o nos meus braos, esperando at que o negrume do rosto se esbatesse e se transformasse num cinzento eivado de manchas,
que as convulses parassem, que ele revivesse. Quando tudo acabou, limpei-lhe a saliva que tinha nos cantos da boca, embalei-o nos meus braos, afaguei-lhe o cabelo
encharcado de suor.
- Que se passou contigo, Aquiles? Os seus olhos nublados fixaram-se nos meus; lentamente, voltava a este mundo. Ento, suspirou como uma criana exausta.
-A minha me voltou e trouxe com ela o sortilgio. Creio que, durante todo o dia, a senti por perto.
O sortilgio! Ento aquilo  que era o sortilgio? A mim, parecia-me muito simplesmente um acesso de epilepsia, embora os epilpticos que conhecera acabassem sempre
por perder faculdades mentais at carem por completo na demncia; por outro lado, a demncia, ao fim de pouco tempo, conduzia-os inevitavelmente  morte. Aquilo
de que Aquiles padecia - fosse l o que fosse - no afectava a sua mente. Havia ainda que ter em conta a reduzida frequncia dos acessos. De facto, fora em Ciros,
bastantes anos antes, que o sortilgio se manifestara pela ltima vez.
- Porque veio ela, Aquiles?
- Para eu no me esquecer de que vou morrer.
- No podes dizer uma coisa dessas! Como  que sabes? - Ajudei-o a erguer-se, a deitar-se no div. Sentei-me a seu lado. - Desta vez, Aquiles, eu pude ver os efeitos
desse tal sortilgio. A mim, pareceu-me um ataque epilptico.
- Talvez tenhas razo, talvez eu padea de epilepsia. Mas  a minha me que provoca os acessos - para que eu no me esquea da minha mortalidade. E tem razo. Eu
morrerei antes que Tria caia nas nossas mos. O sortilgio  um prenncio de morte, da minha futura vida no mundo das sombras, sem sentir nada, longe de tudo...
- A sua boca cerrou-se por um momento. - Longa e ignominiosa ou curta e gloriosa. No h escolha - e  isso que ela no entende. As aparies da minha me, sob a
forma deste sortilgio, no podero alterar rigorosamente nada. A minha escolha est feita desde Ciros.
Virei-lhe as costas, ocultei os olhos com o brao.
- No chores por mim, Ptrocles. Eu escolhi o destino que queria. Afastei as lgrimas.
- No choro por ti, Aquiles, choro por mim mesmo. Embora no estivesse a olhar para ele, senti que algo nele mudara.
- Ns partilhamos o mesmo sangue, Ptrocles - disse ele. - Um momento antes de o sortilgio me ter vencido, vi em ti algo que nunca antes vira.
- O meu amor por ti - disse eu, com um n na garganta.
- Sim. Desculpa. Devo ter-te magoado muitas vezes, por no compreender o teu amor. Mas diz-me: porque choras?
- Os homens choram quando o seu amor no  retribudo. Aquiles levantou-se do div e estendeu-me as suas mos.
- Eu retribuo o teu amor, Ptrocles - disse ele. - Sempre retribu.
- Mas tu no s um homem capaz de amar outro homem, e  esse o amor que eu quero.
- Talvez isso fosse verdade se eu tivesse escolhido uma vida longa e ignominiosa. Mas no foi essa a minha   escolha. E, embora no te possa dar todo o amor que
queres, a verdade  que no me repugna a ideia de fazer amor contigo. Estamos juntos neste exlio - e creio que seria maravilhoso se partilhssemos o exlio tanto
em esprito como na carne - disse Aquiles.
Foi nesse dia que nos tornmos amantes, ainda que no encontrasse no homem que amava o xtase com que havia sonhado. Mas alguma vez encontraremos esse xtase? Aquiles
ardia por muitas coisas - o saciar do desejo fsico nunca foi uma delas. Mas que importncia  que isso tinha? Muito pouca... Ele pertencia-me mais do que a qualquer
mulher, e nisso, pelo menos, achava eu alguma satisfao. O amor no  verdadeiramente o corpo. O amor  a liberdade de percorrer sem peias o corao e a mente do
amado.
S ao fim de cinco anos regressmos a Tria e a Agammnon. Como no poderia deixar de ser, acompanhei Aquiles, que decidira levar tambm consigo jax e Merona.
Estava consciente de que esta visita j deveria ter sido feita h muito tempo, mas creio que, mesmo assim, Aquiles nunca teria ido se no tivesse realmente necessidade
de se encontrar com Ulisses. Com o tempo, a ingenuidade dos estados da sia Menor dera lugar  astcia; com efeito, graas a elaborados estratagemas, eram j capazes
de antecipar os nossos ataques.

#A longa e desolada praia entre os rios Simoente e Escamandro nem parecia a mesma que havamos deixado quatro anos antes. O ar improvisado, atamancado, do acampamento
inicial, desaparecera por completo; tudo naquela praia falava de permanncia e determinao. As fortificaes eram eficientes e bem concebidas. Havia duas entradas
para o acampamento, uma no Escamandro, outra no Simoente, onde pontes de pedra haviam sido erguidas por sobre a trincheira e portas enormes abertas na muralha.
jax e Merona desembarcaram na extremidade da praia junto ao Simoente, ao passo que eu e Aquiles aportmos junto ao Escamandro, logo descobrindo que haviam sido
construdas habitaes para albergar os Mirmides mal estes regressassem. Avanmos pela estrada principal do acampamento, procurando a nova casa de Agammnon, a
qual, ao que nos tinham dito, era verdadeiramente grandiosa.
Homens curavam feridas descansando ao sol, outros assobiavam alegres enquanto aplicavam sebo nas armaduras de cabedal ou poliam as de bronze, outros ainda retiravam
plumas cor de prpura de elmos troianos, certamente com a inteno de virem a us-las numa prxima batalha. Um local onde a azfama e a alegria eram evidentes. No
havia dvida: as tropas que tinham ficado em Tria no conheciam a doena da preguia.
Ulisses vinha a sair da casa de Agammnon no preciso momento em que chegmos. Quando nos viu, encostou a lana ao prtico e, com um sorriso imenso, abriu para ns
os seus braos. Havia duas ou trs cicatrizes novas no seu robusto corpo - seriam vestgios de alguma batalha ou das suas excurses nocturnas? Entre todos os homens
desonestos que pude conhecer, Ulisses foi o nico que nunca receou arriscar a sua vida num campo de batalha. Talvez porque nele tudo era da cor do fogo, ou talvez
porque estava convencido de que, graas a Palas Atena, um encantamento protegia a sua vida.
J no era sem tempo! - exclamou, abraando-nos. E, virando-se para Aquiles: - Finalmente! O heri conquistador!
- J no conquisto tanto como conquistava. As cidades costeiras aprenderam a lio: j conseguem prever os meus ataques.
- Podemos falar disso mais tarde - disse Ulisses, entrando connosco. Tenho de te agradecer a considerao que demonstraste por ns, Aquiles. Mandaste-nos generosos
despojos e algumas mulheres muito interessantes.
- Ns, em Assos, no padecemos de cobia. Mas, pelo que vejo, tu tambm tens tido muito trabalho por estas bandas. Muitos combates?
- O bastante para manter toda a gente em forma. Heitor tem lanado uns ataques particularrnente irritantes.
Aquiles, de sbito, ps um ar alerta.
Heitor?
o herdeiro de Pramo e comandante dos Troianos. Agammnon deu-nos as boas-vindas com um ar satisfeito mas formal. Contudo, no nos props sequer que passssemos
a manh com ele. Aquiles tambm no teria gostado de uma tal proposta; desde que ouvira o nome de Heitor que estava desejoso de saber mais e mais acerca do prncipe
troiano e tinha perfeita conscincia de que Agammnon no era a pessoa mais indicada para o informar.
Nenhum deles tinha de facto mudado ou envelhecido, tirando uma ou duas cicatrizes novas. Se algum tinha mudado, era Nestor, que parecia mais novo.
Nestor estava no seu elemento, ocupado e constantemente estimulado. Idomeneu tornara-se menos indolente, o que era bom para a sua figura. Apenas Menelau parecia
no ter beneficiado com a vida num acampamento de campanha; o pobre coitado continuava rodo de saudades de Helena.
Ficmos como convidados de Ulisses e Diomedes, que tambm se tinham tornado amantes. Em parte por necessidade, em parte porque gostavam francamente um do outro.
As mulheres eram uma complicao para homens que levavam a vida que ns levvamos, e Ulisses, creio eu, nunca havia reparado noutra mulher para alm de Penlope,
ainda que constasse que no se recusava a seduzir algumas mulheres troianas a fim de obter informaes. Pela primeira vez, Ulisses falou-nos da existncia da sua
colnia de espies - uma histria verdadeiramente extraordinria. Ningum sabia de nada.
-  espantoso que ningum saiba de nada! - disse Aquiles. - Por todos os deuses, se eles soubessem! Eu no sabia - tal como nenhum dos meus companheiros.
- Nem mesmo Agammnon sabe - disse Ulisses.
- Por causa de Calcas? - perguntei.
- Um palpite perspicaz, Ptrocles... Com efeito, eu no confio em Calcas.
- Bom, no ser atravs de ns que Agammnon e Calcas ficaro a saber disse Aquiles.
Ficmos em Tria uma lua. Durante todo esse tempo, Aquiles s pensou numa coisa - defrontar Heitor.
- Aconselho-te a esqueceres Heitor, rapaz - disse Nestor no final de um jantar que Agammnon deu em nossa honra. - Podes ficar aqui todo o Vero e no ver Heitor
uma nica vez. As surtidas de Heitor parecem no obedecer a qualquer plano. No podemos prev-las, apesar de todas as informaes que Ulisses nos traz de Tria.
E, neste momento, ns tambm no temos projectada nenhuma incurso.
- Incurses? - perguntou Aquiles, alarmado. - Vo tomar a cidade na minha ausncia?
- No, no! - exclamou Nestor. - No temos condies para tomar de assalto Tria: nem mesmo que a Cortina Ocidental russe amanh. Vocs tm a me-

#lhor parte do exrcito em Assos - e sabem muito bem que tm. Volta para Assos, Aquiles! No vale a pena ficares aqui  espera de Heitor.
- Nada indica que Tria venha a cair na tua ausncia, prncipe Aquiles disse uma voz suave atrs de ns: o sacerdote Calcas.
- Que queres dizer com isso? - perguntou Aquiles, obviamente perturbado por aqueles olhos rseos e vesgos.
- Tria no poder cair na tua ausncia.  o que dizem os orculos. - E logo se afastou, o manto prpura tremeluzindo de ouro e pedras preciosas. Ulisses fazia bem
em manter secretas algumas das suas actividades. O nosso rei supremo nutria grande estima pelo velho; a sua residncia (vizinha da de Agammnon) era sumptuosa e
Calcas podia escolher  vontade entre as mulheres que ns envivamos de Assos. Diomedes contou-me que, certa vez, Idomeneu ficou to furioso por Calcas lhe ter roubado
uma mulher de quem gostava, que levou o caso ao conselho e obrigou Agammnon a tirar a mulher ao sacerdote e a d-la ao seu co-comandante.
E foi assim que Aquiles deixou Tria profundamente decepcionado. Tal como jax, como se veio a ver. Ambos tinham deambulado vezes sem conta pela ventosa plancie
troiana, na esperana de convencerem Heitor a abandonar as muralhas. Contudo, nem sequer a sombra de Heitor - ou de quaisquer tropas troianas - conseguiram ver.
Os anos foram avanando inexoravelmente, sem que nada de fundamental mudasse. As naes da sia Menor foram tombando lentamente, enquanto os mercados de escravos
do mundo transbordavam de Lcios, Crios, Cilicianos e de mais uma dzia de nacionalidades. Nabucodonosor recebia de bom grado tudo o que lhe mandvamos para Babilnia,
ao passo que Tiglate-Pileser da Assria esquecia os laos que uniam os Hititas aos Troianos e comprava milhares de escravos. Descobri que no havia uma nica nao
que se desse por satisfeita com os escravos que tinha e que h muito que no havia uma guerra - nem um Aquiles que fornecesse tantos escravos a essas naes.
Nos intervalos entre os nossos ataques, a vida nem sempre foi pacfica. Alturas houve em que a me de Aquiles o perseguiu, dia aps dia, com o seu maldito sortilgio;
depois, partia para um qualquer outro lugar e deixava-o tranquilo durante luas a fio. Porm, eu aprendera a tornar esses perodos mais fceis para ele; Aquiles dependia
agora de mim para todas as suas necessidades. E haver algo de mais reconfortante do que saber que o nosso amado depende de ns para tudo?
Um navio chegou certa vez de lolcos, trazendo mensagens de Peleu, Licomedes e Deidamia. Graas ao constante fluxo de bronze e de mercadorias que agora se verificava
no Egeu, a prosperidade voltara  Grcia. Enquanto a sia Menor ficava sem pinga de sangue, a Grcia engordava. Segundo Peleu, os primeiros colonizadores gregos
da sia Menor tinham comeado j a reunir-se em Atenas e Corinto.
Para Aquiles, a notcia mais importante era a que dizia respeito ao seu filho, Neoptolemo. Pouco tempo faltava para que chegasse  idade adulta! Quanto tempo passara
j! Segundo Deidamia, o rapaz estava quase to alto como o pai e mostrava possuir a mesma aptido para o combate e as armas. Embora fosse mais turbulento do que
o pai e tivesse j feito mil conquistas femininas. Isto j para no falar do seu mau gnio e de uma tendncia para beber demasiado vinho sem gua. Da a dias, faria
dezasseis anos.
- Vou ordenar a Deidamia e a Licomedes que mandem o rapaz para a corte do meu pai - disse Aquiles depois de ter mandado embora o mensageiro. - O meu filho precisa
da mo de um homem a control-lo. - O seu rosto franziu-se de tristeza. - Ah, Ptrocles, os filhos que eu e Ifignia no teramos tido!
Sim, a morte de Ifignia continuava a atorment-lo - ainda mais, cria eu, do que Ttis e o seu sortilgio.
Precismos de nove anos para reduzir a cinzas a sia Menor. No final do nono Vero, j no havia mais nada para fazer. Os colonizadores gregos comeavam a chegar
a locais como Colofo e Apasas, todos eles desejosos de iniciarem uma nova vida numa nova terra. Alguns dedicar-se-iam  agricultura, outros ao comrcio, outros
ainda, provavelmente, seguiriam para leste ou para norte. Nada disso tinha a mnima importncia para ns, que formvamos o ncleo duro do Segundo Exrcito. A nossa
misso estava concluda. Ou melhor: faltava ainda o ataque, nesse Outono, a Lirnesso, a capital do reino da Dardnia.

#
Captulo Dcimo Oitavo
Narrado por Aquiles

A Dardnia ficava mais perto de Assos do que qualquer outra nao da sia Menor. Contudo, deixara-a deliberadamente em paz durante os nove anos da nossa campanha,
enquanto reduzamos a runas as cidades costeiras da sia Menor. Uma das razes para esta deciso residia no facto de a Dardnia ser um territrio interior que partilhava
uma fronteira com Tria. A outra razo era mais subtil: eu queria dar aos Dardanianos um falso sentimento de segurana, queria que eles acreditassem que o facto
de estarem longe do mar os tornava inviolveis. Alm disso, a Dardnia no confiava em Tria. Enquanto os deixasse em paz, o velho rei Anquises e o seu filho Eneias
no se associariam a Tria.
Agora, tudo isso estava prestes a mudar. A invaso da Dardnia no demoraria. Em vez da longa viagem habitual, preparei as minhas tropas para uma rdua jornada;
se Eneias, por acaso, estivesse  espera de algum ataque, pensaria por certo que iramos por mar, contornaramos o canto da pennsula e aportaramos  costa defronte
de Lesbos. Da at Lirnesso, seria uma marcha de apenas quinze lguas. Mas eu tencionava marchar a partir de Assos: quase cem lguas de terras desoladas, desde as
encostas do monte Ida at ao frtil vale que albergava Lirnesso.
Ulisses dera-me batedores experientes. Antecipadamente, mandei-os investigar as terras por onde passaramos; informaram-me de que havia densas florestas, de que,
no nosso caminho, poucas quintas havia, e de que os pastores j no se aventuravam a sair com o gado, pois o Outono era severo. Mandei que trouxessem dos depsitos
todas as peles e botas resistentes que houvesse, pois o Ida estava j coberto de neve at meio dos seus flancos, e era muito provvel que apanhssemos tempestades
de neve. Calculava que marcharamos cerca de quatro lguas por dia; ao fim de vinte dias, avistaramos j o nosso objectivo final. Ao dcimo quinto dia, Fnix, o
meu almirante, conduziria a sua frota at  praia deserta de Andramtio, o porto mais prximo. No era crvel que a Fnix

#se lhe deparasse oposio. Eu incendiara Andramtio no incio do ano - pela segunda vez.
Avanmos silenciosa e calmamente e os dias de marcha foram-se sucedendo sem incidentes. No havia pastores nas colinas nevadas - no havia ningum que pudesse correr
para Lirnesso a fim de denunciar a nossa presena. A tranquila paisagem s a ns pertencia e a nossa marcha, afinal, revelou-se mais fcil do que se pensara. No
admira, pois, que tenhamos avistado a cidade de Lirnesso ao dcimo sexto dia. Ordenei aos meus homens que parassem e proibi as fogueiras at poder determinar se
teramos ou no sido detectados.
Era meu hbito proceder sozinho  investigao final; parti por isso a p e sem qualquer companhia, ignorando os protestos de Ptrocles, o qual, por vezes, me fazia
lembrar uma galinha velha. Porque ser que o amor sempre alimenta o sentimento de posse e reduz drasticamente a liberdade?
Ao fim de no mais de trs lguas, subi uma colina e vi Lirnesso a meus ps, espraiando-se por uma vasta rea e dispondo de boas muralhas e de uma cidadela elevada.
Estudei por algum tempo a cidade, combinando aquilo que via com o que os batedores de Ulisses me haviam dito. No, o assalto no seria fcil; por outro lado, tambm
era verdade que seria muito menos difcil do que o assalto s muralhas de Esmirna ou de Tebas Hipoplaquiana.
Cedendo  tentao, desci um pouco a encosta, tanto mais que o stio era verdadeiramente aprazvel; com efeito, aquele era o lado do monte protegido do vento, para
alm de no haver neve, nem frio. Um erro grave, Aquiles!, disse para mim mesmo, e, nesse exacto momento, quase tropeava nele: uma criatura humana que estava deitada
no cho. O desconhecido afastou-se, rolando agilmente sobre si mesmo, e, com extrema maleabilidade, ps-se de p; depois, correu at ficar fora do alcance da minha
lana; por fim, parou para me examinar. O desconhecido fazia-me lembrar, e de que maneira, Diomedes; tinha mesmo o ar feroz e felino de Diomedes e, tendo em conta
o vesturio e o porte, s poderia ser um membro da mais alta nobreza. Tendo memorizado o catlogo de todos os dirigentes troianos e aliados que Ulisses fizera para
ns, decidi que aquele s poderia ser Eneias.
- Eu sou Eneias e no estou armado! - gritou ele.
- Tanto pior, dardaniano! Eu sou Aquiles e estou armado! Aparentemente muito pouco impressionado, Eneias ergueu as sobrancelhas e atirou-me:
- No h dvida: h alturas na vida de um homem precavido em que a prudncia deve sobrepor-se  coragem! Encontramo-nos em Lirnesso!
Sabendo que era um bom corredor, mais veloz do que muitos outros, tratei de persegui-lo a um ritmo ligeiro, no excessivamente rpido. Queria ver se conseguia cans-lo.
Mas Eneias era muito veloz, alm de que conhecia a disposio do terreno. Obrigou-me por isso a meter por caminhos cheios de moitas (e onde h moitas, sempre h
espinhos), a avanar por terrenos crivados de crateras (as tocas de raposas e coelhos), e, por fim, a atravessar um curso de gua to largo quanto baixo; ele atravessou
o rio com facilidade, pois conhecia bem as pedras que a gua ocultava, ao passo que eu tinha de parar em cada rocha e procurar a seguinte. E foi assim que o perdi
de vista e desatei a amaldioar a minha estupidez. Lirnesso saberia, com um dia de antecedncia, que os Gregos iam atac-la.
Mal o Sol espreitou no cu, dei incio  marcha; confesso que a minha disposio deixava muito a desejar. Trinta mil homens espalharam-se pelo vale de Lirnesso,
cingindo facilmente as muralhas da cidade. Os Dardanianos acolheram-nos com uma rpida saraivada de dardos e lanas, mas os meus homens ergueram os escudos para
se protegerem e no sofremos nenhuma baixa. Com uma coisa fiquei espantado: parecia no haver muitos homens para l das muralhas! Perguntei-me se os Dardanianos
no seriam por acaso uma raa de cobardes. No entanto, Eneias parecia tudo menos o chefe de um povo degenerado.
Lanmos as escadas de corda. Conduzindo os Mirmides, alcancei a pequena passagem que encimava as muralhas sem se me ter deparado uma nica pedra ou com as temveis
nforas de azeite a ferver. Quando um pequeno grupo de defensores apareceu, ceifei-os num pice com o meu machado, sem precisar sequer de pedir reforos. Ao longo
de toda a muralha, as minhas tropas dizimavam o inimigo com uma facilidade francamente ridcula... Depressa entendi porqu: os nossos oponentes eram todos velhos
e rapazinhos.
Ao fim de pouco tempo, descobri que Eneias, no dia anterior, regressara  cidade e ordenara imediatamente aos seus soldados que pegassem em armas. Mas no com a
inteno de me enfrentar. Com efeito, o filho de Anquises partira sem demora para Tria com o seu exrcito.
- Parece que os Dardanianos tambm tm um Ulisses - disse eu para Ptrocles e jax. - Uma verdadeira raposa ... ! Pramo ficar com mais vinte mil homens chefiados
pelo Ulisses da Dardnia. Esperemos que os preconceitos do velho no o deixem ver o portento que Eneias .

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Captulo Dcimo Nono
Narrado por Briseida
Lirnesso morreu fechando as asas e espalhando a sua plumagem por sobre a desolao, com um grito que era todos os gritos de todas as mulheres postos numa s boca.
Deixramos Eneias entregue aos cuidados da sua me imortal, Afrodite, felizes porque lhe fora concedida a oportunidade de salvar o nosso exrcito. Todos os cidados
tinham concordado que no havia outra coisa a fazer: s assim a Dardnia, ou uma parte dela, poderia continuar viva para enfrentar e abater os Gregos.
Velhas armaduras haviam sido retiradas de bas por mos deformadas que mal aguentavam o esforo; rapazes lvidos de medo haviam envergado as suas armaduras de brinquedo,
fceis presas para as lminas de bronze. Claro que morreram. Todos morreram. Venerveis barbas encharcadas de sangue dardaniano, os gritos de guerra de pequenos
soldados convertidos em soluos aterrados de meninos. O meu pai levara at o meu punhal; com lgrimas nos olhos, explicou-me que no poderia deixar nas minhas mos
a arma que me libertaria da servido; o meu punhal, tal como os punhais de todas as outras mulheres, estaria melhor nas mos dos soldados, ainda que estes mais no
fossem do que velhos ou meninos.
Impotente, assisti da minha janela  morte de Lirnesso, suplicando a rtemis, a misericordiosa filha de Latona, que trespassasse o meu corao com um dos seus dardos,
que aplacasse para sempre o clamor que me varria o sangue antes que algum grego me capturasse e enviasse para os mercados de escravos de Hatusas ou Nnive. As nossas
dbeis defesas depressa foram arrasadas; ao fim de um instante, s as muralhas da cidadela me separavam de uma massa fervilhante de guerreiros, todos eles com armaduras
de bronze, mais altos e mais brancos do que os Dardanianos; nesse momento, fiquei a saber que as filhas de Kore s poderiam ser altas e brancas. A minha nica consolao
era saber que Eneias e o exrcito estavam em segurana. Tal como o nosso querido rei, o velho Anquises, o qual, por ser, na sua juventude, o mais belo dos homens,
atrara o amor de Afrodite, que

#lhe dera Eneias. E Eneias era o melhor dos filhos; por isso se recusara a deixar o velho pai na cidade condenada. Tal como no deixara Creusa, sua esposa, nem Ascnio,
o seu filho ainda pequeno.
Embora no conseguisse arredar-me da janela, como que paralisada por um sortilgio, podia ouvir os rudos dos preparativos para a batalha nos aposentos prximos
dos meus - velhos passos trpegos, vozes esganiadas murmurando aflitas. O meu pai era um desses homens. S os sacerdotes no combateriam, pois tinham ficado a suplicar
a ajuda dos deuses nos altares; porm, o meu tio Criseu, o sumo-sacerdote de Apolo, despira o sagrado manto e envergara uma armadura. Combateria, dizia ele, para
proteger o Apolo asitico, que no era o mesmo deus que o Apolo grego.
Os Gregos trouxeram os aretes para abater as portas da cidadela. As entranhas do palcio estremeceram e, apesar da tumultuosa pulsao que devorava os meus ouvidos,
julguei ouvir o berro tremendo do Senhor dos Terramotos, esse rudo que sempre vestia de luto os homens.  que o corao de Poseidon estava com os Gregos e no connosco.
Ns seramos oferecidos como vtimas, por causa do orgulho e da rebeldia de Tria. Poseidon poderia sentir por ns compaixo, mas a verdade  que fora aos aretes
gregos que emprestara a sua fora. A madeira desfez-se em bocados, as dobradias cederam e as portas ruram com um rugido horrendo. Com lanas e espadas prontas
a matar, os Gregos inundaram o ptio, sem qualquer sentimento de piedade diante daquela pattica oposio, pois tudo o que sentiam era raiva por Eneias os ter superado
em astcia.
O homem que os chefiava era um gigante. Envergava uma armadura de bronze adornada a ouro. Empunhando um machado portentoso, abatia os velhos como se fossem mosquitos,
fendendo-lhes a carne cheio de desprezo. Depois, correu para a Sala do Trono, com os seus homens atrs; fechei os olhos para no ver o resto do massacre, enquanto
rogava  casta rtemis que instilasse no corao dos nossos inimigos o desejo de me matarem. A morte seria uma bno, se comparada com a violao e a escravatura.
Nvoas vermelhas flutuavam diante das minhas plpebras, a luz do dia, implacvel, penetrava-as, os meus ouvidos no conseguiam deixar de ouvir os gritos sufocados
e as splicas de misericrdia. A vida  preciosa para os velhos, pois eles sabem quanto lhes custa a ganhar cada dia que passa. Mas eu no ouvira a voz do meu pai
e pressentia que ele morrera to orgulhosamente como sempre vivera.
Quando ouvi passos fortes, determinados, aproximando-se do meu quarto, abri os olhos e virei-me para ver quem vinha. Era um homem enorme, muito maior do que a porta,
o machado suspenso de uma mo, o rosto imundo sob o elmo de bronze com plumas douradas. Era cruel, muito cruel a sua boca: os deuses que o tinham feito haviam-se
esquecido de lhe dar lbios; um homem sem lbios no conheceria nunca, no seu corao, piedade ou bondade. Por um momento, fitou-me como se eu tivesse sado das
entranhas da terra; depois, fez meno de avanar para mim com a cabea empinada, como um co farejando o ar.
Preparei-me para o enfrentar: podia violar-me, ferir-me, matar-me, que no ouviria nunca um grito ou um lamento. No seria eu quem o levaria a concluir que aos Dardanianos
faltava coragem.
Tive a sensao de que, com um nico passo, se abeirara de mim; com a mo que tinha livre, prendeu-me um pulso, depois o outro, e ergueu-me depois at que fiquei
suspensa no ar, os ps muito longe do cho.
- Assassino! Assassino de velhos e crianas! Animal! - exclamei ofegante, pontapeando-o.
De sbito, esmagou-me com tanta fora os pulsos que senti os ossos rangerem. Queria gritar, pois a dor era insuportvel, mas no gritaria - no gritaria! Os seus
olhos amarelos, como os de um leo, eram o espelho de uma fria animalesca; eu ferira-o no ponto certo, no nico ponto, provavelmente, onde a sua auto-estima era
ainda sensvel. Ele no gostava que lhe chamassem assassino de crianas e velhos.
- Dobra-me essa lngua, rapariga! Nos mercados de escravos, tm um chicote para as meninas rebeldes como tu!
- Seria uma bno dos deuses se me desfigurassem com o chicote!
- No, rapariga. No teu caso, seria uma pena - disse ele, baixando-me e libertando-me os pulsos. Mas logo a sua mo me agarrou pelos cabelos e assim me arrastou
at  porta enquanto eu esmurrava e pontapeava a sua armadura metlica, e tantos foram os murros e pontaps que, a certa altura, pensei que tinha partido os ossos
dos punhos e dos ps.
- Deixa-me caminhar! - gritei. - Permite-me a dignidade de caminhar! Se me vo condenar  violao e  servido, ento deixa-me caminhar! No quero ir para essa
morte debatendo-me e choramingando como uma vulgar criada!
Ele parou de sbito e fitou-me com um ar perplexo.
- Tu tens a coragem dela - disse ele lentamente. - No s como ela, mas tens qualquer coisa dela... Crs que vai ser esse o teu destino: a violao e a escravatura?
- Que outro destino poder ter uma cativa? Sorrindo - o que o tornava mais parecido com os outros homens, pois o sorriso faz com que os lbios fiquem mais finos
-, largou-me os cabelos. Levei a mo  cabea, perguntando-me se ele no me teria rasgado o couro cabeludo.
Depois, caminhei  sua frente. Os dedos dele logo se apoderaram do meu pulso magoado. Era demasiada a sua fora: impossvel libertar-me. -   Respeito a tua dignidade,
minha querida menina, mas no sou idiota.
Acredita que no ser devido ao meu descuido que conseguirs escapar.

#- Como o teu chefe deixou escapar Eneias? - atirei-lhe. A expresso dele no se alterou.
- Precisamente - disse ele, impassvel. Conduziu-me atravs de quartos que nem conseguia reconhecer, pois as paredes estavam salpicadas de sangue e os mveis estavam
j a ser empilhados a fim de seguirem nas carroas do saque. Mal entrmos na Sala do Trono, afastou a pontap uma pilha de cadveres, atirados uns para cima dos
outros sem o menor respeito pela idade ou pela posio. Parei, procurando, naquele annimo amontoado de corpos, algo que me permitisse identificar o meu pai. O meu
captor tentou puxar-me, mas eu resisti.
- O meu pai pode estar aqui! Deixa-me ver! - roguei.
- Qual deles  o teu pai? - perguntou-me, com um ar indiferente.
- Se eu soubesse, no teria pedido para me deixares ver! Embora sem me ajudar, deu-me rdea suficiente para que eu sondasse os trajes ou os sapatos dos mortos. Por
fim, vi os ps do meu pai, inconfundveis pois era o nico que usava sandlias ornamentadas com granadas - tal como a maior parte dos velhos, vestira a armadura,
mas no as botas de combate. Porm, no conseguia arrancar o seu corpo quela pilha imensa de cadveres.
- jax! - chamou o meu captor. - Ajuda aqui a rapariga! Debilitada pelo terror, esperei que o outro homem se acercasse de ns. Era tambm um gigante, maior ainda
do que o meu captor.
- No s capaz de ajud-la sozinho? - perguntou o tal jax.
- E deix-la fugir? jax, jax! Esta rapariga  esperta, no posso confiar nela!
- J percebi, priminho! Gostas da rapariga, no ? Tambm j no era sem tempo! H uma eternidade que s tens olhos para Ptrocles...
jax afastou-me como se eu fosse uma pena. Depois, sem largar o machado, empurrou os cadveres que cobriam o meu pai. Finalmente, pude ver aqueles olhos mortos fixos
nos meus, a barba enterrada num golpe que lhe dilacerara o peito. Um golpe de machado. - Este  o velho que se atirou a mim! - disse jax, com admirao. - Sim senhor,
um velho valente!
- Tal pai, tal filha - disse o outro, puxando-me pelo brao. - V, rapariga, temos de ir. No h tempo para chorar os mortos.
Levantei-me trpega, curvando a cabea para saudar o meu pai. Preferia partir sabendo que ele estava morto. Era melhor no ter dvidas. Assim, no alimentaria uma
esperana infundada. jax afastou-se, dizendo que ia reunir todos os sobreviventes, embora duvidasse que os houvesse.
Parmos  porta que dava para o ptio. O meu captor retirou um cinto de um cadver que jazia nos degraus. Com uma das pontas, prendeu-me o pulso; depois, prendeu
a outra ponta ao seu prprio brao, obrigando-me assim a caminhar quase que encostada a ele. Dois degraus mais alta do que ele, fitei a sua cabea curvada enquanto
conclua a sua pequena tarefa com uma eficincia que me pareceu ser tpica dele.
- No foste tu quem matou o meu pai - disse eu.
- Fui eu, sim - respondeu. - Eu sou o chefe que foi vencido pela astcia de Eneias. O que significa que sou responsvel por todas as mortes.
- Como te chamas? - perguntei.
- Aquiles - disse ele, puxando-me para o ptio. Tinha de correr para no cair. Aquiles. Claro. S poderia ser ele. Eneias falara dele um dia antes, mas h muitos
anos que eu ouvia falar daquele homem.
Deixmos Lirnesso pela porta principal, enquanto os Gregos saqueavam e violavam mulheres, alguns com archotes nas mos, outros com odres de vinho. Aquiles nem sequer
os repreendia. Ignorava-os.
No alto do caminho, virei-me para contemplar pela ltima vez o vale de Lirnesso.
- Incendiaram a minha casa. Foi ali que vivi durante vinte anos, era ali que esperava viver at que me arranjassem casamento. Mas nunca esperei que fosse esta a
minha sorte.
Ele encolheu os ombros.
- So os acasos da guerra, rapariga. Apontei para as minsculas figuras dos soldados que reuniam os despojos. No podes impedir que eles se comportem como animais?
Ser mesmo necessria tamanha brutalidade? Eu ouvi as mulheres gritarem - eu vi!
As plpebras dele descaram cinicamente.
- Que sabes tu destes gregos exilados ou dos seus sentimentos? O que tu sentes por ns  dio, o que  perfeitamente compreensvel. Mas o teu dio no supera o dio
que estes homens dedicam a Tria e aos aliados de Tria! Pramo custou-lhes j dez anos de exlio.  por isso que eles sentem tanto prazer em vingar-se de Pramo!
Bom, de qualquer modo, mesmo que eu tentasse det-los, no conseguiria. E sinceramente, rapariga, no me apetece nada det-los.
- H muitos anos que ouvia histrias sobre a guerra, mas no sabia que a guerra era assim - murmurei.
- Pois agora j sabes - disse ele.
O acampamento dele ficava a trs lguas de distncia; mal chegmos, Aquiles chamou um oficial encarregado das bagagens.
- Polides, esta rapariga  minha cativa. Pega no cinto e prende-a a uma bigorna at forjares melhores correntes. No a deixes livre um momento que seja. Nem mesmo
quando ela quiser fazer as suas necessidades fisiolgicas. Logo que esteja devidamente acorrentada, leva-a para um local onde ela tenha tudo o que

#precisa, incluindo uma boa cama, boa comida e um bacio. Amanh, partirs para Andramtio. Entrega-la-s aos cuidados de Fnix. - Pegou-me no queixo e beliscOu-o
suavemente. -Adeus, rapariga.
Polides Prendeu-me Os tOrnozelos com umas correntes que eram bastante        leves, Ps uns chumaos  volta dos pulsos, sob as algemas, para que eu no me magoasse
mais, e conduziu-me at  costa montada num burro. A, entregou-me a Fnix, um velho nobre com os olhos azuis e enrugados e o andar gingado de um marinheiro. Quando
viu as minhas correntes, Ps um ar pesaroso, mas nada fez para me aliviar daquela priso. Subi com ele a bordo da nau capitnia. Com gentil cortesia, fez-me sinal
para que me sentasse, mas eu estava decidida a ficar de p.
- Lamento muito as correntes - disse ele e os seus olhos exprimiam um evidente pesar. Mas logo percebi que no era de mim que ele estava com pena. Pobre Aquiles!
- exclamou.
Irritava-me que aquele velho me tivesse em to pouca conta. -Aquiles tem mais considerao pelo meu brio do que tu! D-me um punhal e vais ver se eu no me livro
desta morte em vida - nem que tenha de morrer!
A consternao do velho desapareceu num pice. Com um risinho, respondeu-me.
- Oh, mas que valente guerreira! Mas olha, rapariga, escusas de nutrir falsas esperanas... Aqueles que Aquiles prende, no  Fnix quem os vai libertar.
-A palavra dele  uma lei Sagrada?
- De facto, . Aquiles  o prncipe dos Mirmides.
- Prncipe das formigas? Um ttulo muito adequado... Respondeu-me cOM outro risinho. Depois, foi buscar-me uma cadeira. Olhei para a cadeira com todo o meu dio,
mas a verdade  que me doam horrivelmente as costas por causa da viagem de burro, e tinha as pernas a tremer pois recusara-me a comer e a beber desde o instante
em que me haviam feito cativa. Sem qualquer delicadeza, Fnix pegou em mim e obrigou-me a sentar-me, aps o que desarrolhou uma garrafa de vinho.
- Bebe, rapariga. Se queres manter essa rebeldia, precisas de sustento. No sejas tonta.
Um conselho sensato. Segui-o e bebi e logo conclu que o meu sangue era fraco, pois o vinho subiu-me num instante  cabea. J no conseguia lutar. Pousei a cabea
na mo e logo adormeci. Acordei algum tempo depois. Tinham-me levado para a cama. As correntes presas a uma viga.
No dia seguinte, levaram-me para a coberta, sem se esquecerem de prender as correntes  amurada, a fim de que eu pudesse manter-me de p, sob aquele dbil sol invernoso,
e observar o vaivm que ia na praia. A certa altura, porm, quatro navios surgiram no horizonte e, com tal apario, desataram os homens - em  particular os seus
chefes - numa correria e num alvoroo indescritveis. De sbito, Fnix correu para mim e libertou-me da amurada e conduziu-me no  minha anterior priso, mas sim
a um abrigo que havia no convs de r e que tresandava a cavalos. A me deixou presa a um barrote.
- Que se passa? - Perguntei, curiosa.- Vem a Agammnon, o rei dos reis - retorquiu Fnix.
- Porque  que me trouxeste para aqui? Ser que eu no sou nobre o suficiente para ser apresentada ao rei dos reis?
O velho marinheiro suspirou.
-  rapariga - disse -, ser possvel que nunca te tenhas visto ao espelho? Se Agammnon te visse, podes crer que no lhe escapavas! Apesar de pertenceres a Aquiles,
acredita que Agammnon no te deixaria virgem!
- Pode ser que eu desate aos gritos e que ele me oia - disse eu. Fnix fitou-me como se eu tivesse enlouquecido.
- Arrepender-te-ias dos teus gritos, rapariga. Pensa um pouco: que vantagem terias tu em mudar de amo? Acredita no que te digo: acabarias por preferir Aquiles.
Houve qualquer coisa no tom com que me disse aquilo que me convenceu. Por isso, quando ouvi vozes  porta do estbulo, enfiei-me debaixo de uma manjedoura e escutei
as belas e fluidas cadncias do mais puro Grego - e apercebi-me do poder e da autoridade que uma das vozes possua.
- Aquiles ainda no voltou? - perguntou essa voz, num tom imperioso.
- No, rei Agammnon, mas deve estar de volta antes da noite. Aquiles teve de organizar o saque. So abundantes os despojos de Lirnesso. As carroas tm chegado
carregadas dos mais preciosos objectos.
- Excelente! Vou esperar por ele na sua cabina.
- Ser melhor esperares na tenda da praia, rei Agammnon. Tu conheces Aquiles: para ele, o conforto no  importante.
- s capaz de ter razo, Fnix. As vozes esbateram-se; rastejando, libertei-me do meu esconderijo. O som daquela voz fria e orgulhosa assustara-me. Aquiles tambm
era um monstro, mas melhor  o monstro que se conhece do que aquele que se ignora, como dizia a minha ama quando eu era pequena.
Durante a tarde, ningum veio ter comigo. De incio, sentei-me na cama que julgava pertencer a Aquiles e atentei, com olhos curiosos, no escasso contedo daquela
vulgarssima cabina. Havia umas quantas lanas encostadas a um pilar, ningum se lembrara de pintar as paredes de madeira, as dimenses da cabina eram minsculas.
Na realidade, naquela diviso, havia apenas dois objectos dignos de alguma ateno: uma bela pele branca na cama e uma taa de ouro com quatro pe-

#gas. Os lados da taa tinham sido pintados com uma representao do Pai Cu sentado no seu trono e cada pega era encimada por um cavalo galopando.
Nesse preciso instante, o abismo horrendo do meu sofrimento abriu-se e engoliu-me, talvez porque, desde o momento da minha captura, aquela era a primeira vez em
que o perigo e a fria no me obrigavam a calar a dor. Enquanto ali estava sentada naquela cama, o meu pai jazia na vala de Lirnesso para onde era deitado todo o
lixo, o seu corpo devorado pelos ces perpetuamente esfomeados da cidade; esse era o tradicional destino para os nobres que morriam no campo de batalha. As lgrimas
inundavam-me o rosto; atirei-me para cima daquela pele branca e chorei. No conseguia parar de chorar. A pele branca ficou limpa e brilhante sob a minha face, sob
o rio da minha dor.
No ouvi a porta a abrir-se. Por isso, quando uma mo pousou sobre o meu ombro, o meu corao desatou a correr dentro do meu peito como um animal que acaba de cair
numa cilada. Toda a minha rebeldia se esfumou num pice; naquele instante, s uma coisa pensei: o rei supremo Agammnon tinha-me descoberto,encolhi-me sobre a cama,
apavorada.
- Eu perteno a Aquiles, eu perteno a Aquiles! - gemi.
- Eu sei. Quem julgaste tu que era? Antes de erguer a cara para o ver, disfarcei cuidadosamente o alvio que sentira e limpei rapidamente as lgrimas com a palma
da mo.
- O rei supremo da Grcia.
- Agammnon. Aquiesci.
- Onde est ele?
- Na tenda da praia. Aquiles abeirou-se de um ba, abriu-o, remexeu-o de alto a baixo e, por fim, atirou-me um leno de um belo tecido.
- Toma, assoa-me esse nariz e limpa-me essa cara. Se continuas assim       ' ainda adoeces.
Fiz o que ele me mandou. Aquiles voltou para ao p de mim e ps-se a olhar para a pele com um ar preocupado.
- Espero que no fique com marcas quando secar. Foi uma prenda da minha me. Mirou-me com olhos crticos. - Ser possvel que Fnix no te tenha mandado tomar banho
e vestir roupa lavada?
- Mandar, mandou, mas eu recusei.
- Pois comigo no haver recusas. As criadas vo trazer-te roupa lavada e uma banheira para tomares banho. Ters de vestir o que elas te trouxerem. Caso contrrio,
sers lavada e vestida  fora - e no por mulheres. Entendido?
- Sim.
- ptimo. -Tinha j a mo na tranca da porta quando parou e se voltou para mim.
- Como  que te chamas, rapariga?
- Briseida. Sorriu para mim; detectei na sua expresso alguma admirao pela minha pessoa.
- Briseida: Aquela que triunfa. Tens a certeza de que no o inventaste?
- O meu pai chamava-se Briseu. Era primo direito do rei Anquises e chanceler da Dardnia. O irmo do meu pai, Criseu, era sumo-sacerdote de Apolo. Ns pertencemos
 famlia real.
Ao entardecer, um oficial mirmido veio ter comigo, desprendeu da viga as correntes e conduziu-me at  amurada. Uma escada de corda estava suspensa da amurada;
silenciosamente, indicou-me que deveria descer; contudo, fez-me a cortesia de descer primeiro e de esperar por mim na praia: desse modo, no teria qualquer oportunidade
de olhar para aquilo que as minhas saias tapavam. O navio estava assente sobre os seixos da praia; sobre os seixos caminhei, mas to redondos eram que me fugiam
debaixo dos ps e me magoavam o que magoado j estava.
Uma enorme tenda de cabedal erguia-se na praia. No me lembrava de a ter visto quando chegara de burro. O oficial mirmido fez-me entrar na tenda atravs de uma
aba que havia nas traseiras e logo me conduziu a uma diviso apinhada de mulheres: cerca de uma centena de mulheres de Lirnesso, nenhuma das quais reconheci. S
eu fora distinguida com correntes. Muitos foram os olhos que, com uma curiosidade canina, se fixaram em mim, enquanto eu procurava um rosto conhecido no meio daquela
multido. Ah, ali, a um canto! Uma gloriosa cabeleira dourada: inconfundvel! O meu guarda continuava a segurar-me nas correntes; porm, quando fiz teno de avanar
para o canto da sala, deixou-me partir sem qualquer protesto.
A minha prima Criseida ocultava o rosto com as mos; quando lhe toquei, a pobre rapariga deu um salto, tomada de pnico. Fitou-me espantada e logo se refugiou nos
meus braos, lavada em lgrimas.
- Que fazes tu aqui? - perguntei, confusa. - Tu s a filha do sumo-sacerdote de Apolo. Como tal, s uma criatura inviolvel.
A resposta dela foi um gemido de puro horror. Abanei-a.
- Por favor, Criseida, deixa-te de choros! - ordenei-lhe. Desde menina que Criseida tinha medo de mim; no admira que me tenha obedecido nesse mesmo instante.
- Apesar disso, fizeram-me cativa, Briseida.
- Mas isso  um sacrilgio!

#- Eles dizem que no . O meu pai combateu. Os sacerdotes no combatem. Por isso, consideraram-no um guerreiro e fizeram de mim o que quiseram.
- O que quiseram? Ests a dizer-me que te violaram? - perguntei, horrorizada.
- No, no! As mulheres que me vestiram disseram-me que s as mulheres do povo ficam  merc da violncia dos soldados. Aquelas que se encontram nesta sala foram
poupadas a essa violncia porque vo ter um destino especial. Qual, no sei. - Olhou para baixo e viu as grilhetas. - Oh, Briseida! Acorrentaram-te!- Pelo menos
trago uma prova evidente do meu estatuto real. Graas s grilhetas, ningum poder confundir-me com uma prostituta.
- Briseida! - disse ela, com uma expresso escandalizada; eu conseguia sempre chocar a minha pobre e recatada prima. Depois, perguntou-me:
- O tio Briseu?
- Morreu, como todos os demais.
- Morreu? E tu no choras a sua morte?
- Claro que choro a sua morte! - protestei. - A verdade, porm,  que j estive nas mos dos Gregos o tempo suficiente para perceber que uma cativa tem de secar
as lgrimas e aguar o seu engenho.
Criseida parecia perplexa com a minha resposta.
- Porque  que nos trouxeram para aqui, prima? Virei-me para o oficial mirmido.
- Eh, soldado! Porque  que nos trouxeram para aqui?
O homem riu-se do meu tom, mas respondeu afavelmente.
- O Segundo Exrcito ofereceu um banquete em honra do rei supremo de Micenas. Esto a dividir os despojos. As mulheres aqui presentes vo ser distribudas pelos
reis.
Espermos aquilo que nos pareceu uma eternidade. Demasiado cansadas para falar, Criseida e eu sentmo-nos no cho. De quando em quando, um guarda entrava e levava
um pequeno grupo de mulheres, consoante umas fitas coloridas que traziam nos pulsos; eram, todas elas, raparigas muito bonitas. No havia entre ns nenhuma velha,
to-pouco rameiras ou caras feias ou raparigas que, de to magrinhas, mais parecessem esqueletos. Contudo, nem eu nem Criseida tnhamos fitas nos pulsos. Cada vez
havia menos mulheres na sala e ns continuvamos a ser ignoradas. Por fim, s ns duas restvamos.
Um guarda entrou e tapou com vus os nossos rostos antes de nos conduzir  sala contgua. Atravs de uma malha muito fina, consegui ver um imenso claro, produzido,
aparentemente, por um milhar de lamparinas e archotes, um dossel de tecido por cima das nossas cabeas e, por todo o lado, um mar de homens. Estavam sentados em
bancos  volta de mesas, bebiam vinho; os criados andavam numa azfama, correndo de um lado para o outro. Fizeram-nos avanar at um comprido estrado onde se encontrava
a mesa de honra.
Haveria talvez vinte homens sentados quela mesa, de um lado apenas, de frente para todos os outros comensais. A meio, numa cadeira de costas altas, estava sentado
um homem que muito se assemelhava ao Pai Zeus das minhas fantasias de menina. Tinha uma cabea nobre, altiva, carrancuda; a cabeleira negra com vestgios de cinza,
requintadamente encaracolada, derramava-se como uma cascata sobre a cintilante indumentria; uma imponente barba, entrelaada com fios de ouro, caa-lhe sobre o
peito e pedras preciosas cintilavam em alfinetes ocultos. Um par de olhos escuros examinava-nos com um ar pensativo, enquanto uma aristocrtica mo branca mexia
absorta no bigode. Era o imperial Agammnon, rei supremo de Micenas e da Grcia, rei dos reis. Anquises, ao p dele, pareceria um servo e no um rei.
Afastei dele os olhos a fim de perscrutar os outros homens, preguiosamente recostados nas suas cadeiras. Aquiles estava sentado  esquerda de Agammnon, embora
no fosse fcil reconhec-lo. Eu vira-o de armadura vestida, imundo e violento. Agora, estava na companhia de reis. O peito nu, glabro, brilhava sob um macio colar
de ouro e pedras preciosas que lhe caa dos ombros; os braos reluziam de braceletes, os dedos de anis. Fizera a barba, e o seu cabelo, brilhante como ouro, fora
penteado para trs sem grandes requintes; requintados eram os brincos de ouro que lhe pendiam das orelhas. Os seus olhos amarelos revelavam agora uma limpidez e
uma tranquilidade novas; aquela cor de olhos, absolutamente invulgar, ressaltava poderosamente sob as sobrancelhas e as pestanas fortemente marcadas e tambm porque
ele pintara os olhos ao estilo cretense. Pestanejei, desviei dele o meu olhar, confusa. Inquieta.
Ao lado dele, estava um homem com um aspecto verdadeiramente nobre, muito direito na sua cadeira, os caracis cor de fogo coroando uma testa muito alta e larga;
era branca e delicada a sua pele. Sob umas sobrancelhas surpreendentemente escuras, os seus belos olhos cinzentos irradiavam um brilho penetrante. Nunca antes vira
olhos to fascinantes como aqueles! Quando o meu olhar percorreu o seu peito nu, apiedei-me dele: quantas cicatrizes! O rosto parecia ser a nica parte do seu corpo
que escapara aos golpes inimigos.
 direita de Agammnon, estava outro homem ruivo, um indivduo com um ar desleixado e consternado que no tirava os olhos da mesa. Quando ergueu a taa para beber,
reparei que a sua mo tremia. O seu vizinho era um velho com a mais rgia das aparncias, alto e erecto, com uma barba to branca como a prata e uns olhos azuis
muito grandes. Embora estivesse vestido de uma forma muito simples (no mais do que uma tnica de linho branco), tinha os dedos cravejados de anis. O gigante jax
vinha logo a seguir; uma vez mais tive de pestanejar, pois

#o prncipe que agora estava a ver no se parecia nada com o homem que libertara o corpo do meu pai da pilha de cadveres.
Mas os meus olhos depressa se cansaram dos seus rostos, todos eles to enganosamente nobres. O guarda fez com que Criseida avanasse e logo lhe tirou o vu. Senti
o meu estmago revolver-se. A minha prima ficava to bonita com aquela indumentria estrangeira, roupas gregas tiradas de um qualquer ba grego, roupas que em nada
se assemelhavam aos vestidos compridos e direitos que cobriam as mulheres de Lirnesso do pescoo aos tornozelos. Em Lirnesso, ns escondamo-nos de todos os homens,
excepto dos maridos; as mulheres gregas - isso era mais do que evidente - vestiam-se como prostitutas. Escarlate de vergonha, Criseida tapou os seios nus com as
mos, mas por pouco tempo; o guarda encarregou-se de os destapar. Agora, todos aqueles homens poderiam ver quo fina era a sua cintura e quo perfeitos eram os seus
seios. Agammnon j no parecia o Pai Zeus; agora, todo ele era P. Virou-se para Aquiles.
- Pela Me, que preciosidade... Aquiles sorriu.
- Ainda bem que gostas dela, Agammnon. A rapariga  tua - uma prova evidente da estima que o Segundo Exrcito tem por ti. Chama-se Criseida.
- Vem c, Criseida. - A elegante mo branca fez um gesto imperativo; a minha prima no se atreveu a desobedecer.
- Vem, olha para mim! No tenhas medo, rapariga, que eu no te fao mal. Com os dentes brancos cintilando, sorriu para ela e afagou-lhe depois o brao, aparentemente
sem reparar que Criseida toda se encolhia. - Levem-na imediatamente para o meu navio.
Os guardas levaram Criseida. Agora era a minha vez. O guarda retirou-me o vu para que eu me exibisse naquele figurino indecente. Pus um ar to altivo quanto possvel,
as mos bem juntas ao corpo, o rosto inexpressivo. A vergonha era deles, no minha. Apercebendo-me da luxria que inundava os olhos do rei supremo, obriguei-o a
desviar o olhar. Aquiles nada disse. Movi um pouco as pernas para que as correntes retinissem. Agammnon ergueu as sobrancelhas.
- Correntes? Quem ordenou tal?
- Fui eu - retorquiu Aquiles. - No confio nela.
- Oh? - Uma nica palavra e, no entanto, prenhe de sentido. - E de quem  ela?
 minha. Fui eu prprio que a capturei - disse Aquiles. Devias ter-me dado a escolher entre as duas - replicou Agammnon, agastado. Fui eu quem a capturou, rei Agammnon.
Portanto, a rapariga  minha. Alm disso, no confio nela. O nosso mundo grego sobreviver sem mim, mas no sem ti. Tenho provas que chegam de que esta rapariga
 perigosa.
Hum... perigosa ... disse o rei supremo, nada convencido. Depois, suspirou. - Nunca vi um cabelo assim! Uma mistura de fogo e ouro! Nem uns olhos assim, to azuis!
- E suspirou de novo. - Mais bela do que Helena!
O indivduo nervoso que estava  direita do rei supremo deu um murro na mesa com tal violncia que as taas de vinho at saltaram.
- Helena no tem igual! - exclamou.
- Sim, meu irmo, ns sabemos - disse Agammnon, paciente. - Acalma-te. Aquiles acenou para o oficial mirmido.
- Leva-a.
Esperei sentada numa cadeira da sua cabina, as plpebras pesadas, embora no me atrevesse a permitir-me um momento que fosse de sono. Haver mulher mais indefesa
do que aquela que tranquilamente se entrega ao doce chamamento do sono?
Muito tempo depois, Aquiles apareceu na cabina. Quando ergueu a tranca, eu estava a dormitar, apesar de toda a minha determinao; assustada, dei um salto e entrelacei
as minhas mos com toda a fora. Chegara o momento do ajuste de contas. Mas Aquiles no parecia consumido de desejo; ignorou-me, encaminhou-se para o ba e abriu-o.
Depois, tirou o colar, os anis, as braceletes, o cinto cravejado de jias. Mas no o saiote.
-  um alvio, ver-me livre deste lixo todo! - exclamou, olhando agora para mim.
Olhei tambm para ele, confusa, perdida. Como  que comeava uma violao? A porta abriu-se e outro homem entrou, muito parecido com Aquiles nos traos e na tez,
mas mais pequeno de estatura, e com um rosto mais terno. Eram encantadores os seus lbios. Uns olhos azuis examinaram-me com um brilho apreensivo.
- Ptrocles, apresento-te Briseida.
- Agammnon tinha razo.  mais bela do que Helena. - O olhar que lanou a Aquiles estava carregado de significado e repleto de dor. - Vou deix-los. S vim ver
se precisavas de alguma coisa.
- Espera l fora, eu no demoro - disse Aquiles com um ar ausente. J a caminho da porta, Ptrocles parou e lanou a Aquiles um olhar que no enganaria ningum:
um olhar de absoluta alegria e de uma posse absoluta.
- Ele  o meu amante - disse Aquiles mal Ptrocles partiu.
- J tinha percebido. Com um suspiro de fadiga, Aquiles sentou-se na beira da estreita cama e apontou para a minha cadeira.
- Senta-te. Sentei-me e, por um momento, fitei-o, enquanto ele me olhava com algo que Parecia ser um absoluto desapego; comeava a suspeitar que ele no sentia por

#mim nada que se assemelhasse ao puro desejo fsico. Nesse caso... nesse caso, por que razo me quisera para ele?
- Pensava que vocs, as mulheres de Lirnesso, eram muito recatadas - disse ele, por fim -, mas tu pareces conhecer muito bem as coisas do mundo.
- Algumas coisas. Aquelas que so universais. O que ns no entendemos so estas modas! - Toquei nos meus seios nus. - Imagino que na Grcia as mulheres devem ser
vtimas constantes de violaes.
- Nesse particular, a Grcia  igual a todas as outras naes. Uma coisa tende a perder encanto quando se torna - universal.
- Que pretendes fazer comigo, prncipe Aquiles?
- No fao a mnima ideia. -A minha natureza no  branda nem fcil.
- Eu sei. - Era irnico o seu sorriso. - De facto, a tua pergunta tem toda a razo de ser. Para ser franco, no sei mesmo o que fazer contigo. - Olhou-me com aqueles
seus olhos amarelos. - Sabes tocar lira? Sabes cantar?
- Sei. Toco e canto at muito bem. Ele levantou-se.
- Nesse caso, tocars e cantars para mim - disse ele, e logo berrou: Senta-te no cho!
Sentei-me no cho. Ele puxou-me a pesada saia acima dos joelhos e saiu.
Quando voltou, trazia um martelo e um escopro. Um instante depois, j eu estava livre das correntes.
- Deste cabo da madeira do cho - disse eu, apontando para as estrias profundas que o escopro abrira.
- Isto  apenas um abrigo numa coberta de proa - disse ele, levantando-se. Depois, ergueu-me com mos finnes e secas. - Vai dormir - disse, e logo me deixou.
Porm, antes de ir para a cama, agradeci a rtemis. A deusa virgem ouvira as minhas splicas; o homem de quem eu era cativa no tinha pelas mulheres qualquer apetite
carnal. Estava salva. Se assim era, porqu tanta tristeza? No saberia responder, mas uma coisa tinha eu por certa: as saudades que tinha de meu pai no eram, das
minhas lgrimas, a nica causa.
De manh, a nau capitnia fez-se ao mar. Marinheiros e guerreiros desataram numa azfama na coberta e os bancos dos remadores depressa foram ocupados. Gargalhadas
e obscenidades da pior espcie encheram os ares. Era evidente que se sentiam felizes por deixarem a desolada Andramtio, por duas vezes reduzida a cinzas. Quem sabe,
talvez aquele fosse um local assombrado; talvez os marinheiros e guerreiros, ao partirem, deixassem de ouvir os gemidos de aflio de milhares de sombras inocentes.
Ptrocles, o terno companheiro de Aquiles, avanou sem dificuldade por entre a multido que enchia a meia-nau e subiu os poucos degraus que conduziam  coberta de
proa, onde eu estava contemplando o mar e as humanas criaturas.
- Como te sentes esta manh, Briseida? Bem?
- Sim, estou muito bem, obrigada. Virei-lhe costas, mas ele permaneceu a meu lado, visivelmente satisfeito com a minha gelada companhia.
- Acabars por te habituar - disse ele. Fitei-o e respondi-lhe:
- Seria difcil imaginar uma observao mais estpida... Habituar-te-ias a viver na casa de um homem que tivesse sido responsvel pela morte do teu pai e pela destruio
da tua ptria?
- Talvez no - respondeu ele, de sbito afogueado. - Mas estamos em guerra - e tu s uma mulher.
- A guerra - retorqui, cheia de amargura -,  uma actividade masculina. As mulheres so as suas vtimas, tal como so vtimas dos homens.
- A guerra - contraps ele, divertido - tambm existiu enquanto as mulheres governaram o mundo sob o domnio da Me. As rainhas supremas eram to gananciosas e ambiciosas
como qualquer rei supremo. A guerra no tem nada a ver com o sexo. Creio, com efeito, que ela  um factor intrnseco da raa humana.
Como isto era incontestvel, resolvi mudar de assunto.
- Ptrocles, como  que tu, que s um homem to sensvel e perspicaz, podes amar um homem to duro e cruel como Aquiles? - perguntei-lhe.
Os seus olhos azuis fitaram-me espantados.
- Mas Aquiles no  duro nem cruel! - retorquiu ele.
- Lamento, mas no posso acreditar nisso.
- Aquiles no  o que parece - asseverou-me o seu fiel co de guarda.
- Nesse caso, o que  Aquiles afinal? Ptrocles abanou a cabea.
Isso, minha cara Briseida, ters de descobrir por ti prpria.  casado? - Por que raio  que as mulheres tm de fazer sempre esta pergunta?
- . Casou com a filha nica do rei Licomedes de Ciro. Tem um filho, Neoptolemo, um rapaz com dezasseis anos. E como  o nico filho de Peleu,  herdeiro do reino
supremo da Tesslia.
- Nada disso altera a minha opinio a seu respeito. Para minha grande surpresa, Ptrocles pegou-me na mo e beijou-ma. Depois, foi-se embora.

#Permaneci na proa enquanto os meus olhos puderam enxergar uma sombra que fosse de terra no horizonte. O mar estava sob os meus ps: nunca mais voltaria  minha
querida terra. Agora, agora j no poderia fugir ao meu triste destino. Eu, que estava destinada a casar com um rei, acabaria os meus dias a tocar e a cantar para
um rei que de mim fizera serva. Alis, se os Gregos no tivessem decidido atacar Tria, estaria j casada. Os homens que, em circunstncias normais, teriam aparecido
na corte da Dardnia para pedir a minha mo, ficaram de sbito demasiado ocupados para pensarem em alianas matrimoniais.
As guas assobiavam sob o casco e transformavam-se em branca espuma sob o impacto dos remos, um som brando e constante que penetrava subtilmente no meu esprito
- to subtilmente que, s ao fim de muito tempo, me dei conta de que a minha deciso estava j tomada. No era difcil subir  amurada; foi o que fiz e preparava-me
j para saltar quando um brao forte me agarrou e me puxou violentamente para baixo. O brao de Ptrocles.
- Deixa-me morrer! Esquece que me viste! - roguei.
- Nunca mais! - disse ele, lvido.
- Ptrocles, eu no sou importante, eu no represento nada para ningum! Deixa-me morrer! Deixa-me morrer!
- No, nunca mais. O teu destino  muito importante para ele. Nunca mais. Mas que estranhos mistrios... Quem? O qu? Nunca mais?
Sete dias demormos a avistar Assos. Mal contornmos o canto da pennsula defronte da ilha de Lesbos, os remos revelaram-se inteis; os ventos sopravam intermitentemente,
ora empurrando-nos para a praia, ora afastando-nos dela. A maior parte do tempo, passei-o sozinha na coberta de proa, numa alcova rodeada de cortinas, e, sempre
que eu emergia da alcova, Ptrocles deixava o que estava a fazer e corria para junto de mim. De Aquiles, nem sinal. Por fim, fui informada de que seguia no navio
de um tal Automedonte.
Conseguimos aportar na manh do oitavo dia. Aconcheguei-me no meu manto porque o vento era cortante como gelo e observei fascinada as operaes de aportagem e desembarque,
j que, em toda a minha vida, nunca vira nada assim.
O nosso foi o segundo navio a descansar nas cunhas; o de Agammnon fora o primeiro. Logo que puseram a escada de corda, deixaram-me descer. Quando Aquiles passou,
a pouca distncia de mim, pus um ar altivo e preparei-me para a guerra, mas ele nem deu pela minha presena.
Nesse momento, surgiu a governanta da sua casa, uma mulher corpulenta e bem-disposta que se chamava Ladice. Foi ela quem me conduziu  casa de Aquiles.
- Deixa-me dizer-te uma coisa, minha pombinha - murmurou ela. - Tu s uma privilegiada. Vais viver em casa do teu amo e, mais importante ainda, vais ter os teus
prprios aposentos. Nem eu, que sou a governanta, tenho tais direitos, quanto mais as outras....
- Mas ele no tem centenas de mulheres?
- Tem, mas no vivem com ele.
- Claro, ele vive com Ptrocles.
- Com Ptrocles? - disse Ladice, com um sorriso arreganhado. - Isso foi noutros tempos... Alguns meses depois de se terem tornado amantes, Aquiles ordenou-lhe que
construsse a sua prpria casa.
- Porqu? Isso no faz sentido...
- Oh, faria todo o sentido, se conhecesses o teu amo! Ele gosta de ser livre como o vento!
Hmmm. Bom, era muito possvel que eu no conhecesse Aquiles, mas tambm era verdade que estava a aprender depressa. Com que ento gostava de ser livre como o vento!
As peas do quebra-cabeas estavam l todas,  espera que eu pegasse nelas, tal e qual como quando eu era criana e me entretinha com tais passatempos. O verdadeiro
problema era pr as peas todas no lugar certo.
Durante esse longo Inverno, prisioneira do frio que eu era, muito tempo gastei a encaixar as peas do quebra-cabeas que se chamava Aquiles. O meu amo raramente
parava em casa, muitas vezes jantava fora - por vezes, tambm dormia fora, supunha eu que com Ptrocles, o qual, pobre coitado, parecia agora mais angustiado do
que feliz com o amor que Aquiles lhe dedicava. As outras mulheres estavam predispostas a detestar-me porque eu vivia na casa do amo e elas no. No entanto, e porque
sei lidar muito bem com todo o gnero de mulheres, depressa consegui conquistar os seus afectos; vencidos os coraes, desataram as lnguas - e o interminvel fio
da bisbilhotice.
Pelos vistos, Aquiles padecia de uma maleita que culminava numa espcie de sortilgio (elas tinham-no ouvido falar de um sortilgio); havia alturas em que parecia
estar longe deste mundo, estranhamente concentrado em insondveis paragens; a me dele era uma deusa, uma criatura do mar chamada Ttis que era capaz de alterar
a sua configurao fsica to depressa como o Sol se desvenda ou oculta atrs das nuvens - ourio-do-mar, choco, baleia, vairo, caranguejo, estrela-do-mar, tubaro,
tudo isso ela podia ser; o av do seu pai era o prprio Zeus; o seu professor fora um Centauro, um ser fabuloso que tinha cabea, braos e torso de homem, ainda
que o resto do corpo fosse o de um cavalo; o gigante jax era seu primo direito e um grande amigo; vivia para a guerra, no para o amor. No, elas no acreditavam
que Aquiles gostasse de homens, apesar do amor que dedicava ao seu primo Ptrocles. Mas tambm no lhes parecia que gostasse de mulheres.

#De vez em quando, chamava-me  sua presena e ordenava-me que tocasse e cantasse e eu obedecia-lhe com gratido; a minha vida, sem esses momentos, era a mais desolada
das paisagens. Com um ar pensativo, Aquiles escutava a minha msica apenas com metade da sua mente; a outra metade permanecia algures num outro mundo, um mundo que
exclua tanto a msica como aquela que a executava. Nem sinal de desejo, nunca. Nenhuma sugesto quanto aos motivos por que decidira fazer de mim sua cativa. Tambm
no entendia ainda o que poderia estar por detrs das coisas que Ptrocles me dissera quando eu tentara atirar-me ao mar. Nunca mais! Nunca mais o qu? Nunca mais
quem? Que estranho evento matara o desejo naquele homem?
Descobri com grande tristeza que, a pouco e pouco, Lirnesso e o meu pai iam perdendo a primazia nos meus pensamentos. O que se passava em Assos comeava a relegar
para segundo plano aquilo que acontecera  Dardnia. Por trs vezes Aquiles jantou sozinho em casa, por trs vezes ordenou que eu o servisse e que mais nenhuma mulher
estivesse presente. Ladice, tonta como era, embonecava-me e perfumava-me, convencida de que, finalmente, eu lhe pertenceria. Mas Aquiles nada me disse e nada fez.
Chegava ao termo o Inverno quando nos mudmos de Assos para Tria. Fnix fez um sem-nmero de viagens e, a pouco e pouco, os celeiros, os depsitos e as tendas foram
ficando vazios. Por fim, todo o exrcito seguiu, por mar, para norte.
Tria. Mesmo em Lirnesso era Tria quem governava, pois Tria era o centro do nosso mundo. O rei Anquises e Eneias no gostavam dessa verdade - mas era uma verdade
indiscutvel. Agora, pela primeira vez, os meus olhos podiam ver Tria.
O vento incessante varria a plancie, consigo levando a neve; torres e pinculos, engrinaldados de gelo, cintilavam ao sol. Era como que um palcio no Olimpo - longnquo,
frio e belo. Era ali que Eneias vivia, com o pai, a esposa e o filho.
A mudana para Tria operou em mim uma outra mudana e muito estranha, fora do alcance da minha compreenso; de sbito, tornei-me presa fcil de acessos de melancolia;
chorava por tudo e por nada; sem qu nem porqu, irritava-me por coisa nenhuma.
Aquele era o dcimo ano da guerra e todos os orculos diziam que seria o ltimo. Seria essa a razo do meu desalento? Seria por saber que, quando a guerra acabasse,
Aquiles me levaria consigo para lolcos? Ou por recear que ele me vendesse a um outro rei que apreciasse os meus talentos musicais? Com efeito, aparentemente, s
os meus talentos musicais lhe agradavam.
Mal a Primavera acordou, comearam as surtidas dos destacamentos troianos; com todos os Gregos instalados num acampamento imenso, os Troianos tinham de procurar
mantimentos que suprissem as suas faltas. Heitor procurava aproveitar todas as oportunidades para lanar incurses destinadas  recolha de alimentos, ao passo que
os Gregos e, em particular Aquiles e jax, vigiavam todos os passos dos Troianos, na esperana de apanharem Heitor. Aquiles desejava desesperadamente combater contra
Heitor; diziam as outras mulheres que o desejo de matar o herdeiro troiano consumia todas as suas energias. Todo o dia e metade da noite, a casa enchia-se de vozes
masculinas. Acabei por saber os nomes de todos os outros chefes gregos.
Por fim, a Primavera encheu o ar de fragrncias poderosas e os campos de minsculas flores brancas e as guas do Helesponto de um azul mais intenso. Pequenas escaramuas
ocorriam quase todos os dias. Em Aquiles, crescia a nsia de um duelo decisivo com Heitor. Contudo, no queria a sorte que ele acalmasse de vez essa nsia. No conseguia
encontrar no campo de batalha o esquivo herdeiro do trono de Tria. Nem ele, nem jax.
Embora Ladice considerasse que o trabalho duro no era para uma rapariga como eu, que nascera num bero de ouro, o certo  que, mal ela se ausentava, logo eu me
entregava a todo o tipo de tarefas que normalmente so executadas por mulheres de mais baixa condio. Tarefas mais teis do que bordar coisas suprfluas com uma
agulha enfadonha e desinspirada.
Uma das histrias mais intrigantes que corriam acerca de Aquiles dizia respeito ao modo como ele aceitara o amor de Ptrocles, depois de tantos anos de uma amizade
de todo isenta dos prazeres do corpo. Segundo Ladice, a transformao ocorrera durante um dos sortilgios com que Ttis castigava o filho. Em tais momentos, ainda
segundo Ladice, o nosso amo tornava-se particularmente susceptvel aos desejos dos outros e Ptrocles no desperdiara a oportunidade. Parecia-me uma explicao
demasiado comezinha, pois nunca encontrara em Ptrocles nada que sugerisse uma to grande falta de escrpulos. Porm, os caminhos da deusa do amor so, todos eles,
de estranheza feitos: quem poderia ter previsto que tambm eu viria a cair na cilada do sortilgio? Talvez a verdade fosse outra: talvez o corao de Aquiles se
defendesse com uma armadura invulnervel, uma armadura que s cedia aos golpes do amor por obra e graa do sortilgio ou seja, em circunstncias de extrema fragilidade.
Tudo aconteceu certo dia em que, escapando  vigilncia de Ladice, decidi entregar-me ao trabalho de que mais gostava: polir a armadura dele, no quarto especial
onde era guardada. Aquiles entrou. Os seus passos eram mais lentos do que era costume e os seus olhos no me viam, apesar de eu estar mesmo diante dele, com um trapo
na mo e um pedido de desculpas na ponta da lngua. Tinha o rosto abatido, desfigurado, e havia salpicos de sangue no seu brao direito. No, aquele sangue no era
dele!, conclu, j mais calma. Tirou o elmo e largou-o no cho; levou ambas as mos  cabea, como se esta lhe doesse muito. Assustada,

#comecei a tremer enquanto ele desapertava desajeitadamente as correias da couraa. Onde estava Ptrocles?
Despida a armadura, envergando agora apenas a tnica acolchoada que usava debaixo de todo aquele metal, procurou uma cadeira, com os olhos ausentes virados na minha
direco. Porm, em vez de se afundar na cadeira, foi no cho que caiu e logo desatou a tremer e a contorcer-se e a babar-se copiosamente e a murmurar coisas indistintas.
Depois, revirou muito os olhos e ficou hirto, muito hirto, braos e pernas rgidos como os de um cadver; de sbito, porm, todo o seu corpo rompeu numa convulso
que parecia no ter fim. A baba converteu-se em grandes gotas de espuma, o rosto ficou negro.
No podia fazer nada enquanto as convulses durassem; porm, logo que cessaram, ajoelhei a seu lado.
- Aquiles! Aquiles! Ele no me ouviu; jazia no cho, o rosto da cor da cinza, os braos movendo-se a esmo. Depois de terem encontrado o meu corpo, as mos dele procuraram
a minha cabea e embalaram-na docemente.
- Me, deixa-me em paz! A voz dele estava to alterada que quase no a reconhecia; desatei a chorar, aterrorizada por o ver assim.
- Aquiles, eu sou Briseida! Briseida!
- Por que me atormentas? - perguntou, mas no era a mim que perguntava. Eu no preciso que me lembres que a minha morte est prxima! No me atormentes mais, pois
j tenho penas que cheguem - no ficaste satisfeita com Ifignia? Deixa-me em paz, deixa-me em paz!
Calou-se depois, porque uma profunda letargia o venceu. Corri  procura de Ladice.
- O banho do nosso amo j est pronto? - perguntei, ofegante. Ladice interpretou erradamente a minha pressa: viu desejo onde havia aflio e desatou a meter-se
comigo.
- Tambm j no era sem tempo, minha tontinha! - disse-me ela. - Sim, o banho j est pronto. D-lhe tu banho que eu tenho muito que fazer. Ai, ai!
Dei-lhe banho, embora ele no me distinguisse de Ladice. Da que pudesse olhar para ele  vontade e entender aquilo que desde o incio me recusara a entender: quo
belo ele era, quo intensamente o desejava. O vapor inundava o quarto, a minha tnica dardaniana colava-se ao meu corpo porque eu transpirava abundantemente. Escarneci
da minha prpria tolice. Briseida, afinal, era igual s outras. Tal como todas as suas outras mulheres, Briseida apaixonara-se por ele. Apaixonara-se por um homem
que no ardia nem por homens, nem por mulheres, pois s vivia para uma coisa: o combate mortal.
Mergulhei um pano em gua fria, retorci-o e molhei-lhe o rosto. Nos seus olhos, brilhou algo que se aproximava da conscincia. Ergueu a mo e p-la no meu ombro.
- Ladice? - perguntou.
- Sim, meu amo. Vem, a tua cama est feita. D-me a tua mo. Os dedos dele apertaram-me a mo; sem precisar de olhar para ele, sabia que Aquiles reconhecera a minha
voz. Libertando-me da sua mo, peguei num boio de leo perfumado que estava sobre a mesa. Quando olhei de relance para o seu rosto, verifiquei que estava a sorrir:
o sorriso que quase fazia daquela fenda uma boca, um sorriso inesperadamente gentil.
- Obrigado - disse ele.
- De nada - respondi, quase incapaz de ouvir o que estava a dizer, tal era a violncia com que o meu corao batia.
- H quanto tempo ests aqui? No podia mentir-lhe.
- Desde o princpio.
- Ento, viste-me.
- vi.
- Ento, no temos segredos.
- No. Ns partilhamos o segredo - disse eu. E num pice estava nos seus braos, como no sei. S que no me beijava; dir-me-ia mais tarde que, como no tinha lbios,
os beijos pouco prazer lhe davam. Mas o corpo, ah, o corpo dava-lhe todo o prazer do mundo. Um prazer que o meu corpo tambm sentia. No havia uma nica fibra do
meu corpo que as suas mos no fizessem cantar como uma lira; eu era um corpo sem foras, inarticulado, sentindo apenas a ofuscante intensidade que Aquiles era.
E eu, eu que, durante tantas luas, tanto ansiara por aquele momento sem o admitir, conheci finalmente o poder da deusa. No nos dividiu, nem nos destruiu; por um
breve momento, senti a presena da deusa tanto dentro dele como dentro de mim.
Amava-me, disse-me ele mais tarde. Amava-me desde o princpio. Embora eu no fosse igual a ela, vira Ifignia em mim. Depois, contou-me a horrvel histria; imaginei
que, desde a morte de Ifignia, Aquiles se sentia verdadeiramente feliz pela primeira vez. E perguntei-me com que coragem iria eu enfrentar Ptrocles, o qual, com
a pureza do amor, tentara a cura do amado, mas falhara. Agora, todas as peas estavam no stio certo.

#
Capitulo Vigsimo
Narrado por Eneias
Levei para Tria um milhar de carros e quinze mil soldados de infantaria. Pramo engoliu a sua averso  Dardnia e acolheu-me com grande alarido; abraou o meu
pobre e demente pai e deu a Creusa, minha esposa (que era filha dele e de Hcuba), calorosas boas-vindas; quando viu o nosso filho, Ascnio, o seu rosto iluminou-se.
Ps-se logo a compar-lo a Heitor, o que muito me agradou, pois Ascnio, pelo menos fisicamente, era muito parecido com Pris.
As minhas tropas foram distribudas pela cidade e eu e a minha familia ficmos num pequeno palcio dentro da cidadela. Quando me vi sozinho, encarei tudo isto com
um sorriso amargo; no, de facto no fora um erro protelar por tanto tempo o meu apoio. Pramo estava to desesperado por se ver livre da sanguessuga grega - e sanguessuga
era, pois o sangue que era a vida de Tria rareava j - que at era capaz de fingir que o apoio da Dardnia fora uma oferta dos deuses.
A cidade mudara. As ruas estavam mais tristes e sujas do que noutros tempos; desaparecera a atmosfera de riqueza e poder ilimitados. Tal como alguns dos pregos de
ouro das portas da cidadela. Deliciado por me ver a seu lado, Antenor contou-me que muito do ouro de Tria fora gasto na compra de mercenrios dos Hititas e da Assria,
mercenrios que, afinal, no tinham vindo. E o ouro no fora devolvido.
Ao longo de todo o Inverno entre o nono e o dcimo anos do conflito, recebemos mensagens dos nossos aliados da costa, prometendo o auxlio possvel. Desta feita,
sentamo-nos inclinados a acreditar que os governantes da Cria, da Ldia, da Lcia e das outras naes acabariam por vir. Acosta fora arrasada de uma ponta  outra,
colonizadores gregos comeavam j a instalar-se nas runas das cidades; os reis nossos aliados j no tinham nem terras nem riquezas para defender. A derradeira
esperana da sia Menor seria unir-se a Tria e combater os Gregos em Tria. A vitria permitiria a esses reis regressarem aos seus domnios e expulsarem os intrusos.

#De todos vieram notcias: mesmo de alguns de quem j no espervamos notcia nenhuma. O rei Glauco deslocou-se a Tria com uma mensagem de Sarpdon, com quem partilhava
o trono; estavam a organizar as foras que haviam restado; apenas vinte mil homens conseguiriam trazer daquelas naes, outrora to populosas, que se estendiam desde
a Msia  longnqua Cilcia. Pramo chorou quando Glauco lhe contou como tudo acontecera.
Pentesileia, a rainha das Amazonas, prometeu dez mil combatentes de cavalaria; Meno, um parente de Pramo que era rei dos Hititas, viria com cinco mil soldados
de infantara e quinhentos carros. Quarenta mil soldados troianos eram j nossos; se se juntassem em Tria todos os reis que nos prometiam apoio, no Vero seguinte
disporamos j de muito mais soldados do que os Gregos.
Os primeiros a chegar foram Sarpdon e Glauco. Era um exrcito bem equipado; porm, quando examinei mais atentamente os seus soldados, entendi quo profundos haviam
sido os golpes que Aquiles desferira nas naes da costa. Sarpdon fora obrigado a incluir no seu exrcito jovens sem experincia e homens vergados ao peso da idade,
camponeses que s sabiam manejar o arado e pastores das montanhas que pouco mais eram do que meninos; enfim, gente que desconhecia por completo a arte da guerra.
Mas entusiasmo no lhes faltava e Sarpdon no tinha nada de idiota: sem grande dificuldade, transform-los-ia em soldados.               Heitor e eu sentmo-nos
certa noite numa sala do seu palcio e, enquanto nos delicivamos com o seu vinho, discutimos a situao.
- Os teus quinze mil soldados de infantaria, vinte mil soldados das naes costeiras, cinco mil hititas, dez mil amazonas e quarenta mil soldados de infantaria troianos
- mais um total de dez mil carros... Eneias, a vitria s pode ser nossa! - disse Heitor.
- Cem mil soldados... Segundo as tuas estimativas, quantos Gregos restam no acampamento? - perguntei.
- No  fcil fazer uma estimativa, Eneias. A nossa nica fonte de informaes tm sido os escravos que, ao longo dos anos, tm fugido do acampamento grego - disse
Heitor. - H um em particular de quem me tornei amigo - um homem chamado Demtrios. Um homem de origem egpcia. Atravs dele e de outros, fiquei a saber que Agammnon
dispe agora de apenas cinquenta mil homens. E quanto a carros de guerra, possui apenas mil.
Achei estranho.
- Cinquenta mil? Custa a crer.
- No  assim to estranho, Eneias. Quando chegaram, os soldados gregos eram oitenta mil. Demtrios disse-me que dez mil gregos foram dispensados devido  idade
e que Agammnon nunca mandou vir mais soldados da Grcia. Os nicos gregos que tm chegado  sia Menor so os colonos. Por outro lado, cinco mil soldados morreram
de uma epidemia h cerca de dois anos. Dez mil membros do Segundo Exrcito ou morreram ou ficaram incapacitados e cinco mil regressaram  Grcia pois as saudades
da ptria eram tantas que no aguentavam ficar mais tempo em Tria. Da a minha estimativa: no mais do que cinquenta mil homens, Eneias.
- Nesse caso, ser fcil aniquilarmos os Gregos - disse eu.
- Concordo inteiramente - disse Heitor, francamente animado. - Apoiar-me-s quando eu pedir ao meu pai que autorize a sada do exrcito?
- Mas ns ainda no temos os hititas nem as amazonas, Heitor!
- No precisamos deles.
- No te esqueas de que o exrcito grego possui uma longa experincia, ao contrrio do que sucede com o nosso. Os Gregos so um povo habituado  guerra. E os seus
soldados sabem que possuem ptimos chefes.
- Admito a nossa inexperincia, mas no estou de acordo quanto  excelncia dos chefes gregos. Ns tambm possumos guerreiros famosos - tu, por exemplo. E Sarpdon,
que  filho de Zeus! Os soldados adoram-no. - Heitor tossicou, embaraado. - E eu prprio, j agora.
- No  o mesmo - insisti. - Que pensam os Dardanianos de Heitor ou os Troianos de Eneias? E quem  que conhece o nome de Sarpdon, filho de Zeus ou no, fora dos
limites da Lcia? Pensa nos nomes gregos! Agammnon, Idomeneu, Nestor, Aquiles, jax, Teucro, Diomedes, Ulisses, Merona - e mais, muitos mais! At Macon, o cirurgio-chefe
grego,  um guerreiro notvel! E todos os soldados gregos conhecem todos esses nomes. Se perguntares a um soldado grego qual  o prato preferido de um determinado
chefe, ou a sua cor favorita, aposto que o homem sabe. No, Heitor, os Gregos so uma nica nao combatendo sob o comando de um rei supremo, Agammnon. Ns, em
contrapartida, no passamos de faces divididas por rivalidades mesquinhas, por censurveis invejas.
Heitor fitou-me por um longo momento e, com um suspiro, retorquiu:
- Tens razo, Eneias, claro que tens razo. Creio, porm, que quando for dada ordem de batalha, o nosso exrcito poliglota no pensar noutra coisa seno em expulsar
os Gregos da sia Menor. Os nossos soldados anseiam pela vitria. Ns lutamos pela nossa sobrevivncia.
Ri-me.
- Heitor, tu s um idealista incurvel! Quando um homem encosta a ponta da sua lana  tua garganta, ser que pras para pensar que esse homem anseia pela vitria?
Os Gregos lutam pela sua sobrevivncia tanto como ns lutamos pela nossa.
Sem se dar ao trabalho de comentar as minhas palavras, Heitor encheu de novo os nossos copos.

#- Tencionas portanto pedir ao teu pai que te autorize a sair com o exrcito?
- Sim - disse Heitor. - Hoje. Estou farto destas muralhas, Eneias! A cidade de Tria converteu-se numa imensa priso! - Acontece por vezes que as coisas que mais
ammos acabam por ser precisamente aquelas que nos destroem - disse eu.
Heitor sorriu, mas no estava nada divertido.
- s um homem to estranho, Eneias ... ! Ser possvel que no acredites em nada? Ser possvel que no tenhas amor a nada?
-Acredito em mim mesmo e tenho amor a mim mesmo - retorqui eu, dono e senhor de mim mesmo.
Pramo vacilou: na sua mente, o bom senso travava uma luta sem trguas com a nsia de expulsar os Gregos. Mas acabou por dar ouvidos a Antenor e no a Heitor.
- No faas isso, rei Pramo! - suplicou Antenor. - Um confronto prematuro com os Gregos seria a morte de todas as nossas esperanas! Espera por Meno dos Hititas
e pela rainha das Amazonas! Se Agammnon no tivesse Aquiles e os Mirmides, tudo seria por certo diferente, mas a verdade  que os Mirmides fazem parte do exrcito
grego e justificam plenamente os meus receios! Desde que nascem, os Mirmides vivem apenas para a guerra. O seu corpo  como bronze, o corao  como pedra, o esprito
 to pertinaz como o de uma formiga. Por alguma razo, lhes chamam Formigas! Sem as guerreiras amazonas, que sero capazes de opor uma resistncia decisiva aos
Mirmides, a linha da frente das tuas tropas sucumbir num pice! Espera, rei Pramo, espera!
Pramo decidiu esperar. Superficialmente, Heitor pareceu aceitar o veredicto do pai. Mas eu conhecia Heitor... O herdeiro de Tria no pensava noutra coisa seno
em combater contra Aquiles; o receio que o seu pai sentia relativamente a Aquiles fora precisamente a razo da sua derrota naquela assembleia.
Aquiles... Recordei o meu encontro com ele nos arredores de Lirnesso e perguntei-me se Aquiles seria superior a Heitor. Tinham mais ou menos a mesma corpulncia
e estatura, possuam o mesmo esprito marcial. No entanto, havia qualquer coisa que me dizia que Heitor estava condenado a sair derrotado do confronto... Em minha
opinio, as nossas sociedades tendiam a sobrestimar a virtude - e Heitor era to virtuoso... A virtude no era o meu domnio - eu ardia por outras coisas...
Foi com inquietao que abandonei a Sala do Trono. Por causa daquela antiqussima profecia que dizia que eu reinaria um dia em Tria, Pramo afastara-se de mim e
do meu povo. Apesar de toda a civilidade exibida desde o dia em que eu chegara, o escrnio velado continuava l. S os meus soldados me tornavam desejado. Porm...
como  que eu poderia sobreviver aos cinquenta filhos de Pramo? Como? A menos que Tria perdesse a guerra - nesse caso, at era possvel que Agammnon decidisse
dar-me o trono de Tria      ... Um belo dilema, para algum que tinha nas veias o mesmo sangue de Pramo     ...
Encaminhei-me para o ptio grande da cidadela e por a deambulei, consumido pelo dio que votava a Pramo, desejando que Tria fosse minha. At que me dei conta
de que havia algum, oculto nas sombras, espiando os meus movimentos. Senti como que um gelo na minha nuca. Pramo odiava-me. Seria capaz de cometer um to horrendo
pecado? Seria capaz de matar um parente prximo?
Conclu que sim - Pramo seria capaz disso e de muito mais. Empunhei o punhal e, oculto pelo altar repleto de flores consagrado a Zeus do Ptio, avancei p ante
p. Quando estava j  distncia de pouco mais de um brao do meu espio, saltei para cima dele, tapei-lhe a boca e encostei-lhe a lmina  garganta. Mas os suaves
lbios sob a palma da minha mo no eram lbios de homem, tal como no eram de um homem os seios que o meu punhal roava. Libertei-a imediatamente.
- Pensaste que eu era um assassino? - perguntou ela, ofegante.
-  uma estupidez andares por a oculta pelas sombras, Helena. Encontrei uma lanterna no degrau do altar e acendi-a com o fogo eterno; ergui-a depois e examinei
demoradamente a mulher de Pris. Oito anos tinham passado desde a ltima vez que a vira. Inacreditvel! Devia ter trinta e dois anos. Mas as lanternas so amveis;
mais tarde, sob uma luz mais intensa, pude ver os danos que a idade desenhara  volta dos seus olhos, pude sentir a flacidez que se anunciava j nos seus seios...
No entanto, por todos os deuses... continuava to bela! Helena, Helena de Tria e de Amiclas. Helena, a Sanguessuga. Todo o encanto de rtemis, a Caadora, se insinuava
na sua pose, toda a delicadeza de traos e toda a seduo lasciva de Afrodite brilhavam no seu rosto. Helena, Helena, Helena... S agora, enquanto olhava para ela,
 que me dava conta das muitas noites em que a sua imagem irrompera nos meus sonhos, dos muitos sonhos em que ela desapertara a sua cinta cravejada de pedras preciosas
e deixara cair as suas saias em torno de uns ps to brancos como marfim. Helena era Afrodite encarnada, era Afrodite transformada numa forma mortal. Em Helena,
eu reconhecia as formas e os traos da deusa que era minha me, a me que eu nunca vira, a me que conhecia apenas graas aos delrios do meu pai, que enlouquecera
devido ao seu encontro amoroso com a deusa do amor.
Helena era todos os sentidos encarnados, uma Pandora que sorria e que guardava os seus segredos, escrava e senhora; ela era terra e amor, humidade e ar, fogo misturado
com um gelo capaz de abrir as veias a um homem. Ela exibia todo o fascnio da morte e do mistrio, ela tornava tudo o mais risvel.

#Ps a sua mo no meu brao, as unhas polidas brilhando como o interior de uma concha.
- Ests em Tria h quatro luas, mas esta  a primeira vez que te vejo, Eneias. Revoltado e enfurecido, afastei a sua mo.
- Porque haveria eu de procurar-te? Que terei eu a ganhar, nesta corte de Pramo, se me virem a cortejar a Grande Meretriz?
Ela ouviu impassvel as minhas palavras, os olhos baixos. As pestanas negras ergueram-se ento, os seus olhos verdes fitaram-me gravemente.
- Concordo com tudo isso - disse ela, sentando-se, compondo os folhos da saia que emitiam uma msica esbatida. -Aos olhos de um homem - prosseguiu - uma mulher 
uma coisa, um objecto. Um objecto que  propriedade sua. Pode abusar dela  vontade sem medo de represlias. As mulheres so criaturas passivas. A autoridade -nos
vedada, pois os homens crem que no temos acesso ao pensamento lgico. Mas somos ns que damos  luz os homens, ainda que os homens se esqueam disso.
Bocejei.
- A autocomiserao  algo que no te assenta bem - disse.
- Gosto de ti - disse ela, sorrindo - porque tu vives para as tuas prprias ambies. E porque s como eu.
- Como tu?
- Sim, como eu... Eu sou um brinquedo nas mos de Afrodite. Tu s o seu filho.
Sfrega, procurou os meus braos e encheu-me de carcias estonteantes; ergui-a nos meus braos e caminhei com ela pelos silenciosos corredores que conduziam aos
meus aposentos privados. Ningum nos viu. Suponho que a minha me - astuta raposa! - nos protegia.
Mesmo quando a intensidade da sua paixo abalava o que de mais fundo havia em mim mesmo, havia uma parte dela que nem sequer sabia da possesso que a consumia -
um longnquo recanto do seu ser, reservado e secreto. Partilhmos o mesmo paroxismo de prazer, mas, enquanto me obrigava a desnudar todo o meu esprito, Helena mantinha
o seu prprio esprito guardado a sete chaves num qualquer esconderijo e eu no tinha a menor esperana de alguma vez encontrar uma s chave que fosse.

Captulo Vigsimo Primeiro
Narrado por Agammnon

H muito que o exrcito recebera ordem de batalha, mas Pramo permanecia no interior das muralhas. At as surtidas dos destacamentos troianos haviam cessado; as
minhas tropas andavam irritadas devido  incerteza e  inaco. No tendo nada a discutir, no convoquei conselho nenhum. At que Ulisses apareceu.
- Agammnon, estarias de acordo em convocar um conselho para hoje ao meio-dia? - perguntou-me.
- Porqu? No h nada para discutir.
- No queres saber como  que vamos convencer Pramo a sair?
- Que andas tu a maquinar, Ulisses? Fitou-me com uma expresso divertida, radiante.
- Rei Agammnon! No podes pedir-me que te revele os meus segredos neste momento! Seria o mesmo que pedires a imortalidade aos deuses!
- Muito bem. Convocarei o conselho.
- Posso pedir-te outro favor?
- Que favor? - perguntei, desconfiado. Ulisses olhava-me com aquele sorriso irresistvel a que costumava recorrer sempre que queria de mim qualquer coisa. Fraquejei:
que poderia eu fazer quando Ulisses se punha com aquele sorriso? S poderia dizer que sim a tudo, porque ficava encantado com o maldito sorriso.
- No quero um conselho geral. S alguns homens.
- O conselho  teu. Convocarei os homens que desejares. Diz-me os seus nomes.
- Nestor, Idomeneu, Menelau, Diomedes e Aquiles.
- E Calcas?
- Nem pensar!
- Daria tudo para saber porque  que detestas tanto o homem, Ulisses. Se ele fosse um traidor, a esta hora j o saberamos. Contudo, insistes em exclu-lo

#de todos os conselhos importantes. Os deuses so testemunhas, Ulisses: Calcas j teve imensas oportunidades para revelar os nossos segredos aos Troianos, mas a
verdade  que nunca o fez.
- Calcas ignora alguns dos nossos segredos tanto como tu, Agammnon. Creio que ele est apenas  espera do segredo decisivo - o segredo capaz de justificar uma traio.
Mordisquei nos lbios, soprei irritado. Por fim, retorqui:
- Muito bem. Calcas no vir.
- Mas ateno: tambm no lhe podes dizer que vai haver um conselho. E mais: logo que estejamos reunidos, quero as portas e as janelas seladas com tbuas e um cordo
de guardas  volta de todo o edifcio.
- Ulisses! No achas que ests a exagerar? Havia uma malcia evidente no seu sorriso.
- No quero que Calcas fique mal visto...  por isso que vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que esta guerra no dure mais de dez anos.
Os homens que Ulisses convocou estavam  espera de um conselho geral. Quando compreenderam que seramos apenas sete, no conseguiram esconder a sua curiosidade.
- Porque no convocaste Merona? - perguntou-me Idomeneu, algo irritado.
- E jax? - perguntou-me Aquiles, truculento como sempre. Aclarei a voz para a minha breve interveno.
- Ulisses pediu-me que os convocasse. Ulisses queria um conselho de apenas sete homens. Querem saber a que se deve este barulho? So os guardas que esto a pregar
tbuas nas portas e janelas desta sala. Por a podem ver at que ponto os assuntos que vamos tratar so secretos... Exijo por isso que todos jurem o seguinte: tudo
o que aqui for dito, no poder ser repetido fora destas paredes. Nem mesmo durante o sono.
Um a um, todos ajoelharam e juraram. Quando Ulisses comeou, era branda a sua voz; um dos seus muitos truques. Comeava com uma voz to suave e to baixa que tnhamos
de fazer um esforo para o ouvir; porm,  medida que ia delineando as suas ideias, o volume da sua voz ia tambm crescendo - at que, no fim, ressoava por toda
a sala como se fosse um tambor.
- Antes de abordar a razo que me levou a pedir a convocao de um conselho to restrito - disse ele, numa voz que quase no se ouvia - contarei a alguns dos presentes
aquilo que outros j sabem. Mais exactamente: revelarei a verdadeira funo da minha priso no pequeno vale.
Cada vez mais irado e espantado, escutei da boca de Ulisses aquilo que Nestor e Diomedes sempre haviam sabido. Por que estranho motivo nunca nos tnhamos lembrado
de investigar o que se passava no pequeno vale? Talvez porque - admiti eu, apesar de me sentir muito ofendido - nenhum de ns estava verdadeiramente interessado
em investigar; Ulisses, ao levar consigo os piores soldados, resolvera alguns dos nossos mais graves problemas - livrara-nos daquelas malditas criaturas. E, pelos
vistos, no os encarcerara... No, nada disso: as malditas criaturas eram, agora, os seus espies!
- Muito bem - disse eu, incapaz de ocultar a minha irritao, quando Ulisses concluiu as suas revelaes. - Pelo menos agora j sabemos como  que tu consegues prever
os sucessivos passos do exrcito troiano. Mas porqu tanto secretismo? Eu sou o rei dos reis, Ulisses! Deverias ter-me informado de tudo desde o incio!
- No poderia faz-lo - retorquiu Ulisses - enquanto favorecesses Calcas.
- Eu continuo a favorecer Calcas.
- Mas j no tanto como favorecias...
- Talvez. Talvez. Prossegue, Ulisses. O que  que os teus espies tm a ver com esta reunio?
- Os meus espies no tm preguiado tanto como o nosso exrcito - disse ele. - Todos conhecemos os boatos que correm quanto s razes por que Pramo ainda no abandonou
as suas muralhas. Segundo o rumor mais corrente, Pramo no teria ainda os reforos de que estava  espera - ou seja, teria ainda menos homens do que ns. Isso no
 verdade. Neste momento, Pramo dispe de setenta e cinco mil homens, para alm de cerca de dez mil carros. Quando Pentesileia, a rainha das Amazonas, e Meno,
o rei dos Hititas, chegarem, o exrcito aliado superar-nos- drasticamente. Alm disso, Pramo est erroneamente convencido de que, com alguma sorte, ns conseguiremos
reunir apenas quarenta mil homens. Podem ter a certeza de que tudo isto  verdade. Consegui introduzir na corte troiana alguns dos meus espies - e Pramo e Heitor
confiam neles.
Deu uma breve volta pela sala, escassamente ocupada e, portanto, livre de obstculos.
- Antes de avanar, gostaria de falar um pouco do rei de Tria. Pramo  um homem muito velho e atreito s dvidas, s vacilaes, aos receios e preconceitos dos
velhos. Em suma: Pramo no  um Nestor. Que no haja nenhum equvoco quanto a este ponto. Pramo governa Tria com uma mo muito mais autocrtica do que qualquer
rei grego - Pramo , literalmente, o rei de tudo aquilo que os seus olhos vem. Nem mesmo Heitor, seu filho e herdeiro, se atreveria a dizer-lhe o que deveria ou
no fazer. Agammnon convoca conselhos. Pramo convoca assembleias. Agammnon escuta atentamente aquilo que ns temos a dizer. Pramo escuta apenas a sua prpria
voz e as vozes que ecoam aquilo que ele est a pensar.
Parou e virou-se para ns.

#-  neste homem que temos de nos concentrar. A nossa astcia ter de ser superior  dele. Teremos de saber manipul-lo sem que ele suspeite sequer de que est a
ser vtima da nossa manipulao. Heitor chora enquanto deambula pelas ameias, contando os seus soldados e vendo-nos acampados nesta praia do Helesponto como fruta
madura pronta a ser colhida. Eneias impacienta-se e anseia pelo combate. Antenor, sozinho, nada faz, porque Pramo s faz aquilo que Antenor deseja - e Pramo tambm
nada faz.
Mais uma volta diante das cadeiras; todos os olhos o seguiam.
- Resta-nos saber, portanto, por que razo Pramo no quer a guerra, precisamente numa altura em que teria boas hipteses de nos expulsar da Trada. Estar mesmo
 espera de Meno e Pentesileia?
Nestor acenou que sim.
- Sem dvida - disse. - Um homem to velho como ele esperaria sempre por mais e mais reforos.
Ulisses respirou fundo; a sua voz comeava a crescer.
- Mas ns no podemos permitir-lhe que espere mais tempo!  preciso que suceda qualquer coisa que o convena a sair da cidade, antes que se possa dar ao luxo de
perder milhares e milhares de soldados. As minhas fontes de informao so muito melhores do que as de Pramo e posso garantir-lhes que tanto Pentesileia como Meno
chegaro a Tria antes que as neves do Inverno fechem as estradas do interior. As Amazonas so cavaleiras; portanto, com elas, Tria dispor de mais de vinte mil
soldados de cavalaria. Em menos de dois meses, Pentesileia estar em Tria. Meno vir logo a seguir.
Engoli em seco.
- Ulisses, eu no me tinha apercebido dessa possibilidade... Porque  que no me falaste disso mais cedo? - Porque s agora  que pude confirmar as minhas informaes.
- Sim, estou a ver... Prossegue, por favor.
- Pramo estar na defensiva apenas por uma questo de prudncia, ou haver mais alguma razo para o facto de protelar a guerra? - perguntou Ulisses, para ningum
em particular. - No, a prudncia no explica tudo. Se no fossem Aquiles e os Mirmides, Pramo teria j autorizado Heitor a sair da cidade com o seu exrcito.
Pramo receia mais Aquiles e os Mirmides do que todas as outras nossas tropas juntas. Em parte, os seus receios so motivados por certos orculos envolvendo Aquiles
- orculos segundo os quais a presena de Aquiles implica necessariamente a destruio da elite troiana. Mas tambm so motivados por um sentimento que se generalizou
entre as hostes troianas: o sentimento de que os Mirmides so imbatveis, de que Zeus os criou a partir de um exrcito de formigas, a fim de dotar Peleu dos melhores
soldados do mundo. Bom, todos ns sabemos como so os homens normais - supersticiosos e crdulos. Porm, tudo isto junto significa que Pramo precisa de um bode
expiatrio - algum que possa opor a Aquiles e aos Mirmides.
- Pentesileia ou Meno? - perguntou Aquiles, com uma expresso grave.
- Pentesileia. So muitos os mistrios que rodeiam a rainha das Amazonas e as suas guerreiras. Alm disso, as amazonas trazem consigo a magia que s as mulheres
possuem.  que Pramo no pode permitir que Heitor combata contra Aquiles. Mesmo que Apolo garantisse uma vitria troiana, Pramo no permitiria que Heitor enfrentasse
um homem que, segundo os orculos, implicar a destruio da lite troiana.
No havia sinal de alegria no rosto de Aquiles. Apesar disso, no interrompeu Ulisses.
- Aquiles possui dons que so raros - comentou Ulisses. -  um chefe to capaz como o prprio Ares. E  ele quem comanda os Mirmides.
Nestor suspirou.
- Se fssemos todos como ele... - disse. -Ainda  cedo para desesperos, Nestor! - retorquiu Ulisses num tom bem-disposto. - Eu ainda no perdi todas as minhas faculdades.
Diomedes - claro que Diomedes j sabia o que se ia passar, fosse l o que fosse - sorria. Aquiles observava-me e eu observava-o a ele; Ulisses observava-nos aos
dois. Ento, sem mais nem menos, bateu com o Basto no cho com tal violncia que todos ns saltmos nas cadeiras, e, quando falou, a sua voz ressou como o trovo.
- Ter de haver uma disputa entre ns! Fitmo-lo boquiabertos.
- Os Troianos no desconhecem a espionagem - prosseguiu Ulisses num tom mais normal. - Para dizer a verdade, os espies troianos no nosso acampamento tm-me servido
quase to bem como os espies que mandei para Tria. Conheo-os a todos e passo-lhes determinadas informaes que eles, como bons espies que so, transmitem a Polidamas,
que os recrutou - um homem interessante, este Polidamas, embora no seja to apreciado quanto deveria ser: mais uma razo para agradecermos aos deuses! Claro que
os espies de Polidamas levam apenas aquilo que eu os deixo levar - nomeadamente, a falsa informao de que temos um total insignificante de soldados. Porm, nestas
ltimas luas, tenho-os encorajado a transmitir a Polidamas uma informao muito particular... To particular que me sinto tentado a inclu-la no campo do mero mexerico...
- Mexerico? - perguntou Aquiles, com o sobrolho muito franzido.
- Sim, mexerico. As pessoas adoram acreditar em mexericos....
- Que mexericos? - perguntei.

#- Mexericos que so verdade: que no existe nem sombra de amizade entre Agammnon e Aquiles.
Creio que parei de respirar mais tempo do que devia, pois tive de inspirar de sbito e muito audivelmente.
- Nem sombra de amizade entre mim e Aquiles... - disse eu, lentamente.
- Exacto - disse Ulisses, satisfeito consigo mesmo. - Sabes, Agammnon,  que os soldados adoram falar dos seus superiores. E todos eles sabem que tem havido srias
divergncias entre vocs. Ultimamente, tenho espalhado o boato de que o vosso relacionamento se tem deteriorado - e de que maneira!
Aquiles levantou-se de um salto. O rapaz estava lvido.
- No gosto nada desses mexericos, Ulisses de taca! - exclamou ele, furioso.
- No estava  espera de que gostasses, Aquiles. Mas senta-te, se fazes favor! - Ulisses calou-se por um momento; tinha um ar pensativo. - Tudo aconteceu nos ltimos
dias do Outono, quando os despojos de Lirnesso foram divididos em Andramtio. - Suspirou. -  um espectculo muito triste, quando dois grandes homens se engalfinham
por causa de uma mulher ... !
Agarrei-me aos braos da cadeira para no me levantar e olhei para Aquiles, meu companheiro de mortificao; havia nos seus olhos um negrume que no deixava margem
para dvidas.
- Claro que  inevitvel que uma to pronunciada inimizade tenha um desfecho pouco agradvel - prosseguiu Ulisses, como se estivesse a ter a mais normal das conversas.
- Ningum ficar surpreendido se houver entre vocs uma rija disputa...
- Por causa de qu? - perguntei. -Por causa de qu?
- Um pouco de pacincia, Agammnon! Primeiro, terei de explanar detalhadamente os acontecimentos de Andramtio. O Segundo Exrcito, em sinal de respeito, ofereceu-te
uma prenda muito especial: uma rapariga chamada Criseida, cujo pai era sumo-sacerdote de Apolo Esminteu em Lirnesso. Criseu envergou armadura, empunhou uma espada
e foi morto em combate. Agora, porm, Calcas anda a dizer que os augrios so muito adversos - e que s melhoraro caso a rapariga fique sob a custdia dos sacerdotes
de Apolo em Tria. Pelos vistos, incorremos na ira do deus, se Criseida no for devolvida.
- Isso  verdade, Ulisses - disse eu, encolhendo os ombros. - Contudo, como disse a Calcas, no vejo de que modo  que Apolo poder castigar-nos mais.
 Apolo est completamente do lado de Tria. Criseida agrada-me. No tenho a menor inteno de desistir dela.
Ulisses fez um irnico Tch! e prosseguiu:
- Reparei, contudo, que a tua oposio irrita sobremaneira Calcas. Estou por isso certo de que o nosso sacerdote continuar a exortar-nos a que mandemos para Tria
a rapariga. E, para o ajudar, creio que seria boa ideia se houvesse um surto de peste no nosso acampamento. Tenho uma erva que deixa um homem muito doente durante
cerca de oito dias, aps o que recupera completamente. Verdadeiramente impressionante! Aos primeiros sinais de peste, Calcas pedir-te-, mais ou menos diariamente,
que devolvas Criseida a Tria. E, perante a violncia da ira de Apolo, consubstanciada na temvel doena, tu, Agammnon, acabars por ceder!
- Mas onde  que tudo isso vai dar? - perguntou Menelau, exasperado.
- Prometo-te que em breve sabers. - Ulisses concentrou-se em mim.
- Contudo, Agammnon, tu no s propriamente um principezinho insignificante.
- portanto, no te conformars com o facto de te ser retirado, de uma forma to arbitrria, um prmio absolutamente legal. Tu s o rei dos reis. Logo, ters de ser
compensado. Poders argumentar que, se foi o Segundo Exrcito quem te ofereceu a rapariga, ter de ser o Segundo Exrcito a substitu-la. Ora bem: havia entre os
despojos de Lirnesso uma outra rapariga, a qual foi atribuda - de uma forma particularmente arbitrria - a Aquiles. Chama-se Briseida, essa jovem. Todos os reis,
mais duzentos oficiais de alta patente, se aperceberam de que o nosso rei dos reis teria preferido Briseida a Criseida. E os mexericos espalham-se depressa, Agammnon.
Actualmente, todo o exrcito sabe que tu terias preferido Briseida. No entanto, toda a gente sabe tambm que Aquiles desenvolveu uma extrema afeio por Briseida
e que no gostaria nada que o separassem dela. Aos soldados, bastou-lhes olharem para Ptrocles para logo perceberem o que se passava: o pobre Ptrocles anda com
uma cara que  a prpria encarnao da tristeza.
- Ulisses, ests a entrar em terrenos perigosos - disse eu, antes que Aquiles conseguisse falar.
Ulisses ignorou-me.
- Tu e Aquiles - disse - vo brigar por causa de uma mulher. Sempre achei que as brigas por causa de mulheres so um facto facilmente aceite por toda a gente - no
esqueamos que tais disputas so extremamente comuns e j causaram mesmo a morte de muitos homens. Se me permites a liberdade, meu caro Menelau, creio que poderamos
incluir Helena num tal catlogo.
- No to permito! - rosnou o meu irmo. Ulisses pestanejou. Ah, mas que patife! Quando lhe davam a rdea toda, no havia quem o detivesse.
- Eu prprio - disse ele, visivelmente divertido - tratarei de inventar uns quantos pressgios nas barbas do nosso augusto sacerdote. Eu prprio fabricarei a falsa
peste. Uma coisa prometo desde j: a doena enganar at Podalrio e Macon! Ao fim de um dia, o terror espalhar-se- pelo nosso acampamento. Agammnon: logo que
te informem da gravidade da doena, chamars Calcas e per-

#guntar-lhe-s por que motivo est o deus irado. Ele vai adorar. E adorar ainda mais, quando tu solicitares um augrio pblico. Diante de todos os oficiais superiores
do nosso exrcito, Calcas exigir que envies Criseida para Tria. A tua posio ser absolutamente insustentvel. Ters de concordar com a exigncia de Calcas. Contudo,
estou certo de que ningum te censurar se ficares ofendido com as gargalhadas de Aquiles. Gargalhadas no meio de um augrio pblico?  de pasmar!
Por esta altura, estvamos j sem fala, embora eu duvide que Ulisses tivesse parado mesmo que Zeus houvesse lanado um raio a seus ps.
- Como  evidente, o rei dos reis ficar furioso. E exigir a Aquiles que lhe d Briseida. Depois, apelar para os oficiais superiores - a oferta do Segundo Exrcito
foi-lhe retirada; logo, Aquiles ter de o compensar, oferecendo-lhe Briseida. Aquiles dir que no, mas a sua posio ser to insustentvel como a do rei dos reis
quando Calcas lhe pediu Criseida. Aquiles ter de desistir de Briseida -e f-lo- ali mesmo, sem mais demoras. Porm, depois de ter entregue a rapariga a Agammnon,
lembrar-lhe- que nem ele, nem o seu pai, juraram o Juramento do Cavalo Esquartejado. Diante de toda a assembleia, Aquiles anunciar a sua retirada da guerra. -
Ulisses desatou num riso que s ao fim de algum tempo conseguiu controlar. - Tenho um retiro especial reservado para um certo Troiano que eu conheo. No dia seguinte,
j toda a cidade de Tria saber da briga.
Estvamos como homens transformados em pedra pelo olhar de Medusa. Quanto s tempestades de emoes que Ulisses provocara nos outros, poderia apenas conjecturar;
as minhas prprias tempestades j eram suficientemente medonhas. Pelo canto do olho, vi Aquiles mexer-se, e concentrei nele a minha ateno, impaciente por saber
como reagiria o jovem. Nunca conhecera um homem como Ulisses, capaz de ir buscar aos mais secretos tmulos tantos e tantos esqueletos secretos e de os exibir diante
de toda a gente. Pela Me, Ulisses era uma criatura verdadeiramente brilhante!
Fiquei espantado com Aquiles: o rapaz, afinal, no estava furioso! Nos seus olhos, havia apenas admirao.
- Que espcie de homem s tu, Ulisses, para conseguires congeminar to profunda desordem?  um plano hediondo - e assombroso! Contudo, tens de admitir que nem eu
nem Agammnon saremos beneficiados. As nossas duas carcaas sero cobertas de ridculo e desprezo, se fizermos aquilo que pretendes. E, se queres saber, devo dizer-te
que no renunciarei a Briseida, nem que, por isso, tenha de morrer.
Nestor pigarreou um pouco.
Tu no vais renunciar a nada, Aquiles. As duas jovens ficaro sob a minha custdia e comigo permanecero enquanto o plano de Ulisses no atingir o desfecho pretendido.
Lev-las-ei para um local secreto. Ningum saber onde esto. Incluindo Calcas.
Aquiles no estava ainda convencido.
- Uma oferta justa, Nestor, e uma oferta em que confio. Mas com certeza que entendes por que razo eu no gosto deste plano. Que acontecer se conseguirmos enganar
Pramo? Sem os Mirmides na linha da frente, sofreremos perdas fatais. No posso gostar de um plano que pe em perigo tantas vidas. - Fez uma breve pausa, cismando.
- E Heitor? Eu jurei aos deuses que havia de mat-lo... E se ele morrer enquanto eu no estiver no campo de batalha? E quanto tempo  que eu vou estar longe do campo
de batalha?
Ulisses respondeu.
- Sim, ns perderemos soldados que no perderamos se os Mirmides estivessem connosco. Mas os Gregos no so guerreiros inferiores. No tenho a mnima dvida de
que nos saremos bastante bem. Por ora, no responderei  mais importante das tuas questes - quanto tempo ters de te ausentar do campo de batalha. Prefiro falar
primeiro da eventualidade de Pramo abandonar as suas muralhas. Respondam-me, se puderem: que acontecer se esta guerra se arrastar por muito mais tempo? Que acontecer
se os nossos homens envelhecerem sem a esperana de voltarem a ver os seus lares? Que acontecer se Pramo sair apenas quando Pentesileia e Meno chegarem? Com ou
sem Mirmides, seremos arrasados. - Sorriu e continuou. - Quanto a Heitor, h-de viver o tempo suficiente para combater contigo, Aquiles. Estou certo e seguro disso.
Nestor levantou-se para falar.
- A primeira sada de todo o exrcito troiano ser, para Tria, um passo fundamental - disse. - Depois desse passo dado, voltaro a sair das suas muralhas. Se sofrerem
pesadas baixas, Pramo receber a informao de que as nossas baixas foram ainda mais graves. Quando conseguirmos atra-los ao campo de batalha, o dique rebentar.
No descansaro enquanto no nos expulsarem de Tria, ou enquanto o ltimo dos troianos no estiver morto.
Aquiles estirou os braos, os msculos enormes movendo-se sob a pele.
- Ulisses, duvido que tenha a fora de carcter suficiente para me abster de combater enquanto todo o exrcito corre para o campo de batalha. H dez anos que espero
pela guerra. E h outros factores a ter em conta. Que diro os soldados de um homem que os abandona num momento to difcil, unicamente por causa de uma mulher -
que diro os meus mirmides?
- No te faro elogios, Aquiles: quanto a isso no tenho a menor dvida retorquiu Ulisses, num tom srio. - Para fazeres aquilo que te peo, ters de ter um tipo
de coragem muito especial. Muito mais coragem do que aquela que seria precisa para atacar a Cortina Ocidental amanh. Que no haja equvocos! Aquiles no exagerou:
a realidade ser to dura como o quadro que ele descreveu! Muitos sero aqueles que te insultaro, Aquiles. Muitos sero aqueles que te insultaro,

#Agammnon. Alguns amaldio-los-o. Alguns cuspiro para o cho  vossa passagem.
Com um sorriso irnico, Aquiles fitou-me, mas havia no seu olhar alguma compaixo. Ulisses conseguira aproximar-nos mais do que eu julgaria ser possvel depois do
que sucedera em ulida. A minha filha! A minha pobre filha! Quieto e frio, antevi o odioso papel que teria de representar. Se Aquiles ia fazer o papel do fantoche
arrebatado, que espcie de fantoche ia eu representar? Seria fantoche a palavra certa? Talvez idiota fosse mais adequada.
Nesse exacto instante, como que anunciando que acabara de tomar uma deciso, Aquiles deu uma forte palmada na coxa.
- A tarefa que nos propes  extremamente pesada, Ulisses. Porm, se Agammnon tiver a humildade de aceitar carregar sobre os seus ombros a sua parte deste fardo,
como poderei eu recusar?
- Qual  a tua deciso, Agammnon? - perguntou-me Idomeneu, num tom que sugeria que nunca estaria de acordo com uma resposta positiva da minha parte.
Abanei a cabea, pousei o queixo sobre a mo e pensei, pensei, pensei, enquanto todos os outros me observavam. Aquiles interrompeu as minhas cogitaes, dirigindo-se
de novo a Ulisses.
- Responde agora  mais importante das minhas perguntas, Ulisses quanto tempo?
- Precisaremos de dois ou trs dias para atrairmos os Troianos ao campo de batalha.
- Isso no  resposta. Quanto tempo  que eu terei de ficar  margem dos acontecimentos?
- Proponho que ouamos primeiro a deciso do rei supremo. Agammnon, que decidiste?
Deixei cair a mo que me amparava o queixo.
- F-lo-ei, desde que seja observada uma condio. Cada um dos homens presentes nesta sala ter de jurar solenemente que cumprir tudo o que aqui for acordado, at
ao dia do desfecho final - seja qual for esse desfecho. Ulisses  o nico que poder guiar-nos atravs deste labirinto - tais planos, tais intrigas, tais tergiversaes,
nunca se coadunaram com a posio dos reis supremos de Micenas; digamos que so um domnio mais prprio dos reis ilhus. Esto todos de acordo quanto ao juramento?
Estavam todos de acordo. Como no havia nenhum sacerdote presente, jurmos pelas cabeas dos nossos filhes vares, pela sua capacidade em procriar e pela perpetuao
das nossas linhagens. Um juramento mais tremendo ainda do que o do Cavalo Esquartejado.
Ulisses, peo-te agora que concluas - disse Aquiles.
- Eu encarregar-me-ei de Calcas. Farei com que ele faa aquilo de que estamos  espera e que nunca saiba de que estvamos  espera disso mesmo. Calcas acreditar
em si mesmo to completamente como o jovem e pobre pastor escolhido entre a multido para desempenhar o papel de Dioniso durante as festas das Mnades. Aquiles:
depois de teres entregue Briseida a Agammnon e dito a tua parte, pegars nos teus oficiais mirmides e com eles regressars sem demora  tua base. Ainda bem que
insististe em construir uma estacada  volta do teu acampamento!
O teu isolamento tornar-se- ainda mais evidente. Proibirs os mirmides de abandonarem o seu acampamento. Tu prprio no o poders abandonar. A partir desse momento,
recebers visitas, mas nunca visitars ningum. Toda a gente pensar que as visitas tentaro demover-te. Em todas as circunstncias, e diante de todos os teus amigos
mais prximos, devers pr um ar verdadeiramente furibundo - o ar de um homem que se sente profundamente magoado e desiludido - de um homem que sente ter sido vtima
de uma tremenda injustia - de um homem que preferiria morrer a reatar o seu relacionamento com Agammnon. At mesmo Ptrocles ter de te ver assim: furioso, magoado,
desiludido. Entendido?
Aquiles aquiesceu gravemente; agora que tudo estava decidido e que o juramento fora feito, parecia resignado.
- Continuo  espera da tua resposta, Ulisses - disse ele. - Quanto tempo?
- S intervirs no ltimo, no derradeiro momento - disse Ulisses. - Heitor deve ficar absolutamente convencido de que a sua vitria  certa - e o pai dele tambm!
Estica a corda tanto quanto te for possvel, Aquiles! Quanto mais esticares a corda, tanto maior ser o efeito de surpresa - tanto maior ser o pnico! Os prprios
mirmides retomaro a aco antes de ti. - Respirou fundo, prosseguiu. - Ningum pode prever o que acontecer no campo de batalha. Nem mesmo eu. Porm, h coisas
que so praticamente certas. Por exemplo: sem o apoio dos mirmides, seremos arrastados para dentro do nosso prprio acampamento. Heitor irromper pela nossa muralha
defensiva e chegar aos nossos navios. Posso contribuir para que as coisas se passem assim, recorrendo a alguns dos meus espies no seio das nossas tropas. Eles
podem, por exemplo, semear o pnico - e o pnico contribuir decisivamente para uma retirada. Cabe-te a ti decidir o momento exacto em que devers intervir. No entanto,
deixa que, de incio, seja Ptrocles a conduzir os mirmides. Desse modo, os troianos pensaro que a tua deciso  absolutamente irreversvel. Eles conhecem os orculos,
Aquiles. Eles sabem que ns no conseguiremos derrot-los se tu no estiveres do nosso lado. Por isso, meu amigo, estica a corda o mximo que puderes! Corre para
o campo de batalha no ltimo, no derradeiro momento!
Depois disto, pouco mais haveria para dizer. Idomeneu levantou-se, encarando-me com uma expresso solidria; ningum entendia to bem como ele quo

#duro seria para Micenas suportar to extrema humilhao. Nestor concedeu-nos a todos o seu afvel sorriso - claro que Nestor j estava a par de tudo antes de a
reunio ter comeado. Tal como Diomedes, que exibia um sorriso de orelha a orelha - divertia-se com a perspectiva de ver os outros desempenhando o papel de bufo.
S Menelau falou.
- Posso dar-lhes um conselho?
- Claro que podes, Menelau! - exclamou Ulisses, num tom francamente caloroso. - Somos todos ouvidos!
- Calcas. Contem-lhe o segredo. Se ele souber, as nossas dificuldades diminuiro drasticamente.
Ulisses deu um murro na palma da sua outra mo.
- No, no e no! Calcas  troiano! No podemos confiar num homem que nasceu de uma mulher inimiga, e num pas inimigo, quando estamos a combater na sua prpria
terra e temos todas as probabilidades de vencer!
- Tens toda a razo, Ulisses - disse Aquiles. No fiz qualquer comentrio. Deixei os meus pensamentos para mim mesmo apenas. Durante anos, defendera Calcas. Contudo,
qualquer coisa mudara em mim naquela manh - no sabia exactamente o qu. Calcas estivera no centro de uma srie de acontecimentos muito graves... Fora ele quem
me forara a sacrificar a minha prpria filha - e, por isso mesmo, a atrair a hostilidade de Aquiles. Bom, se Calcas era realmente um homem indigno da minha confiana,
isso ver-se-ia no dia do meu teatral desaguisado com Aquiles.  que, apesar de toda a sua cautelosa inexpressividade, o seu rosto acabaria sempre por trair o prazer
que lhe ia na alma - isto , se de facto ele sentisse algum prazer. Ao fim de tantos anos, eu j o conhecia.
- Agammnon - queixou-se o meu irmo, despertando-me dos meus pensamentos -, estamos entaipados! Por favor, ordena aos soldados que nos deixem sair!

Captulo Vigsimo Segundo
Narrado por Aquiles

Temendo enfrentar aqueles que amava e no ser capaz de guardar segredo, regressei com um passo mais do que lento ao acampamento mirmido. Ptrocles e Fnix estavam
sentados a uma mesa, gozando o sol de Tria e jogando, divertidssimos, s pedrinhas.
- Que se passou? Algo de importante? - perguntou Ptrocles e levantou-se para pr o seu brao por cima dos meus ombros. Uma coisa que ele sentia cada vez mais a
tentao de fazer, desde que Briseida surgira na minha vida - o que era lamentvel. No ganhava nada em proclamar publicamente que eu lhe pertencia, alm de que
me irritava solenemente. Era como se estivesse a tentar culpabilizar-me - eu sou teu primo direito e tambm teu amante; portanto, no podes abandonar-me assim sem
mais nem menos, s porque agora tens um brinquedo novo.
Dei aos ombros para afastar o seu abrao.
- No se passou nada. Agammnon queria saber se estvamos a ter dificuldades em controlar os soldados.Fnix ps um ar surpreso.
- Para isso, no precisava de convocar um conselho. Bastar-lhe-ia dar uma volta pelo acampamento.
- Vocs conhecem o nosso imperial suserano... H mais de uma lua que no convocava nenhum conselho - ele receia um abrandamento do seu controlo sobre os restantes
chefes.
- Mas porque  que s te convocou a ti, Aquiles? Creio que sou um elemento til em todos os conselhos, pois sou eu quem serve o vinho e vela pelo conforto geral
- disse Ptrocles com um ar magoado.
- Foi um grupo muito restrito.
- Calcas estava presente? - perguntou Fnix.
- Calcas no est muito bem visto neste momento.

#- Por causa de Criseida? Seria melhor se se calasse quanto a esse assunto disse Ptrocles.
- Talvez pense que, de tanto insistir, acabar por conseguir aquilo que pretende - disse eu, casualmente.
Ptrocles ficou surpreendido.
- Crs que sim? No me parece...
- Vocs no tero nada de mais importante para fazer do que jogar s pedrinhas? - perguntei, para mudar de assunto.
- Haver coisa mais agradvel do que jogar s pedrinhas, num dia to bonito como este? Num dia em que os Troianos continuaro encarcerados nas suas muralhas? - perguntou
Fnix. Fitou-me com um olhar manhoso. - Estiveste fora toda a manh, Aquiles.  muito tempo para uma reunio to banal.
- Ulisses estava em boa forma.
- Senta-te aqui connosco - pediu Ptrocles, afagando-me o brao.
- Agora no. Briseida est em casa? Nunca vira Ptrocles furioso; de sbito, porm, uma raiva imensa ardia-lhe nos olhos; tremiam-lhe os lbios, mordeu-os.
- Onde  que ela havia de estar seno em casa? - atirou-me e logo me virou costas e sentou-se  mesa. - Vamos jogar? - props a Fnix, que aquiesceu todo contente.
Chamei por ela mal entrei. Briseida abriu imediatamente uma porta interior e correu para os meus braos.
- Tiveste saudades minhas? - perguntei eu, vaidosamente.
- Pareceram-me dias e no uma manh!
- Quer-me parecer que foi meio ano... - Suspirei, pensando no que se passara naquela sala entaipada.
- Com certeza que bebeste mais do que o costume durante o conselho, mas... queres que te traga o vinho?
Olhei para ela, surpreendido.
- Para dizer a verdade, no bebemos vinho nenhum.
O riso transbordava nos seus olhos de um azul muito intenso.
- Foi uma reunio absorvente!
- Aborrecida.
- Coitadinho! Agammnon no te deu de comer?
- No. Olha, s uma boa menina e traz-me qualquer coisa para comer, est bem?
Briseida desatou numa azfama para me servir, chilreando como um pardal, enquanto eu a observava, dizendo para mim mesmo que ela possua o mais encantador dos sorrisos,
um andar dos mais graciosos, um colo cuja suavidade sz encontrava paralelo nas formas do cisne. A guerra contm em si uma perptua ameaa de morte; contudo, Briseida
parecia ignorar por completo que sobre as cabeas de muitos homens pairava naquele momento a sentena final; a verdade  que eu nunca lhe falava de guerra.
- Viste Ptrocles l fora, ao sol?
- vi.
- Mas preferiste vir ter comigo - disse ela, toda satisfeita, provando que a rivalidade no era meramente unilateral. Passou-me o po quente e um prato de azeite
para eu molhar o po.
- Aqui tens, acabou de sair do forno.
- Foste tu que o fizeste? - perguntei.
- Sabes perfeitamente que eu no sei fazer po, Aquiles.
- Claro. Tu no dominas as artes femininas.
- Dir-me-s isso esta noite, quando baixarmos as cortinas da nossa porta e eu estiver na tua cama - respondeu-me ela, serenamente.
- Muito bem. Admito que dominas pelo menos uma das artes femininas. Mal acabei de dizer isto, sentou-se ao meu colo, pegou na mo que eu tinha livre e enfiou-a na
blusa larga que trazia, oferecendo-me o seu seio esquerdo.
- Amo-te tanto, Aquiles!
- Eu tambm te amo muito, Briseida. - Pus a minha mo no seu cabelo e ergui-lhe o rosto para que ela olhasse para mim. - Briseida, gostaria que me fizesses uma promessa.
Nos olhos dela, no havia nenhum sinal de ansiedade.
- Tudo o que quiseres.
- Que farias, se eu te mandasse embora e te ordenasse que pertencesses a outro homem?
A boca dela tremeu.
- Se fossem essas as tuas ordens, obedeceria.
- E que pensarias de mim?
- O mesmo que penso agora. Haveria certamente uma razo para me dares tais ordens. Ou ento, seria por estares farto de mim.
- Eu nunca me fartarei de ti. No tempo que me restar de vida, nunca me fartarei de ti. H coisas que no podem mudar nunca.
A cor regressou num pice s suas faces.
-  tambm isso que eu penso. - E desatou a rir. - Pede-me para fazer uma coisa fcil, como morrer por ti.
- Antes de irmos para a cama?
- Bom, ento... pode ser amanh?
- Ainda no te disse qual era a promessa que queria que fizesses.

#- Ento qual ? Por um instante, os meus dedos brincaram com uma madeixa do seu magnfico cabelo. Por fim, disse-lhe: - Quero que me prometas que, se alguma vez
eu te parecer a mais estpida das criaturas, ou a mais desumana, mesmo assim continuars a acreditar em mim.
-Acreditarei sempre em ti. -Apertou um pouco mais a minha mo contra o seu seio. - Eu tambm no sou estpida, Aquiles. J percebi que h qualquer coisa que te perturba.
- Se h, no to poderei dizer. Ao ouvir isto, Briseida mudou de assunto - e nunca tentou sequer arrancar-me fosse o que fosse.
Nenhum de ns se dava conta de como Ulisses andava a cumprir as tarefas que se havia proposto; sabamos que a mo dele estava a manipular os cordis; contudo, no
vamos nem sinal dessa mo. Fosse como fosse, o certo  que todo o exrcito comentava j que a hostilidade entre mim e Agammnon atingira um ponto critico, que Calcas
se mostrava cada vez mais obstinado no que tocava  necessidade de devolver Criseida a Tria e que Agammnon estava prestes a perder a pacincia.
Trs dias aps o conselho, estes temas de conversa depressa foram esquecidos. A catstrofe abatera-se sobre o nosso acampamento. De incio, os oficiais tentaram
silenciar o caso; porm, ao fim de pouco tempo, havia j tantos homens doentes que seria impossvel escond-los. A medonha palavra passou de boca em boca: peste,
peste, peste! Num s dia, quatro mil homens adoeceram; no dia seguinte, mais quatro mil doentes - uma multido clamando pelos cuidados dos mdicos. Fui ver alguns
dos meus homens afectados pela falsa peste - e supliquei a Latona e a rtemis que guiassem Ulisses. Saberia ele realmente o que estava a fazer? Os meus homens estavam
febris, deliravam; a sua pele cobrira-se de uma estranha irritao que exsudava um estranho fluido; e eram to violentas as dores de cabea que eles no conseguiam
conter as lgrimas. Falei com Macon e Podalrio, que se mostraram peremptrios: aquilo era peste.
Pouco depois, encontrei por acaso o prprio Ulisses. Exibia um sorriso radiante.
- Uma coisa tens de admitir, Aquiles - disse-me ele. - Enganei os filhos de Asclpio!  obra, h?
- Espero que no te tenhas excedido - retorqui azedamente.
- Sossega: no haver nenhuma baixa. Estaro todos em perfeitas condies de sade quando deixarem o hospital.
Abanei a cabea, exasperado com o facto de, no meio de to grande aflio, Ulisses estar todo satisfeito consigo mesmo!
E vo deixar o hospital de Macon e Podalrio no preciso momento em que Agammnon obedecer a Calcas e desistir de Criseida.  isso, no ? Uma recuperao miraculosa
- operada pelo deus! S que, desta feita, ser um falso deus!
- No digas isso demasiado alto - pediu-me ele, e logo se afastou para tratar dos doentes com as suas prprias mos, desse modo ganhando uma imerecida reputao
de homem corajoso: to corajoso que nem a peste temia...
Quando Agammnon pediu a Calcas um augrio pblico, o exrcito suspirou de alvio. Ningum duvidava que o sacerdote insistiria na devoluo de Criseida; os coraes
dos homens comearam a sentir algum consolo perante a possibilidade de a epidemia chegar ao seu termo.
Um augrio pblico implicava a presena de todos os oficiais do exrcito com um cargo superior ao de mero chefe de esquadro. Concentraram-se no espao destinado
s assembleias; seriam cerca de um milhar, formados atrs dos reis, todos defronte para o altar; a maior parte deles, evidentemente, eram familiares dos reis, alguns
mesmo muito prximos.
S Agammnon estava sentado. Quando passei diante do seu trono, fitei-o com ar de poucos amigos e no ajoelhei. Os espectadores repararam no meu comportamento; no
havia rosto em que no se lesse uma preocupao sincera. Ptrocles chegou mesmo a levar a mo ao meu brao, advertindo-me contra o desrespeito demonstrado, mas eu
afastei-lhe a mo com um gesto furioso. Depois, ocupei o meu lugar, ouvi Calcas dizer que a peste s cederia se dssemos a Apolo aquilo que Apolo queria - Criseida.
Agammnon teria de mand-la para Tria.
Nem eu nem Agammnon precisvamos de nos exceder no desempenho dos nossos papis; bastava que no sassemos da teia tecida por Ulisses - bastava que obedecssemos
s suas odiosas instrues. Desatei a rir-me de Agammnon e ele vingou-se do meu escrnio, ordenando-me que lhe desse Briseida. Afastando brutalmente Ptrocles (o
pobre coitado estava frentico de ansiedade), abandonei o local, encaminhando-me imediatamente para o acampamento mirmido. Briseida olhou para o meu rosto e nada
disse, ainda que os seus olhos estivessem marejados de lgrimas. Regressmos em silncio ao local onde decorria a assembleia. Ento, diante de todos os reis e oficiais
superiores, entreguei-a a Agammnon. Nestor ofereceu-se imediatamente para tomar conta das duas raparigas e para as conduzir aos seus respectivos destinos. Ao afastar-se,
Briseida virou-se para me ver uma ltima vez.
Quando disse a Agammnon que retiraria e que as minhas tropas no participariam na guerra, fi-lo como se acreditasse piamente em tudo o que estava a dizer. Nem Ptrocles
nem Fnix duvidaram, por um instante que fosse, da minha sinceridade. Representada a minha parte, dirigi-me sem mais delongas para o acampamento mirmido; eles que
me seguissem, se quisessem.

#A casa estava cheia de ecos, vazia sem Briseida. Evitando Ptrocles, deambulei furtivamente todo o dia pelas vrias divises, sozinho com a minha vergonha e tristeza.
 hora da ceia, Ptrocles veio ter comigo. Comemos os dois j'untos, mas, de incio, no trocmos uma nica palavra. Ptrocles recusava-se a falar comigo.
Acabei por ser eu a quebrar o terrvel silncio.
- Primo, no consegues compreender, pois no? Com os olhos nublados pelas lgrimas, Ptrocles fitou-me.
- No, Aquiles, no consigo. Desde que aquela rapariga apareceu, transformaste-te numa outra pessoa. Hoje, tomaste uma deciso em nome de todos ns, quando no tinhas
o direito de decidir sem nos consultares previamente. S o nosso rei supremo poderia fazer uma coisa dessas - e Peleu nunca o fez, nem faria. No s digno do pai
que tens, Aquiles.
Ah, magoavam-me tanto aquelas palavras!
- Poders perdoar-me, j que no consegues compreender-me?
- S te perdoarei se fores ter com Agammnon e retirares aquilo que disseste.
- Retirar aquilo que disse? Enlouqueceste? Agammnon insultou-me de uma forma intolervel!
- Um insulto inteiramente merecido! Se no tivesses escarnecido dele, Agammnon nunca se teria lembrado de ti e de Briseida! S justo! Comportas-te como se te tivessem
arrancado o corao, por te terem tirado Briseida - nunca te ocorreu que Agammnon poderia sentir exactamente o mesmo por lhe tirarem Criseida?
- Quem, Agammnon? Aquele tirano no tem sentimentos!
- Aquiles, por que razo te mostras to obstinado?
- Obstinado, eu? Essa  boa! Ptrocles juntou as mos, pasmado.
- Ah, isto  inacreditvel ... !  a influncia dela, s pode ser ... ! O que ela no te ter feito para te pr nesse estado ... !
- Percebo perfeitamente que tenhas essa viso, Ptrocles, mas a tua viso no corresponde  verdade. Perdoa-me, Ptrocles,  tudo o que te peo.
- No posso perdoar-te - disse ele, e foi-se embora. O dolo Aquiles cara finalmente do seu pedestal. Ulisses estava coberto de razo: os homens acreditavam que
as mulheres eram mesmo capazes de provocar os mais terrveis conflitos.
Ulisses visitou-me na noite seguinte, fazendo o possvel por no dar nas vistas. Fiquei to contente por ver um rosto amigo que o saudei de um modo quase febril.
Ostracizado pelos teus prprios homens? - perguntou-me. Sim. Nem mesmo Ptrocles me quer ver.
Bom, a reaco de Ptrocles no tem nada de surpreendente... Mas anima-te, Aquiles, anima-te! Dentro de poucos dias, regressars ao campo de batalha e sers absolvido
de todas as acusaes.
- Absolvido... Uma palavra interessante... No entanto, ocorreu-me h pouco algo que deveria ter-me ocorrido durante o conselho. Se me tivesse lembrado disso, nunca
teria concordado com o teu plano.
Como assim? Ulisses parecia saber j o que eu ia dizer. Que vai acontecer a todos ns, Ulisses? Muito naturalmente, todos presumimos que, se o plano resultasse -
e resta saber se resultar! -, poderamos, no fim de tudo, revel-lo a toda a gente. Apercebo-me agora de que nunca poderemos contar aos nossos homens a maquinao
que congeminmos. Tanto os oficiais como os soldados censurariam um tal expediente. Concluiriam que recorremos a meios demasiado cruis para atingirmos os nossos
fins. Veriam apenas os rostos dos homens que ho-de morrer para que esses fins sejam alcanados. Tenho razo, no tenho?
Ulisses esfregou o nariz com um ar pesaroso.
- Perguntava-me quem seria o primeiro a descobrir isso - se tu, se Agammnon. Apostei em ti - e voltei a ganhar.
- Tu nunca perdes, Ulisses ... ! Mas diz-me uma coisa: a minha concluso  correcta, ou tens em mente uma soluo capaz de deixar toda a gente feliz?
- Essa soluo no existe, Aquiles. Conseguiste ver aquilo que deverias ter enxergado durante o nosso conselho. Se por acaso o teu peito albergasse um pouco menos
de paixo, t-lo-ias visto na sala do conselho. No, Aquiles, o nosso plano nunca poder ser revelado. Teremos de levar o segredo connosco para o tmulo, tanto mais
que estamos presos ao juramento que Agammnon sugeriu -
poupando-me assim o trabalho de ser eu prprio a sugeri-lo e poupando-me a perguntas que eu teria a maior dificuldade em responder - disse-me ele com um ar grave.
Cerrei os olhos. - Ou seja: enquanto for vivo, e depois de descer ao tmulo, Aquiles ser visto pela humanidade como um fanfarro egosta, to inchado consigo mesmo,
to estupidamente obsecado com a sua prpria importncia, que permitiu que inmeros soldados perecessem - e unicamente para satisfazer o seu orgulho ferido!
- Sim.
- Devia cortar a cabea que  capaz de to tortuosas maquinaes! Graas a ti, terei de carregar sobre os meus ombros um fardo de vergonha e desonra que macular
o meu nome para todo o sempre. Quando, em pocas futuras, os homens

#falarem de Aquiles, diro que ele sacrificou tudo por causa do seu orgulho ferido. Espero bem que acabes no Trtaro, Ulisses!
- No tenho qualquer dvida de que ser esse o meu fim depois do fim -
retorquiu ele, muito pouco preocupado e ainda menos impressionado. - No s o primeiro homem que me amaldioa, nem sers o ltimo. Mas todos ns sofreremos as repercusses
daquele conselho, Aquiles. Os homens nunca sabero ao certo o que se passou - mas suspeitaro que a mo de Ulisses esteve por detrs disto tudo. E Agammnon? Tu
sers visto como uma vtima de um orgulho desmedido - e ele? Tu, pelo menos, foste injuriado. Mas quem injuriou, foi ele.
De sbito, dei-me conta de quo disparatada era aquela conversa - pois os homens, mesmo quando so to brilhantes como Ulisses, no passam de meros tteres no imenso
teatro a que os deuses presidem.
- Pois bem - disse eu - sempre  uma forma de justia. Ns merecemos perder as nossas reputaes imaculadas. Afim de nos lanarmos nesta desastrada empresa, consentimos
em participar num sacrifcio humano.  por isso que vamos pagar. E  por causa do que aconteceu em ulida que eu estou disposto a manter at ao fim este disparate.
A minha maior ambio ser-me- assim negada.
- Que ambio?
- Viver nos coraes dos homens como o guerreiro perfeito. Heitor, esse sim, ser considerado o guerreiro perfeito.
- No podes ter certezas quanto a isso, Aquiles, mas  possvel que os teus bisnetos j as tenham. A posteridade julga-nos de um modo diverso do nosso.
Fitei-o cheio de curiosidade.
- Diz-me uma coisa, Ulisses: nunca sentiste o desejo de seres lembrado por muitas geraes de homens?
Ulisses desatou a rir-se.
- No! Eu no me preocupo nada com o que a posteridade dir ou no dir de mim! No me preocupo sequer com a eventualidade de a posteridade conhecer ou no o meu
nome. Depois de morto, serei condenado a empurrar eternamente uma rocha para o cimo de um qualquer monte do Trtaro ou a nunca chegar ao jarro que contm a gua
que me saciaria a mais terrvel das sedes.
- E eu estarei a teu lado. Por muito que faamos, j  demasiado tarde.
- Quanto a isso, tens toda a razo, Aquiles. Camos num silncio profundo, a cortina corrida contra intrusos que nunca viriam apiedar-se do seu orgulhoso chefe.
O jarro de vinho estava sobre a mesa.
Enchi os nossos copos e bebemos lentamente, embrenhados nos nossos pensamentos, pois nenhum de ns estava interessado em revel-los. Sem dvida que os pensamentos
de Ulisses seriam muito mais agradveis, visto que ele no esperava que a posteridade o premiasse. Embora Ulisses parecesse no acreditar em mais nada para alm
das penas eternas, achava maravilhoso que fosse capaz de encarar o seu destino com uma confiana to absoluta.
- Porque vieste visitar-me? - perguntei-lhe.
- Porque queria informar-te de uma estranha ocorrncia antes que outra pessoa o fizesse - respondeu.
- Uma estranha ocorrncia?
- Hoje de manh, alguns soldados foram pescar para as margens do Simoente. Quando o Sol nasceu, viram qualquer coisa sendo levada pela corrente.
O corpo de um homem. Correram a chamar o oficial que estava de vigia, o qual tratou de ir buscar o cadver e de o trazer para terra. Era Calcas. Morreu, crem eles,
ao cair da noite.
Estremeci.
- Como morreu ele?
- Tinha uma ferida horrvel na cabea. Ao entardecer, um oficial de jax tinha-o visto no cimo do penhasco do lado de l do Simoente. O oficial jura que era Calcas
- Calcas era o nico homem no nosso acampamento que envergava tnicas compridas. Deve ter tropeado e cado de cabea.
Fitei-o atentamente. Ulisses exibia uma expresso pesarosa, comovida mesmo; nos seus belos olhos cinzentos, dir-se-ia que cintilava a mais pura devoo. Seria possvel?
Seria mesmo possvel? Estremecendo de puro terror, dei comigo a pensar se ele no teria acrescentado mais um pecado  longa lista que, ao que constava, havia j
cometido. Se juntssemos o assassnio de um sumo-sacerdote ao sacrilgio,  profanao,  blasfmia, ao atesmo e ao assassnio ritual, teramos uma lista que superaria
as de Ssifo e Ddalo juntas. mpio Ulisses que, no entanto, era amado pelos deuses! Paradoxo mortal, um pulha e um rei combinados numa s pessoa!
Ulisses leu os meus pensamentos e fitou-me com um sorriso afvel.
- Aquiles, Aquiles! Como  possvel que penses uma coisa dessas - mesmo de uma criatura como eu? - E deixou escapar um risinho. - Se queres saber a minha opinio,
acho que o autor do crime foi Agammnon.

#
Captulo Vigsimo Terceiro
Narrado por Heitor.
No tnhamos notcias de Pentesileia; a rainha das Amazonas tardava nos seus longnquos e selvagens domnios, enquanto Tria desesperava. O destino de uma cidade
estava dependente dos caprichos de uma mulher! Amaldioei-a e amaldioei os deuses por permitirem que uma mulher continuasse sentada num trono depois da morte da
Velha Religio. O domnio absoluto da Me Kubaba acabara. No entanto, Pentesileia continuava a reinar sem que ningum a contestasse.
Demtrios, o escravo grego que fugira do acampamento inimigo, informou-me de que a rainha nem sequer convocara ainda as mulheres das suas inmeras tribos; no viria
antes que o Inverno enchesse de neve os caminhos das montanhas.
Todos os augrios diziam que a guerra acabaria naquele dcimo ano; apesar disso, o meu pai continuava a recear abandonar as muralhas, humilhando-se e humilhando
Tria, pois no era uma humilhao terrvel deixar que a nossa sorte dependesse daquela mulher? Rangiam os meus dentes perante a injustia das suas decises, criticava-o
abertamente nas assembleias. Mas o meu pai tomara uma deciso e no se desviava do caminho escolhido. Vezes sem conta garanti-lhe que Aquiles no representava para
mim nenhum perigo, que as nossas melhores tropas conseguiriam repelir os Mirmides, que ns chegaramos  vitria sem Meno ou Pentesileia. Mesmo depois de lhe ter
transmitido as informaes de Demtrios sobre a demora de Pentesileia, o meu pai permaneceu intransigente, comentando que se a rainha das Amazonas s vinha depois
do Inverno, ento esperaria de bom grado pelo incio do dcimo primeiro ano.
Agora que todo o exrcito grego se encontrava de novo na praia, tnhamos voltado s nossas ameias, da apreciando as diversas bandeiras que flutuavam no cimo das
casas gregas. Junto ao Escamandro, num local onde uma muralha interna separava alguns dos alojamentos, flutuava uma bandeira que no havia visto antes, uma bandeira
com uma formiga branca sobre um fundo negro. A formiga

#segurava na boca um raio vermelho. Aquela era a bandeira dos Mirmides, a bandeira de Aquiles de aco. O rosto de Medusa no poderia ter instilado um to profundo
medo nos coraes troianos.
Obrigado a ouvir discusses sem a mnima importncia quando todo o meu ser ansiava pela guerra, assistia a todas as assembleias. Algum tinha de l estar para protestar
que o exrcito estava cansado de esperar e de treinar, algum tinha de l estar para ver o rei fazer ouvidos de mercador a todos os meus protestos, para ver Antenor,
o inimigo de toda e qualquer aco positiva, sorrindo displicentemente.
No me apercebi de nada de especial naquele dia que iria mudar as nossas vidas. Contrariado como sempre, desloquei-me  assembleia. A corte tagarelava na maior confuso,
ignorando o estrado do trono, aos ps do qual um queixoso estava a apresentar o seu caso - um problema de uma importncia extraordinria, relacionado com os esgotos
que levavam as guas da chuva e os excrementos de Tria para o poludo Escamandro. Tinham recusado o acesso aos esgotos ao novo bloco de apartamentos do queixoso,
e ele, proprietrio e senhorio, muito naturalmente, estava furibundo.
- Tenho coisas mais importantes a fazer do que vir para aqui contestar o direito de um bando de burocratas impenitentes a frustrar as aspiraes dos cidados honestos
que pagam os seus impostos! - gritou ele para Antenor, o qual, na sua qualidade de chanceler, defendia os responsveis pelos esgotos da cidade.
- Tu no apresentaste o pedido a quem devias! - atirou-lhe Antenor.
- Mas quem somos ns? Egpcios? - perguntou o senhorio, erguendo os braos. Eu falei com o homem do costume, que me disse que sim! S que, antes de eu ter feito
a ligao, apareceu-me um esquadro de guardas que me impediu de fazer o que quer que fosse! Teria muito menos problemas se vivesse em Nnive ou Karkemish! Ou em
qualquer outro stio do mundo que os burocratas no tivessem conseguido paralisar com os seus estpidos regulamentos! Porque a verdade  esta: Tria est quase to
paralisada como o inerte Egipto! Vou emigrar! Vou emigrar!
Antenor dera j incio ao discurso de defesa dos seus muito queridos burocratas quando um homem irrompeu arquejante pela sala, encaminhando-se imediatamente na direco
do estrado do trono.
No o reconheci, mas Polidamas sabia quem era. - Que se passa? - perguntou-lhe Polidamas.
O homem, por um momento, no conseguiu dizer nada, de to ofegante que vinha. Molhou os lbios, tentou de novo falar, mas acabou a apontar desvairadamente para o
meu pai, o qual, esquecido o problema dos esgotos, no tirava os olhos dele. Polidamas ajudou o homem a sentar-se no degrau superior do estrado e pediu que lhe trouxessem
um copo de gua. At o irado senhorio se apercebeu de que aquele caso era mais importante do que o seu e afastou-se um pouco - embora se mantivesse perto o suficiente
para ouvir o que o homem tinha a dizer.
A gua e uns breves momentos de descanso eram os remdios de que o homem precisava. Logo falou:
- Meu rei e senhor, trago grandes notcias!
O meu pai ps um ar cptico.
- Que notcias? - perguntou.
- Rei Pramo, hoje, ao nascer do dia, assisti, no acampamento grego, a um augrio pedido por Agammnon, que queria saber a causa da peste que matou dez mil homens!
Dez mil mortos devido  peste no acampamento grego?! Abeirei-me do trono, quase a correr. Dez mil homens! Se o meu pai no entendesse o significado de to pesadas
baixas, ento s poderia estar louco - e, se ele estava louco, Tria pereceria! Menos dez mil gregos, mais dez mil troianos! Ah, pai, deixa-me sair com o exrcito!
Estava prestes a dizer-lhe isto quando me apercebi de que o homem no acabara ainda. Havia mais notcias. Esperei.
- Houve uma altercao terrvel entre Agammnon e Aquiles. O exrcito est dividido. Aquiles retirou do exrcito grego os seus mirmides e o resto dos homens da
Tesslia. Aquiles no combater por Agammnon! A guerra ainda no comeou e obtivemos j uma vitria!
Agarrei-me s costas do trono para me apoiar, o senhorio desatou a dar vivas, o meu pai ficou paralisado e lvido, Polidamas fitava incrdulo o seu espio, Antenor
encostou-se a uma coluna como se de repente tivesse perdido as foras, os outros participantes na assembleia mais pareciam esttuas.
No meio do silncio, ressoou um riso estridente.
- Assim caem os poderosos! - berrou o meu irmo Defobo. - Assim caem os poderosos!
- Silncio! - atirou-lhe o meu pai. Depois, virando-se para o homem, perguntou-lhe: - Qual foi a causa da altercao entre Agammnon e Aquiles?
- Meu rei, foi tudo por causa de uma mulher - disse o homem, j mais calmo. - Calcas exigiu que Criseida, uma cativa de Lirnesso oferecida ao rei supremo, fosse
enviada para Tria. Apolo ficou to furioso com a captura de Criseida que espalhou a peste pelo acampamento grego. E anunciou que o seu castigo s terminaria quando
Agammnon desistisse da cativa. Agammnon tinha de obedecer. Aquiles riu-se do rei supremo. Escarneceu dele. Por isso, Agammnon ordenou a Aquiles que o compensasse
- que lhe entregasse a mulher que capturara em Lirnesso, Briseida. Aquiles entregou Briseida ao rei supremo, mas retirou todos os seus homens do exrcito grego!
Defobo achou isto ainda mais divertido.

#- Uma mulher! Um exrcito dividido ao meio por causa de uma mulher!
- Ao meio, no! - replicou Antenor. - Os soldados que se retiraram no so mais de quinze mil. E se uma mulher pode dividir um exrcito, no nos esqueamos de que
foi uma mulher que trouxe esse mesmo exrcito para as portas de Tria!
O meu pai bateu com o ceptro no cho.
- Antenor, calado! Defobo, ests bbedo! Cala-te tambm! - Depois, concentrando-se de novo no mensageiro, perguntou-lhe: - Ouve-me com ateno: essas tuas notcias
so mesmo seguras?
- No poderiam ser mais seguras, rei Pramo. Eu ouvi e vi tudo. Ouviu-se na sala um imenso suspiro; num pice, a pesada atmosfera clareou. Onde antes reinavam a
apatia e o desnimo, viam-se agora sorrisos radiantes. Mos apertaram mos, um murmrio deliciado elevou-se no ar. S eu estava triste. Aparentemente, Aquiles e
eu estvamos condenados a nunca nos enfrentarmos no campo de batalha.
Pris avanou na direco do trono.
- Meu querido pai, quando eu estive na Grcia, contaram-me que a me de Aquiles - uma deusa - mergulhara todos os seus filhos nas guas do rio Estige a fim de que
eles se tornassem imortais. Quando Aquiles nasceu, ela quis dar-lhe a mesma sorte. Porm, enquanto pegava nele pelo calcanhar direito, deu-se conta, para seu grande
espanto, de que cometera um erro - esquecera-se de pegar nele tambm pelo calcanhar esquerdo.  por isso que Aquiles  um homem mortal. Mas nunca pensei que o seu
calcanhar direito pudesse ser uma mulher! Briseida... Lembro-me bem dela:  um espanto de mulher.
O rei explodiu.
- Eu j tinha mandado calar toda a gente! Quando repreendo um filho, a repreenso dirige-se a todos os meus filhos! No estamos aqui para perder tempo com anedotas!
O caso em discusso  demasiado importante para isso!
Pris pareceu abatido com a reaco do nosso pai. Senti pena dele. Nos ltimos dois anos, envelhecera; agora que estava na casa dos quarenta, a idade comeava a
deixar marcas inexorveis na sua pele; o vigor e a beleza da juventude comeavam a definhar. Aquele que outrora fascinara Helena, agora aborrecia-a. Toda a corte
estava a par disso. Tal como estava a par da ligao que ela mantinha com Eneias. Bom, no creio que a troca compensasse Helena: o grande amor de Eneias chamava-se
Eneias.
Mas nunca era possvel saber o que se passava na bela cabea de Helena. Depois de o meu pai ter repreendido Pris, limitou-se a puxar pela mo do marido e a afastar-se
com ele um pouco. Nem sinal de emoo nos seus olhos ou no seu rosto! Depois, apercebi-me de que, afinal, o seu rosto no era propriamente um enigma. De facto, havia
nos seus lbios uma sombra de um sorriso - um sorriso como que de superioridade, um sorriso irnico... Porqu? Ela conhecia bem os reis gregos. Sendo assim... porqu
aquele sorriso?
Ajoelhei diante do trono.
- Pai - disse eu, com uma voz forte e controlada -, se os deuses realmente querem que expulsemos os Gregos da nossa terra, o tempo de o fazer s poder ser este.
Se eram Aquiles e os Mirmides que te impediam de tomar uma deciso, ento, agora, a razo para a tua relutncia desapareceu. Alm disso, eles tm menos dez mil
homens devido  peste. Nem mesmo com a ajuda de Pentesileia e Meno disporamos de uma oportunidade to extraordinria como esta. Por isso te peo, meu pai: d ordem
de batalha ao teu filho e ao teu exrcito!
Antenor avanou. Antenor ... ! Sempre Antenor ... ! -Antes que tomes uma deciso, rei Pramo, rogo-te que me concedas um favor. Permite-me que eu envie um dos meus
homens ao acampamento grego, a fim de que ele possa confirmar se aquilo que o homem de Polidamas diz  verdade.
Polidamas aquiesceu de bom grado.
- Concordo inteiramente, rei Pramo - disse ele. - Deveramos confirmar estas informaes.
- Nesse caso, Heitor - disse-me o meu pai -, ters de esperar um pouco mais pela minha resposta. Antenor, envia imediatamente o teu homem ao acampamento grego. Convocarei
uma nova assembleia para esta noite.
Enquanto espervamos, levei Andrmaca at s ameias da grande torre virada a noroeste, a qual dava directamente para a praia ocupada pelos Gregos. A minscula bandeira
flutuava ainda no acampamento mirmido. Porm, era to escasso o movimento na base de Aquiles que poderamos facilmente concluir no haver qualquer contacto entre
o acampamento mirmido e os seus vizinhos. Incapazes de pensar em comer, vigimos os Gregos toda a tarde; aquela prova evidente de desunio no seio do acampamento
grego era todo o sustento de que precisvamos.
Ao cair da noite, regressmos  cdadela, mais esperanados agora na confirmao das notcias. O enviado de Antenor chegou antes de termos tempo para ficar inquietos
e, com meia dzia de breves frases, repetiu aquilo que o homem de Polidamas nos dissera. Houvera uma discusso terrvel, Aquiles e Agammnon nunca se reconciliariam.
Helena encontrava-se ao fundo da sala, muito longe de Pris, acenando abertamente para Eneias, a sua mscara sorridente perfeitamente tranquila, j que ela sabia
que, por ora, todos os boatos sobre a sua ligao com o dardaniano seriam eclipsados pelas escaldantes notcias da dissenso grega. Quando Eneias se abeirou dela,
Helena segurou-lhe no brao e os seus olhos enormes fitaram-no num

#claro convite. Mas eu estava certo a respeito dele. Eneias ignorou-a. Pobre Helena. Se Eneias tivesse de escolher entre os encantos dela e os encantos de Tria,
eu sabia qual seria a sua deciso. Um homem admirvel, sem dvida, mas tambm um homem que tinha de si mesmo uma imagem demasiado dourada.
Contudo, Helena no pareceu desconcertada com a inopinada partida de Eneias. Uma vez mais, dei comigo a meditar no que pensaria ela acerca dos seus concidados.
Ela conhecia to bem Agammnon... Por um momento, perguntei-me se no seria melhor interrog-la, mas Andrmaca estava comigo e Andrmaca odiava Helena. As poucas
informaes que Helena me poderia fornecer - decidi - no justificariam a sova verbal que Andrmaca me daria, se viesse a saber que eu me tinha encontrado com a
esposa de Pris.
- Heitor! Encaminhei-me na direco do trono e ajoelhei diante do meu pai.
- Meu filho: confio-te o comando dos nossos exrcitos. Envia arautos tendo em vista a mobilizao para a batalha dentro de dois dias, ao alvorecer. Diz aos guardas
da Porta Ceia que oleiem a pedra e preparem os bois. H dez anos que estamos encarcerados, mas agora sairemos da nossa priso para expulsarmos os Gregos de Tria!
Enquanto lhe beijava a mo, a sala explodiu em ensurdecedores vivas. Eu era o nico que no sorria. Aquiles no estaria no campo de batalha. Seria vitria, uma vitria
sem Aquiles?
Os dois dias passaram com a rapidez da sombra de uma nuvem na encosta de uma montanha. Todo o meu tempo foi preenchido com encontros com oficiais e com as ordens
que tinha de dar a armeiros, engenheiros, condutores de carros e oficiais de infantaria. Enquanto no estivesse tudo em andamento, no conseguiria pensar em descansar.
Por isso, s pude ver Andrmaca na noite anterior  batalha.
- Chegou o momento que eu tanto temia - disse ela mal eu entrei no nosso quarto.
- Andrmaca, por favor, no fales nesse tom. Ela limpou as lgrimas impacientemente.
-  mesmo amanh?
- Ao alvorecer.
- No tiveste um momento que fosse para mim?
- Tenho-o agora.
- Depois de dormires, partirs. - Os dedos dela agarravam-se  minha blusa. - No consigo encarar com nimo o que se vai passar, Heitor. H algo de muito errado
nisto tudo.
Errado? - exclamei, obrigando-a a erguer o queixo. - Que h de errado em combater contra os Gregos? Por todos os deuses, j no era sem tempo!
- Que h de errado? Tudo. Tenho a sensao de que as peas esto todas demasiado bem encaixadas umas nas outras... - Ergueu a mo direita, cerrou parcialmente o
punho, deixando o dedo mindinho e o dedo indicador espetados: o sinal que ns fazamos para esconjurar das nossas vidas todo o mal. Depois, muito nervosa, trmula,
disse-me: - Cassandra no tem parado um s momento, desde que o homem de Polidamas chegou com a notcia da disputa entre os reis gregos.
Desatei a rir.
- Oh, Cassandra! Por amor de Apolo, mulher, ser possvel que no vejas? A minha irm Cassandra  uma louca varrida! Ningum d ouvidos aos seus funestos pressgios!
- Ela pode ser louca - disse Andrmaca, decidida a que eu a ouvisse -, mas as suas predies nunca falharam! A pobre rapariga no pra de gritar que os Gregos nos
armaram uma cilada - ela insiste que foi Ulisses quem congeminou tudo, ela assegura que os Gregos urdiram tudo isto para que ns sassemos das muralhas!
- Comeas a aborrecer-me com as tuas supersties! - disse-lhe e agarrei-a e abanei-a - algo que nunca lhe fizera em tantos anos de casados. - Eu no estou aqui
para discutir a guerra com Cassandra. Estou aqui para passar contigo esta noite.
Magoada, olhou para a cama e encolheu os ombros. Depois, abriu a cama, despiu a tnica e apagou as lamparinas, o seu corpo - to alta que ela era! - to firme e
encantador como na noite do nosso casamento. As gravidezes no haviam deixado no seu corpo um nico vestgio; a sua pele quente brilhava  luz da nica lamparina
que deixara acesa. Deitei-me e abracei-a e, por um bocado, esqueci-me do que a manh traria. Depois, decidi entregar-me ao sono, o corpo saciado, a mente sossegada.
Porm, antes de o vu da inconscincia ter cado inteiramente sobre mim, ouvi Andrmaca chorar.
- Que se passa agora? - perguntei, erguendo-me sobre um ombro. - Continuas a pensar em Cassandra?
- No, estou a pensar no nosso filho. Estou a pedir aos deuses para que, depois de amanh, ele continue a conhecer a alegria de ter o pai vivo.
Como  possvel que as mulheres se comportem sempre assim? Como  possvel que acabem sempre por dizer aquilo que os homens no querem nem precisam de ouvir?
- Deixa-te de choraminguices e dorme! - gritei-lhe. Ela afagou-me a testa, apercebendo-se de que tinha ido demasiado longe.
- Bom, talvez seja pessimismo a mais da minha parte... Aquiles no combater... Portanto, tu no tens nada a temer...

#De sbito, irado, afastei-me dela e dei um murro na almofada.
- Cala-te, mulher! Eu no preciso que me lembres que o homem com quem eu anseio combater no estar no campo de batalha!
Ela fitou-me assombrada.
- Heitor, Heitor, ser possvel que tenhas enlouquecido? Ser possvel que Aquiles seja mais importante para ti do que Tria? Do que eu? Do que o nosso filho?
H certas coisas no mundo que s os coraes dos homens podem entender. Astianacte compreender-me-ia melhor do que tu.
-Astianacte no passa de um rapazinho... Desde que nasceu que os seus olhos no tm visto outra coisa seno guerra, que os seus ouvidos no tm ouvido falar de outra
coisa seno da guerra! V os soldados treinando, segue ao lado do seu pai num magnfico carro de guerra  frente do cortejo militar - vive num mundo de iluses!
Mas nunca viu o campo de batalha depois da batalha terminada!
- O nosso filho no tem medo de aspecto nenhum da guerra!
- O nosso filho tem apenas nove anos! No permitirei que ele se transforme num desses guerreiros insensveis e cruis em que a tua gerao se transformou!
- Pois eu no permitirei os teus excessos - disse-lhe eu, num tom to cortante como o gelo. - No permitirei que interfiras na educao futura de Astianacte. Logo
que regresse do campo de batalha, retirar-te-ei o meu filho e confiarei a sua instruo e educao aos meus homens.
- Faz isso e matar-te-ei! - rosnou ela, fora de si.
- Experimenta e logo vers quem morre primeiro! A resposta dela foram lgrimas e soluos. Sentia-me demasiado furioso para a afagar ou para tentar qualquer tipo
de reconciliao. Passei por isso o resto da noite escutando o seu choro frentico, incapaz de incutir alguma brandura no meu corao. A me do meu filho tinha-me
dito que preferia fazer dele um rapazinho efeminado a transform-lo num guerreiro.
Levantei-me da cama quando a luz do dia no tingira ainda a penumbra. Olhei para ela; estava deitada com o rosto virado para a parede, recusava-se a olhar para mim.
A minha armadura estava pronta. Tomado de uma excitao mpar, num instante esqueci Andrmaca. Bati as palmas e os escravos vieram num pice. Vestiram-me a tnica
almofadada, apertaram as correias das botas, encaixaram as grevas e afivelaram-nas. Reprimi a extrema ansiedade que sempre se apoderava de mim antes de qualquer
combate, enquanto os escravos me vestiam o saiote de cabedal reforado, a couraa, as proteces dos braos, as cintas dos antebraos e as tiras de cabedal para
os pulsos e a testa. Colocaram-me nas mos o elmo, o boldri sobre o ombro esquerdo para suportar a espada que me roava a anca direita; por fim, suspenderam do
meu ombro direito o escudo enorme, com uma cintura muito fina a meio, e ajustaram-no ao meu lado esquerdo. Um criado deu-me a minha maa, outro ajudou-me a enfiar
o elmo sob o antebrao direito. Estava pronto para a batalha.
- Andrmaca, adeus - disse-lhe eu, num tom que no indiciava qualquer perdo.
Mas ela permaneceu imvel, o rosto virado para a parede. Os corredores estremeciam, os chos de mrmore ecoavam os sons do bronze e das botas ferradas; sentia o
rudo dos meus passos espraiando-se diante de mim como se fosse uma onda. Aqueles que no iam combater saram a saudar-me. De cada porta, saam tambm os guerreiros
que logo encontravam o seu lugar atrs de mim. As nossas botas atacaram as lajes: sob o impacte dos calcanhares revestidos a bronze, fascas elevavam-se do cho.
Ao longe, ouvamos j tambores e trombetas.  nossa frente, estava j o grande ptio, para l do ptio, as portas da cidadela.
Helena esperava-nos no prtico. Parei, acenando para que os outros avanassem sem mim.
- Boa sorte, cunhado - disse ela.
- Como podes desejar-me boa sorte, se vou combater contra os teus concidados?
- Eu no tenho pas, Heitor.
- A nossa ptria  sempre a nossa ptria.
- Heitor, nunca subestimes um grego! - Recuou um pouco, parecendo surpreendida com as suas prprias palavras. - Dei-te um bom conselho, Heitor: no merecias tanto.
- Os Gregos so iguais a todos os outros homens.
- Sero mesmo? - Os seus olhos verdes assemelhavam-se a jias. - No estou de acordo contigo. Preferia um inimigo troiano a um inimigo grego.
- Ser uma batalha aberta, frontal. Vamos vencer. - talvez. Mas no paraste para pensar por que razo Agammnon se encarniou tanto por causa de uma mulher, quando
ele tem centenas delas?
- O que conta  que Agammnon se encarniou realmente por causa de uma mulher. A razo  irrelevante.
- Pois eu creio que a razo  tudo. No subestimes nunca a astcia grega. E, acima de tudo, no subestimes nunca Ulisses.
- Oh! Ulisses no passa de uma fico!
-  precisamente isso que ele quer que tu penses dele. Mas eu conheo-o melhor do que tu, Heitor.
Virou-me costas e foi para casa. De Pris, nem sinal. Bom. de qualquer modo, o meu irmo no combateria - limitar-se-ia a observar.

#Setenta e cinco mil soldados de infantaria e dez mil carros esperavam por mim, devidamente formados ao longo das ruas secundrias e das pequenas praas que conduziam
 Porta Ceia. Aqui, aguardava-me o primeiro destacamento de cavalaria, os homens que conduziriam os meus carros. Os seus gritos ressoaram como troves mal eu apareci
na praa, erguendo bem alto a minha maa para os saudar. Subi para o meu carro e enfiei cuidadosamente os meus ps nos estribos de vime que permitiriam que me equilibrasse
sempre que o carro guinasse, especialmente quando os cavalos fossem num galope desabrido. Depois, os meus olhos atentaram naqueles muitos milhares de elmos encimados
por plumas cor de prpura; a cintilao do bronze era sangue e rosa sob o imenso ouro do sol, a porta erguia-se j diante de mim.
Os chicotes estalaram. Os bois atrelados  enorme pedra que suportava a Porta Ceia bramiram aflitos logo que comearam a puxar. A vala fora j oleada e engordurada;
os focinhos dos animais quase chegavam ao cho. Muito lentamente, a porta foi-se abrindo, chiando e atroando enquanto a pedra deslizava ao longo do fundo da vala;
a porta parecia ficar mais pequena  medida que se abria; ao mesmo tempo, a vastido de cu e plancie parecia tornar-se ainda mais imensa. Depois, os rudos que
marcavam a abertura da Porta Ceia pela primeira vez em dez anos foram sufocados pelos gritos de alegria que romperam das gargantas de milhares e milhares de soldados
troianos.
Logo que as tropas comearam a descer na direco da praa, as rodas do meu carro comearam tambm a rodar; eu avanava j, estava j na plancie com os meus aurigas
atrs de mim. O vento penetrou-me o rosto, pssaros voavam na plida abbada do cu, os meus cavalos empinaram as orelhas e deram s suas pernas elegantes o ritmo
de um galope, enquanto o meu condutor, Quebrones, enrolava as rdeas  volta da sua cintura e executava os movimentos com que costumava control-los. Finalmente
a batalha! Aquela, sim, era a verdadeira liberdade!
Meia lgua aps a Porta Ceia, parei e virei-me para organizar as minhas tropas, fazendo da frente uma linha recta com carros na posio mais avanada; a Guarda Real
- dez mil soldados de infantaria troianos e mil carros de guerra formava o centro da minha vanguarda. Tudo foi feito rpida e primorosamente, sem pnico nem confuso.
Quando tudo estava j em ordem, atentei na muralha inimiga, erigida sobre a plancie entre os dois rios, isolando assim a extensa praia ocupada pelos Gregos. As
passagens em cada extremidade das muralhas brilhavam j de um milho de reflexos: os invasores gregos abandonavam as muralhas e avanavam na direco da plancie.
Entreguei a minha lana a Quebrones e pus o elmo na cabea, ajustando depois a pluma de crina de cavalo escarlate. Os meus  olhos encontraram-se com os de Defobo,
a meu lado na linha da frente; um a um, tanto quanto os meus olhos conseguiam enxergar, atentei nos rostos daqueles que faziam parte da linha da frente. O meu primo
Eneias comandava o flanco esquerdo, o rei Sarpdon o direito. Eu comandava a linha da frente.
Os Gregos aproximavam-se cada vez mais, o sol refulgia nas suas armaduras de uma forma mais e mais intensa; tentei ver quem ficaria de frente para mim, perguntando-me
se seria o prprio Agammnon, ou jax, ou qualquer outro dos grandes chefes gregos. O meu corao batia menos depressa porque no seria Aquiles. Depois, voltei a
olhar para a linha da frente e fiquei pasmado. Pris estava l! Estava, com o seu precioso arco e a aljava,  frente do destacamento de Guardas Reais que lhe havia
sido atribudo havia uma eternidade. Perguntei-me que artimanhas Helena no teria usado para o convencer a abandonar a segurana dos seus aposentos.

#
Captulo Vigsimo Quarto
Narrado por Nestor
Rezei uma breve orao ao deus que as nuvens amontoa no cu; embora tivesse combatido em mais campanhas do que qualquer outro homem vivo, nunca enfrentara um exrcito
como o de Tria. E tambm era verdade que a Grcia nunca havia organizado um exrcito como o de Agammnon. Os meus olhos ergueram-se para os difanos e majestosos
picos do distante Ida e perguntei-me se os deuses no teriam abandonado o Olimpo para se sentarem nas alturas do Ida a fim de assistirem  batalha. Aquela era uma
guerra digna do seu interesse: nunca os meros mortais haviam sonhado com uma guerra capaz de envolver tantos meios - to-pouco os deuses, que apenas travavam pequenas
guerras entre si e com hostes muito limitadas. Se se reunissem no Ida para assistir  batalha, no haveria entre eles unanimidade: toda a gente sabia que Apolo,
Afrodite, rtemis e outros eram adeptos fervorosos de Tria, ao passo que Zeus, Poseidon, Hera e Palas Atena eram a favor da Grcia. Ningum sabia ao certo de que
lado estava Ares, o Senhor da Guerra, pois embora os Gregos fossem o povo que mais havia espalhado o seu culto, a verdade  que Afrodite, a secreta amante de Ares,
apoiava Tria. Hefasto, o marido de Afrodite, era, muito naturalmente, favorvel  Grcia. O que era bom para ns, pois Hefasto presidia  fundio dos metais
e a outros mesteres aparentados; os nossos artfices teriam desse modo algum apoio divino.
Se havia algum homem feliz naquele dia, esse homem era eu. Uma nica coisa toldava o meu prazer: o rapaz que me acompanhava no meu carro, um rapaz que estava muito
nervoso e impaciente pois queria ter um carro s para si, pois queria ser um guerreiro e no um condutor. Mirei-o de relance. O meu filho Antloco... Pouco mais
do que um menino desmamado, o meu filho mais novo e tambm o mais querido, o fruto do crepsculo da minha vida. Quando deixei Pilos, tinha ele apenas doze anos,
Muitos foram aqueles que me pediram que o deixasse partir comigo para Tria: a todos respondi que no, nem pensar! E o resultado

#foi este: Antloco embarcou clandestinamente! Escondeu-se num dos navios e, quando dei por isso, j o patife estava em Tria! Ento, pediu ajuda a Aquiles e, depois
de muita conversa, conseguiram convencer-me a deix-lo ficar. Aquela era a sua primeira batalha, mas eu daria tudo para que ele no estivesse ali a meu lado, para
que ele tivesse ficado na arenosa Pilos, entretido a compilar listas de mantimentos!
Colocmo-nos em ordem de batalha diante dos Troianos. A linha tinha uma lgua de comprimento; constatei, sem surpresa, que Ulisses tinha razo. Os Troianos eram
muito mais do que os Gregos. Mesmo que toda a Tesslia tivesse vindo connosco, eles seriam sempre mais. Perscrutei as hostes inimigas, procurando os homens que as
conduziam, e vi imediatamente Heitor no centro da linha da frente. As tropas de Pilos integravam a nossa linha da frente, juntamente com as foras dos dois jax
e de dezoito reis menores. Agammnon, chefe da nossa vanguarda, estava defronte para Heitor. O nosso flanco esquerdo era comandado por Idomeneu e Menelau e o direito
por Ulisses e Diomedes, esse to estranho par de amantes. Um to quente, o outro to frio! Quem sabe, talvez os dois juntos fossem a perfeio.
Heitor conduzia uma equipa soberba de cavalos, to negros como azeviche, e erguia-se no seu carro como o prprio Ares Enilios. To grande e to erecto como Aquiles.
Contudo, no via uma nica barba branca entre os troianos; Pramo e outros da sua idade tinham ficado no palcio. Eu era o homem mais velho naquele campo de batalha.
Os tambores rufaram, as trombetas e os cmbalos soaram estridentes anunciando a refrega, que, de facto, no tardou. Com efeito, a batalha comeou quando nos encontrvamos
ainda a cem passos uns dos outros. Lanas voaram como folhas ao sabor do medonho sopro do Inverno, setas caram rapidamente sobre as suas presas como se guias fossem,
soldados de infantaria investiram e foram rechaados. Agammnon dirigia a nossa linha da frente com um vigor e uma vigilncia que nunca suspeitara que tivesse. Na
realidade, muitos de ns nunca haviam combatido juntos. Podamos agora, pela primeira vez, avaliar as capacidades blicas uns dos outros. E foi reconfortante verificar
que Agammnon se revelou competente o bastante para enfrentar capazmente Heitor naquela primeira manh. Heitor, alis, no fez qualquer tentativa para travar um
duelo com o nosso rei supremo.
Heitor berrou e vituperou, lanou vezes sem conta os seus carros contra a nossa linha da frente, mas a verdade  que no conseguiu romp-la uma s vez. Conduzi algumas
investidas durante a manh; Antloco soltava o grito de guerra
de Pilos, mas eu poupava os meus pulmes, um instrumento precioso para a batalha. Vrios foram os troianos que morreram sob as rodas do meu carro, pois Antloco
era um bom condutor, evitando-me problemas e sabendo sempre qual era o momento certo para recuar. Ningum poderia dizer que o filho de Nestor punha em perigo a integridade
do seu velho pai s porque queria combater em vez de conduzir um carro.
A minha garganta comeou a ficar seca e a armadura estava branca de poeira; acenei para o meu filho e retirmos para as linhas da retaguarda a fim de bebermos gua
e de recuperarmos algum alento. Quando olhei para o cu, verifiquei espantado que o Sol se abeirava j do seu znite. Regressmos imediatamente  linha da frente
e, com foras renovadas, guiei os meus homens na direco das hostes troianas. Fizemos algum trabalho rpido aproveitando o facto de Heitor estar ocupado com outras
pores do seu exrcito. Depois, ordenei a retirada e recumos em segurana para a nossa prpria linha sem perdermos um nico homem. Heitor perdera mais de uma dzia
naquela breve refrega. Suspirando de satisfao, sorri silenciosamente para Antloco. O que ambos queramos era a armadura de um chefe, mas no tnhamos encontrado
nenhum.
Ao meio-dia, Agammnon ordenou a um arauto que soasse a trombeta das trguas. Contrariados, os dois exrcitos baixaram as armas; pela primeira vez, a fome e a sede,
o medo e o cansao tornavam-se realidades desde que a batalha comeara. Quando vi que todos os chefes se encaminhavam na direco de Agammnon, disse a Antloco
que me conduzisse tambm ao rei supremo. Ulisses e Diomedes chegaram ao mesmo tempo que eu. Todos os outros j l estavam. Os escravos andavam numa azfama, trazendo
vinho misturado com gua, po e bolos.
- Que se passa, Agammnon? - perguntei.
- Os homens precisam de descansar. Este  o primeiro dia de combates intensos ao fim de muitas luas - por isso enviei um mensageiro a Heitor, propondo-lhe um encontro
para negociaes.
- Excelente! - disse Ulisses. - Com alguma sorte, poderemos prolongar esse encontro o tempo suficiente para que os homens recuperem foras e comam.
Agammnon fitou-o com um sorriso imenso.
- Como o estratagema serve para os dois lados, Heitor no recusar a minha oferta.
Os no combatentes retiraram mortos e feridos da faixa que separava os dois exrcitos; mesas e bancos no tardaram a surgir e os chefes dos dois lados avanaram
para a faixa de separao a fim de conferenciarem. Comigo, seguiram jax, Ulisses, Diomedes, Menelau, Idomeneu e Agammnon; com grande interesse e maior curiosidade,
preparmo-nos para assistir ao primeiro encontro entre o rei supremo e o herdeiro de Tria. Heitor era um homem de tez muito escura. Cabelos negros
Nota: Enilios - Cavaleiro, condutor de carros de guerra.


#espreitavam sob o elmo e caam-lhe pelas costas numa trana. Os olhos que nos miravam - to astutamente como ns o mirvamos a ele - eram tambm negros.
Apresentou-nos os outros chefes: Eneias da Dardnia, Sarpdon da Lcia, Acamas, filho de Antenor, Polidamas, filho de Agenor, Pandaros, o capito da Guarda Real,
e os seus irmos Pris e Defobo.
Menelau emitiu uma rosnadela quase inaudvel e lanou um olhar furioso a Pris; no entanto, tanto ele como Pris temiam demasiado os seus rgios irmos para se permitirem
criar-lhes problemas. Os troianos pareceram-me um belo grupo de homens, todos eles guerreiros consumados,  excepo de Pris, que parecia perfeitamente deslocado
- bonitinho, entediado, amaneirado. Enquanto Agammnon fazia as suas apresentaes, observei atentamente Heitor, procurando detectar a sua reaco aos nomes que
ia ouvindo. Quando chegou a vez de Ulisses, examinou o mais inteligente dos nossos chefes com uma ateno muito particular; havia um brilho de perplexidade no seu
olhar. Contudo, no me diverti nada ao constatar o dilema que ia na mente de Heitor; de facto, at tive pena dele. Os homens que no conheciam Ulisses, a Raposa
de taca, tinham tendncia a subestim-lo devido s estranhas propores do seu corpo e ao aspecto imundo, quase que ignbil, que ele cultivava sempre que achava
adequado. Dei comigo a pedir-lhe silenciosamente: Olha para os olhos dele, Heitor, olha para os olhos dele! Mas a natureza de Heitor preferia jax, que vinha logo
a seguir a Ulisses; para Heitor, jax era muito mais interessante e atraente do que Ulisses. Pior para ele: no entendera a importncia da Raposa.
Heitor atentou com espanto nos msculos poderosos do nosso segundo maior guerreiro; pela primeira vez na sua vida, pensmos ns, Heitor teve de erguer a cabea para
olhar para o rosto de outro homem.
- No houve entre ns qualquer conferncia nestes ltimos dez anos, filho de Pramo - disse Agammnon. - Julgo que chegou a hora de discutirmos.
- Que queres discutir?
- Helena.
- Esse assunto est encerrado.
- De modo nenhum! Negas que Pris, filho de Pramo e teu irmo germano, raptou a esposa do meu irmo Menelau, rei da Lacedemnia, e a trouxe para Tria, insultando
desse modo toda a nao grega?
- Nego.
- Helena pediu-me que a trouxesse - acrescentou Pris.
- Claro que no admites que usaste a fora.
- Isso  evidente: no foi preciso usar fora nenhuma. - Heitor bufava que nem um touro. - Que propostas pretendes fazer, nessa tua linguagem to formal, rei supremo?
- Que devolvas Helena e todos os seus bens ao seu nico e verdadeiro marido, que nos indemnizes pelo tempo que perdemos e pelos problemas que tivemos, reabrindo
o Helesponto aos mercadores gregos, e que no te oponhas ao estabelecimento de colnias gregas na sia Menor.
- Os termos da tua proposta so inaceitveis.
- Porqu? Tudo o que ns pedimos  o direito a uma coexistncia pacfica. Eu no combateria se pudesse alcanar pacificamente os meus objectivos, Heitor.
- A satisfao das tuas exigncias seria a runa de Tria, Agammnon.
-A guerra ser muito mais ruinosa para Tria. Tu ests a defender-te, Heitor - e essa nunca  uma posio vantajosa. Ao passo que ns desfrutamos dos lucros de Tria
h dez anos - e tambm dos lucros da sia Menor.
A conferncia prosseguiu: palavras sem qualquer peso efectivo atiradas a esmo, enquanto os soldados descansavam na erva pisada e fechavam os olhos devido  intensidade
do sol.
- Muito bem. Nesse caso, fao-te uma ltima proposta, prncipe Heitor disse Agammnon algum tempo depois. - Encontram-se entre ns os dois homens directamente envolvidos
no episdio que deu origem a isto tudo. Menelau e Pris. Proponho-te que Menelau e Pris travem um duelo nesta mesma faixa onde nos encontramos agora, entre os dois
exrcitos. O vencedor ditar os termos de um acordo de paz.
Se Pris no parecia um duelista brilhante, que dizer de Menelau? Heitor no precisou de muito tempo para decidir que Pris seria um vencedor fcil.
- De acordo - disse ele. - O meu irmo Pris travar um duelo com o teu irmo Menelau. O vencedor ditar os termos de um tratado.
Olhei de relance para Ulisses, que estava a meu lado.
- Esperemos que seja um troiano a interromper o duelo - segredou-me ele. Caso contrrio, a reputao de Agammnon sofrer horrores nos anos mais prximos.
Retirmos para as nossas linhas e deixmos os cem passos de terreno vago aos dois homens. Menelau comeou por testar o escudo e a lana, ao passo que Pris se ps
a ajeitar a armadura com um ar displicente. Por fim, foi dada a ordem para que o duelo principiasse. Os dois homens lanaram-se em crculos lentos  volta um do
outro, Menelau investindo com a lana, Pris desviando-se para evitar o golpe. Algum do exrcito grego gritou um comentrio escarninho a propsito do modo como
Pris se desviava da lana: milhares de gargantas troianas rosnaram furiosas, mas Pris ignorou o insulto e continuou a esquivar-se com delicados movimentos. Nunca
considerara Menelau capaz fosse do que fosse, mas era bvio que Agammnon sabia o que estava a fazer ao propor o duelo. Eu pen-

#sara que Pris seria um vencedor fcil, mas estava redondamente enganado. Embora no possusse nem o instinto nem o arrojo que fazem de um homem um chefe, Menelau
aprendera a arte do duelo to escrupulosamente como qualquer outra coisa. Faltava-lhe o ardor, mas no a coragem, o que era uma vantagem enorme num combate singular.
A certa altura, arremessou a sua lana com tal violncia que conseguiu arrancar o escudo a Pris; vendo-se perante a espada de Menelau, Pris preferiu fugir a empunhar
a sua prpria espada. Menelau foi no seu encalo.
Toda a gente sabia j quem ia vencer; os Troianos remeteram-se a um profundo silncio, os nossos homens desataram num alarido ensurdecedor. Os meus olhos no largavam
Heitor, que avaliara mal as possibilidades do irmo e que, por outro lado, era um homem de princpios. Se Menelau matasse Pris, Heitor teria de aceitar o tratado.
Ah! Sem que Heitor lhe tivesse feito sinal nenhum, Pandaros, o capito da Guarda Real, ps uma flecha no seu arco. Com um grito, avisei Menelau, que parou e se desviou.
Demasiado tarde. Enquanto as nossas hostes berravam de indignao, a flecha alojou-se no flanco de Menelau. Um uivo de pesar do lado troiano saudou o facto de ter
sido um troiano a quebrar as trguas. Por causa de Pandaros, Heitor via a sua honra manchada.
Os exrcitos embrenharam-se ento na luta com uma fria que estivera ausente durante a manh; um dos lados defendia a honra manchada, o outro vingava uma ofensa,
e ambos os lados ceifavam e golpeavam num frenesi histrico.
Muitos homens pereceram num breve espao de tempo; os cem passos que haviam separado as linhas depressa minguaram; num instante, foram ocupados por uma slida massa
de corpos e pelas nuvens de p que nos cegavam e sufocavam.
O culpado, Heitor, estava em todo o lado ao mesmo tempo, percorrendo o centro da batalha no seu carro, desferindo fatais golpes de lana. Nenhum de ns conseguia
aproximar-se dele o suficiente para tentar abat-lo; em contrapartida, muitos eram os homens que, com gritos de puro terror, morriam sob os cascos dos seus trs
cavalos negros. No consegui entender, naquele primeiro dia, como conseguia Heitor conduzir os seus cavalos no meio daquela medonha confuso humana; mais tarde,
porm, os seus processos, de to estudados e imitados, converteram-se num verdadeiro lugar-comum, de tal modo que eu prprio os segui e considerei que no tinham
nada de especial. Vi Eneias abeirando-se do centro com um bando de dardanianos na sua esteira e perguntei-me como  que ele conseguira deslocar-se da sua ala no
meio daquele caos. Abandonei a lana em favor da espada, juntei os meus homens e conduzi-os para o grosso da batalha, derrubando, do alto do meu carro, tudo o que
me aparecesse pela frente, golpeando a esmo rostos imundos de suor, no perdendo de vista Eneias enquanto pedia reforos.
Agammnon mandou mais homens, comandados por jax. Eneias viu-o e chamou os seus ces de guarda, mas no antes de eu ter o privilgio de ver aquela verdadeira torre
desferindo golpes tremendos, o brao convertido numa foice incansvel que cortava o joio inimigo. jax no trazia o machado, pois, naquele primeiro dia de batalha,
preferira a espada, dois cbitos e meio de morte sob a forma de uma dupla lmina. Embora a usasse como um machado, erguendo-a bem alto e cravando-a no inimigo com
um grito de jbilo capaz de aterrorizar o mais destemido dos homens. Empunhava o seu enorme escudo melhor do que qualquer outro homem vivo; o escudo nunca vacilava
enquanto ele o erguia a escassa distanca do cho, uma massa de bronze e estanho cobrindo-o da cabea aos ps. Atrs dele vinham seis corpulentos chefes de Salamina
e, sob a proteco do prprio escudo de jax, ocultava-se Teucro com o seu arco, disparando setas atrs de setas, numa srie de movimentos to fluidos que pareciam
at contnuos, impecavelmente rtmicos. Vi soldados gregos que estavam demasiado longe de jax para poderem ver os movimentos da torre humana sorrindo uns para os
outros e recobrando nimo s de ouvirem o famoso grito com que jax saudava Ares e a Casa de aco.
Rodeado pelos meus prprios homens, saudei-o mal o vi avanar na minha direco; Antloco abrandara as rdeas do nosso carro e, boquiaberto de espanto, fitava a
torre humana.
- Desapareceram, velho! - rosnou jax.
- Nem mesmo Eneias quis enfrentar-te - disse eu.
- Zeus transformou-os em sombras! Porque  que eles no combatem como verdadeiros guerreiros? Mas est descansado que eu hei-de apanhar Eneias!
- Onde est Heitor?
- Tenho andado  procura dele toda a tarde. Ou ele  uma miragem ou ento sou eu que fico sempre para trs. Mas eu no o vou largar. Mais tarde ou mais cedo havemos
de encontrar-nos.
Ouviram-se gritos estridentes de aviso; voltmos a formar num pice, pois Eneias regressara, trazendo consigo Heitor e uma parte da Guarda Real. Olhei para jax.
- Eis a tua grande oportunidade, filho de Tlamon!
- Dou graas a Ares! - Abanou os ombros couraados para melhor distribuir o peso da armadura e, com a ponta da enorme bota, afastou afectuosamente Teucros.
- Vai-te embora, irmo. Este  s para mim. Protege Nestor e mantm Eneias  distncia.
Teucro abandonou a proteco do escudo e correu para ao p de mim. Nos seus olhos brilhantes, devotados, no havia qualquer sinal de preocupao. Nunca ningum pusera
em causa a sua lealdade, apesar de a sua me ser Hesona, a irm de Pramo.

#- Vamos, rapaz - disse ele para o meu filho -, conduz-nos atravs destas carcaas e v se consegues alcanar Eneias. Temos de o manter ocupado. Rei Nestor, proteges-me
enquanto eu uso o arco?
- De bom grado, filho de Tlamon - disse eu.
- Porque  que Eneias est na linha da frente, pai? - perguntou-me Antloco enquanto avanvamos. - Pensava que ele comandava uma ala.
- Tambm eu - respondeu Teucro em vez de mim. Os meus homens e alguns dos salaminianos de jax foram connosco e conseguimos manter Eneias afastado o suficiente de
Heitor, de forma a que jax conseguisse obrigar o herdeiro a travar um duelo. Logo que o duelo comeou, a batalha amainou drasticamente; os homens seguiam com tanta
ateno os movimentos de Heitor e jax que nem reparavam para onde arremessavam setas ou lanas.
jax nunca usava carros de guerra, provavelmente porque no havia carro de guerra que suportasse o seu peso, mais o de Teucro e o do condutor. Na realidade, jax
fazia de conta que ele prprio era um carro de guerra.
O bronze retiniu contra o bronze. Uma proteco de um brao saltou sob a sbita expanso dos msculos e caiu para logo ser esmagada pelos ps dos contendores. jax
e Heitor eram adversrios  altura um do outro. Enquanto  sua volta a batalha se desvanecia, as duas torres continuavam a investir e a aparar golpes. Eneias chamou-me
a ateno com um assobio estridente.
- Um duelo destes no se pode perder, velho guerreiro! Prefiro ver a combater! E tu? Eneias da Dardnia pede trguas!
- Concordo com as trguas at ao final do duelo. Se for jax o vencido, defenderei o seu corpo e a sua armadura com a minha prpria vida! Mas se for Heitor o vencido,
ajudarei jax a roubar-te o corpo e a armadura de Heitor! Nestor de Pilos est de acordo com as trguas!
-Assim seja, ento! No crculo que ento se juntou, todos os soldados baixaram as armas.  volta do nosso limitado territrio, a batalha prosseguia, violenta, implacvel.
Ns, em contrapartida, nem nos mexamos, nem falvamos. O meu corao inflamava-se s de ver jax combatendo. No havia a menor falha na sua guarda, no havia a
menor exposio do seu corpo por detrs daquele escudo colossal. Heitor danava como uma chama viva em torno daquela massa, desferindo golpes, cortando grossas fatias
da superfce do escudo. Nenhum deles parecia dar-se conta da passagem do tempo, nenhum deles dava mostras de fadiga; a todo o momento, os seus braos erguiam-se
e arremetiam com uma energia que no diminua. Por duas vezes, Heitor quase perdia o seu escudo; contudo, aparou os golpes de jax com a sua prpria espada e continuou
a combater, mantendo em seu poder o escudo e a espada apesar de tudo o que jax pudesse fazer. Aquela seria uma batalha longa e ferocssima. Quando um deles via
uma aberta, logo investia; e quando investia, logo se lhe deparava a espada inimiga; nenhum deles, porm, perdia o nimo e o duelo prosseguia to furioso como de
incio.
Senti mexerem-me no brao: era um mensageiro de Agammnon.
- O rei supremo quer saber por que razo a batalha est parada neste local, rei Nestor.
- Concordei com trguas temporrias. V com os teus prprios olhos, mensageiro! Combaterias se houvesse um duelo destes na tua seco?
O homem atentou nos contendores.
- Reconheo o prncipe jax, mas... quem  o outro?
- Diz ao rei supremo que jax e Heitor esto a travar um combate de morte!
O mensageiro desapareceu imediatamente, deixando-me  vontade para continuar a assistir ao duelo. jax e Heitor continuavam a golpear e a justar furiosamente - h
quanto tempo durava aquilo? No precisei de proteger os olhos quando olhei para a bola amarelo-plida do Sol, para l das nuvens de poeira. Sim, o Sol abeirava-se
j do horizonte! Por Ares, quanta energia, quanta resistncia!
Agammnon parou o seu carro ao lado do meu.
- Pudeste prescindir do teu comando, Agammnon?
- Ulisses substituiu-me. Por todos os deuses! H quanto tempo dura o duelo, Nestor?
- J passou quase uma oitava parte da tarde.
- Em breve tero de parar. O Sol est j a pr-se!
- Inacreditvel, no ?
- Ordenaste trguas?
- Os homens no queriam combater. Nem eu. Como vo as coisas no resto do campo?
- Estamos a fazer melhor do que resistir, apesar de sermos muito menos do que eles. Diomedes tem sido um verdadeiro tit. Matou Pandaros, o chefe troiano que quebrou
as trguas, e foi-se embora com a armadura do inimigo mesmo nas barbas de Heitor. Ali! Ali est Eneias! No admira que ele quisesse trguas ... !
Diomedes atingiu-o no ombro com uma lana e cr que Eneias est bastante ferido.
Ento foi por isso que ele deixou a ala e veio para aqui...
O dardaniano , entre todos os homens de Pramo, o mais astucioso. Mas, segundo se diz,  tambm o mais egosta. Como est Menelau? A flecha atingiu algum stio
vital? No. Macon fez-lhe uma ligadura e mandou-o de novo para o campo de batalha.

#- Portou-se muito bem, o teu irmo.
- Foi uma surpresa para ti, no foi?
Por sobre a poeira e o clamor do campo de batalha, ouviu-se o longo e desalentado toque da trombeta que anunciava a noite. Os homens baixaram as armas e, arquejantes,
procuraram um stio para descansar. Escudos eram arrastados pelo cho, espadas eram desajeitadamente embainhadas, mas Heitor e jax continuavam a combater. No fim
de tudo, foi a noite o vencedor; os dois colossos mal viam as armas diante deles quando desci do meu carro e corri a separ-los.
- Nem lees como vocs conseguem ver de noite - disse-lhes eu. - Nenhum de vs venceu, nenhum de vs foi derrotado. Portanto, agora que chegou a noite, dem trguas
s vossas espadas.
Heitor tirou o elmo com uma mo trmula.
- Confesso que no lamento que o duelo tenha chegado ao fim. No aguentaria muito mais.
jax deu o seu escudo a Teucro, que mal se aguentava de p sob to pesada carga.
- Nem eu, nem eu... - disse a torre humana.
- s um grande homem, jax - disse Heitor, estendendo-lhe o brao direito. jax entrelaou os seus dedos  volta do pulso do prncipe troiano. Com um sorriso, comentou:
- O mesmo posso dizer de ti, Heitor.
- Custa-me a crer que Aquiles seja melhor do que tu... Olha, toma, ofereo-te a minha espada!
jax fitou a lmina com um prazer evidente, aps o que a ergueu bem alto. -A partir de agora, us-la-ei sempre, seja em que batalha for! Em troca, ofereo-te o meu
boldri. Segundo o meu pai, o meu av dizia que o recebera das mos de seu pai, que era o prprio Zeus Imortal. - Baixou a cabea e retirou a preciosa relquia;
era um objecto raro, de um cabedal prpura brilhante decorado com um padro de ouro.
- Us-lo-ei em vez do meu - disse Heitor, deliciado. Encantado, dei-me conta da intensa satisfao que ambos sentiam, da afeio mtua e do respeito que haviam ganho
um pelo outro em to terrveis circunstncias. At que as asas geladas de uma premonio deixaram a minha mente transida de medo: aquela era uma troca aziaga!
Naquela noite, acampmos no stio onde estvamos, sob as muralhas de Tria, com o exrcito de Heitor entre ns e a imensa Porta Ceia, aberta de par em par. As fogueiras
foram acesas, os caldeires suspensos sobre elas; escravos corriam a trazer enormes bandejas de po de cevada e carne; o vinho, misturado com gua, no faltava.
Por um momento, reparei no vaivm dos archotes por alturas da Porta Ceia; os escravos troianos andavam na mesma azfama que os nossos, assistindo o exrcito de Heitor.
Depois, fui comer com Agammnon e os outros, em torno de uma fogueira. Mal avancei para a luz que a fogueira desenhava, os rostos deles viraram-se para me saudar
- e eu vi o tremendo vazio que sempre se apodera dos homens depois de uma batalha duramente travada.
- No avanmos sequer um dedo - disse eu para Ulisses.
- Eles tambm no - retorquiu Ulisses tranquilamente, a boca meio cheia de carne de porco.
- Quantos homens perdemos? - perguntou Idomeneu.
-  Mais ou menos os mesmos que Heitor, talvez menos - disse Ulisses. As baixas que houve no chegam para alterar a correlao de foras.
- Nesse caso, creio que amanh ser um dia decisivo - comentou Merona, bocejando.
- Sim, amanh ser um dia decisivo - concordou Agammnon, bocejando tambm.
Pouco mais conversas houve. Os corpos queixavam-se das dores e das feridas, as plpebras caam pesadas, as barrigas estavam cheias. Era tempo de nos enrolarmos em
peles  volta do fogo. Contemplei as muitas centenas de pequenas luzes de fogo semeadas por toda a plancie, cada uma delas uma fonte de conforto e segurana na
imensido da noite. Plumas de fumo erguiam-se na direco das estrelas, o fumo de dez mil fogueiras sob as muralhas de Tria. Deitei-me e, por um momento, mirei
as muitas estrelas cuja cintilao ora se avivava, ora se esbatia, ao sabor daquele nevoeiro de fumo que os homens haviam erguido, at que todas elas se dissolveram
no sono, que  aquele que traz a escurido da mente.
O segundo dia foi muito diverso do primeiro. No houve trguas que aplacassem a carnificina, no houve duelos que nos prendessem a ateno, no houve magnficos
actos de herosmo que elevassem a refrega acima do nvel do comum dos homens. A lida era penosa e amargamente obstinada. Os meus ossos ansiavam por um merecido descanso,
os meus olhos estavam cegos pelas lgrimas que todos os homens choram quando vem um filho morrer. Antloco chorou tambm pelo seu irmo; depois, pediu-me que o
deixasse tomar o lugar do irmo na linha da frente. No pude recusar. Tive de chamar um dos meus homens para conduzir o meu carro.
Imune a todos os cercos e to mortfero como o prprio Ares, Heitor estava no seu elemento, atravessando constantemente o campo de batalha, acicatando as suas tropas
com uma voz portentosa que no dava trguas aos soldados nem a si

#mesmo. jax no teve tempo para o perseguir; Heitor fez avanar toda a Guarda Real sobre os homens de jax e Diomedes; dispondo de muito mais soldados do que os
seus dois mais perigosos inimigos, impediu que estes avanassem. Sempre que Heitor usava a sua lana, era certo e sabido que um homem morreria: com a lana, Heitor
era to bom como Aquiles. Se se abria uma brecha na nossa linha, Heitor empurrava os seus homens para dentro dela; logo que a brecha se tornava um facto consumado,
enviava mais e mais homens para dentro dela, como uma serra cravando os seus dentes cada vez mais fundo num gigante da floresta.
Ah, o sofrimento, a crueldade, a dor! De novo as lgrimas me cegaram quando outro dos meus filhos tombou, as entranhas dilaceradas por uma lana que Eneias arremessara.
Escassos momentos depois, Antloco por pouco no era decapitado por uma espada! Ah, no! No o mais amado dos meus filhos! Por favor, misericordiosa Hera, omnipotente
Zeus, no me levem o meu querido Antloco!
De vez em quando, mensageiros vinham informar-me da situao noutras partes do campo; dei graas aos deuses pelo facto de pelo menos os nossos chefes estarem sos
e salvos. Talvez porque os nossos homens estavam cansados, ou porque no tnhamos connosco os quinze mil homens de Aquiles, ou por qualquer outra mais obscura razo,
comemos a perder terreno. Lenta e imperceptivelmente, fomo-nos afastando cada vez mais das muralhas de Tria, fomo-nos abeirando cada vez mais das nossas prprias
muralhas. Dei comigo no meio das hostes da primeira linha. O meu condutor soluou de raiva quando se viu obrigado a fazer recuar os cavalos.
Heitor abateu-se sobre ns; pedi freneticamente por ajuda, pois o carro do prncipe troiano avanava na minha direco, erguendo-se j sobre o caos humano que me
rodeava. A sorte estava comigo. Diomedes e Ulisses, no sei como, ocuparam o centro da nossa linha da frente, colocando os seus homens ao lado dos meus. Diomedes
no fez qualquer tentativa para travar um combate singular com Heitor; em vez disso, concentrou-se no condutor do prncipe, o qual, pelos vistos, no era o condutor
habitual de Heitor, pois revelava uma inesperada inexperincia. Diomedes arremessou a sua lana e trespassou o homem que, caindo para trs agarrado s rdeas, obrigou
os cavalos a pararem. Com a ajuda de Ulisses, conseguimos afastar-nos em segurana, enquanto Heitor cuspia imprecaes e serrava as rdeas com uma faca.
Procurei voltar ajuntar a minha seco da linha da frente, mas j no era possvel. O medo apossara-se dos homens, muitos eram j os que falavam de sinais aziagos.
Nenhum de ns poderia alimentar mais iluses: o nosso exrcito retirava. Apercebendo-se disso, Heitor, com um grito de triunfo, mandou avanar o resto das suas linhas
de reserva.
Ulisses acabou por salvar o dia. Saltou para um carro vago - onde estava o carro dele? - e deteve os Becios quando estes comeavam a debandar; obrigou-os a enfrentarem
o inimigo  por algum tempo, at que, por fim, lhes ordenou que recuassem lentamente e em perfeita ordem. Agammnon seguiu imediatamente o seu exemplo; aquilo que
ameaara ser uma verdadeira derrocada - e uma derrota fragorosa - transformou-se numa retirada com um mnimo de perdas. Diomedes carregou, com os seus homens de
Argos, sobre os dentes dos troianos que continuavam a avanar, e eu segui-o com Idomeneu, Euripilo, jax e todos os seus homens.
Os nossos flancos tinham convergido para a linha da frente; o exrcito transformara-se numa cerrada formao com uma delgada frente suportando a investida de Heitor
e o grosso dos nossos homens atrs de ns, recuando.
Teucro no largava o seu esconderijo atrs do escudo do irmo, as flechas voando constantemente e acertando sempre nos seus alvos. Heitor aproximava-se; Teucro viu-o,
sorriu e ps uma nova flecha no seu arco. Mas Heitor era demasiado esperto para se deixar abater por uma flecha de que estava certamente  espera. Uma aps outra,
Heitor aparou com o escudo as flechas. Teucro ficou furioso
- e a raiva levou-o a cometer um erro fatal: saiu do seu esconderijo. Heitor estava  espera dele. J no tinha consigo nenhuma lana, mas encontrara uma pedra que,
nas suas mos, valia tanto como uma lana. Atingiu Teucro no ombro direito e o irmo de jax caiu por terra como um touro num sacrifcio. Demasiado ocupado para
reparar no que acontecera, jax continuou a combater. Ah, ali, ali!
O meu grito de alvio ecoou numa dzia de gargantas quando a cabea de Teucro se elevou no meio dos cadveres. Vimo-lo depois rastejando por entre mortos e feridos
na direco de jax. Agora, porm, Teucro era apenas mais um peso que o irmo teria de arrastar; os troianos continuavam a carregar.
Olhei desesperadamente para a retaguarda, para ver a que distncia estvamos das nossas muralhas; fiquei pasmado: as nossas ltimas linhas penetravam j no acampamento.
Ulisses e Agammnon conseguiram que a retirada terminasse sem pesadas baixas. Finalmente, podamos refugiar-nos na nossa cidade de pedra. Alm disso, estava demasiado
escuro para que Heitor se atrevesse a perseguir-nos. Deixmo-los do outro lado do fosso e da paliada, escarnecendo de ns e rosnando como ces furiosos colados
s nossas pernas.

#
Captulo Vigsimo Quinto
Narrado por Ulisses
No foi uma reunio muito alegre aquela que tivemos nessa noite em casa de Agammnon; pouco mais fizemos do que entregarmo-nos  entediante tarefa de recuperar as
foras para o dia seguinte. Doa-me a cabea, a minha garganta estava ferida de tanto gritar, os meus flancos estavam em carne viva devido ao atrito da couraa e
apesar da proteco almofadada que usava por baixo. Todos ns apresentvamos pequenas feridas - peles esfoladas, escoriaes diversas, cortes dos tipos mais variados
- e o sono apoderava-se j de ns.
- Um tremendo revs - disse Agammnon, no meio de um silncio exausto. Tremendo, Ulisses.
Diomedes correu a defender-me.
- Tal como Ulisses previra! - exclamou. Nestor aquiesceu. Pobre Nestor. Pela primeira vez, parecia ter a idade que realmente tinha e no era caso para admirar. Perdera
dois filhos naquele dia. Com uma voz que o esgotamento tornara aguda, disse: -  cedo para desesperares, Agammnon. A hora da vitria chegar para ns - e tornar
doces todas as derrotas.
- Eu sei, eu sei! - exclamou Agammnon.
- Seria melhor que algum fosse contar a Aquiles - disse Nestor, num murmrio apenas audvel para aqueles que conheciam o nosso plano. - Ele est a cumprir o prometido,
mas, se no o mantivermos informado, pode muito bem avanar antes do tempo.
Agammnon trespassou-me com o seu olhar.
- Ulisses, a ideia foi tua: vai tu visitar Aquiles. Arrastei-me exausto na direco do acampamento de Aquiles. Obrigar-me a atravessar todo o acampamento grego (j
que a base de Aquiles ficava num dos extremos) fora a maneira que Agammnon encontrara para se desforrar de mim.

#Contudo, enquanto caminhava, descansado e tranquilo, a energia comeou lentamente a voltar aos meus msculos. Acabei por me sentir mais retemperado depois deste
pequeno esforo do que me sentiria se tivesse dormido a noite inteira. Quem me visse pensaria por certo que Agammnon me mandara insistir junto de Aquiles para que
mudasse de ideias. Os soldados no ficaram por certo surpreendidos quando me viram atravessar a porta do acampamento mirmido. Os homens de Aquiles - tanto os mirmides
como todos os outros soldados da Tesslia - miraram-me com um ar triste. Estavam vidos de guerra - e reduzidos  mais absoluta impotncia.
Quando entrei na casa de Aquiles, estava este aquecendo as mos junto ao trpode de fogo, to esgotado e nervoso como qualquer um dos chefes que haviam combatido
durante aqueles dois dias. Ptrocles estava sentado diante dele: dir-se-ia que o seu rosto no era feito nem de carne nem de pele, mas sim de granito. Creio que
no fiquei surpreendido com a atitude de Ptrocles: a causa era evidente e tinha um nome de mulher, Briseida. O meu relacionamento com Diomedes era to amistoso
quanto sensual, uma ligao que fazia todo o sentido naquelas circunstncias e que nos proporcionava um prazer extremo. Porm, se ele ou eu quisesse dormir com uma
mulher, no havia mal nenhum. No era nenhuma catstrofe, nenhum de ns se sentia trado. Ptrocles amava e imaginara-se em segurana, permanentemente livre de rivais.
Ao passo que Aquiles, como todos os homens que ardem por outras coisas que no a carne, no se entregara verdadeiramente ao seu amante. Sentindo-se atrado apenas
por homens, Ptrocles considerava que fora cruelmente trado. Pobre Ptrocles... Pobre, apenas porque amava.
- Que te traz ao meu acampamento? - perguntou Aquiles num tom o mais azedo possvel. - Ptrocles, pede aos escravos que tragam comida e vinho para o rei.
Suspirando grato, sentei-me numa cadeira enorme e esperei que Ptrocles sasse.
- Ouvi dizer que as coisas correram mal - disse Aqules logo que o amigo saiu.
- Como se esperava, Aquiles. No te esqueas disso - retorqui. - Heitor conseguiu que os seus soldados lutassem duramente durante todo o dia, mas Agammnon no conseguiu
o mesmo dos nossos. A retirada comeou logo que comearam os murmrios - todos os augrios estavam contra ns, o cu estava cheio de guias voando do lado esquerdo,
uma luz dourada banhava a cidadela de Tria e outras coisas do gnero. Quando os homens desatam a falar de sinais aziagos, no h nada a fazer. De maneira que recumos
e Agammnon teve de nos conduzir para o interior das fortificaes a fim de passarmos a noite.
- Disseram-me que jax e Heitor tinham travado um duelo.
- Sim, um duelo que durou mais de uma oitava parte da tarde - e que, mesmo assim, no chegou ao seu desfecho. Mas no te preocupes, Aquiles. Heitor ser para ti!
- O problema no  esse, Ulisses: o problema  que h homens a morrer sem qualquer necessidade! Deixa-me combater amanh! Por favor!
- No - retorqui eu, num tom categrico. - S combaters quando o nosso exrcito correr perigo de aniquilamento. Ou quando os navios comearem a arder - caso Heitor
consiga entrar no nosso acampamento. Mesmo em tais circunstncias, dirs a Ptrocles que comande as tuas tropas - no deves ser tu a sair com elas. - Fitei-o gravemente.
- No te esqueas do juramento que fizeste diante de Agammnon.
- Est descansado, Ulisses, eu cumpro sempre aquilo que juro. Aquiles baixou a cabea e caiu num silncio que parecia interminvel. Quando Ptrocles voltou, foi
assim que nos viu: Aquiles todo curvado e eu a olhar, com um ar ausente, para a sua cabeleira dourada. Ptrocles ordenou aos criados que pusessem a comida e o vinho
na mesa. Depois, ficou to parado e frio como uma coluna de gelo. Aquiles lanou-lhe um breve olhar e logo se virou para mim.
- Diz a Agammnon que no volto atrs na minha palavra - disse-me ele num tom perfeitamente formal. - Diz-lhe que arranje outro para o salvar dos apuros em que se
meteu. Ou ento que me devolva Briseida.
Bati na coxa, fingindo que estava exasperado.
- Como queiras, Aquiles.
- Fica e come, Ulisses. Ptrocles, vai deitar-te. Nunca naquela casa! Ptrocles deu meia volta e disparou porta fora.
Podia ser que dormisse mais tarde; porm, quando deixei o acampamento mirmido, senti-me to cheio de vida, to cheio de energia, que me apeteceu fazer uma maldade
qualquer. Foi por isso que me encaminhei para o pequeno vale onde a minha colnia de espies continuava alojada. Muitos dos meus agentes que tinham ficado no acampamento
(outros tantos estavam a viver em Tria) estavam a acabar de jantar; Tersita e Sino saudaram-me calorosamente.
- Novidades? - perguntei, enquanto me sentava.
- Uma novidade muito interessante - disse Tersita. - Ia procurar-te por causa dela.
- Ah! Sou todo ouvidos, Tersita!
- Quando a batalha terminou, chegou a Tria um novo aliado - um primo distante de Pramo, chamado Reso.- Quantos soldados trouxe? Sino riu-se.
- Nenhum! Reso no passa de um fanfarro. Se o picarmos, s sai vento! Intitula-se aliado de Tria, mas, de facto,  um refugiado! Foi corrido pelo seu prprio povo...

#- Sim senhor, sim senhor! - disse eu, e esperei pelo resto.
- Reso possui um trio de magnficos cavalos brancos que so referidos num orculo troiano - disse Tersita. - Diz esse orculo que os cavalos de Reso so os filhos
imortais do alado Pgaso, to velozes como Breas e to selvagens como Persfona antes de Hades a ter possudo. Se esses cavalos beberem gua do Escamandro e comerem
erva troiana, Tria nunca cair. Uma promessa, diz o orculo, de Poseidon, o qual, no entanto, parece que est do nosso lado.
- Eu sei que Poseidon est do nosso lado, mas diz-me uma coisa: os cavalos j beberam gua do Escamandro e j comeram erva troiana?
- A erva, j comeram, mas na gua do Escamandro ainda no tocaram.
- No sou eu quem os vai censurar! - retorqui, divertido. - Eu tambm no beberia daquela gua!
- Pramo ordenou que lhe trouxessem um ou dois baldes de gua do Escamandro, mas de um local mais prximo da nascente... - disse Sino, to divertido como eu. -
O rei de Tria decidiu transformar a coisa numa cerimnia pblica. Os cavalos vo beber dos baldes amanh ao alvorecer. Entretanto, coitados dos cavalos, vo passar
uma sede horrvel!
- Muito interessante... - Levantei-me, esticando braos e pernas. - Tenho de ver essas fabulosas criaturas com os meus prprios olhos. Creio que, se tivesse um trio
de cavalos brancos, poderia dar  minha imagem um pouco mais de... como dizer?... elegncia.
- Sim, de facto um bocadinho mais de elegncia no te ficava nada mal zombou Sino.
- Um bocadinho? Um bocado! - ajudou Tersita.
- Muito grato pelas vossas apreciaes, meus senhores! Digam-me: onde ' que eu posso encontrar esse trio imortal?
- Isso  que ns no conseguimos saber - respondeu Tersita, franzindo o sobrolho. - Sabemos apenas que se encontram na plancie, com o resto do exrcito troiano.
Diomedes, Agammnon e Menelau estavam  minha espera nas proximidades da minha casa; avancei descontraidamente na direco deles como se estivesse a dar um passeio
higinico. Sorri para Diomedes, um sorriso cujo significado ele conhecia bem e que o encheu de entusiasmo.
- Aquiles est calmo - disse eu para Agammnon.
- Os deuses sejam louvados! Assim j posso ir deitar-me. Logo que Menelau e Agammnon partiram, entrei na minha casa com Diomedes e chamei um criado.
- Traz-me um fato de cabedal leve e dois punhais - disse eu.
- Ento o melhor  eu ir equipar-me de igual modo - disse Diomedes.
- Encontramo-nos na ponte do Simoente.
- E quando  que dormimos?
- Mais tarde, mais tarde!
Envergando um cabedal macio e escuro, e com dois punhais no cinto, Diomedes foi ter comigo  ponte do Simoente. Protegidos pelas sombras, atravessmos silenciosamente
a ponte; logo a seguir  ponte, vinham os fossos e a paliada.
- Qual  o nosso objectivo? - murmurou ele.
- Apetecia-me ter um trio de cavalos brancos imortais...
- Com um trio desses, vais melhorar muito a tua imagem... Lancei-lhe um olhar desconfiado.
- No me digas que estiveste a falar com Sino e Tersita!
- No, no estive - retorquiu ele com o ar mais inocente deste mundo.
Onde  que esto os cavalos?
- No fao ideia. Algures no meio desta escurido.
-  o mesmo que procurar uma pulga na pele de um urso. Apertei-lhe o brao.
- Cala-te! Vem a algum. Mentalmente, saudei a minha protectora: a minha querida Palas Atena, a Dama Coruja, trazia-me sempre sorte. Escondemo-nos no fosso junto
 ponte e espermos.
Sado da escurido da noite, um homem avanou rapidamente na direco da ponte. Ouvia-se a armadura dele a tilintar: para andar de armadura naquelas circunstncias,
s poderia ser um espio amador. E nem sequer se lembrou de se furtar ao luar - extraordinrio! Os raios da lua banharam-no por um longo momento, revelando um homem
baixinho e gordo, envergando uma armadura que lhe devia ter custado bom dinheiro. Coroando o elmo, l estava a pluma prpura de Tria. Deixmo-lo aproximar-se de
ns e s depois saltmos sobre ele. Tapei-lhe a boca, sufocando-lhe o grito; Diomedes prendeu-lhe os braos atrs das costas; depois, atirmo-lo violentamente para
o cho. O homem fitou-nos com uns olhos que, de to esbugalhados, quase lhe saam das rbitas; tremia tanto como uma alforreca. No, no era um dos espies de Palamedes.
De certeza que trabalhava por conta prpria.
-   Quem s tu? - rosnei-lhe eu num murmrio feroz.
- Dlon - conseguiu ele dizer.
- Que fazes tu aqui, Dlon?
- O prncipe Heitor pediu voluntrios para irem ao acampamento grego, porque queria saber se Agammnon tenciona sair amanh.

#Estpido Heitor! Por que raio  que ele no deixava a espionagem nas mos de profissionais como Palamedes?
- Um homem chegou esta noite. Reso. Onde fica o acampamento dele? perguntei, afagando a lmina do meu punhal.
O homem engoliu em seco e desatou numa tremideira.
- No sei, no sei! - baliu o desgraado. Diomedes abeirou-se dele e, calmamente, cortou-lhe uma orelha. Depois, mostrou-lhe o apndice que acabara de perder, enquanto
eu lhe tapava a boca para ele no gritar. S lhe tirei a mordaa da minha mo quando ele percebeu que tinha mesmo que falar.
- Fala, serpente! - atirei-lhe.
O homem falou. E quando acabou de falar partimos-lhe o pescoo.
- Olha-me s para estas jias, Ulisses! - exclamou o meu amigo.
- Um homem muito rico... Se calhar, era daqueles que se dedicam a roubar os mortos depois da batalha. Enfim, um homem que no era digno das atenes de Heitor. Tira-lhe
as bugigangas todas que ele traz e esconde-as. Quando voltarmos, leva-as para o teu ba. Ser a tua parte dos despojos desta noite, pois eu quero ficar com os cavalos.
Diomedes ps-se a apreciar uma enorme esmeralda.
- No me posso queixar, Ulisses... S com esta esmeralda, poderei comprar cem cabeas de gado para povoarem a plancie de Argos.
Encontrmos o acampamento de Reso exactamente no stio que Dlon indicara. Numa elevao prxima, parmos para combinar a nossa estratgia.
- Que idiota! - murmurou Diomedes. - Porque  que est to isolado?
- Deve sentir-se superior aos outros... Quantos  que vs?
- Uma dzia. Mas no te sei dizer quem  Reso.
- Sim, tambm contei uma dzia. Primeiro matamos os homens, depois levamos os cavalos. Sem barulho.
Com os punhais entre os dentes, deslizmos silenciosamente, Diomedes na direco da fogueira, eu na direco oposta. Em operaes deste gnero, a prtica  muito
til; a escassa corte de Reso morreu enquanto dormia, e os cavalos, vagas formas brancas no negrume da noite, no chegaram a assustar-se.
Foi fcil descobrir quem era Reso. Tambm ele era um coleccionador de jias. Era o que estava mais perto da fogueira; as jias cintilavam ao sabor das chamas.
- Olha-me s para esta prola! - sussurrou Diomedes, erguendo-a  luz da lua.
- Mais mil cabeas de gado - disse eu, sussurrando ainda mais baixo do que ele, pois havia sempre o perigo de algum aparecer inesperadamente.
Os cavalos tinham sido amordaados, no fossem romper as cordas e desatar a correr para o Simoente a fim de matarem a sede. Melhor para ns; desse modo, no haveria
relinchos. Enquanto eu procurava os cabrestos e saudava o meu novo trio de cavalos, Diomedes procedeu  colheita de tudo o que valesse a pena levar para o nosso
acampamento; depois, colocou a carga no dorso de uma mula. E foi assim que regressmos  ponte do Simoente, onde o meu amigo de Argos juntou aos seus tesouros as
jias de Dlon.
Agammnon no ficou nada satisfeito por eu o ter acordado. Mas desatou a rir-se mal lhe contei a histria de Reso e dos seus cavalos.
- Percebo que queiras ficar com os filhos do alado Pgaso, Ulisses, mas...
e o pobre Diomedes? Com que  que ele fica?
- Estou satisfeito com o que tenho - respondeu o astuto Diomedes, com um ar muito nobre.
Sim, aquela era a resposta certa. De facto, porque haveria Diomedes de dizer a Agammnon - que tinha um ba de guerra para encher - que acumulara uma fortuna formidvel
apenas numa noite?
A histria dos cavalos de Resos era j o tema de todas as conversas quando, ao alvorecer, os nossos homens tomaram o desjejum; ficaram deliciados com a novidade
e saudaram-me entusiasticamente quando passei com o meu novo trio de cavalos na direco da ponte do Simoente,  frente mesmo de Agammnon, que queria que Tria
visse.
Tria viu e no gostou. A batalha foi sangrenta, crudelssima. Agammnon aproveitou uma oportunidade nica e cavou uma profunda brecha na linha troiana, obrigando-os
a retirar. Os nossos homens ficaram entusiasmados com a perspectiva de acabarem com eles e foraram-nos a recuar at perto das muralhas de Tria. A, porm, os Troianos,
em muito maior nmero do que ns, voltaram a juntar-se e a organizar-se e a nossa sorte mudou por completo. De sbito, os reis comearam a ceder.
O primeiro foi Agammnon, que nesse dia estava cheio de energia e de nimo. Quando seguia ao longo da linha, na nossa direco, abateu com uma lana um homem que
tentou det-lo, mas no viu o homem que vinha atrs e que cravou a sua lana na coxa do rei supremo. A ponta da lana era farpada, a ferda sangrava copiosamente;
o nosso rei supremo viu-se forado a deixar o campo de batalha.
Depois, foi a vez de Diomedes. Conseguiu atingir o elmo de Heitor com um dardo, deixando-o atordoado por um momento. Radiante, Diomedes avanou para desferir o golpe
fatal enquanto eu me concentrava nos cavalos e no condutor de Heitor, procurando imobilizar o carro. Nenhum de ns viu a figura que se ocultava por detrs do carro
at que ela se ergueu com o arco preparado para disparar,

#os dentes brancos cintilando num sorriso quando lanou a flecha. Esta quase se cravava no cho. Mas no era o cho o seu alvo: era o p do meu amigo de Argos. Preso
ao cho pela flecha, Diomedes amaldioou o archeiro e prometeu vingar-se dele. Pris - pois era esse o nome do archeiro - escapuliu-se num pice. No havia dvida:
Tria tambm tinha um Teucro.
- Baixa-te e arranca-a! - gritei para Diomedes, correndo a proteg-lo com alguns dos meus soldados de taca.
Diomedes fez o que eu lhe disse enquanto eu brandia um machado que tirara a um morto. No era a minha arma preferida; o machado era demasiado pesado e difcil de
manejar; porm, para rechaar um anel de inimigos, no havia melhor. Decidido a permitir que Diomedes recuasse em segurana, empunhei ferozmente a medonha arma at
que o meu amigo conseguiu afastar-se, coxeando e cheio de dores, demasiado incapacitado para poder continuar num campo de batalha.
Nesse exacto momento, tambm eu fui atingido. Algum arremessou uma lana e com tal pontaria que a maldita lana se cravou na barriga da minha perna, um pouco abaixo
dos tendes do jarrete. Os meus soldados rodearam-me at eu conseguir arranc-la, mas a ponta da lana era farpada e levou consigo um grande bocado de carne. Sangrando
abundantemente, tive de perder um tempo precioso a estancar a ferida com ligaduras que fiz com a roupa de um morto.
Menelau e os seus espartanos chegaram entretanto para nos ajudar; a muito custo, consegui juntar-me a eles. jax apareceu tambm e ele e Menelau afastaram-se um
pouco para que eu pudesse esconder-me atrs do carro de Menelau. Um guerreiro glorioso, jax! Com o sangue a ferver, ceifava tudo  sua volta com uma energia que
eu nunca poderia ter. E foi assim que conseguiu que os Troianos recuassem. Um dos chefes troianos reagiu, fazendo avanar mais e mais homens e estacando assim o
recuo. Por muitos inimigos que os nossos valorosos soldados e o poderoso jax conseguissem ceifar, havia sempre soldados troianos prontos a tomarem o lugar dos camaradas
mortos, saltando para a batalha como os soldados saltando dos dentes do drago.
Agradecendo aos deuses que Heitor tivesse desaparecido, tratei de fazer alguma coisa de til, pedindo que se procedesse a uma concentrao das nossas foras naquela
rea. Euripilo era o chefe que estava mais perto e no demorou, avanando por um dos lados: mesmo a tempo de apanhar com uma flecha de Pris num dos ombros. Macon
veio logo a seguir e teve a mesma sorte. Pris. Ah, o verme! No desperdiava flechas com soldados; escondia-se num stio seguro e confortvel e esperava que aparecesse
um prncipe. Nisso divergia de Teucro, pois Teucro disparava contra qualquer alvo.
Por fim, no sei bem como, consegui chegar-me  retaguarda, onde encontrei Podalrio tratando de Agammnon e Diomedes, que aguardavam desconsolados a evoluo da
lida, to prximos da batalha quanto a sua ousadia permitia. Foi com horror que me viram chegar a mim, logo seguido de Macon e Euripilo.
- Mas porque  que tu combates, meu irmo? - perguntou Podalrio, furioso, enquanto deitava Macon no cho.
- Trata primeiro de Ulisses - disse o ofegante Macon, cuja ferida sangrava lentamente.
E foi assim que a minha ferida foi tratada e ligada em primeiro lugar; Podalrio tratou depois Euripilo, preferindo cravar um pouco mais a flecha no ombro antes
de tir-la, pois temia que os danos fossem maiores se a arrancasse com uma fora parecida com aquela com que a flecha se cravara.
- Onde est Teucro? - perguntei, afundando-me ao lado de Diomedes.
- Ordenei-lhe que abandonasse o campo de batalha - disse Macon, ainda  espera da sua vez. - Por causa do golpe de Heitor, o ombro de Teucro inchou de tal maneira
que, agora, mais parece a rocha com que Heitor o atingiu. Tive de drenar uma parte do fluido que se concentrou no inchao. Tinha o brao completamente paralisado
mas agora j consegue mex-lo.
- As nossas hostes esto a minguar - disse eu.
- Demasiado - disse Agammnon com um ar pesaroso. - Os soldados tambm j se deram conta disso. No te apercebeste da mudana?
- Sim, apercebi-me - retorqui, levantando-me e experimentando a minha perna. - Sugiro que regressemos ao acampamento antes que o pnico tome conta dos homens. Os
soldados no tardaro a retirar rumo  praia, mesmo que no haja ordens nesse sentido.
Apesar de ter sido eu o responsvel pela retirada, nem por isso deixei de a considerar um rude golpe. Eram muito poucos os reis que restavam para controlar os homens;
dos principais chefes, s jax, Menelau e Idomeneu permaneciam no campo de batalha. Uma seco da nossa linha rompeu-se; a brecha alargou com uma velocidade surpreendente.
Inopinadamente, todo o exrcito virou costas e desatou a fugir para a segurana do acampamento. Eram to estridentes os gritos de Heitor que conseguia ouvi-los do
alto das nossas muralhas; pouco tempo depois, os Troianos mais pareciam ces esfomeados perseguindo uma presa. Os nossos homens estavam ainda a entrar no acampamento
atravs da ponte do Simoente, com os Troianos atacando a sua retaguarda, quando Agammnon, lvido de terror, deu as suas ordens. A porta foi fechada antes que o
ltimo - e o mais corajoso
- dos homens conseguisse entrar. Tapei os ouvidos e fechei os olhos. A culpa  tua, Ulisses! Tudo por culpa tua!
Era demasiado cedo para que uma batalha terminasse. Heitor tentaria assaltar as nossas muralhas. Deambulando pelo acampamento, as nossas tropas demo-

#raram algum tempo ajuntar-se e a entender que, agora, a sua tarefa consistiria em defender as fortificaes. Escravos correram a aquecer caldeires de gua para
derramar sobre as cabeas daqueles que tentassem escalar as muralhas; no nos atrevamos a usar azeite a ferver, pois temamos que as muralhas acabassem por arder.
As pedras j se encontravam empilhadas ao longo das muralhas h vrios anos, pois ns sabamos prever as emergncias.
Os Troianos, frustrados, concentraram-se ao longo da trincheira, os chefes rodando impacientes nos seus carros, exortando os homens a formarem de novo. Heitor continuava
no seu carro dourado, com o seu velho condutor, Quebrones, controlando agora as rdeas. Apesar do renhido conflito, parecia to erecto e confiante como sempre.
Pois que parecesse. Pousei o queixo sobre as mos enquanto os nossos homens comeavam a preencher os espaos  minha volta no topo das muralhas e preparei-me para
ver o que iria Heitor fazer para lanar o seu assalto. Porque, das duas uma: ou estava disposto a sacrificar muitos dos seus soldados ou tinha de definir um plano
muito mais perspicaz do que o recurso  simples fora bruta.

Captulo Vigsimo Sexto
Narrado por Heitor

Encurralei-os dentro das suas prprias muralhas como se fossem ovelhas; a vitria, apertava-a j na palma da minha mo - e no me fugiria! Eu, que vivera toda a
minha vida dentro de muralhas, sabia, muito melhor do que qualquer outro homem, como lanar um assalto efectivo a fortificaes de todo o gnero. Em todo o mundo
conhecido, s as muralhas de Tria eram realmente invulnerveis. Aquele era o meu grande momento. Sentia j a glria de uma vitria sobre Agammnon e jurava que,
acontecesse o que acontecesse, faria com que esse rei arrogante conhecesse o desespero que ns experimentvamos desde o dia em que os seus mil navios haviam sado
de Tnedo. Uma fileira de cabeas erguia-se j na pattica muralha, enquanto eu inspeccionava as tropas do alto do meu carro, com Polidamas a meu lado. Quebrones
fora buscar gua para os cavalos.
- Que achas? - perguntei a Polidamas.
- Bom,  claro que no estamos diante de nenhuma Tria... No entanto, estas muralhas apresentam alguns perigos. As duas passagens, to longe uma de outra, foram
uma medida inteligente. A trincheira e a paliada tambm foram obra de peritos. J te apercebeste do erro deles?
- J. O espao entre a muralha e a trincheira  demasiado amplo - respondi. - Usaremos as passagens deles, mas no para atacar as portas. Us-las-emos para atravessar
a paliada e a trincheira. Depois, os nossos homens avanaro ao longo da trincheira a fim de atacarem a prpria muralha. Esta  uma zona em que a extraco de pedra
 muito difcil. Da que eles tivessem de recorrer  madeira, excepto no que toca s torres de vigia e aos contrafortes.
Palamedes aquiesceu.
- Sim, eu faria exactamente o mesmo, Heitor. Mando homens a Tria para trazerem combustveis?

#- Imediatamente - tudo o que possa arder, mesmo a vulgar gordura usada nos cozinhados. Enquanto tratas disso, convocarei uma reunio dos meus chefes, disse eu.
Quando Pris - o ltimo a chegar, como sempre - apareceu, anunciei ao grupo o que tencionava fazer.
- Dois teros do exrcito penetraro atravs da passagem do Simoente, um tero atravs da passagem do Escamandro. Vou dividir as tropas em cinco segmentos. Eu comandarei
o primeiro, com Polidamas. Pris, tu ficars com o segundo. Heleno, tu comandars o terceiro, com Defobo. Os nossos trs segmentos dirigir-se-o para o Simoente.
Eneias, tu ficars com a quarta seco e rumars ao Escamandro. Sarpdon e Glauco seguiro tambm para o Escamandro.
Heleno estava radiante porque eu lhe dera o comando de um dos segmentos, preterindo Defobo, o qual no conseguia decidir se estava mais furioso com essa desconsiderao
ou com o facto de Pris ficar a comandar a sua prpria diviso. Eneias tambm no ficou muito feliz por eu o ter associado a Sarpdon e Glauco: para ele, era como
se estivesse a consider-lo um estrangeiro.
- Quando os homens chegarem s extremidades interiores das passagens, mudaro de rumo a fim de caminharem na direco uns dos outros; aqueles que chegarem ao Simoente
seguiro na direco do Escamandro e vice-versa, at preencherem todo o espao ao longo da muralha, entre a prpria muralha e a trincheira. Entretanto, os no combatentes
desmantelaro a paliada e usaro as estacas para fazer escadas e achas para o fogo. O fogo ser o nosso melhor instrumento. O fogo far com que a muralha grega
se desmorone. Por isso, a nossa primeira tarefa consistir em pegar fogo  muralha, de tal modo que os defensores no consigam apag-lo.
Entre os chefes, encontrava-se o meu primo sio, uma criatura insuportvel pois tinha a mania de pr sempre em causa as minhas ordens.
- Heitor - disse ele bem alto, para que toda a gente ouvisse -, no vais usar a tua cavalaria?
- Claro que no - retorqui, sem a menor hesitao. - De que nos serviria a cavalaria? A ltima coisa de que precisamos  de cavalos e de carros enfiados num espao
fechado.
- Ento e no atacamos as portas?
- sio, os Gregos tero a maior facilidade em defender as portas.
- Essa agora ... ! - atirou-me sio com um ar desdenhoso. - Pois bem: deixa-me mostrar-te como  que se faz!
Antes que eu pudesse contrari-lo, sio lanou-se numa corrida imparvel, gritando para que os homens do seu esquadro o seguissem nos seus carros. E l foi ele
na direco da passagem do Simoente. Embora fosse uma passagem ampla, a verdade  que um trio de cavalos tambm ocupa muito espao; os cavalos das pontas ficaram
em pnico mal viram as estacas pontiagudas que se projectavam do fosso de cada lado da passagem; ao fim de pouco tempo, esse pnico comunicou-se tambm ao cavalo
do meio. Num abrir e fechar de olhos, os trs cavalos empinaram-se e pararam, lanando o caos entre os aurigas que vinham atrs de sio. Enquanto o condutor de sio
fazia um esforo hercleo para controlar os cavalos, as portas no final da passagem abriram-se um pouco. Pela bandeira, conclu que eram Lpitas; estremeci de medo.
sio era um homem morto. Um dos dois chefes dos Lpitas arremessou a sua lana, que trespassou o peito do pobre fanfarro. Sob o impacte da lana, sio deu um salto
enorme no seu carro e foi esparramar-se em cima das estacas do fosso. O condutor do carro foi a vtima seguinte; os Lpitas esconderam-se atrs do carro e assim
atacaram os que vinham atrs de sio. No havia nada que eu pudesse fazer. Terminada a carnificina, os Lpitas retiraram em boa ordem e as portas do Simoente foram
fechadas.
Agora, antes de fazer avanar os meus homens, teria de limpar a passagem do Simoente de todos aqueles cadveres. Porm, Eneias, Sarpdon e Glauco demorariam ainda
algum tempo a chegar  passagem do Escamandro - a qual, conclu com satisfao, no disporia de defensores. Com efeito, Aquiles era o homem que estava mais prximo
das portas do Escamandro - e Aquiles recusara-se a cumprir o seu dever perante Agammnon. Para ele, uma rapariga tonta era mais importante do que os seus concidados.
Mas que farsante ... !
Os homens avanaram em passo de corrida e viraram para dentro ao longo da base da muralha, saudados por uma tempestade de lanas, flechas e pedras. Com os escudos
sobre as cabeas, pouco sofreram com tais msseis, enquanto se encaminhavam firmemente na direco da passagem do Escamandro, onde as tropas estrangeiras comeavam
tambm a virar para dentro. Os no combatentes estavam j a desmantelar a paliada de madeira, fazendo escadas com as estacas mais compridas e cortando as outras
para que servissem de acendalhas para a fogueira. Azeite, pez e gordura dos cozinhados comeavam j a chegar de Tria quando tive a ideia de ordenar aos meus homens
que construssem estruturas sobre as quais poderiam colocar os seus escudos, servindo-lhes estes de telhado.
As fogueiras no tardaram a ser acesas; vi o fumo comeando a subir na direco dos rostos de sbito assustados ao longo do topo da muralha. Cascatas de gua desciam
do alto das muralhas, mas algumas das minhas coberturas tinham sido adaptadas de forma a protegerem as fogueiras, impedindo a sua extino; por outro lado, o azeite,
de mistura com a gua, provocava uma fumarada horrenda, o que era, para ns, uma grande vantagem.

#Tentmos escalar a muralha com as escadas, mas os Gregos eram demasiado astutos para permitirem que tal acontecesse. jax no parava ao longo da seco central,
onde eu estava, atroando vigorosamente o seu grito de guerra e derrubando escadas com o poderoso p. Um desperdcio, enfm. Ordenei a cessao do assalto.
- S vamos l com o fogo - disse eu a Sarpdon, cuj as tropas j se tinham encontrado com as minhas.
As primeiras fogueiras - as da nossa seco - depressa pegaram, e com que fria! Archeiros lcios mantinham as cabeas no parapeito baixo sob as coberturas, enquanto
outros lcios e os meus troianos alimentavam as fogueiras.
- Deixa-me tentar o assalto s muralhas - pediu Sarpdon. Escudadas pela fumarada, as escadas foram encostadas  muralha e a ficaram enquanto os archeiros de Sarpdon
disparavam uma chuva de flechas na direco dos defensores. Ento, como que por magia, as plumas dos elmos lcios comearam a ondular no topo da muralha; logo se
lhes deparou oposio. Ouvi um chefe grego pedir reforos, mas eu no estava  espera de jax e dos seus salaminianos. Ao fim de breves momentos, a pequena vitria
transformou-se numa derrota fragorosa; corpos caam aos nossos ps, gritos de guerra lcios transformavam-se em gritos de dor. E Teucro estava atrs do escudo do
irmo, disparando os seus dardos, no para a confuso de homens que se encontrava no alto das muralhas, mas para ns, que estvamos em baixo.
Depois de um gemido sufocado ao meu lado, senti o peso de algum que, ao cair, se agarrava desesperadamente a mim; ajudei Glauco a deitar-se na terra; tinha uma
flecha espetada no ombro, apesar da armadura. A ferida era demasiado profunda. Olhei para Sarpdon e abanei a cabea; da boca de Glauco saia j uma espuma rsea,
sinal de morte iminente.
Sarpdon e Glauco eram como gmeos: haviam governado juntos e o seu amor permanecia inclume h muitos, muitos anos. A morte de um deles significaria por certo a
morte do outro.
Os gritos angustiados de Sarpdon ouviram-se por um breve momento apenas; depois, Sarpdon pegou numa manta que cobria um soldado ferido, envolveu com ela o rosto
e os ombros e avanou sem medo por cima de uma das fogueiras. Um pouco acima, havia uma corda suspensa de um gancho, uma corda em que os Gregos no tinham reparado,
tal era a sua nsia em afastarem os Lcios do topo das muralhas. Sarpdon agarrou-se  corda e iou o seu corpo com uma fora que parecia sobre-humana, to grande
era a dor que sentia devido  morte de Glauco. A madeira chiou e rangeu, os toros enegrecidos comearam a abrir fendas e a partir-se; de sbito, uma seco enorme
da muralha abateu-se diante dos nossos olhos. Os infelizes troianos que se encontravam debaixo dela morreram esmagados; os infelizes gregos que estavam no alto dessa
seco afundaram-se to rapidamente como a muralha; num instante, toda a seco central da minha linha foi varrida pela destruio. Atravs do buraco assim aberto,
pude ver os altos edifcios de pedra e os alojamentos de madeira dos soldados, e, para l das construes, as imensas filas de navios, e o cinzento Helesponto. Ento,
Sarpdon tapou-me a vista; lanou fora a manta, pegou na espada e no escudo e penetrou no acampamento grego, anunciando, com uivos medonhos, a morte dos seus inimigos.
Os Gregos dispersaram antes de ns avanarmos; os nossos homens eram como uma torrente imparvel invadindo o acampamento inimigo. Momentos depois, porm, os Gregos
voltaram ajuntar-se e enfrentaram-nos. jax estava presente e ele era uma pea decisiva na resistncia; porm, naquele caos, nunca encontraramos o espao necessrio
para travarmos um duelo. Nenhuma das linhas da frente cedia um passo que fosse; Idomeneu e Merona trouxeram os seus soldados cretenses e, nesse momento, o meu irmo
Alctoo encontrou a morte. Afastei as lgrimas dos meus olhos e amaldioei a minha fraqueza, ainda que esta fosse feita mais de fria do que de mgoa. Com uma tal
fraqueza, combateria ainda melhor.
Rostos apareciam e desapareciam - Eneias, Idomeneu, Merona, Menesteu, jax, Sarpdon. Havia agora muitos troianos entre os lcios e os dardanianos; olhei de relance
para trs e verifiquei que a brecha na muralha aumentara muito de tamanho. S as plumas cor de prpura obstavam a que matssemos os nossos prprios homens, to apinhado
era o campo de batalha, to violentamente disputado era o terreno. Homens morriam estupidamente, homens morriam corajosamente; constantemente escorregvamos em seixos
que nao eram seixos, mas sim cadveres e, em certos stios, o amontoado de homens era tal que os mortos ficavam em p, as bocas escancaradas, o sangue jorrando fervilhante
das feridas. Os meus braos e o meu peito estavam forrados de sangue de outros homens, todo o meu corpo escorria sangue.
Polidamas apareceu de repente a meu lado.
- Heitor, precisamos de ti. Um grande nmero dos nossos soldados j entrou no acampamento atravs da brecha, mas os Gregos so fortes. Por favor, segue para o Simoente
o mais depressa possvel!
Precisei de algum tempo para retirar sem semear o pnico entre aqueles que ficavam; por fim, porm, consegui recuar at encontrar a muralha grega, junto  qual segui,
animando constantemente os homens, lembrando-lhes que a vitria s seria nossa quando queimssemos os mil navios e impedssemos o inimigo de regressar  sua ptria.
A meio do meu caminho, houve algum que me passou uma rasteira. Quase lhe cortava a cabea; s no lha cortei porque, antes de desferir o golpe fatal, verifiquei
que o inimigo era afinal Pris, o meu irmo, que estava perdido de riso!
Por todos os deuses! No vs onde pes os ps? - perguntou-me ele.

#Fitei-o abismado.
- Pris, tu no pras de me surpreender! H homens a morrer por todo o lado e tu aqui escondido, seguro e confortvel! At tens tempo para te divertires, passando-me
rasteiras!
A minha repreenso no chegava para apagar o sorriso dele.
- Bom, se pensas que te vou pedir perdo, ests muito enganado! Se no fosse eu, tu no estarias hoje aqui - essa  que  essa! Quem  que mandou os chefes gregos
para a enfermaria com as suas flechas? H? Quem  que obrigou Diomedes a deixar o campo de batalha? H?
Icei-o pelos seus longos caracis negros e pu-lo de p.
- Ento manda mais chefes para a enfermaria! - rosnei-lhe. - Porque no experimentas com jax? H?
Lanando-lhe um olhar prenhe de dio, Pris escapuliu-se num instante; logo descobri que a parte da nossa linha que estava com problemas era precisamente aquela
que sofria o ataque de jax e de um grande contingente de salaminianos.
Toda a frente da batalha mudara de direco. Lutvamos agora por entre as casas, uma lida difcil e perigosa; cada edifcio albergava gregos - cada edifcio era
uma emboscada. Porm, aqueles que se encontravam no terreno estavam a recuar na direco da praia e dos navios. jax ouviu o meu grito de guerra e respondeu com
o seu famoso Ai! Ai!. Abrimos caminho por entre os corpos que se erguiam na constante refrega e, por fim, ficmos diante um do outro. A minha lana estava j pronta.
Ento, quando me preparava para lhe desferir o primeiro dos meus golpes, jax baixou-se subitamente e logo se ergueu com uma pedra enorme nas mos, uma daquelas
pedras que serviam de cunho para os navios que estavam na praia. A minha lana era intil. Desfiz-me dela e empunhei a espada, contando com a minha velocidade, superior
 dele, para o atingir primeiro. jax arremessou a rocha com toda a sua fora e  queima-roupa. Senti uma dor dilacerante pois a pedra acertou-me em cheio no peito.
Depois, ca inconsciente.
Das agitadas trevas da inconsciencia, emergi para um mundo de terrvel sofrimento; senti o sabor do sangue na minha boca e vomitei, abri os olhos e vi sangue enegrecido
no cho ao p de mim e logo voltei a perder os sentidos. Quando de novo voltei a mim, a dor j no era to forte; um dos nossos cirurgies estava ajoelhado ao meu
lado. Convoquei todas as minhas foras para me erguer, o que consegui com a ajuda do mdico.
- Tens uma forte contuso ao nvel das costelas e algumas veias rompidas, mas nada de mais srio, prncipe Heitor - disse-me ele. -  Os deuses hoje esto connosco!
- exclamei arquejante, apoiado ainda nele.
Quanto mais me movia, menor era a dor; continuei a mover-me. Alguns dos meus homens tinham-me levado para l da passagem do Simoente e tinham-me deitado junto ao
meu carro. Quebrones fitava-me com um sorriso imenso.
- Pensmos que estavas morto, Heitor.
- Leva-me para o campo de batalha - disse eu, subindo para o carro.
No ter de fazer a p aquele caminho era uma bno; porm, mal cheguei  retaguarda, tive de descer. Julgando que eu estava morto, o meu exrcito comeara a ceder;
porm, logo que souberam que afinal eu estava vivo e que regressara  batalha, os homens ganharam novo nimo e organizaram-se para resistir e avanar. Os Gregos,
ao verem o meu rosto, devem ter sofrido um rude golpe. Dispersaram e fugiram pelos caminhos entre as casas at que um chefe que eu no conhecia conseguiu det-los
sob a proa de um navio que estava isolado dos outros, um navio que era certamente mais importante do que os outros, pois estava muito  frente da primeira fila de
navios, uma fila aparentemente infindvel. Dizimmos aqueles soldados gregos pois eles recusavam-se a recuar mais; agora, apenas jax, Merona e uns quantos cretenses
permaneciam no campo de batalha para nos enfrentarem.
A proa do navio isolado erguia-se sobre a minha cabea; conclu que o xito j no me fugiria quando jax se postou diante de mim e ergueu a sua espada - a minha
espada, pois eu oferecera-lha. Investi e ele aparou brilhantemente o meu  golpe; o nosso duelo voltava a ser travado, mas, desta feita, no teramos espectadores,
pois,  nossa volta, toda a gente combatia com igual ferocidade.
- De quem  o navio? - perguntei, ofegante.
- Pertenceu a Protesilau! - respondeu ele, to ofegante como eu.
- Vou - incendi-lo!
- Incendeio-te - eu - primeiro! Mais gregos apareceram para defender aquele que, sem sombra de dvida, era para eles um precioso talism; essa onda de homens acabou
por me separar de jax. Alguns dos meus soldados da Guarda Real estavam agora comigo e os gregos que combatiam contra ns no tinham a qualidade dos salaminianos.
Continumos a avanar, derrubando inimigos atrs de inimigos. Voltei a ver jax, mas, desta feita, o grande guerreiro nada fez para que recussemos. Com uma srie
de poderosos movimentos, conseguiu subir ao convs do navio de Protesilau, to rpido e to gil como um acrobata. A, pegou numa comprida vara e f-la girar em
crculos lentos, derrubando todos os meus homens mal eles assomavam  coberta.
Quando o ltimo grego a enfrentar-me morreu sob os meus golpes, empoleirei-me nos ombros de um soldado e escalei a proa do navio de Protesilau. Da  coberta era
um nico salto. Diante de mim, jax continuava a desafiar-me, ainda invencvel.

#Examinmo-nos atentamente, cada um de ns sentindo nesse exacto instante toda a exausto que a tremenda batalha em ns provocara. Abanando lentamente a sua enorme
cabea, como que para se convencer a si mesmo de que eu no existia, jax fez rodopiar a sua vara. Ergui a espada e enfrentei a vara com a lmina e com tal xito
que depressa a parti ao meio. A sbita perda de equilbrio quase fazia cair jax; endireitou-se, porm, logo procurando a espada. Avancei rapidamente, certo de que
ele estava liquidado, mas, uma vez mais, jax provou-me que era um grande guerreiro. Em vez de me enfrentar, correu para a popa e, com toda a fora que tinha nos
msculos das pernas, saltou do navio de Protesilau para aquele que estava imediatamente atrs, no meIo da primeira fila de embarcaes.
Abandonei o duelo. Havia uma parte de mim que amava aquele homem e estava certo de que ele tambm me amava. Amigos ou inimigos, haveria sempre entre ns uma profunda
afeio. Eu sabia que os deuses no queriam que nos matssemos um ao outro; ns tnhamos trocado prendas no final de um terrvel duelo.
Encostei-me  amurada e olhei para baixo: um mar de plumas cor de prpura, um mar de troianos.Dem-me um archote!
Um homem atirou-me imediatamente um archote. Apanhei-o, avancei para o mastro no meio dos ovns e deixei que o fogo lambesse sfrego aquelas cordas gastas, aquela
madeira seca e rachada. jax observava-me do outro navio, os braos pendendo-lhe flcidos e impotentes junto ao corpo, as lgrimas deslizando-lhe pelas faces. O
braseiro ateou num pice; um lenol de fogo subiu o mastro at aos vaus reais e a coberta desatou a chorar lgrimas de fumo, devido a outros archotes que os homens
enfiavam pelas aberturas destinadas aos remos. Corri de novo para a proa, ergui-me sobre ela.
- A vitria  nossa! - gritei. - Os navios esto a arder! Os homens repetiram o meu grito, avanando de novo para enfrentar os Gregos que se concentravam junto aos
navios que descansavam na praia, atrs do solitrio talism de Protesilau.
Captulo Vigsimo Stimo
Narrado por Aquiles.Passei a maior parte do tempo no telhado da mais alta das casernas dos Mirmides, mirando das alturas a plancie para l das nossas muralhas.
Quando o exrcito dispersou e fugiu, eu vi; quando Sarpdon abriu a brecha na muralha, eu vi; quando os homens de Heitor se espalharam pelos caminhos do nosso acampamento,
eu vi. E no quis ver mais nada. Ouvir Ulisses esboando o seu plano era uma coisa. Ver o seu plano tornar-se realidade era insuportvel. Regressei profundamente
triste  minha casa.
Ptrocles estava sentado num banco junto  porta, o rosto lavado em lgrimas. Mal me viu, virou-me as costas.
- Vai ter com Nestor - disse-lhe eu. - Vi-o h pouco. Trazia consigo Macon. Pergunta-lhe que notcias h de Agammnon.
Um pedido sem sentido. As notcias, j eu as sabia. Mas pelo menos no teria de olhar para Ptrocles, nem teria de o ouvir rogar-me uma vez mais que mudasse de ideias.
O clamor do conflito que grassava para l da paliada que encerrava os meus soldados estava ainda distante; a parte do acampamento junto ao Simoente era a mais assediada.
Sentei-me no banco e esperei por Ptrocles.
- Que disse Nestor? No seu rosto s havia desprezo.
- A nossa causa est perdida. Ao fim de dez longos anos de trabalho e sofrimento, a nossa causa - est - perdida! E a culpa  toda tua! Euripilo estava com Nestor
e Macon. Tivemos um total de baixas impressionante e Heitor investe furiosamente. Nem jax consegue deter o seu avano. Os navios acabaro por ser pasto das chamas.
Respirou fundo, mas logo prosseguiu.
- Se no tivesses hostilizado Agammnon, nada disto teria acontecido! Tu sacrificaste a Grcia por causa da tua paixo por uma mulher insignificante!

#- Porque no acreditas em mim, Ptrocles? - perguntei-lhe. - Porque ests contra mim? Por cime? Por causa de Briseida?
- No, Aquiles. Apenas porque estou profundamente desiludido. Tu no s o homem que eu pensava que eras. No  uma questo de amor.  uma questo de orgulho.
No lhe disse aquilo que pensava dizer-lhe porque, entretanto, ouvi um grito imenso. Corremos para a nossa paliada e subimos os degraus para ver o que se passava.
O meu tormento acabara. Agora, agora j podia combater! Mas como explicar a Ptrocles que teria de ser ele, e no eu, a conduzir os homens da Tesslia?
Mal descemos as escadas, Ptrocles ajoelhou na poeira do caminho.
- Aquiles, os navios vo arder todos! Se ests realmente decidido a no combater, ento deixa-me sair e conduzir as nossas tropas! Tu sabes que eles odeiam estar
aqui parados enquanto toda a Grcia morre!  o trono de Micenas que tu queres?  isso? Queres regressar a uma Grcia que, no dispondo de soldados, no estar em
condies de resistir s tuas tropas?
O meu rosto retesou-se de raiva perante tais suspeitas. No entanto, consegui responder-lhe normalmente.
- No nutro qualquer ambio nesse sentido, Ptrocles. O trono de Agammnon no me interessa rigorosamente nada.
- Ento deixa-me chefiar os nossos homens! Deixa-me lev-los para a praia, antes que Heitor incendeie todos os navios!
Aquiesci com um ar formal.
- Muito bem. Autorizo-te a comandar os homens. Compreendo o teu ponto de vista, Ptrocles. O comando  teu.
Mal acabei de dizer isto, dei-me conta de que o plano poderia ainda ser melhorado. Ergui por isso Ptrocles e disse-lhe: - Mas imponho uma condio. Envergars a
minha armadura, levando assim os Troianos a pensar que  Aquiles quem est a combater.
- Enverga-a tu e vem connosco!
- No, Ptrocles, eu no posso fazer isso - retorqui. Conduzi-o imediatamente  armaria e vesti-lhe a armadura de ouro que pertencera a Minos e que o meu pai me
dera. Era demasiado grande para ele, mas fiz tudo o que pude para que ela lhe assentasse bem, sobrepondo as chapas da frente e de trs da couraa, almofadando o
elmo. As grevas chegavam-lhe s coxas, o que no era mau; com efeito, desse modo, proteg-lo-iam mais do que as suas prprias grevas. Desde que no se abeirassem
demasiado dele, confundi-lo-iam com Aquiles. Consideraria Ulisses que a minha deciso equivalia a uma quebra do juramento? E Agammnon? Bom, tanto pior se fosse
essa a opinio deles. Eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance para proteger de todo o mal o meu maior amigo - e amante.
As trombetas soaram; os Mirmides e os outros soldados da Tesslia formaram ao fim de pouco tempo - era bvio que h muito que estavam prontos para se envolverem
na tremenda refrega. Acompanhei Ptrocles at  zona onde as tropas se reuniriam, enquanto Automedonte corria a atrelar os meus cavalos; embora o carro de pouco
servisse naquele campo de batalha to apinhado, era necessrio que toda a gente visse Aquiles. Toda a gente diria que aquele era Aquiles e no Ptrocles.
Mas... como era possvel? Os homens saudavam-me com gritos ensurdecedores, olhavam para mim com o mesmo amor que sempre me haviam dedicado. Como era isso possvel,
se at mesmo Ptrocles se virara contra mim? Protegi os olhos e mirei o sol: pouco faltava para que se despedisse. ptimo. O logro, assim, pouco tempo duraria. Ptrocles
no correria perigo.
Automedonte estava pronto. Ptrocles subiu ao carro.
- Meu querido primo - disse-lhe eu, a mo no seu brao -, limita-te a expulsar Heitor do acampamento. Faas o que fizeres, no te atrevas a persegui-lo na plancie!
Entendido?
- Perfeitamente - respondeu ele, dando aos ombros para me afastar.
Automedonte fez avanar o meu carro na direco da porta entre a nossa paliada e o resto do acampamento, enquanto eu subia ao telhado da caserna para ver como tudo
se passaria.
A batalha grassava agora diante da primeira fila de navios. Heitor parecia invencvel. Uma situao que se alterou num instante quando quinze mil novos soldados
avanaram sobre os Troianos, vindos do Escamandro, conduzidos por uma figura que envergava uma armadura de ouro e que vinha num carro revestido a ouro puxado por
trs cavalos brancos.
- Aquiles! Aquiles! Ouvi ambos os lados gritando o meu nome, uma sensao to estranha quanto desconfortvel. Mas foi o suficiente. No instante em que os soldados
troianos viram a figura que vinha no carro e ouviram o meu nome, converteram-se de vitoriosos em derrotados. Fugiram. Os Mirmides estavam sequiosos de sangue e
lanavam-se com toda a sua fria sobre os soldados que se deixavam ficar para trs, abatendo-os sem piedade, enquanto eu gritava o meu grito de guerra e incitava-os
a prosseguir.
O exrcito de Heitor escapava, tanto quanto podia, pela passagem do Simoente. Nunca mais!, jurei, nunca mais um p troiano pisaria o nosso acampamento! Nem mesmo
o mais astuto dos ardis fabricado pela mente de Ulisses conseguiria convencer-me do contrrio. Dei-me conta de que estava a chorar. Eu sabia por quem chorava - por
mim, por Ptrocles, por todos os soldados gregos que tinham morrido. Ulisses conseguira levar Heitor a abandonar as muralhas de

#Tria, mas o preo era medonho. A nica coisa que podia fazer era rezar para que Heitor tivesse perdido pelo menos tantos homens como ns.
Ah, terrfica viso! Ptrocles perseguia j os Troianos ao longo da plancie!
O meu corao quase se afundava no peito quando entendi qual era o seu objectivo! No interior do acampamento, o caos era tal que ningum poderia aproximar-se dele
o suficiente e constatar que Aquiles no era afinal Aquiles! Na plancie, porm... - oh, tudo era possvel! Heitor voltaria a reunir as suas foras e Eneias estava
presente. Eneias conhecia-me. Ele conhecia o meu rosto e no a minha armadura.
De sbito, pareceu-me prefervel ignorar tudo o que se passava. Deixei o telhado e fui sentar-me no banco  porta da minha casa, esperando que viesse algum. O Sol
estava prestes a pr-se, as hostilidades cessariam. Sim, o meu amigo nada sofreria! Sobreviveria. Tinha de sobreviver!
Ouvi passos: o filho mais novo de Nestor, Antloco. O pobre rapaz chorava e contorcia muito as mos - haveria sinal mais claro? Tentei falar com ele, mas senti a
lngua presa ao cu da boca; tive de lutar comigo mesmo para lhe fazer a to temida pergunta.
- Ptrocles? Ptrocles morreu? Antloco rompeu a soluar.
- Aquiles, o seu pobre corpo nu jaz na plancie e as hostes troianas querem lev-lo - Heitor vestiu a tua armadura e exibe-a nas nossas barbas! Os Mirmides esto
inconsolveis, mas no deixam que Heitor se aproxime do corpo, embora ele tivesse jurado que Ptrocles acabaria por servir de pasto aos ces esfomeados de Tria!
Ao levantar-me, os meus joelhos cederam; ca por terra num pice, contorcendo-me na poeira onde Ptrocles ajoelhara. Irreal, tudo irreal! E, no entanto, aquilo s
poderia ser real - e bem real. Eu j estava  espera que aquilo acontecesse. Por um momento, senti o poder da minha me dentro de mim e ouvi bem ntido o marulhar
do mar. Gritei o nome de Ttis, cheio de dio por ela.
Antloco puxou-me para si e deu-me o seu colo para que a minha cabea repousasse. As suas lgrimas quentes caam no meu brao, os seus dedos afagavam-me a nuca.
- Ele no conseguiu entender - murmurei. - Recusava-se a entender. Nunca me ocorreu isso... Como foi possvel que ele - precisamente ele - pensasse que eu abandonaria
a minha gente? Obrigaram-me a jurar que no revelaria o segredo a ningum. Ele morreu a pensar que eu era mais orgulhoso do que Zeus. Ele morreu cheio de desprezo
por mim. E agora... agora no lhe poderei explicar nada! Ulisses, Ulisses!
Antloco j no chorava.
Que tem Ulisses a ver com isto tudo, Aquiles? Lembrei-me nesse instante do juramento, abanei a cabea e levantei-me. Juntos, encaminhmo-nos para a porta da paliada.
- Pensaste que eu ia matar-me? - perguntei-lhe.
- S por um breve momento.
- Quem matou Ptrocles? Heitor?
- Heitor envergou a armadura de Ptrocles, mas h algumas dvidas quanto ao homem que realmente matou o teu amigo. Quando os Troianos se viraram para nos enfrentarem,
Ptrocles desceu do seu carro. E depois tropeou.
- Foi a armadura que o matou. Era demasiado grande para ele.
- Nunca o saberemos, Aquiles. Ptrocles foi atacado por trs homens. Foi Heitor quem lhe deu o ltimo golpe, mas  possvel que Ptrocles j estivesse morto. Mesmo
assim ainda conseguiu fazer algumas vtimas entre os aliados troianos. Matou Sarpdon. Quando apareceu para ajudar os Troianos, Eneias reconheceu Ptrocles. Os Troianos
ficaram furiosos com o embuste e reuniram de novo o seu exrcito. Ento, Ptrocles matou Quebrones, o condutor de Heitor.
Pouco depois, desceu do carro e tropeou. Antes que ele conseguisse levantar-se, atiraram-se a ele como chacais - Ptrocles no tinha nenhuma possibilidade de se
defender. Heitor despiu-lhe a armadura, mas os Mirmides impediram-no de levar o corpo. jax e Menelau continuam a combater para que o corpo de Ptrocles venha para
o nosso acampamento.
- Tenho de ir ajud-los!
- No podes, Aquiles! O Sol est a pr-se j. Quando chegares ao campo de batalha, j tudo estar terminado.
- Mas eu tenho de ajud-los!
- Deixa jx e Menelau tratarem de tudo. - Antloco ps a mo no meu brao e disse-me: - Tenho de te pedir perdo.
- Porqu?
- Porque duvidei de ti. Devia ter percebido que era Ulisses quem estava por detrs disto tudo.
Amaldioeei a minha lngua. O meu juramento tinha de ser cumprido: mesmo quando eu era afectado pelo sortilgio.
- No contes a ningum o que se passou, Antloco! Ouviste-me bem: a ningum!
- Sim, Aquiles - disse ele. Subimos ao telhado e os nossos olhares logo se concentraram na faixa da plancie onde se travava a batalha. Distingui facilmente jax
e verifiquei que era ele quem estava a comandar agora as minhas tropas - que no cediam nem um palmo de terreno -, enquanto Menelau e outro que me pareceu ser Merona
leva-

#vam um corpo nu sobre um escudo para longe da refrega. Era Ptrocles que eles traziam! Os ces de Tria no devorariam o meu amigo!
- Ptrocles! - gritei. - Ptrocles! Alguns dos homens ouviram, olharam para mim e apontaram. Gritei vezes sem conta o seu nome. Todo o exrcito ficou em silncio.
Ento, ao longo do campo, ouviu-se o longo e spero toque da trombeta da escurido. Heitor, com a minha armadura de ouro cintilando fulva sob os ltimos e tnues
raios do Sol, conduzia j o seu exrcito de regresso a Tria.
Deitaram Ptrocles num esquife improvisado, no meio do amplo espao das assembleias diante da casa de Agammnon. Menelau e Merona, cobertos de sangue e imundcie,
estavam to exaustos que mal se aguentavam de p. Depois, jax abeirou-se de ns, num passo trpego. Quando o elmo lhe caiu dos dedos agora despojados de vigor,
no encontrou em si a fora para se baixar e apanh-lo. Fui eu quem lhe apanhou o elmo e o deu a Antloco. Abracei o meu primo, uma forma de o ajudar a suportar
com honra a exausto e o desgosto, pois jax estava esgotado tanto de corpo como de esprito.
Os reis formaram um crculo para verem Ptrocles. As feridas dele haviam sido causadas pelos golpes mais vis: uma ferida debaixo do brao, onde havia uma abertura
na couraa, outra nas costas e outra na barriga, onde a lana mergulhara to profundamente que expusera as entranhas. Eu sabia que aquela ltima ferida fora causada
por Heitor, mas estava certo de que fora o segundo golpe que o matara.
Uma das mos pendia mole do esquife. Segurei-a entre as minhas e afundei-me no cho ao lado dele.
-  Vem, Aquiles, vem - disse-me Automedonte.
- No. O meu lugar  aqui. Cuida de jax por mim e diz s mulheres que venham lavar e vestir Ptrocles. O meu amigo permanecer aqui at eu matar Heitor. Oiam o
meu juramento! Os corpos de Heitor e de doze jovens nobres troianos ho-de jazer aos ps de Ptrocles! O seu sangue chegar para pagar ao Guardador do Rio, quando
Ptrocles lhe pedir para o levar para a outra margem!
Algum tempo depois, chegaram as mulheres para lavar Ptrocles. Lavaram-lhe o cabelo que o suor e a poeira emaranhara, fecharam as feridas com blsamos e fragrantes
unguentos, com uma esponja apagaram as marcas avermelhadas que as lgrimas haviam deixado  volta dos seus olhos cerrados. S por isso j me sentia infinitamente
grato: quando mo trouxeram, os seus olhos j estavam fechados.
Permaneci ao lado dele a noite toda, a sua mo nas minhas; a minha nica emoo consciente era o desespero de um homem cuja derradeira memria de um ente querido
era uma torrente de dio num rosto inflexvel. Duas sombras estavam agora sequiosas do meu sangue: Ifignia e Ptrocles.
Ulisses veio mal o Sol nasceu, trazendo duas taas de vinho com gua e uma bandeja de po de cevada.
- Bebe e come, Aquiles.
- No beberei, nem comerei, enquanto no tiver cumprido o juramento que fiz diante do corpo de Ptrocles.
- Ele agora j no sabe nem liga ao que tu possas ou no fazer. Se juraste matar Heitor, precisars de todas as tuas foras.
- As minhas foras no soobraro. - Olhei  meia volta, piscando os olhos, s ento me apercebendo de que no havia sinais de actividade em stio nenhum. - Que
se passa? Porque  que esto todos a dormir ainda?
- Heitor tambm teve um dia muito duro ontem. Um arauto veio h pouco de Tria, pedindo um dia de trguas para que possam chorar e enterrar os mortos.
A batalha s amanh recomear.
- Se recomear! - atirei-lhe. - Heitor voltou para dentro da cidade - nunca mais sair!
- Ests enganado - retorquiu Ulisses, os olhos cintilando. - Eu tenho razo, Aquiles. Heitor pensa que j nos subjugou e Pramo no acredita que tenciones voltar
ao campo de batalha. O ardil com Ptrocles resultou. Heitor e o seu exrcito continuam na plancie. No chegaram a entrar na cidade.
- Ento, amanh, poderei mat-lo.
- Amanh. - Fitou-me com um olhar cheio de curiosidade. - Agammnon convocou um conselho para o meio-dia. As tropas esto demasiado cansadas para se porem a discutir
como vai o teu relacionamento com Agammnon. Espero por isso que estejas presente. Virs?
Estreitei a mo fria.
- Sim, irei. Automedonte tomou o meu lugar junto de Ptrocles para que eu pudesse assistir ao conselho. Trazia ainda vestido o meu velho saiote de cabedal, todo
eu era terra, poeira, imundcie. Sentei-me ao lado de Nestor, olhando-o de relance com uma questo muda que o velho logo entendeu; Antloco estava presente. Tal
como Merona.
- Antloco adivinhou, por causa de qualquer coisa que tu lhe disseste ontem - segredou-me o velho. - Merona adivinhou porque ouviu as imprecaes de Idomeneu durante
a batalha. Decidimos que seria melhor confiarmos neles e prend-los ao mesmo juramento que ns fizemos.
- E jax? No adivinhou?
- No.
Agammnon estava seriamente preocupado.

#As nossas baixas foram catastrficas - comeou ele com um ar pesaroso. - Tanto quanto pude avaliar, contamos j com quinze mil mortos e feridos desde que a batalha
comeou.
Nestor abanou a sua cabea branca, a barba sedosa e brilhante balouando-lhe sobre as mos.
- Catastrfico  um adjectivo muito suave! Ah, se ao menos ns tivssemos Hracles, Teseu, Peleu e Tlamon, Tideu, Atreu e Cadmo! Os homens j no so o que eram.
Com ou sem mirmides, Hracles e Teseu teriam destroado todo o exrcito inimigo. - Limpou as lgrimas com os dedos repletos de anis. Pobre velho. Perdera dois
filhos no campo de batalha.
Por uma vez vi Ulisses irado. Levantou-se de um salto.
- Eu avisei-os! - exclamou ele com um ar feroz. - Avisei-os em termos muito claros de que teramos de suportar duros revezes, de que teramos de passar por um longo
tnel de trevas antes de vermos a primeira luz da vitria! Nestor, Agammnon, qual a razo dos vossos lamentos? Ns tivemos quinze mil mortos e feridos, Heitor teve
vinte e um mil! Deixem-se de devaneios, por favor! Nenhum desses lendrios heris poderia ter feito aquilo que jax fez - aquilo que todos os homens aqui presentes
fizeram! Sim, os troianos combateram bem! Estavam  espera de outra coisa? Mas  Heitor quem os mantm unidos. Se Heitor morrer, o nimo dos troianos perecer com
ele. E onde esto os reforos deles? Onde est Pentesileia? Onde est Meno? Heitor no tem tropas frescas para levar para o campo de batalha amanh, ao passo que
ns temos quase quinze mil tessalianos, entre os quais sete mil mirmides. Amanh, vamos derrotar os troianos. Poderemos no entrar dentro da cidade, mas deixaremos
o seu povo nas garras do mais profundo desespero. Heitor combater amanh e Aquiles ter a sua grande oportunidade. - Olhou para mim com um ar satisfeito. -Apostei
tudo o que tinha em ti, Aquiles. - No duvido! - exclamou Antloco, com uma ironia que era uma verdadeira farpa. - Talvez eu tenha percebido o teu plano porque no
te ouvi prop-lo. Soube dele em segunda mo, atravs do meu pai.
Ulisses ficou de sbito muito atento, as plpebras entrecerradas. -A pedra de toque do teu plano era a morte de Ptrocles. Porque insististe tanto na necessidade
de Aquiles permanecer longe de tudo, mesmo depois de os Mirmides terem sado para combater? Seria mesmo para que Pramo pensasse que Aquiles nunca se curvaria ao
apelo da guerra? Ou seria para insultar Heitor, levando-o a enfrentar um homem inferior a Aquiles, ou seja, Ptrocles? Logo que assumiu o comando, Ptrocles era
um homem morto. Heitor derrot-lo-ia - isso era mais do que certo. E Heitor derrotou-o. Ptrocles morreu. Tal e qual como tu congeminaste, Ulisses.
Levantei-me num Pice; era como se as palavras de Antloco tivessem aberto uma ferida imensa no meu cranio. As minhas mos procuraram Ulisses, desejosas de lhe partirem
o pescoo. Porm, nesse mesmo instante, caram sem foras. Afundei-me na minha cadeira. No fora Ulisses quem tivera a ideia de vestir Ptrocles com a minha armadura.
Essa ideia fora minha, s minha. E quem poderia saber o que teria acontecido se Ptrocles tivesse corrido para a batalha sem qualquer disfarce? No, eu no podia
acusar Ulisses - a culpa era s minha.
- Ests certo e errado ao mesmo tempo, Antloco - disse Ulisses, fazendo de conta que eu nem sequer me tinha mexido. - Como poderia eu saber que Ptrocles morreria?
O destino de um homem na batalha no est nas nossas mos. Est nas mos dos deuses. Porque tropeou Ptrocles? No ter sido um dos deuses que apoiam Tria quem
o fez tropear? Eu no passo de um homem mortal, Antloco. No posso prever o futuro.
Agammnon levantou-se.
- Gostaria de lembrar que todos ns jurmos que cumpriramos o plano de Ulisses. Aquiles sabia o que estava a fazer quando pronunciou o juramento. Tal como eu. Tal
como todos ns. Ningum nos obrigou a jurar, ningum nos enganou. Decidimos concordar com o plano de Ulisses porque no tnhamos uma alternativa melhor. Nenhum de
ns conseguiria to-pouco definir uma alternativa melhor. J se esqueceram da raiva que sentimos quando Heitor estava em segurana dentro das muralhas de Tria?
J se esqueceram de que  Pramo quem reina em Tria, e no Heitor? Todo este plano foi concebido a pensar em Pramo, mais do que em Heitor. Ns sabamos qual seria
o preo. E decidimos pag-lo. No h mais nada a dizer.
Agammnon fitou-me gravemente.
- Preparem-se para a batalha amanh ao alvorecer. Aquiles: eu vou convocar uma assembleia pblica e, diante dos nossos oficiais, devolver-te-ei Briseida. Jurarei
tambm que no tive com ela nenhum relacionamento carnal. Entendido?
O rei supremo parecia um velho, de to exausto que estava. A cabeleira que, dez anos antes, exibia apenas uns salpicos de branco, era agora percorrida por largas
faixas grisalhas; de ambos os lados da barba corriam veios brancos. Apoiado em Antloco, cansado e agitado, levantei-me e voltei para junto de Ptrocles.
Sentei-me na poeira junto ao esquife e peguei na mo dura e fria do meu amigo. A tarde passou como gua caindo, gota aps gota, no poo do tempo. A minha dor esbatia-se,
mas a minha culpa nunca se esbateria. A dor  natural; a culpa,  um golpe que infligimos a ns mesmos. O tempo cura a dor; mas s a morte pode curar a culpa. Estes,
e s estes, eram os meus tristes pensamentos naquela tarde.
O Sol punha-se j do outro lado do Helesponto, uma mancha suavemente lquida que tingia de rosa os cus. S nessa altura algum se atreveu a perturbar a

#minha imensa solido. Esse algum era Ulisses, o rosto obscurecido pelas sombras, os olhos muito fundos, as mos como que sem vida junto ao corpo. Com um suspiro
profundo, agachou-se na poeira ao meu lado, uniu as mos sobre os joelhos e assim ficou, apoiado nos calcanhares. Por um longo tempo no trocmos palavra; o cabelo
dele ganhava o tom das chamas sob os derradeiros raios do Sol, o seu perfil delineava-se, numa pureza de mbar, contra a penumbra que sobre a terra caa. Parecia
haver nele, pensei, qualquer coisa de divino.
- Que armadura vais envergar amanh, Aquiles?
- A de bronze revestida a ouro.
- Uma boa armadura, sem dvida, mas gostaria muito que usasses uma outra. - Fitou-me com um ar grave. - Diz-me, Aquiles: que sentimentos nutres por mim? Apeteceu-te
estrangular-me quando o rapaz falou, no foi? Mas depois... depois mudaste de ideias...
- Sinto por ti o mesmo que sempre senti, Ulisses. S uma gerao futura ser capaz de te julgar. Tu no pertences ao nosso tempo.
Baixou a cabea, ps-se a brincar com a poeira.
- Por minha causa, perdeste uma armadura preciosa. Heitor sentir-se- todo ufano quando a envergar, esperando, como espera, eclipsar-te a todos os nveis. Mas eu
tenho uma armadura de ouro que te assentar na perfeio. Pertenceu a Minos. Aceitas enverg-la?
Fitei-o com curiosidade.
- Como  que essa armadura chegou s tuas mos? Ulisses estava a traar rabiscos na poeira; por cima de um desenhou uma casa, por cima de outro um cavalo, por cima
de um terceiro um homem.
- Listas de mantimentos. Nestor usa smbolos nas suas listas de mantimentos. - Franziu o sobrolho e apagou os desenhos com a palma da mo. - No, os smbolos no
chegam. Precisamos de algo mais - precisamos de algo que seja capaz de transmitir ideias, de pensamentos sem forma, de asas no interior da mente... J ouviste por
certo as histrias que se contam a meu respeito... Que eu no sou filho de Laertes? Que sou fruto dos amores entre Ssifo e a minha me?
- Sim, j ouvi falar disso.
- Essas histrias so verdadeiras, Aquiles. E ainda bem que so! Fosse Laertes meu pai e a Grcia teria ficado mais pobre... S no reconheo publicamente a minha
paternidade porque, se o fizesse, os nobres de taca retirar-me-iam o trono num abrir e fechar de olhos. Mas estou a divagar. Queria apenas dizer-te que a armadura
em questo foi obtida por meios desonestos. Ssifo roubou-a a Deucalio de Creta e deu-a  minha me como prova do seu amor. Envergarias uma armadura que foi roubada?
Perfeitamente.
- Nesse caso, tr-la-ei ao alvorecer. S mais uma coisa.
- O qu?
- No digas a ningum que fui eu que ta dei. Diz a toda a gente que  uma prenda dos deuses - que a tua me pediu a Hefasto que a fizesse, durante a noite, nos
seus fogos eternos, a fim de que tu pudesses lev-la para o campo de batalha, como convm ao filho de uma deusa.
- Se  isso que desejas, no direi outra coisa.
Dormi um pouco, afundado no cho, encostado  base do esquife. Um sono inquieto, atormentado. Ulisses acordou-me pouco antes da primeira luz da manh e levou-me
para a sua casa. Sobre uma mesa, via-se uma massa enorme, tapada por um manto imenso de linho. Destapei a armadura sem qualquer entusiasmo, imaginando que seria
por certo uma boa armadura, embora sem nada de extraordinrio - de ouro, sem dvida, mas muito inferior quela que Heitor agora usava. O meu pai e eu sempre considerramos
essa armadura a melhor de todas as que Minos envergara.
Talvez fosse, mas a verdade  que a armadura que Ulisses me deu era, sem sombra de dvida, a melhor das duas. Bati com as juntas dos dedos naquele ouro imaculado
e ouvi um som surdo, pesado, completamente diferente do som que produziria uma armadura com vrias camadas de metal. Curioso, virei o escudo tremendamente pesado
e descobri que no era igual aos outros escudos, habitualmente muito espessos e providos de vrias camadas de metal. No, naquele escudo parecia haver apenas duas
camadas, uma chapa exterior'de ouro que cobria uma nica chapa de um metal cinzento-escuro que,  luz das lamparinas, no emitia qualquer brilho ou reflexo.
J tinha ouvido falar de um tal metal, mas s o vira na ponta da minha lana, a Velha Plion: os homens chamavam-lhe ferro temperado. Nunca sonhara que um tal metal
pudesse existir em quantidade suficiente para produzir uma armadura e um escudo com aquele tamanho. Todos os elementos tinham sido feitos com o mesmo metal; a camada
inferior era de ferro temperado, a camada superior, de ouro.
- Foi Ddalo quem fez esta armadura, j l vo trezentos anos - disse Ulisses. - Ddalo foi, em toda a histria da humanidade, o nico homem que soube temperar o
ferro, que o soube transformar no cadinho, misturando-lhe areia; o ferro absorve alguma dessa areia e torna-se ainda mais duro do que o bronze. Ddalo reuniu grandes
quantidades de ferro em bruto at dispor do suficiente para fazer a armadura; depois, com um martelo, aplicou o ouro sobre as chapas de ferro temperado. Quando uma
lana atinge a superfcie, o ouro pode ser alisado e polido, pois s o ferro  que sofre com o impacte.

#- E pertenceu a Minos?
- Sim, a esse mesmo Minos que, com o seu irmo Radamanto e o teu av aco, se encontra no Hades para julgar os mortos  medida que estes se vo reunindo nas margens
do Aqueronte.
- No sei como te agradecer, Ulisses. Quando a minha vida chegar ao fim e tiver de comparecer diante desses juzes, tira-me a armadura e d-a ao teu filho.
Ulisses desatou a rir-se.
- Telmaco? No, esta armadura no lhe serve... D-a antes ao teu filho.
- Vo querer enterrar-me com ela. Ters de ser tu a entreg-la a Neoptolemo. Quero ir para o tmulo vestido com uma simples tnica.
- Se  esse o teu desejo, ele ser cumprido. Automedonte ajudou-me a envergar o vesturio da guerra, enquanto as mulheres se espalhavam pelos cantos da casa murmurando
rezas e mgicas palavras destinadas a esconjurar o mal e a impregnar de poder a armadura. Para onde quer que fosse, o meu brilho era to intenso como o de Hlios.
Agammnon falou perante os oficiais reunidos em assembleia. Pareciam feitos de pedra todos aqueles rostos que o miravam. Depois, foi a minha vez de aceitar a imperial
humilhao: num instante, Nestor apareceu com Briseida. No vira ainda Criseida, mas no acreditava que tivesse sido enviada para Tria. Aps a assembleia, dispersmos
para o desjejum: assim desperdivamos um tempo precioso.
De cabea erguida, Briseida avanou a meu lado, silenciosamente. Parecia doente e cansada, mais abalada do que no dia em que comigo abandonara as runas de Lirnesso.
No interior da paliada mirmid, passmos por Ptrocles; o esquife fora levado para ali por causa da assembleia. Estremecendo de horror, Briseida recuou mal viu
o corpo do meu amigo.
- Vem - disse-lhe eu.
- Ele foi combater, apesar de tu no o quereres acompanhar?
- Sim. Heitor matou-o. Procurando nela um qualquer resto de doura, fitei-a. Briseida sorriu e era puro amor aquilo que o seu sorriso me dizia.
- Meu querido Aquiles, ests to cansado! Eu sei o que Ptrocles significava para ti, mas  tempo de secares as lgrimas.
- Morreu cheio de desprezo por mim. Renegou a nossa amizade.
- Ento  porque no te conhecia verdadeiramente.
- No, os motivos foram outros... Algo que no te posso explicar, Briseida.
- No precisas de explicar nada. Para mim, Aquiles, tudo o que fazes est certo.
Samos em passo de marcha pelas passagens do acampamento e formmos na plancie orvalhada ao alvorecer. Estava um tempo ameno e a brisa era como uma carcia de l
cardada. Os Troianos formaram diante de ns, filas de homens a perder de vista - teriam por certo diante dos seus olhos um espectculo idntico quele que ns vamos.
A excitao era como que um punho enfiado na minha garganta, as juntas dos meus dedos, quando por mero acaso olhei para elas, estavam brancas, tal era a fora com
que agarrava a haste gasta e escura da minha Velha Plion. Dera a Ptrocles a minha armadura, mas no a Velha Plion.
Heitor surgiu retumbante, vindo da sua ala direita, num carro puxado por trs garanhes pretos, vacilando um pouco devido aos movimentos do carro, envergando soberbamente
a minha armadura. Reparei que havia juntado plumas escarlates s plumas douradas do elmo. Parou diante de mim; fitmo-nos sfregos de sangue. O desafio era implcito.
Ulisses ganhara a sua aposta. Apenas um de ns deixaria vivo o campo de batalha. Tanto eu como Heitor estvamos conscientes disso.
Singular, o silncio que por um momento se abateu sobre o campo de batalha. Nenhum dos exrcitos emitia um nico som, nenhum cavalo resfolegava, nenhum escudo retinia,
enquanto aguardvamos que soassem os tambores e as trombetas. Achava aquela nova armadura muito pesada; precisava de tempo para me habituar a ela, para saber manobrar
com ela. Heitor teria de esperar.
Os tambores rufaram, as trombetas atroaram e iropos preparou a tesoura com que iria cortar os fios de muitas vidas. Mal eu gritei o meu grito de guerra, Automedonte
fez avanar rapidamente o meu carro, mas Heitor mudou de direco e internou-se nas suas prprias linhas. Bloqueado por uma massa efervescente de soldados de infantaria,
no tinha a menor possibilidade de o perseguir. A minha lana erguia-se e baixava-se, encharcada em sangue troiano. No sentia nada, a no ser o fascnio de matar.
Naquele momento, at mesmo o juramento que fizera diante de Ptrocles perdera toda a sua importncia.
Ouvi um grito de guerra conhecido e vi um outro carro procurando abrir caminho por entre a turba. Era Eneias, que investia friamente, armando-se de pacincia pois
era contra os Mirmides que estava a combater e os Mirmides sabiam esquivar-se aos seus golpes. Respondi-lhe com o meu grito de guerra. Ele ouviu-me, saudou-me
e correu imediatamente para o duelo. Aparei com o escudo a sua primeira lana; senti at  medula a vibrao do impacte, mas aquele mgico metal reduziria a nada
todas as lanas: a de Eneias caiu por terra, com a ponta desfeita. A velha Plion voou num belo arco por sobre as cabeas dos homens entre ns, imponente e precisa.
Eneias viu a ponta aproximando-se da sua garganta, ergueu de repente o escudo e baixou-se. A minha querida lana trespassou o couro e o metal imediatamente acima
da cabea de Eneias, derrubou o escudo e prendeu o dardaniano debaixo dele. Empunhando a espada, abri caminho por entre os meus homens, decidido a alcan-lo antes
que Eneias conseguisse libertar-se. Os Dardanianos recuaram perante a nossa carga e o sorriso de triunfo desenhava-se

#j no meu rosto quando me vi envolvido numa repentina vaga de homens, esse frustrante e irritante fenmeno que por vezes se verifica no campo de batalha, quando
a concentrao de soldados  extrema. Foi como se, de sbito, uma onda enorme se tivesse levantado num mar calmo, precipitando-se sobre a linha de uma ponta  outra;
homens chocavam uns contra os outros e caam por terra como se fossem simples tijolos encostados uns aos outros que tivessem sido empurrados por uma mo qualquer.
Quase que levantado no ar, levado, como se fosse o destroo de um naufrgio, por aquela onda viva de homens, gritei desesperado porque havia perdido Eneias. Quando
consegui libertar-me, j ele tinha desaparecido e eu encontrava-me a cem passos da frente. Ordenei aos Mirmides que formassem adequadamente e s depois voltei 
frente da batalha; quando l cheguei, encontrei a Velha Plion, prendendo ainda o escudo de Eneias ao cho. Arranquei a minha lana e atirei o escudo para um dos
no combatentes que cuidavam da minha bagagem.
Pouco depois, mandei Automedonte e o carro para a retaguarda, deixando a Velha Plion ao seu cuidado. Aquilo era trabalho para o machado. Ah, que magnfica arma
num campo de batalha apinhado! Os Mirmides mantinham-se ao meu lado. ramos imbatveis. Porm, por muito frentica que fosse a aco, nunca deixei de procurar Heitor
- que encontrei, pouco depois de ter morto um homem que usava as insgnias dos filhos de Pramo. No muito longe, profundamente abalado com o que sucedera ao irmo,
Heitor observava-me. Os nossos olhos encontraram-se; o campo de batalha parecia ter deixado de existir. Encontrei claros vestgios de satisfao na sua expresso
grave logo que nos fitmos pela primeira vez. Aproximmo-nos cada vez mais um do outro, abatendo os nossos inimigos com uma nica ideia em mente: travarmos um duelo,
abeirarmo-nos um do outro o suficiente para que pudssemos combater. Ento, no meio da turba apinhada, ergueu-se uma nova vaga de homens. Qualquer coisa, no sei
o qu, esmagou-me um dos flancos e quase perdi o equilbrio ao ser levado pela vaga para trs, cada vez mais para trs. Homens caam e eram pisados e esmagados,
mas no era por isso que eu chorava. Chorava porque perdera Heitor. Das lgrimas passei  fria e a um frenesim assassino.
Esse furor desvairado s acalmou quando,  minha frente, no havia mais do que uma mancheia de plumas cor de prpura, quando a erva pisada e dilacerada se tornou
visvel sob os seus ps. Os Troianos tinham desaparecido; os homens que eu abatia eram aqueles que tinham ficado para trs. A retirada revelava uma clara organizao;
os chefes troianos conduziam-na, de novo nos seus carros. Agammnon deixou-os partir, limitando-se, por ora, a ordenar s suas linhas que voltassem a formar. O meu
carro surgiu vindo de nenhures e eu saltei para dentro dele, juntando-me a Automedonte.
Procura Agammnon - disse eu, ofegante, deixando cair o escudo com um suspiro de alvio. Uma maravilhosa proteco, mas demasiado pesada.
Todos os chefes estavam presentes. Parei o carro entre Diomedes e Idomeneu. Sentindo o sabor da vitria, Agammnon voltara a ser o rei dos reis. Uma ligadura de
linho cobria-lhe uma ferida no antebrao, da qual caam lentas gotas de um tom carmim, mas Agammnon parecia nem dar por isso.
- Eles esto a retirar - dizia Ulisses. - Contudo, nada indica que tencionem refugiar-se dentro da cidade - pelo menos por ora. Heitor cr que ainda tem hipteses
de vencer. No precisamos de nos apressar. - Olhou de relance para Agammnon com o ar de quem acabara de ter uma ideia brilhante. - Agammnon: e se ns fizssemos
aquilo que fizemos durante nove anos? Ou seja: porque no dividimos em dois o nosso exrcito e tentamos abrir uma brecha irremedivel nas hostes deles? A um tero
de uma lgua daqui, na direco das muralhas da cidade, o Escamandro apresenta uma longa curva, uma espcie de lao. Heitor encaminha-se j para esse local. Se conseguirmos
lev-los a espalharem-se pelo pescoo da curva, poderemos usar o Segundo Exrcito para empurrar pelo menos metade dos Troianos para a barriga da curva, enquanto
o Primeiro Exrcito continuar a empurrar a outra metade na direco de Tria. No conseguiremos fazer grande coisa com aqueles que fugirem para Tria, mas poderemos
massacrar aqueles que ficarem encerrados nos braos do Escamandro.
Era um plano excelente e Agammnon apercebeu-se disso imediatamente.
- Concordo inteiramente, Ulisses. Aquiles e jax, levem as vossas unidades dos tempos do Segundo Exrcito e tratem da sade aos troianos que conseguirem prender
na curva do Escamandro.
- S o farei se me garantires que Heitor no conseguir fugir para a cidade retorqui eu, num tom ligeiramente insubordinado.
- De acordo - respondeu sem demora Agammnon.
Caram na armadilha como peixinhos do rio numa rede. Formmos diante dos troianos quando eles chegaram ao pescoo da curva do rio. Agammnon carregou imediatamente
com a sua infantaria, atacando as hostes centrais e dispersando-as rapidamente. As seces centrais do exrcito troiano no podiam retirar ordenadamente perante
a imensa massa de homens que Agammnon comandava.  esquerda, jax e eu aguentmos as nossas foras at que cerca de metade dos troianos fugitivos se deram conta
de que haviam fugido para um beco sem sada. Depois, bloquemos o nico stio por onde poderiam fugir. Juntei a minha infantaria e conduzi-a para a curva. jax fez
o mesmo, mas do lado direito. Os Troianos entraram em pnico. Desesperados, no paravam de rodopiar, recuando cada vez mais at que as suas hostes de retaguarda
se viram  beira do rio. O peso dos

#homens que continuavam a retirar diante das nossas tropas empurrou-os inexoravelmente para trs; como ovelhas  beira de um precipcio, os homens que estavam na
retaguarda comearam a cair nas poludas guas do rio.
O velho deus Escamandro fez metade do trabalho por ns; enquanto jax e eu arrancvamos deles estridentes splicas de piedade, o rio afogava-os s centenas. Do meu
carro, pude ver as guas correndo mais claras e mais fortes do que era usual; o Escamandro no podia estar mais cheio. Aqueles que perdiam o p na margem no tinham
qualquer esperana de recuperar o equilbrio e combater contra a corrente, pois a armadura e o panico impediam-nos de reagir como deveriam. Mas porqu aquela enxurrada?
Porque corria o Escamandro to cheio e to forte? No tinha chovido... Por um momento, espreitei o monte Ida; o cu sobre o Ida estava repleto de nuvens negras e
havia cortinas opacas de chuva caindo como cutelos sobre os contrafortes para l de Tria. Um dilvio to violento que at' parecia que os montes haviam desaparecido.
Dei a Velha Plion a Automedonte e desci do carro empunhando o machado. Quanto ao escudo, no podia lev-lo, pois era demasiado pesado. Teria de combater sem escudo
e no podia contar com Ptrocles para me acompanhar. Porm, antes de avanar para a refrega, lembrei-me de chamar um dos no combatentes que tratavam das minhas
bagagens; devia a Ptrocles os cadveres de doze jovens nobres troianos. No meio da derrocada troiana, no seria difcil encontr-los. Aquele desejo horrendo, irracional,
de derramar o sangue de outros homens, voltou a invadir-me, e no conseguia encontrar troianos que chegassem para saciar esse desejo. Quando cheguei  margem do
rio, no parei; ca sobre os poucos troianos aterrados que havia encurralado. O peso da armadura de ferro ancorou-me no meio da violenta corrente; continuei a desferir
os meus golpes mortferos, tingindo mais e mais de vermelho as guas do Escamandro.
Um troiano tentou travar comigo um duelo. Dizia chamar-se Asteropaio; pertencia pelo menos  alta nobreza de Tria, pois usava uma armadura de bronze dourada. Partiu
para o duelo numa posio vantajosa, pois encontrava-se na margem, ao passo que eu tinha gua at  cintura e s dispunha do meu machado para enfrentar as suas muitas
lanas. O seu erro foi pensar que a Aquiles faltava astcia. Quando se preparava para arremessar o seu primeiro mssil, peguei no meu machado pela ponta do cabo
e atirei-lho como se fosse um punhal. Asteropaio amedrontou-se tanto perante tal viso que falhou o alvo. O machado rodopiou, cintilando sob o sol intenso, e atingiu-o
em cheio no peito, cravando-se violentamente na sua carne. O nobre troiano no viveu mais do que um instante, logo caindo  gua como se fosse uma pedra.
Como queria recuperar o meu machado, avancei pelas guas na direco dele e virei-o para cima. Porm, a cabea do machado estava enfiada at ao cabo no peito do
homem, o metal fendido da couraa emaranhado  volta dela. To concentrado estava naquela tarefa que nem liguei ao rugido surdo que os meus ouvidos haviam captado,
to-pouco senti a gua erguendo-se bravia como um garanho ainda pouco habituado s rdeas. Num abrir e fechar de olhos, fiquei com gua pelas axilas e Asteropaio
balouava no rio, to leve como um bocado de cortia. Agarrei-lhe no brao e estreitei-o contra mim, usando o meu prprio corpo para o equilibrar, enquanto tentava
retirar o machado. O rugido, agora, mais parecia um ribombar assanhado; tinha de lutar contra a violncia da enxurrada se no queria perder o p. Por fim, consegui
arrancar o machado; imediatamente, enrolei a correia do cabo  volta do meu pulso, no fosse perd-lo para o rio. O deus Escamandro berrava bem alto a sua fria;
dir-se-ia que preferia que o seu prprio povo o destrusse com os seus esgotos a que eu o polusse com o sangue dos troianos.
Ento, inopinadamente, uma parede de gua abateu-se sobre mim como uma avalancha de neve. Nem mesmo jax ou Hracles teriam resistido a uma to violenta investida!
Ah, ali, ali! Um ramo de um olmo que se debruava sobre as guas! Saltei para o agarrar. Os meus dedos, de incio, encontraram apenas folhas, mas s pararam de lutar
quando sentiram a solidez da madeira; o ramo curvou-se sob o meu peso logo que as minhas pernas voltaram a sentir a violncia da torrente.
Por um instante, a parede de gua pairou sobre mim como se fosse um brao lquido erguido pelo deus, um brao que o deus baixou depois sobre a minha cabea com toda
a fria que residia no seu corao. Sorvi sfrego o ar antes de o mundo se converter numa imensa massa lquida, antes de eu ser empurrado e puxado num sem-nmero
de direces por uma fora muito superior  minha. O meu peito quase explodia, mas as minhas mos agarravam-se ainda com firmeza ao ramo do olmo; desesperado, pensei
no sol e no cu; dando-me conta da amarga ironia daquela situao - pois estava prestes a ser derrotado, no por um troiano, mas sim pelas guas de um rio - todo
o meu ser chorou de raiva. O luto por Ptrocles e a matana de troianos haviam consumido muitas das minhas foras, alm de que aquela armadura de ferro era um perigo
de morte.
Supliquei a ajuda da drade que vivia no olmo, mas as guas continuavam a cair implacveis sobre a minha cabea; ento, a drade do olmo, ou qualquer outra ninfa,
ouviu-me, e a minha cabea conseguiu emergir. Respirei sofregamente o ar da vida, sacudi a cabea para que as guas do Escamandro no me turvassem mais a vista e
olhei  minha volta desesperado. A margem que, momentos antes, estivera a escassos passos de mim, havia desaparecido. Agarrei-me melhor ao ramo do olmo, mas a drade
abandonou-me. O que restava da margem cedeu, deixando a descoberto as poderosas razes da velha rvore. O meu corpo e o ferro que o envolvia constituiam uma carga
demasiado pesada; a massa de folhas e de ra-

#mos toda se curvou sob esse peso e o olmo mergulhou nas guas; o clamor da enxurrada sufocaria por certo todos os gemidos de desespero da magnfica rvore.
Nem por isso larguei o ramo, perguntando-me se o Escamandro seria suficientemente forte para arrastar tudo aquilo na direco do mar. Porm, o olmo permaneceu direito,
com a copa erguida sobre as guas, uma represa que detinha todos os destroos que iam na direco do nosso acampamento e da paliada mirmid. Corpos empilhavam-se
contra a massa imensa da rvore como se fossem flores castanhas com gargantas carmesins, plumas cor de prpura engrinaldavam o verde dos ramos, mos flutuavam brancas
e repugnantemente inteis.
Larguei o ramo e tentei avanar para a margem do rio; tinha mais p agora, visto que as terras e a rvore haviam cedido, mas no o suficiente. Vezes sem conta, a
inexorvel enxurrrada arrancou os meus ps  precria superfcie constituda pelo fundo lodoso do rio; vezes sem conta, mergulhei na feroz torrente. Continuei, porm,
a lutar, aproximando-me cada vez mais da margem. Consegui mesmo agarrar-me a umas ervas, mas logo estas se separaram do solo encharcado. Uma vez mais cedi  violncia
das guas, enleado e desesperado. Com a terra da antiga margem do Escamandro escorrendo-me dos dedos, ergui os braos aos cus e roguei ao senhor de tudo:
- Pai, Pai, deixa-me viver o suficiente para matar Heitor! Ele ouviu-me. Ele respondeu-me. De sbito, a sua medonha cabea, que morava nas infinitas distncias dos
cus, baixou-se na direco da terra que os humanos habitavam; por um breve instante, o deus omnipotente amou-me o suficiente para me perdoar o pecado e o orgulho,
lembrando-se talvez de que eu era o neto do seu filho, aco. Senti a sua presena em todo o meu ser e julguei mesmo ter visto a sombra da sua mo monstruosa pairando
negra sobre o rio. O Escamandro suspirou submisso perante o poder que governa tanto os deuses como os homens. Um momento antes, estivera a um passo da morte; agora,
as guas do rio mais no eram do que gotas  volta dos meus tornozelos; com um salto, desviei-me do olmo, que se esbarrondava impotente na lama.
A margem oposta, mais alta, rura estrondosamente; o Escamandro dissipava a sua energia ao longo da estreita faixa lquida que trespassava a plancie, uma bno
preciosa que o sequioso solo bebia de um s gole.
Com um passo vacilante, abandonei finalmente o leito do rio e sentei-me exausto sobre a erva encharcada. No cu imenso, o carro de Febo estava j para l do seu
znite; tnhamos comeado a combater no incio da sua jornada, que chegara j a meio. Perguntando-me onde estaria o resto do exrcito, regressei  realidade, apercebendo-me,
envergonhado, de que a minha nsia de matar me levara a ignorar por completo os meus homens. Alguma vez aprenderia? No seria essa ansia de matar uma parte da loucura
que seguramente herdara da minha me?
Ouvi gritos. Os Mirmides marchavam na minha direco e, ao longe, jax voltava a formar as suas foras. Havia gregos por todo o lado, mas no se via um nico troiano.
Subi para o meu carro, sorrindo radiante para Automedonte.
- Leva-me a jax, meu velho amigo. jax estava de p diante dos seus homens, com uma lana numa mo macia, uma expresso sonhadora nos olhos. Desci do carro. Todo
o meu corpo escorria gua.
- Que te aconteceu? - perguntou-me.
- Estive a combater com o deus Escamandro.
- Bom, parece que venceste. O Escamandro acalmou.
- Quantos troianos sobreviveram  nossa emboscada?
- No muitos - disse ele, muito sereno. - Entre os dois, dizimmos  volta de quinze mil troianos. Outros tantos, talvez, conseguiram apanhar o exrcito de Heitor.
Fizeste um bom trabalho, Aquiles. H em ti uma sede de sangue que nem eu conseguiria igualar.
- Preferia o teu amor a essa sede.
-  tempo de nos reunirmos com Agammnon - disse ele, sem compreender as minhas palavras. - Eu hoje trouxe o meu carro.
Segui com ele no seu carro - bom, de facto, carroa seria uma palavra mais apropriada, visto que tinha quatro rodas - enquanto Teucro foi no meu carro com Automedonte.
- Algo me diz que Pramo ordenou que abrissem a Porta Ceia - disse eu, apontando para as muralhas.
jax duvidou. Porm, j bastante perto das muralhas, verificmos que era eu quem tinha razo. A Porta Ceia estava aberta e o exrcito de Heitor entrava na cidade
 frente de Agammnon, que pouco podia fazer perante a multido concentrada  volta da entrada.
- Que Hades os leve! Heitor refugiou-se no interior das muralhas! - rosnou jax.
-  Heitor pertence-me a mim, Ajax. Tu j tiveste a tua oportunidade.
- Eu sei, primo. Abrimos caminho por entre os homens de Agammnon. Como de costume, o rei supremo estava com Ulisses e Nestor. E furioso.
- Esto a fechar a porta - disse eu.
- Heitor apinhou-os to bem que no nos foi possvel obrig-los a virarem-se na direco contrria - tal como no tivemos qualquer possibilidade de tentar um assalto.
Dois destacamentos decidiram permanecer c fora. Diomedes est a combater contra eles at obter a sua submisso - disse Agammnon.
- E Heitor?

#- Julgo que entrou. Ningum o viu.
- Miservel! Ele sabia que eu o queria para mim! Outros comearam entretanto a aparecer: Idomeneu, Menelau, Menesteu, Macon. Juntos, vimos Diomedes pr termo 
resistncia daqueles que, voluntariamente, haviam permanecido no exterior - homens sensatos, pois renderam-se quando viram o fim prximo. Admirando a sua coragem
e disciplina, Diomedes decidiu no os matar, fazendo deles seus prisioneiros. S ento veio ter connosco, um jbilo extremo estampado no rosto.
- Quinze mil troianos morreram junto ao Escamandro - disse jax. -Ao passo que ns no perdemos mais de mil homens - disse Ulisses. Os soldados que descansavam atrs
de ns soltaram um imenso suspiro de alvio. Ao mesmo tempo, do alto da torre de vigia, veio um grito to desvairado que os nossos sorrisos logo se esbateram.
- Olhem! - apontou o dedo magro e trmulo de Nestor. Virmo-nos para ver. Heitor estava encostado aos painis de bronze da porta, o escudo descansando contra a porta,
duas lanas na sua mo. Envergava a minha armadura de ouro, com a pluma escarlate entre a plumagem cor de prpura do elmo, e, no brilhante boldri prpura que jax
lhe dera, tremeluziam as ametistas. Eu, que nunca me vira com aquele vesturio de guerra, conclu que a armadura de ouro assentaria magnificamente em qualquer homem
que a envergasse - desde que tivesse corpo para a vestir, o que era, manifestamente, o caso de Heitor. Mas no de Ptrocles. Quando ajudara o meu amigo a vesti-la,
deveria ter-me apercebido de que estava a conden-lo a uma cilada fatal.
Heitor pegou no escudo e avanou alguns passos.
- Aquiles! - chamou. - Fiquei c fora porque temos um duelo a travar! Olhei para jax, que aquiesceu. Peguei no meu escudo e na Velha Plion, dei o machado a Automedonte.
Combater com um machado contra um homem como Heitor seria um grave insulto.
O meu corao martelava na garganta, impelido por um jbilo e uma excitao imensos. Deixei para trs os reis e avancei na direco dele com um passo cadenciado,
como um homem caminhando para o sacrifcio; no ergui nenhuma lana, ele tambm no. Parmos a trs passos um do outro, cada um de ns decidido a descobrir que espcie
de homem era o outro, ns que nunca tnhamos estado mais perto um do outro do que a distncia que uma lana pode alcanar. Tnhamos de falar antes que o duelo comeasse
e abeirmo-nos tanto um do outro que quase podamos tocar-nos. Olhei para o inabalvel negrume dos seus olhos e logo me dei conta de que Heitor era feito da mesma
matria que eu. Com uma nica e importante diferena, Aquiles: o esprito de Heitor no tem qualquer mcula. Ele  o guerreiro perfeito.
Amava-o muito mais do que me amava a mim mesmo, do que amava Ptrocles ou Briseida ou o meu pai, pois Heitor era eu prprio noutro corpo; Heitor era o arauto da
morte, quer fosse ele a dar-me o golpe fatal, quer eu resistisse mais alguns dias at que outro troiano qualquer pussesse termo  minha vida. Um de ns tinha de
morrer naquele duelo, o outro morreria pouco tempo depois, pois assim fora decidido no momento em que os fios dos nossos destinos haviam sido entrelaados.
- Todos estes anos, Aquiles... - comeou ele e logo se calou, como se no conseguisse exprimir atravs das palavras aquilo que sentia.
- Heitor, filho de Pramo, daria tudo para que pudssemos ter sido amigos. No entanto, a guerra que entre ns se ergue no pode ser apagada.
- Antes a morte s mos de um inimigo do que o fim s mos de um amigo - disse ele. - Quantos pereceram junto ao Escamandro?
- Quinze mil. Tria cair.
- S depois da minha morte. Os meus olhos no vero esse desfecho.
- Nem os meus.
- Ns nascemos para a guerra, unicamente para a guerra. O desfecho da guerra no nos interessa - e agrada-me que assim seja.
- O teu filho tem idade para te vingar, Heitor?
- No, no tem.
- Nesse caso, disponho j de uma vantagem sobre ti. O meu filho vir a Tria para me vingar, enquanto que Ulisses far com que o teu filho no viva o suficiente
para chorar o facto de ser ainda uma criana pequena e no poder vingar o pai.
O seu rosto todo se franziu.
- Helena avisou-me que devia ter muito cuidado com ele. Ulisses  filho de um deus?
- No.  filho de um vilo. Creio que ele encarna o esprito da Grcia.
- Gostaria de poder avisar o meu pai da importncia de Ulisses.
- No vivers para o fazer.
- Pode ser que te vena, Aquiles...
- Se venceres, Agammnon dar ordens para que te abatam. Calou-se por um momento, perdido em reflexes.
- Algum chorar a tua morte? Mulheres? Um pai? -Algum chorar por mim depois de morto. E, nesse momento, o nosso amor queimava mais intensamente do que o nosso
dio; estendi a minha mo rapidamente, antes que as fontes desse ardor admirvel pudessem secar. Com a sua mo, Heitor envolveu tambm o meu pulso.
Porque ficaste para me defrontar? - perguntei, segurando-lhe o pulso.

#Os dedos dele apertaram com mais fora ainda; o sofrimento ensombrava-lhe o rosto.
- Como poderia eu refugiar-me na cidade, Aquiles? Como poderia eu encarar o meu pai, sabendo que milhares e milhares de troianos morreram devido  minha imprudncia
e estupidez? Deveria ter retirado para Tria no dia em que matei o teu amigo, aquele que envergou esta armadura. Polidamas avisou-me, mas eu ignorei as suas palavras.
Eu queria defrontar-te. Foi por isso - s por isso -que mantive o meu exrcito na plancie. - Recuou, libertando o meu brao, o seu rosto de novo o rosto de um inimigo.
-  muito bela essa tua armadura de ouro. Julgo que  de ouro macio.  demasiado pesada para ti, Aquiles. A minha  muito mais leve. Proponho-te, por isso, que
faamos uma corrida antes que as nossas espadas se encontrem.
Mal isto disse, Heitor desatou a correr, deixando-me plantado onde estava por um momento, antes de me lanar na sua perseguio. Uma ideia astuta mas errada, Heitor!
Porque haveria eu de tentar apanhar-te? Terias de virar-te e enfrentar-me no muito longe dali... A um quarto de lgua da Porta Ceia, na direco do nosso acampamento
- a direco que ele tomou -, erguiam-se as muralhas troianas; o exrcito grego no o deixou correr mais.
Depressa recuperei o flego; quem sabe, talvez o combate contra o velho Escamandro me tivesse dado um segundo flego. Heitor virou-se, eu parei.
- Aquiles! - gritou. - Se eu te matar, juro-te que devolverei aos teus homens o teu corpo imaculado! Jura que fars o mesmo comigo se for eu a morrer!
- No! Eu jurei que ofereceria o teu corpo a Ptrocles! Um estranho redemoinho de vento cercou-me de repente a cabea, a poeira do cho infiltrava-se nos meus olhos.
Heitor estava j a erguer o seu brao, a Velha Plion largava j a minha mo. Heitor arremessou com violncia a sua lana, que atingiu fragorosamente o centro do
meu escudo, ao passo que a Velha Plion caiu molemente aos meus ps. Heitor lanou o seu segundo mssil antes que eu conseguisse baixar-me para apanhar a Velha Plion.
O caprichoso vento voltou a varrer tudo  minha volta. No cheguei a apanhar a Velha Plion. Heitor empunhou a sua espada e carregou. Via-me perante um dilema muito
claro: ou ficava com o escudo e protegia-me de um adversrio brilhante, ou largava-o e combatia sem qualquer proteco. A armadura era suportvel, mas o escudo era
demasiado pesado. Por isso, larguei-o de imediato e enfrentei-o com a minha espada. Mesmo a meio de uma investida, Heitor era capaz de parar; e largou tambm o seu
escudo.
Quando as nossas espadas se encontraram, descobrimos o infinito prazer de um combate perfeito. Com a minha espada, detive a violncia fatal da sua lmina; os nossos
braos erguiam-se firmes e desferiam ferozes golpes e nenhum de ns cedia um palmo de terra que fosse; recumos no mesmo momento e girmos em crculo, cada um de
ns procurando uma abertura. As espadas assobiavam uma cano de morte enquanto esculpiam o ar. Olhei de relance para o seu brao esquerdo quando ele investiu, mas
o seu golpe rompeu o cabedal que me cobria a coxa e dilacerou a carne que havia por baixo. Sentindo os dois a mesma nsia de sangue, nenhum de ns parava para atentar
nas respectivas feridas; estvamos demasiado vidos de um desfecho sangrento. Golpe aps golpe, as espadas erguiam-se cintilantes, desciam violentas, deparavam-se-lhe
a lmina uma da outra, e voltavam de novo ao princpio.
Procurando uma abertura, tratei de me mover cautelosamente. Heitor era um pouco mais baixo e menos corpulento do que eu - portanto, teria de haver certamente uma
falha qualquer na minha armadura, um stio qualquer em que Heitor no estava adequadamente protegido. Mas onde? Cheguei-me quase ao seu peito, mas ele afastou-se
rapidamente - e, nesse momento, quando ergueu o brao, reparei que a couraa no chegava a roar a base do seu pescoo. Por outro lado, o elmo no descia o suficiente
para tapar essa pequena poro do seu corpo. Recuei, obrigando-o a seguir-me, manobrando para alcanar uma melhor posio. E foi nesse preciso momento que a irritante
fragilidade dos tendes do meu calcanhar direito me fez tropear, ainda que no chegasse a torcer o p. Apesar de todo o horror que senti, verifiquei ao mesmo tempo
que o meu corpo conseguira compensar a fragilidade do calcanhar, mantendo-se direito. No entanto, todo o esforo que tive de fazer para me manter de p deixou-me
 merc da espada de Heitor.
Imediatamente, o herdeiro de Tria deu-se conta de que aquela era a sua grande oportunidade. Num pice, correu para mim com a velocidade de uma serpente no momento
do derradeiro ataque, a lmina erguida bem alto para me desferir o golpe fatal, a boca aberta num desvairado grito de jbilo. Investi nesse mesmo momento. De algum
modo, o meu brao suportou o poder macio do seu brao quando a espada desceu sobre mim. A espada dele chocou com a minha com um clangor imenso e logo saltou para
o lado. Ento, a minha lmina, sem qualquer vacilao, ergueu-se para se enterrar no lado esquerdo do pescoo de Heitor, entre a couraa e o elmo.
Levando consigo a minha espada, Heitor caiu to rapidamente que no pude sequer ajud-lo a deitar-se no cho. As minhas mos largaram o punho da espada como se ele,
de repente, queimasse como fogo. Aos meus ps jazia Heitor: a ferida era fatal, mas restava-lhe ainda um nada de vida. Os enormes olhos escuros estavam fixos em
mim, dizendo-me que sabiam da morte, que aceitavam o fim. A lmina dilacerara por certo todos os vasos sanguneos que encontrara e cravara-se no osso; porm, como
permanecia enterrada na carne, Heitor no exalara ainda o

#ltimo suspiro. O herdeiro de Tria moveu as mos lentamente, convulsivamente, at que elas se enclavinharam na aguada lmina. Aterrorizado com a possibilidade
de ele arrancar a espada antes de eu estar pronto - alguma vez estaria pronto? -, ajoelhei a seu lado. Heitor no se movia agora e a sua respirao era cada vez
mais pesada e difcil e as juntas das suas mos estavam brancas, to extrema era a fora com que agarravam a espada, e, pelos dedos lacerados, o sangue escorria
abundantemente.
- Combateste bem - disse eu. Os seus lbios moveram-se; virou a cabea um pouco para tentar falar comigo e o sangue jorrou violento. Com as minhas mos cobertas
de sangue, amparei-lhe a cabea. O elmo rolou e a sua trana preta caiu sobre a poeira, a ponta j desenredada.
- O meu maior prazer teria sido combater a teu lado e no coNtra ti - disse-lhe eu; faria tudo o que estivesse ao meu alcance para satisfazer os teus ltimos desejos.
Sim, faria tudo. Ou quase tudo.
Os olhos dele brilhavam e sabiam. Um fino rio de sangue escorria-lhe do canto da boca; o tempo dele estava a escoar-se rapidamente e eu no conseguia suportar a
ideia de que ele ia morrer.
- Aquiles? Quase no consegui ouvir o meu nome. Baixei-me, encostei o ouvido aos seus lbios.
- Diz.
- D o meu corpo... ao meu pai... Quase tudo, mas no isso.
- No posso, Heitor. Jurei que daria o teu corpo a PtrocLes.
- D o meu corpo... ao meu pai... se o deres a Ptrocles... o teu corpo... ser devorado... pelos ces de Tria.
- O que tem de ser, ser. Eu jurei, Heitor.
- Ento... acabou-se... tudo... Heitor contorceu-se com uma fora que s os deuses lhe poderiam ter dado e as suas mos cravaram-se ainda mais na lmina; num derradeiro
esforo, arrancou a espada. Os olhos dele perderam num pice todo o brilho, a garganta rompeu num estertor, uma espuma rsea fervilhava  volta das suas narinas.
Nesse instante morreu.
Com a cabea dele ainda entre as minhas mos, ali fiquei ajoelhado e imvel. O mundo inteiro caiu de sbito no mais profundo dos silncios. As fortificaes de Tria
pareciam to mortas como Heitor. Do exrcito de Agammnon, nas minhas costas, tambm no vinha um nico murmrio. Quo belo era Heitor, o meu gmeo troiano, a minha
outra metade! E quo terrvel, quo lancinante, era a minha dor!
-Porque o amas, Aquiles, se foi ele qUem me matou? Levantei-me de um salto, o corao martelando desvairado. A voz de Ptrocles falara dentro de mim! Heitor estava
morto, eu jurara mat-lo, e agora - agora, em vez de me sentir exultante, eu chorava! Chorava! Enquanto Ptrocles continuava  espera de que eu lhe pagasse a travessia
do Rio!
Os meus movimentos mataram o silncio. Na torre de vigia, ouviu-se um medonho uivo de desespero. Era Pramo, amaldioando a morte do filho que mais amava. Outros
imitaram-no; o ar encheu-se das lamentaes histricas das mulheres, dos gritos que os homens imaginavam chegar aos ouvidos dos deuses, das punhadas que homens e
mulheres davam no peito, produzindo um som que se assemelhava ao dos tambores fnebres; e, atrs de mim, o exrcito de Agammnon erguia-se num alarido incessante,
aclamando Aquiles.
Como um selvagem, desatei a despir Heitor, sufocando a odiosa tristeza que impregnava o meu corao, arrancando de mim o instinto que me levava a chorar a morte
de um inimigo, enquanto amaldioava todos os elementos da armadura que ia desmembrando. Quando terminei, os reis aproximaram-se e formaram um crculo  volta do
corpo nu de Heitor. Agammnon fitava o rosto morto com um sorriso de escrnio. Ergueu a sua lana e enterrou-a no fLanco de Heitor; todos os outros o imitaram, cravando
no indefeso guerreiro os golpes que, fosse ele vivo, nunca lhe teriam desferido.
Enojado, virei-lhes as costas - talvez assim pudesse esfriar um pouco a minha raiva e secar as lgrimas. Quando me voltei, descobri que s jax se coibira de ultrajar
o corpo de Heitor. Como podiam os homens chamar-lhe brutamontes se, entre todos os presentes, s ele compreendera? Brutalmente, afastei Agammnon e os outros todos.
- Heitor pertence-me. Peguem nas vossas armas e vo-se embora! De sbito envergonhados, afastaram-se. Mais pareciam uma matilha de ces furtivos, desejosos de devorarem
a refeio roubada, mas impedidos de o fazerem porque eu os enxotara.
Retirei o boldri prpura da sua fivela na couraa e peguei no meu punhal. Depois, rasguei as correias das botas e prendi os tornozelos de Heitor com o cabedal tingido
e incrustado de jias do boldri, enquanto Jax, impassvel, assistia  destruio da sua prenda. Automedonte surgiu com o meu carro; prendi o boldri  traseira
do carro.
- Desce - disse eu a Automedonte. - Eu prprio conduzirei o carro.
Os meus trs cavalos brancos sentiam o cheiro da morte e no queriam avanar; porm, logo que enrolei as rdeas  volta da cintura, os animais acalmaram. Vezes sem
conta passei sob a torre de vigia. As muralhas de Tria gritavam de dor.
O exrcito de Agammnon gritava de jbilo.

#A trana de Heitor desfez-se na terra encharcada at se transformar num informe emaranhado cinzento; os braos deslizavam moles pelo cho, abertos para trs. Por
doze vezes vergastei os cavalos entre a torre de vigia e a Porta Ceia, exibindo a esperana morta de Tria sob as suas prprias muralhas, proclamando a inevitabilidade
da nossa vitria. Depois, s parei na praia.
Ptrocles jazia amortalhado no seu esquife. Dei trs voltas  praa e s ento desci do carro e cortei com o punhal as amarras do boldri. Pegar na forma flcida
de Heitor era fcil; no entanto, e no sei porqu, arremess-la para o cho, deix-La como um resto amorfo aos ps do esquife, revelou-se a mais difcil das tarefas.
Apesar disso, consegui execut-la. Briseida afastou-se espavorida. SenteI-me no banco que ela deixara, a cabea entre os joelhos, e de novo rompi num choro incontrolvel.
- Aquiles, vem para casa - pediu ela. Decidido a dizer-lhe que no, ergui a cabea. Tambm ela sofrera; no podia permitir que sofresse mais. Levantei-me, lavado
ainda em lgrimas, e com ela segui para a minha casa. Sentou-me numa cadeira e deu-me um leno para limpar a cara, uma bacia para lavar o sangue que me tingia as
mos, vinho para que eu me recompusesse. No sei como, conseguiu tirar-me a armadura de ferro e ouro, aps o que me tratou da ferida que eu tinha na coxa.
Depois, tentou despir-me a proteco almofadada, mas eu impedi-a.
- Deixa-me em paz - disse-lhe.
- Tens de tomar banho, Aquiles. Deixa-me lavar-te.
- No posso lavar-me enquanto Ptrocles no tiver sido enterrado.
- Ptrocles converteu-se no teu esprito mau - disse ela serenamente - e isso  escarnecer do que ele foi em vida.
Com um irado olhar de censura, abandonei imediatamente a minha casa. Encaminhei-me, no para a praa onde Ptrocles jazia, mas para os seixos da praia e a ca como
se fosse apenas mais um seixo.
o meu sono foi um transe de uma paz absoluta at ao momento em que, no informe abismo em que eu morava, uma alvura imensa, como que de filamentos feita, veio ter
comigo, cintilando de uma luz sobrenatural, as trevas do abismo pairando por entre os dbeis filamentos. Essa imensido de branco, vinda das mais extremas lonjuras,
aproximava-se cada vez mais do centro da minha mente, ganhando forma e opacidade  medida que ia entrando dentro de mim, at que, ao penetrar o ceRNe do meu esprito,
assumiu a sua derradeira forma. Os inflexveis olhos azuis de PtroCles fixavam a minha nudez. A sua terna boca ganhara a dureza do metal, a dureza que eu encontrara
na nossa despedida, e a sua cabeleira loura estava raiada de vermelho.
Aquiles, Aquiles - sussurrou ele numa voz que era a voz dele e que, ao mesmo tempo, era uma outra voz, lgubre e gelada -, como podes tu dormir se eu no fui ainda
inumado, se eu no pude ainda atravessar o Rio? Liberta-me, Aquiles! Liberta-me do meu barro! Como podes tu dormir se eu no fui ainda inumado?
Estendi-lhe os meus braos, rogando-lhe que me compreendesse, tentando explicar-lhe por que razo o deixara substituir-me  frente dos meus homens, balbuciando explicaes
umas atrs das outras. Abracei-o e os meus dedos abraaram o vazio; a forma que era Ptrocles esbateu-se e escoou-se na escurido at que o ltimo som da sua estranha
voz se dissipou, at que o derradeiro fio da sua luminescncia se apagou. Nada! Nada! Gritei. E acordei ainda a gritar, debatendo-me com violncia, agarrado e acalmado
por uma dzia dos meus soldados. Afastando-os impacientemente, avancei trpego por entre os navios, a luz cinzenta do alvorecer guiando os meus passos. Os homens
que o meu grito acordara perguntavam uns aos outros que rudo horrvel fora aquele.
o vento da noite desnudara Ptrocles, atirando para a poeira da praa o manto que o cobria; os mirmides que formavam a sua guarda de honra no se tinham atrevido
a aproximar-se para tapar o meu amigo. Por isso, mal entrei cambaleante na praa, foi Ptrocles quem eu vi. Dormindo. Sonhando. To em paz, a encarnao da bondade.
Um ssia de Ptrocles. Eu tinha acabado de ver o verdadeiro PtroCles e os seus lbios tinham-me dito que ele nunca me perdoaria. Aquele corao que a mim se entregara
to generosamente desde os dias da nossa adolescncia partilhada estava agora to frio e to duro como mrmore. Nesse caso...
nesse caso, por que razo era o rosto do ssia to terno, to radioso de bondade? Poderia um tal rosto pertencer  sombra que me atormentara durante o sono? Seria
possvel que os homens mudassem tanto depois de mortos?
o meu p tocou em gelo; rompi nuM estremecimento incontrolvel ao ver o cadver de Heitor no stio onde o deixara na noite anterior, as pernas torcidas como se estivessem
partidas, a boca e os olhos escancarados, a carne branca sem vida exibindo os cortes rseos de uma dzia de feridas, a ferida do pescoo to aberta como as guelras
de um peixe.
Virei costas aos meus mortos ao dar-me conta de que os mirmides se encaminhavam na minha direco, acordados pelos gritos tresloucados do seu chefe.
Eram conduzidos por Automedonte.
- Aquiles, chegou a hora de enterrar Ptrocles.
- H muito que o devamos ter feito. Numa jangada conduzimos Ptrocles  outra margem do Escamandro; depois, envergando o nosso vesturio de guerra, levmo-lo sobre
o seu escudo. Eu

#ia  frente, segurando a sua cabea na palma da minha mo direita. Todo o exrcito se espalhara pelos penhascos e pela praia num raio de duas lguas, para ver os
mirmides conduzindo Ptrocles ao seu tmulo.
Penetrmos na gruta e deitmo-lo suavemente no carro funerrio de marfim. Ptrocles envergaria no tmulo a armadura que vestira no momento da sua morte; o seu corpo
estava coberto de cachos dos nossos cabelos; as suas lanas e todos os seus bens pessoais foram colocados em trpodes de ouro ao longo das paredes pintadas. Olhei
de relance para o teCto, perguntando-me quanto tempo faltaria para que tambm eu fizesse daquele tmulo a minha morada. No muito, diziam os orculos.
o sacerdote colocou a mscara de ouro sobre o seu rosto e atou os fios sob a cabea, colocou as mos enluvadas de ouro sobre as suas coxas, os dedos entrelaados
sobre a espada. Cnticos foram entoados, libaes derramadas para o cho do tmulo. Ento, um a um, os doze jovens troianos foram erguidos sobre uma enorme taa
de ouro assente num trpode, aos ps do carro funerrio, e as suas gargantas cortadas. Selmos a entrada do tmulo e regressmos ao acampamento,  praa das assembleias
defronte da casa de Agammnon, onde se realizavam os jogos fnebres. Fui buscar as minhas presas e suportei a agonia de ter de as exibir perante os vencedores. Por
fim, enquanto os outros festejavam, voltei sozinho para a minha casa.
Heitor jazia agora na poeira  sada da minha casa, para onde fora levado depois de termos retirado Ptrocles do seu esquife; a memria daquela apario no meu sonho
quase me levara a sepult-lo com Ptrocles, como um co rafeiro aos ps de um heri; no entanto, no derradeiro instante, no conseguira faz-lo. quebrara o juramento
que fizera ao meu mais velho e querido amigo - ao meu amante! - e ficara eu com Heitor. Ptrocles j tinha a travessia paga: doze jovens nobres troianos. Um preo
suficientemente alto.Bati as palmas; as criadas vieram a correr. -Aqueam gua, tragam os leos sagrados, mandem chamar o embalsamador. Quero o prncipe Heitor preparado
para ser sepultado.
Levei o corpo para um pequeno armazm junto  minha casa e deitei-o numa laje alta o bastante para que as mulheres pudessem cuidar dele. Mas fui eu quem lhe endireitou
os membros, fui eu quem lhe fechou os olhos. Os olhos voltaram a abrir-se, muito lentamente, cegos. Um horrendo espectculo se seguiu, o trabalho do embalsamador.
o esvaziamento do cadver, a pele cobrindo nada. Enquanto a tudo assistia, pensava no momento em que aquele homem faria o mesmo do meu corpo.
Briseida estava sentada  minha espera, curvada numa cadeira. Olhou de relance para mim, mas, por um momento, nada disse. Depois, com uma voz neutral, atreveu-se:
- Tenho a gua pronta para o teu banho e h comida e vinho. Tenho de acender as lamparinas, a noite vem a.
Ah, se ao menos a gua tivesse o poder de lavar as manchas que corroem o esprito de um homem! o meu corpo estava de novo limpo - mas no o meu esprito.
Briseida sentou-se no div defronte do meu enquanto eu me convencia a comer qualquer coisa, a saciar a minha sede. Sentia-me como se, durante anos, tivesse andado
a correr como um louco.
Ento, ela usou essa mesma palavra: louco. Disse-me:
- Aquiles, porque te comportas como um louco? o mundo no vai acabar s porque Ptrocles morreu. H pessoas que esto vivas e que te amam tanto como ele te amava.
Automedonte. Os mirmides. Eu.
- Vai-te embora - disse-lhe eu, farto.
- Irei quando acabar. Aquiles: para curares as tuas feridas, s h um remdio. Deixa de servir a Ptrocles e devolve Heitor ao seu pai. No tenho cimes, nunca tive.
o facto de tu e Ptrocles terem sido amantes no me afectou, tal como no afectou o meu lugar na tua vida. Mas Ptrocles tinha cimes e os cimes deixaram-no cego.
Crs que ele pensava que tu tinhas trado os teus ideais. Porm, para Ptrocles, a verdadeira traio foi o facto de me teres amado. Foi a que tudo comeou. Depois
disso, aos olhos de Ptrocles, tudo o que fizesses estaria errado. No estou a conden-lo - estou apenas a dizer a verdade. Ele amava-te e sentiu que, amando-me,
tu traras o seu amor. E se tinhas trado o seu amor, ento nunca poderias ser a pessoa que ele pensava que eras. Era preciso que ele encontrasse em ti defeitos.
PtrocLes precisava de encontrar razes para a devastao que produziras nele.
- No sabes do que ests a falar - disse-lhe eu.
- Sei, sim, Aquiles. Mas no era de Ptrocles que eu queria falar. Queria falar-te de Heitor. Como podes fazer isto a um homem que te defrontou com tanta coragem
e que morreu com tanta honra? Devolve-o ao pai, Aquiles! No  o verdadeiro Ptrocles que te persegue, mas sim o Ptrocles que tu construste para instilares em
ti mesmo a peonha da loucura! Esquece PtrocLes! No fim de tudo, ele revelou que, afinal, no era teu amigo.
Esbofeteei-a com tal violncia que BrisEida caiu no cho. Horrorizado, levantei-a, deitei-a e verifiquei, aliviado, que no perdera a conscincia. Avancei trpego
para uma cadeira, afundei-me nela, pus a cabea entre as mos. Nem Briseida escapava quela loucura - e era loucura! Como cur-la? Como expulsar de mim a minha me?

#De repente, senti qualquer coisa envolvendo-me as pernas, puxando debilmente pela bainha do meu saiote. Tomado de terror, ergui a cabea para ver que nova apario
decidira acossar-me. Confuso, fitei a cabea branca e os traos abatidos, deformados, de um homem muito velho. Era Pramo! No poderia ser outro seno Pramo! Pramo
ali! Quando ergui os cotovelos dos meus joelhos, ele agarrou-se s minhas mos e desatou a beij-las, as lgrimas caindo sobre a mesma pele que o sangue de Heitor
tingira de vermelho.
- Devolve-me o meu filho! Devolve-me o meu filho! No deixes que os ces o devorem! No o deixes sozinho e profanado! No lhe negues o luto que lhe  devido! Devolve-me
o meu filho!
Olhei para Briseida, que se soerguera no div, os olhos enevoados de lgrimas.
- Vem, Pramo, senta-te - disse eu, erguendo-o e sentando-o na minha cadeira. - No  prprio de um rei, suplicar de joelhos. Senta-te.
Automedonte apareceu  porta.
- Como  que ele chegou aqui? - perguntei-lhe, abeirando-me dele.
- Numa carroa puxada por uma mula e conduzida por um rapaz idiota, uma pobre criatura que s diz disparates. O exrcito est ainda a festejar, o guarda que estava
na passagem era um mirmido. O velho disse que queria falar contigo. A carroa estava vazia e nenhum deles estava armado, de modo que o guarda deixou-os entrar.
- Vai buscar lenha para o fogo, Automedonte. No digas a ningum que o velho est aqui. Avisa o guarda e agradece-lhe por mim.
Enquanto esperava pelo fogo - estava muito frio - sentei-me ao p de Pramo e peguei nas suas mos deformadas. Estavam geladas.
- Precisaste de muita coragem para vires ao nosso acampamento.
- No, nenhuma - respondeu ele. Os olhos escuros, remelosos, fitaram os meus. - Outrora - disse-me ele -, governei um reino feliz e prspero. At que cometi um erro.
O erro estava dentro de mim. Dentro de mim... Os Gregos foram enviados pelos deuses para me punirem. O meu orgulho tinha de ser castigado. A minha cegueira tinha
de ser castigada. - O lbio tremia-lhe, a humidade que lhe cobria os olhos dava-lhes um brlho novo. - No, no precisei de coragem nenhuma para vir at aqui. Heitor
foi o preo mais elevado que tive de pagar.
- O preo mais elevado - disse eu, incapaz de o no dizer - ser a queda de Tria.
- A queda da minha dinastia, talvez, mas no a queda da cidade. Tria  maior do que a minha dinastia, mesmo agora.
- Tria, a cidade, cair.
- Bom, Aquiles, quanto a isso divergimos. Mas espero que no haja entre ns divergncias quanto s razes da minha vinda. Prncipe Aquiles, d-me o corpo do meu
filho. Pagar-te-ei tudo o que pedires.
No quero que me pagues nada, rei Pramo. Podes lev-lo - disse-lhe eu.
Pramo caiu de joelhos pela segunda vez e de novo me beijou as mos; a minha carne toda se arrepiava. Acenando para Briseida, libertei-me das mos de Pramo.
- Senta-te e come comigo enquanto preparam Heitor. Briseida, cuida do nosso visitante.
Sa para falar com Automedonte.
- O boldri de jax - disse-lhe eu - pertencia a Heitor, ao contrrio da armadura. Vai busc-lo, Automedonte, e leva-o para a carroa.
Quando regressei, encontrei Pramo recuperado, conversando todo contente com Briseida; ocorrera nele uma daquelas estranhas mudanas de disposio que so caractersticas
dos muito velhos. Ouvi-o perguntar a Briseida se gostava da vida que levava comigo, ela que nascera na Casa de Drdano.
- Estou satisfeita, rei Pramo - disse ela. - Aquiles  um bom homem, no h nele nada de ignbil. - Curvou-se um pouco, perguntou num murmrio: Rei Pramo, porque
 que ele pensa que vai morrer em breve?
- Os destinos de Aquiles e Heitor esto ligados - retorquiu o velho rei.
Foram os orculos que o disseram.
Quando me viram, mudaram de assunto, como seria de esperar. Jantmos depois e descobri que estava esfomeado, mas obriguei-me a comer to devagar como Pramo e a
no beber demasiado vinho.
Depois do jantar, conduzi-o  sua carroa. Jazia j nela o corpo de Heitor, coberto por um manto. Pramo no quis ver o corpo do filho. Subiu para a carroa, para
junto do pobre idiota, e logo se afastou a caminho da passagem do nosso acampamento. Ia to direito e orgulhoso como se estivesse a conduzir um carro de ouro macio.
Briseida estava  minha espera com a cabeleira desprendida, uma tnica folgada caindo-lhe at aos ps. Fui direito  nossa cama enquanto ela apagava as lamparinas.
- Ests to cansado que nem te despes? Tirou-me o colar e o cinto, despiu-me o saiote, deixando-os no cho. Exausto, deitei-me de costas e ergui os braos e deixei-os
repousar sobre a minha cabea. Briseida subiu para a cama, sentou-se ao meu lado, debruou-se sobre mim e pos-se a brincar, enfiando os punhos nas minhas axilas.
Sorri para ela, de sbito to feliz e despreocupado como uma criana pequena.
- Nem fora tenho para te afagar o cabelo - disse-lhe eu.
- Ento deixa-te estar quieto e dorme. Eu estou aqui.
- Estou demasiado cansado para dormir.
- Ento descansa. Eu estou aqui.

#- Briseida, promete-me que no me deixars nunca. Nem mesmo quando o meu fim chegar.
- Quando o teu fim chegar? A sua expresso risonha logo se dissipou; estava debruada sobre mim, mas eu quase no lhe via os olhos, pois, em todo o quarto, a nica
lamparina acesa estava bem longe de ns. Com um imenso esforo, ergui os braos e amparei a sua frgil cabea com as minhas mos, tal e qual como fizera com Heitor
no momento da sua morte.
- Ouvi o que perguntaste a Pramo e ouvi a resposta dele. Sabes muito bem o que quero dizer, Briseida.
- Recuso-me a acreditar! - exclamou ela.
- H certas coisas a que um homem  condenado no prprio dia em que nasce e essas coisas so-lhe anunciadas. O meu pai a nada me condenou, mas o mesmo no posso
dizer de minha me. A minha presena em Tria significaria necessariamente a minha morte. E, agora que Heitor morreu, Tria cair. A minha morte  o preo que 
preciso pagar pela queda de Tria.
- Aquiles, no me deixes nunca!
- Daria tudo para no te deixar nunca, mas  impossvel... Por um longo tempo Briseida ficou quieta e calada, os olhos fixos na minscula chama que crepitava na
concha da lamparina, a respirao rtmica e vagarosa. Por fim, disse-me:
- Ordenaste que Heitor fosse preparado para o enterro antes de vires ter comigo esta noite.
-  verdade.
- Porque no mo disseste? Se me tivesses informado da tua deciso, eu nunca teria dito aquilo que disse.
- Talvez as tuas palavras fossem necessrias, Briseida. Eu bati-te. Um homem no deve nunca bater numa mulher ou numa criana, ou em qualquer criatura mais fraca
do que ele. Quando os homens baniram a Velha Religio, os deuses deram-lhes o poder na terra. Contudo, os homens teriam de cumprir certas clusulas: essa era uma
delas.
Ela sorriu. -Tu no bateste em mim, mas sim no teu demnio, e, ao bater-lhe, extirpaste-o de ti. O resto da tua vida pertence-te a ti, no a Ptrocles, e isso 
motivo de sobra para que eu me sinta muito, muito alegre.A exausto que sentia desapareceu num pice; ergui-me sobre um cotovelo para olhar para ela. A minscula
lamparina teria sido amvel para qualquer mulher; porm, como Briseida no tinha nenhuma imperfeio, a escassa luz dava-lhe a aura de uma deusa, brunia a sua pele
plida de um ouro desmaiado e enriquecia o fogo tremeluzente do seu cabelo e dava aos seus olhos um toque de mbar lquido. Os meus dedos hesitantes tocaram a sua
face e traaram uma linha que termnou perto da sua boca, no stio em que a fora da minha mo deixara um inchao. O pescoo dela estava envolto em sombras, os seios
deixaram-me como louco, os pequenos ps eram o limite do meu mundo.
E porque admitira finalmente que precisava desvairadamente dela, encontrei em Briseida coisas que estavam muito para alm dos meus sonhos. Se, no passado, tentara
conscientemente agradar-lhe, agora, s pensava nela como uma extenso do meu prprio ser. Dei comigo a chorar; o cabelo dela ficou molhado sob o meu rosto, as mos
dela acalmaram-se e procuraram as minhas mos e cerraram-se nelas numa paz dolorosa, e to cedo no se largaram, as nossas mos sobre as nossas cabeas na almofada
partilhada.
Heitor habitava de novo o palcio dos seus antepassados, embora desta vez no o soubesse. Atravs de Ulisses, ficmos a saber que Pramo ignorara as pretenses dos
seus filhos mais velhos e escolhera Troilo, ainda um rapaz, como seu novo herdeiro. Protestavam os Troianos que Troilo no atingira ainda a maioridade - um termo
que ns no conhecamos nem usvamos.
Com efeito,  deciso de Pramo deparara-se forte oposio; o prprio Troilo suplicara ao rei que desse o ttulo a Eneias. Ao ouvir tal, Pramo lanara-se numa diatribe
contra o dardaniano que s terminara quando Eneias abandonara indignado a Sala do Trono. Defobo tambm estava furioso; tal como o jovem sacerdote Heleno, que recordou
ao pai o orculo segundo o qual Troilo s salvaria a cidade depois de ter atingido a maioridade. Pramo respondeu que Troilo havia j chegado  maioridade, mas Heleno
manteve as suas splicas. Que no demoveriam Pramo. Troilo acabou mesmo por ser declarado herdeiro de Tria. E ns, na praia, comemos a afiar as nossas espadas.
Durante doze dias, Tria chorou Heitor. A meio desse perodo, chegou Pentesileia das Amazonas com dez mil guerreiras montadas. Mais uma razo para afiarmos as nossas
espadas.
Afivamos as espadas e afiava-se a nossa curiosidade. Com efeito, as Amazonas eram criaturas nicas. Consagravam inteiramente as suas vidas a rtemis, a Donzela,
e a um Ares asitico. Viviam nas longnquas fortalezas da Ctia, no sop das montanhas de cristal que constituem o tecto do mundo, conduzindo os seus enormes cavalos
pelos caminhos das florestas, caando e pilhando em nome da Donzela. Viviam sob o domnio da deusa Terra na sua tripla identidade inicial
- Donzela, Me, Velha - e dominavam os seus homens tal e qual como as mulheres haviam feito no nosso mundo, antes de a Nova Religio ter substitudo a Velha.  que,
no nosso mundo, os homens haviam descoberto um facto vital: a se-

#mente de um homem era to necessria para a procriao como a mulher que fazia crescer o fruto. Antes de tal descoberta ter sido feita, os homens eram considerados
no mais do que um luxo dispendioso.
Entre as Amazonas, a sucesso fazia-se inteiramente segundo a linha feminina; os seus homens eram pouco mais do que escravos e nem sequer iam para a guerra. Os primeiros
quinze anos da vida de uma mulher, aps a primeira menstruao, eram exclusivamente dedicados  deusa Donzela. Depois, retirava-se do exrcito, escolhia um marido
e gerava os seus filhos. S a rainha no se casava, embora deixasse o trono sensivelmente na mesma altura em que as outras mulheres abandonavam o servio de rtemis,
a Donzela; em vez de escolher um marido, a rainha submetia-se ao golpe fatal do machado, sacrificando-se pelo seu povo.
Ulisses encarregou-se de esclarecer as nossas dvidas relativamente s Amazonas; parecia ter espies em todo o lado, mesmo no sop das montanhas de cristal da Ctia.
Contudo, aquilo que mais nos apoquentava era o facto de as Amazonas montarem cavalos. Os outros povos no montavam cavalos: nem mesmo os longnquos Egpcios. Um
homem sentar-se em cima de um cavalo? Era demasiado difcil... A pele do cavalo era escorregadia, se lhe pusssemos uma manta em cima, a manta caa; a nica parte
do corpo do cavalo que os homens podiam usar era a boca, visto que podiam inserir nela um freio ligado ao arns e s rdeas. Portanto, o mundo usava os cavalos apenas
para puxarem carros. Nem sequer podamos p-los a puxar carroas, pois o jugo estrangulava-os. Assim sendo, como era possvel que as Amazonas montassem cavalos -
e ainda por cima combatessem em cima deles?
Enquanto os Troianos choravam a morte de Heitor, ns descansmos, perguntando-nos se alguma vez voltaramos a v-los fora das muralhas. Ulisses estava seguro de
que eles voltariam a sair, mas os restantes chefes gregos duvidavam que tal acontecesse.
Ao dcimo terceiro dia, vesti a armadura que Ulisses me dera, descobrindo, com alguma surpresa, que, agora, me parecia muito mais leve. Atravessmos as passagens
do acampamento  escassa luz da aurora, interminveis correntes de homens arrastando-se pela plancie orvalhada, uns quantos carros na dianteira. Agammnon decidira
formar ao longo de uma frente situada a cerca de meia lgua da muralha troiana adjacente  Porta Ceia.
Eles estavam  nossa espera. No tantos como antes, mas, mesmo assim, mais numerosos do que ns. A Porta Ceia j estava fechada.
As hordas amazonas estavam posicionadas no centro da vanguarda troiana; enquanto esperava que as nossas alas formassem, sentei-me num dos resguardos laterais do
meu carro e examinei-as com toda a ateno. Montavam uns cavalos enormes e muito peludos de uma raa que eu desconhecia - uns feios focinhos aquilinos, crinas e
caudas tosquiadas, cascos peludos. Quanto  cor, os cavalos eram uniformemente baios ou castanhos, com uma nica excepo: o belo cavalo branco mesmo no centro das
hostes amazonas. S poderia ser o cavalo da rainha Pentesileia. Apercebi-me ento do processo que usavam para montar os cavalos - um processo muito inteligente!
Cada guerreira podia ajustar as ancas e as ndegas a uma estrutura de couro, atada com correias debaixo da barriga do cavalo; desse modo, o risco de carem seria
mnimo.
Usavam elmos de bronze, mas, quanto ao mais, envergavam cabedal curtido e cobriam-se, da cintura at aos ps, com uma espcie de canos de cabedal, atados com correias
desde os tornozelos aos joelhos. Nos ps, usavam botas pequenas e macias. A arma preferida era obviamente o arco e as flechas, embora algumas trouxessem espadas.
Nesse preciso instante, soaram as trombetas e os tambores da batalha. Ergui-me de novo, a Velha Plion na mo, o escudo de ferro confortavelmente dependurado do
ombro esquerdo. Agammnon concentrara todos os seus carros na seco da linha da frente defronte das Amazonas. Lamentavelmente, eram poucos os nossos carros.
As mulheres abriram caminho por entre os carros de guerra como se fossem harpias, guinchando e berrando. Setas silvaram dos seus pequenos arcos, voando sobre as
cabeas daqueles que seguiam nos carros e descendo na direco dos ps dos que vinham atrs. Aquela constante chuva de morte perturbou at os meus mirmides, que
no estavam habituados a combater contra um adversrio que disparava a uma distncia que impedia uma retaliao imediata. Juntei o meu pequeno segmento de carros
de guerra e obriguei as Amazonas a recuarem, usando a Velha Plion como um arpo, aparando as setas com o meu escudo e gritando aos outros para que fizessem o mesmo.
Mas havia algo de extraordinrio naquele bizarro confronto: aquelas estranhas mulheres no alvejavam os nossos cavalos!
Olhei de relance para Automedonte, o qual, com uma expresso severa e preocupada, procurava controlar os nossos cavalos. Os olhos dele encontraram-se com os meus.
- Deixemos o resto do exrcito tratar dos Troianos - disse eu. - Concentremo-nos nestas mulheres. Se conseguirmos aguent-las, j me darei por contente.
Automedonte aquiesceu, logo fazendo guinar o carro para evitar uma guerreira que lanara o seu corcel na nossa direco; as pernas dianteiras do animal cavalgavam
portentosamente e os seus cascos enormes seriam capazes de fazer saltar os miolos de um homem. Peguei num dardo e arremessei-o contra a guerreira, assobiando de
satisfao pois o dardo abateu-a instantaneamente, fazendo-a

#cair sob as pernas do portento. Ento, decidi arrumar a Velha Plion e pegar no machado.
- Mantm-te perto de mim que eu vou descer.
- No desas, Aquiles! Elas esmagam-te! Ri-me dele. Era muito mais fcil no cho; passei palavra aos mirmides.
- Esqueam o tamanho dos cavalos. Abeirem-se das patas deles - elas no mataro os nossos cavalos, mas ns mataremos os delas. Um cavalo por terra  to bom como
uma Amazona a menos.
Os Mirmides seguiram as minhas instrues sem a menor hesitao. Alguns ficaram bastante maltratados sob as patas dos cavalos, mas a maior parte aguentou-se no
meio daquele dilvio de setas, retalhando barrigas peludas, ceifando pernas encimadas por saias, torcendo pescoos equinos. Porque eram homens organizados, disciplinados
e rpidos, e tambm porque o meu pai e eu nunca havamos desencorajado a iniciativa ou a versatilidade, os Mirmides foraram as Amazonas a retirar. Uma vitria
que nos saiu cara. O campo ficou juncado de cadveres mirmides. Mas aquela vitria j ningum nos podia tirar. Recobrado o nimo, os meus homens estavam prontos
para matar mais Amazonas e mais cavalos.
Subi de novo para o carro e tentei localizar Pentesileia. Ali estava ela! No meio das suas mulheres, tentando lev-las a formar organizadamente. Acenei para Automedonte.
- Em frente, Automedonte! S paramos quando alcanarmos a rainha! Conduzi a carga no meu carro, antes que elas estivessem preparadas. Mesmo assim, muitas foram as
setas que caram em cima de ns; Automedonte teve de usar um escudo para se proteger. No entanto, no consegui abeirar-me de Pentesileia o suficiente. Por trs vezes,
conseguiu evitar-nos, enquanto continuava a organizar as suas linhas. Automedonte estava todo suado e arquejante, incapaz de comandar os meus trs garanhes com
a facilidade de Ptrocles.
- D-me as rdeas - disse-lhe. Os nomes dos meus cavalos eram Xanto, Blio e Podargo. Chamei cada um deles pelo seu nome e a cada um deles pedi que me desse o seu
melhor. Eles ouviram-me, embora Ptrocles no estivesse presente para responder por eles. Ah, que bom! Conseguia pensar de novo em Ptrocles sem sentir o peso da
culpa!
Sem que fosse preciso usar o chicote, os meus cavalos, to corpulentos como os das Amazonas, conseguiram abrir caminho por entre estes. Gritando o meu grito de guerra,
devolvi as rdeas a Automedonte e peguei na Velha Plion. A rainha Pentesileia estava ao alcance da minha lana e cada vez mais prxima, ao passo que a desordem
das suas linhas piorara em vez de melhorar. Pobre mulher, no possua os talentos que so necessrios a um bom general. Cada vez mais perto, cada vez mais perto...
Pentesileia teve de desviar a sua gua branca para evitar uma coliso tremenda com os meus cavalos. Os seus olhos plidos faiscaram, o seu flanco ofereceu-se  Velha
Plion. Mas no consegui disparar. Saudei-a e ordenei uma retirada.
Um cavalo das Amazonas sem cavaleiro - ou melhor, uma gua; afinal, parecia que as Amazonas s tinham guas - tinha as patas amarradas, as rdeas debaixo de uma
delas. Automedonte passou pela gua; mandei-o parar, peguei nas rdeas da gua e obriguei-a a seguir-nos.
Logo que me vi longe do tumulto, desci do carro e examinei a gua que perdera a sua Amazona. Gostaria do cheiro de um homem? Como  que eu ia sentar-me naquela estrutura
de couro?
Automedonte estava lvido.
- Aquiles, que ests tu a fazer?
- Pentesileia no tem medo de morrer. Merece por isso uma morte melhor.
Combat-la-ei como um igual - machado contra machado, os dois montados num cavalo.
- Enlouqueceste? Ns no sabemos montar cavalos!
- Ainda no sabemos... Mas no achas que, depois de termos visto as Amazonas, conseguiremos aprender?
Saltei para cima da gua, usando a roda do carro como um degrau; os lados da estrutura eram salientes e rijos; tive por isso a maior dificuldade em enfiar-me naquela
estranha coisa, pois era demasiado pequena para as minhas ancas. Porm, uma vez sentado naquilo, fiquei espantado. Era to fcil permanecer direito e equilibrado!
A nica dificuldade eram as pernas, que ficavam suspensas, cadas, sem qualquer suporte. A gua estava amedrontada, mas a sorte estava do meu lado, pois o animal
parecia manso; quando puxei as rdeas para que ela virasse, obedeceu. Montava um cavalo: era o primeiro homem em todo o mundo a faz-lo.
Automedonte passou-me o machado, mas o escudo estava fora de questo. Um dos meus mirmides correu para mim, com um sorriso arreganhado, e deu-me um pequeno escudo
redondo, o escudo que as Amazonas usavam.
Com os Mirmides atrs de mim num alarido deliciado, carreguei sobre o exrcito feminino, procurando a rainha. No meio da confuso, a minha gua no conseguia avanar
mais depressa do que um caracol. Alm disso, parecia j ter adoptado o seu novo cavaleiro:  possvel que o meu peso a tivesse intimidado.
Quando vi a rainha, lancei-lhe o meu grito de guerra. Com um bizarro e ululante guincho - o seu grito de guerra - Pentesileia virou-se na minha direco, fazendo
avanar a sua gua branca por entre a multido com um movimento dos joelhos - mais um truque para eu aprender - en-

#quanto, com a mo direita, pegava num machado dourado. Com uma voz brusca, imperiosa, ordenou s suas guerreiras que se afastassem para formar um semicrculo. Os
meus mirmides correram a formar a outra metade do crculo. A batalha devia ter tomado a mesma direco que ns, j que, entre os Mirmides, vi tropas que pertenciam
a Diomedes e o rosto sombrio e desagradvel do seu primo Tersita. Que estava Tersita a fazer ali? Ele era um dos chefes dos espies de Ulisses.
O teu nome  Aquiles? - perguntou a rainha num Grego atroz.  esse mesmo! Avanou para mim, o machado encostado ao dorso da gua, o escudo firme. Consciente da minha
inexperincia naquele novo tipo de duelo, decidi deix-la usar primeiro alguns dos seus truques, confiando que a minha sorte me evitaria problemas at me sentir
mais confortvel. Pentesileia fez com que o seu corcel me oferecesse o flanco, mas logo rodopiou e avanou sobre mim com a velocidade de um relmpago; afastei-me
mesmo a tempo e aparei o golpe com aquele escudo forrado a pele de vaca, lamentando no ter um de ferro mas do mesmo tamanho. A lmina dela fez um corte profundo
no escudo, mas logo emergiu livre e to facilmente como uma faca cortando queijo. Pentesileia podia ser um mau general, mas era uma belssima combatente. Tal como
a minha gua castanha, que sabia melhor do que eu quando  que se devia virar. Aprendendo com a rainha, ergui o machado e desferi o golpe. Falhei por muito pouco.
Depois, experimentei um outro truque dela: fiz com que a minha gua colidisse com a gua dela. A rainha abriu muito os olhos; por sobre o escudo, ria-se de mim.
Mais acostumados um ao outro, trocmos golpes com uma velocidade que no parava de aumentar; os machados ressoavam e faziam fasca. Podia sentir o poder do seu brao
e tinha de admitir que, naquela arte, Pentesileia era um artfice consumado. O machado dela era muito mais pequeno do que o meu, concebido para ser usado apenas
por uma mo, o que fazia dela um inimigo muito perigoso; o melhor que eu podia fazer com o meu machado era agarrar no cabo muito mais perto da cabea do que era
normal, usando apenas a minha mo direita. Mantive-me  direita dela e obriguei-a a cansar os seus msculos, aparando cada um dos golpes com uma fora que fazia
vibrar todas as fibras do seu corpo.
A minha fora resistiria muito mais tempo do que a dela, mas odiaria v-la humilhada. Seria melhor acabar com aquilo rpida e honrosamente. Ao dar-se conta de que
o seu tempo acabara, ergueu os olhos para mim e concordou silenciosamente; ento, tentou um ltimo e desesperado truque. A gua branca empinou-se, rodopiando ao
descer e arremessando-se contra mim com tal violncia que a minha gua castanha vacilou, quase escorregando. Enquanto a levava a recompor-se com a minha voz e a
mo esquerda e os calcanhares, o machado de Pentesileia desceu sobre mim. Ergui o meu prprio machado para o enfrentar e, num pice, fi-lo cair. Ento, no hesitei:
o flanco de Pentesileia recebeu a minha lmina como se fosse barro mole. No confiando nela enquanto permanecesse montada e erecta, puxei o machado rapidamente.
A mo dela procurou o punhal, mas faltavam-lhe as foras. Rios escarlates jorravam j, tingindo a brancura da gua. A rainha das Amazonas vacilava, ameaando tombar
desamparada. Desci imediatamente da minha gua castanha, a fim de a agarrar antes que se estatelasse no cho.
O peso dela fez-me cair por terra. Ajoelhei depois, com a sua cabea e os ombros nos meus braos, sentindo-lhe o pulso. No estava ainda morta, mas a sua sombra
pairava j sobre ns. Fitou-me com uns olhos to azuis e plidos como as guas beijadas pelo sol.
- Pedi aos deuses que fosses tu - disse ela.
- O rei deve morrer s mos do mais valoroso dos seus inimigos - disse eu - e tu s rei na Ctia.
-Agradeo-te que tenhas posto termo ao duelo to rapidamente. Assim, no fui obrigada a admitir que me faltavam as foras. Absolvo-te da minha morte em nome da Donzela
Archeira.
O estertor da morte fazia-se ouvir j, mas os lbios ainda se moviam. Curvei-me para a ouvir.
- Quando morre sob o golpe do machado, a rainha tem de exalar o seu ltimo suspiro para a boca do seu carrasco, o qual reinar depois dela. - Tossiu, mas buscou
todas as foras que lhe restavam para continuar a falar. - Toma o meu alento. Toma o meu esprito at que tambm tu sejas uma sombra e eu possa pedir-te que mo devolvas.
No havia nos seus lbios nem sinal de sangue; o seu ltimo suspiro encontrou a minha boca e assim morreu. Deitei-a delicadamente no cho e levantei-me. Gritando
de dor e desespero, as guerreiras investiram contra mim, mas os Mirmides puseram-se  minha frente e permitiram-me sair do campo de batalha montado na gua castanha.
Procurei Automedonte. A estrutura de madeira e cabedal era um despojo muito mais valioso do que os rubis da rainha.
Algum falou comigo.
- Proporcionaste  multido um belo espectculo, Aquiles. Estou certo de que poucos homens - ou mulheres, j agora - tero visto algum fazer amor com um cadver.
Automedonte e eu virmo-nos num pice, mal acreditando no que estvamos a ouvir. Era Tersita, o espio, que me fitava com um sorriso trocista. Desprezar-me-ia assim
tanto o exrcito grego, ao ponto de um homem como Tersita se achar no direito de me atirar  cara os seus imundos pensamentos, considerando-se a salvo de todo e
qualquer castigo?

#- S foi pena as mulheres terem investido e tu no poderes chegar ao clmax - continuou ele, o escrnio estampado no rosto. - Sempre gostava de ver a mais poderosa
das tuas armas....
Tremendo de uma fria glida, ergui a minha mo.
- Desaparece, Tersita! Vai esconder-te atrs do teu primo Diomedes ou de Ulisses, o teu titereiro!
Tersita virou costas, mas ainda disse: -Averdade di, no ? Bati-lhe apenas uma vez. Uma dor tremenda trespassou-me o brao quando o meu punho cerrado encontrou
o seu pescoo sob o elmo. Tersita caiu como uma pedra, contorcido como uma serpente. Automedonte chorava de raiva. - O co! - exclamou, ajoelhando ao p do espio.
- Partiste-lhe o pescoo, Aquiles, est morto. Bons ventos o levem!
As Amazonas sofreram uma derrota esmagadora, pois os seus coraes tinham morrido com Pentesileia; continuaram a combater apenas para morrer, naquela que fora a
sua primeira incurso ao mundo dos homens. Quando tive tempo, procurei o corpo da rainha, mas dele nem sinal. Ao fim do dia, um dos meus soldados veio ter comigo.
- Aquiles, eu vi levarem o corpo da rainha do campo de batalha.
- Para onde o levaram? E quem o levou?
- Levaram-no para o rei Diomedes. Ele apareceu com alguns dos seus soldados de Argos, despiram a rainha, ataram o cadver pelos tornozelos ao carro de Diomedes e
assim o levaram, mais  armadura.
Diomedes? No podia acreditar que tal fosse possvel. Porm, logo que os homens comearam a limpar o campo, procurei o rei de Argos a fim de o confrontar com as
minhas informaes.
- Diomedes,  verdade que levaste a minha presa, a rainha das Amazonas?
-  verdade, sim! - atirou-me ele, os olhos cheios de dio. - Atirei-a ao Escamandro!
Decidi falar-lhe cortesmente.
- Porqu?
- E porque no? Tu assassinaste o meu primo Tersita - um dos meus soldados viu-te abat-lo com um golpe pelas costas. Mereces perder a rainha mais a armadura!
Cerrei os punhos.
- Agiste de uma forma precipitada, meu amigo. Pergunta a Automedonte o que Tersita me disse.
Com alguns dos meus mirmides fui  procura do corpo da rainha, sem qualquer esperana de o encontrar. O Escamandro corria de novo forte e cheio e ftido; durante
os doze dias que durara o luto por Heitor, tnhamos reforado as margens do rio a fim de mantermos seco o nosso acampamento; logo a seguir, porm, os dilvios haviam
voltado ao monte Ida.
A escurido cara; acendemos archotes e vaguemos pela margem, procurando debaixo de arbustos e salgueiros. At que algum gritou. Corri para o local de onde veio
o grito, fazendo um esforo tremendo para ver no meio das trevas. Pentesileia estava no meio do rio, balouando ao sabor da corrente, presa por uma comprida e plida
trana a um ramo do mesmo olmo a que eu me agarrara para no morrer. Retirei-a das guas do rio e envolvi-a numa manta. Depois, coloquei-a sobre a sua gua branca,
que Automedonte encontrara vagueando pelo campo deserto, procurando desesperada a sua amazona.
Quando voltei  minha casa, Briseida estava  minha espera.
- Meu querido - disse-me ela -, Diomedes veio visitar-te. Como no estavas, deixou-te vrias coisas e uma mensagem. Pediu-me que te apresentasse as suas mais sinceras
desculpas e que te dissesse que, quanto a Tersita, ele teria feito exactamente o mesmo que tu fizeste.
Diomedes deixara-me a armadura e as armas de Pentesileia. Sepultei-a no tmulo de Ptrocles, deitada na posio do rei guerreiro, com a armadura vestida e uma mscara
de ouro cobrindo-lhe o rosto. A gua branca jazia aos ps da rainha; desse modo, o belo animal entraria no reino dos mortos como sempre vivera: montada pela sua
amazona.
Nos dois dias seguintes, no se registou na plancie qualquer sinal de actividade troiana. Intrigado com o que poderia acontecer nos tempos mais prximos, decidi
ir falar com Agammnon. Ulisses estava com ele, to bem-disposto e confiante como sempre.
- De uma coisa podes estar certo, Aquiles: eles voltaro a sair. Pramo est  espera de Meno, que se dirige para Tria  frente de vrios regimentos de lite hititas
que o rei Hatuslis disponibilizou depois de ter recebido uma elevada maquia. No entanto, segundo os meus agentes, os Hititas demoraro ainda meia lua a chegar a
Tria e, entretanto, temos de resolver um problema mais urgente. Rei supremo, posso pedir-te que expliques a Aquiles o que se passa? - disse o astucioso Ulisses,
que sabia muito bem quando  que devia mostrar-se o mais deferente dos sbditos perante o rei supremo.
- Claro - disse o nosso rei supremo com um ar altivo. -Aquiles, h oito dias que no chega  nossa praia nenhum navio de abastecimentos de Assos. Suspeito de um
ataque dardaniano. Gostaria que levasses o teu exrcito e que fosses ver o que se

#passa realmente em Assos. No podemos combater Meno e os Hititas de barriga vazia, mas tambm no podemos combat-los com um exrcito desfalcado. Proponho-te,
por isso, que resolvas o problema de Assos e que voltes rapidamente para aqui.
Aquiesci.
- Muito bem, rei supremo. Levarei dez mil homens, mas no mirmides. Autorizas-me a recrutar outros homens que no os meus?
- Claro, claro! - retorquiu imediatamente o rei supremo. Estava muito bem-disposto.
A situao em Assos no diferia muito do que Agammnon previra. Os Dardanianos haviam cercado a nossa base; aps dura refrega, abandonmos as nossas muralhas defensivas
e derrotmo-los em campo aberto. O exrcito inimigo era afinal uma manta de retalhos poliglota; os homens que reinavam nas runas de Lirnesso - fossem eles quem
fossem - haviam recrutado quinze mil homens de outras cidades, possivelmente ao longo de toda a costa. Muito provavelmente, o seu destino era Tria, mas a verdade
 que no tinham conseguido resistir  tentao que Assos representava. As muralhas tinham-nos mantido  distncia e eu chegara a tempo de evitar um assalto fatal.
Por isso, aqueles soldados, alm de perderem Assos, tambm perderam a vida. Tria nunca abriria as suas portas para os receber.
Quatro dias bastaram para resolvermos o caso; fizemo-nos ao mar no quinto. Porm, os ventos e as correntes no nos ajudaram nada: chegmos  nossa praia apenas na
noite do sexto dia. Dirigi-me imediatamente  casa de Agammnon, descobrindo, enquanto caminhava, que, na minha ausncia, o exrcito estivera envolvido numa importante
aco.
Encontrei jax no prtico.
- Que se passou? - perguntei-lhe, ansioso por conhecer todos os pormenores.
Fitou-me com um esgar triste.
- Meno chegou mais cedo do que o esperado, com dez mil soldados hititas. So magnficos combatentes, Aquiles! E ns... ns estamos cansados... Apesar de termos
mais soldados do que eles e de os Mirmides participarem na batalha, os Hititas empurraram-nos para dentro das nossas muralhas. Felizmente que j era noite quando
a batalha terminou.
Apontei para as portas fechadas.
- O rei dos reis no recebe visitas? jax sorriu.
- Deixa-te de ironias, primo! Agammnon no est nada bem... Nunca fica bem depois de um revs. Mas podes entrar que ele recebe-te.
- Vai dormir, jax. Hoje, perdemos; amanh, venceremos.
Agammnon estava de facto com um ar muito cansado. Estava ainda sentado  mesa de jantar, acompanhado apenas por Nestor e Ulisses. Tinha a cabea enterrada nos braos,
mas ergueu-a mal eu entrei.
- Ento? Resolveste o problema de Assos? - perguntou-me imediatamente.
- Sim, rei supremo. Os navios de abastecimento chegaro amanh, mas os quinze mil homens que vinham para Tria ficaram pelo caminho.
- Excelente! - exclamou Ulisses. Nestor nada disse - nem parecia dele! Olhei para ele e fiquei espantado: tinha o cabelo desgrenhado, a barba emaranhada, os olhos
raiados de sangue. Quando se apercebeu de que eu estava a olhar para ele, ergueu uma mo para logo a baixar; pelas suas faces enrugadas, deslizaram lgrimas irreprimveis.
- Que aconteceu, Nestor? - perguntei-lhe ternamente. Creio que j sabia a resposta.
Respirou fundo, soluou.
- Oh, Aquiles, Aquiles! Antloco morreu! Ergui a mo para esconder os meus olhos.
- Quando?
- Hoje, no campo de batalha. A culpa foi toda minha... Ele tentou livrar-me de apuros e Meno matou-o com uma lana. No consigo sequer olhar-lhe para o rosto! A
lana entrou pelo occipcio e saiu-lhe pela boca, desfigurando-o por completo! E o meu filho era to belo! To belo, Aquiles!
Os meus dentes rangiam de raiva.
- Meno pagar por isso, Nestor. Pelos votos que fiz ao rio Esperquio, juro-te que Meno pagar.
Mas o velho abanou a cabea.
- Oh, Aquiles, j nada mais me importa! Antloco est morto. O cadver de Meno no trar de volta o meu filho... Perdi cinco filhos nesta maldita plancie
- cinco dos meus sete filhos. E Antloco era aquele que eu mais amava. Tinha vinte anos. E eu, que tenho quase noventa, ainda estou vivo! No h justia nas decises
dos deuses.
- Acabamos com eles amanh? - perguntei a Agammnon.
- Sim, amanh - respondeu ele. - Estou farto, mais do que farto, de Tria! No suportaria passar aqui outro Inverno! No tenho notcias de Micenas
- a minha mulher deixou de me mandar mensageiros, o mesmo faz Egisto. Tenho mandado mensageiros,  certo: quando voltam, todos me dizem que as coisas vo bem em
Micenas. Mas eu estou desejoso de voltar para casa, para Clitemenestra, para o meu filho, para as duas filhas que me restam! - Olhou para Ulisses. - Se no conquistarmos
Tria neste Outono, voltarei para casa.

#- Tria cair este Outono - disse Ulisses, com um suspiro. Nos olhos cinzentos daquele homem frio, to duro como o ferro, surgiram de sbito indcios de uma tremenda
fadiga. - Tambm eu estou farto de Tria. Se tenho de permanecer vinte anos longe de taca, fao votos para que os dez ltimos anos no sejam passados na Trada.
Preferia combater contra um exrcito conjunto de sereias, harpias e feiticeiras a enfrentar mais Troianos.
Fitei-o com um sorriso imenso.
- Sereias, harpias e feiticeiras nunca se atreveriam a combater contigo, Ulisses. A menos que tivessem enlouquecido... Seja como for, essas so questes que pouco
me interessam. Tria  o fim do meu mundo.
Conhecedor das profecias, Ulisses nada disse. Limitou-se a olhar para a sua taa de vinho.
- S queria que me prometesses uma coisa, Agammnon - disse eu. A cabea do rei supremo estava de novo oculta pelos braos.
- Tudo o que quiseres, Aquiles.
- Enterra-me na gruta do penhasco, com Ptrocles e Pentesileia, e trata de tudo para que Briseida se case com o meu filho.
Ulisses ergueu-se de sbito.
- O deus chamou-te, Aquiles?
- No, creio que no. Mas o seu chamamento deve estar para breve. - Estendi-lhe a mo. - Promete-me que o meu filho envergar a minha armadura.
- J te prometi isso, Aquiles. O teu filho envergar a tua armadura. Nestor limpou os olhos, assoou-se  manga.
- Tudo ser feito segundo os teus desejos, Aquiles. - Os seus dedos trmulos puxaram os cabelos brancos numa fria desesperada. - Ah, se ao menos o deus me chamasse!
Tantas vezes lhe pedi, mas ele no me ouve! Como posso voltar a Pilos sem nenhum dos meus filhos? Que vou eu dizer s suas mes?
- Tu voltars a Pilos, Nestor - disse eu. - Ainda tens dois filhos. Quando te vires nos teus basties e contemplares a areia da praia, Tria esbater-se- na tua
mente ao ponto de se confundir com um sonho. Lembra-te apenas daqueles que caram e oferece-lhes libaes.
Cortei a cabea de Meno e deixei cair o corpo aos ps de Nestor. Um novo nimo invadiu-nos a todos nesse dia; o ressurgimento troiano pouco tempo durou. Retiraram
lentamente na direco da cidade, ao passo que eu, com uma estranha agonia no mais fundo de mim mesmo, matava todos os inimigos que ficavam para trs. O meu brao
parecia mole e lento, embora o machado continuasse a desferir tantos e to terrveis golpes como dantes. Porm,  medida que ia dizimando os melhores soldados que
o rei Hatuslis dos Hititas tinha para oferecer no altar encharcado de sangue que era Tria, a carnificina ia tambm provocando no meu ntimo uma repugnncia insuportvel.
Nas regies mais fundas de mim mesmo, ouvi uma voz suspirando: pareceu-me a voz de minha me, embargada pelas lgrimas.
No final do dia, prestei a minha homenagem a Nestor e assisti aos derradeiros ritos de Antloco. Deitmos o rapaz junto dos seus quatro irmos, na cmara reservada
para a Casa de Neleu, e pusemos Meno aos seus ps, como se de um co se tratasse. Porm, a ideia de assistir aos jogos fnebres e de participar nos festejos era-me
absolutamente insuportvel; escapei-me logo que pude.
Briseida estava  minha espera. Briseida estaria sempre  minha espera. Afaguei-lhe o rosto e disse-lhe,
- Tu s um lenitivo para todas as mgoas.
- Senta-te e faz-me companhia - disse ela. Sentei-me, mas logo vi que no conseguia falar com ela; um gelo horrendo comeava a apossar-se do meu corao. Briseida
continuou a falar toda animada, at que olhou para mim; ento, toda a sua vivacidade se dissipou como que por magia.
- Que se passa, Aquiles? Abanei a cabea sem dizer palavra, levantei-me e s parei  porta. A fiquei, olhos erguidos para as infinitas extenses do cu.
- Que se passa, Aquiles?
- Ah, Briseida! Todo o meu ser se dilacerou! Nunca, em toda a minha vida, senti to intensamente o vento! Nunca, em toda a minha vida, senti um to forte cheiro
a vida! Nunca, em toda a minha vida, vi as estrelas to quietas e claras!
Briseida puxou por mim, aflita.
- Vem para dentro - rogou-me. Deixei que me levasse para uma cadeira e que me sentasse, enquanto se afundava aos meus ps e se abraava aos meus joelhos, olhando-me
fixamente nos olhos.
- Aquiles...  a tua me? Com um sorriso, ergui-lhe o queixo.
- No. A minha me abandonou-me para todo o sempre. Ouvi-a despedir-se de mim no campo de batalha. Chorava. O deus chamou-me, Briseida. Finalmente chamou-me. Muitas
vezes me perguntei como seria, mas nunca me passou pela cabea que o chamamento do deus fosse esta conscincia to aguda, to absoluta da vida. Pensava que seria
um momento de glria e exultao, pensei que seria algo que me transportaria fisicamente para o ltimo dos meus combates. Mas no.  algo de sereno, de misericordioso.
Estou em paz. Acabaram-se os demnios de outros tempos, acabou o medo do futuro. Amanh  o fim. Amanh, deixarei de existir. O deus falou. O deus no me deixar
amanh.

#Briseida rompeu em protestos, mas eu detive as suas palavras com a minha Mo.
-  Um homem tem de fazer dignamente a sua ltima caminhada, Briseida.  o deus que o deseja, no eu. E eu no sou nenhum Hracles, to-pouco um Prometeu, para me
atrever a resistir-lhe. No passo de um homem mortal. Vivi trinta e um anos e vi e senti mais do que a maior parte dos homens que, por cem vezes, vem as folhas
das rvores ganhando o tom dourado do Outono. Eu no quero viver mais tempo do que as muralhas de Tria. Todos os grandes guerreiros morrero nestes campos. jax.
jax! jax... No faria sentido que eu sobrevivesse. Enfrentarei as sombras de Ptrocles e de Ifignia, que estaro do outro lado do Rio - e j sem mgoas nem dor.
Os nossos dios e amores pertencem ao mundo dos vivos - dio e amor so foras que no podem existir no mundo dos mortos. Fiz o meu melhor. Mas cheguei ao fim. Roguei
aos deuses que permitam que o meu nome continue a ser cantado por todas as geraes de homens que ho-de vir. Essa  a nica imortalidade a que um homem pode aspirar.
O mundo dos mortos no d alegrias, mas tambm no d tristezas. Se, nos lbios das futuras geraes, eu puder combater contra Heitor um milho de vezes, ento 
porque, de facto, nunca terei morrido.
Lgrimas sem fim chorou Briseida; o seu corao de mulher nunca poderia entender a complexidade da urdidura no tear do tempo; por isso, Briseida nunca poderia regozijar-se
comigo. Mas vem sempre uma altura em que a dor  to profunda que at mesmo as lgrimas acabam por secar. Serena e queda, Briseida falou por fim comigo.
- Se morreres, morrerei tambm - disse.
- No, Briseida, tu tens de viver. Casars com o meu filho, Neoptolemo. Dar-lhe-s os filhos que no me deste. Nestor e Agammnon juraram-me que tudo faro para
que isso se cumpra.
- Essa  uma promessa que no posso fazer. Nem mesmo a ti. Tu tiraste-me de uma vida e deste-me outra. No poder haver uma terceira vida. Tenho de partilhar a tua
morte, Aquiles.
Ergui-a, sorri-lhe.
- Quando vires o meu filho, mudars de ideias. O destino das mulheres  sobreviverem. Tudo o que me deves  uma noite mais. Depois, dar-te-ei a Neoptolemo.

Captulo Vigsimo Oitavo
Narrado por Automedonte

Deixmos despreocupadamente as nossas muralhas, sabendo que amos enfrentar um exrcito que quase fora arrasado. Aquiles seguia singularmente sereno a meu lado,
mas nem por um momento me interroguei sobre o significado da sua disposio. Erguia-se como um farol na sua armadura de ouro, as belas plumas douradas do elmo flutuando
ao vento e beijando-lhe os ombros sempre que o terreno acidentado me obrigava a fazer um sbito desvio. Aguardando o seu habitual sorriso de camaradagem, olhei-o
de soslaio e sorri para ele, mas, naquele dia, Aquiles esqueceu-se do nosso breve ritual. Olhava sempre em frente. O que viam os seus olhos? No poderia saber. Uma
paz grave e controlada impregnava aquele rosto de seu natural arrebatado; de sbito, tive a sensao de que a meu lado seguia um estranho. Nem uma s vez falou comigo
durante a viagem para o campo de batalha, nem uma s vez vi nos seus lbios um sorriso, qualquer sorriso. Era natural que tivesse ficado triste com o comportamento
de Aquiles. Contudo, inexplicavelmente, no senti qualquer tristeza. Pelo contrrio: senti-me apoiado, encorajado, como se houvesse nele uma indefinvel qualidade
capaz de me purificar.
Combateu melhor do que nunca, parecendo determinado a concentrar toda a sua imensa glria no espao de um nico dia. Porm, em vez de se deixar arrebatar pelo seu
habitual furor assassino, Aquiles esforou-se por assegurar um avano organizado dos seus Mirmides. Usou a espada e no o machado, e usou-a no mais absoluto silncio,
um silncio s comparvel ao do rei quando preside ao grande sacrifcio anual ao deus. A esta ideia, logo outra se ligou; e logo entendi a diferena que nele havia.
Aquiles sempre fora o prncipe e nunca o rei. Naquele dia, ele era o rei. Perguntei-me se no tivera alguma premonio de que o pai, Peleu, teria morrido.
Enquanto manobrava o carro, mirei duas ou trs vezes o cu, pois no estava a gostar nada daquele tempo. J ao alvorecer, o cu estava soturno, prometen-

#do, no frio, mas tempestade. Agora, havia na imensa abbada um singular matiz acobreado e, a leste e a sul, enormes nuvens negras juntavam-se, disparando j OS
seus relmpagos. Nuvens que formavam um tecto sobre o Ida, onde - disso estvamos certos - os deuses se haviam reunido para assistir  infindvel guerra.
Para os Troianos, foi uma derrota esmagadora. O exrcito troiano no conseguia deter-nos, tanto mais que, naquele dia, todos os chefes do nosso exrcito pareciam
possudos de uma forma inferior da grandeza que aureolava Aquiles como os raios em torno da cabea de Hlio.  a grandeza solar de Aquiles que contamina os outros,
pensei; Aquiles tornou-se o maior de todos os reis.
Ao fim de no muito tempo, os Troianos cederam e fugiram. Tentei localizar Eneias, perguntando-me por que razo o dardaniano nada fazia para garantir a coeso do
exrcito aliado. Mas a sorte devia ter abandonado Eneias, pois no havia nem sinal dele em todo o campo de batalha. Mais tarde, vim a saber que o dardaniano se recusara
a enviar os seus homens para reforar as claudicantes linhas troianas. Sabamos que Tria tinha um novo herdeiro: Troilo. lembrei-me ento de que Aquiles me dissera
que Pramo insultara Eneias aquando da cerimnia de investidura de Troilo. Pois bem: Eneias mostrara a Pramo que fizera muito mal em insultar um prncipe dardaniano
que tambm era herdeiro.
J tnhamos visto Troilo no campo de batalha, quando Pentesileia, e posteriormente Meno, se haviam juntado ao exrcito aliado. Tivera sorte, o jovem herdeiro: no
tivera de enfrentar nem Aquiles, nem jax. Porm, naquele dia, tudo mudaria. Aquiles perseguia-o implacavelmente, aproximando-se cada vez mais dele. Quando se apercebeu
do inevitvel, Troilo pediu ajuda. Os seus homens responderam de imediato, formando uma barreira protectora. Depois, vi-o mandar um mensageiro a Eneias, que se encontrava
relativamente perto. Vi o homem falando com Eneias, que o escutou com aparente interesse. Vi o mensageiro afastar-se na direco de Troilo. Mas no vi Eneias erguer
um s dedo que fosse para ajudar o herdeiro. Bem pelo contrrio: deu meia volta ao seu carro e, com os seus homens, demandou outras paragens.
No faltava valentia a Troilo. Era irmo de Heitor e, com mais uns anos, teria sido outro Heitor. Porm, a sua juventude era um bice intransponvel. Quando me viu
j muito perto, ergueu a lana, enquanto o seu condutor mantinha o veculo na posio certa para o arremesso; seria a ltima lana que Troilo arremessaria antes
que nos abeirssemos demasiado dele. Senti o brao de Aquiles roando o meu e logo me apercebi de que estava a erguer a Velha Plion. Com um magnfico arremesso,
a soberba lana foi imediatamente disparada, to direita e veloz como um dardo lanado pela mo de Apolo. As suas farpas de ferro cravaram-se profundamente na garganta
do rapaz, abatendo-o sem um gemido. Para l das cabeas dos desesperados soldados troianos, vi Eneias observando a cena com uma expresso amarga. Apresmos a armadura
de Troilo bem como os seus cavalos e arrasmos o que restava das suas tropas.
Aps o fim de Troilo, Eneias pareceu reviver. Libertou-se da sua apatia e fez avanar sobre ns todos os soldados aliados. Era possvel v-lo constantemente entre
os soldados; contudo, fazia tudo o que estava ao seu alcance para no se aproximar demasiado de Aquiles, de modo a que este no pudesse arremessar a sua lana. Astucioso,
o dardaniano. Ansiava desesperadamente pela vida; perguntei-me que paixes moveriam aquele homem. pois ele seria tudo menos cobarde.
O Sol sumira-se no cu, a tempestade tornava-se uma ameaa cada vez mais ntida. Era to portentosa a energia que os cus acumulavam que os nossos soldados logo
comearam a falar de pressgios funestos. As nuvens estavam cada vez mais baixas, os relmpagos trespassavam os ares cada vez mais perto, o ribombar dos troves
sufocava o clamor da batalha. Em toda a minha vida nunca vira um cu assim, tal como nunca sentira to estranhos arrepios na espinha, provocados pela violncia do
Pai Cu. A luz ensombrecera e havia nela um lgubre brilho sulfuroso e as nuvens eram to negras como as barbas de Hades, enroscando-se como fumo saindo de uma imensa
frigideira cheia de azeite, ganhando um intenso tom azul sempre que os relmpagos as iluminavam. Ouvi os Mirmides dizendo que, com aqueles sinais, o Pai Zeus pretendia
dizer-nos que a nossa vitria seria total; e imaginei, pela forma como estavam a comportar-se, que os Troianos pensariam exactamente o mesmo.
De sbito, um raio de fogo branco caiu mesmo em frente de ns, queimando tudo aquilo em que tocou. Os cavalos empinaram-se e eu tive de tapar os olhos, temendo que
to intensa luz me deixasse sem ver. Logo que me senti menos aturdido, virei-me para Aquiles.
- Vamos desmontar - disse eu. - O cho  mais seguro. Pela primeira vez nesse dia os seus olhos encontraram-se com os meus. Fitei-o perplexo. Era como se os raios
rodopiassem em torno da sua cabea; nos seus olhos amarelos, brilhava a luz de uma intensa alegria; Aquiles ria-se dos meus medos!
- Ests a ver, Automedonte? Ests a ver? O meu bisav prepara-se para chorar a minha morte! Ele considera-me um digno descendente!
Abri a boca de espanto.
- Chorar a tua morte? Aquiles, que queres dizer com isso? Agarrou os meus pulsos com toda a sua fora.
- O deus chamou-me, Automedonte. Hoje  o dia da minha morte. Comandars os Mirmides at que o meu filho chegue a Tria. O Pai Zeus est a preparar-se para a minha
morte.

#No podia acreditar no que acabara de ouvir. Impossvel acreditar ! Como se estivesse no meio de um pesadelo, vergastei os cavalos para que avanassem. Quando o
meu choque se dissipou um pouco, reflecti sobre o que deveria fazer. E tomei uma deciso: aproximei-me o mais possvel de jax e Ulisses, cujos homens lutavam lado
a lado.
No sei se Aquiles reparou no que eu estava a fazer; se reparou, deve ter considerado a minha tctica absolutamente irrelevante. Ergui os olhos ao cu e rezei, pedindo
ao Pai que me levasse a mim e no a ele; mas o deus limitou-se a rugir o seu escrnio, deixando-me a tremer de medo. Os Troianos, de sbito, fugiram na direco
das suas muralhas, e ns seguimo-los tumultuosamente, decididos a acabar com eles. jax estava mais perto agora; continuei a avanar na sua direco at que, a certa
altura, consegui segredar-lhe que Aquiles pensava que o deus o tinha chamado. Se havia no mundo um homem capaz de evitar o fim de Aquiles, esse homem s poderia
ser jax.
Estvamos j  sombra da Cortina Ocidental, demasiado perto da Porta Ceia para que Pramo pudesse permitir-se abri-la. Aquiles, jax e Ulisses tinham encurralado
Eneias contra a porta. Aquiles estava decidido a liquidar Eneias; era isso que o seu silncio me dizia, enquanto eu pedia aos deuses que no lhe dessem a oportunidade
de travar um duelo com o mais perigoso de todos os aliados ainda vivos.
Ouvi-o dar um grito de satisfao e vi que o dardaniano estava j ao alcance das nossas lanas, demasiado ocupado para se dar conta de todos os que assolavam as
suas tropas. Naquele momento, Eneias era um alvo perfeito. Aquiles ergueu a Velha Plion, os msculos do brao inchando portentosos enquanto concentrava todas as
suas foras para o arremesso, a axila nua coberta por uma fina penugem dourada. Fascinados, os meus olhos atentaram na linha da lana destinada a Eneias, sabendo
que a vida do dardaniano chegara ao fim, que a ltima ameaa troiana no mais pairaria sobre ns.
Tudo pareceu acontecer nesse mesmo instante, ainda que eu jure, diante de todos os deuses e humanos, que no foi o carro que fez com que Aquiles perdesse o equilbrio.
O seu calcanhar direito vacilou, apesar de o p estar firmemente encaixado no estribo; lutando para se manter direito, Aquiles ergueu bem alto o brao direito. Ouvi
um rudo surdo e vi a seta enterrada na axila nua. Quase toda a seta trespassara o corpo de Aquiles: s as penas azuis da ponta assomavam sobre a carne dilacerada.
A Velha Plion caiu no cho sem chegar a ser arremessada, enquanto Aquiles se erguia como um tit; depois, com uma voz triunfal, como se houvesse conquistado a prpria
mortalidade, lanou pela ltima vez o grito de guerra de Quron. O brao caiu e enterrou ainda mais a seta. A arma fatal cravara-se no seu ser mais profundamente
ainda do que a morte ou do que toda a ignomnia do mundo. Tive de controlar os cavalos com ambas as mos, pois Xanto mergulhava aterrorizado e Balio baixava a cabea
desesperado e Podargo desatara a martelar o cho com os seus cascos. Mas Ptrocles no estava l para falar por eles, para dar ao seu sofrimento e horror palavras
humanas.
Todos os que ouviram o grito de guerra viraram-se para ver; jax gritou como se tambm ele tivesse sido trespassado. O sangue jorrava j daquela boca sem lbios
e de ambas as narinas, caindo em cascata sobre a armadura de ouro.
Ulisses estava mesmo atrs de jax; lanou um grito de raiva e impotncia, a mo esticada, apontando. Em segurana perto de uma rocha, ali estava o assassino: Pris.
Com o arco na mo. Sorrindo para ns.
Breves momentos tero passado antes de Aquiles ter cado sobre o resguardo do carro para logo ser amparado por jax, que o deitou no cho com um clangor metlico
que ecoou nos nossos coraes e que nunca se esbateria enquanto fssemos vivos. Abeirei-me de jax e ao lado dele fiquei enquanto jax ajoelhou com o primo nos braos,
enquanto jax lhe tirou o elmo e fitou, vazio de palavras, aquele rosto tingido de escarlate, lvido de morte. Aquiles viu quem o amparava, mas a viso da morte
era muito mais forte e estava muito mais prxima. Tentou em vo falar, mas as palavras afogaram-se na sua garganta; por um momento, o derradeiro adeus esteve ali,
nos seus olhos. Ento, as pupilas dilataram-se e o amarelo da ris deu lugar a um negrume transparente. Trs convulses horrendas que puseram  prova a fora de
jax e tudo estava acabado. Estava morto. Aquiles estava morto. Fitmos as luminosas janelas vazias dos seus olhos e nada vimos para l delas. Com uma mo enorme
e desajeitada, jax cerrou-lhe os olhos; depois, colocou de novo o elmo na cabea do primo e apertou firmemente as correias; as lgrimas caam-lhe cada vez mais
rpidas, a boca retorcia-se num esgar aflito.
Estava morto. Aquiles estava morto. Alguma vez conseguiramos suportar a dor da sua morte?
Por um largo momento, o choque deve ter reduzido os dois exrcitos  mais absoluta imobilidade; de sbito, porm, os Troianos caram sobre ns como ces lambendo
o sangue de homens. Queriam o corpo e a armadura. Ulisses correu de imediato para ns, sem se preocupar com as suas lgrimas. Um silncio imenso apoderara-se dos
Mirmides: diante dos seus olhos abismados, o impossvel tornara-se realidade. Curvando-se, Ulisses pegou na Velha Plion e brandiu-a defronte dos seus rostos.
- Vo deixar que eles o levem? - gritou. - S os baixos truques de um vilo poderiam ter morto Aquiles! Vo ficar a parados e deixar que eles roubem o corpo do
vosso querido chefe? Em nome de Aquiles, ordeno-vos que o defendam!
Os Mirmides acordaram do estupor em que o choque os deixara e voltaram a formar; nenhum troiano se aproximaria de Aquiles enquanto um nico dos seus sol-

#dados fosse vivo. Formando diante de ns, aguentaram a carga inimiga com uma mgoa selvagem. Ulisses ajudou jax a erguer-se, ajudou-o a erguer nos seus braos
a frouxa e pesada forma. As lgrimas continuavam a deslizar pelas faces de jax.
- Leva-o para l do campo de batalha, jax. Eu no permitirei que eles penetrem nas nossas linhas.
Como se de sbito se tivesse lembrado de um pormenor importante, Ulisses enfiou a Velha Plion na mo direita de jax e empurrou-o para que ele no tardasse mais.
Sempre nutri srias reservas relativamente a Ulisses, mas a verdade  que Ulisses era um rei. Com a espada na mo, virou-se e fincou os ps na terra ainda fumegante
do sangue de Aquiles. Aguentmos a carga troiana e repelimo-la. Quando viu jax afastando-se, Eneias desatou a uivar como um chacal. Virei-me para Ulisses.
- jax  forte, mas no suficientemente forte para ir muito longe com Aquiles nos seus braos. Deixa-me ir atrs dele. Poderei depois levar Aquiles no carro.
Ulisses concordou. E foi assim que conduzi os cavalos na direco de jax, que acabava de abandonar as linhas e se arrastava pesadamente na direco da praia. Estava
eu ainda demasiado longe para ajudar, quando um carro passou por mim a toda a velocidade. O seu condutor queria apanhar jax. Um dos filhos de Pramo seguia no carro,
pois levava as insgnias cor de prpura da Casa de Drdano na sua couraa. Enquanto procurava dar um novo nimo aos meus cavalos, gritei para jax, a fim de o avisar
do perigo. Mas jax pareceu nada ouvir.
O prncipe troiano saltou do seu poleiro, empunhando a espada, sorridente.
O que revelava que no conhecia jax, que continuou a andar como se nada tivesse acontecido. De sbito, ergueu Aquiles mais alto nos seus braos e trespassou o troiano
com a Velha Plion. Ulisses fizera bem em entregar-lha.
- jax, deita Aquiles no carro - disse eu, aproximando-me dele.
- No. Eu levo-o.
-  demasiado longe. Vais dar cabo de ti. -Eu levo-o!
- Deixa-me pelo menos tirar-lhe a armadura - disse eu, desesperado. Eu levo-a no carro. No faz sentido que leves a armadura.
- Sim, tens razo. Desse modo, poderei sentir o corpo do meu querido primo, e no o metal que o envolve. Podes tirar-lhe a armadura.
Depois de termos libertado Aquiles daquele peso horrendo, jax continuou a sua caminhada, embalando o primo, beijando-lhe o rosto destroado, falando com ele, cantarolando
como uma me adormecendo uma criana.
O exrcito seguia-nos lentamente, ao longo da plancie; mantive o carro a uma escassa distncia de jax; as suas pernas imensas arrastavam-se num esforo sublime;
dir-se-ia que jax seria capaz de caminhar cem lguas com Aquiles nos seus braos.
O deus contivera a sua dor demasiado tempo. Por fim, deixou-a cair sobre as nossas cabeas, e toda a abbada celeste rompeu a disparar brancos raios de fogo. Os
cavalos estremeceram e pararam, agrilhoados pelo medo; at mesmo jax parou, enquanto os troves ribombavam por sobre as humanas cabeas e os relmpagos desenhavam
nas nuvens um fantstico rendilhado. A chuva libertou-se finalmente, gotas imensas e pesadas descendo  terra nitidas e esparsas, como se o deus estivesse demasiado
comovido para chorar abundantemente. Porm, depressa as lgrimas se transformaram em dilvio e, ao fim de algum tempo, j ns chapinhvamos num mar de lama. O exrcito
avanou connosco, agora que o Senhor do Trovo obrigara ao fim de toda a refrega. Todos juntos, passmos com Aquiles o Escamandro, jax  frente e o rei imediatamente
atrs. Sob o dilvio, deitmo-lo num esquife, enquanto o Pai lhe limpava o sangue com lgrimas do cu.
Eu e Ulisses dirigimo-nos imediatamente  casa de Aquiles, a fim de falarmos com Briseida. Ela estava  porta, parecia esperar-nos.
- Aquiles morreu - disse Ulisses.
- Onde est ele? - perguntou ela, com uma voz imperturbvel.
- Diante da casa de Agammnon. - Ulisses estava ainda a chorar. Briseida afagou-lhe o brao e sorriu.
- No h razo para lgrimas, Ulisses. Aquiles ser imortal. Tinham instalado um dossel sobre o esquife para proteger da chuva o corpo de Aquiles; Briseida mergulhou
sob o dossel e ficou parada a olhar para as runas daquele homem magnfico, gua e sangue diluindo o brilho do seu cabelo, o rosto lvido e imvel. Perguntei-me
se ela estaria a ver o mesmo que eu: aquela boca sem lbios parecia magnfica na morte, ao contrrio do que sempre fora em vida.
Com aquela boca, o seu rosto era o rosto do perfeito guerreiro.
Porm, o que Briseida pensaria, nunca o cheguei a saber, porque ela no o revelou, nem ento, nem nunca. Com ternura extrema, curvou-se e beijou-lhe as plpebras
e pegou nas suas mos e juntou-as sobre o peito e s parou de lhe ajeitar a roupa quando achou que Aquiles estava bem.
Mas ele estava morto. Aquiles estava morto. Alguma vez conseguiramos suportar a dor da sua morte?
Sete dias chormos a sua morte. No ltimo dia, quando o Sol se despedia j da terra, deitmo-lo no carro fnebre de ouro e levmo-lo para a outra margem do Escamandro,
para o tmulo no penhasco. Briseida foi connosco, pois ningum tinha coragem de a impedir de assistir  cerimnia; vinha no final do longo cortejo, as mos entrelaadas,
a cabea curvada. jax amparou a cabea de Aquiles

#com a palma da mo, enquanto, sobre um escudo, o transportvamos para a cmara fnebre. Estava vestido de ouro, mas no com a armadura de ouro. A armadura ficara
sob a custdia de Agammnon.
Depois de os sacerdotes terem pronunciado as palavras rituais, colocado a mscara de ouro sobre o rosto de Aquiles e procedido s libaes, abandonmos com passos
lentos o tmulo que ele partilhava com Ptrocles, Pentesileia e doze jovens nobres troianos. A atmosfera que reinava no tmulo era mais estranha do que todos os
estranhos portentos e eventos a que havamos assistido naqueles dias; uma atmosfera doce, pura, inefvel. No clice de ouro, o sangue dos doze jovens continuava
lquido, e to intensamente carmim como no primeiro dia.
Virei-me para verificar se Briseida vinha atrs de ns. No vinha. Estava ajoelhada junto ao carro funerrio. Ainda que no pudesse alcan-la rapidamente, corri
para o tmulo, com Nestor a meu lado. Emudecemos ao v-la enterrar o punhal no peito com as poucas foras que lhe restavam. Num pice, caiu sem vida. Sim, Briseida
tomara a deciso correcta! Como poderamos ns enfrentar a luz de mais um dia sem Aquiles? Curvei-me para apanhar o punhal, mas Nestor deteve-me.
- Vamos embora, Automedonte. Eles no querem mais ningum aqui. Os festejos fnebres realizaram-se no dia seguinte, mas no houve jogos. Agammnon explicou-nos as
suas razes.
- Duvido que haja algum com nimo para disputar jogos, sejam eles quais forem. Mas no  essa a principal razo. A principal razo reside no facto de que Aquiles
no queria ser enterrado com a armadura que a me - uma deusa - encomendou a Hefasto. Aquiles queria que essa armadura fosse dada como prmio ao melhor dos homens
do nosso exrcito. Em vez de jogos fnebres.
No pus em causa as suas palavras, mas a verdade  que Aquiles nunca tal me dissera.
- Como vais decidir quem  o melhor dos nossos homens? Levando em conta os feitos de armas? O problema  que, por vezes, os feitos de armas no constituem uma prova
evidente de uma grandeza genuna.
- Precisamente - disse o rei supremo. - Foi por isso que decidi fazer um torneio de palavras. Quem achar que  o melhor dos homens que restam no nosso exrcito,
que avance e que apresente as suas razes.
Apenas dois contendores avanaram. jax e Ulisses. Um combate sem dvida singular! Eles representavam os dois plos da grandeza: o guerreiro e o - que haveramos
ns de chamar-lhe? O homem que usava todas as suas faculdades mentais para atingir os seus fins?
- Sim, estou de acordo - disse Agammnon. - jax, tu trouxeste o corpo de Aquiles para o nosso acampamento. Ulisses, tu tornaste possvel que isso acontecesse. jax,
falars tu primeiro. Diz-me porque pensas que mereces a armadura.
jax parecia to perturbado como seco de palavras; levantou-se, o maior gigante que jamais vira, incapaz de dizer fosse o que fosse. O seu aspecto era tambm lastimoso;
havia algo de errado no seu lado direito, desde o rosto at  perna. Vira-o arrastar essa perna durante o cortejo e o brao direito tambm no se movia de uma forma
natural. Uma ligeira trombose, pensei. jax sofrera uma ligeira trombose. O facto de ter carregado durante tanto tempo com o corpo do primo afectara a parte mais
frgil de jax, a sua mente. Quando finalmente falou, jax teve de fazer longas pausas, pois no encontrava as palavras certas.
- Imperial rei dos reis, amigos reis e prncipes... Eu sou primo direito de Aquiles. O pai dele, Peleu, e o meu pai, Tlamon, eram irmos germanos. O pai deles,
aco, era filho de Zeus.  grandiosa, a nossa linhagem.  grandioso, o nosso nome. A armadura dever ser minha porque a minha linhagem  essa, porque o meu nome
 esse. No posso permitir que a armadura de Aquiles seja dada a um homem que  filho bastardo de um vulgar ladro.
Os vinte homens presentes agitaram-se nas suas cadeiras, franziram o sobrolho intrigados. Que estava jax a fazer? A injuriar Ulisses? No que Ulisses reagisse;
como que surdo, limitava-se a olhar para o cho.- Eu vim para Tria voluntariamente, tal como Aquiles. No havia nenhum juramento a prender-nos. No fui eu quem
foi desmascarado por fingir que estava louco, mas sim Ulisses. Apenas dois homens neste grande exrcito travaram um duelo com Heitor - Aquiles e eu. Eu no precisei
de um Diomedes para fazer o trabalho sujo por mim. Que far Ulisses com a armadura? De que lhe servir? A sua frgil mo esquerda nunca poderia arremessar convenientemente
a Velha Plion. A sua cabea ruiva afundar-se-ia sob o peso daquele elmo. Se duvidam do meu direito  propriedade do meu primo, atirem-na para o meio de um bando
de troianos - e vero qual de ns a resgatar!
Voltou coxeando para a sua cadeira, sentou-se pesadamente. Agammnon parecia embaraado, mas era evidente que a maior parte dos presentes concordava com o que jax
dissera. Perplexo, examinei Ulisses. Por que estranha razo pretenderia ele a armadura?
Ulisses avanou e postou-se diante de ns, adoptando uma atitude descontrada, com as pernas bem separadas, o fogo da cabeleira acentuado pela luz. Ruivo e canhoto,
pensei. De certeza que no corre sangue divino naquelas veias.
-  verdade que tentei furtar-me  guerra de Tria - disse Ulisses. - Eu sabia quanto tempo esta guerra iria durar. Se no tivesse havido o juramento, quantos de
vs teriam participado voluntariamente nesta expedio se soubessem que ela iria durar tanto tempo?
- No que toca a Aquiles, eu sou a nica razo por que ele veio para Tria eu, e mais ningum, descobri o plano que fora urdido para o manter em Ciros.

#jax estava presente, mas no entendeu nada. Perguntem a Nestor: ele confirmar as minhas palavras.
Quanto a linhagens, ignoro as vis insinuaes de jax. Tambm eu sou bisneto do omnipotente Zeus.
No que toca a coragem fsica, haver algum que duvide da minha? Eu no possuo o corpo de um gigante para escorar essa coragem, mas a verdade  que sempre me sa
muito bem em todos os campos de batalha. Se duvidam disso, contem as minhas cicatrizes. O rei Diomedes  meu amigo e amante, no meu lacaio.
Fez uma pausa, ainda que por razes diversas das de jax. Ulisses no tinha o menor problema com as palavras.
- Eu pretendo a armadura para mim por uma nica razo - porque quero dar-lhe o destino que Aquiles pretendia que lhe fosse dado.
Se eu no posso enverg-la, poder jax? Se  demasiado grande para mim, certamente que  demasiado pequena para ele. Dem-me a armadura. Eu mereo-a.
Ergueu os braos num gesto largo, como que a dizer que os seus motivos eram incontestveis, aps o que regressou  sua cadeira. Muitos vacilavam agora, mas a nossa
opinio pouca importncia teria. A deciso caberia sempre a Agammnon.
O rei supremo olhou para Nestor.
- Que achas, Nestor? Nestor suspirou.
- Que Ulisses merece a armadura.
- Que assim seja, ento. Ulisses, a armadura  tua. jax gritou logo que ouviu tais palavras. Empunhou a espada, mas no chegou a fazer o que pretendia fazer com
ela. Mal se levantou, estatelou-se no cho e a ficou. Tentmos levant-lo, mas todos os nossos esforos foram vos. Por fim  ' Agammnon ordenou que trouxessem
uma maca e oito soldados levaram-no. Ulisses colocou a armadura num carro de mo enquanto os reis dispersavam, pesarosos e abatidos. Quanto a mim, fui beber vinho,
na esperana de que o vinho curasse o azedume que me corroa. Quando Ulisses conclura o seu breve discurso, ficramos a saber o que pretendia ele fazer com a armadura
- d-la a Neoptolemo. Talvez em Tria fosse possvel oferecer a armadura de um morto, como se de um simples presente se tratasse. Contudo, na nossa regio do mundo,
a armadura de um morto, ou era enterrada com ele, ou era disputada nos seus jogos fnebres. E era pena que assim fosse. Tendo em conta aquele desfecho, era verdadeiramente
lamentvel.
Havia muito tempo que a noite cara quando desisti de me embriagar. Caminhei pelas ruas desertas, entre os elevados edifcios, procurando uma luz, uma nica luz,
um stio qualquer que me pudesse oferecer algum conforto. E ali estava ela, finalmente, uma luz solitria na noite! Era a casa de Ulisses. A cortina da porta no
fora ainda baixada e por isso entrei, com um passo vacilante, vergado pela fadiga.
Ulisses estava sentado ao lado de Diomedes, os olhos perdidos nas ltimas brasas da fogueira, a mente perdida em silenciosas reflexes. Tinha o brao sobre os ombros
do rei de Argos, os seus dedos acariciavam lentamente o ombro nu do amante. Eram to fortes os laos que os uniam que, ao v-los assim, senti-me como um co sem
dono, senti-me ainda mais s do que efectivamente estava. Aquiles estava morto. E era eu quem conduzia os Mirmides, eu que no nascera para comandar. Uma situao
verdadeiramente aterradora. Abeirei-me da luz e afundei-me numa cadeira.
- Perturbo? - perguntei ento, algo tardiamente. Ulisses sorriu.
- De modo nenhum. Toma, bebe.
O meu estmago todo se revolveu.
- No, obrigado. Tenho andado toda a noite a tentar embriagar-me, mas sem o menor xito.
- To sozinho, Automedonte? - perguntou Diomedes.
- Mais s do que jamais quis estar. Como posso eu substitu-lo? Eu no sou Aquiles!
- No te preocupes - murmurou Ulisses. - H dez dias, enviei um mensageiro a Neoptolemo, dizendo-lhe que viesse. Tomei essa deciso quando vi as sombras da morte
enegrecendo o rosto de Aquiles. Se os ventos e os deuses o ajudarem, Neoptolemo no tardar a chegar a Tria.
Senti um alvio to grande que quase o beijei.
- Agradeo-te do fundo do corao, Ulisses! Os Mirmides tm de ser comandados pelo sangue de Peleu.
- No me agradeas por ter tomado uma deciso sensata. E ali ficmos sentados, falando disto e daquilo enquanto a noite se ia escoando, cada um de ns encontrando
nos outros o consolo de que tanto precisava. A certa altura, tive a sensao de que ouvira um longnquo tumulto; porm, como o barulho se esbateu rapidamente, voltei
a concentrar-me naquilo que Diomedes estava a dizer.
At que ouvimos um grito imenso; desta feita, todos ouvimos. Diomedes levantou-se de um salto, to intenso e vigilante como uma pantera, procurando de imediato a
sua espada, enquanto Ulisses continuou sentado, sem saber muito bem o que havia de fazer, a cabea empinada, os ouvidos alerta. O tumulto redobrou de intensidade;
samos imediatamente e avanmos para o local de onde vinham os gritos.
Ao fim de pouco tempo, estvamos na margem do Escamandro, onde mantnhamos um curral de animais destinados a sacrifcios - cada um deles individualmente escolhido,
consagrado e marcado com um smbolo sagrado. Alguns

#dos outros reis j l estavam e um guarda impedia o acesso daqueles que eram movidos pela mera curiosidade. Claro que o guarda nos deixou passar imediatamente;
juntmo-nos a Agammnon e Menelau, que se encontravam ao p da cerca que rodeava o curral, perscrutando um qualquer objecto que pairava algures no meio da escurido
extrema. Ouvimos gargalhadas dementes, uma voz que dizia coisas perfeitamente incoerentes e que se erguia cada vez mais alto, gritando para as estrelas, berrando
a sua raiva e o seu escrnio.
- Este golpe  para ti, Ulisses, filho de um ladro! Morre, verme! Morre, sicofanta! O teu nome  Menelau!
E a ladainha prosseguia, enquanto ns sondvamos as trevas sem nada enxergarmos. At que algum deu um archote a Agammnon, que o ergueu bem alto, espalhando a luz
por um vasto espao. Os meus olhos esbugalharam-se de horror.
O meu estmago, que continha apenas vinho pois eu tinha recusado toda a comida, parecia erguer-se em espasmos; afastei-me dos outros e vomitei. A luz do archote
iluminava um mar de sangue. Ovelhas e vacas e cabras jaziam em lagos de sangue, os olhos vidrados e fixos, os corpos desmembrados, as gargantas cortadas, as peles
exibindo por vezes dezenas de feridas. Ao fundo, jax saltava com uma espada ensaguentada na mo. A sua boca s se abria para berrar insultos ou para romper naquelas
gargalhadas que nos faziam gelar o sangue. Com o outro brao, agarrava um vitelinho que, aterrado, escoiceava contra a implacvel fora bruta do gigante. De nada
lhe valeu, pois jax encheu-o de golpes. De cada vez que a sua espada penetrava no pobre animal, jax chamava ao vitelo Agammnon. Por fim, rompeu em novas e dementes
gargalhadas.
- Ah, quem me dera ser cego para no ver isto! Ao que ele chegou! - murmurou Ulisses.
Conseguindo controlar as nsias de vmito, perguntei a Ulisses:
- O que  que se passa com jax?
- Loucura, Automedonte. jax enlouqueceu.  o resultado de diferentes coisas. Aquela cabea sofreu demasiados golpes ao longo dos anos - demasiado sofrimento - talvez
uma trombose, tambm. Mas chegar a este ponto ... ! Pobre jax! S espero que ele no recupere o suficiente para entender o que fez.
- Temos de det-lo! - disse eu.
- Se quiseres, experimenta tu, Automedonte. Mas no me peas a mim que enfrente jax no meio de um acesso de loucura.
- Nem a mim - disse Agammnon. Assim, tudo o que fizemos foi ficar ali a ver.
Com o alvorecer, a loucura esfumou-se. jax recuperou o entendimento no meio de um lago de sangue que lhe chegava aos tornozelos. Ps-se a olhar  sua volta como
se estivesse no meio de um pesadelo - para as dezenas de animais consagrados que os rodeavam, para o sangue que o cobria da cabea aos ps, para a espada que tinha
na mo, para os reis que, em silncio, o observavam para l da cerca. Tinha ainda uma cabra numa das mos, medonhamente mutilada, sem pinga de sangue nas veias agora
mortas. Com um guincho de horror, deixou cair o animal, compreendendo finalmente o que fizera durante a noite. Depois, correu para a cerca e saltou por cima dela
e rompeu numa fuga tresloucada, como se as Frias estivessem j a persegui-lo. Teucro deixou-nos sem demora e foi no seu encalo; quanto aos outros chefes gregos,
incluindo eu, ficaram onde estavam, demasiado abalados para fazerem fosse o que fosse.
Menelau foi o primeiro a conseguir falar.
- Vais permitir que ele escape impune, irmo? - perguntou ele a Agammnon.
- Que queres que eu faa, Menelau?
- jax tem de morrer! jax matou os animais sagrados! A morte  o nico castigo possvel! So os deuses que no-lo exigem!
Ulisses suspirou.
- Os homens que os deuses mais amam so precisamente aqueles que os deuses mais depressa condenam  loucura - disse. - Deixa-o em paz, Menelau.
- Ele tem de morrer! - insistiu Menelau. - Executa-o e no deixes que nenhum homem cave a sua sepultura!
-  Sim, essa  a punio prevista - murmurou Agammnon.
- No, no, no! - exclamou Ulisses. - Deixem-no em paz! No te basta que jax se tenha condenado a si mesmo, Menelau? S por causa do que fez esta noite, a sombra
dele nunca mais sair do Trtaro! Deixem-no em paz! No lancem mais achas para a fogueira que devasta aquela desgraada cabea!
- Ulisses tem razo - disse Agammnon, afastando-se j da carnificina. jax est louco, irmo. Ele que expie o seu crime o melhor que puder.
Ulisses, Diomedes e eu avanmos pelas ruas e por entre os murmrios dos homens, gelados de medo com o que se passara. O nosso destino era a casa onde jax vivia
com a sua primeira concubina, Tecmessa, e com o filho de ambos, Eursaces. Quando Ulisses bateu  porta trancada, Tecmessa espreitou a medo pela janela. S depois
abriu a porta, com o filho encostado a ela.
- Onde est jax? - perguntou Diomedes. A mulher secou as lgrimas.
- Foi-se embora, rei Diomedes. No sei para onde. Ele disse que ia banhar-se nas guas do mar, a fim de que Palas Atena pudesse perdoar-lhe. - As lgrimas voltaram,
mas logo Tecmessa conseguiu cont-las. - jax deu o escudo ao filho. Disse que o escudo era a sua nica arma que no fora manchada pelo sacri-

#lgio. Disse-nos ainda que todas as outras armas deveriam ser enterradas com ele. Por fim, deixou-nos entregues aos cuidados de Teucro. Digam-me, por favor: que
se passa com ele? O que  que ele fez?
- O que ele fez, nunca o compreender, Tecmessa. Fica em casa, ns encontr-lo-emos.
Estava na praia, no stio onde as suaves ondas se enrolavam delicadamente, demandando a lagoa, e onde umas quantas rochas se erguiam sobre a areia grossa. Teucro
estava ao seu lado, ajoelhado, curvado sobre ele - o firme Teucro, que pouco falava, mas que estava sempre presente quando jax precisava dele. Mesmo agora, no derradeiro
momento.
A cena falava por si mesma: uma rocha plana, uns quantos dedos acima da areia grossa, a superfcie fendida por algum golpe do tridente de Poseidon, o punho da espada
enfiado numa das fendas, com a lmina para cima. jax despira a armadura e banhara-se no mar; na areia, desenhara uma coruja, smbolo de Atena, e um olho, smbolo
da Me Kubaba. Depois, encostara o peito  ponta da espada e cara sobre ela com todo o seu peso; a espada trespassara-o no centro do peito e sara pela espinha.
Dois cbitos de lmina espreitavam por sobre a espinha. O rosto banhava-se no seu prprio sangue, os olhos cerrados, traos de loucura ainda nos seus traos. As
mos enormes caam moles, os dedos ligeiramente encurvados.
Teucro ergueu os olhos e fitou-nos com uma expresso amarga. Quando os seus olhos se detiveram em Ulisses, disseram-lhe, muito claramente, que era ele o nico culpado.
No sei o que Ulisses pensou nesse momento. S sei que no vacilou.
- Que podemos fazer? - perguntou a Teucro.
- Nada - disse Teucro. - Eu prprio o enterro. -Aqui? -perguntou Diomedes, horrorizado. - No, ele merece melhor!
- Sabes que isso no  verdade. Ele tambm sabia. Eu tambm sei. jax ter aquilo que as leis dos deuses dizem que ele merece - a sepultura de um suicida.  tudo
o que eu posso fazer por ele.  tudo o que resta entre mim e ele. Ele ter de pagar na morte, tal como Aquiles pagou em vida. Foi isso mesmo que ele disse antes
de morrer.
Deixmos os dois irmos sozinhos. Os dois irmos que lutavam sempre juntos, o mais pequeno sob o escudo do gigante. Em oito dias, Aquiles e jax tinham desaparecido
- o esprito e o corao do nosso exrcito.
- Ai! Ai! - exclamou Ulisses, as lgrimas deslizando-lhe pelas faces. Quo estranhos so os caminhos dos deuses! Aquiles arrastou Heitor junto s muralhas de Tria
com o boldri que jax lhe oferecera. Agora, jax matou-se com a espada que Heitor lhe dera. - O seu rosto desfigurou-se de sbito, moldado pela mais extrema raiva.
- Pela Me, estou to farto de Tria ... ! Odeio at o cheiro do ar de Tria!
Captulo Vigsimo Nono
Narrado por Agammnon

Os dias de guerra aberta tinham acabado; Pramo fechara a Porta Ceia e espreitava-nos das suas torres. Uma mancheia de chefes troianos e aliados sobrevivera, mas,
dos grandes comandantes, s Eneias restava. Mortos os filhos que mais amara, Pramo pouco consolo encontraria agora nos inteis. Aquele era um tempo de espera, enquanto
as nossas feridas cicatrizavam e os nossos espritos recuperavam lentamente o nimo. Um facto curioso acontecera, uma prenda dos deuses com que nenhum de ns sequer
sonhara: Aquiles e jax pareciam ter impregnado de forma indelvel o esprito de cada um dos soldados gregos. No havia um nico que no estivesse determinado a
conquistar as muralhas de Tria. Referi o fenmeno a Ulisses, pois gostaria de saber o que pensava ele sobre o assunto.
- No h nisso mistrio nenhum - retorquiu Ulisses. - Aquiles e jax transformaram -se em heris e os heris nunca morrem. O que os homens esto a fazer  muito
simples: esto a assumir plenamente as responsabilidades que Aquiles e jax lhes deixaram. Alm disso, esto desejosos de voltar para casa. Mas no derrotados. A
nica vingana possvel para os acontecimentos destes dez anos de exlio  a queda de Tria. Pagmos um preo muito elevado por esta campanha - um preo de sangue,
de cabelos brancos, de coraes dilacerados, de rostos que amamos mas que, agora, muito provavelmente, no seramos capazes de reconhecer, de lgrimas, de um amargo
vazio. A pouco e pouco, Tria foi-nos corroendo a todos. Ningum se atrever a regressar  ptria antes de ver as runas de Tria, tal como ningum se atrever a
profanar os Mistrios da Me.
- Nesse caso - disse eu -, pedirei conselho a Apolo.
- Apolo  muito mais troiano do que grego.
- Mesmo assim, pedir-lhe-ei conselho. Apolo  a boca oracular. Perguntar-lhe-ei que temos ns de fazer para entrar em Tria. Apolo no pode negar uma

#resposta sincera aos mais altos representantes de um povo - seja qual for esse povo!
O sumo-sacerdote, Taltbio, examinou as refulgentes entranhas do sagrado fogo e suspirou. Taltbio em nada se assemelhava a Calcas; sendo grego, usava o fogo e a
gua para adivinhar, deixando os animais unicamente para os sacrifcios. Por outro lado, tambm no anunciava as suas descobertas durante o augrio propriamente
dito. S as revelava perante a assembleia dos reis.
- Que viste, Taltbio? - perguntei-lhe.
- Muitas coisas, rei supremo. O meu entendimento no chegou para algumas delas. Duas houve, porm, que me foram plenamente reveladas.
- Que coisas foram essas?
- Em primeiro lugar, no poderemos conquistar a cidade com aquilo que temos. H um objecto e uma pessoa que os deuses muito apreciam e de cujo apoio precisamos.
Se eles estiverem connosco, os deuses deixar-nos-o entrar em Tria. Caso contrrio, o Olimpo unir-se- contra ns.
- Que objecto e que pessoa so esses, Taltbio?
- Em primeiro lugar, trata-se do arco e das flechas de Hracles. Quanto  pessoa,  Neoptolemo, o filho de Aquiles.
- Obrigado, sumo-sacerdote. Podes retirar-te. Observei os rostos dos reis. Idomeneu e Merona tinham uma expresso to grave quanto triste; o meu pobre irmo Menelau
tinha o mesmo ar de sempre; Nestor estava to velho que todos ns temamos por ele; Menesteu continuava a cumprir sem queixas os seus deveres de soldado; Teucro
no perdoara a nenhum de ns; Automedonte continuava inconsolvel, pois no queria comandar os Mirmides; e Ulisses - ah, Ulisses! Quem poderia saber o que se passava
no fundo daqueles olhos to belos, to luminosos?
- No dizes nada, Ulisses? Sabes onde esto o arco e as flechas de Hracles. Que possibilidades teremos ns de os reaver?
Ulisses levantou-se lentamente. -Ao longo de quase dez anos, no recebemos nenhuma notcia de Lesbos.
- Ouvi dizer que ele tinha morrido - disse Idomeneu com um ar sombrio. Ulisses desatou a rir-se.
- Quem? Filoctetes, morto? Nem com o veneno de uma dzia de vboras! Acredito que Filoctectes est vivo e continua em Lesbos. Temos, pelo menos, de tentar. Quem
dever ir, Agammnon?
- Tu e Diomedes. Vocs eram amigos de Filoctetes. Se ele tem de ns boas recordaes, isso dever-se- a ti e a Diomedes. Partam imediatamente para Lesbos e peam-lhe
o arco e as flechas que herdou de Hracles. Digam-lhe que guardmos a parte que lhe cabe dos despojos e que nunca nos esquecemos dele - disse eu.
Diomedes estirou-se.
- Um dia ou dois no mar! Uma ptima ideia!
- Mas falta resolver o problema de Neoptolemo - disse eu. - Teremos de esperar mais de uma lua pelo filho de Aquiles - se o velho Peleu o deixar vir.
Ulisses, que j estava  porta, virou-se para mim.
- No te preocupes, Agammnon: eu j tratei disso. H mais de meia lua que mandei uma mensagem a Neoptolemo, para que viesse sem demora para Tria. Quanto a Peleu,
proponho que faamos oferendas ao Pai Zeus!
Oito dias passados, a vela cor de aafro do navio de Ulisses voltou a surgir no horizonte. O corao num alvoroo, esperei na praia, junto aos ancoradouros vazios.
Mesmo supondo que sobrevivera, Filoctetes estava em Lesbos h dez anos e nunca nos mandara uma mensagem que fosse. E os nossos mensageiros tambm nunca o haviam
encontrado. E as doenas podiam devastar implacavelmente a mente de um homem... Bastava pensar no caso do pobre jax.
Ulisses vinha na proa, acenando-nos alegremente. Suspirei de alvio, um imenso alvio. Ulisses podia ser o mais tortuoso dos homens, mas no sorriria assim se tivesse
falhado. Menelau e Idomeneu juntaram-se a mim. Nenhum de ns sabia exactamente o que esperar daquele navio. Tnhamos visto Filoctetes s portas da morte; e, caso
tivesse sobrevivido, com certeza que ficara sem a perna. Imaginava j Filoctetes mutilado, uma runa de cabelos brancos; de certeza que no era aquele homem que
subira  amurada e que saltara os muitos cbitos que separavam a amurada do cho to lpido como um rapaz. Mas era mesmo ele ... ! No mudara nada! A passagem dos
anos no se notava nele! Tinha uma bela barba loura e envergava apenas um saiote. Dependurado do ombro, um arco poderoso e uma velha aljava repleta de flechas. Sabia
que Filoctetes tinha pelo menos quarenta e cinco anos, mas o seu corpo rijo e bronzeado parecia ter menos dez e as suas pernas poderosas continuavam perfeitas. A
nica coisa que podia fazer era olhar para ele boquiaberto.
- Porqu, Filoctetes, porqu? - foi tudo o que consegui dizer-lhe quando nos sentmos em minha casa, partilhando o nosso vinho.
- A resposta  simples, Agammnon... Deixa-me contar-te a histria do princpio ao fim.
- Conta-me tudo, peo-te - disse eu, pela primeira vez feliz desde que Aquiles e jax tinham morrido. Era esse o efeito que Filoctetes tinha em ns; ele enchia de
vida e animao as minhas velhas e bolorentas salas.
- Precisei de um ano para recuperar todas as minhas faculdades mentais e o uso da minha perna - comeou Filoctetes. - Receando que o povo de Lesbos me hostilizasse
por eu ser grego, os meus criados levaram-me para o cume de uma montanha e fizeram de uma gruta a minha casa. Era uma montanha a oeste de Termos e

#Antissa. A aldeia, ou mesmo a quinta, mais prxima, ficava a muitas lguas de distncia. Os meus criados eram fiis e leais: por isso, ningum sabia quem eu era,
nem onde eu estava. Imagina a minha surpresa quando Ulisses me disse que Aquiles saqueara Lesbos quatro vezes nestes ltimos dez anos! Eu no sabia de nada!
- Bom,  natural que no soubesses: s as cidades  que so saqueadas - disse Merona.
- Claro, claro.
- Mas no te aventuraste a sair da tua toca, depois de teres recuperado? - perguntou Menelau.
- No - retorquiu Filoctetes. - No me aventurei. Apolo apareceu-me num sonho. Disse-me que ficasse onde estava. Foi o que eu fiz e, para ser franco, no me custou
nada. Dediquei-me  caa. Matava veados e javalis; depois, na aldeia mais prxima, os meus criados trocavam a carne por vinho ou figos ou azeitonas. Era uma vida
idlica, meus amigos! No tinha preocupaes, no tinha nenhum reino para governar, no tinha responsabilidades. Os anos iam passando, eu sentia-me feliz, e nunca
me passou pela cabea que esta guerra pudesse ainda durar. Pensava que j tinham regressado todos  Grcia.
-At que ns subimos ao cume da montanha e te encontrmos - disse Ulisses.
- Apolo disse-te que podias vir para Tria? - perguntou Nestor.
- Sim. E estou muito contente por poder participar nesta guerra. Um mensageiro surgira entretanto e segredara qualquer coisa a Ulisses, que se levantou imediatamente
para acompanhar o homem  porta. Quando voltou, tinha uma expresso cmica, to grande era a sua surpresa.
- Agammnon - disse-me ele -, um dos meus agentes informou-me de que Pramo est a planear uma nova batalha. O exrcito troiano concentrar-se- junto das nossas
muralhas, amanh, muito antes do alvorecer, com ordens para atacar enquanto estivermos a dormir. No acham interessante? Uma violao flagrante das leis que governam
a guerra. Aposto que a ideia foi de Eneias.
- Francamente, Ulisses! - disse Menesteu, inesperadamente, fazendo um rudo trocista com os lbios. - Quem s tu para criticares as violaes dos outros? H anos
que tu no fazes outra coisa!
A boca de Ulisses contorceu-se.
- Sim, o que dizes  verdade, Menesteu. Mas tambm  verdade que Tria nunca violou nenhuma dessas leis.
- Pelos vistos, vo viol-las pela primeira vez - disse eu. - Ulisses, autorizo-te a usares de todos os meios para que possamos entrar nas muralhas de Tria.
- Nesse caso... proponho que os matemos  fome! - retorquiu ele imediatamente.
Todos os meios... menos esse - disse eu.
Era noite cerrada quando formmos; a escurido demoraria ainda muito a dissipar-se. Eneias depressa concluiu que as suas movimentaes haviam sido demasiado lentas.
Eu prprio conduzi o assalto. Destromos por completo o exrcito troiano, mostrando-lhes do que ramos capazes mesmo sem Aquiles e jax. Constrangidos devido 
baixeza dos planos de Eneias, os Troianos entraram em pnico quando camos sobre eles. Tudo o que tivemos de fazer foi persegui-los e abat-los s centenas.
Filoctetes usou as flechas de Hracles com um efeito devastador. Desenvolvera um novo sistema: os homens corriam para todas as suas vtimas, arrancavam as preciosas
flechas, limpavam-nas e devolviam-nas  aljava.
Aqueles que escaparam, fugiram para a cidade; a Porta Ceia fechou-se nas nossas barbas. A batalha fora breve. Mal o Sol nasceu, vimos os campos juncados de cadveres
troianos; a derradeira flor de Tria fora finalmente abatida.
Idomeneu e Merona vieram ter comigo, com Menelau na sua esteira; logo a seguir, surgiram os outros, fazendo um crculo com os carros, a fim de discutirmos a batalha.
- No h dvida, Filoctetes: as flechas de Hracles possuem uma estranha magia - disse eu.
Filoctetes sorriu.
- Admito que gostam mais deste trabalho do que da caa ao veado, Agammnon. Porm, quando os meus homens contarem as minhas flechas, verificaro que faltam trs.
- Fitou Automedonte, que se sara muito bem  frente dos Mirmides. - Tenho boas notcias para ti e para os Mirmides.
- Boas notcias? - perguntou Automedonte.
- Belssimas notcias! - exclamou Filoctetes. - Consegui forar Pris a travar um duelo comigo. Um dos nossos soldados indicou-me quem era Pris.
Furtivamente, fui-me abeirando dele. Por fim, surpreendi-o num local onde no encontraria nenhum esconderijo. Desatei a enaltecer as minhas proezas como archeiro
e a escarnecer do seu pequeno arco, dizendo-lhe que a sua arma era boa para as mozinhas delicadas da mais delicada das donzelas... Como, aos olhos dele, eu tanto
podia ser um soldado troiano como um mercenrio assrio, Pris caiu na armadilha e aceitou o meu desafio. A fim de lhe aguar o apetite, disparei desajeitadamente
a minha primeira flecha. Mas tenho de admitir que ele tem uma pontaria ptima. Se no tivesse erguido rapidamente o escudo, a primeira flecha dele ter-me-ia acertado
em cheio no diafragma. Depois, tratei-lhe da sade. A primeira flecha cravou-se na mo que retesava o arco, a segunda no calcanhar direito - pensei que era um alvo
adequado, tendo em conta que foi ele quem matou Aquiles - e a terceira no olho direito. Claro que no teve morte imediata: ne-

#nhuma das flechas acertou num   orgo vital. Mas acabar por morrer, mais cedo ou mais tarde. Pedi ao deus que guiasse a minha mo, que o fizesse ter uma morte
lenta. - Dando uma palmadinha no ombro de Menelau, desatou a rir-se. - Menelau perseguiu-o por algum tempo, mas no gostou do que viu, e com razo: quem  que ia
gostar dum rapazinho naquele estado, todo porco e ensanguentado, apesar de ser to bonitinho?
Desatmos todos a rir; ordenei a vrios mensageiros que espalhassem a notcia de que o assassino de Aquiles era um homem morto. Sim, Pris, o sedutor, chegara ao
fim.

Captulo Trigsimo
Narrado por Helena.

A maior parte do tempo, passava-o sozinha. Ah, se Penlope, a minha prima, me visse! O que ela no se teria rido! O tempo convertera-se num fardo to insuportvel
que acabei por me dedicar  tecelagem! Compreendia agora que esposas negligenciadas e tecelagem formavam um par indissolvel... Pris no se abeirava sequer de mim
- literalmente. E Eneias tambm no.
Com a morte de Heitor, a atmosfera do palcio alterara-se drasticamente. Hcuba fora acometida de uma estranha demncia. No parava de criticar Pramo pelo facto
de o rei no ter feito dela a sua primeira esposa. Perturbado e confuso, o rei protestava que Hcuba era a sua principal esposa, a sua rainha! A reaco de Hcuba
era sintomtica: acocorava-se no cho e desatava a uivar tal qual um co velho! Completamente louca! Bom, mas pelo menos agora j percebia onde fora Cassandra buscar
a sua loucura. Um lugar desesperadamente infeliz. Viva de Heitor e, por isso mesmo, despojada do seu estatuto de futura rainha, Andrmaca comportava-se como uma
sombra. Constava que Andrmaca e Heitor tinham tido uma acesa discusso antes de ele ter partido para a ltima batalha e que ela fora a culpada do triste desfecho.
Heitor pedira-lhe que olhasse para ele, que se despedisse dele, mas Andrmaca permanecera deitada na cama, com a cara virada para a parede. Acreditava nessa histria;
Andrmaca exibia aquela expresso medonha de tremendo sofrimento e implacvel remorso que  tpica das mulheres apaixonadas e culpadas. Por outro lado, perdera todo
o interesse pelo filho, Astianacte. Logo que Heitor descera  sepultura, Andrmaca confiara aos homens a educao do rapaz.
O pouco que restava do mundo de Pramo desintegrou-se quando Troilo caiu s mos de Aquiles. Nem mesmo a morte de Aquiles conseguiu arrancar o rei ao desalento em
que cara. Eu sabia o que se dizia na cidadela - que Eneias no ajudara Troilo porque Pramo o insultara durante a assembleia em que nomeara Troi-

#lo seu novo herdeiro. Tambm acreditava nesta histria: com Eneias, os insultos pagavam-se caro.
Foi ento que Eneias pediu a Pramo que o deixasse conduzir um ataque de surpresa - pela calada da noite! - ao acampamento grego. O abjecto rei troiano concordou.
No havia nada que conseguisse deter as lnguas afiadas da cidadela, mas tambm no havia nada que se pudesse fazer. Eneias era tudo o que restava a Tria. Pramo,
no entanto, no cedeu completamente: com efeito, acabou por nomear herdeiro o seu filho Defobo, o porco selvagem, como eu lhe chamava. Um acto provocatrio que,
no entanto, no perturbou minimamente Eneias. O que no admira, pois Eneias nunca se sentira to seguro e confiante.
Aos meus olhos, aquele rosto moreno do herdeiro dardaniano no apresentava grandes mistrios: eu sabia que fogos lavravam sob aquela aparncia fria; eu sabia que,
para satisfazer a sua implacvel ambio, Eneias seria capaz de tudo. Como um lento rio de lava, Eneias ia avanando inexoravelmente, engolindo, um a um, todos os
seus inimigos.
Quando solicitou autorizao a Pramo para conduzir o ataque nocturno ao acampamento grego, Eneias sabia muito bem o que estava a pedir ao rei - estava a pedir-lhe
que violasse as leis dos deuses. E s eu me apercebi da imensido do triunfo de Eneias quando Pramo deu o seu consentimento. Finalmente, Eneias conseguira espezinhar
Tria.
No dia do ataque, fechei-me nos meus aposentos, os ouvidos bem tapados com pequenos chumaos, para no ouvir o tumulto e os gritos. Andava a tecer uma bela pea
de l, com um padro muito intrincado e uma infinidade de cores. Graas a uma extrema concentrao, conseguia esquecer-me de que, l fora, se travava uma batalha.
Penlope, a Tecedeira, Penlope, a esposa daquele ruivo de pernas arqueadas que no conhecia a honra e ignorava os escrpulos, ficaria espantada com a qualidade
do meu trabalho! Estava capaz de apostar que ela nunca teria tecido uma pea to bela... Conhecendo-a como eu a conhecia, estava certa de que, agora, a pobre Penlope
se tinha dedicado a tecer sudrios.
Aquela fingida... Aquela hipcrita... Oh, um poo de virtudes ... ! Vaca maldita, sempre a censurar-me ... , estava eu a dizer para mim mesma, lembrando-me de
Penlope, quando senti um estranho formigueiro nos meus braos, como se, nesse exacto momento, algum tivesse sado da sepultura para se pr a observar o meu trabalho.
Seria possvel que Penlope, a Tecedeira, tivesse morrido? No, uma sorte dessas no teria eu!
Porm, quando ergui a cabea, verifiquei que era Pris quem estava nos meus aposentos e no a sombra de Penlope. Estava encostado ao vo da porta, a boca abrindo-se
e fechando-se no mais absoluto silncio. Pris? Pris encharcado em sangue? Pris com uma flecha cravada num olho?
Quando tirei os pequenos chumaos dos ouvidos, o rudo cresceu to depressa como Mnades descendo uma encosta decididas a matar. O outro olho de Pris fitava-me
com o fogo da loucura, enquanto a sua boca cuspia palavras que eu no conseguia entender.
Ao fim de breves momentos, o choque que senti de incio esbateu-se por completo. Desatei a rir-me, um riso que era mais forte do que eu, um riso que se transformou
em gargalhadas estridentes e que me obrigou a sentar-me num div. Vendo-me rir, Pris, desesperado, caiu de joelhos! Comeou ento a rastejar, com a mo direita
arrastando uma cauda carmim ao longo do cho branco, a flecha enfiada no olho balouando para cima e para baixo, to ridiculamente que desatei a rir-me ainda mais.
Alcanando os meus ps, envolveu-me as pernas com o brao que estava inclume e encheu de sangue o meu vestido. Enojada, afastei-o com o p, deixando-o estirado
no cho. Depois, corri para a porta.
Encontrei Heleno e Defobo no ptio principal, ambos ainda com a armadura vestida. Como nenhum deles reparasse em mim, toquei no brao de Heleno; no brao de Defobo
 que eu no tocava, nem que me pagassem!
- Perdemos - disse Heleno com uma expresso fatigada. - Eles estavam  nossa espera. - Lgrimas assomaram-lhe aos olhos. - Ns infringimos as leis! A maldio caiu
sobre ns!
Encolhi os ombros.
-  Que me interessa isso? Eu no vim saber notcias da vossa estpida batalha - eu j sabia que vocs iam perd-la. Vim apenas pedir-lhes ajuda.
-  Pede o que quiseres, Helena - disse Defobo, com um sorriso cheio de malcia.
- Pris est nos meus aposentos - vai morrer, acho eu. Heleno estremeceu.
- Pris vai morrer? Pris? Desandei.
- No o quero nos meus aposentos! - gritei-lhes. Logo que me alcanaram, pegaram em Pris e deitaram-no num div.
- Eu no o quero nos meus aposentos! - repeti. - Levem-no daqui para fora! Heleno fitou-me com uma expresso estarrecida.
- Helena! No podes expulsar o teu marido neste estado!
- Olha bem para mim! Que lhe devo eu a no ser a minha runa? H anos que ele me ignora! H anos que ele faz de mim o alvo de todas as piadas de todas as cadelas
despeitadas que h em Tria! E agora, agora que precisa de mim, pensa que eu ainda sou a mesma idiota aluada que ele convenceu a deixar Amiclas!

#Pois bem, eu j no sou essa Helena! Ele que morra, mas no aqui! Ele que morra nos braos da cadela com quem anda agora!
Pris acalmara; o seu olho esquerdo, esbugalhado, no me largava; era um olhar estarrecido, estupefacto.
- Helena, Helena! - gemia o desgraado.
- Vai gemer para a cama da outra! - gritei-lhe. Heleno afagou-lhe os caracis grisalhos.
- Que aconteceu, Pris?
- Um caso muito estranho, Heleno! Um homem desafiou-me para um duelo. quela distncia, s eu ou Teucro conseguiramos acertar no alvo. Um homem corpulento, com
uma barba loura, um aspecto selvagem. Parecia um rei dos bosques do monte Ida. Mas eu no o conhecia, nunca o tinha visto em toda a minha vida! Aceitei por isso
o desafio - eu sabia que a vitria seria minha! Mas no foi. Ele venceu-me. E depois desatou a rir-se, tal e qual como Helena!
Estava a prestar mais ateno  flecha do que quela triste histria. De certeza que j tinha visto flechas daquelas... Ou teria ouvido falar delas numa qualquer
cano cantada pelo harpista de Amiclas... Uma flecha muito comprida, de madeira de salgueiro tingida com o sumo das amoras, penas brancas de ganso na ponta, salpicadas
com a mesma tintura carmim.
- O homem que te alvejou chama-se Filoctetes - disse-lhe eu. - No merecias tamanha honra, Pris! Tens uma das flechas de Hracles enterrada na tua cabea. Antes
de morrer, Hracles deu o seu arco e as suas flechas a Filoctetes. Ouvi dizer que Filoctetes tambm tinha morrido, devido a uma mordedura de serpente, mas  bvio
que o rumor era falso. Essa flecha, outrora, pertenceu a Hracles.
Heleno fitava-me com o mais feroz dos olhares.
- Cala-te, harpia sem corao! Como te atreves a atormentar um homem moribundo s para dares vazo  tua clera?
- Sabes, Heleno - atirei-lhe eu -, tu ainda s pior do que a louca da tua irm. Ela, pelo menos, no finge que  boa da cabea... Mas agora agradecia que levassem
Prs daqui para fora. Fazem-me esse favor?
- Heleno? - disse Pris, puxando com uma mo dbil pelo saiote do irmo. Leva-me para o Ida, para a minha querida Oinone. Ela curar-me- - ela tem os dons de rtemis.
Leva-me para Oinone!
Meti-me entre os irmos, tresloucada de raiva.
- No me interessa saber para onde  que o levam! S quero que o levem daqui para fora! Levem-no para essa tal Oinone - hah! Ser que ele no compreende que est
condenado? Arranca a flecha, Heleno, deixa-o morrer!  isso que ele merece!
Heleno e Defobo sentaram-no ento na beira do div. O mais forte dos dois, Defobo, curvou-se para pegar nele, mas Pris no o ajudava nada; poltro como era, no
fazia outra coisa seno chorar, transido de medo. Quando finalmente se ergueu, Defobo deu-se conta de que tinha nos braos um peso morto. Pris nem sequer se agarrava
ao irmo.
Heleno foi atrs de Defobo para o ajudar. Ao passar por ele, o seu brao roou acidentalmente na haste da flecha. Pris entrou em pnico, desatou a gritar e a dar
aos braos desvairadamente, o corpo numa convulso constante. Defobo perdeu o equilibrio e os trs irmos caram no cho num emaranhado de corpos. Ouvi um ronco
gorgolejado, sufocado. Ento, Heleno ergueu-se e ajudou Defobo a levantar-se e eu pude ver o que eles no tinham visto.
Pris jazia metade de costas, metade sobre o lado esquerdo, uma perna contorcida debaixo da outra, a mo mutilada esticada. Os seus dedos mais pareciam garras, o
pescoo e as costas estavam rigidamente arqueados. Devia ter cado de borco, com Defobo em cima dele. Depois, Heleno, ao cair em cima de ambos, fizera-o girar sobre
si mesmo. A flecha estava partida; as penas tingidas da ponta e dois cbitos do fuste estavam no cho ao p dele e, do seu olho, ressaltava no mais do que um dedo
de madeira lascada. Um fino fio de sangue escuro corria-lhe do olho, formando j um charco no mrmore do cho.
Devo ter gritado, pois Defobo e Heleno viraram-se imediatamente para mim.
Heleno suspirou.
- Est morto, Defobo. Defobo abanou desalentado a cabea.
- Pris? Pris morto? S ento o levaram dos meus aposentos. Tudo o que eu tinha para me lembrar que o meu marido havia existido eram as marcas das suas mos na
minha saia e as manchas vermelhas no cho alvssimo. Por um momento, fiquei imvel, paralisada; depois, encaminhei-me para a janela e olhei para o mundo l fora,
sem nada ver. A fiquei at que a escurido caiu. No seria capaz de dizer o que pensei durante todo esse dia,  janela da minha sala. A minha memria no guarda
nada.
O eterno e odioso vento troiano transformara-se num queixume estridente em torno das torres quando algum bateu  minha porta. Um mensageiro curvava-se diante de
mim.
- Princesa, o rei ordena que vs  Sala do Trono.
- Obrigada. Diz-lhe que irei o mais depressa que me for possvel.
A imensa Sala do Trono encontrava-se envolta numa semiescurido. S  volta do estrado do trono havia algumas lamparinas acesas, derramando um len-

#ol de uma suave luz amarela sobre o rei, sentado no trono, e tambm sobre Defobo e Heleno, que o rodeavam, trocando olhares furiosos por sobre a cabeleira cristalina
de Pramo.
Parei junto aos degraus.
- Que desejas de mim, rei Pramo? Com o sobrolho muito franzido, Pramo curvou-se um pouco e fitou-me; o seu desagrado ao ver-me suplantava todos os outros sentimentos
permanentemente estampados nos seus traos: a dor, o desespero, a desesperana mais absoluta.
- Filha, tu perdeste o teu marido e eu perdi mais um filho. J perdi a conta aos filhos que a guerra me roubou - disse ele com uma voz trmula, no mais do que um
sussurro na escurido. - Os deuses levaram-me os melhores dos meus filhos. Agora, estes dois que aqui vs, com o corpo do irmo ainda quente, desataram a rosnar
um para o outro numa altercao interminvel, cada um deles exigindo a mesma coisa, cada um deles determinado a obt-la.
- Mas afinal que histria  essa? - perguntei, to exasperada que at me esqueci das normas de cortesia.
- Por que raio  que as divergncias entre esses dois me ho-de dizer respeito?
- Dizem-te respeito e muito! - atirou-me o velho, quase to grosseiro quanto eu. - Defobo quer casar-se contigo. Heleno quer casar-se contigo. Por isso, ters de
me dizer qual deles preferes.
- Nenhum! - exclamei, revoltada.
- Um deles ter de casar contigo - disse o rei. De sbito, naquele rosto enrugado e mirrado, havia indcios muito claros de que Pramo achava a situao picante,
como se aquela disputa fosse para ele uma novidade excitante! - Diz-me o nome daquele que preferes! Casars com ele dentro de seis luas!
- Seis luas! - exclamou Defobo. - Eu no posso esperar tanto tempo! Eu quero-a agora, pai - agora!
Pramo ergueu-se.
- O corpo do teu irmo ainda no arrefeceu! - atirou-lhe.
- Escusas de te afligir, rei Pramo - disse eu, antes que Defobo rompesse num dos seus famosos acessos de fria. - Eu fui casada duas vezes. No tenciono casar-me
uma terceira vez. Quero dedicar o resto da minha vida ao servio da Me. Por isso, no haver casamento nenhum.
Heleno e Defobo desataram a cuspir protestos, mas Pramo ergueu a mo e silenciou-os.
- Estejam calados e escutem o que eu tenho a dizer! Defobo, tu s o mais velho dos meus filhos e foste nomeado herdeiro. Dentro de seis luas, casars com Helena.
Mas no antes! Quanto a ti, Heleno, tu pertences a Apolo. O teu amor por Apolo deveria ser mais forte do que qualquer mulher. Mesmo esta.
Defobo no conteve os gritos de satisfao. Heleno parecia aturdido. Porm, enquanto olhava para ele, eu prpria aturdida com a sbita deciso, Heleno pareceu crescer
e mudar, como se certas partes de si mesmo amolecessem e outras endurecessem. Uma mudana muito estranha.
Fitando firmemente o pai, disse-lhe ento:
- Durante toda a minha vida, tenho visto os outros satisfazerem os seus apetites, enquanto que eu passo fome e sede. Pai, ningum me perguntou se eu queria servir
o deus - eu fui-lhe consagrado no prprio dia em que nasci! Quando Heitor morreu, devias ter-me nomeado herdeiro, mas Apolo impediu-te de o fazeres! E depois de
Troilo morrer, voltaste a preterir-me! Agora, pedi-te algo muito menos importante e, uma vez mais, recusaste as minhas pretenses. - Fez uma pausa, ergueu-se muito
altivo e orgulhoso. - Pois bem, h momentos na vida em que mesmo o mais insignificante dos homens no tem outra sada seno revoltar-se! Esse momento chegou para
mim. Vou deixar Tria. Condeno-me a um exlio voluntrio. Prefiro transformar-me num vagabundo que nada vale a permanecer aqui, vendo Defobo arruinar tudo o que
resta de Tria. Odeio ter de te dizer isto, pai, mas a verdade  que tu no passas de um idiota.
Enquanto Pramo digeria o insulto, fiz mais uma tentativa.
- Rei Pramo, suplico-te! No me obrigues a casar de novo! - exclamei.
Deixa-me consagrar a minha vida  deusa!
Mas Pramo abanou a cabea.
- Casars com Defobo. No suportava permanecer mais tempo na mesma sala que eles; fugi dali para fora, como se as Filhas de Kore me perseguissem. O que aconteceu
a Heleno, no sei. Nem me interessa!
Enviei uma mensagem a Eneias, implorando-lhe que se deslocasse aos meus aposentos. Em toda a cidade de Tria, Eneias era a nica criatura que poderia sentir-se tentada
a ajudar-me. Enquanto esperava, deambulando nervosa pelo quarto, as dvidas comearam a atormentar-me. Embora a nossa ligao tivesse acabado havia j muito tempo,
imaginava que ele sentiria ainda alguma afeio por mim. Mas... sentiria mesmo? Ah, onde estaria ele que nunca mais vinha? O tempo fugia, fugia, fugia, cada momento
que passava era mais longo, mais sombrio, mais vazio! Pus-me  escuta dos seus passos fortes, determinados. Em vo. Passos nenhuns! Desde a morte de Heitor, os passos
de Eneias eram, em toda a cidade de Tria, os nicos passos que tinham a capacidade de inspirar confiana. Mas onde estaria ele que nunca mais vinha?
- Que queres de mim, Helena? - perguntou-me; abeirara-se do quarto to silenciosamente que eu nem sequer dera pela sua chegada.

#Rindo e chorando, corri a abra-lo.
- J pensava que no vinhas! - disse eu, erguendo o rosto para que ele me beijasse.
Eneias afastou-se.
- Que queres? Olhei-o nos olhos; quando falei, a minha voz soou nervosa, tremida.
- Eneias... ajuda-me! Pris morreu!
- Eu sei.
- Compreendes por certo o que isso significa para mim! Pris est morto! Eu estou  merc deles! Ordenaram-me que casasse com Defobo! Com aquele co nojento! Ah,
por todos os deuses! Na Lacedemnia, no o deixariam sequer tocar na bainha da minha saia ... ! Mas aqui, aqui, Pramo ordena-me que me case com ele! Eneias, se
tens por mim alguma afeio, vai ter com Pramo e diz-lhe que  verdade que eu no quero casar - no tenho o menor desejo de voltar a casar-me! No, nunca mais!
A expresso de Eneias era muito clara: dir-se-ia que eu lhe havia proposto a mais desagradvel das tarefas.
- Ests a pedir-me o impossvel, Helena.
- O impossvel? - disse eu, estupefacta. - Eneias, para ti, nada  impossvel! Tu s o homem mais poderoso em Tria!
- Aconselho-te a que cases com Defobo. Aceita e esquece.
- Mas eu... eu pensava... eu pensava... Eu sei que j no me queres, mas... pensava que sentias por mim alguma afeio e que... me defenderias!
Riu-se, enquanto erguia a cortina, preparando-se para sair.
- Helena, eu no vou ajudar-te. Faz um esforo para entenderes a minha posio. Cada dia que passa cria um novo abismo entre os filhos de Pramo - cada dia que passa
, para mim, um passo em frente rumo ao trono de Tria. A minha ascenso  um facto, Helena, e no vou p-la em perigo por tua causa. Entendido?
- Sabes qual  o fim de homens ambiciosos como tu, Eneias! Voltou a rir-se.
- O fim? O fim  um trono, Helena! Um trono!
- Rogar-te-ei uma praga, Eneias! - atirei-lhe. - Gastarei tudo o que tenho para que essa praga se torne realidade! Pedirei aos deuses que nunca te sentes em trono
nenhum - que nunca conheas a paz - que vagueies pelo mundo como um desgraado - e que acabes os teus dias no meio de selvagens, no meio de um povo miservel, numa
miservel cabana!
Creio que as minhas palavras o assustaram. A cortina balouou; Eneias desapareceu.
Logo que Eneias partiu, pus-me a pensar naquilo que me esperava: o casamento com um homem que eu odiava, um homem que, s de me tocar, j me causava nuseas. Apercebi-me
ento de que, pela primeira vez na minha vida, estava reduzida aos meus prprios recursos. De que, se queria libertar-me daquela horrvel cidade-priso, teria de
o fazer sem a ajuda de ningum.
Menelau no estava longe e duas das Portas de Tria estavam sempre abertas. Porm, as mulheres do palcio no estavam acostumadas a caminhar pelas ruas, nem os seus
ps delicados estavam habituados aos sapatos das mulheres do povo, os mais adequados a longas caminhadas. Sair pela Porta Dardaniana, passar sob a Porta Ceia e chegar
 praia grega era uma misso impossvel. Quer dizer... a menos que eu fosse montada num animal! As mulheres de Tria costumavam usar burros; empoleiravam-se no dorso
do animal, mas de lado, e no de frente, como as amazonas. Sim, teria de ser essa a soluo! Roubaria um burro e iria at  praia envolta nas sombras da noite.
Roubar o burro no foi difcil. Nem mont-lo. Porm, quando cheguei  Porta Dardaniana - muito mais distante da cidadela do que a Porta Ceia - o burro recusou-se
a avanar mais. Como era um animal habituado  cidade, desagradavam-lhe os perfumes do campo, os cheiros penetrantes que anunciavam j o Outono, a aragem que vinha
do mar. Chicoteei-o, mas ele desatou a zurrar - e que zurro triste aquele; quem o ouvisse, pensaria por certo que o asno estava a finar-se!
No se finou ele, finou-me ele a mim. Os guardas da Porta Dardaniana correram a investigar. Reconheceram-me e detiveram-me.
-  Eu quero ir para junto do meu marido! - supliquei, chorosa. - Por favor! Deixem-me voltar para o meu marido!
Claro que no me deixaram ir. Em contrapartida, o maldito do burro, depois de tanto zurrar, decidiu que, agora, j gostava dos cheiros da plancie. Enquanto ele
corria para a liberdade dos campos, eu era encerrada no palcio. Mas os guardas no foram acordar Pramo. Quando dei por mim, estava  porta do quarto de Defobo.
Aguardei passivamente que ele se levantasse e assomasse  porta. Quando apareceu, fitei-o calmamente. Agradeceu cortesmente aos guardas e deu-lhes at uma prenda;
mal os guardas acabaram de fazer as suas vnias, Defobo ergueu a cortina do seu quarto.
- Entra - disse ele. No me mexi.
- Querias ir para o teu marido, no era? Pois bem, aqui est o teu marido!
- O nosso casamento ainda no foi celebrado. Alm disso, tanto quanto sei, tu tens uma esposa!
- J no tenho. Divorciei-me.

#- Ters de esperar seis luas - foi o que o teu pai disse!
- Mas, minha querida, isso foi antes de tu teres tentado fugir para os gregos e, em particular, para os braos de Menelau... Quando o meu pai souber disso, no me
impor nem uma lua, quanto mais seis! Especialmente quando eu o informar de que j consumei a unio....
- No te atreverias ... ! - rosnei-lhe. A resposta de Defobo foi puxar-me por uma orelha com uma mo e pelo nariz com a outra. Foi assim que me arrastou para o
seu quarto. Aturdida de dor, incapaz de me libertar da fora bruta dos seus braos, ca na cama como um peso morto. S havia uma violao pior do que aquela: a morte.
A ltima coisa em que pensei antes de entregar a minha mente nas mos da Me foi que, um dia, violaria Defobo da mais horrenda das maneiras: mat-lo-ia.

Captulo Trigsimo Primeiro
Narrado por Diomedes

Pouco depois do malogrado ataque troiano, Agammnon convocou um conselho, apesar de Neoptolemo ainda no ter chegado. Uma atmosfera geral de optimismo impregnava
o nosso acampamento. S as muralhas nos detinham. Agora, porm, Ulisses no pensava noutra coisa seno nas muralhas. Esse era, naquele momento, o seu nico objectivo.
Quem sabe, talvez Ulisses conseguisse congeminar uma soluo...
Os conselheiros tagarelavam bem-dispostos enquanto Agammnon se demorava a conversar com Nestor, divertido com qualquer coisa que o velho rei lhe segredara. Terminada
a conversa, o rei supremo ergueu o ceptro e bateu com o basto, dando assim incio  assembleia.
Ulisses, creio que tens novidades....  verdade, rei supremo. Primeiro que tudo, creio que encontrei j um processo que nos permitir entrar nas muralhas troianas,
embora no possa ainda falar disso. Porm, h tambm notcias muito interessantes noutras reas.
Fitou Menelau, aproximou-se dele, ps a sua mo sobre o ombro do irmo de Agammnon, afagou-o.
-  Chegaram aos meus ouvidos certos rumores. Rumores relativos a uma acesa discusso entre Pramo, Heleno e Defobo. Por causa de uma mulher. Por causa de Helena,
para ser mais preciso. Pobre Helena! Aps a morte de Pris, solicitou que a deixassem dedicar-se ao servio da Me Kubaba, mas Defobo e Heleno pediram a Pramo
a mo da viva do irmo. Pramo decidiu a favor de Defobo, que no esperou pela celebrao do casamento pAra fazer dela sua mulher. A corte ficou furiosa, mas Pramo
recusou-se a anular a unio.  que, segundo me disseram, Helena foi detida pelos guardas da Porta Dardaniana quando se preparava para fugir de Tria. Queria vir
ter contigo, Menelau.

#Agitado, ofegante, Menelau disse qualquer coisa que ningum entendeu e logo escondeu o rosto entre as mos. Quanto a mim, pensava na bela e altiva Helena reduzida
ao nvel de uma vulgar concubina de Defobo.
- Heleno ficou to revoltado com o desfecho deste caso - prosseguiu Ulisses - que resolveu escolher o caminho do exlio. Interceptei-o nos arrabaldes da cidade,
esperando que a desiluso que sentia o levasse a confiar-me os orculos de Tria. Encontrei-o no altar consagrado a Apolo Timbreu, o qual, segundo ele, o instrura
para que me revelasse tudo o que eu quisesse saber. Pedi-lhe que me revelasse os orculos de Tria - todos eles. Devo dizer-lhes que h muito tempo que no me sentia
to cansado... Heleno recitou milhares de orculos! Contudo, obtive aquilo que pretendia.
- Tiveste muita sorte - disse Agammnon.
- A sorte, rei supremo - replicou Ulisses, num tom neutral, apesar de no ter gostado nada da observao, -  algo que, infelizmente, sobrestimamos. No  a sorte
que conduz ao xito, mas sim o trabalho duro. A sorte  aquilo que acontece no momento em que os dados caem na mesa. O trabalho duro  aquilo que acontece quando
um trofu cai nas mos de um homem apenas porque ele lutou para o obter.
- Claro, claro, claro! - exclamou o rei supremo, arrependido j do seu comentrio. - Peo-te desculpa, Ulisses! Trabalho duro, sempre trabalho duro! Eu sei que 
verdade, admito que  verdade. Mas fala-nos dos orculos, peo-te...
- No que nos diz respeito, apenas trs dos orculos de Tria assumem uma importncia evidente. Por sorte, nenhum deles representa um obstculo intransponvel. Muito
resumidamente, eis o que rezam esses orculos: Tria cair este ano, se os chefes gregos possurem a omoplata de Plops, se Neoptolemo combater e se Tria perder
o Paldio de Palas Atena.
Levantei-me de um salto, excitado.
- Ulisses, eu tenho a omoplata de Plops! O rei Piteu deu-ma aps a morte de Hiplito. O velho gostava muito de mim - a omoplata de Plops era a mais preciosa das
suas relquias. Ou ma dava a mim, ou a Teseu. Preferiu dar-ma a mim. Trouxe-a comigo para Tria para me dar... enfim... para me dar sorte.
Ulisses ps um sorriso arreganhado.
-  caso para dizer: a sorte est do nosso lado! - disse ele para Agammnon. - Quanto a Neoptolemo, o caso j est tratado e nutrimos grandes esperanas de que ele
venha combater ao nosso lado. Resta-nos o Paldio de Palas Atena, a qual, por sorte,  a minha protectora. Que tal, h?
- No estou a gostar nada das piadas, Ulisses - disse o rei supremo.
- Ah - onde ia eu? No Paldio. Pois bem: essa venervel imagem ter de ser nossa.  a imagem mais venerada em Tria e a sua perda seria para Pramo o mais rude dos
golpes. Tanto quanto sei, a esttua encontra-se algures nos subterrneos da cidadela. Um segredo muito bem guardado... Mas estou certo de que conseguirei descobrir
esse segredo... O mais difcil ser mover a imagem - dizem que  muito pesada. Diomedes, irs comigo a Tria?
- Vamos j, se quiseres! Como no havia mais nada de importante a discutir, Agammnon dissolveu o conselho.  sada, Menelau acercou-se de Ulisses.
- Crs que a vers? - perguntou ele, ansioso.
-  provvel, Menelau,  provvel - respondeu-lhe Ulisses, num tom delicado.
- Ento, diz-lhe que eu vou pedir aos deuses que a ajudem a fugir e a vir ter comigo.
- Est bem, eu digo. - Porm, enquanto nos encaminhvamos para a sua casa, virou-se para mim e disse-me: -  No digo coisa nenhuma! O destino da cabea de Helena
 o machado, e no o travesseiro de Menelau.
Desatei a rir-me.
- Vai uma aposta? - perguntei-lhe.
- Entramos pela conduta? - foi a minha primeira pergunta quando comemos a traar um plano.
- Entras tu. Eu no posso. Tenho de chegar a Helena sem levantar suspeitas. Portanto, tenho de ir disfarado.
Deixou a sala, mas logo voltou, trazendo um pequeno e terrvel chicote. Este chicote era formado por quatro correias e, na ponta de cada correia, havia um globo
de bronze eriado de pequenas pontas. Perplexo, olhei para Ulisses e para o chicote. At que ele me virou as costas e comeou a despir a blusa.
- Aoita-me, Diomedes. Recuei, horrorizado.
- Mas tu enlouqueceste, Ulisses? Eu, aoitar-te a ti? No consigo! Ulisses virou-se para mim, manifestamente irritado.
-  Nesse caso, fecha os olhos e faz de conta que eu sou Defobo. Eu tenho de ser aoitado, Diomedes - tenho de ficar bem marcado!
Pus o meu brao sobre os seus ombros nus.
- Pede-me o que quiseres, mas no isso. Aoitar-te a ti - um rei! - como se fosses um escravo rebelde?
Com um riso brando, encostou o seu rosto ao meu brao.
- Ora, Diomedes, que importncia podem ter mais umas quantas cicatrizes na minha carcaa j to flagelada? Eu quero que me confundam com um escravo

#rebelde, Diomedes. Um escravo que acabou de fugir do acampamento grego ter necessariamente de ter umas boas marcas nas costas... V, usa o chicote.
Abanei a cabea.
- No.
- Usa o chicote, Diomedes! - berrou-me ele, com um ar feroz. Sem que o desejasse, peguei no chicote; Ulisses curvou-se. Enrolei as quatro correias na mo, enchi-me
de coragem e golpeei-lhe a pele. Cada um dos meus golpes deixava-lhe nas costas quatro verges rseos; com um misto de repulsa e fascnio, os meus olhos fixavam-se
no resultado da minha involuntria violncia.
- Mais forte, Diomedes! Bate com mais fora! - disse ele, impaciente. Sem sangue, no  nada!
Fechei os olhos e obedeci. Mais dez vezes o aoitei com aquele cruel objecto de tortura; de cada vez, o chicote arrancou mais sangue  sua carne, deixando-lhe cicatrizes
para toda a vida, como se ele mais no fosse do que um escravo rebelde.
Quando terminei, beijou-me.
- No fiques triste, Diomedes. Para que me serve uma bela pele? - Estremeceu. - Por acaso at nem  desagradvel... E o aspecto? Ficou com bom aspecto?
Acenei que sim, recusando-me a falar. Despiu o saiote e envolveu o baixo ventre com uma pea de linho muito suja; depois, desatou a mexer e a remexer no cabelo at
ficar todo desgrenhado; mas s parou depois de o ter escurecido com a fuligem do trpode do fogo. Juro que os seus olhos brilhavam de puro gozo. Por fim, foi buscar
um par de grilhetas.
- Prende-me s tuas grilhetas, tirano de Argos! - disse-me ele, todo satisfeito. Obedeci de novo s suas ordens, ainda que as chicotadas me tivessem magoado muito,
provavelmente mais do que a ele. Para Ulisses, aquilo era muito simplesmente um meio para alcanar um fim. Enquanto eu lhe prendia os tornozelos com as grilhetas
de bronze, Ulsses delineava o seu plano.
- Tenho de entrar na cidadela logo que chegue a Tria. Seguiremos juntos no carro de jax -  um carro forte, estvel e silencioso. Paramos no bosque que fica perto
da pequena torre de vigia contgua  Cortina Ocidental. A, separamo-nos. Farei o teatro necessrio para que me deixem entrar pela Porta Ceia e, depois, pelas portas
da cidadela - direi que tenho de falar com Polidamas com a mxima urgncia. Creio que o nome dele me abrir todas as portas.
- Mas - disse eu, erguendo-me -, tu no vais falar com Polidamas.
- No. Vou ter com Helena. Imagino que, depois do casamento forado, Helena ter todo o prazer em ajudar-me. Com certeza que ela conhece os segredos dos subterrneos
da cidadela. At pode ser que saiba onde se encontra o Paldio. Passeou-se um pouco pela sala, praticando.
E eu?
Tu esperas no bosque at que passe metade da noite. Depois, sobes pela conduta e matas todos os guardas que se encontrem nas proximidades da pequena torre de vigia.
Eu tratarei de levar a imagem at s muralhas. Quando ouvires o canto da cotovia nocturna com esta variao - e assobiou-a trs vezes - corre para a conduta, a fim
de me ajudares a fazer sair a esttua.
Ulisses deixou-me no bosque. Ningum dera por ns. Trpego e cambaleante, correu como um louco na direco da Porta Ceia, gritando, guinchando, rojando-se na poeira
do cho, transformando-se, por obra e graa do seu teatro, no mais triste espcime humano que alguma vez vira em toda a minha vida. Ulisses sempre gostara de ser
outras pessoas muito diversas dele, mas creio que a personagem do escravo fugitivo era precisamente aquela que mais lhe agradava.
Quando a noite chegou a meio, acerquei-me da conduta e rastejei lentamente por aquele espao sinuoso e sufocante, sem fazer barulho. Quando sa da conduta, descansei
um pouco e deixei que os meus olhos se habituassem ao luar, enquanto me mantinha alerta aos poucos sons que vinham da passagem superior das muralhas. Estava muito
perto da pequena torre de vigia que Ulisses escolhera para o nosso encontro por ela se encontrar muito longe de outros pontos da muralha protegidos por guardas.
Cinco guardas estavam de sentinela, bem acordados e alerta; no entanto, tinham-se enfiado todos na guarita! Quem  que comandaria aqueles soldados? Permitiam que
eles se refugiassem do frio, negligenciando assim os basties? Ah, num acampamento grego, no teriam grande futuro!
Envergava um saiote de macio cabedal escuro e uma blusa, tinha um punhal entre os dentes e uma espada pequena na mo direita. Quando me abeirei da janela da guarita,
tossi bem alto, para eles ouvirem.
- Vai ver quem est l fora, Maio - disse algum. Maio saiu, como se fosse dar um passeio; com efeito, um ataque de tosse no teria nada de alarmante quando ouvido
no alto das muralhas mais poderosas do mundo. No vendo ningum, Maio ficou nervoso - embora, idiota como era, no tivesse pedido reforos. Era bvio que, naquele
momento, j pensava que a tosse mais no fora do que um produto da sua imaginao. Apesar de tudo, avanou com a lana preparada para o que desse e viesse. Deixei-o
passar. Depois, ergui-me silenciosamente, calei-o com uma mo e ceifei-o com a espada que tinha na outra. Calmamente, sem fazer barulho, arrastei-o para um canto
escuro.
Momentos depois, emergiu outro guarda,  procura de Maio. Cortei-lhe a garganta sem um nico rudo: dois j estavam, faltavam ainda trs. Ento, antes que os trs
comeassem a ficar nervosos, abeirei-me de novo da janela e desatei aos soluos como se estivesse a cair de bbedo. Um dos homens soltou um suspi-

#ro exasperado; outro saiu a correr, impaciente. Envolvi-o com os meus braos como se estivesse completamente toldado pela bebida e, quando o bronze deslizou sob
as suas costelas do lado esquerdo, o homem nem um ai deu. Mantendo-o direito, com ele rodopiei numa bria dana, imitando uma voz troiana. Infalvel: o quarto dos
cinco homens saiu. Atirei-lhe o cadver com um risinho sumido e, enquanto ele afastava o camarada morto, trespassei-o com a espada. Arrastei-os pelo cho com um
ligeiro tinido metlico, como se eles estivessem a internar-se na escurido da noite. Ento, espreitei pela janela.
S faltava o capito da torre, que estava sentado a uma mesa, resmungando baixinho para si mesmo. Vendo-se obviamente perante um dilema, o capito estava de olhos
fixos num alapo. Estaria  espera de algum com quem havia marcado algum encontro? Entrei imediatamente na guarita, saltei sobre ele por detrs, detendo-lhe o
grito com a mo. Morreu to rapidamente como os outros e com os outros foi ter ao canto escuro. Depois, sentei-me c fora  espera; se o visitante de quem o capito
estava  espera aparecesse entretanto, seria prefervel que no encontrasse ningum na torre.
Pouco tempo depois, Ulisses assobiou a sua variao sobre o canto da cotovia - era imensa a sua inteligncia! Claro que teria de ser uma variao e no o prprio
canto da cotovia - pois poderia muito bem acontecer que uma cotovia decidisse desatar a cantar nas proximidades da torre. Em suma: no havia nenhuma cotovia por
perto; fazia votos para que tambm no aparecesse nenhuma visita, pois no poderia avisar Ulisses.
Levantei a porta do alapo e desci pela escada. Ulisses estava  minha espera ao fundo.
-  Espera! - murmurei, e logo sa para ver se havia algum por perto. Mas as ruas no podiam estar mais calmas e escuras.
- Tenho-a comigo, Diomedes, mas ela  to pesada como jax! - disse-me Ulisses logo que voltei. - Vai ser difcil arrast-la por uma escada de vinte e cinco cbitos.
Ela - o Paldio - estava precariamente empoleirada sobre o dorso de um burro. Levmo-la para dentro da cmara inferior da torre e mandmos embora o burro. Assombrado,
examinei a imagem  luz da lamparina. Oh, era to antiga! Uma forma feminina, dificilmente reconhecvel ao fim de tanto tempo, esculpida a partir de uma madeira
escura, demasiado suja e enfarruscada pela passagem de uma eternidade para que pudesse consider-la bela - ah, bela  que ela no era! Tinha uns ps minsculos,
pontiagudos, umas ancas enormes, uma vulva obscena, uma barriga imensa e flcida, dois seios bulbosos, os braos colados ao corpo, uma cabea redonda, uma boca saliente.
Alm disso, era tremendamente gorda. Mais alta do que eu e, de facto, muito pesada. Os ps minsculos e pontiagudos permitir-lhe-iam talvez rodopiar como se fosse
um daqueles pies com que as crianas brincam; a verdade, porm,  que a esttua no se aguentava sobre aqueles ps; ou seja, no tnhamos outra alternativa seno
pegar nela.
- Ulisses, achas que ela cabe na conduta? - perguntei.
- Cabe. A barriga dela no  maior do que os teus ombros. Alm disso, ela  mais redonda do que tu. Tal como a conduta.
Ento, tive uma ideia brilhante. Fui  procura de uma corda. Felizmente, encontrei-a rapidamente. Depois, atei-a sob os seios da esttua, e ainda fiquei com corda
bastante para enrolar nela a minha mo. Comecei a subir a escada, arrastando-a com a corda, enquanto Ulisses a segurava por baixo, com uma mo nas imensas e obesas
ndegas e a outra dentro da vulva.
- Crs - disse eu, ofegante, quando chegmos  guarita -, crs que ela alguma vez nos perdoar os nossos abusos?
- Claro que perdoa - disse ele, descansando no cho ao lado dela. - Ela  a primeira Atena, que  Palas, e eu perteno-lhe.
Faz-la descer pela conduta revelou-se mais fcil do que faz-la subir pela escada; Ulisses tinha razo. As suas formas redondas deslizavam melhor pela conduta do
que os meus ombros largos e as minhas angulosidades masculinas. Mantivemo-la atada com a corda; a corda revelou-se um elemento precioso mal nos fizemos  plancie,
j que, com ela, pudemos arrast-la at ao bosque e ao carro de quatro rodas de jax. A, gemendo baixinho, num derradeiro esforo, imo-la para dentro do carro
e camos para o lado. A Lua encaminhava-se ainda para oeste, o que significava que dispnhamos ainda de tempo suficiente para a conduzir at ao acampamento grego.
- Conseguiste, Ulisses! - disse eu, exultante.
- No teria conseguido nada sem a tua ajuda, meu amigo. Quantos guardas tiveste de matar?
- Cinco. - Bocejei. - Estou cansado.
- Como  que achas que me sinto? Tu, pelo menos, tens as costas em boas condies...
- No me fales mais disso! Conta-me antes o que aconteceu no interior da cidadela. Estiveste com Helena? - Foi fcil enganar os guardas. Ao fim de pouco tempo, j
estava dentro da cidade. Nas portas da cidadela s havia um guarda - e estava a dormir. Peguei nas correntes e passei por cima dele - parece incrvel, mas  verdade.
Encontrei Helena sozinha - Defobo estava no sei onde. Ficou algo surpreendida quando viu um escravo imundo e ensanguentado prostrar-se aos seus ps; s que, um
instante depois, viu-me os olhos e reconheceu-me. Quando lhe pedi que me conduzisse aos subterrneos, no hesitou. Creio que estava  espera de Defobo.

#Mas ns escapmo-nos antes que ele chegasse. Logo que encontrmos um stio seguro, Helena ajudou-me a libertar-me das grilhetas. Depois, descemos aos subterrneos.
- Soltou um risinho malicioso. - Creio que os subterrneos lhe devem ter dado muito jeito quando andava com Eneias... Helena conhecia aquilo to bem como as palmas
das suas mos... Mal entrmos na hmida e escura cripta, desatou a fazer-me perguntas - como  que estava Menelau - e tu - e Agammnon - e mais este, e mais aquele...
Tudo o que eu lhe pudesse dizer seria pouco...
- Mas... e o Paldio? Como  que conseguiste trazer a esttua se s tinhas Helena a ajudar-te? - perguntei.
Os ombros dele abanaram de riso.
- Enquanto eu dizia as oraes e pedia o consentimento da deusa para a levar para outro stio, Helena desapareceu. Pouco depois, voltou com o burro! Ento, ajudou-me
a sair dos subterrneos, por uma porta que dava directamente para a rua sob a muralha da cidadela, onde me beijou - um beijo perfeitamente casto, devo dizer! - e
me desejou que tudo corresse o melhor possvel.
- Pobre Helena... - disse eu. - Defobo  por certo o motivo que a levou a juntar-se a ns na luta contra Tria. A balana de Helena pende agora para o nosso lado.
- Tens toda a razo, Diomedes.
Agammnon mandou erigir um altar magnificente na praa das assembleias e entronizou o Paldio no interior de um nicho de ouro. Depois, convocou todos os homens que
pudessem caber naquela rea e explicou-lhes como eu e Ulisses havamos raptado a deusa. Agammnon havia j nomeado um sacerdote especial para Palas Atena e o sacerdote
ofereceu-lhe as melhores vtimas que pde encontrar; o fumo era to branco como a neve e ergueu-se to rapidamente na direco dos cus que logo conclumos que a
deusa adorava a sua nova casa. Ah, o que a pobre devia ter odiado a sua casa troiana, to fria, to hmida, to escura! Sem a menor hesitao, a cobra sagrada coleou
rumo  sua casa sob o altar, aps o que esticou a cabea para lamber o leite do pires e engolir o seu ovo. Uma cerimnia to feliz quanto imponente.
Concludos os rituais, Ulisses, eu e os outros reis deslocmo-nos a casa de Agammnon, a fim de festejarmos. Nenhum de ns recusaria um convite para jantar com o
rei dos reis; os seus cozinheiros eram, sem sombra de dvida, os melhores. Queijos, azeitonas, pes, fruta, carne assada, peixe, doces  base de mel, vinho.
A disposio era excelente, a conversao alegre, o vinho magnfico, o folguedo muito; a certa altura, Menelau pediu ao harpista que cantasse. J um pouco sentimentais
por obra do vinho, instalmo-nos confortavelmente para o ouvir.Estava ainda para nascer um grego que no amasse as canes, os hinos, as baladas do seu pas; ns
preferamos ouvir o bardo a ir para a cama com mulheres.
O harpista cantou-nos uma das baladas de Hracles, aps o que esperou pacientemente at que os veementes aplausos se esbatessem. Era um poeta magnfico e um magnfico
msico; Agammnon trouxera-o de ulida dez anos antes, mas era originrio do Norte e dizia-se que descendia do prprio Orfeu, o maior de todos os bardos.
Algum pediu o Hino de Guerra de Tideu, outros queriam ouvir o Lamento de Dnao, Nestor exigia a Histria de Medeia; porm, a cada pedido, o bardo, com um sorriso
terno, respondia que no. Ento, ajoelhando diante de Agammnon, disse-lhe o seguinte: - Rei supremo, eu compus uma cano que fala de acontecimentos muito mais
prximos de ns do que os feitos dos antigos heris. Permites-me que cante essa composio?
Agammnon inclinou a imperial cabea j meio grisalha.
- Canta, Alfides de Salmidessos. Alfides passou ternamente com os dedos pelas cordas tensas e logo extraiu da sua lira uma lenta e sofrida melodia; a cano era
simultaneamente triste e gloriosa, uma cano sobre Tria e sobre o exrcito de Agammnon que combatia diante das suas muralhas. Extasiados, escutmos atentamente
a longa cano, os queixos descansando nas mos, os olhos cerrados, as faces molhadas. A composio terminava com a morte de Aquiles. O resto era demasiado doloroso.
Apesar de j ter passado algum tempo, continuvamos a evitar pensar no triste fim que jax tivera.
O ouro da vida vestia-o na morte: Da vida despedido, no mais que uma sombra, A mscara perfeita cobria-lhe o rosto.
Juntas, as suas mos, eram j luvas de ouro; Todo o seu ser mortal em ouro transformado, Toda a sua glria em metal convertida: Aquiles, o Sem-Par, a tua voz calou-se!
 divina musa, anima meu engenho, Deixa-me dar a vida quele que morreu! Veste-o de ouro vivo com as minhas palavras, Deixa que os seus passos voltem a retumbar,
Espalhando o terror entre os seus inimigos! Deixa que o seu carro atravesse a plancie, O medo espalhando na soturna Tria!

#Deixa que eu o cante e s suas plumas de ouro, Deixa-me lembr-lo fulgente como o Sol, Incansvel correndo p'la erva orvalhada, Com as rdas na couraa o ritmo
marcando! Deixa que Aquiles, o filho de Peleu, O nascido sem lbios, a glria reviva!
Com os coraes dilacerados, aplaudimos o harpista Alfides de Salmidessos durante longo tempo; o bardo fizera-nos entrever a imortalidade, visto que a sua cano
viveria muito mais tempo do que ns. Era como se, apesar de vivermos ainda, estivssemos j para l da vida, inscritos na eternidade atravs das suas palavras. Uma
carga demasiado pesada para os nossos humanos ombros.
Quando os aplausos finalmente terminaram, apeteceu-me ficar a ss com Ulisses; uma assembleia de homens no me parecia o ambiente mais adequado, depois de o harpista
ter instilado em ns to terrveis emoes. Olhei para Ulisses, que entendeu imediatamente o meu pedido, sem ter de macular com palavras o recolhimento que as circunstncias
impunham. Levantou-se e encaminhou-se na direco da porta. De sbito, porm, deteve-se, com uma exclamao de puro espanto. Porque pairava sobre a sala o mais intenso
dos silncios, virmo-nos todos para ele. E ficmos to assombrados como ele.
De incio, era como se houvesse algo de sobrenatural naquela apario. O sortilgio em que caramos devido  cano de Alfides era ainda muito forte: dir-se-ia que
o bardo chamara um fantasma para ouvir a sua msica. Aquiles tambm veio para o ouvir!, pensei eu. Mas quem lhe dera o sangue para que a sua sombra ganhasse substncia?
Ento, examinei mais atentamente a apario e conclu que no era Aquiles. Aquele homem era to alto e corpulento como Aquiles, mas era muito mais jovem. A barba,
no mais do que uma penugem, era loura tambm, mas mais escura; o mbar dos olhos era tambm mais forte, mais intenso. E, mais importante que o resto, tinha dois
lbios perfeitos.
Nenhum de ns sabia h quanto tempo estaria ali o rapaz; porm, pelo sofrimento que o seu rosto traduzia, no havia a menor dvida de que ouvira pelo menos a parte
final da cano.
Agammnon levantou-se e encaminhou-se para ele de braos abertos.
- Tu s Neoptolemo, o filho de Aquiles! S bem-vindo!
O jovem aquiesceu com um ar grave.
- Obrigado. Vim para ajudar o exrcito grego, mas fiz-me ao mar antes de
- antes de saber que o meu pai tinha morrido. Fiquei a saber graas  cano.
Ulisses juntou-se aos dois.
Haveria melhor maneira de ficares a saber to horrenda notcia? Suspirando, Neoptolemo baixou a cabea. - Tens razo. A cano diz-nos tudo o que haveria para dizer.
E Pris? J pagou?
Agammnon pegou-lhe nas mos.
- J, Pris j pagou.
- Quem o matou?
- Filoctetes, com as flechas de Hracles.
O rapaz fez um esforo para se mostrar polido, para manter uma expresso impassvel.
- Lamento imenso, mas eu no vos conheo. Qual de vs  Filoctetes?
- Sou eu - retorquiu imediatamente Filoctetes.
- Eu no estava c para vingar a morte do meu pai. Gostaria, por isso, de te agradecer.
- Eu sei, meu rapaz, eu sei. Preferias ter sido tu, no era? Mas acontece que eu fiquei frente a frente com o patife por um mero acaso - ou com a conivncia dos
deuses; quem somos ns para saber? Bom, mas como tu no nos conheces, deixa-me apresentar-te os nossos chefes. O nosso rei supremo foi o primeiro a saudar-te. O
segundo foi Ulisses. Quanto aos outros, eis os seus nomes: Nestor, Idomeneu, Menelau, Diomedes, Automedonte, Menesteu, Merona, Macon e Euripilo.
To poucos que ns somos!, pensei eu nesse momento. Tantos que partiram j! Tantos!
Ulisses, um extasiado Automedonte e eu conduzimos Neoptolemo  paliada mirmid. Era uma caminhada algo longa e as notcias da sua chegada j se tinham espalhado.
Soldados saam aos montes das casernas e juntavam-se sob os dbeis raios de sol para o saudarem to entusiasticamente como costumavam saudar o seu pai. Descobrimos
que as suas parecenas com Aquiles no se limitavam ao fsico; Neoptolemo reagia  desvairada alegria dos homens com o mesmo sorriso tranquilo e o mesmo aceno desatento
do pai; tal como o pai, Neoptolemo encerrava-se em si mesmo, evitando toda e qualquer exposio do seu carcter. Enquanto caminhvamos, fomos-lhe contando aquilo
que a parte final da cano no lhe revelara: o triste fim de jax, a morte de Antloco e de tantos outros. Depois, falmos-lhe dos vivos.
Os Mirmides estavam j formados. As aclamaes s se ouviram depois de o rapaz - teria, quando muito, dezoito anos - lhes ter falado. Depois, desataram a bater
com as espadas nos escudos, produzindo um tal rudo que Ulisses e eu desandmos logo, a caminho do nosso acampamento.
Estamos a chegar ao fim, Diomedes.

#- Se os deuses conhecem o significado da palavra piedade, a todos peo que esse fim chegue depressa.
- Dez anos... - disse Ulisses, afastando dos olhos um cacho de cabelo mais rebelde. -  curioso... Calcas acertou em cheio... Ter sido uma questo de sorte? Ou
ser que Calcas possua mesmo a Segunda Viso?
Estremeci ao ouvi-lo exprimir tais dvidas.
- No  correcto duvidar-se das faculdades dos sacerdotes.
- Talvez, talvez. Ah, daria tudo para no voltar a ter no meu cabelo uma partcula que fosse desta maldita poeira! Para me fazer de novo ao mar! Para lavar todo
o fedor desta plancie com lmpida gua salgada! Para ir para qualquer stio do mundo em que no haja vento e em que as estrelas no tenham de competir com dez mil
fogueiras! Para me purificar de tudo isto!
- Os teus anseios so os meus, Ulisses. Embora seja difcil acreditar que o fim se aproxima.
- O fim vir com um cataclismo capaz de rivalizar com aqueles que so obra de Poseidon.
Fitei-o.
- J traaste o plano final?
- J.
- Conta-me tudo! -Antes de tempo? Diomedes, Diomedes! Nem mesmo a ti eu contava! Mas descansa que j no ters de esperar muito...
- Vamos para dentro. Quero tratar-te dos verges. Desatou a rir.
- Eles curam-se sozinhos - disse. Na noite seguinte, Neoptolemo jantou connosco.
- Tenho uma coisa guardada para te dar, Neoptolemo - disse Ulisses logo que a refeio terminou. -  a minha prenda para ti.
Neoptolemo olhou para mim, confuso.
- Que quer ele dizer? Encolhi os ombros.
- Ningum consegue adivinhar o que se passa naquela cabea, Neoptolemo. Ulisses voltou  sala com um trpode enorme, sobre o qual se erguia a armadura de ouro que
Ttis encomendara a Hefasto. Neoptolemo levantou-se de um salto, tartamudeando qualquer coisa que no entendi; depois, com dedos delicados, apaixonados, tocou na
couraa.
- Fiquei furioso - disse ele, com lgrimas nos olhos - quando Automedonte me disse que tinhas ganho a armadura a jax. Tenho de te pedir perdo, Ulisses. Ganhaste-a
para ma dares?
Ulisses sorriu.
- Esta armadura vai assentar-te lindamente, rapaz. Ela deve ser usada, e no pendurada numa parede ou entregue aos parentes de um morto, que nunca se serviriam dela.
Usa-a, Neoptolemo. Que ela te d sorte, so os meus sinceros votos! No entanto, vais precisar de algum tempo para te habituares a ela. Pesa sensivelmente o mesmo
que tu.
Nos cinco dias seguintes, envolvemo-nos numas quantas escaramuas menores; Neoptolemo teve o seu primeiro contacto com os Troianos e no podia ter ficado mais satisfeito.
O filho de Aquiles era um guerreiro, nascera para a guerra, tinha fome de guerra. O seu nico inimigo era o tempo - e ele sabia-o. Diziam-nos os seus olhos que ele
compreendia que desempenharia um papel menor na guerra de Tria; e que, alm disso, iria participar apenas no desfecho dessa mesma guerra; as coroas de louros seriam
para aqueles que haviam suportado dez anos de uma luta insana. Contudo, Neoptolemo era afinal o factor decisivo. Renovara a esperana, a fria, o entusiasmo; os
olhos dos soldados, fossem eles de Argos ou da Etlia ou da Tesslia, seguiam-no com uma devoo canina sempre que ele subia ao carro do pai, envergando a armadura
do pai. Para eles, ele era Aquiles. E, enquanto os dias iam passando, eu continuava a observar Ulisses, ansiando pelo prximo conselho.
O conselho foi convocado meia lua depois de Neoptolemo ter chegado; segundo um dos arautos imperiais, realizar-se-ia no dia seguinte, aps a refeio do meio-dia.
Eu sabia que era intil tentar arrancar fosse o que fosse a Ulisses; por isso, depois de termos ceado, pus um ar completamente desinteressado, enquanto ele saltava
de assunto em assunto to destramente como o melhor dos atletas salta os mais difceis obstculos. Reagiu muito bem  minha indiferena; porm, quando eu me despedi
dele com um ar algo altivo, rompeu num riso incontrolvel. Apetecia-me dar-lhe um pontap, mas ainda me doam as chicotadas com que o marcara (doam-me mais a mim
do que a ele, de facto) e, por isso, contive-me; limitei-me a fazer uma acerba apreciao a propsito dos seus antepassados.
Todos apareceram bem cedo na casa de Agammnon, como ces acorrentados farejando sangue fresco, cuidadosamente vestidos com os seus melhores saiotes e jias, como
se tivessem sido convidados para uma recepo formal na Sala do Leo, em Micenas. O arauto-mor postou-se aos ps da Cadeira do Leo, clamando os nomes dos presentes
para um subordinado cuja tarefa consistiria em decor-los; a memria desse humilde funcionrio seria o veculo que conduziria esses nomes  posteridade.

#Imperial Agammnon, rei supremo de Micenas, rei dos reis; Idomeneu, rei supremo de Creta; Menesteu, rei supremo da tica; Nestor, rei de Pilos; Menelau, rei da
Lacedemnia; Diomedes, rei de Argos; Ulisses, rei das Ilhas; Filoctetes, rei de Hestaitis; Euripilo, rei de Ormnion; Toante, rei da Etlia; Agapenor, rei da Arcdia;
jax, filho de Oileu, rei da Lcrida; Merona, prncipe de Creta, herdeiro do trono de Creta; Neoptolemo, prncipe da Tesslia, herdeiro do trono da Tesslia; Teucro,
prncipe de Salamina; Macon, cirurgio; Podalrio, cirurgio; Epeu, engenheiro.
O rei dos reis acenou para que os seus arautos se retirassem e entregou a Merona o Basto do Debate. Dirigiu-se ento a ns na linguagem rebuscada que  caracterstica
das declaraes formais.
- Depois de Pramo, rei de Tria, ter transgredido as sagradas convenes da guerra, solicitei a Ulisses, rei de taca, que concebesse um plano que nos permita conquistar
Tria, ainda que, para tal, tenhamos de recorrer a dbios estratagemas. Ulisses, rei de taca, comunicou-me que havia concludo j o seu plano. Convoquei-os para
que ouvissem o que ele tem para nos dizer. Rgio Ulisses, tens a palavra.
Sorrindo para Merona, Ulisses levantou-se.
- Faz-me um favor, Merona, fica tu com o Basto. - Pegou depois num rolo de pele clara e macia que estava em cima da mesa no centro da sala e encaminhou-se para
a parede defronte de ns. Desdobrou o rolo e pregou-o  parede com quatro pequenos punhais cravejados de jias, cada um deles num dos cantos.
Ficmos todos a olhar para aquilo sem entender rigorosamente nada, perguntando-nos se no estaramos a ser vtimas de uma brincadeira de mau gosto. O que tnhamos
diante de ns era um esboo a carvo, representando um cavalo enorme, ao lado do qual se erguia uma linha vertical. Tendo em conta os materiais e o autor, at nem
se podia dizer que o desenho estivesse mal feito. Mas para que servira aquilo? Ulisses fitou-nos com um ar enigmtico.
-  verdade, meus amigos,  o desenho de um cavalo. Devem ter ficado intrigados com o facto de Epeu, o engenheiro, se encontrar hoje entre ns. Pois bem: eu pedi
que ele fosse convocado, porque quero fazer-lhe algumas perguntas e ouvir as respostas de um tcnico especializado.
Virou-se para Epeu, que se sentia to confuso quanto constrangido na companhia de to augustas personagens.
- Epeu, tu s considerado o melhor engenheiro que a Grcia produziu desde a morte de aco. Alm disso, diz quem sabe que no h, em toda a Grcia, ningum que trabalhe
melhor a madeira do que tu. Peo-te que examines atentamente o desenho. Repara na linha vertical junto ao cavalo. O comprimento dessa linha corresponde  altura
das muralhas de Tria.
Desconcertados, examinmos o desenho to atentamente como Epeu.
- Em primeiro lugar, Epeu, gostaria de saber a tua opinio acerca do seguinte: durante dez anos, pudeste observar as muralhas de Tria; crs que existe, em todo
o mundo conhecido, algum arete, algum engenho de cerco, capaz de abater a Porta Ceia?
- No, rei Ulisses.
- Muito bem. Uma segunda questo: usando os materiais, os meios e os artfices de que dispes actualmente no nosso acampamento, serias capaz de construir um grande
navio?
- Sem dvida, rei Ulisses. No faltam no nosso acampamento os carpinteiros navais, os pedreiros, os serralheiros, isto j para no falar de trabalhadores no qualificados.
E julgo que, num raio de cinco lguas, h madeira suficiente, e da melhor qualidade, para construir, no um navio, mas uma frota.
- Excelente! Eis a terceira pergunta: serias capaz de construir um cavalo de madeira do tamanho deste animal que vs desenhado na pele? Repara uma vez mais na linha
a negro. O comprimento dessa linha equivale aos trinta cbitos de altura das muralhas troianas. Poders, portanto, concluir que a altura do cavalo  de trinta e
cinco cbitos. E - quarta questo - poderias montar este cavalo sobre uma plataforma dotada de rodas, capaz de suportar todo o seu peso? E - quinta questo - o cavalo
poderia ser oco?
Epeu comeava a sorrir; era evidente que o projecto lhe agradava sobremaneira. -A minha resposta a todas as tuas questes  um sim, rei Ulisses.
- E quanto tempo levarias a executar tal trabalho?
- Seria... uma questo de dias, rei Ulisses. Ulisses desprendeu a pele e entregou-a ao engenheiro.
- Obrigado, Epeu. Podes retirar-te. Espera-me em minha casa.

#Estvamos perfeitamente perplexos. Creio que os nossos rostos, naquele momento, exprimiriam apenas desconcerto, apreenso e desconfiana; porm, enquanto espervamos
que Epeu abandonasse a sala, Nestor desatou num risinho, como se, de repente, tivesse ouvido a mais hilariante das anedotas - e Nestor, velho como era, ouvira j
muitas.
Ulisses abriu muito os braos e como que cresceu em altura, erguendo-se como uma torre. A sua corrida comeara: nenhum dos atletas presentes poderia det-lo ou faz-lo
vacilar. Sublinhada por gestos magnficos, a sua voz retumbou na sala.
- E  assim, meus amigos reis e prncipes, que vamos conquistar Tria! Ficmos parados e calados a olhar para ele.
- Sim, Nestor, tens razo. E tu tambm, Agammnon. Em primeiro lugar, um cavalo com tais dimenses, segundo as minhas estimativas, poder albergar cerca de cem homens
na sua barriga. E se esses cem homens sarem silenciosamente, pela calada da noite e sem levantarem suspeitas, no precisaremos de mais ningum para abrir a Porta
Ceia.
De todos os cantos da sala, surgiu num pice um vendaval de perguntas. Os cpticos berravam, os entusiastas aplaudiam - e o pandemnio s acabou quando Agammnon
se levantou da Cadeira do Leo, tirou o Basto a Merona e desatou a bater com ele no cho.
- Podem fazer todas as perguntas que quiserem, mas, por todos os deuses, com alguma ordem! E s depois de mim! Ulisses, senta-te e bebe uma taa de vinho. Depois,
explica-nos o teu plano tintim por tintim.
Caa a noite quando a assembleia foi dissolvida; acompanhei Ulisses  sua casa. Epeu esperava pacientemente, com o rolo de pele desdobrado diante dele; o engenheiro,
enquanto aguardava por ns, fizera um sem-nmero de pequenos desenhos. A partir desse instante, limitei-me a ouvir, pois s eles falavam... E tudo discutiram: questes
tcnicas, as coisas de que Epeu precisaria, o tempo aproximado que o trabalho demoraria, a necessidade de um secretismo absoluto...
- Podes trabalhar no pequeno vale que fica por detrs desta casa - disse Ulisses a Epeu. -  uma cova profunda; e, como temos rvores a rodear-nos por todos os lados,
ningum ver a cabea do cavalo. Por outro lado, das torres de vigia da cidade, tambm no conseguiro v-lo. Mas esta localizao apresenta outras vantagens. H
tantos anos que nos ocultamos neste vale que os curiosos j deixaram de nos importunar. Poders recorrer aos homens que aqui vivem como mo-de-obra no qualificada.
Os tcnicos que vierem de outros locais do acampamento s podero abandonar o vale quando o trabalho estiver pronto. Ests de acordo em trabalhar nestas condies
algo limitadas?
Os olhos do engenheiro cintilaram.
- Podes confiar em mim, rei Ulisses. Ningum saber o que aqui se passa.
Captulo Trigsimo Segundo
Narrado por Pramo.
Vindo da gelada imensido da Ctia, breas, o vento norte, abatia-se, uivante, sobre as terras de Tria, tingindo as nossas rvores de mbar e amarelo; o Vero do
dcimo ano despedira-se j e Agammnon continuava na praia, um co sarnento guardando o osso ftido em que Tria se havia transformado.
Tudo acabara. Pouco antes da morte de Heitor, ordenei que os ltimos pregos de ouro fossem arrancados de portas, soalhos, persianas, dobradias; o cadinho era o
seu destino. O tesouro estava vazio; todas as oferendas votivas dos templos haviam sido usadas para fazer lingotes; ricos e pobres queixavam-se dos impostos; e,
apesar de tudo isso, eu continuava sem os meios necessrios para comprar aquilo de que Tria precisava para manter acesa a chama da guerra - mercenrios, armas,
engenhos blicos. H dez anos que a fonte de rendimentos que era o Helesponto secara por completo. No para Agammnon, que obrigava todos os navios gregos que se
dirigiam para o mar Euxino a pagar uma pesada taxa. Quanto aos navios de outras naes, impedia-os pura e simplesmente de passarem o Helesponto. No nos faltavam
os alimentos, porque as nossas portas sul e nordeste se mantinham abertas e os camponeses tinham podido continuar a cultivar as suas terras; mas havia muito tempo
que no tocvamos naqueles legumes e frutos que nas nossas terras no se davam. Quanto aos lendrios cavalos de Laomedonte, poucos eram aqueles que ainda pastavam
na plancie a sul de Tria; fora obrigado a vender a maior parte desses belssimos exemplares. O mal que fazemos outro mal atrai, verdade mais certa no h. Aquilo
que, outrora, Laomedonte e eu havamos negado aos Gregos, pertencia agora a esses mesmos Gregos, pois vim a saber que quase todos os meus cavalos tinham ido parar
s mos do rei Diomedes de Argos. Ah, a soberba, a vanglria... Quanto mais alto o voo, maior a queda...
Acenderam as lareiras do meu quarto para que a minha carne pudesse aquecer, mas no havia, em toda a terra, um nico fogo que fosse capaz de dissolver o

#desespero que se apegara ao meu corao como um beb esfomeado se aferra ao seio da me. Cinquenta filhos haviam gerado as minhas mulheres, cinquenta belos rapazes.
Quase todos mortos agora. O deus da Guerra apartara de mim os melhores, deixando-me a escria para me consolar na velhice: triste consolo... Tinha oitenta e trs
anos e, quem me visse, diria por certo que eu sobreviveria a todos os filhos que me restavam. As lgrimas molhavam-me as faces sempre que via Defobo pavoneando-se
nos palcios ou nas paradas. Herdeiro do trono, aquilo? No, no mais do que um pobre farsante, uma imitao barata! Ah, Heitor, Heitor, Heitor! A minha esposa Hcuba
enlouquecera; uivava como uma cadela velha a quem no davam sustento; a sua companhia preferida era Cassandra, mais louca ainda do que a me. Ainda que, estranho
caso este, a beleza de Cassandra tivesse florido tanto como a sua demncia. Duas grandes fitas brancas trespassavam-lhe agora a longa cabeleira negra, o rosto emagrecera,
revelando os ossos, os olhos surgiam to grandes e brilhantes que mais pareciam safiras to negras como azeviche.
Por vezes, forava-me a subir  torre de vigia da Porta Ceia, para ver os incontveis tufos de fumo erguendo-se na praia, os navios dispostos, fila aps fila, ao
longo das areias. Os Gregos no se decidiam a lanar o assalto; ns estvamos  beira de um abismo e eles no nos permitiam a esmola de um consolo, pois no sabamos
que intenes eram as suas. Continuavam a dedicar-se s suas misteriosas tarefas como se o tempo no lhes pesasse. O que restava do exrcito de Tria estava concentrado
na Cortina Ocidental; era a que Agammnon atacaria, se ataque houvesse.
Cada noite era para mim um tormento sem sono; cada manh encontrava-me to desperto como se, no mundo, nunca tivesse havido noite. Contudo, no estava ainda derrotado.
Enquanto, na minha carcaa mirrada, vivesse um esprito, Tria no cairia. Os dentes de Agammnon podiam ferrar-se nas nossas muralhas, mas Tria seria sempre minha.
Nem que tivesse de vender no s o ouro, mas tambm todas as pessoas que viviam dentro das suas muralhas.
Soprava o lgido breas h trs dias; deitado na cama, os olhos fixos na janela e nos indcios de claridade que comeavam a derramar-se sobre o Ida, chorava por
Heitor. A luz cinzenta que antecede o dia raiava-se do brilho enevoado das minhas lgrimas.
Ouvindo um grito que a distncia esbatia, estremeci e obriguei-me a sair da cama. O grito parecia ter vindo da Cortina Ocidental. Vai ver o que se passa, Pramo,
vai ver o que se passa, disse baixinho para mim mesmo. Instantes depois, ordenei que me trouxessem o carro.
O tumulto crescia, novas e muitas vozes se erguiam, mas eu estava ainda demasiado longe para saber se uma tal agitao seria causada pelo medo ou pela dor.
Defobo veio ter comigo, esfregando uns olhos cheios de sono, fazendo uma carranca desagradada.
- Vamos ser atacados, pai? - perguntou-me.
- Como queres que eu saiba? Vou at s muralhas, para saber o que se passa.
O cavalario-mor surgiu com o meu carro, o condutor avanou trpego, entorpecido ainda pelo sono; depressa parti, deixando o herdeiro para trs. Ele que fizesse
o que muito bem entendesse. Se queria voltar para a cama, que voltasse.
Formigava de gente toda a rea  volta da Porta Ceia e da Cortina Ocidental; homens corriam em todas as direces, gesticulando e gritando, mas no via ningum envergando
 pressa a sua armadura. Saltavam, rodopiavam, gritavam a toda a gente que subisse ao alto das muralhas e visse o que havia para ver.
Um soldado ajudou-me a subir as escadas da torre de vigia da Porta Ceia; penetrei silenciosamente na guarita. O capito vestia no mais do que uma tanga e as lgrimas
corriam-lhe pelo rosto, enquanto que o seu lugar-tenente estava sentado numa cadeira, rindo-se desvairadamente.
- Que significa isto, capito? - perguntei. Demasiado obcecado com aquilo que o afectava - fosse l o que fosse para se dar conta do que estava a fazer, o capito
pegou-me no brao com toda a fora e levou-me sem demora, e sem qualquer cerimnia, at  passagem superior das muralhas. A chegados, virou-me na direco do acampamento
grego e apontou para a praia com um dedo trmulo.
- V bem, rei Pramo! Apolo ouviu as nossas oraes! Franzi os olhos (em muito bom estado, tendo em conta a minha idade) e perscrutei a praia, j banhada de luz.
Olhei, olhei, olhei! Como entender aquilo? Como acreditar naquilo? As chamins gregas j no deitavam fumo, no pairava no ar cheiro nenhum a madeira queimada; no
havia no acampamento uma nica formiga - pois era isso o que os Gregos pareciam, vistos dali - que se movesse; e, na praia, uma vasta faixa de seixos brilhava ao
sabor do sol. O nico indcio de que ali houvera navios era aquela srie imensa de sulcos profundos que se estendiam at s guas da lagoa. Os navios tinham partido!
Os soldados tinham partido! De um exrcito de oitenta mil homens, restava apenas uma pequena cidade de casas cinzentas. Agammnon fizera-se ao mar de noite.
Gritei de jbilo. No conseguia sair dali, no conseguia conter a minha alegria. At que as minhas pernas cederam e ca desamparado na pedra da passagem superior
da muralha. Rompi a rir e a chorar, a rolar nas duras pedras como se elas fossem to macias como a lanugem do cardo, balbuciei os meus agradecimentos a Apolo, ri-me
que nem um menino, como um menino desatei a dar aos braos. O capito ergueu-me; abracei-o e beijei-o, prometendo-lhe qualquer coisa de que logo me esqueci.

#Defobo apareceu a correr, com o rosto transfigurado. Pegou em mim e comigo rodopiou numa dana demente, enquanto os guardas faziam um crculo  nossa volta e marcavam
o ritmo.
J no havia na praia nenhum monstro grego emboscado, pronto a lanar sobre ns as suas garras! Tria estava finalmente livre!
No houve nunca no mundo notcia que se tivesse espalhado to depressa. Toda a cidade estava j acordada e bem acordada, toda a cidade corria para as muralhas para
aclamar a boa nova, para cantar, para danar. A luz do Sol ia apagando as sombras e os nossos olhos viam mais claro: sim, no havia qualquer dvida, Agammnon partira,
partira, partira! Ah, querido Senhor da Luz, obrigado! Obrigado!
Alerta agora, o capito continuava a meu lado, protegendo-me. Subitamente tenso e apreensivo, puxou-me pela manga. Ento, Defobo deu-se conta da ansiedade do capito
e abeirou-se de ns.
- Que se passa, capito? - perguntei, inquieto.
- Rei Pramo, h qualquer coisa ali, ao longe, na plancie... J me tinha chamado a ateno antes de o Sol nascer. Pensei que fosse uma rvore, pois est junto ao
bosque do Simoente. Mas agora, com esta luz, v-se bem que no  uma rvore, mas sim um objecto enorme. Consegues ver, rei Pramo?
- Sim, estou a ver, estou a ver - retorqui, com a boca seca.
- Sim, h ali qualquer coisa... - disse Defobo, lentamente. - Ser um animal?
Outros homens estavam a apontar para o misterioso objecto, discutindo a sua natureza; ento, os raios oblquos do Sol da manh beijaram-no e revelaram uma superfcie
castanha e polida.
-  Vou ver o que  aquilo - disse eu, encaminhando-me para a porta da guarita. - Capito, manda abrir a Porta Ceia, mas no deixes que o povo saia. Eu prprio examinarei
o estranho objecto. Defobo, vem comigo.
Ah, que bem me sabia aquele vento, apesar de to frio! Atravessar a plancie era uma verdadeira panaceia para todos os meus males! Ordenei ao condutor que seguisse
pela estrada de seixos. Os solavancos eram inevitveis, mas, apesar de tudo, a viagem era agora muito mais suave do que noutros tempos. O progresso incessante de
homens e carros gastara uniformemente a pedra e as fissuras entre elas haviam sido preenchidas pela lama em que as chuvas outonais tinham transformado a muita poeira
dos campos de Tria.
Claro que todos ns tnhamos j percebido de que objecto se tratava; no entanto, nenhum de ns queria acreditar no que os olhos viam. Que estava aquilo a fazer ali?
E para que estava ali? Ah, com certeza que no era o que pensvamos!
Quando nos abeirssemos dele, verificaramos por certo que se tratava de outra coisa - um objecto muito mais estranho, completamente diferente. No entanto, quando
Defobo e eu nos acercmos daquilo, com alguns membros da corte na nossa esteira, conclumos que o objecto era efectivamente aquilo que parecia: um gigantesco cavalo
de madeira!
Erguia-se muito acima das nossas cabeas, uma criatura castanha, de madeira de carvalho, de propores imensas. Quem o fizera - deuses? Homens? - imitara escrupulosamente
a anatomia do cavalo; impossvel confundi-lo com uma mula ou um burro; no entanto, e como se tratava de um gigante, as pernas eram muito mais grossas do que as pernas
dos vulgares cavalos, e os cascos, mais prprios de um mamute, assentavam sobre uma plataforma de toros. Esta plataforma dispunha de rodas pequenas mas slidas -
doze de cada lado. O meu carro encontrava-se sob a sombra da cabea do cavalo; estiquei o pescoo o mais que pude para examinar a parte inferior da queixada. Construdo
com madeira polida, o cavalo era, ao mesmo tempo, corpulento e firme; as juntas entre as pranchas de madeira haviam sido seladas com pez, como se do casco de um
navio se tratasse; essas linhas de juno haviam sido disfaradas com um bonito padro, pintado num tom ocre. A cauda e a crina tinham sido esculpidas; recuando
para melhor examinar a cabea, verifiquei que os olhos tinham sido incrustados com mbar e azeviche, que as cavernas das narinas tinham sido pintadas de vermelho
e que os dentes, abrindo-se num relincho, eram de marfim. Sim, era de facto uma esttua muito bela.
Um destacamento da Guarda Real juntara-se j a ns, tal como a maior parte dos membros da corte.
- Deve ser oco, pai - disse Defobo. - Se no fosse oco, as rodas no aguentariam.
Apontei para os quartos traseiros do cavalo.
-  um objecto sagrado, Defobo. Ests a ver? Uma coruja, a cabea de uma serpente, um escudo e uma lana. Pertence a Palas Atena.
Alguns dos presentes mostravam-se cpticos; Defobo e Cpis resmungavam desconfiados, mas um outro filho meu, Timeta, no podia estar mais excitado.
-  Pai, tu tens razo! Os smbolos so mais eloquentes do que todas as lnguas.  uma prenda dos Gregos para substituir o Paldio.
O sumo-sacerdote de Apolo, Lacoonte, disparou, furioso:
- Com as prendas dos Gregos, todo o cuidado  pouco! Cpis envolveu-se imediatamente na discusso.
- Pai, este cavalo  uma armadilha! Porque haveria Palas Atena de obrigar os Gregos a to duro trabalho? Palas Atena ama os Gregos! Os Gregos roubaram o Paldio
porque ela consentiu que o roubassem! Palas Atena nunca trocaria os Gregos pelos Troianos! O cavalo  uma armadilha!

#- Acalma-te, Cpis - disse-lhe eu, mais concentrado no cavalo do que nas palavras dele.
- Pai, suplico-te que me ouas! - teimou ele. - Abre-lhe a barriga e v o que ela contm!
- No te deixes iludir por prendas gregas - disse Lacoonte. - O cavalo  uma armadilha.
- Concordo com Timeta - disse eu. - O cavalo foi construdo para substituir o Paldio. - Lancei a Cpis um olhar feroz. - Basta de discusses, Cpis! Entendido?
- Seja como for - disse Defobo, revelando um inusitado esprito prtico, o cavalo no foi feito para entrar nas nossas muralhas.  demasiado alto para caber nas
portas. No sei qual foi o objectivo que presidiu  sua construo, mas de uma coisa estou certo: no pode ser uma cilada. O cavalo ter de ficar na plancie. Portanto,
no representa qualquer perigo para ns ou seja para quem for.
-  uma cilada! - exclamaram Cpis e Lacoonte, quase que em unssono. As discusses continuaram inflamadas, enquanto mais e mais membros da corte de Tria se juntavam
 volta do assombroso cavalo, no s para exprimirem o seu deslumbramento, mas tambm para exporem as mais diversas teorias e me inundarem de opinies. Para lhes
fugir, decidi no ficar parado e dar voltas e mais voltas ao cavalo, examinando-o minuciosamente, sondando o significado dos smbolos, maravilhando-me com a qualidade
do trabalho dos artfices. Encontrava-se exactamente a meio caminho entre a praia e a cidade. Mas de onde viera? Se tinham sido os Gregos a constru-lo, ns ter-nos-amos
apercebido disso... S poderia ser uma prenda da deusa... Sim, era por certo uma prenda da deusa!
Lacoonte enviara alguns dos guardas reais ao acampamento grego; eu continuava a dar as minhas voltas, quando dois guardas surgiram num carro de quatro rodas, com
um homem entre eles. Os guardas desceram do carro e ajudaram o homem a descer.
A pobre criatura tinha os braos e as pernas acorrentados, farrapos eram a sua roupa, todo o seu corpo era uma imundcie pegada.
Um dos guardas ajoelhou diante de mim.
- Rei Pramo, encontrmos este homem escondido numa das casas gregas. Estava como o vs agora, acorrentado. Foi aoitado h pouco tempo, como se pode ver pelos verges
ensanguentados. Quando o capturmos, suplicou que lhe poupssemos a vida e pediu-nos que o levssemos  presena do rei de Tria, a fim de lhe comunicar aquilo que
sabe.
- Fala, homem, eu sou o rei de Tria - disse-lhe eu.
O homem molhou os lbios, gemeu, fez um esforo para falar mas no conseguiu. Um guarda deu-lhe gua; ele bebeu-a avidamente e s ento me saudou.
- Agradeo a tua bondade, rei Pramo - disse ele.
- Quem s tu? - perguntou Defobo.
- O meu nome  Sino. Sou grego, natural de Argos, um nobre da corte do rei Diomedes, de quem sou primo. Mas fiz parte de uma unidade especial do rei supremo de
Micenas comandada pelo rei Ulisses de taca. - O homem calou-se, vacilou, teve de ser ajudado pelos guardas.
Desci do carro. - Soldado, senta-o na beira do teu carro. Eu vou sentar-me ao lado dele. Mas logo houve algum que me trouxe um banco e por isso ficmos diante um
do outro.
- Ests melhor assim, Sino?
- Obrigado, rei Pramo. J tenho foras para continuar.
- Explica-me por que razo um nobre de Argos como tu foi aoitado e acorrentado.
- Rei Pramo, eu conhecia o plano que Ulisses tramou para se livrar do rei Palamedes. Pelos vistos, Palamedes insultara Ulisses antes da nossa expedio a Tria
ter comeado. Diz-se que Ulisses  capaz de esperar uma vida inteira pela oportunidade ideal para se vingar dos seus inimigos. No caso de Palamedes, esperou apenas
oito anos. H cerca de dois anos, Palamedes foi executado por alta traio. Ulisses congeminou as acusaes e fabricou as provas que levaram  condenao de Palamedes.
Fiquei sinceramente intrigado.
- Mas por que razo haveria um grego de conspirar contra outro, tendo em mente a sua morte? Eram vizinhos rivais? Disputavam algum territrio?
- No, rei Pramo. Ulisses  rei das ilhas a oeste da ilha de Plops, Palamedes era rei de uma importante cidade porturia da costa oriental. Tratou-se de umproblema
pessoal: Ulisses nutria por Palamedes um rancor desmedido. Porqu, no sei.
- Estou a ver. Nesse caso, porque te trataram como a um escravo? Se Ulisses foi capaz de fabricar acusaes de traio contra outro rei grego, porque no fez o mesmo
em relao a ti, um mero nobre?
- Eu sou primo direito de um rei mais poderoso do que ele e por quem Ulisses nutre grande afeio. Alm disso, eu contei a minha histria a um sacerdote de Zeus.
Se eu vivesse, o sacerdote no diria nada. Mas, se morresse, fosse qual fosse a causa da minha morte, o sacerdote divulgaria tudo o que sabia. Como Ulisses no sabia
qual era o sacerdote que conhecia a verdade, julguei que estaria para sempre em segurana.
- Quer dizer ento que o sacerdote nunca contou a histria? - perguntei eu. -  o que posso concluir, visto que ests vivo.

#- No, rei Pramo, nada disso - disse Sino, bebendo mais gua; parecia menos abatido agora, apesar da desgraa que lhe acontecera. - O tempo passou, Ulisses nada
disse e nada fez, e - bom, rei Pramo, a verdade  que eu nunca mais pensei no assunto! Porm, nestes ltimos tempos, o exrcito caiu num profundo desnimo. Aps
a morte de Aquiles e jax, Agammnon perdeu todas as esperanas de conseguir entrar em Tria. Convocou por isso um conselho e props uma votao. O resultado da
votao foi este: regressariam  Grcia.
- Mas esse conselho deve ter-se realizado a meio do Vero!
-  verdade, rei Pramo. Contudo, a frota no pde partir porque os augrios no eram auspiciosos. O sumo-sacerdote, Taltbio, explicou-nos porqu. Era Palas Atena
quem fazia soprar os ventos contrrios. Ficara muito agastada connosco por causa do roubo do Paldio. E exigia uma compensao. Depois, foi Apolo quem declarou a
sua ira. Queria um sacrifcio humano. E o sacrificado seria eu! Apolo disse mesmo o meu nome! O sacerdote a quem tinha confiado a minha histria j no se encontrava
em Tria: Ulisses tinha-o mandado numa misso a Lesbos. Por isso, quando contei a minha histria, ningum acreditou nela.
- O rei Ulisses no se tinha esquecido de ti....
- Pois no, rei Pramo. O rei Ulisses limitou-se a esperar pelo momento certo para desferir o seu golpe. Aoitaram-me e acorrentaram-me e deixaram-me aqui  merc
do teu povo. Breas comeou a soprar: os navios gregos podiam finalmente partir. A raiva de Palas Atena e de Apolo fora aplacada.
Levantei-me, andei um pouco, voltei a sentar-me.
- Mas... e este cavalo de madeira, Sino? Porque est ele aqui? Pertence a Palas Atena?
- Sim, rei Pramo. Palas Atena exigiu que o Paldio fosse substitudo por este cavalo de madeira. Fomos ns mesmos que o construmos.
- Porque  que a deusa no exigiu muito simplesmente que devolvessem o Paldio? - perguntou Cpis, desconfiado.
Sino pareceu surpreendido.
- Porque o Paldio fora maculado.
- Continua - ordenei-lhe.
- Taltbio profetizou que, a partir do momento em que o cavalo de madeira entrasse na cidade de Tria, esta resistiria a todos os ataques. Tria no cairia nunca
e recuperaria toda a sua antiga prosperidade. Ulisses sugeriu, por isso, que construssemos um cavalo demasiado grande, um cavalo que no coubesse nas portas de
Tria. Dessa forma, disse ele, obedeceramos a Palas Atena, mas faramos com que a profecia nunca se cumprisse. O cavalo de madeira teria de permanecer na plancie.
- O pobre homem calou-se, gemeu, mexeu os ombros, tentou sentar-se mais confortavelmente. -Ai! Ai! Retalharam-me todo!
- Descansa, Sino, que em breve trataremos das tuas feridas - disse-lhe eu, procurando consol-lo. - Mas primeiro temos de ouvir a histria toda.
- Sim, rei Pramo, eu compreendo. Mas no sei que possas fazer. Ulisses  muito esperto. O cavalo  demasiado grande.
- Veremos isso mais tarde - disse-lhe eu com um ar severo. - Termina a tua histria.
- J terminou, rei Pramo. Eles partiram e deixaram-me aqui.
- Partiram para a Grcia?
-  verdade, rei Pramo. Com este vento, chegam l num instante.
- Explica-me uma coisa - disse Lacoonte, ainda muito cptico. - Porque  que puseram rodas no animal?
Sino pestanejou, surpreso.
- Est-se mesmo a ver porqu - retorquiu. - Para o tirarmos do nosso acampamento!
Impossvel duvidar do homem! O seu sofrimento era demasiado real, tal como aqueles verges, tal como o seu extremo emagrecimento. E a histria dele fazia todo o
sentido.
Defobo ergueu os olhos para a poderosa massa de madeira e suspirou.
- Que pena! Se ao menos pudssemos lev-lo para dentro da -, Fez uma pausa. - Sino - disse ele ento -, que aconteceu ao Paldio? Foi... maculado?
- Depois de o terem levado para o nosso acampamento - Ulisses roubou-o...
- Era de esperar! - disse Defobo, interrompendo o homem.
- A deusa foi colocada no seu altar - prosseguiu Sino - e o exrcito reuniu-se para a ver. Porm, quando os sacerdotes lhe fizeram as oferendas, por trs vezes
as chamas envolveram a deusa. Quando as chamas finalmente se esbateram, Palas Atena comeou a transpirar sangue - gotas enormes de sangue ressumavam da sua pele
de madeira e rolavam-lhe pelas faces e molhavam-lhe os braos e saam-lhe dos olhos como se a pobre deusa estivesse a chorar. O cho tremeu e, vinda do cu claro,
uma bola de fogo caiu sobre as rvores para l do Escamandro - com certeza que a viram. Os homens, desvairados, desataram a dar punhadas no peito e a pedir perdo
 deusa - o prprio rei supremo ajoelhou. Descobrimos depois que a deusa prometera um favor  sua irm Afrodite - se o cavalo de madeira fosse levado para dentro
de Tria, a capital da Trada conseguiria reunir todas as foras do mundo e conquistar a Grcia.
- Hah! - rosnou Cpis. - Tudo encaixa demasiado bem na tua histria! Esse Ulisses decide fazer um cavalo demasiado grande e depois faz-se ao mar!
Acreditam que os Gregos iam ter tanto trabalho para, logo a seguir, se fazerem ao mar? Porque haveriam eles de se preocupar com o tamanho do cavalo se, neste momento,
esto j a caminho de casa?

#- Porque - disse Sino, num tom de voz que indicava que estava a perder a pacincia -, na prxima Primavera, contam voltar!
- A menos que - disse eu, levantando-me - consigamos levar o cavalo para dentro de Tria.
- No conseguem - disse Sino, encostando-se contra o resguardo do carro e fechando os olhos. -  demasiado grande.
- Conseguiremos, sim! - exclamei. - Capito! Traz cordas, correntes, mulas, bois e escravos. A manh ainda mal comeou. Se comearmos j, o cavalo entrar em Tria
ainda de dia.
- No, no, no! - gritou lacoonte, um profundo terror estampado no rosto.
- Por favor, rei Pramo! Deixa-me ao menos fazer as minhas splicas a Apolo!
- Faz o que muito bem te apetecer, Lacoonte - disse-lhe eu, afastando-me.
- Entretanto, tratemos de cumprir a profecia.
- No! - gritou o meu filho Cpis. Mas todos os outros atroaram, cheios de jbilo:
- Sim! Sim! Sim!
Passmos quase todo o dia naquela lida. Atmos cordas reforadas com correntes  dianteira e aos lados da macia plataforma de toros; depois, atrelmos mulas, bois
e escravos; com uma lentido quase infinita, o cavalo de madeira avanou pela estrada. Um trabalho penoso, frustrante, exasperante. Nenhum grego - homem nenhum!
- esperaria de ns tamanha pertincia, pois aquele era um trabalho para Hrcules! A cada curva, o animal tinha de ser cuidadosamente guiado, para que no sasse
da estrada de pedra; era essencial que as rodas no tocassem no terreno lamacento, pois poderiam afundar-se; no haveria no mundo rodas capazes de aguentar convenientemente
uma tal montanha de peso.
Ao meio-dia, tnhamos j o cavalo diante da Porta Ceia, onde pudemos constatar que a cabea tinha mais cinco cbitos de altura do que a passagem arqueada que encimava
a imensa porta de madeira.
- Timeta - disse eu para o meu filho, aquele que se mostrara mais entusiasmado com a misteriosa apario -, diz aos soldados que tragam picaretas e martelos. Vamos
deitar abaixo o arco.
Uma operao que pareceu durar uma eternidade! As pedras usadas por Poseidon, Construtor de Muralhas, no cediam facilmente aos golpes dos meros mortais; porm,
a pouco e pouco, foram-se fraccionando e caindo, at que, por sobre a Porta Ceia, havia j uma ampla abertura. Os animais e os homens que estavam atrelados  criatura
puxaram ento as correntes presas a cordas; a portentosa cabea do cavalo voltou a avanar. Vendo os dentes do cavalo abeirando-se mais e mais da entrada de Tria,
sustive a respirao; ento, gritei para avisar toda a gente, mas j era demasiado tarde. A cabea no conseguia passar. Demolimos mais uma pequena poro do arco
e tentmos de novo. Mas nem mesmo assim passou. Por quatro vezes, a cabea do cavalo avanou at conseguir atravessar a Porta Ceia. Ento, o gigantesco objecto rodou,
gemendo, na direco da Praa Ceia. Hah, Ulisses! Os teus intentos haviam sido frustrados!
Para que no restassem dvidas, decidi que o cavalo devia ser rebocado pela ngreme colina e levado para dentro da cidadela. Para executar tal operao, precismos
do dobro dos animais e demormos o que me pareceu uma eternidade, ainda que o povo tambm ajudasse. A Porta da Cidadela no tinha qualquer arco a encim-la; o cavalo
coube  justa.
Conduzimo-lo para o verdejante ptio consagrado a Zeus, onde para sempre ficaria. As lajes abriram fendas sob aquele peso imenso e as rodas afundaram-se no cho,
no meio de fragmentos de pedras, mas o substituto do Paldio mantinha-se bem direito. No havia na terra nenhuma fora que pudesse mov-lo agora. Mostrramos a Palas
Atena que ramos dignos do seu amor e respeito. Ali mesmo jurei publicamente que o cavalo seria mantido em perfeitas condies e que, na sua base, seria erigido
um altar. Tria estava a salvo. O rei Agammnon no regressaria na Primavera com um novo exrcito. E ns, depois de recuperarmos de dez anos de guerra, conduziramos
as foras do mundo para conquistarmos a Grcia.
Mal terminei, ouvi o riso desvairado de Cassandra; correu para mim, o cabelo flutuando livre, os braos estendidos. Uivando, gemendo, guinchando, caiu no cho e
agarrou-se aos meus joelhos.
- Pai, tira o cavalo da cidade! Leva-o para onde ele estava! Esta criatura  a morte de Tria!
Lacoonte estava presente, acenando gravemente o seu acordo.
- Rei Pramo, os augrios no so bons. Ofereci uma cora e trs pombas a Apolo, mas ele rejeitou-as a todas. Esta coisa atrai a runa  nossa cidade.
- Eu assisti  cerimnia. O que o meu pai diz  verdade - disse o mais velho dos dois filhos de Lacoonte, lvido e trmulo.
Temita logo avanou para me defender; eu j no suportava mais aquelas discusses e o medo comeava a conquistar as vozes  minha volta.
- Vem comigo, rei Pramo - suplicou Lacoonte. - Vem comigo ao altar e v com os teus prprios olhos! O cavalo est amaldioado! Destri-o, queima-o, livra-te dele!
Com os dois filhos  sua frente, Lacoonte correu para o altar de Zeus. As minhas velhas pernas no me permitiam correr tanto como ele. De sbito, ao chegar ao estrado
de mrmore, deu um grito horrendo. Tal como os seus filhos. Quando um dos guardas o alcanou, Lacoonte estava j cado, um corpo com foras apenas para gemer, as
mos procurando agarrar os filhos, que se contorciam em hor-

#rendas convulses. Ento, o guarda recuou num pice e virou para ns um rosto horrorizado.
- Rei Pramo, no te aproximes! - exclamou. -  um ninho de vboras! Eles foram mordidos!
Ergui as mos para o imenso firmamento que o Sol, ao despedir-se, tingia de carmim.
-  Pai dos Cus, tu enviaste-nos um sinal! Abateste Lacoonte diante dos nossos olhos porque ele se ops  oferenda da tua filha ao povo da minha cidade!
O cavalo  bom! O cavalo  sagrado! O cavalo manter os Gregos longe das nossas portas!
Tinham chegado ao fim aqueles dez anos de guerra contra um inimigo poderoso. Tnhamos sobrevivido e continuvamos a ser senhores do nosso prprio destino. O Helesponto
e o Euxino voltavam a ser nossos. A cidadela teria de novo pregos de ouro. E ns voltaramos a sorrir.
Conduzi os membros da corte ao meu palcio e ordenei que comeassem os festejos; aplacados os derradeiros receios, os nossos coraes abriram-se  euforia como se
fssemos escravos a quem o seu amo e senhor acabara de conceder a liberdade. Gargalhadas, canes, tambores, cmbalos, clarins, trombetas - o alegre tumulto do povo
chegava aos ouvidos da cidadela e a cidadela respondia ao povo com idntico tumulto. Tria estava livre! Dez anos, dez anos, dez anos! Tria vencera! Tria obrigara
Agammnon a desaparecer das suas praias - para sempre!
No entanto, para mim, o melhor de tudo foi ver a cara de Eneias! O dardaniano no fora ver o cavalo, no sara sequer do palcio enquanto ns andvamos naquela luta
insana. Contudo, ser-lhe-ia difcil evitar a festa... Um triste espectculo, o de Eneias: os dentes cerrados, o sobrolho muito franzido, uns olhos sem brilho...
Eu vencera, ele perdera. O sangue de Pramo permanecia vivo. Tria seria governada pelos meus descendentes e no por Eneias.

Captulo Trigsimo Terceiro
Narrado por Neoptolemo.

Fecharam-nos a porta do alapo bastante antes do alvorecer, e ns, que conhecamos a escurido de tantas e tantas noites, s ento descobrimos o que era realmente
a escurido. Eu abria muito os olhos, abria-os at no poder mais, procurando ver, procurando enxergar qualquer coisa, mas no havia nada para ver, nada para enxergar.
Nada. Estava completamente cego e o mundo era um negrume tangvel e insuportvel. Um dia e uma noite dentro disto..., disse eu para mim mesmo. Quer dizer, se a sorte
estivesse do nosso lado... Pelo menos um dia e uma noite, agachados no interior daquela priso, sem uma rstia de luz para nos guiar - no tnhamos o sol para nos
apercebermos da passagem do tempo, cada instante era uma eternidade, os ouvidos estavam to atentos, to concentrados, que a mera respirao dos homens soava como
uma trovoada distante.
O meu brao roou no de Ulisses; o meu corpo todo estremeceu, mais forte do que a mente que o governa. As minhas narinas contraam-se, e com razo, pois era muito
intenso o fedor a suor, a urina, a fezes, apesar dos baldes de couro cobertos que Ulisses distribura a cada trio de homens. Compreendia agora por que razo Ulisses
se mostrara to inflexvel quanto a esse pormenor que a muitos parecia irrelevante. Se no fossem os baldes, seria impossvel no ficarmos sujos de excrementos.
Cem homens de sbito atacados de cegueira - como era possvel que alguns homens conseguissem sobreviver a toda a uma vida de cegueira?
Nunca mais voltarei a ver, pensei eu a certa altura. Os meus olhos adaptar-se-o  luz? O choque que sofrero quando de novo virem a luz no os condenar a uma escurido
permanente? Sentia a minha pele retesada, sentia o terror devorando tudo  minha volta, consumindo o nimo de cem dos mais corajosos homens vivos, agora encarcerados,
agora vencidos por um pavor de morte. A minha lngua aferrava-se ao cu da boca; procurei o odre para beber um pouco de gua,

#no porque tivesse sede, mas apenas porque era preciso no estar parado, porque era preciso fazer qualquer coisa.
Claro que tnhamos ar: abenoado ar, engenhosamente filtrado atravs de um labirinto de minsculos orifcios que percorriam todo o corpo do cavalo. No entanto, Ulisses
avisara-nos de que no veramos a luz atravs desses orifcios enquanto fosse dia, porque o labirinto fora protegido por vrias camadas de panos. Por fim, fechei
os olhos. Doam-me tanto, por causa do muito esforo que fizera para tentar descortinar o que quer que fosse, que, ao fech-los, me senti profundamente aliviado.
Assim, descobri, era mais fcil suportar a escurido.
Ulisses e eu estvamos sentados costas contra costas, como todos os outros. Naquela priso, os nossos prprios corpos eram os nicos descansos para as costas uns
dos outros. Procurando descontrair-me, repousei contra as costas dele e tratei de me lembrar de todas as raparigas que havia conhecido. Fiz um catlogo meticuloso
- a mais bela e a mais feia - a mais alta e a mais baixa - a primeira e a ltima com quem tinha ido para a cama - uma que desatara num risinho nervoso por causa
da minha pouca experincia e outra que j quase nem tinha foras para revirar os olhos depois de uma noite nos meus braos. Concludo o captulo das raparigas, dei
incio a um outro, a saber, o de todos os animais que tinha caado, o de todas as caadas em que havia participado - lees, javalis, veados. Expedies martimas,
em busca de golfinhos e serpentes enormes e muitos outros monstros das profundezas aquticas, ainda que no tivssemos apanhado mais do que uns quantos atuns e percas-do-mar.
Revivi os meus dias de treino para a guerra com os jovens mirmides. As pequenas guerras que travei na companhia deles. Os momentos em que conheci grandes homens,
e quem eles eram. Contei os navios e os reis que haviam partido para Tria. Recapitulei os nomes de todas as cidades e aldeias da Tesslia. Cantei mentalmente as
baladas dos heris. E assim foi o tempo passando - a passo de caracol.
O silncio tornou-se mais intenso, mais profundo. Devo ter dormido, pois acordei com um estremeo, logo descobrindo que, nesse mesmo instante, Ulisses me tapara
a boca. Descansei a cabea no seu colo, os olhos quase saindo das rbitas, tal era o meu pnico, at que me lembrei da razo por que no conseguia ver nada. Eu tinha
acordado devido a um repentino movimento da imponente construo; ao recuperar a calma, dei-me conta de um novo moviinento - um suave solavanco. Soergui-me, procurei
as mos de Ulisses e apertei-as com toda a minha fora. Ele baixou a cabea, encostando o cabelo  minha face. Encontrei a orelha dele e segredei-lhe: - J comearam
a pux-lo? Senti o sorriso dele contra o meu rosto.
- Claro. Nunca duvidei que eles levassem o cavalo para Tria. Como eu previa, acreditaram piamente na histria de Sino - sussurrou ele.
A sbita actividade acabou com a sufocante inrcia do nosso crcere; por um longo tempo, sentimo-nos mais animados, mais alegres, enquanto o cavalo avanava ao sabor
de guinadas e solavancos; pusemo-nos a calcular a velocidade a que iramos, a estimar quanto tempo demoraramos a chegar s muralhas, a debater o que faria Pramo
quando confirmasse que o cavalo era demasiado grande. E, ao longo desse tempo, rejubilmos com o facto de podermos falar uns com os outros, numa voz baixa mas no
sumida, pois sabamos que os rudos produzidos pela nossa construo no deixariam que as nossas conversas chegassem aos ouvidos troianos. Ouvamos o cavalo a avanar,
mas no conseguamos ouvir nem os homens, nem os bois. Apenas as rodas rodando, atroando, guinchando.
No foi difcil apercebermo-nos do momento em que o nosso transporte chegou  Porta Ceia. O cavalo parou, todo o movimento cessou. No sei quanto tempo estivemos
ali parados - eu tive a sensao de que foram vrios dias, mas por certo estava errado. Em silncio, desatmos a rezar a todos os deuses que conhecamos, pedindo-lhes
que convencessem os Troianos a no desistirem; e que os convencessem a destruir o arco que encimava a porta, tal e qual como Ulisses previra. At que, por fim, o
cavalo voltou a mover-se. Um solavanco estridente que nos lanou por terra: com os rostos colados ao cho, deixmo-nos ficar quietos, parados, calados.
- Idiotas! - rosnou Ulisses. - Fizeram mal os clculos. Aps quatro solavancos idnticos, o cavalo avanou de novo, rodando normalmente. Quando viu o cho comeando
a inclinar-se, Ulisses no conseguiu impedir um risinho de puro gozo.
- Estamos a subir a colina que conduz  cidadela - disse-me ele. - Imagina s! Conduzem-nos ao palcio!
Ento, uma vez mais, um pesado silncio caiu sobre tudo. Depois de a construo ter parado com um portentoso gemido, vamo-nos de novo entregues aos nossos prprios
pensamentos. O gigantesco cavalo demorou algum tempo a firmar-se no seu novo terreno, como se fosse um animal monstruoso descansando na lama; perguntei-me em que
stio estaramos realmente. Pelos orifcios, chegava-nos um perfume de flores. Tentei avaliar quanto tempo demorara o cavalo a chegar ali, mas no consegui. Sem
vermos o Sol, ou a Lua, ou as estrelas, como poderamos estimar a passagem do tempo? Decidi encostar-me de novo s costas de Ulisses e envolver os joelhos com os
braos. Estvamos mesmo ao p da porta do alapo, ao passo que Diomedes ficara no extremo oposto, a fim de manter a ordem (tnhamos instrues para matar todo e
qualquer homem que cedesse ao pnico). Ainda bem que ficara com Ulisses. Ulisses era to firme como uma rocha; o facto de o ter a meu lado era o bastante para aplacar
todos os meus receios.

#Quando me pus a pensar no meu pai, o tempo voou. No queria pensar nele, pois temia a dor que o meu corao prenunciava; contudo, o anticlmax da nossa ltima espera
desprendeu-me inexoravelmente o pensamento. E no senti qualquer dor, pois, quando abri as janelas da minha mente para que ele entrasse, senti-o fisicamente comigo.
Eu era de novo um menino e ele um gigante erguendo-se muito acima da minha cabea, um deus e um heri aos olhos de uma criana. To belo... To estranho, com aquela
boca sem lbios... Tenho ainda nos meus lbios aquela cicatriz... Certo dia, tentara cortar os meus lbios, pois pensava que, assim, ficaria mais parecido com ele;
o av Peleu surpreendera-me em flagrante delito e, por castigo, aplicou-me uns valentes aoites. Tu no podes ser outra pessoa, disse-me ele. Tu s tu mesmo e mais
ningum. Com ou sem lbios. Ah, e o que eu rezei para que a guerra contra Tria durasse o suficiente, a fim de que eu pudesse juntar-me a ele! Quando fiz catorze
anos e me tornei um homem, supliquei aos meus avs, Peleu e Licomedes, que me deixassem partir para Tria. Ambos recusaram.
At quele dia em que o av Peleu entrou nos meus aposentos, com o rosto abatido de um homem moribundo, e me disse que podia partir. No me disse mais nada. Apenas
que podia partir. No me falou da mensagem que Ulisses lhe enviara - aquela que dizia que Aquiles tinha os das contados.
Enquanto viver, no esquecerei nunca a balada que o bardo cantou diante de Agammnon e dos outros reis. Sem que dessem por mim, entrei e fiquei  porta; bebi sequioso
todas as palavras do bardo, deleitando-me com os feitos de meu pai. At que o bardo falou da sua morte, da minha av e da escolha que ela lhe oferecera, uma escolha
que, para ele, no o era: viver uma longa e prspera vida na mais total obscuridade, ou morrer jovem e coberto de glria. O meu pai escolhera a morte. Mas a morte
era um fim que eu nunca conseguira associar ao meu pai. Para mim, Aquiles estava acima do mortal destino dos homens; nenhuma mo humana poderia abat-lo. No entanto,
Aquiles era um homem mortal; Aquiles morrera. Morrera antes que eu pudesse v-lo, antes que eu pudesse beijar a sua boca sem precisar que ele pegasse em mim, sem
precisar de me pr em bicos de ps enquanto ele se baixava. Diziam-me os soldados que, agora, eu tinha praticamente a mesma estatura que ele.
Ulisses adivinhara as minhas inquietaes e contara-me tudo o que sabia ou suspeitava. Contara-me o plano que havia urdido, no poupando ningum - e muito menos
ele mesmo; explicara-me as razes da desavena entre o meu pai e Agammnon e da retirada do exrcito da Tesslia. Perguntei-me se teria suportado aquilo que o meu
pai suportou: ver a sua reputao para sempre maculada. Talvez eu no tivesse tanta fora como ele, tanta determinao, em circunstncias to terrveis. Com o corao
dilacerado, jurei a Ulisses que no revelaria a ningum aquele segredo; uma qualquer voz dentro de mim dizia-me que o meu pai queria que as coisas ficassem como
estavam. Ulisses pensava que era como que uma expiao para um grande pecado que o meu pai pensava ter cometido.
Porm, nem mesmo naquela escurido eu conseguia chorar pelo meu pai. Os meus olhos estavam secos. Pris, o assassino de Aquiles, estava morto. Teria de matar Pramo.
Talvez ento conseguisse chorar.
Dormitei de novo. O som do alapo a abrir-se acordou-me. Ulisses movia-se como um relmpago, mas tinha de ser ainda mais rpido. Uma luz desmaiada, estonteante,
coava-se pelo buraco no cho do cavalo, fazendo brilhar alguns pares de pernas muito juntas. Ouviram-se sons de um tumulto sumido; ento, um dos pares de pernas
tombou. Senti um corpo caindo por terra; depois, um rudo surdo. Dentro do cavalo, houvera algum que no conseguira suportar aquela priso um momento mais que fosse;
quando Sino, que estava l fora, puxara a alavanca que abria o alapo, ningum dera ordens para avanarmos, mas um dos homens estava j pronto para sair.
Ulisses olhou para baixo e logo desenrolou a escada de corda. Avancei para ele. As nossas armaduras estavam guardadas na cabea do cavalo e tnhamos uma ordem de
sada rigorosa; enquanto fazamos fila para descer do cavalo, a primeira coisa em que as mos dos homens tocavam era a sua prpria armadura. - Eu sei quem caiu -
disse-me Ulisses. - Levarei por isso a minha armadura e esperarei at que chegue a sua vez; depois, levarei a dele. Caso contrrio, os homens que deveriam sair depois
dele no recebero a armadura certa.
Fui eu o primeiro a pisar terra firme. No to firme como isso, afinal: um tapete de flores outonais, cujo perfume deixaria qualquer um estonteado.
Depois de todos terem descido, Ulisses e Diomedes trataram de saudar Sino com abraos e beijos. O astuto Sino, que era primo de Ulisses. Como no o vira antes
de termos entrado para o cavalo, fiquei espantado com a sua presena ali. No admirava que os Troianos tivessem acreditado na histria que ele lhes impingira! Estava
imundo, cheio de sangue, tinha um ar miservel, enfermio. Nem o mais rebelde dos escravos seria tratado de uma forma to abominvel! Ulisses dir-me-ia mais tarde
que Sino, por sua livre vontade, passara fome durante duas luas, a fim de ficar com um ar verdadeiramente doente.
Sino tinha um sorriso de orelha a orelha; abeirei-me deles quando ele comeou a falar.
- Pramo acreditou em tudo, primo! E os deuses estavam do nosso lado - Zeus mandou um agouro terrvel! Lacoonte e os seus dois filhos morreram ao pisarem um ninho
de vboras! No poderia ter corrido melhor.
Deixaram a Porta Ceia aberta? - perguntou Ulisses.

#- Claro. Toda a cidade est a dormir, ou melhor, a curar a bebedeira - o que eles celebraram! Logo que as festividades no palcio comearam, nunca mais se lembraram
da pobre vtima do acampamento grego. Por isso, no tive qualquer dificuldade em chegar ao promontrio de Sigeu, onde acendi uma fogueira para avisar Agammnon.
 minha fogueira, respondeu imediatamente a do rei supremo, nas encostas de Tnedo - neste momento, Agammnon deve estar a chegar  praia de Sigeu.
Ulisses abraou-o de novo.
- Fizeste um trabalho magnfico, Sino. Sers recompensado!
- Eu sei. - Fez uma pausa, ps um ar inchado de satisfao. - Sabes, primo, creio que teria feito o que fiz mesmo que no houvesse recompensa nenhuma.
Ulisses mandou cinquenta homens para a Porta Ceia: era preciso impedir os Troianos de fecharem a porta antes que Agammnon entrasse; os restantes homens ficaram
onde estavam, armados e prontos para a aco, vendo os tons rosa e dourado do alvorecer erguendo-se lentamente por sobre a alta muralha que rodeava o ptio principal,
aspirando profundamente o ar da manh, saboreando o perfume das flores sob os nossos ps.
- Quem caiu do cavalo? - perguntei a Ulisses.
- Equon, o filho de Porteu - informou-me ele, sem mais, claramente concentrado noutro problema. No parava quieto, pigarreava ansioso. Ulisses, ansioso? Nem parecia
dele! - Agammnon, Agammnon, onde ests? - perguntou ele em voz alta. - J devias c estar!
Nesse exacto momento, o som de uma nica trombeta espalhou-se pela quietude do alvorecer. Agammnon chegara  Porta Ceia. Podamos finalmente avanar.
Dividimo-nos. Ulisses, Diomedes, Menelau, Automedonte e eu, comandando mais uns quantos, avanmos to suavemente quanto nos era possvel na direco da colunata;
depois, virmos para um alto e amplo corredor que conduzia  rea do complexo de palcios que pertencia a Pramo. A, Ulisses, Menelau e Diomedes deixaram-me, seguindo
por uma passagem que levava aos aposentos que albergavam Helena e Defobo.
Um grito imenso, solitrio, desvairado, rasgou o profundo silncio em que a cidade se encontrava mergulhada e abateu-se sobre a cabea de Tria como uma guia caindo
sobre a sua presa. De sbito, os corredores do palcio encheram-se de gente, homens ainda nus, acabados de sair das camas, empunhando incertas espadas, aturdidos
devido ao muito vinho que tinham bebido. O que nos permitia levar a cabo a nossa misso com uma calma extrema; era fcil aparar aquelas investidas tontas e abat-los
logo de seguida. Mulheres uivavam e guinchavam, o mrmore debaixo dos nossos ps depressa ficou escorregadio por causa do muito sangue - no, os Troianos no tinham
escapatria possvel. Poucos eram aqueles que se davam conta do que estava a acontecer. Alguns, no entanto, estavam despertos o suficiente para me confundirem com
o meu pai, tanto mais que eu envergara a armadura dele; desatavam a fugir, gritando a plenos pulmes que Aquiles voltara do mundo dos mortos e comandava aquele exrcito
de sombras.
A nsia de matar era o que me movia: no poupava ningum. Com o aparecimento dos guardas, a resistncia comeou a ganhar alguma firmeza; finalmente, tnhamos de
enfrentar alguns bons combatentes, ainda que o estilo do combate no fosse o de um campo de batalha. As mulheres contribuiam para o pnico e a confuso, dificultando
as manobras dos homens da cidadela. Na minha esteira, vinham alguns dos homens que haviam entrado em Tria graas ao cavalo; ansiando pelo fim de Pramo, deixei-os
chacinar a seu bel-prazer. S Pramo me interessava: s Pramo poderia pagar a morte de Aquiles.
Mas eles adoravam aquele rei velho e tonto. Aqueles que haviam acordado com as ideias mais ou menos assentes, tinham envergado uma armadura e corrido por atalhos
atravs daquele labirinto, decididos a proteg-lo. Uma muralha de homens armados barrava j o meu caminho, as lanas apontadas, as suas expresses dizendo-me que
estavam dispostos a morrer ao servio de Pramo. Automedonte e alguns outros juntaram-se a mim; permaneci quieto por um momento, estudando a situao. Com as pontas
das lanas apontadas ao meu peito, esperavam que eu me movesse. Afastei um nada o meu escudo e olhei por cima do ombro.
- Vamo-nos a eles! Saltei em frente to rapidamente que o homem que estava diante de mim, instintivamente, se afastou para o lado, desse modo perturbando todos os
outros.
Usando o escudo como uma muralha, choquei estrondosamente contra eles. Os soldados de Pramo no poderiam resistir a to tremendo peso; ao cair em cima deles, a
linha desfez-se, as lanas caram ao cho, inteis. Ergui-me, fazendo rodopiar o machado; um homem perdeu um brao, outro metade do peito, um terceiro o cocuruto
da cabea. Aquilo era como abater rvores novas. Em combates corpo a corpo, a minha estatura e o poder do meu brao deixavam-me sem rival.
O meu machado no parava de ceifar inimigos.
Coberto de sangue da cabea aos ps, passei por cima dos cadveres e dei comigo numa colunata que rodeava um pequeno ptio. No centro desse ptio, havia um altar
erguido sobre um estrado com degraus; um frondoso loureiro protegia do sol a mesa do altar.
Pramo, o rei de Tria, estava encolhido no degrau superior, a barba e o cabelo brancos brilhando como prata sob a luz que se coava atravs dos ramos do loureiro,
o corpo esqueltico envolto na tnica de linho com que se deitara.
Pega numa espada e morre, Pramo! - gritei-lhe, baixando o machado.

#Pramo no olhava para mim; aqueles olhos remelosos, molhados de lgrimas, como que fitavam o vazio; no me via, no me ouvia, estava longe, muito longe de mim.
O ar estava saturado de rudos de morte e sangue e o fumo espalhava-se j como uma bruma, baixando as lonjuras do cu.  sua volta, Tria morria - e Pramo encolhia-se
nos degraus do altar de Apolo, a um passo da loucura. Creio que no chegou nunca a compreender que tnhamos entrado em Tria graas ao cavalo - o deus poupou-o a
isso. Tudo o que Pramo entendia era que j no havia razo nenhuma para que continuasse a viver.
Uma mulher muito velha estava agachada a seu lado, febrilmente agarrada ao brao dele, a boca aberta numa constante sucesso de uivos. Digo bem: uivos. Os gritos
dela assemelhavam-se mais aos uivos dos lobos do que a qualquer humano grito. Uma jovem com uma longussima cabeleira negra estava de costas para mim, junto  mesa
do altar, as mos sobre a laje, a cabea inclinada para trs em orao.
Mais homens surgiram para defender Pramo; enfrentei com desdm aquela investida. Alguns exibiam as insgnias dos filhos de Pramo - um facto que me acicatou ainda
mais. Matei-os a todos at que s um restava, no mais do que um rapazito - seria lio? Que me importava quem ele era? Quando tentou atacar-me com a sua espada,
arranquei-lha facilmente; depois, peguei nele pelas longas tranas com a mo esquerda, abandonando o escudo. O rapaz debateu-se, fartou-se de esmurrar as minhas
grevas, mas eu arrastei-o at aos degraus do altar. Pramo e Hcuba agarraram-se ainda mais um ao outro; a jovem no se virou para ver.
- Aqui est o teu ltimo filho, Pramo! Vais assistir  sua morte! Finquei o calcanhar no peito do jovem, com tanta fora que o pobre se viu obrigado a erguer os
ombros do cho, para logo morrer com a cabea esmagada pela p do machado. De sbito, pela primeira vez, Pramo pareceu dar-se conta de que eu estava ali. Levantou-se
de um salto. Com os olhos fixos no cadver do seu ltimo filho, procurou uma lana que estava encostada a um dos lados do altar. Hcuba tentou det-lo, uivando como
uma loba.
Mas o pobre velho mal conseguia andar. Tropeou e caiu aos meus ps com a cara enterrada nos braos, oferecendo o pescoo  lmina do machado. A velha agarrara-se
s coxas dele; a jovem virara-se finalmente, mas no era para mim que olhava, era para o rei, uma profunda compaixo estampada no rosto. Ergui o machado. Avaliei
bem o golpe: era fundamental que no houvesse o mnimo erro. A lmina dupla abateu-se to leve como uma fita tremulando ao sabor do vento e eu senti dentro de mim,
naquele instante sublime, o sacerdote que vive nos coraes de todos os homens nascidos para reinarem. O machado do meu pai cumpriu a sua parte brilhantemente. O
pescoo de Pramo rasgou-se sob a cabeleira cor de prata, a lmina cravou-se na pedra do cho, a cabea saltou bem alto. Tria estava morta. O seu rei morrera como
os reis costumavam morrer nos tempos da Velha Religio: decapitados pelo sagrado machado. Quando me virei para ver o que se passava  minha volta, s encontrei gregos.
- Procura um quarto que possas trancar bem trancado - disse eu a Automedonte. - Depois, volta aqui e leva as duas mulheres para esse quarto.
Subi os degraus do altar.
- O teu rei est morto - disse eu para a jovem - uma mulher extremamente bela. - s minha cativa. Quem s tu?
- Andrmaca da Cilcia, a viva de Heitor - disse ela, num tom de voz firme.
- Nesse caso, cuida da tua sogra enquanto puderes. Em breve sero separadas.
- Deixa-me ir ter com o meu filho - disse ela, sem qualquer agitao, perfeitamente controlada.
Abanei a cabea.
- No, Andrmaca, isso no  possvel.
- Por favor! - exclamou, com uma expresso to firme e controlada como antes.
Os ltimos resqucios de fria evaporaram-se; senti por ela uma imensa compaixo. Agammnon nunca permitiria que o rapaz vivesse. As suas ordens eram claras: toda
a Casa de Pramo teria de perecer. Antes que eu me visse obrigado a responder-lhe que no uma segunda vez, Automedonte regressou ao ptio de Apolo. As duas mulheres,
a mais velha uivando ainda e sempre, a outra implorando serenamente que a deixassem ver o filho, foram levadas dali para fora.
Depois disso, abandonei o ptio e tratei de explorar o labirinto de corredores, abrindo cada uma das muitas portas e espreitando para ver se haveria mais troianos
que as minhas armas pudessem abater. Mas no encontrei ningum. At que cheguei a um outro ptio e abri mais uma porta.
Deitado numa cama, dormindo profundamente, estava um homem dotado de uma constituio fsica poderosa. Um homem bem-parecido, moreno o suficiente para passar por
um filho de Pramo; no entanto, tirando a cor da pele, no havia nele mais nada que fizesse pensar na prole da Casa Real de Tria. Entrei no quarto sem produzir
um nico rudo e coloquei-me  beira dele, com o machado roando-lhe o pescoo. Nem assim acordou. Ento, abanei-o violentamente pelo ombro esquerdo. Os efeitos
da bebedeira da noite anterior ainda se faziam sentir - e de que maneira! O homem resmungou qualquer coisa, as suas plpebras tremeram um nada. Continuaria a dormir
se, de repente, os seus olhos no tivessem entrevisto uma inesperada criatura envergando a armadura de Aquiles. Despertou num pice e s a lmina do machado o impediu
de correr para a sua espada. Lanou-me um olhar feroz.

#- Quem s tu? - perguntei, com um sorriso.
- Eneias da Dardnia.
- Sim senhor! Eneias da Dardnia! s meu prisioneiro, Eneias. Eu sou Neoptolemo.
Um claro de esperana iluminou-lhe os olhos.
- O qu? Quer dizer que no me vo matar?
- Porque haveria eu de querer matar-te? s meu prisioneiro - e eu no mato os meus prisioneiros. Se os Dardanianos nutrirem ainda alguma estima por t e estiverem,
por isso, dispostos a pagar o exorbitante resgate que tenciono exigir, poders ser de novo um homem livre. Ser um prmio para quem, por vezes, se mostrou... enfim...
to simptico para com o inimigo no campo de batalha.
Uma exploso de alegria inundou-lhe o rosto.
- Nesse caso... nesse caso serei rei de Tria! Desatei a rir.
- Quando o teu resgate for pago, Tria j no existir... Vamos arrasar a cidade e vender os seus habitantes como escravos. Na plancie de Tria, haver apenas sombras...
Creio que, no teu caso, a deciso mais sensata seria emigrar. Desviei o machado. - Levanta-te. Virs comigo, nu e acorrentado.
Eneias protestou, mas fez exactamente o que lhe mandei. Portou-se como um cordeirinho.
Um soldado mirmido trouxe-me o meu carro por entre a fumarada imensa que se espalhava pelas ruas e as chamas que consumiam as casas. Libertei as duas mulheres da
sua priso e amarrei-lhes os braos com cordas. Por sua prpria iniciativa, Eneias estendeu as mos para que o prendesse. Com os meus trs cativos convenientemente
amarrados, ordenei a Automedonte que conduzisse o meu carro para fora da cidadela, na direco da Praa Ceia. O saque da cidade consumava-se agora - no era um trabalho
digno para o filho de Aquiles. Algum enganchara o cadver decapitado de Pramo  traseira do carro, tal como sucedera com o cadver de Heitor; aquele resto, no
mais do que um boneco ensanguentado, deslizava pelas pedras, por entre os ps dos meus trs cativos vivos. A cabea de Pramo estava espetada na Velha Plion, a
cabeleira e a barba prateadas empapadas em sangue, os olhos escuros esbugalhados, petrificados na dor e na runa, mirando cegos as casas que as chamas devoravam
e os corpos mutilados que juncavam as ruas. Crianas pequenas choravam em vo pelas suas mes, mulheres corriam como loucas  procura dos seus bebs ou fugiam de
soldados que s ficariam satisfeitos depois de as violarem e matarem.
Impossvel suster a fria irracional do exrcito. Naquele dia de triunfo, os homens vingavam-se de todo o sofrimento por que haviam passado ao longo de dez anos
de exlio, dez longos anos de saudades da ptria e dos seus, de muitos camaradas mortos e de muitas esposas infiis, de dio por todas as pessoas e coisas troianas;
como animais selvagens, lanavam-se sobre as suas presas no meio daquelas ruas que o fumo amortalhava. De Agammnon, nem sinal.  possvel que alguma da minha pressa
em deixar a cidade resultasse da relutncia que sentia em encontrar-me com ele naquele dia de total devastao.  que aquela vitria era dele - no minha.
No muito longe da cidadela, Ulisses emergiu de uma rua secundria, saudando-me calorosamente.
- J de partida, Neoptolemo? Aquiesci sem a menor alegria.
- Sim, e to depressa quanto puder. Agora que a minha fria se esbateu, creio que o meu estmago no aguenta tanto sangue e devastao.
Apontou para a cabea.
- Estou a ver que encontraste Pramo.
- Sim.
- E os outros, quem so? - Inspeccionou os meus prisioneiros, presenteando Eneias com uma vnia muito exagerada. - No estava nada  espera de encontr-lo vivo!
Estava certo e seguro de que ias ter muitos problemas com o prncipe Eneias.
No resisti a mirar com escrnio o dardaniano.
- Dormia que nem um beb, enquanto Tria caa! Encontrei-o a ressonar na cama, to nu como veio ao mundo!
Ulisses desatou a rir-se; Eneias ergueu-se furioso, os msculos dos braos retesando-se num combate insano contra as cordas que os prendiam. De sbito, dei-me conta
de que dera a Eneias o mais mortificante dos destinos. O antigo pretendente ao trono de Tria era demasiado orgulhoso para suportar o escrnio. No instante em que
o acordara, no conseguira pensar noutra coisa seno no trono de Tria. Agora, comeava a entender o que significaria o seu cativeiro - os insultos, a chacota, a
hilaridade, a histria, vezes sem conta contada, de como fora encontrado a dormir, e ainda bbedo que nem um cacho, enquanto todos os outros combatiam.
Desamarrei as cordas que prendiam a velha Hcuba e obriguei-a a avanar. A loba continuava a uivar. Depois, estendi a Ulisses a ponta da corda.
- Uma prenda especial para ti, Ulisses. Leva-a contigo e oferece-a a Penlope: dar uma boa criada. Alm disso, uma cativa que foi rainha contribuir, e no pouco,
para o prestgio da tua rochosa ilha.
Ulisses pestanejou, sinceramente surpreendido.
Para qu, Neoptolemo? Deixa l, no  preciso...

#- Eu quero que ela seja tua cativa, Ulisses. Se eu tentasse lev-la comigo, Agammnon opor-se-ia e acabaria por ficar com ela. Mas a ti, no ousar ele disputar
Hcuba... No faz sentido que seja s a casa de Atreu a exbir rgios cativos.
- E a jovem? Sabes quem ela , no sabes?
- Sei. Mas Andrmaca no me escapar. - Curvei-me para lhe segredar ao ouvido: - Ela queria ir ter com o filho, mas isso era impossvel... Que aconteceu ao filho
de Heitor?
Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Fitou-me com uma expresso soturna.
- Astianacte est morto. No podamos permitir-lhe que vivesse. Fui eu prprio que o encontrei. Atirei-o da torre da cidadela. Filhos, netos, bisnetos - todos tinham
de morrer.
Mudei de assunto.
- Encontraram Helena? A soturnidade logo se esbateu com uma imensa gargalhada.
- Claro que encontrmos!
- Como morreu ela?
- Helena, morta? Helena? Ela nasceu para chegar a velha e bem velha e para morrer serenamente na cama, rodeada por filhos, netos e criados lavados em lgrimas! Consegues
imaginar Menelau cravando o seu punhal no corao de Helena? Ou permitindo a Agammnon que ordene a execuo de Helena? Por todos os deuses, Menelau tem mais amor
quela criatura do que todo o amor que poderia ter por si mesmo!
As gargalhadas esbateram-se, mas, de quando em quando, ainda vinha um risinho.
- Encontrmo-la nos seus aposentos, rodeada por uns quantos guardas. Defobo estava pronto para matar o primeiro grego que visse. Mas Menelau mais parecia um touro
enraivecido! Enfrentou sozinho os troianos e saiu-se muito bem! Eu e Diomedes no passmos de meros espectadores... Quando acabou com os guardas, desafiou Defobo
para um duelo. Helena estava a um canto, com a cabea para trs, os seios muito espetados, os olhos to brilhantes como sis verdes. To bela como Afrodite! Nunca
haver no mundo uma mulher capaz de lhe fazer sombra, Neoptolemo! Menelau estava pronto para o duelo, mas a verdade  que no houve duelo nenhum... Helena foi mais
rpida do que ele: pegou num punhal e cravou-o nas costas de Defobo, entre as omoplatas. Depois, caiu de joelhos. Com o peito bem espetado.
- Mata-me, Menelau! Mata-me! - exclamou. Eu no mereo viver! Mata-me j! 
- Claro que ele no a matou. Aqueles seios foram mais fortes do que toda a sua raiva. Abandonaram juntos o quarto, sem sequer olharem para ns!
Acabei tambm por me rir.
- Que estranha ironia! Pensar que vocs combateram um grupo de naes durante dez anos, decididos a que Helena morresse, para agora a verem partir para Amiclas,
to livre como antes - e de novo rainha ... !
- Bom, a morte no costuma vir quando a esperamos, pois no? - disse Ulisses. Os ombros dele vacilaram e, pela primeira vez, dei-me conta de que Ulisses era um homem
com quase quarenta anos, de que ele sentia amargamente a sua idade e o seu exlio, de que, apesar de todo o seu apetite pela intriga, tudo o que ele queria era voltar
para casa. Saudou-me e logo se afastou, levando atrs de si aquela loba velha que continuava a uivar. Acenei para Automedonte e seguimos na direco da Porta Ceia.
Os cavalos avanaram lentamente pela estrada que conduzia  praia. Eneias e Andrmaca vinham a p, atrs de ns, o cadver de Pramo entre os dois, saltando ao sabor
dos acidentes da estrada. No interior do acampamento, contornei a base dos Mirmides, rumo ao Escamandro, que passmos a p. Por fim, tomei o caminho que levava
aos tmulos.
Quando os cavalos no puderam avanar mais, desprendi o cadver de Pramo da barra a que viera amarrado, peguei nele pela tnica que o cobria e assim o arrastei
at ao tmulo do meu pai. Deixei aquela massa mole e sem vida na pose de um suplicante, ajoelhada, e enterrei a base da Velha Plion no cho, empilhando depois pedras
 sua volta, como se fosse um pequeno monumento funerrio. Concludo esse trabalho, virei-me para ver Tria l em baixo, na plancie, as casas jorrando chamas para
o cu sombrio, a porta escancarada como a boca de um cadver depois de a sua sombra se ter refugiado nas obscuras vastides subterrneas. E ento, por fim, chorei
por Aquiles.
Tentei imagin-lo quando estivera em Tria, mas correra j demasiado sangue; uma bruma de morte pairava sobre a terra. No fim de tudo, s um Aquiles consegui evocar:
aquele que eu vira muitos anos antes, a pele brilhante depois do banho, os olhos amarelos cintilando de prazer porque era para mim, o seu filho ainda pequeno, que
ele estava a olhar.
Sem me preocupar que vissem as minhas lgrimas, regressei ao carro e subi para junto de Automedonte.
- Para os navios, amigo do meu pai! Voltamos para casa! - disse-lhe eu.
- Para casa! - ecoou o fiel Automedonte, que partira de ulida com Aquiles. Para casa!
Na plancie, as chamas devoravam Tria, mas os nossos olhos no viam outra coisa seno o sol que reverberava no mar to escuro como vinho e que nos dizia que aquele
era o caminho para casa.

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EPLOGO

O destino de alguns sobreviventes.

AGAMMNON regressou so e salvo a Micenas, sem saber que a sua esposa, Clitemenestra, usurpara o trono e casara com Egisto. Depois de uma agradvel recepo, Clitemenestra
convenceu-o a tomar banho. Enquanto ele chapinhava feliz na gua quente do banho, a rainha pegou no machado sagrado e matou-o.
Depois, matou a concubina de Agammnon, Cassandra, a profetisa. Temendo que Egisto matasse Orestes, Electra, a filha mais velha de Agammnon e Clitemenestra, levou
para bem longe o irmo. Orestes viria a vingar o pai, matando a me e o amante desta. Porm, fizesse o que fizesse, Orestes no tinha sada: os deuses exigiram-lhe
que vingasse a morte do pai, mas condenaram-no por matricdio. O irmo de Electra acabou por enlouquecer.

Segundo a tradio latina, ENEIAS fugiu ao incndio de Tria com o pai, o velho Anquises, empoleirado nos seus ombros, e com o Paldio debaixo do brao. Fez-se depois
ao mar, tendo acabado por aportar a Cartago, no norte de frica, onde a rainha, Dido, se apaixonou perdidamente por ele. Quando Eneias abandonou Cartago, Dido suicidou-se.
O destino final de Eneias teria sido, ainda segundo a mesma tradio, a plancie do Lcio, na Itlia Central, onde se instalou aps ter travado uma guerra. llo,
filho de Eneias e da princesa Lavnia do Lcio, tornou-se rei de Alba Longa e dele descenderia Jlio Csar. Contudo, a tradio grega nega tudo isto. Diz que Eneias
foi levado como cativo pelo filho de Aquiles, Neoptolemo, o qual, posteriormente, negociou com os Dardanianos o seu resgate; segundo a tradio grega, Eneias ter-se-ia
instalado mais tarde na Trcia.

ANDRMACA, a viva de Heitor, foi feita prisioneira por Neoptolemo, que fez dela ou sua esposa, ou sua concubina. Andrmaca deu-lhe pelo menos dois filhos.

#ANTENOR, juntamente com a esposa, a sacerdotisa Teano, e os filhos, pde abandonar livremente Tria, aps a queda da cidade. A famlia viria a instalar-se na Trcia
- ou, segundo alguns, na Cirenaica, no norte de frica.

ASCNIO, o filho de Eneias e da princesa troiana Cresa, permaneceu na sia Menor depois de o seu pai ter partido com Neoptolemo. O trono de Tria viria a ser seu,
mas Tria havia j perdido todo o seu antigo esplendor e poder.

O navio de DIOMEDES foi afastado da sua rota por uma tempestade e acabou por naufragar na costa da Lcia, na sia Menor. Diomedes, no entanto, sobreviveu. Acabou
por chegar a Argos, onde descobriu que a mulher cometera adultrio e lhe usurpara o trono. Foi derrotado e banido para Corinto, tendo travado depois uma guerra na
Etlia. Aparentemente, Diomedes nunca mais teve um reino. O seu ltimo paradeiro conhecido foi a cidade de Luceria, na Aplia, Itlia.

HCUBA acompanhou Ulisses ao Quersoneso da Trcia. Os seus uivos perptuos deixaram to aterrado o rei de taca que este acabou por abandon-la na praia. Apiedando-se
dela, os deuses transformaram-na numa cadela preta.

HELENA participou em todas as aventuras de Menelau.

IDOMENEU teve o mesmo problema que Agammnon e Diomedes. A rainha usurpou o trono de Creta e partilhou-o com o amante, que expulsou Idomeneu. O antigo rei de Creta
viria a instalar-se na Calbria, Itlia.

CASSANDRA, a profetisa, rejeitara na sua juventude as propostas amorosas de Apolo. O deus vingou-se, amaldioando-a: Cassandra profetizaria sempre a verdade, mas
ningum acreditaria nela. Foi de incio cativa do Pequeno jax; contudo, foi-lhe tirada depois de Ulisses ter jurado que a violara no altar de Atena. Agammnon tambm
a queria e levou a melhor sobre os outros. Cassandra seguiu para Micenas no navio do rei supremo. A profetisa troiana avisou-o de que a morte os aguardava em Micenas,
mas Agammnon no acreditou em tais palavras. A maldio de Apolo manteve-se at ao fim: Cassandra foi assassinada por Clitemenestra.

O navio do PEQUENO JAX naufragou durante a viagem de regresso  Grcia. O prncipe morreu afogado.

O navio de MENELAU foi desviado da sua rota pelos ventos e acabou por aportar ao Egipto, onde (com Helena) visitou muitas terras, permanecendo nessa regio durante
oito anos. Regressou  Lacedemnia no mesmo dia em que Orestes matou a me. Menelau e Helena reinaram na Lacedemnia e lanaram as bases do futuro estado de Esparta.

MENESTEU no voltou a Atenas. No regresso a casa, aceitou a ilha de Melo como o seu novo reino.

NEOPTOLEMO sucedeu no trono a Peleu, mas, aps um conflito com os filhos de Ascasto, abandonou a Tesslia e foi viver para Dodona, no Epiro. Viria a ser morto quando
saqueava o santurio da pitonisa de Delfos.

NESTOR regressou a Pilos rapidamente e em segurana. Passou o resto da sua longussima vida no trono de Pilos, na mais absoluta paz e prosperidade.

Como o seu orculo domstico previra, ULISSES esteve vinte anos sem ver taca. Depois de ter deixado Tria, deambulou pelo Mediterrneo e teve um sem-nmero de aventuras
com sereias, feiticeiras e monstros. Quando finalmente chegou a taca, encontrou o palcio cheio de pretendentes  mo de Penlope, desejosos de lhe usurparem o
trono atravs do casamento com a rainha. No entanto, Penlope conseguira protelar um compromisso, insistindo que s voltaria a casar-se quando acabasse de tecer
a sua prpria mortalha. Todas as noites, Penlope desmanchava o trabalho que tinha feito no dia anterior. Ajudado pelo filho, Telmaco, Ulisses matou todos os pretendentes.
O rei e a rainha de taca viveram felizes at ao fim dos seus dias.

FILOCTETES foi expulso do seu reino de Hestaitis, tendo decidido emigrar para a cidade de Crotona  (Lucnia, Itlia). Levou consigo o arco e as flechas que tinham
pertencido a Hracles.

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POSFCIO
So muitas as fontes da histria de Tria. A Ilada de Homero  apenas uma delas; abarca apenas cinquenta e alguns dias de uma guerra que (todas as fontes concordam
quanto a este ponto) durou dez anos. O outro poema pico atribudo a Homero, a Odisseia, contm tambm muitas informaes acerca da guerra e daqueles que a travaram.
As outras fontes so frequentemente fragmentrias e incluem, entre outros, Eurpedes, Pndaro, Higino, Hesodo, Virgilio, Apolodoro de Atenas, Tzetzes, Diodoro Sculo,
Dionsio de Halicarnasso, Sfocles, Herdoto.
Cr-se que o saque verdadeiramente importante de Tria (com efeito, houve vrios) ocorreu por volta do ano 1184 a. C., uma poca de grandes convulses no extremo
oriental do Mediterrneo, em consequncia de catstrofes naturais, designadamente terramotos, e da migrao de novos povos, tanto para essa zona como de partes dessa
zona para outras partes. Das regies a sul do Danbio, vrios povos deslocavam-se para a Macednia e para a Trcia, ao passo que alguns povos gregos colonizavam
j as costas do mar Egeu e do mar Negro da actual Turquia. Estes movimentos convulsivos sucederam-se a migraes mais antigas e precederam outras migraes; viriam,
alis, a persistir at pocas relativamente recentes. Foram eles que deram origem a muitas das mais ricas tradies da histria da Europa, da sia Menor e da bacia
do Mediterrneo.
Os dados arqueolgicos surgiram com as descobertas de Heinrich Schliemann em Hissarlik, na Turquia, e de Sir Arthur Evans, em Cnossos, na ilha de Creta. Parecem
restar poucas dvidas de que foi travada uma guerra entre os Gregos Aqueus e os habitantes de Tria (tambm chamada Ilio).  praticamente seguro que o objectivo
dessa guerra era o controlo dos Dardanelos, esse estreito vital entre o mar Negro (Euxino) e o Mediterrneo (Egeu), j que o controlo dos Dardanelos (o Helesponto)
implicava um monoplio do comrcio entre os dois

#mares. Era difcil obter certos produtos importantes, nomeadamente o estanho, sem o qual o cobre no poderia ser transformado em bronze.
O comrcio, a economia e a necessidade de sobrevivncia foram muito provavelmente as razes desta guerra, mas isso no implica que prescindamos de todos aqueles
ornamentos que relevam da lenda, como  o caso da histria de Helena ou do Cavalo de Madeira.
Algumas das personagens deste romance so mais conhecidas pelas verses latinas dos seus nomes:  o caso de Hrcules (Hracles), Vnus (Afrodite), Jpiter (Zeus),
Vulcano (Hefasto) ou Marte (Ares).
Apesar da existncia de tbuas de argila (Linear A, Linear B, etc.) descobertas em Pilos e noutros locais de Micenas, os povos do Egeu do final da Idade do Bronze
no eram letrados (no sentido que hoje damos a esta palavra). Entre estes povos, a capacidade de escrita, e no as listas de mantimentos, como Ulisses as denomina
desdenhosamente (as tbuas acima referidas - que eram uma forma de Grego), s viria a surgir pouco antes do sculo VII a. C.
As moedas pertencem tambm ao sculo VII a. C. Portanto, no tempo da guerra de Tria, o dinheiro enquanto tal no existia, ainda que o ouro, a prata e o bronze fossem
usados como instrumentos de permuta.
No que toca a unidades de sistemas de medio, escolhi termos como talento, lgua, passo, cbito ou dedo. Em pocas muito posteriores, a lgua viria a
equivaler a trs milhas; contudo, no mbito deste livro, a lgua poder ser considerada como equivalendo apenas a uma milha, ou seja, 1,6 quilmetros.
O passo era um duplo passo, medindo cerca de cinco ps britnicos, ou seja,
1,6 metros. Quanto ao cbito, discute-se se seria a distncia desde o cotovelo ao pulso, ou desde o cotovelo aos ossos do punho fechado, ou desde o cotovelo s pontas
dos dedos. No contexto deste livro, dever-se- considerar que um cbito equivalia a quinze polegadas (375 milmetros). Comprimentos menores eram medidos com o dedo
mdio (um pouco menos de uma polegada, cerca de 20 mm). Um talento era a carga que um homem podia transportar s costas: cerca de cinquenta e seis libras modernas
(ou 25 quilos). O gro era uma medida de capacidade: considere-se que o recipiente usado para retirar de uma nfora uma determinada quantidade de gros (ou de gua)
continha cerca de quatro pints americanos, ou seja, um litro. Os anos, provavelmente, eram determinados de acordo com os ciclos das estaes, ao passo que o ms
era medido de acordo com a Lua - corresponderia talvez ao perodo entre duas luas novas. Horas, minutos e segundos eram desconhecidos.

FIM
